O meu filho ainda não se adaptou à escola. E agora?

Novembro 6, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto e foto do DN Life de 25 de outubro de 2019.

Acontece no pré-escolar, na entrada para o primeiro ano e na mudança de ciclo de ensino. Por diferentes razões, há crianças que, por esta altura, ainda não se adaptaram à escola. O que pode estar na origem dessa resistência? E como é que os pais podem ajudar? Foi o que tentámos perceber junto de duas especialistas.

Joana Capucho

Nas vésperas dos testes, Lucas, de 11 anos, ficava muito ansioso: “Chorava, dizia que não queria ir à escola, que queria morrer”. Aconteceu há cerca de um ano, quando mudou de escola, na transição do quarto para o quinto ano. Sempre que se aproximava uma prova, ficava “ofegante, a suar das mãos, com alterações do sono e do apetite”. “Apresentava um padrão de ansiedade forte”, recorda Cristina Valente, psicóloga e coach parental, que acompanha o caso. Fala-nos de uma criança “sensível e muito inteligente”, que hoje está perfeitamente integrada, mas que “teve muitas dificuldades de adaptação à escola”.

Um mês após o início do ano letivo, haverá muitas crianças que ainda não se habituaram à mudança. Situações como a de Lucas (nome fictício) são “muito normais”, diz Cristina Valente, destacando que “temos de perceber a verdadeira causa do comportamento”. Ou seja, duas crianças podem manifestar a resistência à escola da mesma forma, mas “as causas podem ser diferentes”.

Segundo a autora do livro O que se passa na cabeça do meu filho?, “para alguns miúdos regressar à escola é como para muitos adultos voltar ao trabalho após as férias”, pois há crianças que “gostam muito mais do lúdico do que do trabalho”. Para outras, prossegue, “tem a ver com os desafios que a família pode estar a passar na altura”. Foi o que aconteceu com Lucas: “Havia excesso de trabalho na família. Não havia tempo de qualidade para estarem juntos, portanto tivemos que ajustar algumas rotinas”. Além disso, o rapaz sentia “uma pressão exagerada da escola e dos pais”, que o fazia estar constantemente com medo de falhar.

Para Cristina Valente, as dificuldades de adaptação das crianças prendem-se também com “a forma como a escola está desenhada”, nomeadamente com “excesso de tempo curricular, falta de tempo livre não estruturado, foco mais direcionado para a aprendizagem cognitiva e académica do que emocional”. Ao DN, recorda os resultados de um estudo feito em Portugal, cujos resultados serão apresentados em breve, que concluiu que a principal razão pela qual as crianças gostam da escola é porque estão com os colegas. “Zero por cento disse que é porque gostam de estar com os professores”. E muitos queixam-se dos horários extensos.

Ao consultório da psicóloga chegam “muitos pedidos de ajuda até dezembro com miúdos que têm dificuldade em ir para a escola”, nomeadamente crianças que entram para o primeiro ano do ensino básico. “Há três meses estavam no pré-escolar. Tinham rotinas completamente diferentes. Agora têm de estar sentadas e focadas o dia todo, com mais matéria e menos tempo de brincadeira. Isso é mau? Não, é ótimo”. Mas nem todas reagem bem. “Se não se adapta no primeiro mês, calma”.

Há três meses estavam no pré-escolar. Tinham rotinas completamente diferentes. Agora têm de estar sentadas e focadas o dia todo, com mais matéria e menos tempo de brincadeira.

É difícil definir qual o período normal de adaptação escolar, porque “cada criança tem o seu ritmo”, diz a psicóloga Cátia Teixeira, que trabalha no Colégio Vasco da Gama, em Belas. “À partida, ao fim de um mês, a maioria das crianças estará adaptada, mas pode não acontecer”. E, muitas vezes, não acontece. “O mais comum é as dificuldades de adaptação surgirem no jardim-de- infância e no primeiro ano”, sublinha.

