Raparigas são as mais afectadas por sintomas depressivos na adolescência

Abril 22, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , ,

Notícia do Público de 9 de abril de 2019.

No estudo participaram 2.492 pessoas, avaliados aos 13, 17 e 21 anos de idade. Foram considerados todos os adolescentes nascidos em 1990, que frequentavam escolas públicas e privadas da cidade do Porto.

Lusa

Uma investigação desenvolvida na Faculdade de Medicina do Porto, a que a Lusa teve acesso esta terça-feira, detectou uma elevada prevalência de sintomas depressivos nas raparigas aos 13 anos, duas vezes mais elevada do que nos rapazes da mesma idade.

“Os valores da prevalência de sintomas depressivos logo numa idade inicial da adolescência, aos 13 anos, foram surpreendentes, tanto em raparigas como em rapazes, mas de uma forma mais significativa em raparigas”, afirmou à Lusa Cláudia Bulhões, responsável pelo estudo.

De acordo a investigadora e médica de família, 18,8% das raparigas sofrem de sintomas depressivos aos 13 anos de idade. Os mesmos sintomas afectam 7,6% dos rapazes. “Já aos 13 anos esta prevalência era duas vezes superior nas raparigas do que nos rapazes”, sublinhou.

Cláudia Bulhões concluiu também que “estes sintomas depressivos não acontecem de uma forma episódica, isto é, eles vão ter implicações ao longo da adolescência. Os adolescentes que tinham sintomas depressivos aos 13, a maioria apresentava também sintomas depressivos aos 17 e acabava por ter repercussões aos 21 anos”.

As conclusões integram a tese de doutoramento intitulada Depressive Symptoms in Adolescents, da autoria de Cláudia Bulhões, investigadora da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP).

De acordo com o estudo, aos 17 anos de idade, a prevalência de sintomas depressivos foi de 17,1% nas raparigas e 5,3% nos rapazes. Aproximadamente 6% das raparigas e 2% dos rapazes apresentavam sintomas depressivos nos dois momentos de avaliação. Cerca de 35% dos adolescentes com sintomas depressivos aos 13 anos apresentavam sintomas depressivos quatro anos mais tarde.

Cláudia Bulhões verificou ainda que os participantes com níveis mais elevados de sintomas depressivos na adolescência apresentaram piores resultados sociais e de saúde no início da vida adulta. Os sintomas depressivos afectaram sobretudo rapazes com história familiar de depressão e raparigas com hábitos tabágicos e cuja menarca (primeiro ciclo menstrual) surgiu numa idade mais precoce.

“Os resultados enfatizam a importância do reconhecimento dos sinais e sintomas de depressão, principalmente no início da adolescência”, defendeu a investigadora. Como tal, a tese de doutoramento de Cláudia Bulhões pretende contribuir para um melhor conhecimento da epidemiologia dos sintomas depressivos na adolescência em Portugal.

“É importante criar uma ferramenta que nos auxilie na avaliação desta questão, de uma forma estruturada, ao nível das nossa consultas, identificando estes adolescentes numa fase inicial de desenvolvimento do quadro, para que, realmente, possamos desenvolver estratégias no tratamento ou orientação”, sustentou.

No estudo participaram 2.492 pessoas, avaliados aos 13, 17 e 21 anos de idade. Foram considerados todos os adolescentes nascidos em 1990, que frequentavam escolas públicas e privadas da cidade do Porto.

 

 

5 sinais de depressão em crianças e adolescentes

Março 7, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , ,

Shutterstock

Texto do DN Life de 21 de fevereiro de 2019.

Diz a OMS que 30 por cento da população mundial (se não mais) irá sofrer de depressão ao longo da vida. Diversos estudos vão ainda mais longe e afirmam que os primeiros sintomas, em 50 por cento dos casos, surgem antes dos 18 anos. Razões mais do que válidas para ficarmos todos atentos.

Texto de Ana Pago | Fotografias da Shutterstock

Ler todo o texto no link:

https://life.dn.pt/comportamento/5-sinais-de-depressao-em-criancas-e-adolescentes/?fbclid=IwAR0Uh8MNqKeHWSaGRKN5RDFjz3GxTeMSiWtcDTAfikXREvmOXSbIeH00UKs2/

 

Os ecrãs são ou não inofensivos para a saúde dos mais novos?

Fevereiro 20, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , , , , ,

Texto do Público de 21 de janeiro de 2019.

Especialistas dizem que os dispositivos electrónicos podem não ser a causa de doenças como a obesidade e depressão. Alguns pais mostram preocupações em relação ao uso dos aparelhos.

Mariana e Silva Pereira

O tempo que as crianças e jovens passam à frente dos ecrãs pode não ser tão mau como se pensa, mas é preciso ter cuidado. Quem o diz é Russel M. Viner, director do Colégio dos Pediatras britânico (Royal College of Paedriatics and Child Health), e a investigadora Neza Stiglic, num estudo publicado no início do ano pelo BMJ Journals.

A pesquisa – feita a partir da revisão de 13 trabalhos já publicados sobre a relação entre os dispositivos electrónicos e a saúde (peso e doenças respiratórias e cardíacas), saúde mental, exercício físico, dieta alimentar e sono em crianças e jovens dos 0 aos 18 anos – revelou uma ligação “moderada” entre o uso dos ecrãs e as crianças obesas ou com depressão. Também foram encontradas provas “moderadas” na relação entre o “tempo passado com dispositivos móveis” e “um maior gasto de energia, dietas inadequadas e má qualidade de vida”. Por isso, os autores propõem que se façam novos estudos, uma vez que nos últimos anos houve uma evolução enorme na utilização destes dispositivos.

