“Alguns pais olham para os filhos e vêem um porquinho-mealheiro”

Novembro 6, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 10 de outubro de 2019.

Onze frases que mostram que o seu filho está ansioso

Setembro 23, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Notícias Magazine de 30 de julho de 2019.

Texto de Ana Patrícia Cardoso

A dificuldade de comunicação entre pais e filhos é uma das origens dos problemas de comportamento de crianças e adolescentes. O que eles dizem e fazem pode revelar um acumular de stress e ansiedade cada vez mais presentes na geração da tecnologia e redes sociais. Se o seu filho disser constantemente alguma destas 11 frases, pense duas vezes antes de o reprimir e procure saber o que realmente se passa.

Quando somos crianças, temos dificuldade em expressar o que sentimos de forma coerente e racional. Muitas vezes, as chamadas “birras” dos mais novos são uma tentativa desesperada de dizer alguma coisa ou marcar uma posição.

A pressão do crescimento, do ambiente familiar, da escola, da própria perceção do mundo que ainda está em formação é, por vezes, um peso e pode transformar-se em picos de ansiedade e stress.

A maioria dos pais tende a encarar estes momentos como «dores de crescimento», mas é preciso estar atento aos sinais.

Leonor Baeta Neves, psicóloga na área de desenvolvimento infantil, garante que “depende do modo como comunica com os pais. Para mim é o ponto mais importante, saber ‘ouvir’ uma criança, dar-lhe espaço para falar e tempo para se explicar. Uma dor de cabeça, de barriga ou sem motivo óbvio é um modo de se queixar de outras coisas.”

Não desvalorize certos comportamentos dos seus filhos. Podem ser um pedido de ajuda.

Não me deixes sozinho

Segundo a psicóloga Leonor Baeta Neves, quando uma criança pede para não ficar sozinha, «pode significar medo. Mas de quê? Pergunte-lhe o que se passa ou procure perceber.»

Podemos ficar em casa?

A psicóloga explica que esta frase, dita num momento em que «seria natural sairem, deve fazer os pais pensar duas vezes no que se passa com o seu filho. Pode ser um alerta. Oiçam a criança, por favor!»

Quero ir para casa agora

Para Leonor Neves, se a criança está a pedir para sair de um determinado ambiente, não deve ser censurada. «Tentem compreender o que lhe está a causar desconforto».

O que há de errado comigo?

Se a criança está a olhar para si própria de forma negativa, «a birra que está a fazer pode ser uma chamada de atenção», diz a psicóloga. Tente perceber o motivo da pergunta e como pode ajudar.

Desculpa.

«Se a criança estiver a pedir desculpa em demasia, é de facto um sinal de alerta e expressa o desejo de que lhe prestem mais atenção», diz Leonor Baeta Neves.

Não me sinto bem.

Tenha cuidado. «Este é um indício de que alguma coisa não está bem. Mais uma vez, deve prestar atenção à origem deste sentimento. Provavelmente, não é físico».

Não gosto do meu corpo.

Leonor Neves diz que é preciso atenção quando uma criança demonstra desconforto com o seu corpo. «Não é bom sinal. A frase é ou pode ser um indicativo de algum distúrbio».

Não quero ir para a escola.

A psicóloga aconselha a «não deixar que se torne uma birra e a explicar que tem mesmo de ir. Mais tarde tente saber o que se passa na escola. Mais uma vez, converse com a criança».

Dói-me muito a cabeça.

Pode não ser birra, diz Leonor Neves. Dor de cabeça ou barriga, garganta, etc. «Há que perceber se existe qualquer coisa ‘real’, ou se é a tensão em que a criança está. A ‘dor’ pode ser psicológica de facto, mas não menos importante do que a física».

Estou cansado.

A psicóloga sugere que pode «estar cansado de estar sozinho… tem de se ter em atenção o contexto».

Stress do pai durante a gravidez também influencia comportamento das crianças

Agosto 28, 2019 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Danielle Macinnes / Unsplash

Notícia e imagem do Público de 6 de agosto de 2019.

O estado emocional da gestante já tinha sido relacionado com o comportamento das crianças. Agora, um novo estudo indica que o stress do pai e as dinâmicas do casal também influenciam a forma como os filhos se comportam.

Carla B. Ribeiro

O stress emocional do pai durante a gravidez é uma das causas dos problemas emocionais e de comportamento em crianças de 2 anos, conclui um estudo de uma equipa de investigadores das universidades de Birmingham, Cambridge, Leiden (Holanda) e Nova Iorque, publicado na revista Development & Psychopathology, editada pela Universidade de Cambridge. Mais: o mesmo trabalho relaciona os conflitos no casal aos problemas emocionais de crianças muito pequenas.

A equipa responsável destaca o facto de esta investigação se tratar da primeira a examinar a influência do bem-estar de mães e pais — e não apenas da mãe ou apenas do pai — antes, ao longo do terceiro trimestre, e depois do nascimento das crianças, tendo incluído a observação destas entre os 4 e os 24 meses de idade.

“Há muito tempo que as experiências do pai são tratadas em paralelo ou totalmente isoladas das [experiências da] mãe. E isto precisa de mudar porque a dificuldade de relacionamento das crianças tanto com o pai como com a mãe poderá ter efeitos a longo prazo”, explica Claire Hughes, a professora do Centro de Investigação para Família de Cambridge, em comunicado.

De acordo com os dados apurados pelos investigadores, o bem-estar da mãe de primeira viagem durante o período de gestação influencia directamente o comportamento observado quando os pequenos atingem os 2 anos, registando “birras, inquietação e mal-estar” naqueles cujas mães revelaram stress durante a gravidez. Porém, de acordo com o mesmo estudo, tanto o stress do pai como a relação do casal acaba por determinar o comportamento da criança nos seus primeiros anos de vida. E não apenas durante a gravidez, mas também nos primeiros meses do recém-nascido.

As descobertas apontam para que os bebés que tenham tido, nos primeiros meses de vida, um ambiente familiar tenso, com pai e mãe em stress pós-parto, mais tarde mostram-se “mais propensas a apresentar problemas emocionais”, seja por se revelarem preocupadas, infelizes e chorosas; por se assustarem facilmente; ou por mostrarem resistência a enfrentar qualquer situação que se apresente como uma novidade.

Para Hughes, este estudo torna-se de importância vital por identificar um problema que pode ser trabalhado com acompanhamento no tempo certo: “As nossas descobertas destacam a necessidade de um apoio mais precoce e efectivo para os casais se prepararem melhor para a parentalidade.” A pensar nisso, a equipa começou por partilhar as suas conclusões com a National Childbirth Trust (NCT), instituição britânica que tem como missão apoiar física e emocionalmente quem se prepara para um primeiro filho, ao mesmo tempo que diz “incentivar o NHS”, serviço nacional de saúde do Reino Unido, e outras organizações a reconsiderarem o apoio que oferecem, não o limitando à mãe, mas incluindo também o pai de primeira viagem e, em simultâneo, o casal.

A investigação teve por base uma amostra de 438 mães e pais enquanto esperavam pelo seu primeiro filho, no terceiro trimestre de gravidez, e incluiu o acompanhamento posterior dos três quando a criança tinha 4, 14 e 24 meses. Geograficamente, a amostra dividiu-se entre o Leste de Inglaterra, o estado de Nova Iorque e a Holanda.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Parental well-being, couple relationship quality, and children’s behavioral problems in the first 2 years of life

Laura Sanches: “Os bebés sofrem de stress como nós”

Agosto 14, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do DN Life de 17 de junho de 2019.

Todos os pais amam os filhos, mas e o resto? Como se educa uma criança segura? De onde vêm as birras? Qual a importância do colo? A psicóloga clínica Laura Sanches explica isto e muito mais em Amar Não Basta (embora ajude bastante). Um livro para pais que desejam saber o que sentem os seus bebés.

Entrevista de Ana Pago | Fotografia de Reinaldo Rodrigues/Global Imagens

Diz que os bebés sofrem de stress como nós. A que se deve esta reação inesperada neles – e forte ao ponto de muitas vezes se tornar um stress tóxico?
O stress surge da ativação do nosso sistema de alarme e os bebés já nascem com o seu a funcionar perfeitamente – aliás, no último trimestre da gravidez já o têm desenvolvido e a operar em sintonia com as emoções da mãe. A partir daí, se são expostos a situações que os fazem sentir-se inseguros e os levam a ativar esse sistema de alarme antes de os pais conseguirem reconhecer e responder aos sinais que eles dão, os bebés ficam sob stress.

Mas não pode ser um stress positivo, se o bebé não se sentir ameaçado e inseguro o tempo todo?
Sim, há pequenos momentos que podem ser úteis para reforçar a confiança nos pais e até aperfeiçoar a resposta aos estímulos. Está provado que aquilo que vivemos nos primeiros anos, e como vivemos, pode ter um impacto permanente na vida adulta por definir a forma como o nosso organismo fica programado para lidar com todos os desafios que irá encontrar. O stress tóxico só surge se o sistema de alarme dos bebés for demasiado solicitado, o que no caso deles é desencadeado – tal como em todos nós, de resto – pelo sentimento de que a ligação com as pessoas importantes da sua vida está a ser ameaçada. As crianças nascem com o instinto de se ligarem a pelo menos uma figura de referência.

A mãe?
Por norma é a mãe. Foi ela quem esteve grávida durante nove meses, com o bebé a vivenciar e a ser afetado por todas as suas emoções dentro do útero. É ela quem passa mais tempo com o bebé após o parto. Então ele nasce com o instinto ativo de procurar o conforto da mãe – e quanto mais pequenino maior é a necessidade de contacto físico – para se sentir seguro com o seu cheiro, o batimento cardíaco, o calor do corpo dela quando lhe pega. Esta programação existe naturalmente. Claro que se por algum motivo a mãe desaparecer, o pai pode tomar esse lugar e preencher o vazio na perfeição.

“No extremo da privação de uma figura de referência temos a morte.”

Pai ou mãe, que efeitos tem a privação dessa figura de referência?
Efeitos devastadores como os documentados na Roménia, em que as políticas de fomento à natalidade impostas pelo líder comunista Nicolae Ceauşescu, a par de uma enorme pobreza no país, resultaram em dezenas de milhar de crianças abandonadas e institucionalizadas durante o período ditatorial. Em 1990, após a queda do regime, o que se viu foi que mesmo nas raras instituições onde não faltava comida, higiene e cuidados de saúde, a taxa de mortalidade era muito superior à expectável porque se negava às crianças a possibilidade de criarem um vínculo forte e seguro com um adulto (os cuidadores estavam sempre a rodar para evitar laços que dificultassem a adoção). Isso significa que, no extremo da privação, temos a morte.

E nos casos menos extremos?
Verificou-se que as crianças tinham atrasos cognitivos, emocionais e que todo o seu desenvolvimento era afetado a ponto de até a estatura ser inferior à que seria normal para a idade. O organismo estava submetido a uma carga tão tóxica de stress que era como se já nem lhes sobrasse energia para crescerem. E não era apenas o corpo que não crescia: o cérebro apresentava várias regiões com um tamanho inferior ao que seria esperado. Essa figura de referência é fundamental para o bem-estar e desenvolvimento infantil, é o que nos ensina a amar. Por oposição, a primeira grande causa de stress para bebés e crianças é a impossibilidade de estabelecerem esse vínculo, ou dificuldades persistentes que surjam sempre que tentam fazê-lo.

