“As crianças não nos dizem que estão ansiosas, elas mostram-nos isso”

Maio 30, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: ,

Texto da TSF de 21 de abril de 2019.

Rita Costa

A ansiedade é um problema cada vez mais comum nas crianças. O que é que os pais podem fazer para diminuir os níveis de ansiedade do filhos? A psicóloga clínica Catarina Lucas responde.

Antes de qualquer intervenção é preciso conhecer os sinais. “As crianças não nos dizem que estão ansiosas, elas mostram-nos isso através do comportamento”, afirma a psicóloga Catarina Lucas.

“Algumas verbalizações, como o ‘estou com medo’, ou ‘não sei se vou conseguir’ traduzem de fato alguma ansiedade”, adianta a psicóloga clínica que explica é sobretudo através da parte comportamental que a ansiedade se manifesta na infância, “as birras, o não conseguir dormir, o fazer chichi na cama, as dores de barriga, as dores de cabeça”.

A fase do crescimento é propícia a medos, as crianças estão constantemente a ser confrontadas com coisas novas e isso pode gerar ansiedade, mas a vida acelerada e o stress dos pais são “fatores de risco”. Catarina Lucas acredita que pais ansiosos geram filhos ansiosos.

Calcula-se que 2 a 5% das crianças sofra de algum tipo de ansiedade patológica e, nesses casos, é necessária uma intervenção profissional. “Nós aqui recomendaríamos, numa fase inicial, uma terapia cognitivo comportamental e, em casos mais graves, poderá haver necessidade de recurso a medicação, mas isto quando outras coisas já falharam.”

“Mas na ansiedade do dia-a-dia há muitas coisas que os pais podem fazer”, assegura Catarina Lucas. Securitizar a criança, ajudar a criança a pensar as coisas, conversar com ela e confrontá-la com o seu próprio medo, ajudar a criança a relaxar, são algumas das estratégias apontadas pela psicóloga clínica que sublinha que no caso de pais ansiosos o trabalho deve começar a montante.

“Os filhos são sintoma dos pais e às vezes, nós técnicos, percebemos que devíamos estar a trabalhar com os pais e não com as crianças, mas os pais nem sempre estão disponíveis para isso.”

Alexandre teve um ataque de pânico aos 8 anos. Duarte tinha apenas 6

Abril 19, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , ,

Texto do MAGG de 8 de abril de 2019.

por Marta Gonçalves Miranda

Há cada vez mais crianças a procurar ajuda e os especialistas estão alerta. Contamos-lhe histórias impressionantes de um drama real.

Em setembro do ano passado, Alexandre estava num treino de hóquei quando começou a sentir falta de ar. O pai estava a assistir na bancada, a mãe noutra área mas também dentro do clube. Quando se aperceberam do que se estava a passar, levaram o filho imediatamente para a rua. Ajudou, mas Alexandre continuou com a estranha sensação de que não conseguia respirar bem em espaços fechados. Apesar do frio, o regresso a casa foi feito com as janelas do carro abertas. Pelo menos assim conseguia respirar.

No dia seguinte, o cenário voltou a repetir-se. Alexandre não queria entrar num restaurante, mas os pais insistiram. A incapacidade de respirar foi tão grande que saiu a correr e acabou por desmaiar na rua. Teve de ser levado para o hospital de ambulância.

Depois de muitos exames, os médicos concluíram que não havia nenhum problema físico. Aos 8 anos, Alexandre foi diagnosticado com ansiedade e ataques de pânico.

“O segundo ataque de pânico foi o pior que ele teve”, conta à MAGG a mãe, Lara Fonseca, 41 anos. “Começou a dizer que as pessoas cuspiam sangue antes de morrer — acho que deve ter visto isso num vídeo qualquer — e começou a cuspir para a mão”.

Alexandre começou a ser acompanhado por uma psiquiatra e por uma psicóloga. Os primeiros meses foram duros: a criança da Póvoa de Santa Iria não conseguia ir à escola, às vezes nem sequer sair de casa. Durante dois meses tiveram que ter as janelas sempre abertas, para ajudar Alexandre a sentir que não estava preso. Além disso, e como é habitual nos ataques de pânico, o medo de morrer ou de ficar doente eram uma constante.

“Um dia ele teve uma espécie de surto emocional em que dizia que já não tinha medo de morrer e que o que pensava mesmo era em matar-se porque não aguentava viver assim.” Aquelas palavras apanharam Lara de surpresa, mas também ao próprio Alexandre, explica a mãe, que de repente se apercebeu da gravidade do que estava a dizer.

Hoje Alexandre tem 9 anos e já vai à escola, a festas de anos e brinca com os amigos. Está a ser medicado (tinha a dopamina um bocadinho mais alta do que o normal) e continua a ser acompanhado por um psicólogo, mas as consultas já não são tão regulares e as melhoras são evidentes. Ainda só não voltou aos treinos de hóquei, contudo os especialistas asseguram que não há pressa — como foi no clube que tudo começou, um novo ataque de pânico no local pode fazer regredir tudo. Portanto, é ir com calma.

Porque é que isto aconteceu com Alexandre? Ninguém sabe explicar ao certo. “O que a psiquiatra nos disse é que ele é uma criança orquídea, como eles chamam, isto é, crianças extremamente sensíveis e que podem ser perturbadas por coisas simples”. Lara reconhece a sensibilidade do filho, bem como a fase em que tudo isto aconteceu: “É uma altura em que eles começam a ter mais consciência da morte. Às vezes ele vinha deitar-se connosco e chorava porque tinha medo que a mãe ou o pai morressem”.

“Na sua maioria, as crianças não possuem os métodos para levar a cabo a intenção de se suicidarem”

Na Clínica de Psicologia e Coaching Learn2be, os especialistas têm notado um aumento do número de famílias que procuram o serviço de psicoterapia para ajudar as suas crianças com manifestações de auto-mutilação e ideação suicida (conjunto de pensamentos recorrentes). No entanto, explica a diretora clínica Vera Ferreira, “sabe-se que, na sua maioria, as crianças não possuem os métodos para levar a cabo a intenção de se suicidarem.”

Na faixa etária de que falamos, até aos 10 anos, crianças como Alexandre que dizem que não querem viver mais estão a pedir ajuda. Estão a mostrar a sua tristeza, o seu desconforto, o seu desânimo e dificuldade em enfrentar os dias.

“É importante realçar aqui que a ideação suicida está diretamente ligada ao facto de a criança não se sentir capaz de lidar com determinada situação da sua vida e não com a vida em si. É importante desmistificar este pré-conceito e esclarecer que a criança não quer acabar com a vida, ela apenas quer acabar com o sofrimento”, continua. “Quando percebe que isso é possível, a ideação suicida desaparece.”

O facto de a criança explicar aos pais aquilo que sente, e sobretudo o desejo de acabar com o sofrimento, também é uma ajuda para os profissionais e família. “A ideação suicida é um dado conhecido pelos pais porque a própria criança verbaliza que não quer continuar a viver, o que nos dá (a nós profissionais e à família) uma margem excelente para intervir e ajudar.”

Maria Laureano, pedopsiquiatra da Unidade Psiquiátrica Privada de Coimbra, concorda com a ideia de que os pensamentos suicidários estão relacionados com a vontade de acabar com o sofrimento. Até porque os miúdos “não têm um entendimento completo do que esses atos encerram, nem compreendem a letalidade ou o fim real desses atos. Algumas crianças pensam que a morte é um estado transitório ou que é possível reverter.”

Ainda assim, não podemos excluir a possibilidade de um pensamento suicidário ser levado em frente por uma criança. “Ideias como ‘as crianças não pensam na morte, nem agem contra si com comportamentos suicidários’ são mitos. As crianças pequenas podem ter pensamentos de morte e atentar intencionalmente contra si próprias.”

Os pais e cuidadores devem estar atentos aos sintomas, e incentivar a criança a falar. “Devemos evitar atitudes que levem a criança ao silêncio, por exemplo devolver-lhe que ‘Isso são assuntos sérios, não é para brincar’ ou que não se fala disso”, continua a pedopsiquiatra. “É importante que as crianças mantenham a capacidade de falar com os pais e os adultos de confiança. Perceberem que o adulto âncora está disponível e quer ajudar (ainda que às vezes não saiba logo como), pode mudar todo o curso da história da criança.”

