Uso em excesso de tablets e smartphones aumenta risco de depressão e suicídio

Dezembro 2, 2017 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do https://oglobo.globo.com/ de 14 de novembro de 2017.

Estudo com adolescentes americanos mostra relação entre tempo de tela e saúde mental

SAN DIEGO, Califórnia — Adolescentes que passam muitas horas diárias usando computadores, tablets e smartphones têm maior probabilidade de apresentar quadros de depressão e comportamentos suicidas, revela estudo realizado por pesquisadores das universidades estaduais de San Diego e da Flórida. A descoberta serve de alerta para que pais monitorem o chamado tempo de tela dos filhos.

— O aumento nos problemas de saúde mental entre adolescentes é alarmante — alertou Jean Twenge, professora na Universidade Estadual de San Diego, líder da pesquisa publicada nesta terça-feira no periódico “Clinical Psychological Science”.

Em parceria com Thomas Joiner e Megan Rogers, da Universidade Estadual da Flórida, Twenge e a graduanda Gabrielle Martin analisaram dados de questionários respondidos anonimamente por mais de 500 mil adolescentes e cruzaram os números com estatísticas sobre suicídios do Centros para Controle e Prevenção de Doenças dos EUA.

Os resultados mostraram que a taxa de suicídio para garotas entre 13 e 18 anos aumentou 65% entre 2010 e 2015, e o número de meninas sofrendo com comportamentos relacionados ao suicídio — falta de esperança e pensamentos, planos e tentativas de suicídio — subiu 12% no mesmo período. O número das que relataram sintomas de depressão severa cresceu 58%.

— Quando eu vi pela primeira vez esse aumento repentino em questões de saúde mental, não estava certo sobre as causas — afirmou Twenge. — Mas esses mesmos questionários perguntavam aos adolescentes como eles gastavam o tempo de lazer, e entre 2010 e 2015, os adolescentes aumentaram o tempo gasto com telas e diminuíram em outras atividades.

Os pesquisadores voltaram aos números para checar se existia alguma correlação estatística entre o tempo de tela com sintomas depressivos e comportamentos suicidas. Eles descobriram que 48% dos adolescentes que gastam cinco ou mais horas por dia em dispositivos eletrônicos relataram ao menos uma característica relacionada ao suicídio, contra apenas 28% dos que passam menos de uma hora por dia com telas. Sintomas de depressão também são mais comuns em adolescentes que gastam muito tempo em tablets, smartphones e computadores.

O resultado está em linha com estudos anteriores, que relacionaram o maior tempo gasto em redes sociais com a tristeza.

Do lado positivo, os pesquisadores descobriram que o uso do tempo livre para interações sociais, esportes, exercícios físicos, lição de casa, cultos religiosos, entre outras atividades, está relacionado a menos sintomas depressivos e de suicídio. Além disso, os cientistas afirmam que não é preciso abandonar completamente os dispositivos eletrônicos, apenas limitar o uso a uma ou duas horas diárias.

— Apesar de não podermos garantir que o uso crescente dos smartphones causou o aumento nos problemas de saúde mental, isso foi de longe a maior mudança na vida dos adolescentes entre 2010 e 2015 — disse Twenge.

O estudo citado na notícia é o seguinte:
Increases in Depressive Symptoms,  Suicide-Related Outcomes, and Suicide  Rates Among U.S. Adolescents After 2010  and Links to Increased New Media Screen  Time

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Há jovens que enviam mensagens agressivas a si próprios na Internet, revela estudo

Outubro 31, 2017 às 1:30 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 30 de outubro de 2017.

Karla Pequenino

Investigadores americanos acreditam que o problema está por trás de alguns casos de suicídio

Por vezes, quem é alvo de mensagens ofensivas na Internet é também quem as escreve e envia a si próprio, sob pseudónimo. O problema existe, pelo menos, entre jovens. Um grupo de investigadores norte-americanos revelou que cerca de um em cada 20 adolescentes (entre os 12 e os 17 anos) envia mensagens agressivas a si mesmo. O alerta vem num estudo publicado esta semana na revista cientifica Journal of Adolescent Health.

“O autoflagelo digital [digital self-harm, no original], como chamamos à tendência, ocorre quando um individuo cria uma conta anónima online e a utiliza para enviar insultos e ameaças a si próprio”, explica ao PÚBLICO Sameer Hinduja, um investigador em cyberbullying da Universidade Atlântica da Florida, que participou no estudo.

O problema, explica, veio à tona em 2013, após o suicídio de uma jovem britânica de 14 anos. A morte de Hannah Smith foi inicialmente associada ao bullying que sofria através do site de mensagens Ask.fm, onde lhe escreviam “morre, toda a gente ficará mais feliz” ou “faz-nos um favor e mata-te”. Porém, uma investigação posterior concluiu que 98% das mensagens de ódio recebidas tinham sido enviadas pela própria adolescente. A história de Natalie Natividad, em 2016, no Texas, é semelhante. Mas não são as únicas.

Dos 5593 jovens americanos inquiridos pela equipa de Hinduja, mais de 300 (6%) admitiu já ter enviado mensagens agressivas a si próprio. Metade (51,3%) disse que apenas o tinha feito uma vez, mas 13,2% admitiu fazê-lo múltiplas vezes.

Para Hinduja é uma percentagem relevante. “Os pais já não podem ignorar a possibilidade de que uma mensagem ofensiva recebida pelos seus filhos tenha vindo dos seus próprios filhos”, frisa o investigador. “Sempre que um jovem experiencie cyberbullying, há um problema que tem de ser resolvido. Especialmente se o emissor e o receptor forem a mesma pessoa.”

Os motivos variam: desde jovens que o fazem como uma forma de diversão, a pessoas que querem testar a reacção dos amigos, ou casos de indivíduos deprimidos que se querem obrigar a sentir pior. “Os estudantes que admitiram estar deprimidos, ou que se magoavam de outras formas [fora da Internet], tinham uma maior probabilidade de incorrer no comportamento”, nota Hinduja.

A idade e a etnia dos inquiridos não afectou as respostas, mas o género e a sexualidade, sim. O comportamento era mais prevalente em adolescentes que não se identificam como heterossexuais, e pessoas que tinham sido vítimas de bullying no passado. Os rapazes também tinham mais probabilidade de enviar mensagens ofensivas a si próprios, mas era frequentemente como uma piada ou forma de conseguir atenção de amigos ou interesses amorosos.

Já o local das ofensas – Facebook, Instagram, Twitter, Ask.fm ou outra rede social – não é relevante para o investigador: “Não acho que faça a diferença. De momento não sei se acontece mais numa plataforma que noutra, apenas que está a acontecer e que os estudantes admitem que o fazem.”

Segundo o relatório dos investigadores, “entre 13 e 18% de jovens em todo o mundo envolve-se em algum tipo de comportamento para se magoar durante a sua vida e este tipo de comportamento continua a crescer nas últimas duas décadas”. Para Hinduja, as agressões verbais, através da Internet não podem ser descuradas.

“Estas investigações mostram que comportamentos autodestrutivos vêm antes de tentativas de suicídio”, frisa Hinduja. “Queremos impedir que isto aconteça, e é por isso que estamos a tentar alertar para o problema das ofensas autodirigidas através do mundo digital”.

 

 

 

Um em cada dez jovens acessou informações sobre suicídio na internet, diz pesquisa

Outubro 26, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da https://oglobo.globo.com/ de 6 de outubro de 2017.

Cyberbullying e acesso à publicidade por crianças e adolescentes também preocupam

RIO — Uma das maiores preocupações dos pais é sobre os riscos aos quais os filhos estão expostos na internet, e a pesquisa TIC Kids Online, divulgada nesta quinta-feira pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), mostra que os perigos são relevantes. Um em cada dez adolescentes entre 11 e 17 anos já teve contato com conteúdo sobre formas de cometer suicídio, mesmo percentual para materiais sobre uso de drogas. 13% acessaram conteúdo sobre formas de machucar a si mesmo, e 20% viram receitas para ficarem muito magros.