Ainda assim, muitos pais receiam que abraçar e pegar nos seus bebés nos primeiros meses os encha de manhas. O colo nunca é demais?
Nunca. A maternidade não é lá muito racional, sobretudo nos primeiros meses, e se a mãe não tiver consciência de que a necessidade de sentir o bebé junto de si é tão grande como a do bebé em estar junto dela, o mais certo é ignorar os instintos e deixar de lhe pegar sempre que tem vontade ou o filho chora. Sim, é um facto: bebés que nunca têm colo ou são deixados a chorar para dormirem no quarto sozinhos deixam de pedir a mãe. O que não vemos acontecer dentro deles, na sua forma de se relacionarem com o mundo, é que mesmo não chorando continuam em tensão, inseguros, apenas silenciaram as emoções. E este sentimento é tão forte que pode comprometer o próprio instinto do apego, além da capacidade de virem a confiar em si mesmos e nos outros.

Também a amamentação é uma facilitadora desse vínculo. Todas as mães deviam amamentar os seus bebés, incluindo as que não desejam fazê-lo?
Tem de se ver sempre caso a caso, não é algo que se possa forçar. Se por um lado o bebé merece que pelo menos tentem, dados os inúmeros benefícios ao nível do crescimento e saúde, por outro o facto de a mulher estar em sofrimento a dar mama, com uma postura rígida, não será bom para nenhum dos dois. Ter um filho a alimentar-se de nós é um ato de grande vulnerabilidade para a mãe, que desperta nelas emoções intensas. É natural sentir medos antigos ou feridas mal curadas virem ao de cima. No caso de não querer fazê-lo, o importante é reconhecer que essa ferida existe e trabalhar para tentar resolvê-la.

“Nas culturas que vivem de forma tradicional é comum amamentar-se até aos 5, 6 anos e está tudo certo.”

E dar de mamar até quando? Alguns médicos defendem que após os 12 meses induz comportamentos regressivos…
Até a mãe e a criança quererem e estarem ambas confortáveis com isso. Ainda hoje, nas culturas que vivem de forma tradicional, é comum amamentar-se até aos 5, 6 anos e está tudo certo, não tem que acabar à força por imposições externas ou teorias mal fundamentadas. A própria Organização Mundial de Saúde recomenda que se amamente no mínimo durante dois anos mas só nos países subdesenvolvidos, e eu pergunto que sentido é que isso faz? Não é por não termos escassez de alimentos e haver água potável para as fórmulas que o leite materno deve ser desprezado. Pode não ser essencial do ponto de vista alimentar, mas faz bem à mesma. Além de que do ponto de vista psicológico estaremos a negar a uma criança algo de que ela ainda precisa.

Mesmo assumindo que possa ser uma ligeira regressão ela vir procurar a mãe e sentir-se um bocadinho bebé?
Mesmo assim. Seria uma regressão ao serviço do crescimento, que se faz por janelas temporais e nunca em linha reta. Às vezes é necessário andar um pouco para trás na altura certa para não termos de o fazer mais tarde, regra geral de maneira muito menos adaptativa. Se a criança procura a mãe para mamar porque isso lhe traz algum conforto, e se essa segurança lhe vai permitir continuar a crescer depois com maior confiança, então não é mau que aconteça. Ver indecência nisso deve-se unicamente aos preconceitos que nos condicionam, não a evidências científicas. Já para não falar que todas as crianças – e repito: todas – largam a mama de forma natural quando se sentem preparadas

Outra questão fraturante para a maioria dos pais é a de levarem os filhos para a cama deles, por julgarem que estão a criar miúdos mimados e adultos dependentes. Porquê tantos fantasmas nas nossas camas?
De novo por culpa de preconceitos, inseguranças pessoais e teorias psicanalíticas antiquadas que defendiam uma excessiva sexualização da infância. Não tem nada de mal. Nenhuma razão para haver culpa ou vergonha, como vejo tantas vezes. Até aos 12 anos, pelo menos, é natural que uma criança ainda precise dessa presença e não é negando-a à força que os pais vão conseguir que se torne autónoma, pelo contrário. A mim parece-me mais prejudicial recusar o contacto agora, com medo de que no futuro não estejam lá para lho darem, do que simplesmente conceder-lhe o que ela procura no presente, sem receios, até um dia deixar de ser necessário.

E a noite é uma altura de muitos medos…
Exacerba muito as nossas angústias, sim. As crianças também sentem isso. Se quando mais precisam de nós lhes dizemos sistematicamente que não podem estar connosco, elas nunca vão sentir que os pais as compreendem, acolhem as suas inseguranças e as aceitam como são, o que gera ainda mais inseguranças. Do que ouço dos meus pacientes chega a haver noites em que ninguém dorme lá em casa, com os filhos a irem para a cama dos pais e os pais a recambiarem-nos para a cama deles, quando a questão se resolvia facilmente se os deixassem ficar. Até porque na grande maioria dos casos esses pais também gostam de dormir com os filhos, não são só os miúdos. Acabavam por descansar melhor todos juntos, sem qualquer prejuízo para o desenvolvimento infantil.

“Os pais fazem muitas birras, na verdade. Por vezes são mais crianças do que os miúdos que têm em casa.”

Seja como for, o que se pode fazer com bebés que acordam muito?
Não podemos ensiná-los a dormir, apenas criar condições que facilitem o sono. Isso passa por estabelecer rotinas tranquilas ao final do dia, respeitar os primeiros sinais de sono da criança (mesmo que os pais cheguem tarde a casa e lhes apeteça brincar), evitar sons demasiado altos, luzes fortes e o brilho de ecrãs, que afetam a produção de melatonina. O problema não está em os bebés acordarem várias vezes à noite, mas no modo exigente como organizamos a vida e esperamos que eles se adaptem. Em última análise, crianças agitadas tendem a dormir pior porque ainda não controlam as emoções fortes que sentem e ficam ansiosas. Cabe aos pais dar-lhes tempo para aprenderem essas estratégias de regulação e perceberem do que realmente precisam para descansar. O choro e as birras que eventualmente façam são só uma resposta ao stress que não sabem verbalizar.

Os pais também têm direito a fazer birras?
Os pais fazem muitas birras, na verdade. Por vezes são mais crianças do que os miúdos que têm em casa – já tive vários a dizerem-me isso em momentos de reflexão nas consultas –, embora saiba que nem sempre é pacífico lidar com os sentimentos fortíssimos que os nossos filhos despertam em nós. Ser adulto não significa ser maduro. Muitas vezes o nosso próprio desenvolvimento não foi o melhor: o cérebro não apurou tudo o que devia para nos ajudar a controlar os impulsos, ou talvez tenhamos crescido com a imagem errada de que éramos um pouco defeituosos, o que agora nos leva a reagir de formas desadequadas. Então é bom ter esta noção de que ainda temos muito a aprender para educarmos os nossos filhos.

A AUTORA

Laura Sanches licenciou-se em psicologia clínica em 2002, pela Universidade Lusófona, e em 2004 concluiu o mestrado em Consciousness and Transpersonal Psychology da Universidade John Moores, em Liverpool. Paralelamente à psicologia clínica, entre 2001 e 2014 deu aulas de yoga, que integra nas consultas juntamente com o mindfulness, técnicas de relaxamento e gestão de stress. Desde 2012 que se centra nas áreas da parentalidade positiva e aconselhamento parental (com foco nas implicações da teoria do apego no desenvolvimento infantil). Trabalha no Espaço Vida, em Lisboa, onde dá consultas, workshops e cursos. É autora do blogue Parentalidade com Apego e coautora do PsiYoga. Escreveu ainda os livros Mindfulness Yoga – Atenção Plena para Lidar com os Desafios (ed. Mahatma), Mindfulness para Pais (ed. Manuscrito) e o muito recente Amar Não Basta (ed. Matéria-Prima).

Filhos sobrecarregados, pais stressados – e brincar é tão importante

Julho 5, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do Notícias Magazine de 18 de junho de 2019.

Alicia Banderas, psicóloga e escritora espanhola, lembra que as brincadeiras com os filhos são um importante veículo na educação dos valores que realmente importam. Mas os pais continuam mais focados no sucesso e na competição. Para que os filhos sejam super filhos. Sejam brilhantes.

Os filhos têm de ser os melhores, os mais talentosos. Brilhantes. Todos os dias, em qualquer competição. E os dias ficam demasiado pequenos quando se encaixam atividades atrás de atividades extracurriculares. Quase não há tempo para respirar. Os pais andam stressados, os filhos com horários sobrecarregados. Os pais querem o melhor para os filhos. Os filhos ficam ansiosos para corresponder às expectativas. É uma roda-viva, uma lufa-lufa.

Alicia Banderas, numa conversa reproduzida pelo jornal espanhol El País, avisa que é preciso respeitar o ritmo de aprendizagem dos mais pequenos. “Temos crianças de dois anos em Chinês, Inglês, natação, estimulação musical”, refere. Um constante e frenético para a frente e para trás. E brincar? Brincar é essencial. Porque se aprende a brincar. E ao brincar. “O que a criança precisa? Jogo livre. Ou seja, sabemos que o conhecimento é gerado de dentro para fora.”

Olhar nos olhos dos filhos e perguntar o que querem jogar, como querem brincar. É o primeiro passo. Brincar estimula a criatividade, desenvolve o aparelho psicomotor. Aproxima pais e filhos. É também uma forma de respeitar a infância. É não deixar um brinquedo no fundo da gaveta ano após ano. Brincar é também educar. É escutar, é envolver. É interiorizar princípios. Incutir valores. Brincar torna-se, sustenta a psicóloga, uma “maneira maravilhosa de partilhar sem forçar, sem palestras.”

Há que saber equilibrar as brincadeiras com a parafernália tecnológica. Mas há situações a evitar. A Academia Americana de Pediatria desencoraja o uso de ecrãs nos dois primeiros anos de vida, uma vez que, dessa forma, as crianças são submetidas a um estímulo frenético que pode favorecer a desatenção e a dificuldade de concentração.

Há ainda outra questão. Se há o costume de “saciar o prazer através de um ecrã”, cada vez mais é necessário “um maior número de estímulos que, às vezes, podem ser prejudiciais.” E as crianças ficam expostas “a estímulos de uma forma muito prolongada e depois perderão o interesse pelas atividades da natureza, que ocorrem a um ritmo muito mais lento”.

Brincar é preciso. Brincar sem abafar o espírito criativo e inato que os mais pequenos têm dentro de si. “Brincar é o ambiente mais seguro para testar e construir o que se deseja fazer.” Uma criança criativa será capaz de pensar em soluções alternativas para os problemas. Dentro das suas próprias brincadeiras.

“Quando brincamos com os nossos filhos, somos a melhor versão de nós mesmos,” diz a psicóloga que trabalha com crianças e adolescentes em projetos de educação há mais de duas décadas. O tempo passa, há mudanças sociais e os pais continuam a dizer que querem, em primeiro lugar, que os filhos sejam felizes. Mas nota-se a vontade que os filhos sejam brilhantes, que tenham maiores habilidades, muito sucesso. Que sejam super filhos.

O cérebro não é uma esponja
E mesmo uma esponja atinge o seu limite de capacidade. O mesmo acontecerá no cérebro dos mais novos. Alicia Banderas refere que um cérebro não é propriamente uma esponja. “O que são ou o que chamo de crianças super-estimuladas? São aquelas crianças submetidas à estimulação excessiva, mesmo antes dos seus cérebros estarem preparados. E, no final, o que geramos nelas é um bloqueio e stresse nas suas aprendizagens.” Convém, então, não pensar que um cérebro consegue absorver tudo e fazer os devidos enquadramentos.