Há casos, como um que acompanha, em que as crianças passam diretamente da casa dos avós ou das amas para o pré-escolar, e sentem muito a mudança. Recorda uma criança de três anos que “chorava o dia inteiro”. Não dormia a sesta e até durante o almoço chorava. “Foi muito difícil. Estava sempre a perguntar quando é que a mãe voltava”. Para resolver a questão, a psicóloga sugeriu que a criança passasse para uma adaptação progressiva. Deixou de ir o dia todo, como no início, para passar a ir só meio-dia. “E, aos poucos, foi-se adaptando. Agora fica o dia todo sem chorar, tranquila”.

As dificuldades nos relacionamentos com outras crianças também podem complicar a integração na escola. “Quando isso acontece, é natural que a criança resista ou não se sinta bem naquele contexto”, refere a psicóloga clínica, que intervém na área infantil.

Noutras situações, os problemas são reflexo da ansiedade dos adultos em relação à mudança: “A ansiedade dos pais passa para as crianças, que não se conseguem tranquilizar. Pode não ser nada com elas, mas o facto de sentirem que os adultos que são significativos para elas estão ansiosos, faz com que fiquem ansiosas, o que dificulta a adaptação”.

Existem ainda situações que resultam de acontecimentos externos como o nascimento de um irmão, a morte de um familiar, o divórcio dos pais ou a ida de um dos progenitores para o estrangeiro. Situações que fazem com que a criança “não esteja bem emocionalmente”, dificultando o processo de entrada na escola.

Mesmo quando as primeiras semanas decorrem com normalidade, pode haver regressão. “Com o passar do tempo, deixa de ser novidade”. E a rotina pode fazer com que as crianças percam o interesse na escola. “É importante que os pais percebam qual é o problema. Se for esse, devem tentar que haja novidade, que não seja aborrecido” ir à escola, afirma a psicóloga.

Dependendo das idades, diz Cátia Teixeira, as crianças vão manifestar o stresse de diferentes formas. “Nas crianças mais pequenas, o choro e o não querer largar os pais na hora da despedida são o mais evidente”, adianta. Nos mais crescidos, o choro pode também ser um sinal, mas costumam aparecer outros: dores de barriga e cabeça sem justificação médica, tendência para o isolamento, alterações de sono, perdas de apetite e verbalizações (“Não quero ir, não gosto da escola”).

Para facilitar a adaptação à escola, ​​​​​​as duas psicólogas deixam algumas sugestões aos pais:

Promover a articulação com a escola
O momento da separação dos pais pode ser muito difícil, mas, por vezes, a criança deixa de chorar ao fim de poucos minutos. Em alguns casos, os educadores do jardim-de-infância enviam fotografias aos pais para os tranquilizar. Essa articulação com educadores e professores é muito importante. Se os pais não estão tranquilos, as crianças também não vão estar.

Dar espaço à criança para falar
Sem pressionar demasiado a criança, os adultos devem dar-lhe espaço para falar, perceber o que sente, o que lhe passa pela cabeça. Só é possível resolver o problema se souber o que está a causar dificuldades na adaptação.

Fazer mudanças na família
A causa dos problemas na escola está muitas vezes em casa. Por isso, é importante que a família perceba se precisa de fazer alterações nas suas rotinas. Passar mais tempo em casa é, por vezes, uma das soluções.

Não pressionar demasiado a criança
A pressão para os resultados pode fazer com que as crianças vivam estados de extrema ansiedade, que tornam a ida para a escola num pesadelo. Por isso, é importante não exigir demasiado dos filhos na obtenção de bons resultados.

Fazer perguntas concretas
Para perceber melhor o que a criança está a sentir, faça-lhe perguntas concretas: “Que brincadeiras fizeste hoje na escola? Com quem é que brincaste? O que é que gostaste mais de fazer?”.

