Finlândia – o primeiro país do mundo a abolir as disciplinas escolares

Março 19, 2017 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site http://uptokids.pt/ de 4 de março de 2017.

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O sistema de Ensino da Finlândia é considerado um dos melhores do mundo. Está sempre no top 10 no ranking internacional. No entanto, não pretendem descansar sobre os louros, e agora decidiram revolucionar por completo o sistema escolar, abolindo as disciplinas do currículo escolar. Deixará de existir matemática, história, geografia ou literatura.

O chefe do Departamento de Educação em Helsínquia, Marjo Kyllonen, explicou as alterações: “Há escolas que aplicam métodos de ensino que já foram eficazes no inicio dos anos 1900, mas neste momento, as necessidades são outras, e precisamos de um método que se adapte ao século XXI”

Em vez de disciplinas escolares individuais, os alunos irão estudar eventos e acontecimentos de uma forma interdisciplinar. Por exemplo, a 2ª Guerra mundial será abordada na perspectiva da História, da Geografia e da Matemática. Na área “Trabalhar num café” os alunos irão desenvolver conhecimentos na área da Língua Inglesa, economia e comunicação.

Este método será introduzido nos alunos mais velhos, a partir dos 16 anos. O conceito baseia-se na premissa dos alunos escolherem qual o assunto ou acontecimento que pretendem estudar, tendo em conta as suas capacidades e ambições para o futuro. Desta forma, nenhum aluno terá de frequentar um ou dois anos de Físico-química, contrariado e a questionar-se “Porque é que tenho de estudar isto?”

O formato tradicional da comunicação  professor-aluno também vai ser reformulada. Os alunos deixarão de se sentar em secretárias dispostas na sala de aula, à espera ansiosamente para responder às questões colocadas. Professores e alunos trabalharão em conjunto em pequenos grupos de discussão.

O sistema de educação da Finlândia incentiva o trabalho colectivo, e por esse motivo as alterações nunca poderiam ser apenas relativamente aos conteúdos e aos alunos. A reforma escolar irá exigir uma cooperação entre os vários professores das diferentes disciplinas. Cerca de 70% dos professores em Helsínquia, já realizaram trabalhos preparatórios direccionados com o novo sistema de apresentação dos conteúdos e, em compensação irão receber um aumento salarial.

Esta reforma deverá estar concluída em 2020.

 

 

 

 

“Devemos conseguir que os alunos aprendam e não apenas prepará-los para os exames”

Março 12, 2017 às 6:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do http://observador.pt/ a César Bona no dia 3 de fevereiro de 2017.

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Marlene Carriço

Para o professor César Bona os conhecimentos não são tudo. O importante é educar os alunos para a vida e estimular a sua criatividade. Só assim, e sentindo-se felizes, aprenderão de verdade

Uma escola que, mais do que ensinar, educa. Professores que falam e deixam falar. Questionam, desafiam, confiam, responsabilizam e dão liberdade aos alunos para que estes possam dar asas à imaginação. Para o espanhol César Bona é este o ideal de ensino. Este professor do 1.º e 2.º ciclos defende e pratica, dentro da sala de aula, um modelo em que se “educa na felicidade”. Pois acredita que só assim os alunos se transformam em seres íntegros repletos de conhecimentos.

César Bona acredita que tão importante quanto transmitir conhecimentos aos alunos, é conseguir que eles os aprendam e que os saibam usar no dia-a-dia, ajudando-os assim a desenvolver outras competências.

Se mandasse, não havia horas dedicadas a cada disciplina, porque o que faz sentido são os projetos que envolvem múltiplas matérias. Faz testes, mas diz que é triste que se viva a cultura da nota. E envia trabalhos para casa, mas poucos. O paradigma do ensino tem de mudar e os professores têm de estar dispostos a isso e a aprender.

Em 2016 foi considerado um dos 50 melhores professores do Mundo, segundo o Global Teacher Prize, uma espécie de Prémio Nobel dos professores, pelas iniciativas que tem levado a cabo nas várias escolas por onde já passou. Destas, destacou, em entrevista ao Observador, o filme mudo protagonizado pelas seis crianças de uma escola numa pequena localidade, que permitiu aproximar os alunos que não se falavam, por zangas entre as famílias. Esse filme venceu um prémio num festival de cinema na Índia e recebeu um prémio do Ministério da Educação espanhol.

“A Nova Educação”, de César Bona, está à venda nas livrarias desde 4 de janeiro

“A Nova Educação”, de César Bona, está à venda nas livrarias desde 4 de janeiro

Qual a importância do professor no percurso escolar e na vida do aluno?

É vital. Nós vamos marcar a vida dos rapazes e das raparigas. Costumo dizer que a escola, a sociedade ou a vida não têm um muro. Temos de educar para a vida porque vamos influenciá-los. Vamos ser os seus modelos.

Mas entende que os professores estão muito fixados em ensinar, quando deviam estar preocupados com a aprendizagem das crianças e disponíveis para aprender com elas. Porque diz isto?

Obviamente, quando escolhemos uma profissão, temos de dar o máximo. Supõe-se que estamos preparados para ensinar, mas não podemos esquecer que temos de estar sempre a aprender: com os nossos colegas, com a nossa família, e sobretudo com as nossas crianças. Além disso, quando dizemos às crianças que aprendemos com elas, estamos a promover a auto-estima. É importante que eles sintam que podem dar algo à turma, aos colegas e à sociedade. A essência de uma criança é composta por criatividade, imaginação e esperança. Então, se não tivermos isso em conta estaremos a perder uma grande oportunidade para que eles aprendam e para tirar deles o máximo partido.

Criatividade. É um ponto em que insiste bastante. Como se pode estimular a criatividade dos alunos?

Sobretudo escutando, deixando-os falar. Não temos que ver as crianças como um recipiente que temos de encher de conhecimento.

E porque é que há professores que não estimulam essa criatividade? Dá mais trabalho? Falta tempo?

Não creio que seja uma questão de trabalho. Acho que quando nos tornamos adultos, esquecemo-nos de que fomos crianças. E quando trabalhamos com crianças devemos sempre lembrar-nos da criança que fomos. Assim vamos entendê-los melhor e eles entendem-nos melhor também.

Mas optar por um método de ensino em que se deixa a criança falar e em que se estimula a criatividade exige mais trabalho e disponibilidade da parte do professor do que uma aula expositiva. Ou não?

Não creio que dê realmente mais trabalho. Diz isso porque, por norma, a educação tem sido assim, expositiva. Temos vindo a criar metas individuais quando somos seres sociais. Em muitas aulas as mesas e as cadeiras estão voltadas para o quadro. Isso significa que o tipo de interação que queremos é que nos escutem e que repitam. Mas se vamos educar para a sociedade, temos de estimular o diálogo, a reflexão, o respeito.

Como organiza os seus alunos na sala de aula?

Os alunos estão organizados em grupos, formados ao calhas. E vão mudando de grupo ao longo do ano. Quando estás com uma pessoa diferente de ti por perto vais aprendendo mais.

Como é que consegue garantir que as crianças, no meio da criatividade, e desta liberdade que lhes é dada, conseguem aprender o currículo imposto centralmente?

As editoras têm um grande peso. A informação que está num livro, está em todos. Se queremos educar para as competências devemos esquecer um pouco as disciplinas – a matemática, as línguas. Pode-se aprender muito mais coisas do currículo simplesmente fazendo-lhes perguntas ou permitindo-lhes fazerem perguntas.

Mas há exames e os professores têm de preparar os alunos para esses exames.

Para mim não. A educação associou-se de maneira muito forte aos exames, quando se devia associar à aprendizagem. Devemos conseguir que os alunos aprendam e não prepará-los para os exames. O exame é a prova que mostra que eles estão a aprender. Os exames existem e têm muito peso, mas temos apenas em conta a resposta e esquecemos todo o processo. Esquecemo-nos de convidar os alunos a pensar, a questionar, a partilhar e a perceber porque chegaram àquele resultado. Muitas vezes o que fazemos é: damos-lhes a resposta e exigimos-lhe a resposta tal e qual como a pedimos. E isso está longe do que é educar.

A verdade é que todo o sistema está focado nos exames. Existe a chamada ‘cultura da nota’. Para progredir nos estudos e entrar na universidade é preciso ter uma boa média. As crianças vão crescendo com essa pressão.