Mais uma vez, a questão das atividades extracurriculares. Dos cérebros que sugam tudo. Muitas vezes, são os pais que decidem o que os filhos devem aprender. E a desmotivação acontece. Perceber o que gostam, o que os motiva, os seus gostos, é fundamental. “Como aprendemos melhor? Através de emoções positivas: alegria, satisfação, autorrealização”. “Devemos cuidar do cérebro das crianças porque podemos magoá-lo”, avisa a psicóloga e escritora espanhola.

Seis sintomas que ajudam a detetar o vício dos videojogos

Junho 17, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da Exame Informática de 28 de maio de 2019.

Francisco Garcia

Um problema que só recentemente foi considerado doença e que tem vindo a tornar-se cada vez mais comum na nossa sociedade, que é cada vez mais dependente das novas tecnologias.

Este sábado, a Organização Mundial de Saúde (OMS) passou a considerar o comportamento obsessivo para com os videojogos uma doença mental. Conheça aqui alguns dos sintomas que, segundo a American Addiction Centers, são comuns em pessoas que sofrem deste distúrbio:

Estilo de vida sedentário – Passar horas em frente a um ecrã pode ter efeitos perigosos no corpo e mente de um jovem. Este cenário pode agravar-se quando a pessoa em causa não pratica desporto, podendo aumentar desmedidamente o peso e acentuar uma má postura, ou em casos mais graves, desenvolver doenças como Diabetes tipo 2.

Ausência de interação social – Embora nalguns videojogos os jogadores interajam uns com os outros, os jogos não devem substituir outras formas de socialização (não virtuais) na vida das crianças. A aprendizagem de ferramentas de comunicação em contextos reais é fundamental no desenvolvimento dos mais jovens e não deve ser substituída por experiências de gaming.

Problemas de concentração – A ação e movimentos rápidos nalguns videojogos é considerada, por alguns especialistas na área, como uma das causas para falta de concentração nalguns jogadores. Associam ainda o tempo investido em videojogos à falta de interesse na leitura, que requer uma atenção prolongada.

Evitar tarefas associadas ao desenvolvimento – Este sintoma pode surgir na adolescência, quando os jovens utilizam os videojogos como um escape para os problemas da sua vida, evitando situações que os obriguem a crescer emocionalmente.

Comportamentos violentos – Algumas crianças e adolescentes que passam muito tempo a jogar videojogos de combate ou violentos, podem estar mais propensos a apresentar alguns sinais de agressividade do que outros que não jogam. A American Addiction Centers aconselha os pais a terem um mecanismo de vigilância semelhante ao que usam para impedir as crianças de ver filmes violentos.

Convulsões e lesões de stress – De acordo com um artigo publicado no British Medical Journal, os videojogos podem aumentar os riscos em jogadores com epilepsia, devido à intensidade das luzes, cores e gráficos. Um comportamento compulsivo com videojogos pode ainda levar a pequenas lesões relacionadas com o stress, nomeadamente nas mãos e pulsos.

 

 

 

“Um filho stressado é menos autónomo, independente e responsável” Mário Cordeiro

Maio 1, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista da Visão a Mário Cordeiro no dia 24 de março de 2019.

Clara Soares

No gabinete do pediatra Mário Cordeiro, os livros infantis partilham as estantes com os peluches familiares. Nas paredes, há pinturas abstratas feitas pelo médico que presidiu à Associação para a Promoção da Segurança Infantil, publicou dezenas de livros e manuais sobre bebés, crianças e adolescentes, e tem uma cadela adotada, estando também ligado à Provedoria dos Animais de Lisboa. Aos 63 anos, o mais novo de oito irmãos e pai de cinco filhos optou por reformar-se da Função Pública e dedicar-se apenas à clínica privada. O ponto central da conversa não foi o romance ou a poesia, paixões que lhe dão atualmente muito gozo, mas antes o seu novo livro, que pretende desafiar-nos, a todos. Pais Apressados Filhos Stressados é sobre o tempo que não temos mas podemos ter, se conseguirmos fazer escolhas conscientes e desfrutar da vida, enquanto dura, com quem amamos – sem despachar tudo e todos nem andar a reboque, lamentando: “Prefiro a adrenalina dos dias de semana ao stresse dos fins de semana.”

Comecemos pelo fim: a família vista pelos olhos do cão…
Quis mostrar um casal e três filhos, numa sexta-feira à noite, exaustos, cada um com o seu programa a colidir com o dos outros e a discutir quem tem razão. O cão observava, sem ter a noção do tempo dos humanos. Tem aquilo que advogo no livro: ouvir, parar, pensar e refletir antes de fazer e de ser dono do tempo.

O mal-estar infantil e juvenil, aliviado com fármacos, por vezes em excesso, pode ser evitado?
As chamadas drogas sempre existiram. Podemos drogar-nos até com trabalho e desporto. Fugimos à realidade quando ela se torna pouco suportável. Temos de aceitar que somos finitos e que o tempo é escasso. As fugas para a frente criam a disrupção dos ritmos biológicos do animal que somos. Mudar o quotidiano implica parar e pensar.

O que pensarão as mulheres portuguesas que, à luz de um estudo, só têm 54 minutos do dia para elas?
Embora aquém da igualdade de direitos de género, estamos melhor do que há 40 anos. Se nós e as instituições políticas e laborais assumirmos isso, chegaremos à meta em menos de cinco gerações.

Como arranja tempo para fazer tudo o que gosta?
Faço o que me dá prazer. Tenho este grau de liberdade, porque lutei por isso. Quando os meus filhos eram pequenos, não havia sábado sem festa de aniversário. Se era possível iam; quando não era, não iam. Eu sempre lhes disse: não são menos pessoas por não irem a todas. Ir a todas e correr à procura nem se sabe do quê cria um stresse enorme e impede o desfrutar das coisas. Ser humano não é ser perfeito; é aperfeiçoar-se e ter gozo nisso.

Ter sofrido um enfarte contribuiu para ter uma vida mais tranquila?
Acho que não. Penso neste tema há algum tempo e tenho um estilo de vida tranquilo. O problema de saúde teve que ver com uma herança genética.

No livro, retrata os adultos como seres que vivem uma angústia existencial e que a transferem para a prole. O que se passa?
Fui buscar o livro O Macaco Nu (Desmond Morris, 1967) para ilustrar isso mesmo. Construímos sociedades bem diferentes das dos nossos antepassados, mas continuamos a ser mamíferos com crias dependentes, incapazes de fazer escolhas.

Refere-se ao paradigma do sucesso de que tanto se fala?
O ter e o fazer estão a dominar a sociedade. O desejável é que pais e filhos cheguem a casa e que desliguem durante um bocado, envolvendo-se em atividades calmas. É preciso perceber o que queremos da vida e deixar as comparações. “Quero um carro igual ao do vizinho.” Costumo usar o nonsense. “Sabe uma coisa? Vou arranjar uma betoneira”, disse uma vez a uns pais. Eles ficaram a olhar para mim, perplexos. “O meu vizinho também tem uma.” A frugalidade é preferível à ganância do ter por ter: quando se tem algo, isso perde o interesse.

Há quem diga que as obras sobre a parentalidade geram sentimentos de culpa e de inadequação nos pais. Confirma?
Nos meus livros, procuro tranquilizá-los, mas uma pessoa que leu este título disse-me que ficou inquieta. A ideia é mesmo essa: dar mais poder aos pais, sem que eles tenham receio de reconhecer os seus erros. Quando se queixam do comportamento dos filhos, sugiro que pensem como uma empresa, que reúnam o conselho de administração num sítio agradável e conversem, usando até o método de análise SWOT (Forças, Fraquezas, Oportunidades, Ameaças), e que descubram, por exemplo, “uma maneira de fazer com que o Zé se torne mais persistente sem ser casmurro”.

Sobre a hiperatividade: doença, sintoma de mal-estar ou, como se queixam alguns adultos, falta de educação?
De facto, há uma ideia de que tudo o que se mexe é hiperativo e de que todos os que sonham têm défice de atenção. Retirando os casos de dispersão e a falta de concentração, com hiperatividade sem aspas, posso dizer que as crianças vivem numa contenção enorme e com excesso de vigilância. Em vez de apanharem ar puro e de brincarem na rua, passam o tempo em espaços fechados, e até os prisioneiros têm mais liberdade do que elas, como se disse num estudo recente.

Pertence a uma família numerosa e foi por várias vezes pai. Como lidava com as birras e com os maus comportamentos?
Tentamos sempre definir regras e explicar por que razão elas existem. Dizer só “Manel, não faças isso” resulta em ameaças e em castigos – “ficas sem ver televisão durante uma semana” – que não se cumprem. Mesmo que a criança obedeça, fica à espera de que o regime caia para fazer o que quer. Freud explicava isto bem. No território da fantasia, há total liberdade, posso pensar que sou serial killer, mas o polícia interno refreia-nos e permite desenvolver a empatia: “Extirpar pessoas não é bom. E mesmo que o seja, já pensaste no que a pessoa sentirá?” O bom polícia vem dos pais. A atitude deles permite que a criança ultrapasse a fase narcisista e interiorize que há coisas que não pode fazer.

O que os pais precisam de saber para estar de bem com a vida e facilitarem a dos filhos?
Parar para pensar, sem medo. Ser frugal e pôr fim à ânsia, quase ganância, do ter. Contemplar, deleitar-se, descobrir a vida. Nas relações com o próximo, não criar um colete de forças sentimental à volta dos outros por terem opiniões divergentes. Apreciar as microexpressões, o silêncio, as pausas, como numa composição musical que não é possível sem elas.

Qual a fatura de crescer a despachar, em modo acelerado?
Um filho stressado é menos autónomo, independente e responsável. Não somos donos deles nem eles são réplicas nossas, mas podemos influenciá-los através de valores que lhes damos. Se inventámos as máquinas foi para nos permitirem dedicar-nos à criatividade, à fantasia e à arte. A ligação do corpo com a Natureza, por exemplo, está completamente esquecida na escola. É quase um crime.

É também um alerta que faz aos professores.
Durante quase 40 anos fui professor, sei que eles nem sempre são bem tratados face à importância que têm. Porém, ao entrarem numa aula, desliguem dos problemas e descubram coisas novas com os alunos. Lembro Agostinho da Silva, a quem perguntaram sobre o que iria falar numa apresentação, que respondeu: “O que quereis saber?”

 

 

“Os filhos são as primeiras vítimas do stress dos pais. E de forma muito violenta”

Abril 5, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto e foto do site NIT de 19 de março de 2019.

Não é novidade para ninguém. Cada vez mais parece que a sociedade ocidental vive a um ritmo acelerado, com as pessoas na rua a correrem de um lado para outro, com menos tempo para as refeições, para o lazer, e, em geral, para tudo. Isso faz com que todos fiquemos mais stressados e, como sabemos, o stress é contagiante.

Que o diga o pediatra Mário Cordeiro, especialista na área da saúde infantil e ex-professor universitário. É autor de vários livros e tem um novo trabalho. “Pais Apressados, Filhos Stressados” foi publicado a 15 de fevereiro e é uma edição da Desassossego. Tem 240 páginas e está à venda por 14,94€.