Eu tenho medo… medos e preocupações das crianças e adolescentes

Maio 29, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Ansiedade de desempenho escolar

Outubro 30, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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“Há consumo excessivo de fármacos” para ansiedade em época de exames

Junho 21, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 17 de junho de 2017.

Francisco Miranda Rodrigues foi eleito bastonário da Ordem dos Psicólogos Portugueses em Dezembro de 2016 Rui Gaudêncio

 

Bastonário da Ordem dos Psicólogos Francisco Miranda Rodrigues diz que “o bullying tem um impacto muito negativo”, mas “não é o problema principal” nas escolas.

Ana Dias Cordeiro

O bastonário da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), Francisco Miranda Rodrigues, recebeu a confirmação da Direcção-Geral da Educação (DGE) de que irão ser desbloqueadas “verbas para a contratação de mais 200 psicólogos já para o início do próximo ano lectivo” para trabalharem nas escolas. Actualmente, existe em média um psicólogo por cada grupo de 1700 alunos. As recomendações internacionais apontam para um rácio de um para 1000. A contratação é uma boa notícia, mas é preciso ir bem mais longe, diz.

Miranda Rodrigues sublinha a importância de se criarem condições para estes profissionais se fixarem nos estabelecimentos de ensino, porque é aí que começa a prevenção de problemas como a depressão. O especialista deixa ainda um alerta: há muitas formas de lidar com a ansiedade associada os exames que se aproximam, mas, “por regra”, elas não passam pela medicação. “Não devia ser nunca a primeira linha.”

O bullying é um dos principais problemas que os psicólogos encontram nas escolas?

O bullying tem um impacto muito negativo, mas a sua abrangência, comparativamente com outras situações, não é o principal problema. A depressão é um dos problemas mais graves com que temos de lidar, pelos impactos que tem ao longo da vida, e que são incapacitantes. Se prepararmos uma criança desde cedo para identificar em si aquilo que são as emoções — como raiva ou tristeza —, isso dá-lhe uma possibilidade de controlo que de outra forma não teria. Preventivamente, a escola é essencial para isto. Nas questões relacionadas com violência em contexto escolar, essa é uma das coisas que é importante trabalhar.

Estamos a iniciar a época dos exames nacionais do secundário. O problema da ansiedade agrava-se na altura dos exames?

A altura dos exames leva, por vezes, ao consumo de ansiolíticos ou ao consumo de metilfenidato [conhecido por Ritalina, o nome de uma das marcas]. Trata-se de medicação perfeitamente pertinente, quando estamos perante determinado tipo de quadros de hiperactividade devidamente diagnosticados. Mas o que temos hoje em dia, aparentemente, é um sobrediagnóstico relativamente à hiperactividade. O que não é aparente é o consumo excessivo dos fármacos associados a este tipo de situações. Isto não é dizer que não deve haver consumo nenhum…

Existe pressão dos pais ou dos médicos?

Que existe pressão existe. Refiro-me à pressão de quem, no dia-a-dia, está a ver o filho em sofrimento e pede ao médico [algo para o aliviar]. Esta é uma das coisas. A outra é se eu recorro a uma consulta num centro de saúde, com uma queixa que pode ter que ver com hiperactividade, mas não necessariamente necessitar de metilfenidato. Se não existem lá recursos, os médicos medicam. Os médicos de família estão muito sensibilizados para a referenciação para a consulta de psicologia, mas se não existem lá recursos não podem referenciar.

Existe pressão dos professores para garantir o bom desempenho dos alunos?

É mais um contributo, mas não me parece que seja o principal.

Qual é a melhor forma de lidar com a ansiedade em época de avaliações?

Há formas de lidar e não é, por regra, com medicação. Isso não devia ser nunca a primeira linha, nem o metilfenidato, nem os ansiolíticos. São excepções os casos em que a primeira linha, pela gravidade ou pela tipologia da situação, necessita efectivamente de intervenção farmacológica. Há formas de trabalharmos isso e os psicólogos podem ajudar, para que os alunos desenvolvam estratégias para controlar a ansiedade. Não há uma regra para todos.