E isso é triste. É triste pensar que a educação se resume a uma nota. Há gente que pensa que a escola só serve para preparar as crianças para passarem nos exames. Há gente que pensa que a escola serve para educar seres empregáveis. E não. Serve para educar seres íntegros, que têm muitos conhecimentos, e que sabem como aplicá-los. Não só para melhorar a nível individual, mas também coletivamente. Se os ensinas a investigar, a partilhar, a falar em público, eles chegarão a um exame e passarão sem nenhum problema. É preciso incidir no processo. Eles devem sentir-se implicados na aprendizagem. Em 30 dias aproximadamente 90% do que aprendemos numa aula apaga-se, porque falta todo este processo.

E o professor foca-se nesse processo. É isso? Mas tem de articular isso com o currículo, certo?

Pôr o currículo no centro de tudo, para mim, é um horror. No centro de tudo devia estar a criança. Não o professor, não a escola, não o currículo. Uma pessoa é muito mais do que conhecimento. O conhecimento é muito importante, mas há outras coisas que devemos ter em conta também. E como é que se consegue educar seres íntegros ao mesmo tempo que aprendem coisas? Devemos perguntar-nos isto: o que ensino, como ensino e para quê? Não nos devemos esquecer para que é que ensinamos. E se ensinamos para a vida devemos adequar os conteúdos aos alunos para que saibam usá-los.

Consegue adequar os conteúdos a cada um dos seus alunos?

Há ferramentas que devíamos ter sempre em conta e que servem para todas as crianças: seja menino ou menina, de uma religião ou outra e de qualquer que seja o nível social. O respeito por nós mesmos, o respeito pelos outros, pelas diferenças e a responsabilidade social, o compromisso social. Todas estas ferramentas servem para todas as pessoas no mundo. E é preciso termos consciência da importância da autoestima.

Em Portugal os professores dizem que não têm tempo para fazer esse trabalho mais dirigido a cada aluno.

Em Espanha também dizem o mesmo, porque o currículo é muito extenso. Mas se tivermos de cortar o currículo, corte-se então. Para mim há coisas mais importantes na vida do que tentar dar o que decidiram quatro pessoas, que provavelmente nem pisaram uma aula.

Os professores podem fazer isso? Podem cortar o currículo?

Temos de priorizar. É impossível tentar educar se tivermos de encaixar tudo num ano letivo.

Todo este foco no processo, de que temos vindo a falar, implica uma mudança muito grande no paradigma do ensino. E há professores que resistem. Por que acha que isso acontece?

A medicina evolui, as comunicações evoluem, a educação deve evoluir. E isso não significa esquecer a escola tradicional. No sentido em que coisas que funcionavam há 40 anos, funcionarão agora e nos próximos 40. Mas temos de estar conscientes de que não podemos continuar a educar os nossos alunos como nós fomos educados. Por isso, a mente dos professores deve ser sempre flexível e adaptar-se aos novos tempos. Haverá pessoas que não aceitam isto [diz, apontando para o telemóvel], mas terão de mudar. Porque o telemóvel associa-se à vida normal de um adolescente.

Mas introduzir novas tecnologias na sala de aula apenas não basta para levar a cabo a tal mudança. Ou basta?

Não. A tecnologia é uma ferramenta. Nada mais. É importante porque podes partilhar, pesquisar, comunicar.

E como é que se consegue, numa turma com crianças pequenas, com telemóveis na mão, que eles não se distraiam?

Não digo que têm de estar sempre com o telemóvel na mão. Há momentos para tudo: para uma aula expositiva, para trabalho em grupo e para a tecnologia. É como em casa: os pais têm de saber que as crianças não têm de estar todo o dia com o telemóvel.

Aproveitando a deixa dos pais. Costuma dizer-se, em Portugal, que os pais educam e os professores ensinam. Concorda com esta filosofia?

Em Espanha também se diz isso. Mas há frases que temos de apagar e esta é uma delas. Um pai e uma mãe fazem o que podem para educar os filhos, mas quando eles saem de casa e entram na escola entram numa microsociedade. Para mim, a escola é o melhor sítio para ajudar os pais a educar. Ensina-se em casa e na escola, educa-se em casa e na escola. É um compromisso social. O que queremos para sociedade devemos promover na escola, em conjunto com as famílias. O primeiro lugar educativo é a família, a seguir a escola e a seguir a sociedade. O diálogo entre famílias e professores é essencial. É a chave que abre tudo.

Em Portugal há aulas de 90 minutos. Acha possível ter as crianças 90 minutos numa sala a aprender?

Se fosse eu a mandar, acabaria com os horários, tal como existem. Diria para trabalharmos juntos: professor de história e de línguas, por exemplo, na mesma sala. Conseguiríamos que se ensinasse de forma global e por projetos. E se quisermos ensinar por projetos uma hora é muito pouco, mas claro que será muito se quisermos os alunos 1h30 sentados, numa aula expositiva. Sentados, vendo e ouvindo, nem nós [adultos] aguentamos.

O que pensa da competitividade dentro de sala de aula? É importante para alcançar maior sucesso?

Digo sempre que devemos educar para sermos melhores do que antes. Não devemos promover a competitividade entre as crianças. Que mundo queres criar? Um mundo competitivo ou um mundo no qual toda agente colabora?

Mas é possível ter as duas coisas. Pensemos nos desportos em equipa. Os jogadores da mesma equipa ajudam-se, mas competem com a equipa adversária.

Eu fui futebolista e tentei dar o máximo de mim. Todos os dias treinava duro para melhorar. E melhorando sabia que a equipa seguiria em frente.

Dentro das salas , quando forma grupos, cria competição entre eles?

Não. Eles colaboram. Estamos a falar de aprendizagem em todos os sentidos. Aprendem também a respeitar e a partilhar.

E faz testes?

Sim.

E trabalhos para casa?

As crianças passam muitas horas na escola e não têm culpa do currículo ser tão extenso. Ao fim de semana o que gostas de fazer? Passear, desligar do que fazes, certo? As crianças têm mais tempo e mandamos-lhes mais trabalhos para casa. Eu gosto de os pôr a investigar. Mas gosto que tenham tempo para eles e para a família. Por isso, quando envio trabalhos para casa são poucos e servem para complementar ou estimular a sua curiosidade e criatividade.

Como é que se faz com que a criança goste da escola ? Essa seria uma boa pergunta para ser colocada num congresso de professores. Muitos regressariam à criança que foram. Se os fazemos sentir-se parte da escola e da sociedade, se os fazemos falar e partilhar as ideias e se eles se sentem escutados e úteis, no dia seguinte vão com mais vontade para a escola.

Algumas pessoas criticam-no, dizendo que promove a felicidade ignorante. Como responde a estas críticas?

É paradoxal, porque criticam o que não conhecem. Dizem que não há conhecimento, mas também não conhecem. Antes de se abrir a boca deve-se saber do que se fala. É por isso que eu não falo muito. Para mim, saber muitas coisas é importantíssimo. Ter um bom domínio de linguagem e conhecimentos de história. Mas tão importante quanto isto é que as crianças se sintam felizes. E educar na felicidade não significa não ser exigente. Eu sou muito exigente. E digo-lhes que a auto exigência é importantíssima. E quando estou a falar de felicidade estou a falar de educar na resiliência, na frustração, no respeito. Isto está na mesma linha do conhecimento.

Porque acha que o criticam?

Porque falta reflexão. E falta cada um olhar para si e ver-se como um ser imperfeito. Nada é perfeito e estamos sempre a aprender. Se és professor tens de estar sempre a aprender. Eu, quando era criança, sentia-me bem quando me perguntavam o que tinha para dizer ou o que sugeria. Sentia-me importante. Ou quando um professor me tratava com carinho. Eu tive professores muito exigentes e nada carinhosos e sentia terror. Mas também não podemos dar muito carinho sem exigir, porque senão não se aprende nada.

E sempre pensou assim?

Há 15 anos que dou aulas, mas nem sempre pensei assim. Eu era um professor inflexível, mas percebi que tinha de mudar.

E acha que é melhor professor agora?

Sou melhor pessoa agora. Para mim ser professor e pessoa é a mesma coisa.

Como é que lida com mau comportamento dentro da sala de aula?

Ao longo dos anos, fui percebendo que todos os castigos que apliquei nunca funcionaram e cheguei a uma conclusão mais profunda: que esses castigos eram a projeção da minha frustração. Quando já não sabia o que fazer, castigava-os. Só começou a funcionar quando comecei a perguntar-lhes o que tinham para me ensinar a mim e aos colegas. Isso transformou tudo.

Li no seu livro que uma das estratégias foi a criação da “Ilha de Creta”. É uma espécie de castigo suave.