O pediatra dá consultas a muitas crianças que apresentam sintomas de stress por causa da forma como os pais vivem e gerem a sua vida. As refeições à mesa são um dos exemplos que dados no novo livro.

“Curiosamente, numa altura em que tanto se fala do ‘regresso ao básico’ e às dietas do Paleolítico, valha isso o que valer, a hora das refeições parece estar cada vez mais relegada para segundo (ou quinquagésimo segundo) plano”, escreve Mário Cordeiro.

“O pequeno-almoço raramente é tomado e, quando o é, toma-se de pé, a correr, com a escova de cabelo numa mão e a escova de dentes na outra. Ao almoço está cada um em seu lado — as crianças na escola ou sozinhas em casa em frente ao televisor, os pais no emprego, os avós sabe-se lá onde —, o lanche não existe (engole-se meia dúzia de ‘faz-de-conta-que-são-alimentos’ altamente calóricos, mas que se podem comer com as mãos ao volante ou enquanto se leem os jornais nos transportes públicos; desde que sejam doces ou carregados de açúcar, ou então pastéis fritos) e, finalmente, o jantar é muitas vezes um momento em que cada um chega à sua hora e procura qualquer coisa que lhe cale o apetite e que não lhe consuma muito tempo a preparar — o dia já vai longo e são quase horas de o despertador tocar outra vez, além de que cada um precisa ‘urgentemente’ de ir para o seu ecrã, seja computador, televisão, tablet ou telemóvel. A refeição é vista, assim, como ‘mais uma’ maçada, uma perda de tempo, uma chatice consumada, uma prova da ausência de liberdade para gerirmos o (escasso) tempo de que dispomos. Infelizmente, são cada vez menos os que olham para o espaço-refeição como um espaço de libertação.”

Neste livro, o pediatra dá dicas aos pais para tentarem mudar os hábitos do dia a dia — o objetivo é melhorar a própria qualidade de vida e, claro, a dos filhos. Mário Cordeiro explica de que forma é que o stress dos pais influencia os filhos. A NiT entrevistou o especialista.

É muito comum ter crianças stressadas entre os seus pacientes? Foi por isso que quis escrever um livro sobre este tema?
Creio que andamos todos stressados, em certo grau, mas muitas pessoas ultrapassam os limites da razoabilidade e, sim, encontro muitos pacientes, pais e filhos, muito angustiados, inquietos e descontentes com os seus estilos de vida e com o quotidiano. A observação da sociedade, passatempo que me fascina, revela-me muitas coisas que demonstram este grau de stress, latente e patente, na sociedade e, portanto, nas pessoas, em todos os seus ecossistemas: casa, escola, rua, lojas, empregos… Até nas férias. A razão do livro reside aí, claro, se bem que escreva, também, por prazer e por “upgrading” intelectual, dado que me obriga a “ginasticar os neurónios” e a ler, rever, debater, pesquisar, investigar… O meu lado científico fica radiante com estas coisas, bem como o de escritor e leitor.

Se os pais estiverem stressados, devem esconder isso dos filhos, para não os preocupar e stressar?
Creio que o stress não é passível de esconder. Impossível. Os filhos leem os pais, a alma dos pais, através de tudo: o nosso sistema nervoso autónomo que, como o nome indica, é independente da vontade, gere a produção hormonal das suprarrenais e de outras glândulas: as hormonas adrenalínicas e as endorfínicas. As primeiras, quando produzidas em excesso ou desajustadamente, acabam por produzir stress, manifestando-se numa série de pormenores comportamentais e fisiológicos, do tónus muscular ao brilho do olhar, do timbre de voz à inquietação da própria pessoa. Claro que os pais podem poupar os filhos de várias formas: não andarem stressados para não andarem, consequentemente, irritados, sem paciência, deixando de pensar que “crianças são crianças” e evitando cair até no ridículo que é dizer a um filho de dois ou três anos: “Não sejas criança!” e coisas assim; por outro lado, envolver as crianças em discussões e assuntos com acrimónia, que elas não entendem, apenas sobrará para elas os gritos e berros, mesmo até que a discussão possa ser sobre o Brexit ou sobre o futebol… Finalmente, o stress é contagioso, no sentido em que, quando um elemento da família está “à beira de um ataque de nervos”, todos os outros ficam também em stress, e estou em crer que este estado de coisas, vivido semanas após semanas, meses após meses, mina totalmente o amor, a cumplicidade, o “trabalho de equipa” da família, levando também, estou em crer, a muitos dos divórcios, separações e conflitos entre pais e filhos.

Que dicas práticas costuma dar às pessoas que enfrentam este problema?
As que constam do livro, em que exemplifico amiúde situações de stress no quotidiano. A primeira e mais importante é parar para pensar. Parar para pensar e refletir sobre o dia a dia, sem ter receio do que se pode encontrar mas, pelo contrário, entender que esse processo de análise pode conduzir a encontrar graus de liberdade para ajustamentos – mesmo que pequenos – que levam a uma melhor qualidade de vida e, até, a uma nova hierarquização das prioridades. Por outro lado, há que separar claramente a nossa parte de ação, trabalho, escola, fazer, empreender, etc., e a parte de descanso, lazer, prazer, gozo e afetos… Se isto não se faz, se trazemos tendencialmente para casa as “guerras” do trabalho, do trânsito, do “mundo lá fora”, então estará tudo contaminado e as crianças, claro, serão as primeiras a sofrer com isso e de uma forma muito violenta. É bom ter isso em mente, quando nos interrogamos sobre que tipo de vida queremos ter e proporcionar aos nossos filhos. Andamos a correr, a correr, a correr, arrasando tudo e todos, mas para onde, para quê e porquê?

Quais são as causas mais comuns para o stress dos pais que, por sua vez, passa para os filhos?
A relação laboral, que no nosso País é completamente absurda (e a escolar, nas crianças), ultrapassando o que o trabalho deve constituir: uma forma de dignificação do ser humano, de utilidade social, de realização de talentos e capacidades, e não de escravatura; o trânsito ou, dito de outra forma, as deslocações, os problemas de mobilidade, as horas e horas que se perdem, diariamente, dentro de um automóvel a vociferar com tudo e todos; a crispação relacional, muito comum a todos os níveis, até quando vamos pedir um café numa esplanada ou comprar o jornal no quiosque, e as redes sociais que estimulam o dislate, a agressão, a violência verbal no anonimato e o descarregar catártico de tudo o que há de pior na condição humana. A tecnologia, que prezo e da qual gosto e uso, quando hiper-utilizada e não controlada, também invade o espaço de descanso mental e físico, e “estoira” com o equilíbrio da pessoa e das que a rodeiam. Os filhos, obviamente, são as primeiras vítimas desta situação, não apenas porque são os “sacos de pancada” do stress dos pais, mas porque são forçados, desde o nascimento, a ritmos e hábitos que, muitas vezes, estão em plena contradição com as suas necessidades irredutíveis biológicas, psicológicas e sociais.

Que outros problemas é que o stress costuma desencadear nas crianças?
O mesmo que nos adultos: irritabilidade, desconcentração, incapacidade de escutar o outro e até de reconhecer que ele pode ter razão, obstinação, egocentrismo, falta de paciência, vontade de “emigrar para uma ilha deserta”, má performance escolar… Enfim, um cortejo de atitudes e comportamentos (e sentimentos) que não são nada bons e que se resumem a muita infelicidade, frustração e mais stress.

 

 

 

“Correria infernal” dos pais cria filhos stressados — pediatra Mário Cordeiro

Março 4, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Observador de 16 de fevereiro de 2019.

O novo livro do pediatra Mário Cordeiro pede aos pais que pensem em mudanças simples na forma como lidam com “a pressão enorme” do quotidiano, para não criarem filhos “stressados”.

O pediatra Mário Cordeiro convida os pais de hoje em dia a refletir sobre a “correria infernal sem destino”, que tem como consequência filhos ‘stressados’, e pede mudanças simples para melhorar a qualidade de vida.

“Pais Apressados, Filhos Stressados” é o título do novo livro de Mário Cordeiro, obra que é apresentada na segunda-feira em Lisboa e que se debruça sobre a pressa e o ‘stress’ parental.

“A vida quotidiana é uma pressão enorme e o que pretendo com este livro é, exatamente, estimular a pensar. Não é mudar o mundo e implodir o que está feito, mas pedir, quase rogar, que os pais parem para pensar, vejam se têm graus de liberdade para mudar a sua vida, porventura em coisa singelas e que não consomem muito tempo”, explica Mário Cordeiro à agência Lusa.

Para a sociedade em geral, o livro apela também para uma reflexão sobre o tempo, porque o pediatra considera que todos andam a “rosnar e de garras de fora”.

Uma das questões deixadas na obra, em jeito de desafio, é testar a capacidade de estar “uma hora sem ecrãs”, não contando o tempo de sono.

“Excluamos o tempo de dormir e o de trabalho e vejamos, das horas que restam, quantas passamos com um ecrã à frente (…) Parece canja, mas ficar sem SMS, telefonemas, e-mail, ‘tweets’, redes sociais… sem sequer olhar para ver ‘se já chegou alguma coisa’, vai ser muito difícil”, escreve Mário Cordeiro.

O pediatra compara a vida atual e a sua relação com o tempo com a escravatura: “O escravo (…) não tinha vida própria, vontade própria e tempo próprio”, aludindo desta forma à atitude de cobrança para uma disponibilidade permanente através do telefone ou das redes sociais.

Mário Cordeiro entende que deve haver coragem para “afastar a pressão de estar sempre” comunicável, sob pena de fazer sofrer os filhos, que estão “expostos ao comportamento dos pais, como que a radiações”.

O livro sugere ainda que a hora das refeições seja “um momento sagrado, ritualizado, partilhado”.

“Mesmo atendendo ao ritmo de vida das atuais famílias — e do qual estou bem ciente, podem crer, pelo que não pretendo estar aqui com moralismos de pacotilha —, é possível criar o hábito de fazer pelo menos uma refeição por dia em conjunto, com calma, e pelo menos uma mensal de toda a família. O homem é um animal gregário e necessita de o ser. Querer contrariar isso é condená-lo ao fracasso. Não é só o corpo que precisa de alimento”, escreve o autor, que é pediatra e autor de várias obras sobre a infância e a adolescência, além de pai e avô.

Sobre a falta de tempo de pais e famílias, Mário Cordeiro considera que pode induzir ‘stress’ nas crianças e uma “rapidez maior do que a que o ser humano consegue absorver e metabolizar”.

“As crianças não estão, ainda, habituadas a tanto ‘stress’, rapidez, aceleração e, sobretudo, à ausência de ritmos calmos, de lazer”, defende à agência Lusa.

“Ser e estar” em vez de “fazer e ter” é o que advoga o pediatra, para quem viver é fruir, é ter contactos pessoais, é ver o outro com empatia, é ter “o prazer de contemplar”, observar e interagir.

O pediatra considera que não são apenas os pais que têm de se interrogar “para onde vão” na “correria infernal sem destino aparentemente nenhum”.

“Tem um misto de intervenção pessoal e de intervenção estatal e laboral”, responde à Lusa, sublinhando a necessidade de políticas “integrais para a infância e para a família”.

Não se trata de inventar a pólvora, refere Mário Cordeiro, mas antes de olhar para exemplos do que já foi feitos nalguns países nórdicos, além de pensar que “o tempo é escasso e finito”.