Duarte tinha 6 anos quando foi diagnosticado com ansiedade e ataques de pânico

“Começou de repente. Ele dizia que se estava a sentir mal, que estava a ver tudo à roda, que tinha o coração acelerado”. Com apenas 6 anos, Duarte (nome fictício) estava a transpirar das mãos, tremia e não tinha dúvidas de que ia morrer. “Mas o que é que sentes?”, perguntou a mãe, Matilde (nome fictício), operadora de call center. “O coração está muito acelerado, estou mal-disposto. Quero vomitar, estou zonzo, estou a ver tudo à roda”.

Aos 34 anos, Matilde não teve dúvidas de que era um ataque de pânico — sofrendo ela própria de ansiedade e de transtorno de pânico, era impossível não reconhecer os sintomas. A mãe tentou explicar-lhe que ia ficar tudo bem, mas não foi fácil. “Se até para nós adultos é difícil aceitar que vai ficar tudo bem, o que dizer de uma criança de 6 anos?”, pergunta-nos.

Os sintomas expressos por Duarte surgiam sobretudo antes de ir para a escola — a criança tinha acabado de entrar na primária, portanto a mãe ainda ponderou que pudesse estar a sofrer bullying. Não era verdade: estava tudo bem com os colegas, até mesmo com os professores. Com apenas 6 anos de idade, Duarte sofria mesmo de ansiedade à escola. Não era aos amigos ou aos professores, era à escola.

Não houve mais nenhuma situação na vida de Duarte que pudesse explicar o que se estava a passar, a não ser esta transição da pré-primária para a primária. “Aquela transição da pré para a primeira classe pode tê-lo assustado um bocadinho. Acho que foi mais por aí”. Ainda assim, explica Matilde, nem sempre há uma causa lógica para o surgimento deste transtorno — pode ser algo tão simples como um distúrbio químico no cérebro.

A situação começou a piorar. Da ansiedade à escola passou para os centros comerciais, restaurantes ou até o café. A ideia de estar rodeado por muitas pessoas deixava-o assustado, tanto que evitava ir a parques infantis que estivessem cheios de miúdos.

Explicar o que é ansiedade a uma criança de 6 anos não é fácil. Neste caso, porém, o facto de Matilde saber exatamente o que o filho estava a sentir, ajudou — fazia respirações com ele, assegurava-lhe que ia ficar tudo bem. “Dava-lhe água, molhava-lhe a nuca, os punhos… Tudo estratégias que nós utilizamos.” Duarte também começou a fazer psicoterapia. “Também esteve no psiquiatra mas não lhe quiseram dar medicação porque ainda era muito pequenino — tentámos com a psicoterapia e conseguimos.”

Hoje Duarte tem 8 anos e já tem as suas estratégias para lidar com a ansiedade. Quando começa a ficar ansioso, vai à casa de banho e molha os pulsos e a nuca. Além disso, anda sempre com um saco de papel para fazer as respirações em picos de ansiedade.

Há cada vez mais crianças a sofrer de ansiedade e ataques de pânico?

“Os quadros de ansiedade continuam a ser aqueles que mais recebemos na equipa infantojuvenil da Oficina de Psicologia, particularmente ansiedade generalizada e ansiedade social”, explica Inês Afonso Marques, psicóloga clínica e coordenadora da área infantojuvenil da Oficina de Psicologia. Para Maria Laureano, pedopsiquiatra da Unidade Psiquiátrica Privada de Coimbra, também não há dúvidas de que “os números aumentaram grandemente.”

Mas é preciso compreender que há também uma maior consciência de que às vezes é preciso pedir ajuda. Se há algumas décadas era impensável para alguns pais levar uma criança pequena ao psicólogo ou psiquiatra, hoje já não é assim.

“Da minha casuística posso dizer que há mais crianças e adolescentes a tomarem a iniciativa de pedirem aos pais para marcarem uma consulta no psicólogo em comparação há 7 ou 8 anos”, explica a psicóloga. No caso das crianças com 10 anos ou menos, acrescenta a pedopsiquiatra, e estando ainda tão dependentes dos cuidadores, diminuiu-se o estigma. “Não raras vezes se ouvia ‘É tão pequenino/a para ir ao psiquiatra’”.

O que é um ataque de ansiedade?

“O conceito ‘ataque de ansiedade’ não expressa um quadro nosológico. É um termo mais ou menos convencionado para descrever uma intensificação de medo e preocupação, habitualmente em resposta a um gatilho específico (uma discussão, um teste, um momento de antecipação de algo que se receia…) e que pode ser acompanhado de desconforto físico como pressão no peito, coração acelerado, dor de barriga, etc. Por comparação com um ataque de pânico é algo descrito como menos avassalador”, explica Inês Afonso Marques, da Oficina de Psicologia.

E um ataque de pânico?

“Um ataque de pânico surge ‘do nada’, sem ser uma resposta a um determinado stressor. Um ataque de pânico é um período abrupto de medo ou desconforto intensos que atinge um pico em minutos e durante e qual ocorrem vários sintomas físicos e cognitivos (palpitações, ritmo cardíaco acelerado, suores, sensação de dificuldade em respirar, desconforto ou dor no peito, náuseas sensação de tontura, cabeça vazia ou desmaio, formigueiros, medo de perder o controlo ou de “enlouquecer”, medo de morrer. Estes sintomas podem passar despercebidos aos adultos pela dificuldade das crianças em verbalizarem aquilo que pensam e sentem e pelos adolescentes poderem estar menos disponíveis para falar abertamente de algo que sentem como avassalador e assustador.”

Ansiedade e ataques de pânico. Sinais de alerta

— Incapacidade para lidar com problemas e atividades quotidianas, desinteresse em brincar, desinteresse por atividades que anteriormente estimulavam a criança positivamente;
— Ansiedade excessiva;
— Alteração do sono (insónia, pesadelos);
— Sentimentos de tristeza;
— Variação ponderal acentuada;
— Comportamentos antissociais repetidos (episódios de agressividade com os amigos ou mesmo adultos);
— Isolamento mantido;
— Comportamentos agressivos dirigidos a si próprio (bater na cabeça, arranhar-se);
— Verbalizações de querer sair de casa, de que sente que ninguém a estima, de que nunca faz nada bem (nas verbalizações o mais importante não é totalmente o conteúdo proferido, mas a tonalidade negativista da criança);
— Queixas somáticas (dores de barriga, dores de cabeça, tonturas, náuseas, etc., sem causa médica associada;
— Verbalizações fora do habitual (exemplo: não me apetece ir para a escola; ficas comigo até adormecer; podemos antes ficar em casa, sinto-me mal mas não sei porquê;
— Oscilações de apetite.

 

 

Como ajudar os filhos quando a ansiedade leva a melhor

Abril 1, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , ,

Texto e imagem da Visão de 9 de março de 2019.

Teresa Campos

Os mais novos estão mais ansiosos? Especialistas dizem que é um mito, mas avisam que há mais pressão em cima das crianças.

Richard A. Friedman chama-lhe o grande mito da ansiedade adolescente. Provocador q.b., o psiquiatra, que assina regularmente no reconhecido diário norte-americano The New York Times, deixou um aviso aos pais, num dos seus artigos recentes. “Relaxe: a era digital não está a rebentar com o cérebro do seu filho.

“Segundo Friedman, não são os gadgets que os estão a tornar ansiosos e incapazes de se concentrarem. “As coisas não estão assim tão mal: apesar das notícias em contrário, não há, nos adolescentes, evidências científicas de uma epidemia de perturbações de ansiedade.

“O mais certo, insiste, é que todas estas histórias estão a contribuir para alimentar esse mito. Há ainda quem argumente que se as crianças são ansiosas é porque existe muita competição para conseguirem as melhores notas e um bom emprego.