Quantos psicólogos existem nas escolas e quantos há a menos?

O seu antecessor disse em Outubro de 2016 que havia 500 a menos. A senhora secretária de Estado adjunta e da Educação, Alexandra Leitão, disse-nos de forma clara e inequívoca que garantia que antes do início do ano lectivo teríamos mais 200 psicólogos nas escolas, ao abrigo de um protocolo com a Direcção-Geral da Educação. E isso é positivo, mas estes 200 já deveriam ter entrado em Setembro de 2016 [de acordo com esse protocolo]. Esta contratação, é feita com base em fundos comunitários, foi reafirmada por este Governo, e vinha do Governo anterior. O Estado comprometeu-se a atingir o rácio de um psicólogo para 1100 alunos, nas escolas públicas, e para isso precisam de fazer contratações. Os 200 não vão chegar. O que temos aqui é uma tentativa de chegar a isso, mas há um atraso grande.

Sem contratos permanentes, o compromisso não cumpre o vosso objectivo de fixar os psicólogos nas escolas?

Do ponto de vista preventivo, vamos começar a trabalhar nas escolas o mínimo dos mínimos. Com os novos 200, ficaremos com 900. Mas de todos apenas 300 têm contrato a tempo inteiro. Os outros 400 têm contratos de um ano. E na mesma situação estarão os novos 200. Ora, os psicólogos preenchem necessidades permanentes de apoio ao aluno. Depois, estamos a falar de coisas como estes fenómenos recentes na Internet, como o Baleia Azul e outros. A raiz da questão é: temos pessoas mais susceptíveis de virem a ser vítimas deste tipo de situações, por não terem competências que são protectoras dos factores de risco? Se eu trabalhar isto previamente, [esses fenómenos] nem serão assunto.

O programa Escola SaudavelMente, que lançaram há um ano, é uma forma de conter problemas nas escolas?

O facto de uma escola ter psicólogos conta bastante para poder ter boas práticas. Nós lançámos essa campanha, no âmbito da qual também foi lançada a iniciativa do selo Escola SaudavelMente, para distinguir boas práticas, com esta interrogação: serão as nossas escolas saudáveis psicologicamente? Das 253 escolas e agrupamentos [num universo de mais de 800] que se candidataram, 99 obtiveram o selo. O facto de uma escola desenvolver competências socioemocionais é um exemplo de uma boa prática promotora de saúde psicológica. Mas a organização, o que se faz com os equipamentos e os tempos livres, pode ou não também permitir uma vivência mais saudável.

 

 

Regresso às aulas: como lidar com a ansiedade das crianças?

Setembro 24, 2016 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do http://www.noticiasmagazine.pt/ de 11 de setembro de 2016.

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Por: Isaltina Padrão

Para algumas crianças, regressar à escola pode ser um pesadelo.

O seu filho já anda impaciente? E a dormir mal? Com a aproximação do início do ano letivo vem a ansiedade de quem passou três meses com a família, longe de colegas e professores. Se na maioria dos casos as crianças apresentam uma inquietação normal por regressarem à escola e mostrarem a roupa nova e os materiais acabados de comprar, outras chegam a ficar «doentes» só de pensarem em voltar à rotina.

Muito ativo e desorganizado, com uma forte imaginação, não foi nada fácil para Carlos, de 6 anos, ingressar no 1º ano. Todas as manhãs pedia aos pais para não o levarem à escola. Ia, tinha de ir. Mas, uma vez lá, desestabilizava a turma com constantes brincadeiras. Após várias repreensões, foi colocado na última fila para não perturbar tanto. Foi ficando sozinho e era dado como um mau exemplo de aluno. No recreio tornou-se agressivo e era permanentemente gozado. «Nunca vou ser bom em nada» passou a ser uma frase constante. E ia entristecendo.