Os dados são referentes ao ano passado e mostram avanço em relação a 2015. A próxima edição do estudo deve revelar um crescimento ainda maior, já que o início deste ano foi marcado pela polêmica do desafio da “baleia azul”, junto com a repercussão do seriado “13 reasons why”. Sobre o cyberbullying, 41% dos pesquisados disseram já ter visto alguém ser discriminado na rede, sendo a cor ou raça (24%), a aparência física (16%) e a homossexualidade (13%) os principais fatores.

Por outro lado, a pesquisa também mostra que a segurança on-line das crianças e adolescentes é uma preocupação dos pais. 69% deles responderam que os filhos utilizam a rede com segurança, percentual que se mantém praticamente estável nos últimos anos.

As mídias tradicionais como televisão, rádio, jornais ou revistas (54%), destacam-se como fontes de informações sobre o uso seguro da internet, segundo a declaração dos pais, seguidas por familiares e amigos (52%) e por meio da própria criança ou adolescente (51%). Já as menções à escola (35%) ou ao governo e autoridades locais (26%) são menores.

— Esse resultado revela a necessidade de difusão e ampliação do debate sobre oportunidades e riscos associados ao uso da Internet por iniciativa de políticas públicas — comentou Alexandre Barbosa, gerente do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), órgão que executou a pesquisa.

O contato com a publicidade é outra preocupação crescente: 69% dos jovens entre 11 e 17 anos disseram ter tido contato com propaganda em sites de vídeos, percentual que era de apenas 30% em 2013, e 62% tiveram contato com publicidade em redes sociais. No caminho inverso, 48% dos adolescentes buscaram informações sobre marcas ou produtos na internet.

— Se, por um lado, as crianças e adolescentes estão cada vez mais conectadas, elas estão também cada vez mais expostas a conteúdos mercadológicos na rede — avaliou Barbosa. — Esse é um desafio que precisa ser tratado por pais, educadores e formuladores de políticas públicas, especialmente se levarmos em consideração que o reconhecimento do caráter comercial da publicidade na internet é mais complexo para o público infantil.

DISPARIDADES REGIONAIS E SOCIOECONÔMICAS

De acordo com a pesquisa, 82% das crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos são usuários de internet, o que corresponde a 24,3 milhões de pessoas, mas as disparidades regionais e socioeconômicas permanecem. Enquanto em áreas urbanas 83% das crianças e adolescentes estão conectados, em áreas rurais o percentual é de apenas 65%. Na região Sudeste, 91% dos entrevistados disseram acessar a rede, enquanto no Norte a taxa é de 69%. Nas classes A e B, 98% dos jovens estão nas redes, contra percentual de 66% nas classes D e E.

O celular se consolidou como o principal meio de acesso, sendo usado por 91% das crianças e adolescentes. Em 2012, na primeira edição da pesquisa, esse percentual era de apenas 21%. Por outro lado, o computador vem perdendo espaço: apenas 7% disseram usar apenas o computador para navegar na rede.

— Enquanto crianças das classes A e B têm à disposição uma variedade de dispositivos para acesso à rede, outras têm um ecossistema de acesso mais restrito — apontou Barbosa.

mais informações na notícia:

Cresce o percentual de crianças e adolescentes que procuraram informações sobre marcas ou produtos na Internet

 

Quando um jovem decide deixar de viver

Agosto 25, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto publicado na http://visao.sapo.pt/ de 15 de agosto de 2017.

ROBERTO SCHMIDT

Patrícia Fonseca

No espaço de três meses, três alunos da mesma escola secundária mataram-se da mesma forma, debaixo de comboios na zona Oriental de Lisboa. A VISÃO teve acesso a um inquérito realizado a 150 colegas das vítimas.

Antes de entrarem na estação de Braço de Prata, em Lisboa, os comboios descrevem uma pequena curva. Quem está na plataforma pode vê-los surgir, a uma centena de metros, como se brotassem das entranhas da Terra. Quase todos desaparecem na outra ponta do horizonte de forma tão rápida como apareceram – são Intercidades e Alfas Pendulares que seguem para a Gare do Oriente.

Naquele início de tarde tórrido de maio, Bruna saiu da escola à hora de almoço, meteu-se por um atalho de terra batida e, em poucos minutos, chegou à linha de caminho de ferro. Quando o maquinista entrou na curva, viu-a no meio da via, caminhando de forma aparentemente descontraída e desligada do mundo, de costas para o comboio. Naqueles breves segundos, em que travou a fundo, vários passageiros aperceberam-se do que estava prestes a acontecer. Entraram todos em pânico, ficaram depois em estado de choque. Não havia como evitar o pior.

A menina de 14 anos teve morte imediata. A polícia chegaria depois para recolher o seu corpo, na zona da curva traiçoeira, bem como os ténis e a mochila da escola, abandonados ao lado da linha. Nessa altura, ainda não sabiam – não podiam saber –, que aquela tragédia estava longe de ter sido um acidente. Bruna tinha decidido morrer assim.

A maldita baleia azul

As marcas de automutilação no seu corpo, bem como as informações recolhidas posteriormente pelas autoridades junto da família e de amigos, levaram a classificar a sua morte como suicídio – e como o primeiro caso fatal devido ao “jogo” Baleia Azul, tal como viria a ser revelado no programa Sexta às 9, da RTP. O inquérito à sua morte, tal como todos os que estão sob investigação relacionados com o fenómeno do chamado “jogo da morte”, está nas mãos da Unidade de Combate ao Crime Informático da Polícia Judiciária e da Direção Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), por determinação da procuradora-geral da República. Estavam em investigação cerca de 20 casos em maio mas, neste momento, o Ministério Público e a PJ, contactados pela VISÃO, preferem não adiantar quaisquer pormenores sobre a evolução da situação.

Bruna estaria deprimida, já tinha tentado suicidar-se antes e, por esse motivo, uma familiar próxima tinha-a levado às urgências do Hospital D. Estefânia, alguns dias antes. Medicaram-na com tranquilizantes e enviaram-na para casa, com uma carta dirigida ao médico de família, para que este a referisse para ser mais tarde atendida nos serviços de Pedopsiquiatria. Os seus problemas familiares eram conhecidos na escola e na Comissão de Proteção de Crianças e Jovens em Risco da sua área de residência, onde estava referenciada desde fevereiro.

A cadeira vazia

Naquele 15 de maio, Bruna tinha ido à aula de Português. Desde então, e até ao último dia de aulas, na semana passada, a sua professora não conseguia deixar de olhar para a sua cadeira vazia com um misto de tristeza e inquietação.

“Quando há um aluno que vem à escola de manhã e de tarde se suicida, o mundo fica do avesso e o professor questiona a sua função e, pior ainda, questiona-se a si próprio”, diz Carmo Machado. Até porque esta não era a primeira aluna da Secundária D. Dinis a acabar com a sua vida neste ano letivo. Foi a terceira. Três mortes em sequência, que ocorreram da mesma forma, nas linhas de comboio da zona de Lisboa, em três meses seguidos.

Em março, Tiago, de 16 anos, a frequentar o 11º ano, atirou-se para a frente de um comboio depois de deixar uma longa carta à mãe, onde explicava que a sua decisão não era culpa dela, nem de ninguém. Ele simplesmente não gostava de si e da sua imagem. Sonhava ser modelo mas tinha uma deformação no rosto devido a um problema de saúde, acreditava que só iria piorar com a idade, e não queria viver assim.

Em abril, Tiago, de 17 anos, no 12º ano na área de Economia, pôs termo à vida na mesma linha férrea. As autoridades policiais ainda consideraram a hipótese de poder ter sido sugado para a linha devido à velocidade a que o comboio circulava, mas tudo indica que se atirou devido à depressão que sofria, sendo acompanhado por um psiquiatra. Também ele terá deixado uma nota suicida à família, segundo os seus amigos.

“Cada vez mais me convenço de que a primeira tarefa de um professor é trabalhar a relação humana com os seus alunos, mostrar-lhes novas perspetivas de vida, deixar uma semente de mudança em alunos que dela necessitam avidamente. Jovens adolescentes a quem, por vezes, falta quase tudo: famílias estruturadas, ambientes propícios à aprendizagem e à curiosidade para aprender, autoestima, autoconfiança e até comida…”, refere Carmo Machado.