Mas essa, afirma Friedman, é uma ansiedade saudável – e não deve ser tratada como uma desordem mental. “Os pais são tão protetores em relação aos filhos que não os deixam falhar, alimentando a ansiedade deles se algo correr mal.

Esquecem-se de que assim as crianças nunca aprendem a resolver as suas questões”, diz, sublinhando que o advento da nova tecnologia provoca sempre pânico – “quem não se lembra dos inúmeros avisos em relação ao abuso da televisão e dos danos que este causaria no cérebro? E não há registo disso”.

Margarida Gaspar de Matos, psicóloga clínica e professora da Universidade de Lisboa diz que também não lhe “parece que os adolescentes estejam mais ansiosos”. “Há é mais atenção em relação aos seus direitos e necessidades – e isso traz para a ribalta a sua saúde mental e o seu bem-estar.” A especialista recorda, aliás, que, até há bem poucos anos, a saúde mental era um tema-tabu nas escolas e nas famílias – o que só mudou no período da recessão, sobretudo entre 2010 e 2014.

Teresa Goldschmidt, pedopsiquiatra, presidente da Associação Portuguesa de Psiquiatria da Infância e da Adolescência, explica, por seu lado, que nem o argumento de que os jovens andam mais medicados pode significar um aumento do problema.

“O facto de a medicação psicotrópica estar a ser mais usada não quer dizer que a situação a nível da saúde mental dos jovens esteja pior”, afirma. A médica diz que não há um aumento da prevalência, mas uma subida da pressão social para o sucesso individual, o que poderá levar a uma sobrevalorização do desempenho, colocando os adolescentes sob maior pressão.

Além de ser preciso rever o peso que se atribui aos resultados escolares, os pais devem perceber que as crianças têm de conviver: “É a multiplicidade das experiências relacionais que permite, por vezes, ultrapassar dificuldades transitórias.”

O que os pais devem fazer

Quatro conselhos da pedopsiquiatra Teresa Goldschmidt

► Incentivar os filhos a estarem com amigos
► Dar-lhes espaço para falar de inquietações
► Apoiá-los na forma de lidarem com os insucessos
► Não evitar as situações que desencadeiam ansiedade, mas sim apoiá-los na forma de as enfrentar

 

 

 

Workshops Educação Emocional na Infância e Medos na Infância – 24 novembro em Torres novas

Novembro 21, 2018 às 8:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , ,

mais informações no link:

https://www.janelaredonda.pt/educacao-emocional-medos-infancia/

 

A ansiedade e os traumas de pais e filhos no dia em que as crianças entram na creche

Setembro 12, 2018 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
Etiquetas: , ,

Texto do site MAGG de 3 de setembro de 2018.

por Catarina da Eira Ballestero

Semanas antes do derradeiro momento, há pais que já não conseguem controlar a ansiedade. A MAGG ouviu mães, educadoras e psicólogas.
horo. Há muitas lágrimas envolvidas no primeiro dia de creche dos filhos depois de umas férias de verão, sobretudo se for a primeira vez que as crianças deixam o núcleo familiar de pais e avós e enfrentam um mundo novo numa escola. No início desta nova etapa na vida de uma família, nem sempre são apenas os miúdos que choram — em muitos casos, as lágrimas mais insistentes correm dos olhos das mães e dos pais.

Foi o que aconteceu a Paula Santos, 43 anos, mãe de um rapaz e duas meninas, mas apenas quando repetiu a experiência. A entrada do filho mais velho na creche, que aconteceu quando o bebé tinha seis meses, foi relativamente tranquila — a jornalista não se consegue recordar de o momento ter sido doloroso. “Honestamente, quando olho para trás, não me lembro de me ter custado muito. Eu via-o como um bebé forte e de fácil adaptação e tínhamos gostado muito da educadora de infância que o iria acompanhar”, conta Paula Santos à MAGG, que admite que o cenário se alterou completamente com a segunda filha.

Apesar de ter inscrito a bebé exatamente com a mesma idade do irmão mais velho, Paula recorda que os momentos não podiam ter sido mais distintos. A entrada da filha na creche foi um período complicado. “No primeiro dia quase não consegui falar com as cuidadoras, tinha a voz embargada e fui-me embora a chorar. Foi impossível evitar. Tinha de ir buscá-la passada uma hora e fiquei no carro à porta do infantário, a trabalhar e a contar os minutos”, recorda a jornalista, que está quase a passar por esta experiência uma terceira vez.
Prestes a lidar com a entrada da filha mais nova na creche (que irá acontecer esta segunda-feira, 3 de setembro), e apesar de a menina ter dois anos e ser mais velha do que os irmãos aquando da ingressão num espaço escolar, Paula diz já estar a sofrer por antecipação. “Estou certa de que irá correr tudo bem, porque é uma criança sociável e vai para a mesma instituição onde está a irmã, na qual confiamos; mas isto é o meu lado racional a falar. O lado animal de mãe tem as sirenes todas ligadas com a expetativa da separação. Só posso concluir que tenho vindo a piorar em vez de melhorar. Nem quero imaginar se tiver um quarto filho”.

As maiores preocupações dos pais

Na generalidade, o primeiro dia de creche não é fácil para as crianças nem para os adultos. Trata-se de uma situação delicada, que pressupõe uma separação e uma grande mudança na dinâmica familiar — e são várias as questões que preocupam os progenitores.

De acordo com Beatriz Matoso, psicóloga clínica, os pais preocupam-se muito em “como vão as crianças suportar a sua ausência, como vão comer e adormecer num ambiente estranho, se são capazes de se adaptar à nova realidade social que lhes é desconhecida, onde é fundamental sentirem-se bem com os educadores e com as outras crianças”.

A educadora de infância Carlota Yoshicawa assina por baixo, e explica à MAGG que a ansiedade dos pais nos primeiros dias de creche prende-se muito com a preocupação em deixar os filhos com alguém que lhes é desconhecido. “Por mais que confiem em nós, educadores, não deixamos de ser um extra, alguém que lhes vai ficar com os filhos, por vezes até mais tempo do que eles próprios”, afirma Carlota Yoshicawa, que também assume que, mesmo que apenas no primeiro dia, os pais não conseguem deixar de pensar se os mais pequenos estão bem entregues, “ficam sempre na dúvida se as crianças vão receber a mesma atenção e mimo que têm em casa”.

Esta é uma ideia partilhada pela também educadora de infância Marta Parracho, que admite que as mães tentam perceber como será o dia a dia dos filhos na creche. “Preocupam-se em saber tudo o que a criança irá fazer desde que chega até que sai e tentam dar-nos a conhecer todas as manias, manhas e preferências dos filhos para que saibamos o que fazer em cada momento”, afirma a profissional.

Ana Gomes, 30 anos, mãe de Vitória, hoje com 15 meses, passou por isso no primeiro dia de creche da filha, na altura com apenas quatro meses. A blogger responsável pela plataforma “A Melhor Amiga da Barbie” estava muito nervosa e acreditava que a adaptação da filha iria ser difícil. “Afinal, como é que estranhos iam tomar conta da minha bebé sem lhe conhecerem os truques? Pensei que ela fosse chorar imenso”, recorda Ana Gomes.

Mas a blogger não está sozinha: de acordo com a educadora Marta Parracho, são muitas as mães que têm pânico que os filhos desatem a chorar, embora esse seja um receio normal. “Percebo que nenhum pai quer deixar o filho para trás em lágrimas, mas esse é um comportamento expetável para uma criança que é deixada num local onde nunca esteve, com pessoas que não conhece e em quem ainda não confia”, afirma a profissional.

Para além do choro, e apesar de a psicóloga clínica Vera Lisa Barroso alertar que os receios das mães diferem muito de acordo com a idade da criança, a especialista realça que, “perante crianças mais novas, com menor destreza física e a marcha recentemente conquistada, muitos dos medos prendem-se com a possibilidade de os filhos caírem e magoarem-se, ou eventualmente não se conseguirem defender dos colegas mais velhos”.

“Os pais não devem impor a sua presença na creche depois de entregar a criança.”