“Não somos deuses”, afirma o pediatra, que constata que atualmente se vive com uma atitude de imortalidade e de que o dia tem 240 horas.

 

 

Mário Cordeiro. “Não vale a pena andarmos armados em super-homens porque não somos”

Março 1, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do i a Mário Cordeiro no dia 10 de fevereiro de 2019.

O pediatra tem um novo livro sobre o que o stresse anda a fazer às famílias e como mais calma pode fazer bem a pais e filhos.

Fazia anos de casado, estava a pensar num restaurante simpático para ir jantar com a mulher. De repente sentiu como que um elefante a esmagar-lhe o peito, tudo o que um professor da faculdade lhe tinha explicado um dia sobre os sintomas de enfarte. “Espero que nunca passem por isso”, ouviu nos bancos do curso de Medicina. Aconteceu-lhe no final de 2017. Acredita que a vida se desperdiça nas correrias em que cada vez mais se vai vivendo, ao ponto de se perguntar à pressa aos outros “está tudo bem?”, porque perguntar “como te sentes?” implica ter e querer ter tempo para ouvir. Já tinha bem adiantado o projeto do livro sobre pais apressados mas passou a fazer-lhe ainda mais sentido.

Começa este novo livro “Pais Apressados, Filhos Stressados” com uma pergunta ao leitor: “Como é que chegámos aqui?”. Costuma ouvir o desabafo?

Infelizmente acho que percebemos como chegámos aqui, a reflexão é se queremos continuar assim, porque a evolução será seguramente para pior, ou se podemos inverter isto de alguma forma. Os pais partilham e é visível no comportamento. Às vezes em coisas tão simples como uma criança estar ali a brincar com uma coisa qualquer e a maneira como os pais gritam “não brinques com isso!”.

É querer mostrar que se controla a situação?

Não sei. Se a criança estiver aos berros, acho bem que digam “fala baixo”. Mas às vezes fazem um barulho normal de um brinquedo a bater noutro, comportamento de criança, e é quase como se fosse uma censura, “não sejas criança”. Há uma certa limitação da atividade normal das crianças e do ser humano no geral e é essa pergunta que faço aos leitores e que faço a mim próprio há já bastante tempo, desde que me comecei a interessar pelos comportamentos humanos. Sempre me fascinou muito perceber porque é que as pessoas se comportam de determinada maneira. Porque é que somos de determinada forma e podermos ser diferentes.

O consultório dá-lhe pistas?

Não há ninguém que não queira ser feliz e ter uma boa vida. O desabafo que oiço aqui é “temos pouco tempo, o manelinho passa a vida de um lado para o outro e nós também”. A questão é: o tempo não vai aumentar. Às vezes parece que vivemos na esperança de que o dia estique para 48 horas e a vida para 500 anos. Tendo em vista a realidade, porque é que não mudamos de estratégia ou até onde é que podemos mudar de estratégia, porque também não subscrevo a tese do “mude de vida”, “vá para uma aldeia remota”, “as cidades são horríveis.” É a pergunta que quero lançar. Se toda a gente aparecesse aqui feliz e bem disposta, “que bom, tenho a vida que quero, adoro estar no trânsito uma hora”, então estaria tudo bem.

A maior parte das pessoas que recebe não se sente bem com a vida que leva?

Diria 99%. Uma esmagadora maioria das pessoas que falam comigo não estão muito contentes. Claro que há uma insatisfação que é própria do ser humano, que nos faz evoluir. Num marasmo não haveria sequer arte, os movimentos criativos resultam de rutura, angústia. Portanto, ainda bem que o ser humano quer mais e melhor, outra coisa é sentir o stresse e angústia de uma vida apressada. Se tivesse de elencar o problema número um, seria esse.

Pensando nos seus primeiros tempos de pediatra, nota muito essa aceleração nas famílias?

Talvez. Esta revolução toda no acesso à informação e comunicação acho que veio dar uma aceleração enorme. Vê-se nos nossos gestos. Se uma pessoa carrega numa tecla e o computador ainda está a ligar, é logo um stresse. Mais rápidos ou menos rápidos, são todos rapidíssimos.

Estamos cada vez mais impacientes?

Sim, às vezes é o tempo de carregar a fotografia do ambiente de trabalho, as coisas todas. Aquilo demora um mínimo de tempo a abrir. Se demora um pouco mais já estamos furiosos. Começamos logo a lutar contra o bicho carregando em teclas sucessivas. Se o Word está a ruminar, carrego 20 vezes e depois fico mais furibundo ainda, abro 20 Words e tenho de os matar um a um.

Descrito assim parece um comportamento completamente louco.

Mas é. Sobretudo se pensarmos que estamos a falar de coisas de segundos.

Transportamos essa impaciência e irritação para tudo, não? Para o trânsito.

Sim, ficamos crispados com facilidade. Por exemplo aquela cena de fim de semana, vamos comprar o jornal para ler. Sentamo-nos na esplanada. A ideia é vamos estar aqui um bocado a ler. Mas não. Começamos a pensar no que queremos e a tentar ver no radar onde está o empregado. Se o empregado foi lá dentro começa logo uma inquietação, um rosnar, “não está aqui ninguém, está isto cheio de gente”. E depois o “eles”, essa entidade…

É dos que rosna ou só observa?

Gosto de observar. “Eles deviam meter aqui mais empregados”. Como se nós é que soubéssemos da gestão da pastelaria. Manda-se um filho: “vai lá dentro ver”. Ou então pomo-nos num malabarismo a fazer sinais. Lá pedimos. Se não vem logo ou vem o empregado com um café para outra mesa, começamos logo a avaliar se pediram primeiro, se nós é que tínhamos direito. Isto é algo patológico: o normal seria esperar, ir lendo, o café lá chegaria e viveríamos com muito mais calma, tempo e paz. Mas não, temos excitação e stresse, que é transposto para o empregado e para as pessoas que estão connosco. Se eu estiver calmo enquanto espero pelo café digo “Zé não faças barulho”, “brinquem um com o outro.” Irritado começo “calem-se”, “chega”, “para que é que vos trouxe?”.

Observa muitas discussões dessas?

Sim, discussões de irritabilidade, anda tudo muito crispado.

Efeito de quê? Ainda da crise?

Não sei, provavelmente quem sofreu mais com a crise ficou triste, deprimido, mas não reagiu de forma tão histriónica. Um problema realmente grave é encarado com tristeza mas com calma. A maior parte das reações epidérmicas dos adultos, birras perfeitas, aparecem geralmente por motivos completamente fúteis. Resultam de um estado de frustração em que estamos mas sem haver verdadeiramente uma razão para isso. Um estado de permanente irritação de quem deixou de saber viver num registo de luta, adrenalínico – que devemos aplicar na escola, no trabalho, no fazer e mais todos os verbos transitivos – mas ao mesmo tempo garantir um registo endorfínico de calma, paz, que seria aquele que a pessoa encontra em casa e nos tempos de lazer.

E isso perdeu-se porquê? 

Acho que vem muito de não compreendermos a nossa biologia, de não percebermos que de facto existe este lado adrenalínico mas também temos de respeitar o lado mais calmo. Somos animais antes de sermos pessoas e cidadãos. Mas depois passa-se isto: cidadãos somos um bocadinho obrigados a perceber o que é porque se cuspirmos na rua, deitarmos o lixo, etc, a censura externa e eventualmente a polícia vem-nos bater à porta. A pessoa, nos seus sentimentos, já é menos compreendida, o que motiva discórdia familiar, conjugal. No fundo, as questões todas que resultam da falta de diálogo: num mundo com tanta comunicação, nunca se comunicou tão impropriamente. Olhar nos olhos dá empatia, não é um emoji que a cria, às vezes até reduz. Por fim, o nosso lado animal está completamente esquecido. Os miúdos na escola aprendem a biologia da rã, do coelho, do dinossauro… Do ser humano sabem muito pouco.

Dá algumas pistas no livro. Conta por exemplo que somos a uma única espécie que cora, como se fosse uma forma de prestar contas.

Até há uma série de televisão, “Lie to Me”, que romanceia um pouco isso. A interpretação de microexpressões diz muita coisa, se estamos a dizer a verdade, como é que nos estamos a sentir. O corar terá sido uma forma superior de desenvolvimento que permite mostrar à sociedade que sabemos que fizemos determinado erro. Não conseguimos fazer bluff do corar. Mostra que estamos arrependidos.

É dos que cora muito?

No liceu às vezes diziam “Cordeiro, cora” e eu corava logo. É uma culpa existencial, sei lá. Mas o facto de o próprio sentir a face mais quente dá-lhe um feedback do que fez e permite à pessoa ter um comportamento mais adequado.

Falta perceber mais do nosso lado animal para gerir um pouco melhor o dia a dia?

Penso que sim. Devíamos dividir a vida numa parte empreendedora e noutra calma, estar cientes de que necessitamos de cultivar o nosso lado mais frágil e vulnerável. A tecnologia surge com estes dois grandes objetivos: o empreendimento e esse lado mais introspetivo. Muitos animais, as formigas ou os lobos, têm sociedades altamente organizadas, com hierarquias, com regras. Isto nunca mudou. O ser humano tem uma capacidade de leitura do momento e de mudar. A tecnologia começou com a oponência do polegar, a manipulação de objetos. Como somos fracos e ao mesmo tempo preguiçosos, permite-nos ganhar tempo. Mas esse tempo devia ser usado para desenvolver a outra dimensão. Começou a ser desenvolvida no Neolítico: quando aparece o armazenamento de cereais, as pessoas passaram a ter mais tempo e começaram a desenvolver-se a arte, ideias, filosofia.

Com mais tecnologia, teoricamente mais tempo, devíamos ter mais arte e filosofia?

Muito mais. E é espantoso que há mais de meio século não se produza uma ideia filosófica. O homem do Paleolítico, ao contrário do que pensamos, não andava todo o santo dia a caçar e lutar. Claro que mal escurecia, acabava o dia, mas entretinha-se já com alguma parte artística e alguma parte de diálogo, que não era maior porque ainda era muito rudimentar a linguagem. A linguagem evoluiu extraordinariamente. Ninguém está à espera que exista uma evolução perfeita, mas haverá aqui um subaproveitamento.

Começa em criança?

As crianças estão a ser habituadas a não pensar. A Universidade do Porto fez há pouco tempo um estudo, creio que no secundário, em que chegou à conclusão de que a média de perguntas por aula era duas. Fazendo uma pool de todas as perguntas, em 60% dos casos a pergunta era “setor, posso ir à casa de banho?”.

Isso não foi sempre assim?

Não acho que tenha sido. E também depende dos professores. Tive a sorte de fazer parte do meu estágio em Inglaterra. O ensino inglês não era aquele género de encher um anfiteatro de 100, 200 ou mil alunos e depois estar ali a alguém a debitar. Era tutorizado. Cheguei a dar aulas lá e tínhamos grupos de cinco, seis alunos. Obviamente havia aulas teóricas e eram mais expositivas. Mas no final da aula o professor lançava o desafio de estudar ou pensar sobre alguma coisa.

Eram aulas de quê?

Saúde pública pediátrica. Um professor dava-nos um livro sobre como prevenir acidentes ao pé da escola. Dizia: “daqui a dois dias vamos discutir este livro no Brown’s”, que era um café ali perto. Às cinco da tarde lá estávamos e não era dizer que tínhamos lido o livro e desbobinar, perguntava o que achávamos da estrutura, coisas assim.