E a escola, sabe-o bem, pode ser um lugar de grande solidão. “No meio de centenas de jovens barulhentos, há sempre um silêncio intransponível dentro de alguns. Quantas vezes, numa aula em frente a três dezenas de seres fervilhantes de vida, de sonhos e de mágoas, não me senti impotente para conseguir chegar a todos? Quantas vezes não me apeteceu simplesmente ignorar o programa? Destruir o manual? Sair da sala com eles para as ruas da cidade? Explicar-lhes que a vida é dura e difícil, injusta muitas vezes, implica ganhos e perdas, mas vale a pena ser vivida até ao fim. Sem batota.”

O que fazer?

Formalmente, não existem diretivas do Ministério da Educação sobre a forma como os professores, ou as escolas, devem agir em casos de suicídio. Cada instituição atua em função dos meios que dispõe e, claro, da sensibilidade das direções. A Direção-Geral de Educação, em resposta à VISÃO, esclarece apenas são promovidas ações de “Promoção da Saúde Mental” ao longo do ano em várias escolas, em articulação com a Direção-Geral de Saúde, e que “nos casos de depressão ou da manifestação de qualquer outra sintomatologia no âmbito da saúde mental, o psicólogo escolar deve avaliar a situação e, se necessário, articular com os serviços de saúde competentes”. No caso da D. Dinis, há um psicólogo (da área educativa, não clínica) para cerca de mil alunos.

A VISÃO sabe que, apesar do Plano Nacional de Prevenção do Suicídio 2013-2017 destacar as escolas como um terreno privilegiado de ação, não foram disponibilizados meios adicionais para a D. Dinis lidar com a morte destes três alunos. Foi apenas recomendado um reforço das interações entre a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens em Risco, a Administração Regional de Saúde e a Santa Casa da Misericórdia, que já colaboram usualmente com a escola, acompanhando situações previamente sinalizadas.

A direção da D. Dinis (que preferiu não prestar declarações) decidiu promover, embora sem saber se da forma mais correta, encontros com pais e professores para abordar o tema. A PSP, através do programa Escola Segura, reforçou as ações de prevenção junto dos estudantes. E também psicólogos do programa +Contigo, desenvolvido pela Escola Superior de Enfermagem de Coimbra, foram convidados a deslocarem-se a Chelas pelo corpo diretivo. Inicialmente, focaram-se na sensibilização dos professores, para que pudessem identificar sinais de alerta nos alunos: tristeza, isolamento, alteração nos padrões de rendimento escolar, desinteresse geral por todas as atividades, comportamentos violentos e impulsivos, entre outros. O trabalho será retomado em setembro, agora junto dos alunos. E, mais uma vez, pro bono. As verbas que este programa recebia da Direção-Geral de Saúde foram “cativadas” e, desde há dois anos, não há financiamento.

Tema não deve ser tabu

O enfermeiro José Carlos Santos, fundador do +Contigo em 2009, confirma as dificuldades financeiras, embora garanta que, devido à “generosidade” da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra e da Administração Regional de Saúde do Centro, o programa continue a funcionar a nível nacional, tendo envolvido, só este ano, cerca de 6400 alunos, do Algarve aos Açores. Sobre a intervenção prevista na escola de Lisboa, e sem querer adiantar pormenores, reconhece apenas que o caso é raro no panorama nacional, pelo facto de terem sucedido três suicídios em sequência, mas que o desespero que revela é, entre os jovens, cada vez mais usual.

“No último ano, o aumento de comportamentos autolesivos e suicídios foi muito evidente”, revela, preocupado. Por isso não se cansa de repetir que, sempre que há uma situação detetada numa escola, “não se deve negar o acontecimento” ou fingir que ele não sucedeu. “É um problema grave e, sem uma rápida intervenção, há sérios riscos de fenómenos de imitação.”

Falar sobre o assunto, garante, não é desaconselhado – muito pelo contrário. “Este tema não pode ser tabu, tem de se trabalhar o luto, resolver as questões da culpa e não permitir que se glorifique o que fizeram, entendendo-os como atos de coragem.” Um jovem que se suicida, recorda, “está numa situação de grande sofrimento” e “quase sempre existem questões do foro mental associadas”. Há uma vulnerabilidade crescente nas raparigas, nota, e os alunos do 10º ano têm demonstrado maiores níveis de depressão. Já não é possível ajudar os que morreram, mas há muitos à espera de um sinal de atenção, nas contracurvas da vida.

Reportagem publicada na VISÃO 1272 de 20 de julho

 

 

 

 

Há entre os jovens uma “explosão de frustração”

Agosto 24, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do https://www.publico.pt/ a Augusto Cury no dia 3 de junho de 2017.

Bárbara Wong

Augusto Cury é psiquiatra e autor de dezenas de livros. Muitos são de auto-ajuda, outros são aquilo a que o próprio chama “romance psiquiátrico”, ou seja, ao longo da trama o autor vai introduzindo informação técnica e científica, de uma forma pedagógica. Os seus livros vendem milhões e alguns já chegaram à televisão.

O brasileiro veio a Portugal para o lançamento de O Homem mais Inteligente da História (editado pela Pergaminho) em que revela como se converteu ao cristianismo ao estudar a “mente fascinante de Jesus”, mas sobretudo confessa uma enorme preocupação com a educação das novas gerações e com as doenças mentais.

Critica os pais que compram os filhos com bens materiais…

Em todo o mundo há pais que transferem dinheiro, carros, casas, mas não conseguem falar das suas lágrimas para que os filhos venham a ser capazes de chorar as deles. É preciso educação socioemocional. Os pais não se apercebem de que quando elevam o tom de voz, quando criticam ou comparam, tornam-se predadores da emoção dos seus filhos. Os pais pioram os seus filhos porque não conhecem o funcionamento da mente. O mesmo fazem os professores.

Mas também vemos pais que mostram desinteresse. Por exemplo quando um filho está a chamar a atenção e o pai dá-lhe um smartphone

Há um problema sério no mundo. Já sabemos que os ecrãs não acalmam nem aliviam a ansiedade, mas sufocam o tédio, dando a falsa noção de que as crianças e jovens estão calmos. E os pais utilizam essa ferramenta porque não conseguem brincar, dialogar, ajudar os filhos a reflectir porque eles também estão stressados. Eles também são vítimas da síndroma do pensamento acelerado. Uma criança de sete anos tem mais informação do que tinha um imperador no auge de Roma.

E isso tem consequências?

Isso gera agitação mental e sintomas como dores de cabeça, musculares, cansaço, sofrimento por antecipação, baixo limiar para a frustração, dificulta a memória. Sintomas que pais e crianças sentem. Os pais eximem-se da sua responsabilidade de criar alternativas para educar de uma maneira inteligente. Por isso é que as crianças e adolescentes estão cada vez mais agitados.

E são diagnosticados como hiperactivos?

Está a confundir-se a síndroma do pensamento acelerado com hiperactividade e há erros de diagnóstico no mundo todo. Digo isso no livro: estão a ser prescritas drogas de obediência para um problema que nós criámos.

Há um problema maior de saúde mental do que há dez ou 20 anos?

Hoje é gravíssimo! Estamos assustados porque antigamente uma pequena quantidade de pessoas poderia ter um problema de saúde mental, hoje sabemos que uma em cada duas tem ou vai desenvolver um transtorno emocional. Metade da população! Destes quantos procuram tratamento? Talvez nem 1%. Por isso, o melhor é a prevenção. É mais inteligente e democrático. Neste livro falo de ferramentas preventivas.

Tais como, por exemplo?

Costumo dizer que não devemos apenas fazer higiene oral, mas mental. Isso é prevenção. A cada 40 segundos suicida-se uma pessoa e a cada quatro segundos uma pensa em suicídio.

Falou de automutilação, de suicídio, como é que olha para o fenómeno da Baleia Azul?