Por cá, Ivone Patrão, psicóloga e investigadora do ISPA – Instituto Universitário, revela que na sua pesquisa encontra uma “clara relação entre a dependência online – nos rapazes dos videojogos e nas raparigas das redes sociais –, e as alterações no humor, no ritmo do sono, nas forma como se relacionam com os pares e com a família; o que depois se traduz em comportamentos de menor atenção, concentração, de maior irrequietude, ou até de prostração, face ao cansaço”.

A pesquisa de Russel M. Viner e a Neza Stiglic não conseguiu determinar se o uso dos aparelhos é a fonte da obesidade e depressão ou se as pessoas que sofrem destes problemas estão mais expostas a passar mais tempo em frente a um ecrã. Ivone Patrão diz que pode tratar-se de uma “comorbidade”. “Por vezes a criança ou o jovem já estavam, por exemplo deprimidos, e o estar online surge como uma estratégia de escape. Noutras situações, um hobbie passa a ocupar o dia-a-dia do jovem, que desiste de outras actividades para estar cada vez mais tempo online e para sentir o prazer que isso lhe dá”, explica.

Para Tito de Morais, autor do blogue Miúdos Seguros na Net, “a utilização excessiva de dispositivos móveis por crianças e jovens não estará na origem de patologias como a obesidade e depressão, mas contribui para [as] agravar”. O especialista acrescenta ainda que o sedentarismo será o factor que mais influencia a reprodução destas doenças.

Pais devem negociar

Dora e Augusto Silva, pais de um menino de nove e uma menina de cinco anos, que frequentam o Agrupamento de Escolas do Parque das Nações, em Lisboa, confessam viver uma “luta diária” para incutir a máxima: primeiro os trabalhos de casa, segundo as actividades de lazer (e em quantidades limitadas). Como é que o fazem? Fixam um tempo para os filhos usarem o tablet, recorrendo a um temporizador do mesmo. Assim as crianças percebem que já o estão a usar há muito tempo, justificam.

Há quem restrinja mais afincadamente a utilização de aparelhos, como é o caso de Inês Rodrigues, mãe de duas meninas de seis e nove anos, da mesma escola, que não usam os dispositivos todos os dias e só tem autorização para o fazer quando “os deveres escolares estiverem cumpridos”. A mãe também proíbe o acesso aos aparelhos fora de casa.

Os pais dizem que os miúdos passam entre meia a uma hora diária frente aos dispositivos electrónicos, mas que no fim-de-semana a média aumenta. “Pode variar de uma a quatro horas, ou mesmo mais”, confessam Dora e Augusto Silva.

Para Ivone Patrão, os pais devem adoptar uma postura preventiva. A introdução das novas tecnologias pode ser feita desde a infância, “mas com uma bandeira bem levantada”, a da “negociação dos conteúdos e do tempo de acesso”. Os pais devem adoptar um modelo de negociação, estipulando regras: “Não é pelo conflito que vai haver mudança de comportamento, mas pelo parar, sentar e negociar o que cada uma das partes pretende e está disposta a ceder”, afirma a autora do livro #GeraçãoCordão, recomendando ajuda especializada para casos extremos.

Também Tito de Morais partilha da mesma perspectiva, acrescentando que os adultos devem propôr “alternativas em termos de actividades, criando tempos de utilização [dos ecrãs] adequados”. É o que já faz Inês Rodrigues, que procura actividades fora de casa para realizar com as filhas, já Dora e Augusto Silva incentivam os mais novos à prática do desporto ou de um instrumento.

Ainda assim, o casal reconhece pontos positivos aos aparelhos electrónicos, nomeadamente o auxílio ao estudo. Inês Rodrigues também orienta as filhas para a visualização de conteúdos “de alguma forma educativos” com o objectivo de evitar a pesquisa de assuntos “vazios”.

Texto editado por Bárbara Wong

 

 

 

Quando a depressão e a ansiedade tramam vida aos adolescentes

Novembro 16, 2018 às 9:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , ,

D.R.

 

Artigo de Clara Soares para a Visão, publicado em 29 de Outubro de 2018.

 

O artigo da VISÃO “Os Miúdos não estão bem” foi distinguido na categoria de Jornalistas, na 9ª edição do “AUA! – Angelini University Award”, este ano com o tema “viver com doença mental grave”. Recorde a versão digital do artigo e conheça os motivos da ansiedade e depressão nos adolescentes, os relatos na primeira pessoa, pareceres clínicos, um guia dirigido aos pais e pistas para enfrentar o mal-estar na primeira geração a crescer no mundo digital.

 

“Quando comecei a ter enjoos e vómitos, antes de ir para as aulas, percebi que tinha um problema. Ficava melhor quando comia menos, só que perdi peso e sentia-me mal e triste.” Beatriz tinha então 14 anos, frequentava um colégio privado e até tinha boas notas. O problema era a pressão dos testes e o ambiente competitivo entre colegas. “Foi um grande alívio entrar para o liceu público, mas durou pouco porque eu exigia muito de mim. E tudo piorou”, lembra agora. “Em situações novas ou que não podia controlar, tinha medo de falhar, de não estar à altura do que achava que esperavam de mim”, acrescenta.

Beatriz não está sozinha. O estudo National Health Behaviour in School HBSC/OMS, de 2014 (com uma amostra de 6 026 adolescentes do 6º ao 10º anos) mostra que nem tudo vai bem com os jovens portugueses. Gina Tomé, psicóloga e investigadora da Aventura Social (grupo de investigação sobre o comportamento juvenil), nota que, entre 2010 e 2014, “houve menos 3,4% de alunos a gostarem da escola e aumentarem os sinais de mal-estar, desesperança e dificuldade em lidar com conflitos”. Tais resultados traduziram-se no plano psicológico: “Os que responderam que se sentem nervosos diariamente passaram dos 6,2% para os 8,4%; os que se dizem irritados quase todos os dias eram 3,7% e agora são 5,9%; e os que estão tristes ao ponto de parecer que não vão aguentar situavam-se nos 3,8%, uma percentagem que subiu para os 5,5%.” O projeto ES’COOL – Promoção da Saúde Mental nas Escolas, que envolveu 200 professores, permitiu apurar algumas causas: “Pressão ligada aos resultados escolares, problemas no ambiente familiar e nas relações interpessoais.”