(Risos) É um convite à reflexão. E chamei-lhe “Ilha de Creta” porque gosto muito de mitologia. Quando os alunos vão para essa mesa, isolados do grupo, acabam por perceber que estão melhor em sociedade, no grupo. E isso faz com que queiram voltar.

Inspirou-se em algo ou alguém?

Creio que tudo está inventado. Eu não criei nada. A inspiração está em todos os sítios, num filme, num livro, numa pessoa que vejo na rua, num amigo.

Esta maneira de dar aulas permitiu-lhe chegar aos 50 finalistas do Global Teacher Prize. Concorreram 5.000. Como viu esta distinção?

Com muita tranquilidade. Eu vejo a vida como uma linha. Sei de onde venho e que sou professor. Tudo o que tem acontecido e a exposição mediática são acidentes positivos. Quando isto passar eu voltarei à aula. Tudo isto têm sido presentes. A gente que tenho conhecido, as viagens…

Acha que esta exposição e o facto de as suas ideias chegarem a mais gente, pode ajudar à mudança? Pode estar a ajudar. A única diferença entre o professor César e milhares de professores é o microfone. Há gente admirável e que não servirá nunca de guia. Esta profissão é a mais bonita possível. E eu estou aqui para falar por milhares de professores. Eu não invento nada. Falo de coisas do senso comum e digo, sobretudo, que a criança tem de estar no centro de tudo.

E parece que há cada vez mais professores a perceber que o modelo está esgotado e o quer mudar.

Sim, é verdade. Mas os professores têm de perceber que têm de ser eles próprios a dar o passo e têm de estar conscientes de que não são ilhas. Têm de comunicar. E mudar não significa que haja uma luta entre inovação e escola tradicional. Mudar ou inovar deveria significar estar consciente de que cada passo que damos tem de ir no sentido do bem estar da criança. Tudo está inventado. Temos de conseguir educar tendo em conta o fator humano e com a consciência de que cada passo que damos ou cada palavra que dizemos vai influenciar os demais. E por isso temos de tentar que essa influência seja positiva.

Volto aos resultados. As notas dos alunos melhoram com este método de ensino?

São, comprovadamente, melhores. Em questão de notas e de compromisso social. As crianças nestas escolas sentem-se envolvidas e escutadas. Em algumas escolas até fazem as normas da escola e são os primeiros a cumpri-las.

De todos os projetos que levou a cabo até agora nas escolas, qual o mais marcante?

É difícil porque têm todos contextos distintos. Obviamente que o filme mudo foi muito especial. A escola só tinha seis crianças. Dessas, duas não se falavam por motivos familiares. Eu não conseguia suportar aquilo. A escola com seis crianças estava dividida. Então pensei fazer o filme mudo e disse à menina e ao menino que não se falavam que eles seriam os protagonistas e que se iriam amar. Vê-los a trabalhar juntos e ver como finalmente as famílias e as pessoas daquela povoação se uniram foi incrível.

Em Portugal, os professores sentem-se pouco respeitados. Porque é que acha que os professores foram perdendo o respeito dos alunos e dos pais? De quem é a culpa?

Aplica-se o mesmo a Espanha. Mas eu não usaria a palavra culpa. Se recuarmos, o respeito estava muitas vezes associado ao medo. E foi-se de extremo a extremo. Temos de refletir, porque o respeito não é sinónimo de medo. Não se pode exigir respeito. O respeito ganha-se. E sim, a sociedade tem de começar a dar valor a esta profissão que é a mais importante de todas.

 

 

APPS para Educação – apps para dispositivos móveis com potencialidade pedagógica, organizadas por categorias pela RBE

Março 7, 2017 às 6:00 am | Publicado em Divulgação, Recursos educativos, Site ou blogue recomendado | Deixe um comentário
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apps

Esta página, da responsabilidade da Rede de Bibliotecas Escolares, reúne um conjunto de apps para dispositivos móveis com potencialidade pedagógica, organizadas por categorias. Escolha a categoria pretendida no menu do lado direito e, para descarregar a app, abra o link correspondente ao seu SO (iOS ou Android).

https://appseducacao.rbe.mec.pt/

 

Progressos e dificuldades do sistema educativo português

Março 1, 2017 às 6:00 am | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
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Notícia do site http://www.educare.pt/ de 2 de fevereiro de 2017.

O documento citado na notícia é o seguinte:

Education and Training Monitor 2016

 

educare

A Comissão Europeia mostra o estado da educação em Portugal, num relatório em que avalia as principais políticas em matéria de ensino.

Andreia Lobo / Lusa

Os alunos portugueses abandonam mais cedo a escola que os colegas europeus. Há menos adultos, entre os 30 e os 34 anos, a concluírem o ensino superior, mas a percentagem de crianças no pré-escolar, dos 4 anos ao início do 1.º ciclo, é quase igual à média europeia. Mas Portugal investiu mais em educação que os restantes países. A Comissão Europeia divulgou dados sobre os pontos fortes e as dificuldades dos sistemas de ensino e formação dos Estados-membros. O “Monitor da Educação e da Formação 2016” avalia as principais medidas políticas tomadas ou em curso nos 28 países da União Europeia e mostra a evolução registada desde 2015. Portugal não foi esquecido.

O Governo português anunciou uma série de medidas para combater o insucesso escolar. Mas o orçamento de 2016 não gerou aumentos significativos em relação ao anterior. Assim, as reformas foram financiadas através de uma maior eficiência da despesa, mas também da diminuição das reprovações, diz a Comissão Europeia no relatório dedicado a Portugal. A tendência para haver menos matrículas no ensino superior, aliada à elevada taxa de emigração de cidadãos altamente qualificados para outros países europeus, poderá ter reflexos negativos para a competitividade portuguesa, lê-se ainda. Nota positiva para os Cursos Técnicos Superiores Profissionais (CTESP), pelo contributo dado no aumento de inscrições nos institutos politécnicos e na criação de novas formas de cooperação com as empresas.

Investir na educação
A despesa pública global com a educação, em percentagem do PIB, mantém-se em 6,2% de 2012 a 2014, segundo dados do Eurostat. O Governo anterior tomou medidas para reforçar a eficiência da despesa com a educação, a Comissão Europeia destaca a “racionalização da rede escolar, a redução do número de professores que não estão ocupados com atividades de ensino e a introdução de uma nova fórmula de financiamento das escolas que inclui critérios de desempenho”.

Relativamente ao atual Governo, em funções desde dezembro de 2015, a CE destaca o “plano ambicioso para promover a igualdade social na educação e melhorar o desempenho dos alunos”. No entanto, o orçamento de 2016 para o Ensino Básico e Secundário baixava 4,2% relativamente ao de 2015. O financiamento das reformas viria da “poupança resultante da redução da dispendiosa taxa de repetição de ano de insucesso escolar”.

Tiago Brandão Rodrigues quer ainda alargar os horários de abertura das escolas, reduzir o número de alunos por turma e reforçar tanto a oferta de rede pré-escolar, como o serviço de tutoria e o apoio prestado às famílias. A verba prevista para o apoio social – em forma de livros, refeições escolares, abonos de família e bolsas de estudo – aumentará em 31,1% e o orçamento destinado ao pré-escolar aumentará 0,8%. Em que é que o Governo vai poupar? No financiamento das escolas privadas com contratos de associação que deixou de custear por estarem em áreas cobertas por escolas públicas.

O orçamento do ensino superior em 2016 aumenta 2,6% em relação ao ano anterior. As bolsas de estudo registam um aumento de cerca de 15%, as universidades e politécnicos um aumento de cerca de 3%. O “Monitor da Educação e da Formação 2016” lista Portugal como um dos países europeus com maior “fuga de cérebros”. Cerca de 11% de pessoas altamente qualificadas emigraram. Dados do Observatório da Emigração publicados em 2014 mostram que entre 2001 e 2011 a percentagem de portugueses com curso superior a saírem do país registava um aumento de 87,5%.

Reduzir desigualdades

Portugal conseguiu diminuir o número de jovens entre os 18 e os 24 anos que não completaram o 12.º ano nem estão envolvidos em ações de educação e formação. Ou seja: reduziu a taxa de abandono escolar precoce: de 30,9% em 2009 para 13,7% em 2015. O valor está mais próximo dos 10% relativos à meta nacional da Estratégia Europa 2020, mas permanece acima dos 11% da média europeia. A descida foi particularmente evidente com uma diminuição de 3,7% entre 2014 e 2015. A diferença em termos de abandono precoce entre os alunos nascidos em Portugal e fora do país é de apenas 2,7% a favor dos primeiros. Mas há disparidades entre os sexos: 11% das mulheres e 16,4% dos homens abandonam o ensino precocemente.