Este é um de vários casos – felizmente, são a minoria – em que a escola não é apelativa para a criança. Professores, psicólogos e outros especialistas são de opinião de que um trabalho conjunto entre a escola e a família ajuda a superar esta aversão que, geralmente, se dissipa por si mesma com a habituação à nova realidade. «Todas as mudanças implicam ansiedade, devido ao medo do desconhecido subjacente a cada transição», diz Teresa Andrade, psicóloga e professora no Instituto Superior de Saúde Egas Moniz.

«Na transição para o 1º ciclo, são várias as mudanças e ainda mais as expetativas. Transitar de um lugar maioritariamente de brincadeira – a creche ou o convívio com os avós – para um de maior trabalho estruturado pode criar dificuldades e desafios, dependendo da personalidade, da maturidade e de caraterísticas específicas de cada criança.»

Assim, crianças mais calmas, com níveis mais elevados de atenção e concentração, obedientes e organizadas, com um desenvolvimento cognitivo e emocional saudáveis, são, na opinião dos especialistas, as que acabam por se adaptar mais facilmente a esta e a qualquer outra etapa da vida.

No entanto, Susana Algarvio, psicoterapeuta e professora no Instituto Superior de Psicologia Aplicada, sublinha o facto de a ansiedade do início do ano letivo ser normal, «independentemente dos resultados escolares». «Há bons alunos que se sentem ansiosos perante um novo desafio, assim como há alunos com histórias de insucesso escolar que sentem o mesmo tipo de ansiedade.» Mas a ansiedade excessiva pode gerar «comportamentos de evitamento, que podem, em casos extremos, conduzir a fobias». E é isso que deve ser evitado a todo o custo, para o bem-estar da criança.

Conheça os sintomas da ansiedade pré-escolar.

«No meu tempo é que era.» Não diga isso ao seu filho

Irritabilidade, pesadelos, perturbações do sono e alimentares, como perda de apetite ou comer em excesso, ou ainda o medo de não se lembrar das aprendizagens escolares, são alguns dos sintomas inerentes à mudança e reações frequentes perante marcos importantes como a entrada para o 1º ciclo do ensino básico – um alicerce que poderá ser determinante no adulto em que a criança se tornará. Caso os sintomas persistam, os pais devem procurar ajuda especializada. Em primeiro lugar, o problema deve ser exposto aos professores, que deverão conduzir a família para uma consulta de psicologia de forma a identificar o problema e tentar resolvê-lo.

Em alguns casos, a adaptação torna-se um processo mais difícil, que se prende fundamentalmente com o tipo de relação estabelecida entre cuidador e criança e que acaba por fragilizar esse mesmo processo. É aqui que, segundo Susana Algarvio, «os pais são uma peça-chave na adaptação da criança». Para esta psicoterapeuta, os sintomas são, regra geral, passageiros se os pais apresentarem a escola como uma etapa positiva na vida dos filhos. O que nem sempre acontece.

«Os pais podem reforçar negativamente a ansiedade das crianças ao apresentarem a escola como algo repressivo e castigador, dizendo coisas como “quando fores para a escola já não vais poder fazer isto ou aquilo”, esperando que a instituição e o professor os substituam na educação dos seus filhos, mostrando-se demasiado ansiosos relativamente à relação com as outras crianças, ou fazendo comparações com outros filhos ou outras crianças membros da família.»