 

 

Aos 19 anos, Beatriz pode dizer, por experiência própria, que pedir ajuda faz toda a diferença e que o facto de ser compreendida a levou a reorientar-se e a seguir em frente. Aprendeu a controlar a respiração e, com o apoio de um psicólogo, a conhecer e a respeitar os seus limites, no mundo virtual e no real. Convidada a dar dois exemplos, avança estes: “À noite, e em certas alturas do dia, passei a desligar as notificações do telemóvel e já não vejo as pressões dos outros como minhas.” 
E se a ansiedade lhe bater à porta sem pré-aviso? “Dou conselhos a mim própria como se fosse uma pessoa de quem goste muito!” Palavra de adolescente.

Continue a ler AQUI.

 

Quando a depressão e ansiedade tramam vida aos adolescentes

Maio 9, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
Etiquetas: , ,

Texto da http://visao.sapo.pt/ de 8 de abril de 2018.

O aumento dos casos de ansiedade e depressão na adolescência preocupa pais, professores e técnicos de saúde. Os motivos são vários: foco excessivo no sucesso, medo de fracassar e situações de tensão a nível familiar.

Quando comecei a ter enjoos e vómitos, antes de ir para as aulas, percebi que tinha um problema. Ficava melhor quando comia menos, só que perdi peso e sentia-me mal e triste.” Beatriz tinha então 14 anos, frequentava um colégio privado e até tinha boas notas. O problema era a pressão dos testes e o ambiente competitivo entre colegas. “Foi um grande alívio entrar para o liceu público, mas durou pouco porque eu exigia muito de mim. E tudo piorou”, lembra agora. “Em situações novas ou que não podia controlar, tinha medo de falhar, de não estar à altura do que achava que esperavam de mim”, acrescenta.

Beatriz não está sozinha. O estudo National Health Behaviour in School HBSC/OMS, de 2014 (com uma amostra de 6 026 adolescentes do 6º ao 10º anos) mostra que nem tudo vai bem com os jovens portugueses. Gina Tomé, psicóloga e investigadora da Aventura Social (grupo de investigação sobre o comportamento juvenil), nota que, entre 2010 e 2014, “houve menos 3,4% de alunos a gostarem da escola e aumentarem os sinais de mal-estar, desesperança e dificuldade em lidar com conflitos”. Tais resultados traduziram-se no plano psicológico: “Os que responderam que se sentem nervosos diariamente passaram dos 6,2% para os 8,4%; os que se dizem irritados quase todos os dias eram 3,7% e agora são 5,9%; e os que estão tristes ao ponto de parecer que não vão aguentar situavam-se nos 3,8%, uma percentagem que subiu para os 5,5%.” O projeto ES’COOL – Promoção da Saúde Mental nas Escolas, que envolveu 200 professores, permitiu apurar algumas causas: “Pressão ligada aos resultados escolares, problemas no ambiente familiar e nas relações interpessoais.”

Aos 19 anos, Beatriz pode dizer, por experiência própria, que pedir ajuda faz toda a diferença e que o facto de ser compreendida a levou a reorientar-se e a seguir em frente. Aprendeu a controlar a respiração e, com o apoio de um psicólogo, a conhecer e a respeitar os seus limites, no mundo virtual e no real. Convidada a dar dois exemplos, avança estes: “À noite, e em certas alturas do dia, passei a desligar as notificações do telemóvel e já não vejo as pressões dos outros como minhas.” 
E se a ansiedade lhe bater à porta sem pré-aviso? “Dou conselhos a mim própria como se fosse uma pessoa de quem goste muito!” Palavra de adolescente.

ESPÍRITO “TEEN”

A adolescência é uma invenção recente que deu os primeiros passos nos Estados Unidos da América, após a II Guerra Mundial. “Veio o rock’n’roll, os rapazes e as raparigas começaram a andar juntos no liceu e a divertir-se – e estes anos ganharam um encanto que não tinham, sendo mesmo considerados a melhor parte da vida”, nota a psicóloga clínica Teresa Lobato Faria, que dá consultas a adolescentes do Hospital Dona Estefânia, em Lisboa. Na década seguinte, a juventude e o amor romântico foram idolatrados no cinema e, algo inexistente até então, “os jovens ganharam notoriedade, começaram a tomar posições e a influenciar o poder político.”

Assim despertou o interesse dos investigadores por este período da vida, fascinante, turbulento e essencial a um desenvolvimento saudável que, pelos critérios da Organização Mundial de Saúde (OMS), acontece entre os 10 e os 19 anos. À luz deste critério, em Portugal os adolescentes representam 10,5% da população, mas o número pode ser superior, já que os limites temporais são móveis. É que os estudos apontam para um início por volta dos 13 anos (depois da puberdade), prolongando-se até aos 24 ou mais anos, altura em que se consolidam as competências sociais e académicas, essenciais para a autonomia plena.

Até lá, acontecem intensas mudanças físicas, hormonais e cerebrais. Os neurónios praticamente duplicam, e o lobo frontal, que governa o raciocínio e a tomada de decisões, passa por alterações profundas entre os 12 e os 15 anos (ver caixa Onde é que estavas com a cabeça?”). Confirma-o a investigação da neurocientista inglesa Sarah-Jayne Blakemore e colegas, apresentada na conferência sobre o cérebro adolescente, em novembro, promovida pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, em Lisboa.