Há 20 anos que estamos numa epidemia de suicídio. E é um paradoxo porque estamos perante uma poderosa indústria do lazer, capitaneada pelo cinema, o desporto, os smartphones. Mas temos a geração mais triste e com a mais baixa capacidade de contemplar o que é belo, de elaborar experiências, de fazer muito do pouco. O índice de suicídio entre os dez e os 15 anos aumentou 40%. Esse jogo é apenas a ponta do icebergue.

Quem são os jovens que pensam no suicídio? São os que estudam mas não têm perspectivas para o futuro?

No Brasil, o maior estrago da corrupção não foi nas finanças do país, mas no inconsciente colectivo de toda uma geração de jovens que viram a sua esperança ser esmagada. A falta de perspectiva, a competitividade atroz na sociedade capitalista, a dificuldade de acesso à universidade são elementos stressantes, mas não explicam a explosão de frustração. A dificuldade está em gerir as emoções. A humanidade não estava preparada para a avalanche de estímulos. Por isso, defendemos que as pessoas seleccionem a informação. Nas escolas deveriam ensiná-los a ler jornais e revistas, para que não sejam manipulados por políticos autoritários com soluções mágicas, radicais e inclusive fascistas que seduzem milhões de jovens. Estou muito preocupado com isso.

Mas há esperança!…

A esperança está na educação. Sem uma educação socioemocional e de gestão da emoção a nossa espécie é quase inviável porque os instintos de sobrevivência prevalecem sobre a cooperação, generosidade e altruísmo.

Mas neste livro [O Homem mais Inteligente da História] há uma forte crítica ao actual sistema de ensino e à forma como as crianças são educadas naquilo a que chama a “era da informação”…

Exactamente. Temos de mudar da “era da informação” para a “era do eu como gestor da mente humana”. Sem isso não vamos produzir mentes brilhantes, com consciência crítica.

O que é preciso mudar nas escolas?

Se pegarmos nos alunos do pré-escolar até ao doutoramento, verificamos que não damos ferramentas para que se tornem autores da sua própria história, para terem consciência crítica, capacidade de escolha. Não desenvolvem capacidades para colocar-se no lugar do outro, serem resilientes, tolerantes à frustração, generosos. Estes jovens estão preparados para os desafios profissionais, sociais, para as preocupações com a segurança alimentar e aquecimento global, mas não passarão de “meninos” com um diploma nas mãos. Portanto, a educação mundial tem de contemplar a gestão da emoção.

E como é que isso se faz?

No Brasil estamos a aplicar o Programa Escola da Inteligência, que é um projecto de gestão de emoção, inserido no currículo. Temos 250 mil alunos do pré-escolar ao secundário a quem, uma vez por semana, ensinamos a desenvolver capacidades para protegerem a emoção. Para isso, é preciso entregarmo-nos sem esperar nada em troca. Segundo, entender que atrás de uma pessoa que fere está uma pessoa ferida. Terceiro, não ser agiota da emoção. Os que elevam o tom de voz, apenas apontam falhas, não brincam, não transformam as crises em oportunidades de [as crianças] se reinventarem são pais e professores implacáveis.

Existem outras regras?

Sim, a quarta é a vingança que nos alivia um minuto, enquanto o perdão inteligente alivia uma vida. Vivemos numa era de autopunição e é preciso ensinar as crianças e os adolescentes a perdoarem os outros e a si mesmos. E há outras. O importante é perceber que não adianta fazermos seguros de vida se não protegermos o maior de todos os bens, que é a emoção.

 

 

 

 

 

“Quando há um aluno que vem à escola de manhã e de tarde se suicida, o mundo fica do avesso”

Agosto 21, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto da http://visao.sapo.pt/ de 19 de julho de 2017.

Carmo Machado

Professora

Professora de Português da Secundária D. Dinis, em Lisboa, escreve sobre o ano letivo mais duro da sua carreira, marcado pelo suicídio de três alunos.

ma vez, numa reunião em início de ano letivo, um colega alto e musculado afirmou a respeito de uma turma difícil que me tinha cabido em sorteio: “Quando os vi pela primeira vez, tive medo.”

Eu nunca tive medo. Já me senti impotente, desesperada, frustrada, revoltada e mesmo agoniada. Com medo, nunca. Já cheguei a sair da sala a chorar, arrastando-me com o peso da frustração na mochila. Já me apeteceu dar um estalo a um aluno insolente. Já vivi momentos que não desejo ao meu pior inimigo. Mas medo, não. Já contei várias até dez, já respirei fundo e engoli em seco em várias aulas para conseguir avançar. Mas medo nunca senti. Mesmo quando recebo turmas de alunos mal educados e repetentes que olham para mim como um inimigo e um alvo a abater. Já tive aulas que não foram aulas mas autênticos campos de batalha, guerras abertas entre a agressividade do aluno e a desilusão do professor.

Não, nunca senti medo. Pelo contrário, enfrento a solidão das suas almas e penso para comigo que aqueles alunos precisam ainda mais de mim do que os outros, aqueles meninos da escola “in” do bairro chique de Lisboa onde poderia ter ficado a trabalhar quando me profissionalizei. Porém, a minha vida profissional – se calhar como todas as vidas – é feita de desafios. Só que os meus desafios deixam marcas diariamente dentro de mim.

Quando, há vinte e sete anos, comecei a ensinar Português numa escola pública situada numa zona carenciada da cidade de Lisboa, nunca pensei chegar até aqui, onde hoje ao escrever esta crónica, me encontro: num estado físico e psicológico tal que nem cem dias de férias consecutivos conseguiriam apaziguar. Ser professora de alunos que encaram a escola como um fardo e uma mera obrigação intensifica o processo de desgaste a que esta profissão já há muito me habituou. Os anos letivos sucedem-se numa azáfama sem deixarem tempo para o que verdadeiramente interessa. A sobrecarga burocrática, os exageros programáticos, a massa humana constituída por trinta e um alunos por turma, o salário estagnado há anos, a indisciplina permanente dentro e fora da sala de aula, as reuniões infrutíferas, os testes obrigatórios, a preparação para o exame e o resto… O resto que é tudo, afinal.

Quando há um aluno que vem à escola de manhã e de tarde se suicida, o mundo fica do avesso e o professor questiona a sua função e, pior ainda, questiona-se a si próprio. Cada vez mais me convenço de que a primeira tarefa de um professor é trabalhar a relação humana com os seus alunos, mostrar-lhes novas perspetivas de vida, deixar uma semente de mudança em alunos que dela necessitam avidamente. Jovens adolescentes a quem, por vezes, falta quase tudo: famílias estruturadas, ambientes propícios à aprendizagem e à curiosidade para aprender, autoestima, autoconfiança e até comida…

Uma das principais dificuldades que sinto no meu dia a dia profissional, enquanto professora / orientadora – mais para o exame do que para a vida – é encontrar tempo para estar atento ao outro, observar os seus comportamentos, ouvi-lo, apoiá-lo. Porque a escola, sei-o bem, pode ser um lugar de grande solidão. No meio de centenas de jovens barulhentos há sempre um silêncio intransponível dentro de alguns.

Quantas vezes, numa aula em frente a três dezenas de seres fervilhantes de vida, de sonhos e de mágoas, não me senti impotente para conseguir chegar a todos? Quantas vezes não me apeteceu simplesmente ignorar o programa? Destruir o manual? Sair da sala com eles para as ruas da cidade? Explicar-lhes que a vida é dura e difícil, injusta muitas vezes, implica ganhos e perdas mas vale a pena ser vivida até ao fim. Sem batota.

 

 

 

 

Por que o número de crianças hospitalizadas por tentativa de suicídio dobrou nos EUA?

Agosto 19, 2017 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto da http://www.bbc.com/portuguese/ de 7 de agosto de 2017.

Ricardo Senra Da BBC Brasil em Washington

Relatos de mães e pais pedindo ajuda após encontrarem seus filhos à beira da morte após tentativas de suicídio se tornaram comuns em fóruns online e redes sociais nos Estados Unidos.

“Minha filha tomou uma garrafa inteira de Lexapro e meia garrafa de Wellbutrin (ambos antidepressivos). Ela vomitou cinco vezes antes de me contar, quando acordei para trabalhar naquela manhã. Essa é uma visão que nenhum pai deveria ver”, conta Hammer, em um desabafo que deu origem a mais de 15 relatos semelhantes.