Outro erro frequente é a comparação com outros tempos. Afinal, estes problemas de adaptação ao meio escolar são exclusivos da vida moderna? São, pelo menos, mais acentuados. E a razão é simples, defende Ana (nome fictício), professora da Escola EB1 Padre Andrade (agrupamento de escolas Frei Gonçalo de Azevedo), em São Domingos de Rana, Cascais. «Hoje os pais não têm tempo de qualidade para os filhos e estes acabam por ficar demasiado tempo na escola e pouco em casa. Sente-se que não existem relações/ligações familiares profundas e consistentes. Não há tempo de “rua” para brincar, as novas tecnologias também acabam por isolar e afastar não só as crianças entre si, mas também da própria família. Todos estes e outros fatores conjugados acabam por transformar as crianças em seres mais carentes emocional e afetivamente, o que irá ter impacto na sua forma de estar na escola.»

Pedir ajuda quando for necessário

Cada indivíduo tem caraterísticas únicas. A experiência de 21 anos com alunos do ensino básico diz a Ana que «cada educador da escola age e reage perante determinada situação em função da personalidade, da maturidade e da experiência ou criança. Mas há um esforço conjunto para entender e ajudar essas crianças, independentemente de ser ou não o professor titular do aluno.» Para facilitar a integração (dos alunos mas também dos pais) neste novo mundo que se abre, é imprescindível a interação da comunidade educativa – professores, pais, psicólogos e alunos. Todos têm uma palavra a dizer ou dão sinais daquilo que sentem. No caso das crianças, muitas vezes é necessário descodificar as suas atitudes em relação à escola. Susana Algarvio defende que «as crianças devem ser informadas sobre aquilo que as espera: um professor com quem irão aprender, a quem deverão respeitar, que esclarecerá as suas dúvidas e que as ajudará a ultrapassar as suas dificuldades ». No fundo, falar previamente sobre aquela pessoa e que é alguém em quem podem confiar.

Tão ou mais importante do que dizer «vais aprender a ler e a escrever» é explicar aos filhos que a escola é um lugar seguro, onde irá fazer desenhos e encontrar novos amigos com quem brincar. E como esta é uma fase em que os pais também estão a aprender, as suas preocupações devem ser sempre tomadas em consideração por aqueles que são mais experientes em arranques de anos letivos. As preocupações, dúvidas ou reservas dos encarregados de educação, segundo Susana Algarvio, «nunca devem ser desvalorizadas pelos professores ou por outros técnicos. Os pais devem ser sempre esclarecidos sobre as questões que põem porque a sua adaptação a esta nova etapa dos filhos condicionará a adaptação destes, sobretudo nos primeiros níveis de ensino».

Também os professores, por mais experientes que sejam, têm dúvidas e dificuldades em lidar com algumas situações. Os psicólogos em ambiente escolar (e não só) podem ajudar nessa tarefa de procurar entender os porquês de crianças e pais, no sentido de lhes fornecer ferramentas para entrar com o pé direito no novo ano letivo.

A ESCOLA TAMBÉM TEM DE SE ADAPTAR

As crianças não são todas iguais, defende Teresa Andrade. Para esta psicóloga, algumas, como Carlos (ver texto), não se encaixam no padrão de ensino vigente e há que ajudá-las na integração escolar de uma forma apelativa. Estamos perante alunos que «só a muito custo suportam as horas que lhes pedem que estejam sentados, calados e sossegados».

Infelizmente, muitos pais tendem a pensar que os seus filhos têm algo de errado «porque não conseguem ser iguais às outras crianças». Nada disso. Os meninos são todos diferentes e cada um requer uma maneira de ensinar diferente. Aqui entram os encarregados de educação, no papel de educadores. «Os pais podem complementar o ensino com outras atividades de aprendizagem que agradem mais à sua criança», diz a psicóloga, dando exemplos de como cativar a atenção dos filhos para as matérias escolares. Tal pode ser feito através «de jogos, passeios, aprender com os mais velhos a fazer coisas estimulantes, aprender matemática com a natureza ou a ler e escrever fazendo a criança inventar uma história que ela própria vai escrevendo».

 

Stress na escola? Projecto em Leiria ensina crianças a relaxar

Dezembro 24, 2014 às 2:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da Rádio Renascença de 15 de dezembro de 2014.