À VISÃO, a também autora do livro Inventing Ourselves: The Secret Life of the Teenage Brain (publicação prevista para março), explica porquê: “Nesta fase, mais do que nunca, aumenta a pressão para se assumir riscos, a vulnerabilidade à influência do grupo na avaliação dos acontecimentos e o medo de ser excluído pelos pares.” Não é por acaso que os prémios das seguradoras são mais elevados até aos 25 anos. A professora de Neurociências Cognitivas do University College London esclarece que “75% das perturbações ansiosas e depressivas manifestam-se entre a infância e os 20 anos”, quando se formam a identidade pessoal e social.

JOVENS, ANSIOSOS E DEPRIMIDOS

“Queremos tudo e já.” O grito de guerra da adolescência pode ser silenciado se as circunstâncias forem adversas ao ponto de matarem os ideais.

Vanessa tem 18 anos e reconhece que, aos 13, bateu no fundo do poço. “Os meus pais discutiam muito, separaram-se quando eu era pequena e eu não conseguia exprimir o mal-estar que sentia”, conta. “Nada fazia sentido, deixei de comer, quis acabar com a vida, fui parar ao hospital. Não aceitava que tinha um problema, estava sempre à defesa ou a opor-me.” Teve a “sorte” de ser encaminhada pela assistente social para um projeto inovador – o W+, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, criado em 2003 para promover a saúde mental e dar respostas a adolescentes (dos 12 aos 24 anos) – e de aderir ao programa Ocupa-te (destinado a jovens inativos há mais de dois anos e fora dos sistemas escolares 
e de saúde). Vanessa levou algum tempo 
até baixar a guarda e retomar os estudos do 10º ano. Os olhos brilham quando diz que gosta de inspirar outros a travar esta batalha diária, que também é a dela: “Continuo a ter estados depressivos, mas se a minha mente for forte eu mantenho-me forte.”

As estatísticas de saúde mostram que as perturbações ansiosas e depressivas praticamente duplicaram em seis anos, entre a população em geral, com o consumo de medicamentos a disparar na mesma proporção (e a aumentar entre os 13 e os 18 anos). Há dois anos, o suicídio foi a segunda principal causa de morte entre os 15 e os 29 anos, a nível global, conclui a OMS. Também em 2015, um artigo científico sobre o atendimento na urgência de pedopsiquiatria da Estefânia (dados recolhidos entre 2011 e 2013) apontava para o aumento de 23% do número de consultas com médias etárias nos 13,5 anos. Os problemas de comportamento, as condutas de automutilação e os casos de ansiedade (com o pico aos 16 anos) lideravam os motivos da ida às urgências.

Os números do Instituto Nacional de Saúde Mental norte-americano são igualmente alarmantes: os problemas ansiosos afetam 20% dos rapazes e 30% das raparigas. Desde 2012, têm vindo a aumentar as perturbações de humor entre alunos do liceu: três milhões de jovens entre os 12 e os 17 anos afirmaram ter tido pelo menos um episódio depressivo no ano anterior. Convém lembrar que estamos a falar de países desenvolvidos e de jovens escolarizados. Porquê? Que fragilidades são estas que estão a vir agora ao de cima?

PRESSÃO PARA O SUCESSO

A pedopsiquiatra Paula Vilariça, da Clínica da Juventude da Estefânia e uma das autoras do artigo científico acima referido, afirma que “por detrás destes perfis de ansiedade e depressão estão, quase sempre, antecedentes de bullying na infância e, em simultâneo, ruturas familiares ou mudanças na vida laboral ou da saúde dos pais”. O aumento de quadros ansiosos, “que evoluem para a depressão, até por haver um fundo neurobiológico comum”, está associado a “expectativas elevadas que os miúdos trazem acerca das suas conquistas e da estabilidade que depois lhes falta”.

Os fatores de stresse intenso surgem a partir do 7º ano de escolaridade, com o aumento do nível de exigência antes das épocas de testes e de exames. “Chegamos a ter 16 pedidos de consulta por dia: eles vomitam, sentem falta de ar, têm ataques de pânico, passam noites em claro.” As automutilações são mais comuns nas raparigas, ao passo que os rapazes são mais propensos a meterem-se em brigas que sabem que vão perder ou a refugiarem-se nos videojogos, nas drogas ou no álcool.

Embora os pais façam o melhor que sabem e podem, Paula Vilariça admite que eles passam muitas vezes ao lado dos sinais de alerta dos filhos (ver caixa Perfis de ansiedade e depressão mais comuns na adolescência). Foi o caso de uma miúda com 13 anos que levou a cabo três tentativas de suicídio após baixa do rendimento familiar, na sequência da perda de emprego da mãe, e dificuldades de integração na escola nova: “Sentia-se muito só e incapaz de corresponder ao nível de exigência escolar, e encontrava alívio na automutilação, mas também culpa e conflito”, conta a pedopsiquiatra. Este foi um dos casos que exigiram medicamentos para a ansiedade e para os ataques de pânico, durante dois meses, conjugados com psicoterapia individual e familiar. O que mudou? “A mãe continua desempregada, o pai a trabalhar por turnos e a filha com dificuldades na escola (passou para o 8.º ano com três negativas). Porém, está mais tranquila e todos lidam melhor com o stresse.”Hoje sabe-se que as perturbações de humor se traduzem na desregulação dos níveis da serotonina no cérebro, que afeta mais umas pessoas do que outras. A equipa de investigadores da Universidade de Emory apurou o assunto e descobriu que o FKBP5 e variantes (SNP ou single nucleotide polymorphisms) estariam na origem de respostas de stresse superiores ao normal, mas apenas se houvesse antecedentes de maus-tratos ou abuso na infância. Conclusão: os genes não explicam tudo.