As reprovações são outro dos problemas do sistema educativo português, diz a Comissão Europeia. Aumentaram em 50% entre 2011 e 2014. Cerca de 5% dos alunos chumbam no 1.º ciclo, 11,4% no 2.º ciclo e 13,3% no 3.º ciclo do Ensino Básico. “O país continua a debater-se com elevados níveis de repetição de ano e com divergências significativas dentro de grupos etários determinadas pelo contexto socioeconómico dos alunos”.

Na última década, mais crianças dos 0 aos 3 anos e dos 4 a 5 frequentaram o pré-escolar. A tendência inverte-se desde 2013, com o envolvimento na faixa dos 4 e 5 a cair de 93,9% em 2013 para 93,5% em 2014, logo abaixo da média europeia de 94,3%. A Comissão Europeia faz notar que a rede pública de jardins de infância tem diminuído face aos recentes cortes orçamentais. Senão, veja-se: cobria apenas 50% das crianças inscritas entre os 3 e os 5 anos em 2014-2015, 30% das crianças estava inscrita em organizações financiadas por fundos públicos e um número crescente recorria a instituições privadas. Com o atual Governo, escreve a Comissão Europeia, “fixou-se um objetivo ambicioso, o de assegurar ensino pré-escolar público para todas as crianças entre os 3 e os 5 anos em 2019”.

Em matéria de combate ao abandono escolar precoce, a Comissão Europeia garante que “desde 2012, Portugal tem vindo a pôr em prática uma política abrangente, que demonstrou a sua eficácia”. Recebem nota positiva medidas como o aumento da escolaridade obrigatória para 12 anos, em 2009; a criação de escolas TEIP, um programa destinado à intervenção em regiões prioritárias; a introdução de um novo sistema de acompanhamento de estudantes e o lançamento em 2012 de projetos-piloto como os cursos vocacionais, dirigidos aos alunos do 3.º ciclo e Secundário, mas cujo fim foi anunciado pelo atual Governo em janeiro de 2016.

A Comissão Europeia salienta o modo como a equipa governativa em funções pretende tratar o problema das reprovações e das assimetrias de desempenho: através de um serviço de tutoria aos estudantes, do reconhecimento do valor das competências transversais nos currículos e da redução do número de alunos por turma, esta última decidida em função do projeto pedagógico de cada escola. “A prestação de apoio suficiente numa fase mais precoce do sistema educativo será crucial para a redução das diferenças de desempenho existentes no sistema geral de ensino e evitar um aumento da taxa de abandono escolar precoce.”

O alargamento dos exames nacionais a Matemática e a Português no 4.º e 6.º ano do Ensino Básico, em 2012, e a sua posterior substituição pelas atuais provas de aferição, no 2.º, 5.º e 8.º anoS, foram outras das medidas postas em curso para travar o insucesso. Agora, o resultado das provas não conta para a classificação final do aluno, “mas será usado para corrigir as deficiências detetadas e reduzir o insucesso escolar”, nota a Comissão Europeia, referindo ainda que “pela primeira vez em tais avaliações nacionais, também são avaliadas as capacidades de comunicação oral”.

No domínio pedagógico, a Comissão Europeia recorda a revisão das “Orientações Curriculares para a Educação Pré-escolar”, na sequência do um grupo de trabalho criado pelo Governo anterior com o objetivo de reformular as orientações pedagógicas para os infantários e centros de acolhimento de crianças.

Em matéria de inclusão, Portugal está no grupo de países com a mais baixa percentagem de residentes estrangeiros, apenas 4%. A sua população migrante é essencialmente proveniente das ex-colónias, de países da Europa oriental e da China, sendo que mais de 51% destes cidadãos estão estabelecidos em Lisboa. Em 2014 foram registados 442 pedidos de asilo e o Governo manifestou disponibilidade para acolher refugiados. Medidas para reforçar o apoio aos alunos migrantes foram anunciadas em janeiro de 2016. Entre elas, figuram a criação de classes introdutórias, acesso a intérpretes e campanhas de sensibilização para o acolhimento nas escolas. A educação cívica volta a ser reforçada nos currículos do pré-escolar ao Secundário e inclui ainda algumas orientações nas áreas da “educação para o desenvolvimento” e da “educação para os media”.

Modernizar o ensino nas escolas
Menos professores foram recrutados nos últimos cinco anos, “devido a constrangimentos orçamentais”, o que “contribuiu para o aumento da idade média dos professores”, constata a Comissão Europeia. No ensino público, 41% dos docentes têm mais de 50 anos, contra apenas 17,3% no ensino privado, onde a percentagem mais elevada de professores está na faixa etária entre os 30 e os 39 anos, segundo dados do Conselho Nacional de Educação de 2015.

O Governo em funções no período de 2011 a 2015 iniciou uma reforma do sistema de formação inicial de professores. O objetivo: melhorar a qualidade do pessoal docente. A Comissão Europeia lembra que o Ministério da Educação e da Ciência (MEC) elevou os requisitos de admissão aos cursos e instituiu um exame de admissão à profissão, muito contestado por associações e sindicatos, e que acabou por ser suspenso pelo Tribunal Constitucional. O atual Governo anunciou a disponibilidade para repensar a política de recrutamento de professores. O desenvolvimento profissional também deverá ser revisto.

No capítulo dedicado às medidas executadas para a modernização do ensino, a Comissão Europeia salienta que, “desde 2012, as restrições orçamentais têm atrasado o aumento contínuo e significativo na utilização de meios informáticos no ensino obrigatório”. O ensino das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC) surge como disciplina apenas no 7.º e 8.º ano, nota o relatório. Depois, só no 10.º e 12.º anos e consoante a área de estudo, os alunos voltam a ter contacto com “certas matérias específicas de TIC”.

Ainda assim, uma série de iniciativas de apoio ao uso de tecnologias móveis nas escolas são postas em prática entre 2014 e 2015. A título de exemplo, a Comissão Europeia aponta o projeto “Laboratório de Salas de Aula Criativas” e a “Iniciativa Competências Digitais”, que pretende aumentar as competências em TIC de 20 mil pessoas até 2020 e fornecer recursos digitais com vista à modernização dos métodos de ensino e da formação de formadores.

O relatório “Monitor de Ensino e de Formação” é publicado todos os anos entre novembro e dezembro para avaliar os progressos dos 28 países membros da União Europeia em matéria de educação.

“Portugal tem de ter cuidado para educar as crianças para o seu próprio futuro e não para o nosso passado”

Fevereiro 28, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do http://observador.pt/ de 11 de fevereiro de 2017.

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Marlene Carriço

Menos currículo, mais aluno. Menos isolamento, mais partilha. O diretor do Departamento da Educação da OCDE, Andreas Schleicher, diz que é preciso reorganizar a aprendizagem, com “ousadia”.

“Impressionante”. É assim que tem sido, no entender de Andreas Schleicher, o progresso dos alunos portugueses ao longo dos últimos anos. Mas o diretor do departamento de Educação da OCDE deixa um aviso: “Portugal tem obviamente assistido a um enorme progresso, mas precisa de ter cuidado para educar as crianças para o seu próprio futuro e não para o nosso passado. “

O caminho ainda é longo e Portugal pode inspirar-se nos países que estão no topo do desempenho escolar, afirma o também responsável máximo pelos testes do Programme for International Student Assessment (PISA), sublinhando que estes países têm várias práticas e políticas em comum: valorizam os professores, promovem a inovação dentro da sala de aula e procuram garantir que todos os estudantes têm acesso ao ensino de excelência.

Andreas Schleicher não tem dúvidas que o ensino terá de mudar. Ou melhor: a forma como se ensina. O futuro terá de ser, obrigatoriamente, “centrado no aluno”, mais “integrado”, mais “colaborativo” e “participativo” e assente nas experiências de cada aluno, trabalhando não só as competências cognitivas, mas as emocionais e sociais.

Em entrevista por escrito ao Observador, Andreas Schleicher, que esteve em Lisboa, esta sexta-feira, a participar numa conferência sobre os resultados do PISA, organizada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, insiste na importância de fortalecer a profissão docente, dando-lhes margem de progressão e mais tempo para trabalharem com os alunos e lembra que o chumbo não resolve problemas, pelo contrário.