Ann diz que não sabe o que fazer para ajudar a filha. “Ela tem 15 anos e tentou se suicidar hoje ingerindo produtos de limpeza. (…) Ela já tinha tentado se matar vários meses atrás com um corte no pulso.”

Claudia fala sobre culpa e vergonha.

“Minha filha, uma criança linda e talentosa, teve uma overdose ontem e eu sinto vergonha por não tê-la ajudado e protegido suficientemente. Sinto culpa, porque meu trabalho é garantir que a vida dela seja boa e segura. Mas no fundo, muito no fundo, também sei que a vida hoje é incrivelmente difícil para as crianças. As cobranças e expectativas parecem se mover muito rápido para que eles acompanhem, e eles sentem que falharam.”

Phyllis fala sobre o filho, um menino de 15 anos. “Encontrei meu filho no meu quarto, em overdose depois de tomar meus remédios. Não consigo parar de pensar no que poderia ter acontecido. Não consigo dormir, não consigo comer, e aquela manhã não sai da minha cabeça. Encontrei-o deitado na minha cama, quase sem respirar.”

As tragédias se refletem nos resultados de dois relatórios divulgados recentemente nos EUA. Eles chamam atenção para um crescimento sem precedentes nas tentativas e mortes consumadas por suicídio entre crianças e adolescentes de todo o país.

As meninas encabeçam o grupo que mais cresce nesse ranking, evidenciando os impactos de problemas geralmente associados a adultos – como depressão, ansiedade, bipolaridade e pressão por padrões de beleza inatingíveis – na saúde mental de quem ainda frequenta a escola.

Recorde

De acordo com dados divulgados na semana passada pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças do governo americano, as mortes de meninas entre 15 e 19 anos por suicídio atingiram um recorde em 40 anos – e dobraram entre 2007 e 2015, com 5,1 casos para cada 100 mil.

O fenômeno atinge também crianças e adolescentes do sexo masculino, cujas mortes ainda acontecem em maior número, mas crescem em ritmo menos acelerado: 30% no mesmo período (são 14,2 casos para cada 100 mil), segundo o órgão oficial.

Em números absolutos, em 2015, foram registrados 524 suicídios de meninas e 1.537 de meninos entre 15 e 19 anos.

Outro relatório apresentado recentemente no Encontro Anual de Sociedades Pediátricas dos EUA aponta que as internações de menores de idade por pensamentos ou tentativas de suicídio dobraram entre 2008 e 2015.

O estudo se focou em crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos e, novamente, apontou que o grupo que mais registrou aumento nas internações é o das meninas – que atualmente respondem por 2 em cada 3 dos casos.

O suicídio é hoje a segunda principal causa de mortes de crianças e jovens em idade escolar (12 a 18 anos) nos EUA, ficando atrás apenas de acidentes.

O volume impressiona: a taxa de suicídios infanto-juvenis, segundo o governo americano, é maior que a soma das mortes por câncer, doenças cardíacas e respiratórias, problemas de nascimento, derrame, pneumonia e febre.

Pressão online

Chefe da ala de saúde comportamental do hospital pediátrico Cook Children’s, no Texas, a psicóloga Lisa Elliott diz que os dados recém-revelados “são absolutamente dolorosos, mas não são uma surpresa”.

“Nós precisamos tirar os estigmas da saúde mental”, diz a PhD, alertando para a incidência dos quadros entre menores de idade, e não só entre adultos. “Problemas de saúde mental têm que ser vistos pelos pais como qualquer doença, da mesma maneira que os problemas de coração são.”

Em coro com outros especialistas, ela afirma que o quadro se agrava pelo uso irresponsável de redes sociais, que pode gerar competitividade e uma busca por padrões de beleza e desempenho.

“As redes podem ter impacto negativo sobre a autoestima das meninas e isso aumenta o isolamento delas”, avalia Elliott. “Quando notam que não têm uma vida tão perfeita ou glamourosa quanto a de outros, elas concluem que ‘algo anormal ou errado está acontecendo comigo’.”

Segundo a psicóloga, a sensação de invisibilidade nas redes impulsiona práticas ligadas ao bullying entre jovens de ambos os sexos.

“O anonimato traz uma desumanização, uma perda de empatia pelos outros, especialmente aqueles diferentes de nós. Assim perdemos a capacidade de respeitar as opiniões diferentes, o que infelizmente resulta em mais bullying e mais isolamento.”

À BBC Brasil, Eileen Kennedy-Moore, psicóloga e autora de diversos livros sobre saúde mental infantil, diz que não faz sentido proibir o acesso a redes sociais (“os celulares e tablets estão aí, não há como lutar contra isso”), mas que os pais precisam colocar “limites sensatos” na relação entre seus filhos e aparelhos eletrônicos.

“Adolescentes e crianças sempre tiveram a sensação de uma audiência imaginária, de que todos estão sempre olhando para eles”, conta a especialista, que vive e trabalha em Nova York.

“Com as redes sociais, a experiência de ser vigiado e julgado o tempo todo aumenta”, avalia.

Segundo Kennedy-Moore, os aparelhos eletrônicos “também precisam ser colocados para dormir, já que nada de bom acontece nesses telefones depois da meia-noite”.

“As relações online podem ser uma fonte de apoio e conforto. Pacientes de câncer, por exemplo, encontram grupos de apoio na internet que são maravilhosos”, diz Moore. “Mas amizades online não podem substituir as amizades cara a cara, e os pais precisam prestar atenção nisso.”

Economia e ‘contágio’

Daniel J. Reidenberg, diretor do Conselho Nacional para Prevenção de Suicídios, alerta para outras raízes associadas ao aumento dos suicídios infanto-juvenis.

“Há uma pressão extrema sobre esse grupo por competição, ambições e preocupações com o futuro”, diz.

“Crises econômicas também têm impacto, uma vez que alguns jovens se sentem um fardo para as famílias. Jogos, vídeos, TV e filmes também influenciam muito as mentes dos jovens. Outra chave para a questão são outros suicídios a que esses jovens expostos. O contágio do suicídio é real, e os jovens são particularmente sensíveis a ele”, diz o especialista à BBC Brasil.

Segundo Lisa Elliott, enquanto meninos que tentam cometer suicídio apelam para métodos mais violentos, como o uso de armas, os casos de meninas são normalmente associados ao excesso de substâncias controladas e drogas ilícitas.

“Adolescentes não entendem completamente as drogas que estão ingerindo e suas potenciais consequências. Isso pode resultar em overdoses acidentais”, alerta.

De acordo com os entrevistados, os pais que buscam ajuda profissional normalmente contam que encontraram menções a suicídio nos telefones ou cadernos dos filhos, ou perceberam mudanças de comportamento, como isolamento e afastamento dos amigos, irritabilidade, problemas de sono e em notas escolares e falta de interesse em atividades que antes agradavam.

“A tentativa mostra muitas vezes que as crianças querem dizer que estão muito bravas ou tristes, mas não sabem como articular isso”, avalia Kennedy-Moore. “E muitas pesquisas mostram que a maioria dos que tentam se suicidar acaba se arrependendo do ato.”

Para Elliott, os dados apontados pelas pesquisas não devem ser ignorados pelos pais – cujo maior erro costuma ser achar que histórias como as que abrem esta reportagem nunca acontecerão com pessoas próximas.

As referências a suicídios no noticiário, segundo a especialista, podem servir como oportunidade para conversas sobre o tema entre pais e filhos.

“Pergunte a eles por que acham que isso está acontecendo e se sentem algo semelhante”, diz. “Assim, você pode descobrir muito sobre o que eles ou seus amigos estão vivendo.”

A presença dos pais nas vidas das crianças e jovens é a estratégia mais eficaz, segundo os entrevistados.

“Muitas vezes, nós enchemos a agenda dos nossos filhos com atividades porque pensamos que é saudável, quando seria melhor ter mais tempo com relações humanas saudáveis e realmente gastar tempo em família com qualidade, sem dispositivos eletrônicos”, afirma Elliott.