SENTIR-SE EM CASA, PODER VOAR

Sílvia, 23 anos, deixou de ser quem era há cinco: uma miúda isolada, refugiada nos seus pensamentos e no estudo, obcecada pela ordem e com receio de ser tocada. Ela não esquece o sofrimento de crescer exposta a um ambiente de violência doméstica. A diferença é que agora criou outras bases de apoio junto de outros jovens e na atmosfera protetora e estimulante do grupo de teatro terapêutico que frequenta, em Lisboa. “Aqui perdi a timidez e descobri como é bom socializar.” Para trás ficaram o medo do descontrolo e os rituais de limpeza.

Ao seu lado, Miguel, 18 anos, ainda a lidar com sintomas de ansiedade social, lembra-se de quando vivia na casa materna, entregue a si mesmo e a acumular faltas às aulas. Os conflitos com a mãe agravaram-se ao ponto de haver agressões. “Ela e o meu padrasto não me aceitaram como sou, nem a minha orientação sexual”, resume. Mudou-se para casa de outros familiares e tenta, aos poucos e com ajuda institucional, reatar o relacionamento com a mãe. Os progressos, deve-os, afirma, à “segunda casa” que encontrou no W+.

Um ano mais velha do que Miguel, Francisca também sabe o que é viver com ansiedade generalizada e deparou-se com ela logo após a puberdade, na sequência de um atropelamento que deixou marcas profundas e anos de reabilitação. Em casa, abundavam as discussões e o sentimento de ser incompreendida. “A solidão em que eu vivia era enorme.” Cética quanto à utilidade do apoio psicológico, foi graças a esse “colo” que se aventurou nos primeiros passos a solo: partilhou uma habitação com o namorado, mudou de curso e vive hoje na casa dos avós. Há dias em que sente raiva e vontade de chorar, mas já não é a mesma coisa: “Conquistei uma opinião própria, sem estar presa à minha mãe, de quem tinha mais medo do que respeito.”

Isabel Queiroz de Melo, diretora da unidade de saúde W+, confirma que “a crise desestruturou muitas famílias”. Nos últimos dois anos, passaram pelo serviço 650 jovens, “metade a ser acompanhada em regime semanal”.

Sónia Santos, que coordena o núcleo de adolescentes da mesma unidade de saúde, descreve um relatório do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, realizado dois anos após a abertura do W+, que identificou o perfil dos que procuravam ajuda: metade estava a passar por lutos ou situações de abandono; 54% não tinham progenitores; 35% contavam com uma pessoa em quem se apoiar; e 12% não tinham ninguém. Após superarem experiências de grande desamparo, voltam para partilhar alegrias – o diploma, a namorada, etc. – e pedir informações sobre contraceção: “Sentem-se acolhidos e não julgados.”

SAIR PARA A RUA

Os resultados dos inquéritos nacionais dos Estados Unidos da América revelaram que, entre 2010 e 2015, mais de 33% dos que nasceram depois de 1995 se sentiam “inúteis e sem alegria”, tendo as tentativas de suicídio aumentado 23 por cento. Também começam a surgir estudos que relacionam o débito de horas de sono, associado à exposição a ecrãs, à depressão (no início do ano, a OMS incluiu a dependência de videojogos na lista de doenças).

Onde estão os anos promissores, com direito a ser rebelde? Se, nos meios socioeconomicamente favorecidos, os 18 anos eram a senha para conduzir carro próprio e “sair ou dormir com quem apetece”, hoje o mais certo é ligarem-se ao mundo no quarto.

No ano passado, a psicóloga Jean Twenge, da Universidade de San Diego, e autora do controverso livro iGen – ou a geração “eu”, voltada para o umbigo – indagava, na revista The Atlantic: “Os smartphones destruíram uma geração?” Referia-se ao deslumbramento induzido pelos gadgets móveis, à falsa ideia de independência criada pelas redes sociais e ao conforto e à segurança do registo digital, onde os jovens crescem superprotegidos e frágeis. Porém, sabemos que, no universo hiperconectado, há FOMO (sigla de fear of missing out ou medo de ficar de fora) e sobrecarga de estímulos: o risco que se corre é o de converter a adolescência num esgotante emprego a tempo inteiro, como referia um artigo recente da revista Time.

“O modelo de organização social dominante pode estar a contribuir para o mal-estar juvenil e para o aumento do consumo de fármacos”, comenta a pediatra Maria do Céu Machado, autora do ensaio Adolescentes e atual presidente do INFARMED, lembrando que “nunca houve tantos jovens qualificados sem projeto de vida [a taxa de desemprego jovem, em outubro passado, chegou aos 
25,6 por cento]”. O psicólogo Pedro Hubert alerta para a dificuldade que os pais têm em dizer “não” e em estabelecer limites. A visão idealizada do sucesso individual, o “podes ser o que quiseres” é outro erro que dificulta 
o treino das competências sociais e da tolerância à frustração.

Por fim, o especialista em adições destaca os riscos da imersão no mundo virtual dos videojogos e das redes sociais: “Geram excitação e euforia, mas não fomentam a relação íntima e presencial nem resolvem a timidez e o evitamento social.” Às vezes, senão quase sempre, a maior recompensa encontra-se fora da “matrix”. Basta sair e fazer a experiência.

 

 

 

Pressão desmedida dos pais afeta saúde mental dos alunos

Abril 10, 2018 às 6:00 am | Publicado em Campanhas em Defesa dos Direitos da Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , ,

Noticia do site https://www.swissinfo.ch/por/ de 26 de março de 2018.

Os pais, e não as escolas, são os culpados por um aparente aumento nos níveis de estresse entre os alunos da escola primária, de acordo com a associação suíça de bem-estar da juventude.