Mafalda Caseiro

por Paula Costa Dias

Leitura de histórias, exercícios de respiração e meditação são algumas das propostas para melhorar a concentração e aumentar o sucesso escolar.

O som dos címbalos faz “aterrar” os mais pequenos. Na Biblioteca da Escola do 1º ciclo da Cruz D’Areia, em Leiria, à quarta-feira, mais de uma dezena de crianças aprende a relaxar.

Leitura de histórias, exercícios de respiração e meditação são algumas das propostas do projecto FOCA, liderado pela terapeuta Sofia Coutinho, cujo objectivo é melhorar a concentração das crianças para aumentar o sucesso escolar. Aqui testam-se novas formas de reduzir o stress e a indisciplina dos alunos, de forma a ajudar as crianças a “perceber que há momentos para expandir e momentos para recolher”, explica Sofia Coutinho à Renascença.

Uma iniciativa na qual a coordenadora da escola, Anabela Oliveira, deposita grandes expectativas:

“O stress pega-se muito às crianças há muito conflito na própria sala de aula que é preciso amenizar de alguma forma. Este é um trabalho que é interessante, até, para fazer com os próprios professores”.

E, a julgar pelas opiniões dos mais pequenos, parece funcionar. “Senti uma energia boa e a partir daí passei a portar-me melhor”, garante um dos alunos. Para outro, a actividade “é relaxante e às vezes divertida”.

Uma iniciativa que a escola e a associação gostariam de estender: Aos professores que usariam estas técnicas como uma ferramenta, ajudando os alunos a concentrarem-se o que, acredita a terapeuta, teria reflexos positivos no rendimento escolar; aos pais, ajudando-os a lidar melhor com o seu próprio stress e auxiliando os filhos a relaxar.

 

 

Ansiedade escolar prejudica desempenho e saúde de cada vez mais crianças

Junho 19, 2014 às 6:00 am | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo do Público de 15 de junho de 2014.

A notícia contém declarações da Dra. Melanie Tavares, Coordenadora da Mediação Escolar do Instituto de Apoio à Criança.

Adriano Miranda

Ana Bárbara Matos

Na época de exames o stress escolar intensifica-se e revela-se em sintomas físicos e psicológicos que podem tornar-se graves. As principais causas são a pressão familiar e as expectativas pessoais.

Carla Barbosa, estudante universitária, tem perturbações de ansiedade desde o secundário, que se manifestam em ataques de pânico, transtornos alimentares e do sono. Casos como o de Carla são cada vez mais frequentes e precoces, afectando crianças desde o primeiro ciclo. Os especialistas alertam para as doenças psicológicas que podem ser provocadas pela pressão pessoal, familiar e do próprio sistema educativo.

“Começa com as pontas dos dedos adormecidas, depois sinto-me com falta de ar, os músculos contraídos, sem conseguir andar e choro compulsivamente.” É assim que Carla, 21 anos, descreve os ataques de pânico provocados pela ansiedade escolar. A estudante da Faculdade de Direito da Universidade do Porto explica que as situações de stress eram mais graves na escola secundária. “Ao primeiro os meus colegas estranhavam, mas depois houve uma fase em que muita gente tinha”, continua.

Ainda hoje a ansiedade escolar tira sono e apetite à estudante: “na época de exames de Janeiro e Fevereiro perdi seis quilos.” O nervosismo é consequência da pressão social: “Sinto que tenho que me distinguir”, justifica.

Para Adelaide Telles, psicóloga dos Serviços de Acção Social da Universidade do Porto, a principal razão que leva os alunos a recorrer aos serviços de apoio é a dificuldade em lidar com a ansiedade, particularmente nos exames, acrescentando que “por vezes, a ansiedade leva a situações de depressão, isolamento e desistências.”