 

 

Três vezes mais casos de Baleia Azul nas mãos da justiça

Julho 20, 2017 às 10:36 am | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Notícia do Jornal de Notícias de 20 de julho de 2017.

Três vezes mais casos de Baleia Azul nas mãos da justiça

 

 

“O problema são as mini-baleias azuis. E são milhões e milhões”

Junho 13, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do https://www.noticiasaominuto.com/ a Daniel Cotrim no dia 22 de maio de 2017.

POR Goreti Pera

Daniel Cotrim, psicólogo clínico na Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), considera que “qualquer adolescente pode entrar” num jogo como a Baleia Azul, movido pelo “desafio, aventura e risco”. Há, por isso, um papel importante que deve ser assumido pelos pais e uma preocupação acrescida que vai além do fenómeno atual: “O problema são as baleias azuis mais pequeninas, mais insidiosas, que se baseiam nas grandes”, alerta, em entrevista ao Notícias ao Minuto.

Surgiu numa rede social russa e proliferou pelo mundo. O jogo Baleia Azul, que convida os jogadores a cumprir 50 desafios que culminam no suicídio, fez até ao momento cerca de uma centena de vítimas mortais, uma delas em Portugal.

Há também relatos de várias vítimas e a preocupação pelos contornos de que o jogo se revestiu é assumida pelas autoridades de diversos países.

O Notícias ao Minuto conversou com Daniel Cotrim, psicólogo-clínico, sobre o que pode motivar um adolescente a ligar-se ao ‘jogo da morte’ e sobre os sinais a que os países e a comunidade escolar devem estar atentos.

O que leva um adolescente a jogar um jogo como a Baleia Azul?

Quando se fala de adolescentes, temos de ter em conta os sentimentos de descoberta, a ideia de revolta, de desafio. Juntamente com isto há sentimentos de alguma vulnerabilidade, de fragilidade e isolamento social, que é também provocado pela vivência do próprio adolescente em relação ao resto do mundo. O que faz um adolescente ir para um jogo destes é o facto de, apesar de ser perverso e nefasto, pegar pelo lado do desafio, aventura e risco, características associadas à adolescência. O mais perverso neste jogo é ter como destinatários os jovens que se encontram mais fragilizados e sozinhos, que podem ter problemas emocionais e que estão mais disponíveis para corresponder a este tipo de solicitações.

Os adolescentes, ainda que vivam numa fase conturbada da vida, têm noção dos limites? Quando entram neste jogo, saberão que culmina no suicídio…

Temos que pensar que os adolescentes querem o desfio, mesmo quando o desafio pede coisas estranhas e horríveis e que podem culminar no suicídio. O que o adolescente pensa sempre é que não vai fazer isso, que é mais forte e é capaz de não chegar a esse ponto, que vai dizer que ‘não’ quando não quiser mais. “Se pedirem para me matar, eu não me mato”, pensará.

A grande questão é que quem está do outro lado [o administrador do jogo] é uma pessoa altamente manipuladora e que consegue ter acesso a um conjunto de dados pessoais que o jovem disponibilizou na rede (por exemplo, dados de acesso à sua conta no Facebook, onde tem os amigos, a escola, os hobbies…). Essa pessoa – perversa e com alguma pensamento psicopático – consegue perceber qual é o perfil do jovem jogador e a partir daí começa a ameaça: “Se não fizeres isto, eu vou à tua casa, vou matar a tua namorada…”. O medo pode, por isso, levar o jovem a sentir-se coagido a continuar a jogar, mesmo quando quer sair.

Tem mais probabilidade de entrar num jogo como a Baleia Azul um adolescente instável e sem uma retaguarda familiar consistente ou qualquer adolescente pode entrar, sendo que a instabilidade surge depois, devido à manipulação?

Acho que qualquer jovem pode entrar, pelas características da própria adolescência. Esse é o mito que nós associamos a estas coisas. É claro que um jovem mais vulnerável e emocionalmente fragilizado é menos capaz de rejeitar os desafios, de ver um filme de terror às 4h30 da manhã, de ir para a linha do comboio ou de deixar de falar com a família. Mas não podemos esquecer que existe alguém do outro lado a manipular as emoções das pessoas.

Um jovem que nunca tenha tido tendências depressivas ou suicidas consegue acabar com a vida fruto desta manipulação?

Acho que sim, acho que é claramente possível pelo conjunto de pressão que lhe é exercida. Há relato de centenas de mortes no mundo inteiro. À partida, 90% dos jovens não tem tendências depressivas, mas se esta pressão é exercida de forma muito forte e manipuladora, com acesso real à vida privada, pode levar um jovem ou adulto a cometer o suicídio. É aqui que entra o papel da família. Compete aos pais controlar os acessos dos filhos à internet e perceber que páginas visitam. Não é fazê-lo às escondidas (isso é desrespeitar o adolescente), mas fazê-lo na presença dele. O ideal é fazê-lo de uma forma benéfica, levando o adolescente a perceber que é normal a família estar preocupada e que está lá a servir-lhe de retaguarda caso haja alguma coisa que ele não entenda.

Os jovens têm sempre muitas coisas para dizer aos pais. A grande questão é que muitas vezes os pais não têm disponibilidade e não querem ouvir o que o jovem tem para lhes dizer, porque acham que a sua missão é só alimentar e vestir. Os pais não têm de esperar que o filho lhes conte os seus segredos, mas têm de lhe dizer que, aconteça o que acontecer, estarão sempre ali e nunca o abandonarão. Assim, quando acontecer uma crise, o filho saberá que os pais estão ao seu lado.

O facto de o jovem saber que os seus acessos à internet são controlados pelos pais pode levá-lo a esconder o que lhes convier, apagando parte do histórico de navegação, por exemplo?

Depende, porque há uma diferença entre controlar e ser autoritário. Se eu for autoritário no meu controlo, se vir às escondidas e não respeitar, o adolescente vai apagar de certeza absoluta. Porém, se o meu controlo for exercido de uma forma afetiva, se for algo partilhado entre os dois, isso já não vai acontecer. A grande questão é que, no que diz respeito à internet e às redes sociais, os pais não se querem chatear, não se querem envolver. E não é por não saberem, porque eles próprios às vezes têm redes sociais. Há uma cultura de há uns anos para cá de permissividade, em que se deixa fazer tudo. Os pais não gostam de se zangar nem de dizer não. E nós temos de pensar de forma contrária: temos de nos zangar quando é momento para nos zangarmos e temos de sermos capazes de dizer não.

Qual será o perfil do criador de um jogo deste tipo e que motivações terá?

Diria que deve ser um individuo altamente perverso e manipulador, com traços muito grandes de psicopatia e sociopatia. Será definitivamente mais velho do que os adolescentes, porque um adolescente por si só não teria a capacidade para montar toda esta máquina. Quanto às motivações, creio que é ver até que ponto tem poder para ver o outro autodestruir-se. Infelizmente, há muitas pessoas assim. Há aqueles que matam 10 ou 20 pessoas e há outros que se escondem e que tentam manipular as pessoas ao ponto de estas tirarem a própria vida.

Quais são os sinais de alerta a que os familiares devem estar atentos?

Sempre que os pais percebam que há uma mudança de comportamento drástica nos seus filhos (ter sentimentos de ansiedade ou medo muito vivos, ter pesadelos contínuos ou não conseguir dormir), que estão muito cansados, que escondem o telemóvel, que ficam assustados quando se aproximam do seu computador ou que usam mangas compridas no tempo quente, deverão estar alerta e falar abertamente com os filhos. Devem mostrar-lhes que podem e devem confiar nos pais. Se algum destes sinais estiver manifestamente associado à Baleia Azul, o primeiro conselho é não castigar, não ralhar, não culpar. O segundo é denunciar o caso o mais depressa possível às autoridades, procurar um profissional da saúde mental (como o psicólogo) e não tratar o filho como um doente mental, porque não é um doente mental, é vítima de um crime grave.

As escolas têm também um papel importante na deteção de casos e na prevenção?