Um estudo de 2014 da Organização Mundial da Saúde (OMS) constatou que 27% das crianças de onze anos na Suíça sofrem de distúrbios de sono, enquanto 15% se queixam de depressão constante. Além disso, 12% sofrem regularmente de dores de cabeça, informa a televisão pública suíça.

No entanto, a presidente da Fundação Pro Juventute, Katja Wiesendanger, ela masma professora do ensino fundamental há mais de 30 anos na cidade de Basileia, disse que essas doenças não estão sendo induzidas por conta de uma pressão indevida das escolas sobre os alunos. Ela reconheceu que as escolas estão se conscientizando dos sintomas de estresse entre algumas crianças, mas questionou a origem desses problemas.

“Eu escuto cada vez mais que a pressão sobre a desempenho das crianças escola primária aumentou”, disse ela. “Mas você precisa se perguntar exatamente de onde vem essa pressão. A escola é citada como a causa mais comum de estresse. Mas será que a escola realmente se tornou mais estressante?”

Em vez disso, ela culpa os pais que atribuem importância crescente à educação, que acaba sendo inoculada nos filhos. “Há um certo medo de rebaixamento entre os pais. Eles passam isso para seus filhos.”

Em outubro, a Pro Juventute lançou uma campanha chamada “Menos pressão, mais criança” visando promover mais tempo livre para as crianças seguirem seus próprios interesses.

A organização disse que a percentagem de chamadas para o telefone de apoio 147 pedindo “conselhos para problemas pessoais graves” aumentou para uma parcela de 29,5% de todas as chamadas para o primeiro semestre de 2017. Em 2012, essa cifra foi de 17,5%.

swissinfo.ch/ets

Campanha:

https://stress.projuventute.ch/fr/

 

A geração “floco de neve”: pessoas sensíveis que se ofendem por tudo

Dezembro 8, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , ,

Texto da http://www.revistapazes.com/ de 7 de novembro de 2017.

Quando imaginamos um floco de neve, nós o associamos à beleza e singularidade, mas também à sua enorme vulnerabilidade e fragilidade. Estas são precisamente duas das características que definem as pessoas que atingiram a idade adulta na década de 2010. Afirma-se que a geração “floco de neve” seja formada por pessoas extremamente sensíveis aos pontos de vista que desafiam sua visão do mundo e que respondem com uma suscetibilidade excessiva às menores queixas, com pouca resiliência.

A voz de alarme, por assim dizer, foi dada por alguns professores de universidades como Yale, Oxford e Cambridge, que notaram que a nova geração de alunos que frequentavam suas aulas era particularmente suscetível, não tolerante à frustração e particularmente inclinados fazerem uma tempestade em um copo de água.

Cada geração reflete a sociedade que eles viveram

Dizem que as crianças saem mais ao padrão da sua geração que aos pais. Não há dúvida de que, para entender a personalidade e o comportamento de alguém, é impossível abstrair do relacionamento que estabeleceu com seus pais durante a infância e a adolescência, mas também é verdade que os padrões e expectativas sociais também desempenham um papel importante no estilo educacional e moldam algumas características de personalidade. Em resumo, podemos dizer que a sociedade é a terra onde a semente é plantada e crescida e os pais são os jardineiros que são responsáveis por fazer crescer.

Isso não significa que todas as pessoas de uma geração respondam ao mesmo padrão, felizmente há sempre diferenças individuais. No entanto, não se pode negar que as diferentes gerações têm metas, sonhos e formas de comportamento característico que são o resultado das circunstâncias que tiveram que viver e, em alguns casos, tornam-se inimagináveis em outras gerações.
Claro, o mais importante é não colocar rótulos, mas analisemos para entender o que está na base desse fenômeno, para não repetir os erros e para que possamos dar a devida importância a habidades de vida tão importantes quanto a Inteligência Emocional e a resiliência.

3 erros educacionais colossais que criaram a geração “floco de neve”

  1. Sobreprotecção. A extrema vulnerabilidade e escassa resiliência desta geração têm suas origens na educação. Estes são, geralmente, crianças que foram criadas por pais superprotetores, dispostos a pavimentar o caminho e resolver o menor problema. Como resultado, essas crianças não teve a oportunidade de enfrentar as dificuldades e conflitos do mundo real e desenvolver tolerância à frustração, ou resiliência. Não devemos esquecer que uma dose de proteção é necessária para que as crianças cresçam em um ambiente seguro, mas quando impede que explorem o mundo e limite seu potencial, essa proteção se torna prejudicial.
  2. Sentido exagerado de “eu”. Outra característica que define a educação recebida pelas pessoas da geração “floco de neve” é que seus pais os fizeram sentir muito especiais e únicos. Claro, somos todos únicos, e não é ruim estar ciente disso, mas também devemos lembrar que essa singularidade não nos dá direitos especiais sobre os outros, já que somos todos tão únicos quanto os outros. O sentido exagerado de “eu” pode dar origem ao egocentrismo e à crença de que não é necessário tentar muito, uma vez que, afinal, somos especiais e garantimos o sucesso. Quando percebemos que este não é o caso e que temos que trabalhar muito para conseguir o que queremos, perdemos os pontos de referência que nos guiaram até esse momento. Então começamos a ver o mundo hostil e ameaçador, assumindo uma atitude de vitimização.
  3. Insegurança e catástrofe. Uma das características mais distintivas da geração do floco de neve é que eles exigem a criação de “espaços seguros”. No entanto, é curioso que essas pessoas tenham crescido em um ambiente social particularmente estável e seguro, em comparação com seus pais e avós, mas em vez de se sentir confiante e confiante, temem. Esse medo é causado pela falta de habilidades para enfrentar o mundo, pela educação excessivamente superprotetiva que receberam e que os ensinou a ver possíveis abusos em qualquer ação e a superestimar eventos negativos transformando-os em catástrofes. Isso os leva a desejarem se bloquear em uma bolha de vidro, para criar uma zona de conforto limitado onde eles se sintam seguros.