Isso se calhar dá para aplicar assim na faculdade, mas no básico ou secundário é mais difícil.

Há sempre forma de o fazer. Pergunto quantos professores de português do 11.º ano aqui da região de Lisboa disseram aos alunos que até dia 18 está uma exposição gratuita na Gulbenkian sobre “Os Maias” ou organizaram uma visita? Se fosse 100% seria perfeito, suspeito que não. Às vezes convidam-me para ir dar umas aulas ao Liceu Filipa de Lencastre onde andam os meus filhos – um está no 11.º e o os gémeos estão no 10.º – e oiço aquele comentário “Dos ‘Maias’ já há o filme, que bom”. O objetivo não é saber a história, conta-se num minuto. É o prazer de ler Eça, as palavras, a descrição dos lugares. Gostei muito do filme, mas quando li fantasiei o Carlos da Maia e a Maria Eduarda à minha maneira e é essa fantasia que se tem na leitura que é importante.

Neste seu livro fala do cúmulo de hoje haver livros para miúdos com histórias que se leem num minuto e meio.

Encontrei um, é assustador. Agora controla-se o tempo de estadia de pais e filhos ao fim do dia? Tem de haver uma campanha pela importância de ler as histórias com tempo para demonstrar que quem quer despachar está errado.

No seu livro descreve aquela cena típica em que as crianças pedem para ler a mesma história dia a após dia e os pais a certa altura estão cansados, vão espreitando as notificações no telemóvel.

É natural, não gosto de pôr isto entre maus e bons, santos e pecadores.

Mas são coisas que lhe contam ou passou pelo mesmo com os filhos mais novos?

Nunca tive muito essa coisa, mas acho que tem muito a ver com a educação que tive. Agradeço aos meus pais e avós terem-me ensinado a frugalidade. O fazer opções. O meu pai era uma pessoa que tinha imensas solicitações.

Um pai pediatra.

Sim. A dada altura era o único professor de pediatria do país.

Passava pouco tempo convosco?

Lá está, não. Havia colegas dele que ficavam a dar consulta até às duas, três da manhã, porque havia necessidade – hoje há bancos de urgência – mas para ganhar mais dinheiro também. Tínhamos uma boa vida e não vou negar isso mas tínhamos o que precisávamos, não mais do que precisávamos. Era uma pessoa altamente espartana, tinha vindo sozinho de Goa aos 14 anos, para casa de um tio jesuíta, muito rígido, rigoroso e exigente. Herdou um bocado isso. Quando tínhamos boas notas, enquanto alguns pais ofereciam prendas aos filhos, o meu pai dizia sempre “têm livros, andam numa escola boa – andava no Pedro Nunes – e portanto não fizeram mais do que o que deviam”. Às vezes irritava-me, via os meus amigos com isto e aquilo, mas fez-me muito bem. O meu pai era muito solicitado até para vida social e nunca fez nada disso. Gostava de estudar, fazia consultório porque precisava, tinha oito filhos, mas eram só três dias por semana entre as três e as seis da tarde.

Depois ia para casa?

Às seis encerrava e ia para casa. E à hora de almoço ia sempre a casa. São as memórias que ficam e que depois reproduzimos, são os tais arquétipos de opções de vida: mesmo quando estava a trabalhar na faculdade, fazia tudo por ir almoçar a casa. Gostava de estar ali aqueles dez minutos e nós todos fazíamos um esforço para ir almoçar. Depois íamos tomar café. O meu pai ia sempre dormir um quarto de hora antes de ir apanhar o metro para ir para o consultório e pedia sempre a um de nós que escolhesse um disco para pormos a tocar. Não tocava nenhum instrumento mas era um melómano e contava sempre alguma coisa sobre as músicas.

Herdou dele o seu lado melómano?

Sim. Desde os quatro, cinco anos que nos pôs a todos a aprender piano. Dizia: “não espero que vão todos dar concertos”. Mas fazia bem aprendermos um instrumento, pelo rigor, por nos fazer bem.

Pelo treino da paciência?

Enganar e repetir não sei quantas vezes. Uma das coisas que aprendi mais com ele foi que não somos perfeitos, longe disso. O que devemos pensar é que somos imperfeitos mas isso é uma vantagem: é um estímulo a aprender, a melhorar, a aperfeiçoar. Voltamos ao início: leva-nos a pensar no que podemos fazer para que amanhã seja melhor do que o hoje.

Pais que não conseguem fazer o esforço de parar estão a criar filhos que vão fazer o mesmo?

Não sei se é um esforço, ou um dever, ou uma capacidade. Com certeza que há trabalhos que não o permitem e as pessoas não se devem culpabilizar e isso é uma coisa que se nota: muitas vezes a insatisfação com a vida vem de se fantasiar uma vida impossível. É muito bonito dizer que devíamos arranjar uma casa no centro de Lisboa – sabemos bem o que isso significa em termos de preços. Lá vai a pessoa morar não sei para onde e tem de fazer o IC19, o IC17 e por aí fora. Mas o que fazemos quando vamos dentro do carro? Vamos a rosnar porque demora 45 minutos a chegar a Lisboa ou aproveita-se para conversar? Quando chegamos a casa, o mesmo. Acho que valorizamos pouco o lar.

Agora há uma guru das arrumações, Marie Kondo, que diz que devemos agradecer à casa.

Bom, agradecer à casa.. cada um agradece a quem quiser. Como quem agradece a Deus ter sido operado e ter ficado bom, eu agradeço aos médicos, aí sou mais prosaico. Depois de um dia de luta, a casa tem de ser o verdadeiro lar dos romanos. Lar vem de lareira. No sistema matriarcal romano, era mantida acesa pela mãe e o pai trazia a lenha. A família reunia-se à volta do fogo. Quando se regressa a casa, o pensamento devia ser, goste-se mais ou menos da casa que se tem, que é o sítio no mundo que está mais à nossa medida. E quem lá está são as pessoas que eu amo mais. É o nirvana. Devia deixar essa luta diária do patrão, do trânsito, que até pode ser estimulante mas também é cansativa, de fora.

Em termos práticos significa o quê? Desligar o telefone?

Sim. Ou outra coisa que para as crianças faz uma diferença enorme: cumprimentá-las, brincar, perguntar às pessoas “como te sentes?”, que é uma pergunta que não se faz. Não digo que não se pegue mais no telefone ou não se responda a um email, mas numa oportunidade. Então com filhos pequenos este espaço tem de ser muito marcado. Fazermos uma dessas tais microexpressões, abandonar os sacos, a mala do computador – no fundo dizer ‘eu preciso dos meus braços’ – e abraçá-la é uma coisa fundamental. E depois pergunta-se “como foi o dia, como te sentes?”. Se quer brincar, vamos brincar. Daí a um bocado então vai-se arrumar as compras, já a criança teve um banho de mãe ou pai e até quer brincar sozinha.

Se os pais entram agarrados ao telefone eles notam logo. Estão à espera desses gestos?

Sim, claro. Isto são dez, 15 minutos que fazem a diferença. Há bocado dizia que não perguntamos a uma pessoa “como te sentes”. Não é só em casa. A pergunta abre um leque de possibilidades. Se a pessoa disser que se sente bem, ótimo. Se se está com um problema, é um problema que temos de ouvir. E por isso a pergunta é “então tudo bem, não?”. É pôr um muro e dizer “por favor não venhas com queixumes, não tenho pachorra”. E o outro responde: “sim, vai se andando”. É uma fuga relacional. Vamos tendo muito pouca empatia e disponibilidade uns para com os outros. Em contrapartida, há muito narcisismo, exibicionismo, mesmo de quem tem vidas que não correspondem àquilo que se desejava. As redes sociais são um espelho dessas vidas fabulosas.

As viagens, os restaurantes.

Sim, “fui almoçar aqui”, “olha para mim em Nova Iorque”. Ninguém mete “olha para mim no trânsito”.

Há quem meta.

Sim, mas aí é para criticar.

Já tem sido dito que essas comparações nas redes sociais aumentam a nossa frustração. Aquele desabafo do “não sei quem está na Islândia e eu não vou a lado nenhum”.

Pois, e a comparação é com coisas episódicas. E não se diz logo onde é para as pessoas perguntarem, “onde estás, que paisagem tão bonita”. E lá vem a resposta: “algures no norte”. Depois de se fazer sofrer um bocadinho é que se diz onde é.

Estamos mais perversos?

O ser humano é mauzinho até prova em contrário. Acredito que tem uma possibilidade de ser muito bom mas tem uma parte narcisista, egocêntrica, uma ganância que se não for domesticada vai crescendo. Se não percebermos o sofrimento dos outros, se não tivermos empatia, se não valorizarmos o que temos, portanto sermos frugais, entramos numa espiral.

Sente os pais preocupados em passar isso aos filhos?

Sinto que passam muitas vezes a mensagem “tens de ter, tens de ter, tens de ter”. Às vezes fico a pensar nesses casos todos que vemos: para quê querer ter tanta coisa? Muitas pessoas passam a vida a trabalhar e nem gozam nada, não têm tempo. E isso é outra coisa que vejo: as pessoas pensam a certa altura que são imortais, aquela ideia que se tem na adolescência. Ora não vamos viver para sempre, é uma ilusão. A nossa vida é limitada. Mais, é quase ridícula quando comparada com uma árvore ou um saco de plástico. Até coisas tão banais vivem largamente mais tempo que nós. Ainda noutro dia estava em Serralves a olhar para uma oliveira. Aquela oliveira carcomida tinha mais de mil anos. Se uma pessoa se puser a pensar no que era isto quando aquela oliveira nasceu, como era o mundo, relativizamos muita coisa. Faz-nos sentir ridículos, não num sentido pejorativo, mas mostra como a nossa existência é pequenina. Não vale a pena estarmos armados em super-homens porque não somos.

Preparou este livro depois de passar por um desses embates, um enfarte.

Por acaso o livro já estava praticamente escrito porque esta já era uma questão que me preocupava. Tentei sempre não andar muito stressado. Ocupado sim, gosto imenso de fazer coisas. E tenho uma enormíssima angústia existencial, vivo com este dilema desde miúdo, desde que lembro de mim próprio. Senti sempre esta dicotomia entre querer fazer muita coisa e, ao mesmo tempo, sentir que o tempo não ia chegar para tudo.

Nunca se achou imortal?

Não, nem mesmo nessa fase da adolescência. Os meus amigos gostavam muito da borga, mas eu preferia estar num bar que desse para conversar. O Procópio, o Tostão, o Foxtrot. A Primorosa de Alvalade, que agora apareceu outra vez. Eram sítios onde havia hipótese de conversar e onde discutíamos coisas filosóficas, a existência de Deus.

Política?

Estávamos no antigo regime. Ouvíamos discos clandestinos, Léo Ferré, havia sempre alguém cujo o pai ou mãe ia a França e lá trazia na mala do carro os vinis. Livros de Simone de Beauvoir que eram censurados mas alguém trazia.

Simone de Beauvoir chegaria a vir cá com Sartre uns anos mais tarde. Foi vê-los?

Não, mas lembro-me de ter ido ver o Maurice Béjart ao coliseu no dia em que o Robert Kennedy foi assinado. No final ele foi chamado ao palco, altamente aplaudido, falou do Kennedy e disse “vive la liberté”. Mal chegou aos camarins, a PIDE agarrou nele e mandou-o para França. Lembro-me de esse episódio me ter chocado muito. Mas o livro que mais me marcou e que li em francês foi o “Les Misérables”. A perceção das injustiças.