Quando as crianças ainda não dominam a fala, Vera Lisa Barroso explica que “os medos podem prender-se com o facto de os filhos não conseguirem comunicar o seu dia ou solicitar a ajuda precisa em determinadas situações decorrentes na creche”. Já no caso de crianças mais velhas, mais introvertidas ou ansiosas, “os pais podem recear a dificuldade no estabelecimento de relações sociais, envolvimento e interação com os pares; quando são irrequietas, podem recear a obediência às regras e limites estabelecidas pelos adultos ou mesmo a desestabilização das normas da sala e do comportamento do grupo”, explica a especialista, que alerta que é expectável que os pais mais ansiosos e protetores antecipem muitos perigos e dificuldades.

Em todo o caso, as preocupações fundamentais prendem-se com o bem-estar e com a boa adaptação dos filhos à creche, acima de tudo. A psicóloga Vera Lisa Barroso destaca que os adultos querem muito saber se “a criança se alimenta bem, dorme, respeita regras e limites da sala, ouve e respeita as educadoras, interage com os pares e fica bem quando é deixada de manhã”, sendo um bom sinal quando regressa a casa bem-disposta e alegre.

Alerta vermelho: o que não deve (mesmo) fazer nos primeiros dias de creche

Lúcia Pimentel, 36 anos, é mãe de três filhos, com 16, 15 e quatro anos e, tal como conta à MAGG, a experiência de os deixar ao cuidado de terceiros quando teve de regressar ao trabalho não foi fácil.

“Um tinha dois anos, o outro apenas oito meses. Nunca os tinha deixado com ninguém e estava a passá-los para o colo de uma pessoa totalmente desconhecida”, afirma a assistente hospitalar, que recorda que estava muito insegura e ansiosa. “O meu coração batia a mil, tinha medo, já estava com saudades deles. Na verdade, parecia que ia tudo desabar à minha volta e tinha uma vontade enorme de chorar, coisa que aconteceu assim que os passei para o colo das profissionais”, conta Lúcia Pimentel.

“Não concordo, e não sou a favor, de ficarem ali agarrados aos filhos com várias trocas de palavras, como quando tentam enganá-los, dizendo ‘vou ali e venho já’.”

Porém, a educadora Marta Parracho alerta que a ansiedade das mães, apesar de compreensível, não deve ser demonstrada às crianças, bem como “manifestar preocupações em conversas com a educadora ou familiares em frente aos mais pequenos”. A educadora assinala também outras atitudes contraproducentes e negativas para a adaptação dos miúdos, como “deixá-lo entregue à educadora e, depois de ouvir o filho chorar, voltar a trás e levá-lo para casa; ir à creche um dia e no seguinte não (a rotina é extremamente importante nesta fase); e não cumprir o que prometeu à criança, como dizer que a vai buscar depois do almoço, e afinal só aparece depois do lanche”.

Já a educadora Carlota Yoshicawa não tem dúvidas quanto ao que considera ser uma das piores estratégias utilizadas pelos pais: “Não concordo, e não sou a favor, de ficarem ali agarrados aos filhos com várias trocas de palavras, como quando tentam enganá-los, dizendo ‘vou ali e venho já’. Nos primeiros dias, e em alguns casos ainda durante as semanas seguintes, os pais não devem alongar o tempo de entrega dos filhos. Deve ser um momento calmo com uma troca de carinho e uma palavra à educadora ou auxiliar, transmitindo à criança confiança neles e nos adultos”.

A psicóloga Beatriz Matoso também reforça a importância de uma coordenação atenta, disponível e confiante entre pais e educadores durante este processo de entrada na creche, alertando, mais uma vez, que as mães e pais “não devem impor a sua presença na creche depois de entregar a criança, a menos que essa seja solicitada, bem como referirem-se aos educadores como agentes de uma autoridade castigadora e à creche como um lugar de possível castigo”.

A adaptação a um novo espaço é um processo para pais e filhos

Apesar do nervosismo, Ana Gomes conta que a adaptação da pequena Vitória acabou por ser melhor do esperava: “Correu tudo lindamente, ela nunca chorou, nem nos primeiros dias, nem posteriormente”. E, de acordo com os profissionais que trabalham na área da educação, bem como dos especialistas em psicologia, o processo de adaptação é realmente muito importante, existindo várias ferramentas e ideias que os pais podem usar para que este corra da melhor forma.

Uma das estratégias é aumentar gradualmente o tempo de permanência das crianças na creche. A educadora de infância Carlota Yoshicawa realça que esta é uma ótima ideia, dado que, por vezes, existem casos de crianças que nunca foram deixadas com estranhos. “Se até à data estiveram em casa com familiares ou caras já conhecidas, ali encontram-se numa sala que lhes é completamente estranha, com adultos e outras crianças que nunca viram na vida”, alerta a educadora, que acrescenta que “a realidade é que são cerca de oito horas com esses ‘estranhos’, e nos primeiros dias, é um choque muito grande para os mais pequenos”.
A criação de rotinas é igualmente importante para os mais pequenos, tal como explica Carlota Yoshicawa: “A criança deve começar a ter noção das suas rotinas, e saber que existem momentos para a brincadeira, para a higiene e para a alimentação. Assim, quando a mãe tiver de o colocar na creche, sabe que ele já vai com essa noção e não se vai sentir perdido e desamparado”.

Para que esta nova fase na vida de uma família seja tranquila, a educadora Marta Parracho sugere que encarregados de educação e educadores se conheçam antes de a criança começar a frequentar a creche. “Uma conversa aberta com a educadora sem qualquer vergonha, sem tabus, sem complexos, assumindo desde logo a ansiedade pode ajudar na relação entre pais e profissionais, e no ganho de confiança e segurança entre todos”, salienta Marta Parracho, que não é a única a acreditar na importância vital de encontros prévios com as educadoras.

“Para se assegurarem de que os seus filhos ficam bem entregues, os pais devem contactar previamente os educadores para os conhecerem e lhes colocarem as questões que os preocupam, aproveitando para lhes pedir orientações que facilitem a adaptação da criança a esta nova realidade”, afirma a psicóloga Beatriz Matoso, que ainda oferece outra preciosa dica. “Uma foto da criança em interação com outros miúdos, enviada para o telemóvel da mãe e do pai, pode reduzir a ansiedade e facilitar o processo de adaptação em curso”, conclui a especialista.

E se Trump tiver danificado o cérebro das crianças migrantes para sempre?

Julho 10, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , ,

Notícia do Notícias Magazine de 2 de julho de 2018.

Psicólogos alertam para danos de longo prazo causados pelo stress da separação dos pais. Política de afastamento imperava, até ao mês passado, na fronteira entre os Estados Unidos e o México.

Texto de Ana Tulha

As imagens e sons correram o Mundo: crianças enjauladas, choros copiosos, o desespero em rostos onde a confiança há muito não mora. Aconteceu na fronteira entre os Estados Unidos e o México, no seguimento da política de separação de pais e filhos migrantes. A reação interna e da comunidade internacional foi massiva e Donald Trump, presidente americano revogou a prática em vigor a 20 de junho.

As consequências, essas, são bem mais difíceis de eliminar. Se o impacto emocional, derivação lógica dos fantasmas de uma experiência traumática, é mais ou menos óbvio, o futuro pode trazer outras repercussões negativas, nomeadamente ao nível do funcionamento do cérebro. Nalguns casos, garantem os psicólogos, os danos podem ser permanentes.

“Este tipo de trauma pode afetar os cérebros das crianças e, potencialmente, o desenvolvimento a longo prazo”, garantiu Colleen Kraft, presidente da American Academy of Pediatrics, no Spotlight Health Festival.

Em abril, Colleen foi autorizada a visitar um abrigo para refugiados, na fronteira dos Estados Unidos. Lá, encontrou uma divisão repleta de crianças a gatinhar e um silêncio sinistro, rasgado pelo pranto de uma menina que batia desesperada com os punhos no tapete. “Uma funcionária tentou confortá-la com livros e brinquedos, mas não estava autorizada a pegar nela ou sequer a tocar-lhe. Podemos perceber o trauma que advém daqui”, partilhou a psicóloga.