Pela primeira vez em 15 anos, os alunos portugueses ficaram acima da média da OCDE em leitura, matemática e ciências, no PISA. O que acha que contribuiu para esta subida?

Portugal tem feito progressos impressionantes na última década no que diz respeito à profissionalização dos professores e na construção de uma rede de escolas mais coerente e colaborativa. Isso implicou alguns passos difíceis como a fecho de escolas nas zonas rurais, que estavam altamente dispersas. Por mais difícil que possa ter sido para pais e professores, parece ter sido benéfico para a aprendizagem dos alunos.

Apesar disso, há um longo caminho a percorrer. Onde deve Portugal investir?

Sim, ainda há. E passar do bom para o ótimo vai exigir políticas e práticas muito diferentes daquelas que são necessárias para passar do mau para o razoável. Vale a pena olhar para os sistemas de educação com elevado desempenho. Todos eles dão muita atenção à seleção e à formação dos seus professores. E quando estão a decidir onde vão investir, dão prioridade à qualidade dos professores. E permitem aos professores progredir na carreira. Além disso, os países com um alto desempenho trocaram o controlo burocrático e contabilístico pela profissionalização das formas de organização do trabalho. Eles encorajam os seus professores a inovarem na forma como ensinam, para melhorar o seu próprio desempenho e o dos colegas. Também procuram garantir que o ensino de alta qualidade chega a todo o sistema para que todos os alunos beneficiem de um excelente ensino. Atingir uma maior equidade na educação não é apenas um imperativo de justiça social, parece ser também uma maneira de utilizar os recursos de forma mais eficaz e promover a coesão social.

A Suécia e a Finlândia têm sido apresentados como casos de sucesso e exemplos a seguir aqui em Portugal. Mas os resultados destes países no PISA têm caído. Porquê?

Felizmente a Suécia está a assistir novamente às primeiras melhorias e a Finlândia ainda faz parte do grupo de países com melhor desempenho no PISA. Mas há grandes lições a retirar do caso sueco. A proliferação desregulada de escolas privadas tem permitido uma grande variabilidade na qualidade do ensino.

E o que faz com que países como Singapura e Japão pontuem sempre tão bem?

Os responsáveis máximos pelos sistemas educativos nos países do Leste Asiático convenceram os seus cidadãos a fazerem escolhas que valorizam a educação. Em Singapura, por exemplo, os pais investem os últimos recursos na educação dos filhos para que eles tenham um futuro promissor. Em grande parte do mundo ocidental, os cidadãos já hipotecaram o futuro dos seus filhos, como se pode ver pelas enormes montanhas de dívida pública. Depois, há a crença, disseminada um pouco por todo o Leste Asiático de que todas as crianças podem ter sucesso. O facto dos alunos na maioria dos países do Leste Asiático acreditarem que a realização e o sucesso é sobretudo um produto de muito trabalho e não da inteligência herdada, como as crianças portuguesas normalmente dizem, sugere que a educação e seu contexto social podem fazer a diferença, incutindo valores que promovem o sucesso na educação.

Mas, para além disto, muito de tudo isto se deve a políticas e práticas que são adotadas nesses países. Deixe-me dar-lhe um exemplo. Depois dos resultados do PISA em 2012 terem sido tornados públicos, fiquei interessado em Shanghai. E quando visitei Shanghai em 2013 vi professores a usarem uma plataforma digital para partilharem planos de aula. O que só por si não era nada de muito raro. O que os tornava diferentes era que quanto mais os outros professores fizessem download das lições, as criticassem ou melhorassem, maior era a reputação do professor que a tinha partilhado. No final do ano, o diretor não iria apenas perguntar quão bem o professor tinha ensinado os seus ou a suas alunas, mas também qual o contributo dele para melhorar todo o sistema educativo. A abordagem de Shanghai não é só um ótimo exemplo para identificar e partilhar boas práticas entre professores, como também é poderosa do ponto de vista do crescimento e desenvolvimento profissional. Desta forma, Shanghai criou uma comunidade de professores e criou espaço para a criatividade e a iniciativa dos professores.

O que pensa sobre o currículo em Portugal?

Portugal tem obviamente assistido a um enorme progresso, mas precisa de ter cuidado para educar as crianças para o seu próprio futuro e não para o nosso passado. A reprodução de matérias, onde os estudantes portugueses são bastante bons, está-se a tornar menos importante. O tipo de coisas que são fáceis de ensinar são igualmente fáceis de digitalizar e automatizar.

Limitar a educação à transmissão de conhecimento académico é correr o risco de estupidificar os alunos, reduzindo-os à competição com os computadores, ao invés de focar em características humanas fundamentais que permitem que a educação fique à frente dos progressos tecnológicos e sociais. Pensar sobre a verdade, domínio do conhecimento humano e da aprendizagem; sobre o belo, domínio da criatividade, da estética e do design; sobre o bem, domínio da ética; o justo, domínio da vida política e cívica; o sustentável, domínio da saúde da natureza e física. São apenas alguns exemplos.

As competências sociais e emocionais que nos ajudam a viver e trabalhar juntos são cada vez mais importantes para o sucesso no trabalho e na vida. Essas são as competências necessárias para definir metas, trabalhar em equipa e gerir emoções. Desempenham um papel essencial em todas as fases da vida. Juntamente com as capacidades cognitivas e de aprendizagem, é importante que os alunos desenvolvam fortes competências sociais e emocionais, que os vão ajudar a equilibrar e definir a sua personalidade. Isto pode incluir traços de caráter como perseverança, empatia, resiliência, “mindfulness”, ética, coragem ou liderança.

Cada vez mais professores em todo o mundo, e também em Portugal, têm vindo a defender um modelo de ensino menos expositivo e mais voltado para as individualidades de cada aluno. Aulas mais práticas, com mais pesquisa, debate e envolvência dos alunos que podem, inclusive, definir as suas metas de aprendizagem. Como olha para estas experiências que vão emergindo?

Nós precisamos de pensar não apenas no currículo, mas, mais ousadamente, na organização da aprendizagem. O passado foi sobre a sabedoria recebida, o futuro é sobre a sabedoria gerada pelo utilizador. O passado estava dividido — com professores e conteúdos divididos por disciplinas e alunos separados por expectativas de perspetivas futuras. O passado podia também ser mais isolado — com as escolas concebidas para manter os alunos dentro e o resto do mundo lá fora, com uma falta de envolvimento com as famílias e uma relutância das escolas em se associarem umas às outras, em serem parceiras. O futuro precisa de ser integrado — com ênfase na integração das disciplinas e dos estudantes –, precisa de ser conectado — para que a aprendizagem esteja ligada a contextos do mundo real e a questões contemporâneas e aberta aos recursos existentes na comunidade.

O ensino no passado estava baseado em matérias. O ensino no futuro terá de assentar nas experiências de aprendizagem que ajudam os alunos a pensar além dos limites das disciplinas. O passado era hierárquico, o futuro terá de ser mais colaborativo.

No passado, diferentes alunos eram ensinados de maneiras semelhantes. Precisamos de nos tornar melhores a abraçar a diversidade, com abordagens de ensino diferenciadas. O passado era centrado no currículo, o futuro é centrado no aluno. Os objetivos do passado era a padronização, com os alunos divididos por grupos etários, seguindo o mesmo currículo e, todos avaliados ao mesmo tempo. Falar de futuro é falar de personalizar experiências educacionais, programar o ensino de acordo com as paixões e as capacidades dos alunos, ajudando os alunos a personalizar a aprendizagem e a avaliação de maneiras que fomentem a participação e o talento. Falar de futuro é falar sobre incentivar os alunos a serem engenhosos. Isso irá capitalizar os pontos fortes dos estudantes mais talentosos. O futuro será sobre a participação dos alunos.

Tradicionalmente, havia uma ênfase no papel da gestão escolar, mas precisamos de fazer melhor na liderança. Isso inclui coordenar o currículo e os programas curriculares, monitorizar e avaliar os professores, promover o desenvolvimento profissional dos professores e apoiar culturas de trabalho colaborativas. O passado era sobre o controlo de qualidade, o futuro é sobre a garantia de qualidade.