Para entender melhor como a educação recebida afeta uma criança, é importante ter em mente que as crianças procuram pontos de referência em adultos para processar muitas das experiências que experimentam. Isso significa que uma cultura paranóica, que vê abusos e traumas por trás de qualquer ato e responde com sobreproteção, gerará efetivamente crianças traumatizadas. A forma como os adultos enfrentam uma situação particularmente delicada para a criança, como um caso de abuso escolar, pode fazer a diferença, levando a uma criança que consegue superar e se torna resiliente ou uma criança que fica com medo e torna-se uma criança vítima

Qual é o resultado?

O resultado de um estilo de parentesco superprotetivo, que vê o perigo em todos os lugares e promove um sentido exagerado de “eu”, são pessoas que não possuem as habilidades necessárias para enfrentar o mundo real.

Essas pessoas não desenvolveram tolerância suficiente à frustração, então o menor obstáculo os desencoraja. Nem desenvolveu uma Inteligência emocional adequada, então eles não sabem como lidar com as emoções negativas que certas situações suscitam.

Como resultado, eles se tornam mais rígidos, se sentem ofendidos por diferentes opiniões e preferem criar “espaços seguros”, onde tudo coincide com suas expectativas. Essas pessoas são hipersensíveis à crítica e, em geral, a todas as coisas que não se encaixam na visão do mundo.

Também são mais propensos a adotar o papel das vítimas, considerando que estão todos contra ou equivocados. Desta forma, eles desenvolvem um local de controle externo, colocando a responsabilidade sobre os outros, em vez de se encarregar de suas vidas e mudar o que podem mudar.

O resultado também é que essas pessoas são muito mais vulneráveis ao desenvolvimento de transtornos psicológicos, do estresse pós-traumático à ansiedade e à depressão. Na verdade, não é estranho que o número de transtornos de humor aumente ano após ano.

Fonte:
Mistler, BJ et. Al. (2012) The Association for University and College Counseling Center Directors Annual Survey Reporting. Pesquisa do AUCCCD ; 1-188

Este artigo foi publicado originariamente no site Rincón Psicología e fora livremente adaptado pela equipe da Revista Pazes.

Créditos da foto de capa: Andrew Robles
@andrewroblesphoto/unsplash.com

 

 

 

Uso em excesso de tablets e smartphones aumenta risco de depressão e suicídio

Dezembro 2, 2017 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , , , , , , , ,

Notícia do https://oglobo.globo.com/ de 14 de novembro de 2017.

Estudo com adolescentes americanos mostra relação entre tempo de tela e saúde mental

SAN DIEGO, Califórnia — Adolescentes que passam muitas horas diárias usando computadores, tablets e smartphones têm maior probabilidade de apresentar quadros de depressão e comportamentos suicidas, revela estudo realizado por pesquisadores das universidades estaduais de San Diego e da Flórida. A descoberta serve de alerta para que pais monitorem o chamado tempo de tela dos filhos.

— O aumento nos problemas de saúde mental entre adolescentes é alarmante — alertou Jean Twenge, professora na Universidade Estadual de San Diego, líder da pesquisa publicada nesta terça-feira no periódico “Clinical Psychological Science”.

Em parceria com Thomas Joiner e Megan Rogers, da Universidade Estadual da Flórida, Twenge e a graduanda Gabrielle Martin analisaram dados de questionários respondidos anonimamente por mais de 500 mil adolescentes e cruzaram os números com estatísticas sobre suicídios do Centros para Controle e Prevenção de Doenças dos EUA.

Os resultados mostraram que a taxa de suicídio para garotas entre 13 e 18 anos aumentou 65% entre 2010 e 2015, e o número de meninas sofrendo com comportamentos relacionados ao suicídio — falta de esperança e pensamentos, planos e tentativas de suicídio — subiu 12% no mesmo período. O número das que relataram sintomas de depressão severa cresceu 58%.

— Quando eu vi pela primeira vez esse aumento repentino em questões de saúde mental, não estava certo sobre as causas — afirmou Twenge. — Mas esses mesmos questionários perguntavam aos adolescentes como eles gastavam o tempo de lazer, e entre 2010 e 2015, os adolescentes aumentaram o tempo gasto com telas e diminuíram em outras atividades.

Os pesquisadores voltaram aos números para checar se existia alguma correlação estatística entre o tempo de tela com sintomas depressivos e comportamentos suicidas. Eles descobriram que 48% dos adolescentes que gastam cinco ou mais horas por dia em dispositivos eletrônicos relataram ao menos uma característica relacionada ao suicídio, contra apenas 28% dos que passam menos de uma hora por dia com telas. Sintomas de depressão também são mais comuns em adolescentes que gastam muito tempo em tablets, smartphones e computadores.

O resultado está em linha com estudos anteriores, que relacionaram o maior tempo gasto em redes sociais com a tristeza.

Do lado positivo, os pesquisadores descobriram que o uso do tempo livre para interações sociais, esportes, exercícios físicos, lição de casa, cultos religiosos, entre outras atividades, está relacionado a menos sintomas depressivos e de suicídio. Além disso, os cientistas afirmam que não é preciso abandonar completamente os dispositivos eletrônicos, apenas limitar o uso a uma ou duas horas diárias.

— Apesar de não podermos garantir que o uso crescente dos smartphones causou o aumento nos problemas de saúde mental, isso foi de longe a maior mudança na vida dos adolescentes entre 2010 e 2015 — disse Twenge.