De acordo com estudos do National Scientific Council on the Developing Child, citados pela revista americana The Atlantic, a prevalência de elevados níveis de cortisol, uma das hormonas relacionadas com o stress, pode suprimir o sistema imunitário e mudar a arquitetura de um cérebro em desenvolvimento. Uma outra hormona relacionada com o stress, a corticotrofina, pode danificar o hipocampo, que tem um papel fundamental na aprendizagem e na memória.

Colleen Kraft descodifica o processo: “Em crianças normais e saudáveis, as ligações relacionadas com a aprendizagem, as brincadeiras e as capacidades sociais formam-se durante os primeiros anos de vida. Mas em crianças com stress contínuo, as ligações mais fortes são as relacionadas com o medo e a ansiedade.”

Depois, à medida que as crianças crescem, o cérebro começar a cortar nas ligações mais fracas, mantendo apenas as mais fortes. E, explica a psicóloga, se nas crianças saudáveis o cérebro mantém ligações relacionadas com a aprendizagem e a resiliência, apagando os pequenos percalços, nas crianças que sofreram de stress tóxico as ligações mais duradouras vão ser as que envolvem medo e ansiedade.

Kraft garante mesmo que muitas crianças que passam por experiências deste género “não desenvolvem discurso, não desenvolvem vínculos emocionais, não desenvolvem funções motoras fundamentais”. E conclui: “Provoca um atraso muito significativo no desenvolvimento.”

 

 

Adição digital: estudo comprova ligação entre uso excessivo de dispositivos digitais e depressão

Junho 2, 2018 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , , , ,

moodsapo

Notícia e fotografia do moodsapo de 22 de maio de 2018.

As ligações entre uso excessivo da tecnologia e o desenvolvimento de problemas de saúde mental são cada vez mais faladas. Uma nova pesquisa realizada nos EUA veio comprovar esta ligação e ainda estabelecer uma relação causal entre o posicionamento do corpo, a energia e o humor da população que usa excessivamente os dispositivos digitais.

Já se sabe que os tablets, smartphones e outros gadgets digitais tomaram conta do dia-a-dia da população. E também já se sabe que essa ‘normalidade’ não traz benefícios à saúde, muito pelo contrário. Mas um novo estudo levado a cabo pela Universidade de São Francisco, nos EUA, veio agora comprovar que realmente «existe uma forte ligação entre a adição digital, especialmente no uso compulsivo do telemóvel, e a ansiedade e depressão».

A recente investigação contou com a participação de dois grupos de estudantes universitários, na qual se observou que vários indivíduos dos dois grupos, dentro e fora das aulas, estavam constantemente com a cabeça inclinada para baixo a fazer scroll nos seus telemóveis, em vez de estarem a conviver com as pessoas que os rodeavam. Este facto levou os investigadores a uma conclusão: o grupo que mais utilizou o telemóvel reportou um maior nível de solidão, ansiedade e depressão do que o grupo que menos o usou. «Para a preservação da saúde mental, é necessária a comunicação humana, porque é assim que aprendemos a modular os nossos estados de humor», esclarece Erik Pepper, investigador e professor no Instituto de Estudos de Saúde Holística da Universidade de São Francisco.

O investigador explica que as mensagens de texto e emails são formas de comunicação digital assíncronas, ou seja, são comunicações transmitidas de forma intermitente. Através desse tipo de comunicação, as pessoas não veem com quem estão a falar, logo não podem aperceber-se de sinais não-verbais, como a linguagem corporal ou vocal, entoação, etc., «razão pela qual não é possível medir o impacto emocional do seu discurso», elucida Erik Peper, o que pode originar uma errada interpretação da mensagem enviada. Além disso, o nível de profundidade dessas comunicações tende a ser mais superficial.

Durante as últimas três décadas, o investigador e professor da Universidade de São Francisco Erik Pepper afirma notar uma grande diferença comportamental nos estudantes. Antes do boom tecnológico, a maioria dos jovens estabelecia «contacto visual, falando entre si à medida que desciam os corredores nas pausas entre as aulas. Hoje em dia, é mais provável vê-los encostados a uma parede enquanto mexem nos seus smartphones ou tablets», conta. «Estão na sua própria bolha digital», frisa, acrescentando que se não se criar intimidade através da comunicação com os outros, irá criar-se um clima de isolamento e, consequentemente, o início de uma depressão. Além disso, a comunicação não-satisfatória não é a única forma pela qual os aparelhos eletrónicos afetam a saúde mental.

Os autores do estudo Erik Pepper e Richard Harvey foram mais longe, tentando estabelecer uma relação causal entre o posicionamento do corpo, a energia e o humor da população objeto de estudo. «Quando uma pessoa está deprimida e sem esperança, tende a adotar uma postura mais curvada», explicam. Se esse indivíduo «já tiver histórico de depressão, estados de pessimismo, ansiedade ou medo, ao colocar o corpo nesta posição está a evocar esses mesmos estados de espírito», prosseguem. Mas, assim que corrigem a postura, irão sentir-se menos deprimidos, mesmo que nenhum outro fator seja alterado.

Para além de serem parte integrante no aparecimento de sintomas de doenças do foro mental, os dispositivos móveis também dificultam o ato de adormecer devido à luz azul emitida pelos ecrãs, fator este que também «contribui para um maior desenvolvimento de doenças», sejam estas de foro psíquico ou físico, acrescenta Erik Pepper.

Também a estimulação dos conteúdos visualizados pode privar os cidadãos de um sono tranquilo e regenerador. «Nas redes socais, as pessoas tendem a ficar emocionalmente mais ativas, ao responder em várias frentes, mantendo-se assim mais acordados e com uma maior perda de sono», explica, acrescentando que não é por acaso que muitos dos alunos alvos de estudo se encontrem numa situação crónica de privação de sono. Quanto mais tempo gastar a consumir media, digital ou não, menos tempo gasta para se manter ativo, sendo por isso «o melhor tratamento para o combate à depressão, o movimento e o exercício», diz.
Assim sendo, como sabe se está dependente do seu smatphone? «Coloque o telemóvel longe do seu alcance e tente, durante alguns dias, não o usar», sugere o especialista. De acordo com os investigadores, se ficar agitado e começar a sentir que é impossível não ir verificar as redes sociais e emails, então poderá estar com um problema de dependência digital. Veja na galeria, no início do artigo, seis formas de controlar a obsessão pelo mundo digital, segundo estes especialistas.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Digital Addiction: Increased Loneliness, Anxiety, and Depression

 

Quando a depressão e ansiedade tramam vida aos adolescentes

Maio 9, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
Etiquetas: , ,

Texto da http://visao.sapo.pt/ de 8 de abril de 2018.

O aumento dos casos de ansiedade e depressão na adolescência preocupa pais, professores e técnicos de saúde. Os motivos são vários: foco excessivo no sucesso, medo de fracassar e situações de tensão a nível familiar.

Quando comecei a ter enjoos e vómitos, antes de ir para as aulas, percebi que tinha um problema. Ficava melhor quando comia menos, só que perdi peso e sentia-me mal e triste.” Beatriz tinha então 14 anos, frequentava um colégio privado e até tinha boas notas. O problema era a pressão dos testes e o ambiente competitivo entre colegas. “Foi um grande alívio entrar para o liceu público, mas durou pouco porque eu exigia muito de mim. E tudo piorou”, lembra agora. “Em situações novas ou que não podia controlar, tinha medo de falhar, de não estar à altura do que achava que esperavam de mim”, acrescenta.

Beatriz não está sozinha. O estudo National Health Behaviour in School HBSC/OMS, de 2014 (com uma amostra de 6 026 adolescentes do 6º ao 10º anos) mostra que nem tudo vai bem com os jovens portugueses. Gina Tomé, psicóloga e investigadora da Aventura Social (grupo de investigação sobre o comportamento juvenil), nota que, entre 2010 e 2014, “houve menos 3,4% de alunos a gostarem da escola e aumentarem os sinais de mal-estar, desesperança e dificuldade em lidar com conflitos”. Tais resultados traduziram-se no plano psicológico: “Os que responderam que se sentem nervosos diariamente passaram dos 6,2% para os 8,4%; os que se dizem irritados quase todos os dias eram 3,7% e agora são 5,9%; e os que estão tristes ao ponto de parecer que não vão aguentar situavam-se nos 3,8%, uma percentagem que subiu para os 5,5%.” O projeto ES’COOL – Promoção da Saúde Mental nas Escolas, que envolveu 200 professores, permitiu apurar algumas causas: “Pressão ligada aos resultados escolares, problemas no ambiente familiar e nas relações interpessoais.”