Têm sim, sobretudo na prevenção dos casos. Era importante nas escolas falar-se sobre segurança na internet, haver ações de sensibilização dadas por exemplo pela polícia, não numa abordagem policial mas educacional. A escola também é importante para detetar sinais. Se o professor perceber que um aluno começou a usar mangas compridas em pleno junho e que não quer fazer ginástica para não se despir, tem que falar com os pais ou com a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens.

Deve falar-se com os jovens sobre suicídio? O tema é, de certa forma, um tabu.Deve falar-se claramente sobre suicídio, até porque os jovens falam disso entre si, muitas vezes de forma muito pouco esclarecida. É normal um pensamento sobre suicídio surgir. É importante haver psicólogos nas escolas preparados para lidar com estas questões (e não é ter dois psicólogos para cinco mil alunos). A sensação que tenho é que está a haver alguma alteração em certos conteúdos letivos e uma resolução nos conteúdos mais ligados às questões humanas.

Como é que vê o papel a comunicação social perante esta situação?

Vejo bem no sentido em que espoletou a atenção para um assunto que de outra maneira ninguém teria conhecido. Mas, por outro lado, é preciso ter cuidado na informação que se passa para ser uma influenciadora de bons comportamentos nas famílias. Tentar perceber como é que as famílias devem reagir é um bom papel da comunicação, mas quando são dadas continuamente notícias de mais vítimas não se presta um bom serviço ao país. Além disso, identificar as vítimas (nome, morada) é errado, as pessoas têm direito à sua privacidade.

De que forma os pais devem reagir perante as notícias que têm vindo a ser difundidas?

O papel dos pais, nesta situação, é explicar os filhos quais são os efeitos destas coisas e explicar que nós próprios não entendemos como é que elas surgem. E há que ter em conta que o problema não são estes grandes fenómenos que aparecem e depois acabam, o problema são as baleias azuis mais pequeninas, mais insidiosas, que se baseiam nas grandes. Vou dar como exemplo um grupo de amigos em que todos têm WhatsApp e que podem começar a fazer este tipo de desafios: “Escreve na tua mão a palavra XPTO. Se não escreveres e mandares fotografia para o grupo, vamos dizer na escola que és um cobarde”. Por isso, o pior de tudo não é a Baleia Azul em si, são as mini-baleias azuis que podem advir daqui. E são milhões e milhões.

“Se calhar já existiram mais casos do Baleia Azul que não foram identificados como tal”

Maio 16, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do https://www.publico.pt/ a Ivone Patrão no dia 7 de maio de 2017.

A professora teme que os casos de adolescentes que chegam ao hospital por causa da Baleia Azul possam ser mais do que os já conhecidos e apela aos pais para que estabeleçam regras.

Bárbara Wong

Nas últimas semanas, o país foi surpreendido com um jogo que pode levar os que aderem ao suicídio, é a última etapa do jogo, antes disso as propostas passam pela automutilação. É o jogo Baleia Azul e tem tido aderentes que vão parar ao hospital. Paralelamente há uma série para jovens e adolescentes, com produção executiva da ex-estrela da Disney Selena Gómez, que também gira em torno do suicídio de uma adolescente e que já levou escolas nos EUA a boicotar a série; na Nova Zelândia e no Canadá, os departamentos responsáveis pela classificação dos filmes considerou a série Por 13 Razões não adequada a jovens com menos de 18 anos e no Brasil a visualização levou a que centenas de jovens pedissem ajuda. A série que é uma adaptação do livro de Jay Asher aborda ainda a violação, o bullying, a depressão e a falta de acesso a cuidados de saúde mental.

A psicóloga Ivone Patrão, que trabalha na primeira consulta de dependência de Internet no país, que funciona no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, escreveu recentemente o livro #geração-cordão sobre as gerações que estão dependentes das novas tecnologias. A também professora no ISPA- Instituto Universitário teme que os casos de adolescentes que chegam ao hospital por causa do Baleia Azul possam ser mais do que os já conhecidos e apela aos pais para que estabeleçam regras.

Temos o jogo Baleia Azul e temos a série Por 13 Razões onde o suicídio está permanentemente presente. Até que ponto estes não servem para despoletar nos jovens o desejo do suicídio?

Claro. Confrontamo-nos com jovens que estão em sofrimento e se estas tarefas do Baleia Azul não existissem eles estariam a automutilar-se e a instituir um plano suicida. O jogo ou a série só vêm dar o mote. Há um sofrimento físico que ajuda a anular o sofrimento psicológico. O jovem pensa: “Eu sinto-me tão deprimido, tão vulnerável, tão mal que ao cortar-me sinto-me aliviado” e este jogo, para um jovem isolado, surge como alguém que não faz juízos de valor e o incita.

Até que ponto esta geração está mais perdida do que as anteriores porque têm menos perspectivas de vida?

Não diria que é uma geração perdida, mas que tem um risco que as anteriores não tinham, por causa do acesso fácil a tudo, por não ter de saber as coisas mas só o sítio onde elas estão. Com as tecnologias eles não fazem time-out, não fazem refresh uns dos outros e não param para reflectir, para pensar, para ajustar a forma de pensar sobre algo que se passou durante o dia. Estão sempre ligados e isso ajuda a que os jovens que estão mais vulneráveis facilmente entrem no jogo. Sobretudo se têm ideias de morte, é como juntar o útil ao agradável. O jogo é uma coisa prazerosa onde se ganha. Aqui é completamente ao contrário.

O suicídio entre os jovens é a segunda causa de morte, diz a OMS.

Primeiro são os acidentes de viação e depois o suicídio. Eu diria que poderá haver muitas situações de suicídio que são considerados acidente e podem não ser. Em termos de número podemos ter dados superiores e não temos valores concretos das tentativas. Tenho situações de jovens que já tentaram suicidar-se três vezes, quer dizer que estão em sofrimento e que quem está à volta não se apercebe. Entrar neste jogo é muito fácil para estes jovens.

Mas o jogo não é também o testar os limites? Ou seja, não pode ser jogado por jovens que não têm esse quadro que descreve?

É comum e típico dos jovens querer testar os limites, mas só até um certo nível, percebem quando há uma zona de perigo. Portanto, se não estiverem em sofrimento ou vulneráveis recuam e não jogam.

As notícias sobre este jogo podem levar mais jovens a entrar no Baleia Azul?

Haverá muitos que terão curiosidade porque querem saber o que é, até que ponto os tentam manipular, mas só jogarão se estiverem em grande sofrimento.

Há tentativas de suicídio online, os jovens entram em directo, mostram aos outros o que vão fazer e que acabam por ser salvos porque alguém que está a ver telefona para a polícia, jovens que nem sequer estão em Portugal (que estão em França, em Espanha, nos EUA) e que alertam as autoridades. Tenho relatos de pais que tiveram a polícia e os bombeiros em casa, de repente, sem saber porquê, quando tinham o filho ou a filha, noutra divisão da casa, a fazer essa tentativa em directo.

Mas o jogo ou a série não podem servir de alerta para não cometer o suicídio?

Pode funcionar não para os que estão em sofrimento, mas para os que vão ouvir as notícias com mais cuidado sobre outros que ficaram hospitalizados ou morreram. Vai funcionar para pais e professores para estarem atentos. Se estas situações não surgissem como é que a população em geral sabia?

Pode servir para jovens falarem com um professor ou com os pais de um amigo que esteja nessa situação. É preciso conhecer os sinais de alerta – alterações de comportamento, baixo rendimento escolar, distanciamento na relação com os colegas.

Se calhar já existiram mais casos do Baleia Azul que os profissionais das urgências não identificaram como tal e definiram como automutilação porque o jogo era desconhecido. Haverá mais casos que poderão ser associados ao jogo.

Faz sentido para os jovens jogarem o Baleia Rosa ou vão achar que é uma parvoíce?

É positivo e estará adaptado aos que gostam da lógica dos desafios e de conseguir fazer bem e depressa as tarefas que, neste caso, são adequadas. É preferível que joguem e é de recomendar sempre que peçam ajuda especializada quando se sentem num beco sem saída.

O que é a “geração-cordão” que dá título ao seu livro?