E sobre o tamanho das turmas? Em Portugal os professores dizem que é difícil ensinar em turmas com cerca de 30 alunos…

Pense nisso desta maneira: Portugal e China têm um número semelhante de alunos por professor. Mas na China as turmas têm o dobro dos alunos de Portugal. Como é que isto aconteceu? É que na China a componente letiva dos professores é pouco mais de metade da dos professores portugueses. Isso dá-lhes muito tempo para trabalhar individualmente com os alunos e com os pais, para preparar e avaliar as aulas, para investir no seu desenvolvimento profissional e no dos colegas. Em Portugal, os professores têm pouco tempo para fazer qualquer outra coisa que não seja ensinar. Assim, ao invés de diminuir o tamanho da turma, pode ser mais importante pensar noutras formas de fortalecer a profissão docente.

Por último, os chumbos. Em Portugal, a taxa de chumbos é muito alta. Como olha para este indicador? E qual a solução?

Sim, a taxa de chumbos é ainda muito alta. Não é uma boa prática, não conduz a uma melhoria dos resultados, é muito dispendiosa e estigmatizante. Os professores precisam de mais apoio para diagnosticarem as dificuldades de aprendizagem mais cedo, bem antes dos problemas serem tão acentuados que tornam o chumbo a opção. Eles precisam de tempo e espaço para ajudarem os alunos a superar as suas fraquezas. O chumbo é praticamente inexistente nos sistemas de ensino com melhores desempenhos.

 

 

Adaptar as aulas aos alunos? Os professores portugueses são os melhores…

Dezembro 12, 2016 às 8:00 pm | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 6 de dezembro de 2016.

Consultar os resultados do PISA 2015 no link:

http://www.oecd.org/pisa/launch-of-pisa-2015-results.htm

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A capacidade de adaptação dos docentes é aferida através de um conjunto de questões colocadas aos jovens que fizeram os testes PISA maria joao gala

Relatório que acompanha o PISA destaca flexibilidade no ensino das Ciências. Menos positivo é o aumento do absentismo docente reportado pelos directores.

Samuel Silva

Não há nenhum outro país onde os professores tenham mais flexibilidade para adaptar os conteúdos das aulas de Ciências às necessidades dos seus alunos como em Portugal. É o que resulta das respostas dadas pelos estudantes aos questionários que acompanham os testes do PISA (Programme for International Student Assessment), o grande estudo internacional da OCDE que visa avaliar a literacia em Ciências, Leitura e Matemática dos jovens de 15 anos.

O relatório que acompanha o PISA, que é apresentado nesta terça-feira, sublinha esta abertura dos docentes e também o apoio que são capazes de dar aos estudantes com maiores dificuldades. Estas práticas são mais frequentes nas escolas privadas. Nas públicas, a falta de autonomia é apontada como um entrave.

O documento da OCDE apresenta Portugal como um país “que se destaca” e onde “os professores são mais propensos a adaptar o conteúdo e a estrutura da aula em função das necessidades, conhecimentos e capacidades de seus alunos”. A capacidade de adaptação dos docentes é aferida através de um conjunto de questões colocadas aos jovens que fizeram os testes estandardizados. Nos países avaliados, 15,8% declaram que os seus professores se prestam a moldar as aulas. Em Portugal esse número quase duplica: 28,6%.

Lidar com dificuldades

Os docentes nacionais também têm mais apetência para mudar a estrutura das lições quando a maioria dos estudantes tem dificuldades de entender a matéria (fazem-no em 27,2% dos casos, quando a média internacional é de 13,2%).

Os portugueses são igualmente os que mais ajuda garantem aos alunos com dificuldades de compreensão de uma matéria ou tarefa (34,6%). Portugal é também o quarto país com o mais alto índice de apoio dos professores nas aulas de Ciências (rácio positivo de 0,46 pontos), numa lista em que a média dos países da OCDE é negativa (-0,01).

Estes indicadores ajudam a perceber o resultado nacional na avaliação feita aos alunos no domínio das Ciências. O relatório sublinha uma correlação positiva entre a capacidade de adaptação do ensino por parte dos professores e o resultado conseguido pelos estudantes no teste internacional. Com 501 pontos, Portugal ficou acima da medida da OCDE. O que acontece pela primeira vez.

A flexibilidade dos docentes portugueses para adaptarem as aulas aos seus alunos garante mais oito pontos no resultado nacional, avaliam os especialistas da OCDE.

Apesar disso, o ensino nacional continua a ser marcadamente teórico. Só 8,9% dos alunos têm a possibilidade de passar tempo no laboratório ou a fazer trabalho prático em todas as aulas de Ciências, revela o mesmo estudo. A maioria (56,7%) fá-lo de forma esporádica.

Professores estão a faltar mais

Segundo o PISA a adaptação de conteúdos é mais frequente nas escolas privadas nacionais. Segundo os especialistas, isso pode estar relacionado com o facto de os professores das escolas públicas estarem mais limitados pelo “tamanho das turmas e o currículo oficial” do que os colegas que dão aulas nos colégios.

Os professores das escolas públicas também estão limitados pela falta de autonomia destes estabelecimentos de ensino. O relatório traça uma relação positiva entre a autonomia e a adaptação do conteúdo das aulas em termos internacionais. Em Portugal, esse indicador é marginalmente positivo (+0.001 pontos). Além disso, as escolas nacionais estão em 48.º lugar entre 69 sistemas de educação no índice de autonomia, alcançando 61,5 pontos (a média é de 71,3).

O relatório revela ainda um aumento do absentismo entre os professores em Portugal entre 2012, data do anterior PISA, e 2015. Os números baseiam-se em informações prestadas pelos directores das escolas, segundo os quais o número de docentes que nunca falta às aulas diminuiu 24,9% em três anos, tendo aumentado 8,3% o número daqueles que faltam algumas vezes. Portugal é mesmo um dos países da OCDE onde este número mais aumentou, juntamente com Irlanda, Israel, Suíça e Turquia.

 

 

 

 

 

Uma escola portuguesa tem chamado a atenção do Brasil

Novembro 25, 2016 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da http://www.tsf.pt/ de 10 de novembro de 2016.

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Barbara Baldaia

O curso online “Fazer a Ponte” existe desde 2006 e já foi frequentado por mais de 2.000 professores e investigadores brasileiros. A Ponte é uma escola diferente, sem salas e sem testes de avaliação.

Na escola da Ponte, o diretor Paulo Topa faz a ligação via facebook para o Brasil. Atende Wilson Azevedo, do Aquifolium Educacional.

Wilson é o responsável por “Fazer a Ponte”. É este o nome do curso online com uma equipa de professores da Escola da Ponte. A escola, por ser diferente, há muito tempo que fascina os brasileiros.

Wilson ficou curioso com o que leu no livro de Rubem Alves, “A Escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir” ao ponto de ter atravessado o Atlântico e ter vindo viver para Portugal. Pôs a filha a estudar na escola.

O professor brasileiro gostou da experiência e decidiu espalhar a palavra pelo Brasil. O curso existe há 10 anos e, diz ele, já formou mais de 2000 professores e educadores, sobretudo brasileiros. Wilson Azevedo tenta ser preciso: o que se procura é uma aprendizagem mais efetiva.

Vale a pena fixar 3 ou 4 ideias.

Ao contrário das escolas normais, a escola da Ponte não está dividida por turmas nem por idades – está organizada por graus de aprendizagem: iniciação, consolidação e aprofundamento.

Os alunos não aprendem todos o mesmo ao mesmo tempo. Seguindo o programa oficial do ministério da educação, são eles que definem o que aprender e quando aprender.

Da mesma forma, são também os miúdos que dizem quando é que se sentem prontos a ser avaliados e de que forma.

Paulo Topa diz que a maior parte das perguntas que chegam do Brasil tem a ver com a avaliação, com o facto de não haver testes.

As duas traves-mestras da Ponte são “autonomia” e “responsabilização”.

Ao aplicar alguns destes métodos, as escolas brasileiras que vieram beber a experiência da Ponte sentiram já melhorias. Não se trata de empinar matéria. Wilson Azevedo realça que o que é realmente importante é a aprendizagem.

Wilson diz que no Brasil há professores universitários que procuram aprender com o método da Ponte.

Uma escola sem salas de aula, onde o portão está sempre aberto, sem professores a papaguear a matéria, sem testes de avaliação iguais para todos. Uma escola onde cada um é como cada qual.

E, já agora, uma escola onde todas as semanas, os alunos se reúnem em assembleia geral.

ouvir a reportagem no link:

http://www.tsf.pt/sociedade/educacao/interior/uma-escola-portuguesa-tem-chamado-a-atencao-do-brasil-5491526.html

 

 

 

Parlamento aprova propostas para reduzir tamanho das turmas

Outubro 29, 2016 às 10:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/de 7 de outubro de 2016.