Aos 19 anos, Beatriz pode dizer, por experiência própria, que pedir ajuda faz toda a diferença e que o facto de ser compreendida a levou a reorientar-se e a seguir em frente. Aprendeu a controlar a respiração e, com o apoio de um psicólogo, a conhecer e a respeitar os seus limites, no mundo virtual e no real. Convidada a dar dois exemplos, avança estes: “À noite, e em certas alturas do dia, passei a desligar as notificações do telemóvel e já não vejo as pressões dos outros como minhas.” 
E se a ansiedade lhe bater à porta sem pré-aviso? “Dou conselhos a mim própria como se fosse uma pessoa de quem goste muito!” Palavra de adolescente.

ESPÍRITO “TEEN”

A adolescência é uma invenção recente que deu os primeiros passos nos Estados Unidos da América, após a II Guerra Mundial. “Veio o rock’n’roll, os rapazes e as raparigas começaram a andar juntos no liceu e a divertir-se – e estes anos ganharam um encanto que não tinham, sendo mesmo considerados a melhor parte da vida”, nota a psicóloga clínica Teresa Lobato Faria, que dá consultas a adolescentes do Hospital Dona Estefânia, em Lisboa. Na década seguinte, a juventude e o amor romântico foram idolatrados no cinema e, algo inexistente até então, “os jovens ganharam notoriedade, começaram a tomar posições e a influenciar o poder político.”

Assim despertou o interesse dos investigadores por este período da vida, fascinante, turbulento e essencial a um desenvolvimento saudável que, pelos critérios da Organização Mundial de Saúde (OMS), acontece entre os 10 e os 19 anos. À luz deste critério, em Portugal os adolescentes representam 10,5% da população, mas o número pode ser superior, já que os limites temporais são móveis. É que os estudos apontam para um início por volta dos 13 anos (depois da puberdade), prolongando-se até aos 24 ou mais anos, altura em que se consolidam as competências sociais e académicas, essenciais para a autonomia plena.

Até lá, acontecem intensas mudanças físicas, hormonais e cerebrais. Os neurónios praticamente duplicam, e o lobo frontal, que governa o raciocínio e a tomada de decisões, passa por alterações profundas entre os 12 e os 15 anos (ver caixa Onde é que estavas com a cabeça?”). Confirma-o a investigação da neurocientista inglesa Sarah-Jayne Blakemore e colegas, apresentada na conferência sobre o cérebro adolescente, em novembro, promovida pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, em Lisboa.

À VISÃO, a também autora do livro Inventing Ourselves: The Secret Life of the Teenage Brain (publicação prevista para março), explica porquê: “Nesta fase, mais do que nunca, aumenta a pressão para se assumir riscos, a vulnerabilidade à influência do grupo na avaliação dos acontecimentos e o medo de ser excluído pelos pares.” Não é por acaso que os prémios das seguradoras são mais elevados até aos 25 anos. A professora de Neurociências Cognitivas do University College London esclarece que “75% das perturbações ansiosas e depressivas manifestam-se entre a infância e os 20 anos”, quando se formam a identidade pessoal e social.

JOVENS, ANSIOSOS E DEPRIMIDOS

“Queremos tudo e já.” O grito de guerra da adolescência pode ser silenciado se as circunstâncias forem adversas ao ponto de matarem os ideais.

Vanessa tem 18 anos e reconhece que, aos 13, bateu no fundo do poço. “Os meus pais discutiam muito, separaram-se quando eu era pequena e eu não conseguia exprimir o mal-estar que sentia”, conta. “Nada fazia sentido, deixei de comer, quis acabar com a vida, fui parar ao hospital. Não aceitava que tinha um problema, estava sempre à defesa ou a opor-me.” Teve a “sorte” de ser encaminhada pela assistente social para um projeto inovador – o W+, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, criado em 2003 para promover a saúde mental e dar respostas a adolescentes (dos 12 aos 24 anos) – e de aderir ao programa Ocupa-te (destinado a jovens inativos há mais de dois anos e fora dos sistemas escolares 
e de saúde). Vanessa levou algum tempo 
até baixar a guarda e retomar os estudos do 10º ano. Os olhos brilham quando diz que gosta de inspirar outros a travar esta batalha diária, que também é a dela: “Continuo a ter estados depressivos, mas se a minha mente for forte eu mantenho-me forte.”

As estatísticas de saúde mostram que as perturbações ansiosas e depressivas praticamente duplicaram em seis anos, entre a população em geral, com o consumo de medicamentos a disparar na mesma proporção (e a aumentar entre os 13 e os 18 anos). Há dois anos, o suicídio foi a segunda principal causa de morte entre os 15 e os 29 anos, a nível global, conclui a OMS. Também em 2015, um artigo científico sobre o atendimento na urgência de pedopsiquiatria da Estefânia (dados recolhidos entre 2011 e 2013) apontava para o aumento de 23% do número de consultas com médias etárias nos 13,5 anos. Os problemas de comportamento, as condutas de automutilação e os casos de ansiedade (com o pico aos 16 anos) lideravam os motivos da ida às urgências.

Os números do Instituto Nacional de Saúde Mental norte-americano são igualmente alarmantes: os problemas ansiosos afetam 20% dos rapazes e 30% das raparigas. Desde 2012, têm vindo a aumentar as perturbações de humor entre alunos do liceu: três milhões de jovens entre os 12 e os 17 anos afirmaram ter tido pelo menos um episódio depressivo no ano anterior. Convém lembrar que estamos a falar de países desenvolvidos e de jovens escolarizados. Porquê? Que fragilidades são estas que estão a vir agora ao de cima?

PRESSÃO PARA O SUCESSO

A pedopsiquiatra Paula Vilariça, da Clínica da Juventude da Estefânia e uma das autoras do artigo científico acima referido, afirma que “por detrás destes perfis de ansiedade e depressão estão, quase sempre, antecedentes de bullying na infância e, em simultâneo, ruturas familiares ou mudanças na vida laboral ou da saúde dos pais”. O aumento de quadros ansiosos, “que evoluem para a depressão, até por haver um fundo neurobiológico comum”, está associado a “expectativas elevadas que os miúdos trazem acerca das suas conquistas e da estabilidade que depois lhes falta”.

Os fatores de stresse intenso surgem a partir do 7º ano de escolaridade, com o aumento do nível de exigência antes das épocas de testes e de exames. “Chegamos a ter 16 pedidos de consulta por dia: eles vomitam, sentem falta de ar, têm ataques de pânico, passam noites em claro.” As automutilações são mais comuns nas raparigas, ao passo que os rapazes são mais propensos a meterem-se em brigas que sabem que vão perder ou a refugiarem-se nos videojogos, nas drogas ou no álcool.

Embora os pais façam o melhor que sabem e podem, Paula Vilariça admite que eles passam muitas vezes ao lado dos sinais de alerta dos filhos (ver caixa Perfis de ansiedade e depressão mais comuns na adolescência). Foi o caso de uma miúda com 13 anos que levou a cabo três tentativas de suicídio após baixa do rendimento familiar, na sequência da perda de emprego da mãe, e dificuldades de integração na escola nova: “Sentia-se muito só e incapaz de corresponder ao nível de exigência escolar, e encontrava alívio na automutilação, mas também culpa e conflito”, conta a pedopsiquiatra. Este foi um dos casos que exigiram medicamentos para a ansiedade e para os ataques de pânico, durante dois meses, conjugados com psicoterapia individual e familiar. O que mudou? “A mãe continua desempregada, o pai a trabalhar por turnos e a filha com dificuldades na escola (passou para o 8.º ano com três negativas). Porém, está mais tranquila e todos lidam melhor com o stresse.”Hoje sabe-se que as perturbações de humor se traduzem na desregulação dos níveis da serotonina no cérebro, que afeta mais umas pessoas do que outras. A equipa de investigadores da Universidade de Emory apurou o assunto e descobriu que o FKBP5 e variantes (SNP ou single nucleotide polymorphisms) estariam na origem de respostas de stresse superiores ao normal, mas apenas se houvesse antecedentes de maus-tratos ou abuso na infância. Conclusão: os genes não explicam tudo.