Mélanie Tavares é psicóloga e coordenadora da Mediação Escolar do Instituto de Apoio à Criança. Convive de perto com a ansiedade escolar, que diz ser “bastante frequente e não escolhe idades.” Cada vez mais cedo as crianças apresentam sintomas de ansiedade porque também cada vez mais cedo são expostas a situações de avaliação.

De acordo com a Ordem dos Psicólogos, não existem dados concretos sobre o stress na escola, mas numa compilação de dados de estudos portugueses e internacionais, a Ordem revela que os jovens que experienciam ansiedade na infância têm 3,5 vezes mais probabilidade de sofrer de depressão ou perturbações da ansiedade na idade adulta. Os mesmos estudos alertam para o aumento das doenças psicológicas, concluindo que numa turma de 30 alunos existem cerca de seis crianças com problemas de saúde psicológica.

Ana Catarina Jesus está no 5.º ano e lembra-se bem dos exames que fez no ano passado na sede do agrupamento. “Não estava nervosa, mas não conhecia a escola, não conhecia muita gente e ninguém reparou que eu comecei a chorar”, conta. Ana Catarina deixou o exame em branco. A mãe, Susana Jesus, recorda que a filha “ficou chateada, andava triste nos dias seguintes”, já que costumava ter boas notas nos testes.

Psicóloga de crianças e adolescentes, Catarina Policarpo explica que actualmente “há uma grande competitividade entre os jovens que começa no 1.º ciclo, há pressão para o sucesso por parte da escola, dos pais, de todo o meio envolvente e há pressão que os jovens colocam sobre si próprios. Quem não é bem-sucedido, não é bem visto pelos pares e pode até ser rejeitado, e isto é muito stressante.”

A psicóloga Joana do Carmo explica o fenómeno da ansiedade: “a criança tem uma determinada percepção da tarefa que lhe é proposta [como um exame] e compara o grau de dificuldade desta com a percepção que tem das suas capacidades, daí podendo resultar uma discrepância que quanto mais acentuada, mais ansiedade provoca.”

O meio envolvente contribui para a percepção da dificuldade da tarefa e para a auto percepção da criança ou jovem. Pais, professores e psicólogos concordam que os exames têm uma dimensão exagerada. “Os órgãos de comunicação social e os pais exacerbam a situação dos exames, que já tem muita carga dos professores. Os pais não transmitem segurança, fazem pressão e muitas vezes numa base de ameaça”, lamenta Joana do Carmo.

Os pais tendem a projectar nos filhos as suas expectativas e idealizações, muitas vezes inconscientemente, outras não. A psicóloga Mélanie Tavares recorda o caso de uma criança de um colégio, de uma família aparentemente estruturada, a quem os pais bateram com violência por ter um “bom” e não um “excelente”.

Existem também casos em que são os jovens que colocam uma grande pressão sobre si próprios. Mélanie Tavares refere, como exemplo, uma criança que desenvolveu uma úlcera no estômago porque exigia muito dela. A psicóloga explica que com elevados níveis de ansiedade “uma pessoa pode descompensar e isso leva a doenças psicológicas.”

São casos muito pontuais, mas preocupantes, de acordo com o psicólogo Nuno Sousa. Há alunos que vêem o sucesso escolar como a única característica boa e quando falham a vida deixa de fazer sentido. “Fazem de uma falha o falhanço da vida”, explica. Dá como exemplo uma aluna que sentia que o elemento de ligação com os pais era o sucesso escolar. Quando falhou, começou a descompensar e “a mistura de tristeza com a revolta foi o ponto de partida para uma tentativa de suicídio.”

No entanto, Victor Coelho, membro da direcção da Ordem dos Psicólogos, afirma que níveis de ansiedade e de stress, com conta e medida, podem funcionar como protectores e motivadores. O importante, mas também difícil, é encontrar o ponto de equilíbrio: “É preciso dotar crianças de capacidades para lidar com situações de stress.”

Texto editado por Nuno Pacheco

 

 


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