Não o via na rua?

Fui despertando pouco a pouco. Apesar de viver num ambiente burguês e onde não faltou nada, ia tendo alguma noção. O meu pai sendo uma pessoa conservador, católica…

Pró-regime?

Não era, era mais Sá Carneirista. Eu passava à máquina alguns dos estudos que ele fazia, que era uma forma de ganhar uns cobres naquelas férias de verão enormíssimas, e lembro-me de um artigo que ele escreveu e que me marcou. Analisava a mortalidade infantil nos vários distritos e explicava porque é que, por razões sociais, era maior nuns do que noutros.

Nessa altura morriam mais de 50 crianças por cada mil nascimentos.

Muito mais. Quando eu fiz pediatria já depois do 25 de Abril a taxa de mortalidade andava nos 60 por mil. Nesse artigo o meu pai mostrava que havia uma diferença brutal entre mães licenciadas e mães analfabetas, o que ainda há hoje, mas havia também uma diferença cultural. O Alentejo tinha os melhores números do país.

Mesmo sendo uma zona rural?

Sim, uma zona paupérrima com toda a falta de condições. Leiria também foi sempre campeã em baixa mortalidade infantil. Quando se ia para a região do Porto e Braga, que era equivalente em termos de pobreza, já tinha indicadores mais altos. Tinha a ver com indicadores de tradição. O aceitar ou não a morte de uma criança. No norte era mais um anjinho, no sul havia uma revolta, havia maior reação, o pensar o que se podia mudar.

Como viu o recuo da mortalidade infantil em 2018?

Os números hoje são tão baixos (3 mortes por cada mil nascimentos) que não podemos ver um ano só, é preciso ver clusters de vários anos. Inferir logo que tem a ver com os serviços de saúde e o SNS é errado. Agora o que a DGS devia fazer todos os anos é analisar cada morte. Para lá de serem 50, 60, 100 ou 200, o que interessa é perceber se eram evitáveis ou não.

Ia falar-me do susto de saúde que teve.

6 de dezembro de 2017.

Um dia como os outros?

Um dia mais tranquilo que os outros. Era quarta-feira, como hoje, um dia em que resolvi já algum tempo tirar para fazer aquilo que me dá na real gana. Trabalhar, escrever, o que for, mas ter um dia mais calmo. Tinha acabado de passear o cão depois de almoçar com um dos meus filhos que teve um intervalo no Filipa. Cheguei a casa, só eu e o cão, fui tocar violino. Era o dia de aniversário do nosso casamento, a minha mulher estava a trabalhar e até tinha acabado de lhe telefonar para dizer “hoje os miúdos ficam e nós vamos jantar a qualquer lado”. Ela até disse: vê lá isso, escolhe um restaurante giro. E eu ia pesquisar para ver um sítio novo. De repente começo com um elefante em cima do peito, a sensação que se vai morrer, é uma coisa única.

Percebeu logo?

Sim, tinha aprendido isso tudo no curso. Tive um professor de cardiologia que dizia sempre: “isto é muito simples, é um elefante sentado em cima do peito, depois a tromba do elefante faz assim uma curva para o braço, um enjoo que não dá para vomitar e a sensação que vai morrer”. E nós perguntávamos: então mas a sensação que vamos morrer temos todos? Isto é outra coisa. Uma coisa é saber que se pode morrer, outra é saber que vai morrer. E lembro-me de ele dizer “espero que nunca passem por isso, mas se um dia passarem, veem que é diferente.”

Pensou nele?

Senti exatamente isso. Percebi logo que era um enfarte. Agarrei no telefone fixo e no portátil, enquanto num ligava para o INEM, no outro ligava para a minha mulher. E ela “então já arranjaste o sítio?”, e eu “olha estou a ter um enfarte”. Apanhou o susto da vida e veio ter comigo, já me apanhou a caminho do hospital. Ainda fui ali a um centro de cardiologia perto de casa, arrastei-me para um táxi. Abri a porta da rua – são aqueles momentos de lucidez – lembrei-me que se viessem e eu estivesse K.O., ter a porta aberta era melhor. Agarrei-me à cadela, precisava de sentir calor de algo vivo porque senti mesmo que ia morrer. Mas também não senti medo.

Perdeu os sentidos?

Nunca cheguei a perder. Mas o que me surpreendeu foi não ter tido medo. Deram-me morfina, as dores são uma coisa pavorosa. Mas tive sorte, era uma quarta-feira às quatro da tarde, não havia trânsito, não estava a chover. São aquelas coisas que podem fazer a diferença. Lembro-me de desaguar quase diretamente da ambulância para a sala de cateterismos e já lá estava tudo preparado, foram impecáveis em Santa Marta e a via verde coronária que existe para estes casos é muito boa. Estava mesmo muito muito mal.

O médico disse-lhe?

Deu a entender que se tivesse esperado mais um bocadinho se calhar… estava todo entupidinho. Foi tudo um bocado surrealista ao mesmo tempo.

Viu o filme da vida?

Não. Senti duas coisas: se isto der para o torto, chegou a altura. Foi um aceitar de que ninguém é eterno. Mas por outro lado uma enorme esperança de que ia correr bem. Uma duplicidade, mas não antagónica. Vai correr bem, se não correr não correu. Como lhe disse, sempre tive alguma angústia existencial, pena da finitude da vida. Não é medo da morte, é pena. Medo de sofrimento, claro, mas é mais a pena. Gosto tanto, tanto, tanto de viver e todos os dias encontro mais uma razão, mais uma causa, mais uma coisa interessante, que me faz uma enorme pena saber que há um fim.

Depois de uma experiência dessas faz-se o quê? Chegou a casa e fez uma bucket list?

Também não digo tanto, mas houve coisas que mudei. Forcei um bocadinho que o livro que saísse, escrevi algumas partes de novo, mas é uma bocado ter esta insistência de que não é preciso chegar, no meu caso aos 62 anos com um enfarte do miocárdio e ver a senhora da foice à frente, para fazer mudanças. Eu já tinha um dia a meio da semana para respirar, foi por não querer aturar chatices na faculdade que resolvi um dia aposentar-me precocemente – o ambiente era de tal forma distorcido que já não me interessava nada aquelas lutas intestinas de poder. O que expresso é muito isto. O tempo é escasso e finito e não vale a pena pensar que não é. O epílogo do livro é como se fosse escrito pelo cão e passa essa mensagem. Tenho uma relação muito especial com os cães, de dia para dia sou cada vez mais canídeo – estou envolvido em não sei quantos projetos, associações, na provedoria dos animais de Lisboa.

Mete o cão a observar a família acelerada.

Sim, pensei que no meio do caos que se estabelece entre os humanos, o cão observa. Por não ter noção do tempo, tem todo o tempo do mundo. O ser humano vive aflito porque ou não tem tempo, ou acha que tem todo o tempo e se não for hoje é amanhã, não sabemos viver com a noção de tempo e com este pavio curto que temos, quando ainda por cima depois há crises, doenças, isso tudo. O cão é um felizardo.

Não nos podemos libertar da noção do tempo.

Mas podemos pensar todos os dias se temos liberdade para mudar o presente e futuro e acho que temos. E é isso que tento fazer no livro, dar algumas dicas.

Um dos temas que foca é o acordar das crianças, aquele stresse de manhã em que, a certa altura, os pais estão a culpar os filhos por irem chegar tarde ao trabalho, por não se despacharem.

Às vezes temos uma linguagem de adultos que as crianças não percebem. Essa história em que a criança está a dormir tranquilamente e é acordada assim. É impossível que uma criança que esteja a dormir e a sonhar com qualquer coisa, de repente às sete e meia da manhã seja despertada e diga: “sim, senhora, vou levantar-me, tomar o pequeno-almoço, lavar os dentes, tudo sem fazer birra”, isto com três ou quatro anos. É impossível, não há hipótese. Temos de fazer as coisas de maneira diferente.

Como?

Acho que temos de começar a ser mais exigentes com as escolas, com o sistema laboral. Os nórdicos nem sempre foram “os nórdicos”, neste sentido de serem mais evoluídos. Já estiveram como nós. Quando me dediquei a prevenção de acidentes e fundei a APSI (Associação Para a Promoção da Segurança Infantil), comecei a analisar os dados que havia em cada país. Por exemplo na Suécia, até aos anos 50 a mortalidade por acidentes era igual à nossa. E de repente nós continuámos lá por cima e a Suécia veio por ali abaixo.

O que mudou?

Mudou uma coisa, que é isso que acho que tem de mudar. É uma história fantástica, de um professor que acabou por morrer num acidente, para salvar o cão. O prof. Berfenstam, que era de Upsala, conheci-o pessoalmente. Um dia foi convidado pela televisão sueca para ir a um daqueles programas muito vistos nos anos 50, dava perto da hora de jantar e era dirigido aos pais. A entrevista era sobre alimentação das crianças. A jornalista começou a fazer as perguntas sobre o tema e ele começou a responder. De repente para e diz “desculpe, não vou falar mais de alimentação. Estou a falar de uma coisa que sinceramente, coma arenque, coma salmão, tanto faz. Quero falar de outra coisa: quero falar dos acidentes que estão a matar n crianças suecas. Isso sim é o que quero discutir convosco.” E lá disse o que era preciso fazer, prevenir, melhorar os sistemas de proteção nos automóveis.

As primeiras cadeirinhas?

Sim, havia um engenheiro de biomecânica que tinha começado a desenvolver um protótipo porque tinha um filho que tinha morrido num acidente e nunca se convenceu de que aquilo fosse inevitável. Planeou uma cadeira, fez testes com volvos antigos. O Berfenstam faz esse momento na televisão, vai para casa e de repente toca o telefone e era o ministro dos Transportes da Suécia a dizer que, como pai, tinha ficado completamente siderado com a situação, não fazia ideia. Pediu-lhe para ele ir a Estocolmo para falarem. Ministro dos Transportes que veio a ser primeiro-ministro e que era o Olof Palme, que depois foi assassinado numa rua de Estocolmo. Dispensava a segurança, dizia sempre que queria andar com a mulher e os filhos, ir ao cinema sem ser com uma legião atrás. Conheci-o, a ele e à mulher, e era uma pessoa inacreditável. Para mim é o ex-libris do que deve ser um político, é talvez o político que mais admiro na história.

Cá quem são as referências?

Cá houve pessoas boas. Há políticos ótimos, há políticos péssimos. E depois há os malandros e os não malandros. Não vou dizer nomes mas é verdade.

Como vê o atual momento político? A crispação que se vê nos debates?