SENTIR-SE EM CASA, PODER VOAR

Sílvia, 23 anos, deixou de ser quem era há cinco: uma miúda isolada, refugiada nos seus pensamentos e no estudo, obcecada pela ordem e com receio de ser tocada. Ela não esquece o sofrimento de crescer exposta a um ambiente de violência doméstica. A diferença é que agora criou outras bases de apoio junto de outros jovens e na atmosfera protetora e estimulante do grupo de teatro terapêutico que frequenta, em Lisboa. “Aqui perdi a timidez e descobri como é bom socializar.” Para trás ficaram o medo do descontrolo e os rituais de limpeza.

Ao seu lado, Miguel, 18 anos, ainda a lidar com sintomas de ansiedade social, lembra-se de quando vivia na casa materna, entregue a si mesmo e a acumular faltas às aulas. Os conflitos com a mãe agravaram-se ao ponto de haver agressões. “Ela e o meu padrasto não me aceitaram como sou, nem a minha orientação sexual”, resume. Mudou-se para casa de outros familiares e tenta, aos poucos e com ajuda institucional, reatar o relacionamento com a mãe. Os progressos, deve-os, afirma, à “segunda casa” que encontrou no W+.

Um ano mais velha do que Miguel, Francisca também sabe o que é viver com ansiedade generalizada e deparou-se com ela logo após a puberdade, na sequência de um atropelamento que deixou marcas profundas e anos de reabilitação. Em casa, abundavam as discussões e o sentimento de ser incompreendida. “A solidão em que eu vivia era enorme.” Cética quanto à utilidade do apoio psicológico, foi graças a esse “colo” que se aventurou nos primeiros passos a solo: partilhou uma habitação com o namorado, mudou de curso e vive hoje na casa dos avós. Há dias em que sente raiva e vontade de chorar, mas já não é a mesma coisa: “Conquistei uma opinião própria, sem estar presa à minha mãe, de quem tinha mais medo do que respeito.”

Isabel Queiroz de Melo, diretora da unidade de saúde W+, confirma que “a crise desestruturou muitas famílias”. Nos últimos dois anos, passaram pelo serviço 650 jovens, “metade a ser acompanhada em regime semanal”.

Sónia Santos, que coordena o núcleo de adolescentes da mesma unidade de saúde, descreve um relatório do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, realizado dois anos após a abertura do W+, que identificou o perfil dos que procuravam ajuda: metade estava a passar por lutos ou situações de abandono; 54% não tinham progenitores; 35% contavam com uma pessoa em quem se apoiar; e 12% não tinham ninguém. Após superarem experiências de grande desamparo, voltam para partilhar alegrias – o diploma, a namorada, etc. – e pedir informações sobre contraceção: “Sentem-se acolhidos e não julgados.”

SAIR PARA A RUA

Os resultados dos inquéritos nacionais dos Estados Unidos da América revelaram que, entre 2010 e 2015, mais de 33% dos que nasceram depois de 1995 se sentiam “inúteis e sem alegria”, tendo as tentativas de suicídio aumentado 23 por cento. Também começam a surgir estudos que relacionam o débito de horas de sono, associado à exposição a ecrãs, à depressão (no início do ano, a OMS incluiu a dependência de videojogos na lista de doenças).

Onde estão os anos promissores, com direito a ser rebelde? Se, nos meios socioeconomicamente favorecidos, os 18 anos eram a senha para conduzir carro próprio e “sair ou dormir com quem apetece”, hoje o mais certo é ligarem-se ao mundo no quarto.

No ano passado, a psicóloga Jean Twenge, da Universidade de San Diego, e autora do controverso livro iGen – ou a geração “eu”, voltada para o umbigo – indagava, na revista The Atlantic: “Os smartphones destruíram uma geração?” Referia-se ao deslumbramento induzido pelos gadgets móveis, à falsa ideia de independência criada pelas redes sociais e ao conforto e à segurança do registo digital, onde os jovens crescem superprotegidos e frágeis. Porém, sabemos que, no universo hiperconectado, há FOMO (sigla de fear of missing out ou medo de ficar de fora) e sobrecarga de estímulos: o risco que se corre é o de converter a adolescência num esgotante emprego a tempo inteiro, como referia um artigo recente da revista Time.

“O modelo de organização social dominante pode estar a contribuir para o mal-estar juvenil e para o aumento do consumo de fármacos”, comenta a pediatra Maria do Céu Machado, autora do ensaio Adolescentes e atual presidente do INFARMED, lembrando que “nunca houve tantos jovens qualificados sem projeto de vida [a taxa de desemprego jovem, em outubro passado, chegou aos 
25,6 por cento]”. O psicólogo Pedro Hubert alerta para a dificuldade que os pais têm em dizer “não” e em estabelecer limites. A visão idealizada do sucesso individual, o “podes ser o que quiseres” é outro erro que dificulta 
o treino das competências sociais e da tolerância à frustração.

Por fim, o especialista em adições destaca os riscos da imersão no mundo virtual dos videojogos e das redes sociais: “Geram excitação e euforia, mas não fomentam a relação íntima e presencial nem resolvem a timidez e o evitamento social.” Às vezes, senão quase sempre, a maior recompensa encontra-se fora da “matrix”. Basta sair e fazer a experiência.

 

 

 

Como lidar com esta nova geração “dependente” da tecnologia

Abril 23, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , ,

Notícia da http://visao.sapo.pt/ de 8 de abril de 2018.

CLARA SOARES

Jornalista e Psicóloga

Duas psicólogas, especialistas em perturbações que afetam os adolescentes, falam das pressões excessivas e dos exageros da vida virtual. Não é à toa que a Organização Mundial de Saúde acabou de incluir o “vício de videojogos” na sua lista de doenças do foro psiquiátrico.

IVONE PATRÃO

A investigadora do ISPA – Instituto Universitário de Psicologia Aplicada e autora do livro Geração Cordão defende que os adultos devem falar com as crianças desde cedo sobre 
o uso da tecnologia

Os adolescentes passam demasiado tempo online ao ponto de isso lhes alterar o humor?

Há dez anos, comecei a receber na clínica jovens com indicação de comportamentos agressivos e alterações do sono, mas que nada tinham que ver com perturbação de hiperatividade e défice de atenção. Estavam ligados à dependência online. 
A dependência da tecnologia compromete a alimentação, o sono, o rendimento escolar, as relações com os outros. Numa pesquisa que fizemos com meio milhão de adolescentes que usa smartphone, 14% deles tiveram a cotação máxima em dependência da internet.

A vida virtual e o multitasking afetam o funcionamento 
do cérebro juvenil? 
Há diferenças de género?

Quem já tem outros fatores de risco para sintomas ansiosos e depressivos fica mais vulnerável. 
Os estudos na área da neurobiologia, com recurso a ressonâncias magnéticas, mostram que são ativadas as mesmas zonas cerebrais (da recompensa) nos utilizadores da internet e de videojogos. O excesso 
do seu uso limita o desenvolvimento 
e o treino das competências sociais 
e da autonomia. Uma investigação com 2 220 jovens, entre os 12 e os 30 anos, permitiu perceber que os rapazes tendem a ligar-se mais aos videojogos 
e as raparigas às redes sociais.

Os miúdos aprendem por imitação e seguem o modelo dos pais. Estes estão à altura?

Os jovens, com legitimidade, perguntam: “Então o meu pai não me deixa estar na internet e, à uma da manhã, põe um post no Facebook?” Chegam aos 16 anos sem nunca terem conversado sobre isto com os pais ou recebem respostas vagas como “podes estar, mas só um bocadinho” ou “já estás nisso há tempo demais”. 
Não são exemplos a seguir.