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Ana Brito

O Parlamento aprovou nesta sexta-feira um conjunto de propostas de vários partidos estipulando um número máximo de alunos por turma na educação pré-escolar e nos ensinos básico e secundário.

“Os Verdes” (PEV), Partido Comunista Português (PCP), Bloco de Esquerda (BE), CDS-PP e PS apresentaram esta sexta-feira no Parlamento projectos relativos à dimensão das turmas no ensino público e todos foram aprovados. Agora, estes diplomas vão baixar à Comissão de Educação e Ciência, para que se possa encontrar uma redacção que reúna o acordo dos vários partidos.

O PCP, o PEV e o Bloco de Esquerda apresentaram projectos de lei que estabelecem números máximos de alunos por turma, com algumas ligeiras diferenças entre eles. O texto do PEV, por exemplo, prevê um máximo de 18 crianças nas turmas do pré-escolar e, em caso de turmas com crianças com necessidades educativas especiais ou NEE (que não podem ir além das duas), o número de alunos terá de se ficar pelos 14.

Do 1.º ao 4.º ano as turmas não deverão ter mais de 19 alunos (actualmente podem ir até aos 24) e, entre o 5.º e o 9.º ano, não podem ter mais de 20. Actualmente, as turmas dos 5.º ao 12.º anos de escolaridade são constituídas por um número mínimo de 24 alunos e um máximo de 28 alunos. A proposta do PEV é semelhante à do PCP que, no entanto, admite um total de 19 alunos por docente no pré-escolar.

No projecto que “estabelece medidas de redução do número de alunos por turma visando a melhoria do processo de ensino – aprendizagem” os comunistas prevêem ainda que as turmas só com crianças de três anos, não possam ir além dos 15 alunos. Esse deverá ser também o máximo observado para as turmas com crianças com NEE (que não devem ser mais de duas), seja no pré-escolar, no 1.º ciclo, ou no 2.º ciclo. No 3.º ciclo o limite sobe para 17 alunos.

“Práticas lectivas assistidas”

O projecto de lei do Bloco também contempla 19 alunos por turma no pré-escolar (15 alunos nas turmas com crianças com necessidades educativas especiais) e 20 alunos por turma no 1.º ciclo (do 1.º ao 4.º ano). Já para as turmas entre o 5.º e o 12.º ano, os bloquistas entendem que devem ter um mínimo de 18 e um máximo de 22 alunos. Se houver crianças com necessidades especiais, em qualquer um dos níveis de escolaridade, as turmas devem ter um máximo de 18 alunos e “não mais de dois alunos nessas condições”.

O Bloco fez ainda aprovar um projecto de resolução com medidas para a promoção do sucesso escolar, “nomeadamente o desdobramento de turmas, a promoção de coadjuvações, a reintrodução de pares pedagógicos nas disciplinas de maior pendor prático”, lê-se no documento.

Foi igualmente aprovado o projecto de resolução do PS que recomenda ao Governo a “progressiva redução do número de alunos por turma a partir do ano lectivo 2017/2018”, assim como o projecto de resolução do CDS-PP, visando “a promoção do sucesso escolar através de um estratégico e adequado dimensionamento de turmas”.

No diploma os centristas pedem a “adopção de práticas lectivas assistidas (isto é, de coadjuvação), aulas de apoio, o recurso aos projectos de promoção de sucesso já existentes ou a outros a criar para o efeito”.

Além disso, o CDS-PP pretende que se desenvolva uma discussão “alargada e fundamentada sobre quais os modelos de organização pedagógica das escolas, incluindo as tipologias e formatos de turmas” do ensino público, tomando com exemplo “experiências inovadoras já em curso noutros países”. Os textos do PEV, PCP e BE foram aprovados com votos contra de PSD e CDS-PP e “luz verde” das demais bancadas, ao passo que no caso do PS, sociais-democratas e centristas abstiveram-se.

Já a resolução do CDS-PP pedindo a “promoção do sucesso escolar através de um estratégico e adequado dimensionamento de turmas” foi votado por alíneas, mas no final foi também aprovado. Com Lusa

 

 

Professores contam como usam redes sociais e aplicativos em aula

Outubro 7, 2016 às 8:00 pm | Publicado em Recursos educativos | Deixe um comentário
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texto do site http://www.aprendizagemaberta.com.br/ de 18 de setembro de 2016.

redes

Uma das coisas que mais empolgam quem acompanha práticas inovadoras na Educação é ver docentes usando criativamente ferramentas do dia a dia com suas turmas. Isso mostra que, de maneira relativamente simples, é possível inovar com o que temos à mão – e isso inclui redes sociais, muitas vezes consideradas grandes concorrentes pela atenção na sala. Para inspirar você a tentar algo parecido – adaptando às necessidades e às características de seus alunos –, apresento cinco histórias bem-sucedidas de professores que usaram Facebook, WhatsApp, Instagram e YouTube nas aulas.

Facebook Renascentista

O professor de História Pedro Henrique Castro, do Colégio Pensi, no Rio de Janeiro, usou oFacebook com as turmas do primeiro ano do Ensino Médio. Os alunos deveriam se dividir em grupos para criar e administrar perfis de personalidades do Renascimento, como Galileu Galilei, Leonardo da Vinci e Nicolau Maquiavel. O desafio era fazer posts e comentários que revelassem características do período e dos próprios personagens, mas associando tudo ao contexto tecnológico atual – o que, segundo o professor, “atende a um dos objetivos da História, que é usar o passado para pensar o presente”.

“Meu objetivo com o trabalho do Renascimento no Facebook era transformar os estudantes em sujeitos do próprio aprendizado. Muito se fala sobre essa meta final, mas é preciso método para chegar lá. Qualquer modus operandi que eu venha a escolher observa necessariamente três regras: (a) respeitar os saberes dos estudantes e trazê-los para dentro da sala de aula; (b) permitir a produção de conhecimento autônomo com participação proativa delas e deles; (c) estimular o máximo possível os sentidos por meio da imagem ou do áudio, por exemplo. A rede social faz um pouco de cada uma dessas coisas. É um saber que o estudante domina, uma ferramenta na qual é artífice e uma linguagem que comporta todo tipo de expressão audiovisual. Depois de quase um ano dessa primeira experiência, pouca coisa sobrou de material, porém muito se construiu em suas formações.”

WhatsApp para a aula de Redação

Buscando desenvolver a capacidade argumentativa dos alunos de uma maneira eficiente e prazerosa, o professor Nilson Douglas Castilho, que dá aulas de redação e Língua Portuguesa no Colégio Marista de Londrina, a  381 km de Curitiba, realizou um ótimo experimento envolvendo o WhatsApp. O trabalho foi feito com seis turmas do 8º e 9º anos.

“Com a ajuda da analista de tecnologia educacional do colégio, criei um grupo de discussão no WhatsApp para cada turma. Ali eu lançava um novo tema de atualidades a cada quinze dias para que os alunos pudessem discorrer a respeito. Era obrigatório que usassem pelo menos um argumento. Eles também postavam vídeos e links de outras matérias relacionadas que enriqueciam a discussão. Depois do debate via WhatsApp, os alunos produziam um texto sobre o tema. Tanto as discussões quanto a escrita da redação eram feitos no contraturno. Na aula, eu selecionava alguns comentários para discutirmos juntos. A avaliação foi contínua e envolveu o processo como um todo, tomando como base os comentários enviados. Também trabalhamos bastante em cima dos erros: quando algo requeria atenção, víamos isso em aula. É importante dizer que em nenhum momento exigimos que os alunos adquirissem um celular: escolhemos trabalhar com o WhatsApp porque todos eles já tinham celulares e usavam o aplicativo com a autorização dos pais. Percebi que as turmas passaram a se esforçar bem mais para escrever bons textos e o grupo criou condições para que todos participassem mais. O WhatsApp não substitui a participação na sala, mas expor seus argumentos por escrito antes fez com que eles ganhassem mais confiança e estímulo para apresentar suas ideias em voz alta na sala. E isso tudo refletiu em seu desempenho: o número de alunos em recuperação caiu 50%.”