Já respondo porque é importante. Concluindo a história do Berfenstam. A partir daí o Olof Palme disse ao ministro “então faça-se, apresente medidas ao parlamento, orçamente e se for aprovado implementamos”. No fundo os saberes técnicos conjuntamente com a vontade política e uma população sensibilizada, contribuiu para uma sinergia que levou à mudança. O mesmo aconteceu cá. Quando a Leonor Beleza foi um dia visitar o Hospital Maria Pia e o administrador fez os salamaleques do costume, o Octávio Cunha disse: “Não, não está tudo bem, e eu seria um péssimo funcionário público e péssimo servidor do ministério se dissesse que está”. Disse que morriam ali crianças que vinham de Bragança, de Trás-os-Montes por más condições de transporte e acidentes, porque faltavam ventiladores. Ela agradeceu a honestidade e mal chegou a Lisboa convocou-o. E foi aí que se desenvolveu em Portugal o programa de saúde materna e infantil. Curiosamente, e já vamos à crispação, a Leonor Beleza era do PSD, disse apenas que a comissão devia ter como presidente Albino Aroso, que era do PSD mas até muito de uma ala à esquerda, uma pessoa reconhecida, pai do planeamento familiar, um coração maior que a caixa. Mas depois a ministra disse escolham três obstetras e três pediatras para trabalharem. As seis pessoas escolhidas eram todas ligadas ao PS ou ao PCP, ou não tendo partido, tudo gente esquerda. Nunca, com nenhum ministro, e trabalhei com vários, nunca houve problemas políticos. Houve sempre o compromisso: nós éramos os técnicos. Claro que a decisão é política, mas tivemos toda a liberdade.

Mas mesmo no livro há um desabafo de que o tempo da política nem sempre é o mesmo do dos técnicos.

E é verdade, houve discussões várias, mas havia um à vontade tal que tem se cultivar. O que às vezes é pena é que não haja mais conciliação. Sei que é difícil, da mesma forma que é difícil para um sportinguista aplaudir a jogada do adversário e vice-versa. Acontece excecionalmente, quando o Renato Sanchez meteu aquele golo, a Luz toda levantou-se apesar de ter enterrado o Benfica. São casos excecionais e geralmente assobia-se o adversário, mas na política também há isso e é pena não se ver nunca nos debates, quando justifica, um “por acaso tem razão”.

Os problemas do país resolvem-se mais devagar?

Muito mais, sobretudo os problemas que são cada vez mais sistémicos e que, por isso, precisavam de sinergias maiores.

Se agora fosse a sua vez de interromper o programa, alertava para quê?

Está a perder-se demasiado tempo com o combate de galos quando há coisas a resolver. São precisos grandes investimentos na saúde, que está numa situação crítica, e na educação. A saúde tem um problema estrutural de falta de recursos e corremos um risco de rutura – o orçamento da saúde tem de ser maior. E é preciso acabar com este clima. Os enfermeiros têm sido muito maltratados desde há décadas. Hoje querem, e muito bem, um estatuto diferente, mas sou completamente contra esta greve às cirurgias. Sou pelo direito à greve, mas o intuito da greve é incomodar o patrão. Incomodar aqueles que não têm nada a ver com o caso e sobretudo os mais desfavorecidos, acho uma perfeita indecência.

São quem continua no SNS?

Tendencialmente. Qualquer pessoa que precise de uma cirurgia a uma tendite e tenha um seguro vai ao sistema privado ou tenta desenrascar dinheiro com a família, como for. Mas quem não tem, não tem mesmo. A redução das desigualdades é talvez o grande problema do nosso país. Na educação também há escolas a cair e problemas, mas para mim não é tão preocupante haver paredes mal pintadas, até porque os miúdos se estão nas tintas. Para mim o problema da educação é estar um sistema educativo velho, que não está a pensar no futuro. A arte está cilindrada, a parte física idem.

Os professores testemunham que, quando os pais pressentem um jeito para as artes, tentam desviá-lo.

É logo, qualquer talento é logo abafado. As pessoas se forem boas, vão ser boas, é isto que temos de passar. O investimento dos pais deve ser em cidadania, respeito, em estudar com certeza mas também em ter tempo livre. Autonomia com responsabilidade.

Qual é que é hoje a principal preocupação dos pais?

Acho que é quererem ser pais perfeitos e fazerem tudo bem e culpabilizarem-se muito se alguma coisa corre mal. Têm sempre as gavetas cheias de culpa. Querem muito que os filhos tenham tudo e não conseguem dar-lhes um bocadinho de frustração. Quando dizem “Maria não vais comer um gelado porque acabaste de comer um”. Alguns não conseguem dizê-lo, a Maria faz uma birra e leva um segundo gelado. Mas mesmo aqueles que conseguem e dizem que não, ficam mortificados, “o que fiz à minha filha?”.

É o medo de traumatizar.

Sim, coitadinha, queria tanto o gelado. Não deu e pronto. As pessoas têm de perceber que não é isso que põe em causa o amor dos pais, pelo contrário, as regras, a firmeza e haver alguma orientação são uma demonstração de amor, mesmo que os filhos fiquem furiosos. O nosso papel é desmontar essa fúria e mostrar que há mais tempo, há mais gelados. É essa a perspetiva que os adultos têm de dar e por vezes se demitem, a perspetiva de quem já viveu, tem experiência e que a experiência diz que é preciso ter calma.

Dar significa ter um feedback mais rápido. Pais que vivem com pressa…

Sim, mas é comprar afeto, é despachar tudo. Mas se calhar acaba o segundo gelado e pede o terceiro e com que cara é que a pessoa não dá o terceiro. E este quero tudo já leva ao narcisismo, que é a pior doença social, a que desgasta mais. Está muito relacionada com poder: o narcisista quando tem poder, seja doméstico, social ou político, sobe aos píncaros.

Falou-se esta semana do flagelo da violência doméstica. Está muito por fazer?

Felizmente cada vez mais se fala destes casos, é dos maiores serviços públicos que a comunicação social tem feito. Lembro-me bem de ser normal, portanto nunca ser tido como violência, muito menos notícia, um marido bater na mulher, espancá-la, quando a equipa perdia, quando estava chateado ou quando tinha bebido para lá da conta. Bebia-se mais do que se bebe agora, os homens iam para o campo, levavam os garrafões. Se alguém levasse um garrafão de água era ridicularizado. E as frustrações, fosse do clube perder, fosse a mulher dizer alguma coisa. Depois como os homens no geral ainda são mais fortes do que as mulheres e não havendo argumentação verbal… isso é outra coisa que há que pensar. Quando as pessoas eram mais analfabetas, com vocabulário limitado, faziam vingar as suas ideias à força, o argumento era a chapada.

Discutir com uma pessoa bêbada…

Pois, até a pessoa mais erudita fica limitada. Portanto havia uma violência brutal e não nos esqueçamos que há 100 anos um homem podia matar a mulher se a apanhasse em adultério e era considerado defesa da honra. Houve uma grande evolução histórica e tiro o chapéu a todas as organizações que têm dado o poder às mulheres de falar, isto acompanhado de filmes e séries que dão também força. Disto isto, não se pode subestimar o que continua a acontecer. Deve incutir-se o respeito pelos outros. Claro que haverá casos de psicopatas no meio, mas haverá muitos problemas de álcool e um problema de má gestão da raiva. Temos de ensinar as crianças a gerir a raiva, não pode ser partir tudo. E nós próprios não soltando impropérios só porque um carro está mal estacionado. Temos de conseguir ser menos violentos todos. E perante casos concretos, não pode haver contemplações.

As crianças apanhadas no meio destes casos ficam marcadas para sempre?

Este último caso foi trágico mas as crianças ficam muito marcadas. A violência verbal, a acrimónia entre os pais ou no ambiente familiar, faz as crianças ficarem encolhidas.

O Papa pediu noutro dia para os pais não discutirem à frente dos filhos.

E tem razão, embora ao estarmos a viver como animais enjaulados, ficamos como aqueles peixes lutadores que não se podem pôr dois no mesmo aquário. É instintivo. Até pode ser um aquário de dez metros que eles vão encontrar-se e lutar. Portanto passa por combater isto e ensinar às crianças que não pode haver violência. Uma das coisas que me assusta mais é constatar que os números da violência no namoro estão a aumentar. Mais de metade das raparigas de 15 e 16 anos acham normal a violência, acham um sinal de amor que os namorados lhes casquem em cima, ver mensagens do telemóvel, formas capciosas de controlo. Isto é assustador. E por isso acho que a escola, mais do que ensinar a multiplicação de potencias e superlativos, tem de fazer este exercício de mostrar que isto é inaceitável. Isto também começa pela maneira como tratamos os animais.

Há quem goze com esta nova forma de elevar os direitos dos animais.

Já fui gozado n vezes por ter projetos nesta área. As pessoas perguntam: “interessavas-te por crianças, agora és pelos animais?”, como se uma pessoa fosse de um clube e mudasse para outro. Hannah Arendt tinha razão quando falava da banalização do mal. Quando o mal é banalizado, custa a primeira vez mas depois uma pessoa habitua-se. Há uma dessensibilização, tal e qual as vacinas das alergias. O que são as vacinas dos ácaros? Dá-se tantos ácaros que a certa altura o sistema imunitário já não reage, desiste. A maneira como tratamos os animais, a natureza, diz muito.

Já se tornou vegetariano?

Não, como menos carne do que comia porque gosto mais de peixe. Acho que o ser humano existe e não temos de o tirar do ecossistema, mas podemos usar a nossa inteligência para não dar cabo disto.

Tem-se usado a pobreza do passado para explicar a má qualidade de vida na terceira idade. Com o stress de hoje, como é que lá chegaremos?

Pois, não sei. Não defendo a miséria do tempo de Salazar, mas a vida rural tinha alguns fatores protetores que importa resguardar, a confraternização entre as pessoas. Encontrar os vizinhos, conversar. O relacionamento social é altamente protetor.

É outro conselho aos pais, tentar fazer mais vida de bairro?

Sim, não ter medo de deixar as crianças saírem à rua. Este medo que se estabeleceu então depois do caso Casa Pia é terrível, como se houvesse um pedófilo em cada esquina. As crianças correm muito menos riscos hoje do que antes.

Porquê? Essas pessoas continuam a existir.

Era normalíssimo, nem era denunciado. Às vezes até era incentivado pela comunidade. Tive um caso na Madeira há muitos anos em que era uma comunidade em que era costume o pai da noiva, em frente ao noivo, ter relações com ela na véspera do casamento para mostrar que era virgem. Fui chamado para tentar explicar às pessoas que aquilo não era correto. Como o pai estava emigrado, foi a própria população que se quotizou para pagar o avião, se não o senhor não tinha dinheiro para vir.

Foi quando?

Nos anos 80. A questão que se punha era se era considerado um maltrato, mas para ele ir para a cadeia toda a aldeia tinha de ir. Era o normal. E a conclusão foi que só através de um trabalho enorme de fazer as pessoas perceber que aquilo não era ético é que foi possível mudar.

Há pouco não concluiu: sentir que esteve à beira da morte mudou o quê?

Vejo talvez a vida com mais calma, a expressão é difícil de arranjar. Sinto-me bem. Não queria perder muito tempo com discussões estéreis. Procuro ter momentos de paz. Uma coisa que me faz a tal angústia existencial, que agora obviamente me persegue um bocadinho mais, é levar-me a aproveitar a beleza. Sempre fui muito desprendido materialmente, livros e música são a minha adição, de resto gosto de passear e ver coisas bonitas.

Não fez as pazes com ninguém?

Tenho procurado estar mais com amigos. Aquela coisa do “um dia temos de almoçar” não é nada. Digo mais vezes “pega na agenda e marcamos”. Gosto muito da beleza das coisas e olho cada vez mais. Chamo cada vez mais atenção dos meus filhos e até dos clientes. Noutro dia estava a mostrar a uns pais aqui pela janela: podem olhar para uma árvore aqui em frente que está ainda muito invernosa, mas já há aí árvores com gomos e folhinhas a nascer. Isto é um ciclo. Fazer parte disto é um privilégio. É um privilégio estar vivo.

 

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