Os jovens podem ficar deprimidos pelo medo da comparação social 
na vida real. Como se lida com isto na vida virtual?

A pressão do grupo sempre existiu. 
A vida online amplia essa pressão, eles ficam 24 horas ligados, sem parar 
para refletir, como acontecia antes. Deixaram de ter time out. Assumo que a sintomatologia ansiosa e depressiva tem que ver com esta sobrecarga. Aconselho os pais a promoverem momentos de encontro. Definam regras, como o não usar ao jantar, sem exceções, seja o jogo ou o email de trabalho a enviar. Mas falem uns com os outros!

TERESA LOBATO FARIA

A especialista lembra que os jovens precisam de se sentirem compreendidos e aceites pelos adultos, sem pressões excessivas nem julgamentos. E deixa pistas para os pais e os professores
Porque se agravam 
os sintomas ansiosos e depressivos 
na adolescência?

Essa é a altura da vida em que os jovens começam a questionar e a tomar decisões, a imitar o que fazem os amigos. 
É também nessa altura que surgem atitudes de isolamento ou de rebeldia. Há também a questão genética, o bullying, a rejeição do grupo e o stress crónico nas famílias. O imediatismo social dominante limita a capacidade de esperar e de resistir à frustração. 
A ansiedade vem antes da depressão 
e é um fator de risco para esta.

O que faz com que haja jovens que se sintam menos bem na escola, chegando mesmo a vomitar?

Vomitar pode traduzir uma fobia escolar ligada à angústia da separação ou ao excesso de exigência e à pressão para o sucesso. Muitas vezes, os adultos exigem em vez de ajudarem. Por exemplo, quando divulgam nas redes sociais o facto de o filho estar no quadro de honra… A intenção até pode ser boa, mas a comparação social cria sensações de incapacidade.

A adolescência não é uma doença. 
Há alguma coisa que está 
a escapar aos adultos?

O pior que se pode dizer a um adolescente aflito é: “Tu sabes, tu consegues.” Isto agrava o problema, conduz a estados de desistência e de falta de esperança. Outros erros comuns: numa turma, castigar os malcomportados sem ter a sensibilidade de avaliar o impacto que isso tem sobre os perfeccionistas, que vão para as aulas com uma ansiedade horrível; pais que ficam ofendidos se os jovens preferem programas com amigos às saídas com eles.

Que fatores contribuem 
para uma adolescência tranquila?

A partilha familiar, que é um fator protetor por excelência, mas existe pouco, 
e ter abertura para aceitar os deslizes e a experimentação dos miúdos. Imagine que o vê a fumar – mas é fumador, está em risco ou só a experimentar? Os pais também não devem ficar sentidos perante os primeiros sinais de autonomia dos filhos, o que é saudável. Quando os vossos filhos se queixam, levem-nos a sério. Evitem que meros mal-entendidos se tornem conflitos enormes. Saibam ouvir e respeitar para que eles não se sintam incompreendidos e cresçam com chão e esperança.

 

 

 

Carta aberta – Pedido de ajuda aos youtubers portugueses

Abril 9, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , ,

Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no https://observador.pt/ de 29 de outubro de 2017.

Deparo-me cada vez mais com crianças e pré-adolescentes com sintomas de ansiedade, insónias a despertares nocturnos, pesadelos e medos que estão, de alguma forma, relacionados com os vossos vídeos.

Caros youtubers, sejam aqueles com mais ou menos subscritores e seguidores e cujos vídeos têm mais ou menos visualizações, esta carta é um pedido de ajuda feito a todos vós.

Enquanto mãe e psicóloga, tenho acompanhado de perto o vosso trabalho. Sei os vossos nomes, conheço muitos dos vossos vídeos e insta stories, sei o que gostam de publicar e de que forma se distinguem uns dos outros. Já estive presente em 3 meets (é assim que se diz, certo?) e, ao longo das várias horas de espera (sentada no chão) pude observar quem vos segue. Centenas de crianças e pré-adolescentes, rapazes e raparigas. Uns pintam o cabelo de azul ou fazem totós no alto da cabeça para ficarem parecidos com os seus ídolos. Outros levam presentes ou desenhos para vos oferecer. Muitas raparigas choram ou gritam, ou ambos. Os rapazes, ainda fiéis aos bons estereótipos de género, controlam as lágrimas, mas é visível toda a emoção que sentem.

Em consulta, tenho-me deparado com uma frequência crescente com crianças e pré-adolescentes que apresentam sintomas de ansiedade, desde insónias a despertares nocturnos, pesadelos e medos variados. Na mente de muitas destas crianças os conteúdos destes sintomas estão, de alguma forma, relacionados com os vossos vídeos, sejam porque estes apresentam jogos de computador com conteúdos mais agressivos, ou porque testam a veracidade da história da Maria Sangrenta, ou porque abordam palhaços assassinos, ou porque… ou porque….

Naturalmente, a responsabilidade em supervisionar aquilo a que as crianças assistem na internet é dos pais e cuidadores. É destes o dever de estar atentos, filtrar os conteúdos em função da idade e nível de desenvolvimento dos filhos. No entanto, e por motivos diversos, nem todos os pais o conseguem fazer. Uns por falta de tempo e atenção. Outros porque acreditam que os filhos têm já essa capacidade de análise crítica. Outros porque são enganados pelos filhos, que navegam na internet quando os pais já dormem. E há ainda os pais que, embora atentos e com capacidade de supervisão, não conseguem, de todo, controlar aquilo a que os filhos assistem quando estão na escola, através dos telemóveis dos colegas.

Face a isto, surge o meu pedido de ajuda. Não vos peço, naturalmente, para alterarem a vossa estratégia ou o tipo de vídeos que, no fundo, vos caracteriza.

Peço-vos sim para, enquanto modelos a que estes jovens aspiram, ajudarem-nos a ultrapassar algumas dificuldades e a desenvolver algumas competências.

Como?

Antes de mais, explicar como funcionam os modelos. Os modelos têm um impacto muito importante nas aprendizagens que fazemos, na medida em que muito do que aprendemos é fruto daquilo que observamos. E ao observarmos modelos pelos quais sentimos empatia e simpatia, e com os quais nos identificamos, de forma natural e, muitas vezes, de forma inconsciente, estamos a aprender. Ora, será então natural que, quando os nossos modelos são reforçados ou punidos (por exemplo, quando se assustam, quando gritam, quando expressam medo ou alegria), também nós podemos experienciar essas mesmas emoções.

Ora, face a isto, de que forma imagino a vossa ajuda?

Imagino vídeos onde possam expressar dificuldades em algumas situações, em que não desistem, e em que pensam na melhor forma para ultrapassar todo o tipo de obstáculos. O que chamamos de modelos de confronto, ou seja, modelos que não são perfeitos (e com quem mais facilmente todos nos identificamos), mas que encontram estratégias adequadas para lidar com os problemas. São estes modelos que apresentam uma maior probabilidade em ser seguidos e imitados.

Imagino vídeos a que as crianças possam assistir e aprender essas mesmas estratégias.

Como lidar com os medos? Sim, porque todos temos medos.

Como lidar com a ansiedade? Sim, porque todos nós sentimos ansiedade.

O que fazer perante uma dificuldade? Como tomar uma decisão mais adequada? Sim, porque todos temos dúvidas em relação à forma como lidamos com a adversidade.

Mas há mais. Se me permitem, imagino ainda algo adicional. Imagino que nos vossos meets sugerem aos fãs que levem, por exemplo, comida ou ração para os animais abandonados, roupa ou calçado para as pessoas que vivem na rua, livros para as crianças que não os têm. E ao imaginar isto, visualizo centenas de crianças e pré-adolescentes ao rubro, por poderem ouvir, falar, abraçar e tirar fotografias com os seus ídolos mas, também, por sentirem que contribuem para o bem-estar de alguém.

É este o meu pedido de ajuda.

Até ao próximo meet,

Psicóloga clínica e forense, docente universitária

 

Página seguinte »


Entries e comentários feeds.