É uma metáfora que tem a ver com a questão de ser uma geração que está sempre ligada às tecnologias e que não tem competências de autonomia e de desenvolvimento do seu projecto de vida, que não corta o cordão umbilical, não se autonomiza, não faz as tarefas da adolescência e está em contacto com o mundo mas só virtualmente. Defendo que é importante cortar o cordão umbilical à nascença e criar laços, deixar as crianças crescer de forma saudável.

Como é que devemos gerir as tecnologias nas nossas vidas?

Ainda estamos a anos-luz. Em inquéritos é muito engraçado os pais responderem: “não deixo estar muito tempo” ou “deixo o tempo que baste” [a usar o computador]. O que é isso? É ausência de clareza e traz muitos conflitos. Muitos jovens chegam à consulta porque os pais não sabem o que fazer. Desde crianças que lhes damos tablets e smartphones sem estabelecer regras e quando chegam à adolescência já é tarde.

Até que ponto os pais também dão um mau exemplo do uso das tecnologias?

Os pais são um exemplo presencial e virtual. E ainda não parámos para pensar nisso. Temos muitos pais com adolescentes que têm Facebook e outras redes e querem instituir regras em casa, mas depois fazem posts à uma da manhã. Costumo dizer que à hora de jantar, a família pode fazer um “encontro da tecnologia” onde se juntam os telefones todos. A tecnologia encontra-se num sítio e a família noutro para conversar e conviver. Dificilmente as pessoas o fazem.

Alguns pais estão conscientes que são um modelo presencial, mas não acredito que tenham a ideia que também são um exemplo virtual. Mesmo com crianças pequenas, estas observam a relação do adulto com a tecnologia e fazem uma aquisição do que vêem. Estamos no princípio da consciencialização e é preciso afinar práticas educativas. É importante que se comece cedo, não a evitar as tecnologias, mas a enquadrá-las, introduzindo-as com regras e limites.

Haverá mais situações de jovens e crianças em risco e mais a experimentar o Baleia Azul. Tenho acompanhado jovens com automutilação. Lembro-me de uma jovem que não conseguia verbalizar e escrevia sobre a sensação que tinha quando se cortava, era um alívio, tudo ficava mais simples e mais fácil de lidar.

Como é que se resolve?

Há uma componente de intervenção com a família. É importante que os objectos cortantes não estejam disponíveis, que a família não faça juízos de valor, mas que compreenda o que se passa. Geralmente está escondido, nota-se nos comportamentos: baixo rendimento escolar, depressão, isolamento, jovens que chegam à consulta muito vestidos… Começo logo a suspeitar. Há uma componente de intervenção de psicoterapia que perdura

Cura-se?

(Silêncio) É importante a adesão do jovem à intervenção. Para compreender esse estado e fazer um caminho diferente com estratégias positivas. Vi algumas imagens da mutilação da baleia no braço de uma jovem, que se nota que tem uma componente artística fantástica, portanto um desenho daquela jovem deve ser belíssimo. Significa que tem interesses que foram deixados de lado e que é preciso ir buscar. Muitas vezes há acontecimentos de vida – perda de coesão na família, a dificuldade de os pais têm de lidar com o crescimento dos filhos… Não quero fazer uma relação directa com o divórcio, mas às vezes, percebemos que estes jovens andam à semana, numa casa e noutra, e ninguém se apercebe do que está a acontecer.

Estes jovens que se automutilam também podem ser vítimas de bullying?

De bullying e de ciberbullying. Eles têm os telemóveis durante todo o dia – as regras variam de casa para a escola, de escola para escola, e até há professores que têm uma cesta onde os alunos põem o telefone, mas eles têm dois, o outro fica no bolso!

Portanto, há fotografias, vídeos, criam-se grupos para gozar com o colega, criam-se situações que é difícil os adultos terem percepção das mesmas porque uma coisa é o bullying directo que se vê no recreio, outra é este que se passa na rede.

Se não vêem, o que podem fazer os pais ou os professores?

Estes jovens dão sinais, ficam mais inquietos, mais agressivos. Às vezes podem ser os pais a pedir ajudar, a ir a uma consulta de triagem. Os pais podem ver o histórico do computador; fazer uma conversa pela positiva, de interesse e não de crítica. Tudo isto é mais fácil se os pais começarem quando eles ainda são crianças porque na adolescência cheira-lhes a intrusão. Aos 16 anos não se lhes pode pedir a password do email.

O que está a dizer é que os pais precisam de criar relação com os filhos e falar com eles.

É essencial, desde muito cedo. Eles são do toque, desenvolvem essas competências sozinhos. Os pais ficam descansados porque eles são muito espertos e esquecem-se que os filhos criam uma pegada digital, criam contas de Facebook ou de email aos oito/dez anos, podem entrar em sites que não são seguros, que podem falar com pessoas mais velhas… Damos uma chucha e há uma altura para a tirar, mas a da tecnologia é para o resto da vida.

E os pais estão a dar essa chucha antes de lhes dar um livro, um brinquedo de pano ou de madeira.

É verdade. Damos e não tem mal em dar, mas não pode ser só isso. Não tem mal usar tecnologia, é preciso saber as regras e os pais não estão a fazer isso.

Que outros casos ligados a dependência da tecnologia chegam à consulta de Santa Maria?

Chegam-nos as situações mais graves. A consulta existe desde 2013. São sobretudo rapazes com número de horas exagerado [à frente de um ecrã], em absentismo escolar, sem projectos de vida, com perturbações psiquiátricas ou deprimidos e que encontraram no jogo online uma forma de ter prazer e de viver. São desinvestidos do ponto de vista físico, não comem ou comem em excesso porque estão sempre em frente ao computador.

E as raparigas?

As raparigas têm dependência das redes sociais o que implica socialização virtual e presencial, como há partilha de conteúdos, fotos e vídeos, encontram-se. Portanto recorrem menos à consulta.

Qual é a percentagem de jovens com dependência?

Os estudos indicam 25%. No Japão ou na China é mais de 45%. Associado ao número de horas temos o isolamento e a desistência de outro tipo de actividades, de lazer, desportivas e de contacto social. Efectivamente, temos muitos jovens que deixam a prática do desporto porque assim têm mais horas para jogar; que não vão ao cinema ou que aproveitam os furos nas aulas para jogar.

O ministro da Saúde japonês implementou os bootcamps obrigatórios de desenvolvimento pessoal sem tecnologia. Têm centros de internamento.

São necessários em Portugal?

Nalgumas situações que temos que são mais graves. Estes jovens estão em absentismo escolar e não trabalham. Há comunidades terapêuticas para toxicodependentes que podem dar apoio nestas situações porque do ponto de vista neurológico é uma dependência sem estar ligada a nenhuma substância, mas activa as mesmas partes do cérebro que as drogas ou o álcool.

Fazem-se planos de intervenção para a saúde, alimentação, prevenção rodoviária, parece-me que cada município devia desenvolver um plano de intervenção saudável de tecnologia – o próprio município disponibiliza wi-fi, por que não disponibilizar formação para pais, professores e jovens? Duvido que haja algum programa autárquico sobre este assunto, que é urgente.

Passaria por consultas?

Passaria primeiro por formação. Passaria por termos técnicos nos centros de saúde que possam fazer formação mais concreta para responder quando há casos de maior vulnerabilidade. Ainda estamos no início do que vai aparecer.

Vai ser pior que o Baleia Azul?

Pode haver outros jogos, estão sempre a surgir mais jogos.

 

Serviços telefónicos de ajuda e apoio ao suicídio em Portugal e na Europa

 

SOS – Serviço Nacional de Socorro 112

SOS Voz Amiga (entre as 16 e as 24h00) 21 354 45 45 91 280 26 69 96 352 46 60

SOS Telefone Amigo 239 72 10 10

Telefone da Amizade 22 832 35 35

Escutar – Voz de Apoio – Gaia  22 550 60 70

SOS Estudante (20h00 à 1h00) 808 200 204

Vozes Amigas de Esperança (20h00 às 23h00) 22 208 07 07

Centro Internet Segura 800 21 90 90  Linha Internet Segura

 

 

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