Instagram histórico

Eu já falei do professor Eric Rodrigues. Ele foi o criador de um sistema espetacular de ensino híbrido na EM Emílio Carlos, no Rio de Janeiro, onde dá aula de História. Recentemente, ele desenvolveu com sua turma do 9º ano um projeto utilizando o Instagram. Eis o que contou para o blog:

“Já que os alunos estão lidando com temas curriculares ligados ao século 20 na disciplina de História, uma rede social voltada às imagens e às fotografias pareceu extremamente válida para desenvolver um projeto que permitisse aliar pesquisa e análise de um período histórico em que os registros visuais ganharam força. Além disso, o fato de que os alunos deveriam procurar, baixar ou compor as imagens para publicar em suas contas pessoais gerou uma dimensão importante de apropriação do tema. A proposta consistiu na apresentação de imagens que pudessem dialogar com o tema Holocausto, a ser repassada para o professor e a turma. Era importante que os alunos buscassem conhecer um pouco mais da realidade dura desse evento histórico a partir dos registros da época ou mesmo criassem mosaicos, desenhos ou colagens que expressassem parte do que viveram os judeus sob o jugo do governo nazista. Pelas postagens, essa perspectiva foi apreendida. Utilizando a hashtag #1901holocausto e divididos em 8 grupos de trabalho, os alunos realizaram 22 publicações que vão de imagens dos espaços internos dos campos de concentração às pilhas de objetos pessoais deixados pelos judeus assassinados, junto com pequenas legendas que permitiram compreender que olhar e informações eles tinham obtido daquela pesquisa. A conscientização e o engajamento da turma em entender e repudiar práticas como o genocídio confirmaram a validade do projeto e as vantagens de utilizar registros históricos por meio de uma rede social”.

Veja a produção dos alunos no link da hashtag #1901holocausto no Instagram.

YouTube e produção audiovisual

Roseli Cordeiro Cardoso, professora e membro da equipe técnica de Língua Portuguesa da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, é uma das responsáveis por um programa que treina professores da rede estadual para trabalhar obras literárias com os alunos usando produções audiovisuais. Ela participou de um bate-papo na Geekie para falar sobre o projeto e discutir o uso de tecnologias simples no dia a dia da escola. O vídeo está disponível aqui e vale ser assistido. Eis o o relato dela:

“O projeto Mediação e Linguagem, criado em 2014 e em continuidade em 2015, tem por objetivo propor para alunos e professores a transposição das obras literárias para a linguagem do vídeo, do cinema e do podcast, por meio de orientações técnicas a distância (no formato de videoconferência), que contribuem para o letramento digital. A partir da formação, eles escolheram uma obra literária, que tinha sido trabalhada em sala de aula, e a adaptaram em um roteiro para curta de animação ou podcast (radionovela). Os trabalhos foram postados no Youtube, publicados em blogs e exibidos em Mostras Virtuais da SEESP. O projeto foi bastante significativo, pois com ele alunos e professores puderam anular as barreiras de sala de aula, que muitas vezes dificultam o ensino e a aprendizagem. Desde o momento da criação do roteiro até a finalização do audiovisual, eles se transformaram em colaboradores, trabalhando com o objetivo de se apropriarem da obra literária de forma prazerosa e interativa. Foi uma grande experiência para todos!”.

Exemplos de vídeos produzidos durante o projeto Mediação e Linguagem:

Os Miseráveis – EE Prof Euripedes Simões de Paula

Morte e vida Severina – E. E. Professora Leila Mara Avelino

Auto da barca do inferno – EE Josephina G. F. Andreucci

A espera – poema de autoria de Cora Coralina

 

 

E quando um aluno te cospe na cara?

Setembro 25, 2016 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Crónica de João André Costa publicada no http://p3.publico.pt/ de 12 de setembro de 2016.

Quando o aluno nos chama um nome ou ameaça, por alguma razão há-de ser. E não, ninguém pode mudar o mundo sozinho

Texto de João André Costa

“Ai filho, e lá em Inglaterra, conta-me lá, não dás aulas numa daquelas escolas de malucos, onde os alunos são todos mal-educados, pois não?“ e eu, sem querer preocupar a minha tia, a dizer que não, não há problema nenhum e, claro, todos nós temos os nossos dias, rapidamente procurando dar um tiro na conversa enquanto, sobre os bicos dos pés, esticava os braços e todo o corpo na direcção de um outro assunto qualquer na prateleira de uma tarde demasiado longa, como são todas as tardes quando se vai visitar um familiar distante sem já se saber muito bem porquê.

Mas sim, lá em Inglaterra eu dou aulas “numa daquelas escolas de malucos“. Aliás, se hoje aqui escrevo é, precisamente, por de há nove anos para cá outra coisa não fazer para além de trabalhar em “escolas de malucos“ um pouco por toda a cidade de Londres. E não, tia, não são os alunos quem são malucos, mas os pais, e as crianças outra culpa não têm senão a de serem crianças num mundo cada vez mais desigual, monoparental, desestruturado, onde o apoio social é retirado ano após ano sem que por isso venha a promessa de um emprego, assim deixando famílias e crianças cada vez mais entregues a si mesmas, sendo a minha “escola de malucos“ o último reduto onde os professores ainda têm tempo para as ouvir, vestir e alimentar.

Infelizmente, como conseguirei eu explicar isto à minha tia quando, pela manhã, ao invés de um cordial “Good morning“ sou prontamente saudado por um glorioso “Fuck off“ a cada aluno que passa pelo portão, sinal de que está tudo bem, o aluno veio à escola ao invés de ficar em casa a levar porrada dos pais ou a fumar umas ervas maradas, e se calhar o “maluco“ sou eu enquanto sacudo os insultos dos ombros e, cordialmente, respondo “Good morning“, obrigado por vires (traduzido do inglês), já sabes onde é a tua aula?, e amanhã, achas que consegues vir mais cedo?

A causa da indisciplina é social e ninguém nasce mau, antes pelo contrário, a nossa fragilidade à nascença não é senão um mecanismo inato para suscitar nos outros, os nossos semelhantes, o acto de cuidar e proteger. Portanto, quando o aluno nos chama um nome ou ameaça, por alguma razão há-de ser. E não, ninguém pode mudar o mundo sozinho, e muito menos o mundo destas crianças no qual a falta crónica de auto estima é, tantas vezes, a raiz de todos os seus problemas, cabendo-nos a titânica tarefa de abrir uma janela, por mais pequena que seja, num planeta onde as portas se fecharam há já muito tempo.

Por isso a importância do trabalho interdisciplinar, onde elementos da Segurança Social, Polícia, organizações de apoio social e de combate à toxicodependência, entre tantos outros, unem esforços e coordenam estratégias para, todos juntos, salvarem o mundo, uma criança de cada vez. Um estudo recente, de seu nome “As preocupações e as motivações dos professores”, conduzido pela Fundação Manuel Leão, conclui como a indisciplina na sala de aula é o maior problema para os professores em Portugal.

Se a isto juntarmos menos autonomia e poder de decisão, mais trabalho, menos prestígio e a não valorização do trabalho dos professores da parte do Ministério da Educação, então estamos perante uma classe cuja crónica falta de auto estima é, também, a raiz de todos os seus problemas. Ora, em Portugal eu nunca ouvi um “obrigado“ ou um “por favor“. Em vez disso fui sempre recebido com um “Olha, faz isto“, “Dá-me aquilo“ ou “Vai ali“, sendo o sorriso dos alunos muitas vezes o único farol no meio da tempestade de ideias de quem apenas procura fazer um trabalho bem. Em Inglaterra, ao contrário, por tudo e por nada há sempre um “Please“ prontamente seguido de um “Thank you“. Em Inglaterra, nos cafés e restaurantes, nos transportes ou nas ruas, é corriqueiro ouvirmos grupos de professores a discutirem calorosamente a mesma paixão de uma profissão que ainda prende os professores em Portugal.

Em Inglaterra, da última vez que o Governo tentou mexer nos direitos dos professores fomos 500000 na rua. Para o bem e para o mal, com ou sem indisciplina, insultos, ameaças e agressões, sinto-me apoiado, gosto do que faço e não tenho intenções de mudar. Porque quando um aluno nos cospe na cara ou nos bate no estômago existe toda uma rede de apoio ao redor do professor, mas também da criança.

A indisciplina é, de facto, um problema social desde a nascente do berro de um pai ou do desemprego de uma mãe até à foz de um professor dramaticamente só. E em Portugal os professores não têm um problema, têm muitos, e enquanto não forem devidamente apoiados e valorizados a indisciplina continuará a morar em todas as salas de aula do país. Entretanto já tenho feito o convite a muitos colegas de profissão para virem leccionar em Inglaterra, ainda para mais agora que o Brexit se arrisca a fechar todas as portas. Resposta: “O quê, e trabalhar com o horário completo e sem redução até à reforma? Ó colega, não obrigado!“

 

 

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