O estudo citado na notícia é o seguinte:
Increases in Depressive Symptoms,  Suicide-Related Outcomes, and Suicide  Rates Among U.S. Adolescents After 2010  and Links to Increased New Media Screen  Time

Há jovens que enviam mensagens agressivas a si próprios na Internet, revela estudo

Outubro 31, 2017 às 1:30 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , ,

Notícia do https://www.publico.pt/ de 30 de outubro de 2017.

Karla Pequenino

Investigadores americanos acreditam que o problema está por trás de alguns casos de suicídio

Por vezes, quem é alvo de mensagens ofensivas na Internet é também quem as escreve e envia a si próprio, sob pseudónimo. O problema existe, pelo menos, entre jovens. Um grupo de investigadores norte-americanos revelou que cerca de um em cada 20 adolescentes (entre os 12 e os 17 anos) envia mensagens agressivas a si mesmo. O alerta vem num estudo publicado esta semana na revista cientifica Journal of Adolescent Health.

“O autoflagelo digital [digital self-harm, no original], como chamamos à tendência, ocorre quando um individuo cria uma conta anónima online e a utiliza para enviar insultos e ameaças a si próprio”, explica ao PÚBLICO Sameer Hinduja, um investigador em cyberbullying da Universidade Atlântica da Florida, que participou no estudo.

O problema, explica, veio à tona em 2013, após o suicídio de uma jovem britânica de 14 anos. A morte de Hannah Smith foi inicialmente associada ao bullying que sofria através do site de mensagens Ask.fm, onde lhe escreviam “morre, toda a gente ficará mais feliz” ou “faz-nos um favor e mata-te”. Porém, uma investigação posterior concluiu que 98% das mensagens de ódio recebidas tinham sido enviadas pela própria adolescente. A história de Natalie Natividad, em 2016, no Texas, é semelhante. Mas não são as únicas.

Dos 5593 jovens americanos inquiridos pela equipa de Hinduja, mais de 300 (6%) admitiu já ter enviado mensagens agressivas a si próprio. Metade (51,3%) disse que apenas o tinha feito uma vez, mas 13,2% admitiu fazê-lo múltiplas vezes.

Para Hinduja é uma percentagem relevante. “Os pais já não podem ignorar a possibilidade de que uma mensagem ofensiva recebida pelos seus filhos tenha vindo dos seus próprios filhos”, frisa o investigador. “Sempre que um jovem experiencie cyberbullying, há um problema que tem de ser resolvido. Especialmente se o emissor e o receptor forem a mesma pessoa.”

Os motivos variam: desde jovens que o fazem como uma forma de diversão, a pessoas que querem testar a reacção dos amigos, ou casos de indivíduos deprimidos que se querem obrigar a sentir pior. “Os estudantes que admitiram estar deprimidos, ou que se magoavam de outras formas [fora da Internet], tinham uma maior probabilidade de incorrer no comportamento”, nota Hinduja.

A idade e a etnia dos inquiridos não afectou as respostas, mas o género e a sexualidade, sim. O comportamento era mais prevalente em adolescentes que não se identificam como heterossexuais, e pessoas que tinham sido vítimas de bullying no passado. Os rapazes também tinham mais probabilidade de enviar mensagens ofensivas a si próprios, mas era frequentemente como uma piada ou forma de conseguir atenção de amigos ou interesses amorosos.

Já o local das ofensas – Facebook, Instagram, Twitter, Ask.fm ou outra rede social – não é relevante para o investigador: “Não acho que faça a diferença. De momento não sei se acontece mais numa plataforma que noutra, apenas que está a acontecer e que os estudantes admitem que o fazem.”

Segundo o relatório dos investigadores, “entre 13 e 18% de jovens em todo o mundo envolve-se em algum tipo de comportamento para se magoar durante a sua vida e este tipo de comportamento continua a crescer nas últimas duas décadas”. Para Hinduja, as agressões verbais, através da Internet não podem ser descuradas.

“Estas investigações mostram que comportamentos autodestrutivos vêm antes de tentativas de suicídio”, frisa Hinduja. “Queremos impedir que isto aconteça, e é por isso que estamos a tentar alertar para o problema das ofensas autodirigidas através do mundo digital”.

 

 

 

A “pressão do mundo virtual” anda a mexer com a saúde mental dos jovens

Setembro 21, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , ,

Notícia do https://www.publico.pt/ de 7 de setembro de 2017.

Passam em média mais de duas horas por dia nas redes sociais. Há especialistas que acham que isso já se está a notar nas urgências e consultórios psiquiátricos.

Catarina Reis

Sem barreiras e sem segredos, como uma casa virtual onde tudo pode realmente acontecer. Assim se apresentam as redes sociais aos jovens que as utilizam como o seu meio de comunicação mais natural. E a pergunta que muitos pais fazem é esta: pode o uso excessivo de redes sociais estar associado ao aparecimento de problemas de saúde mental? O médico psiquiatra Diogo Telles Correia, a psicóloga Rosário Carmona e a pedopsiquiatra Maria de Lurdes Candeias acreditam que sim.

Da rua para casa, do convívio de recreio às conversas em redes sociais — em Portugal, são os jovens dos 15 aos 24 anos que mais tempo lhes dedicam. Passam uma média de mais de duas horas por dia a “conversar” e a “partilhar”, segundo um estudo da Marktest, divulgado no ano passado, que indicava ainda que em poucos anos — de 2008 a 2015 — a percentagem de utilizadores, entre todas as faixas etárias, crescera de 17,1% para 54,8%.

Diogo Telles Correia não hesita em ligar os mais recentes números ao crescimento de patologias do foro psicológico nos jovens, como ansiedade e depressão. Porquê? De acordo com o especialista, as redes sociais expõem “os adolescentes a um contínuo fluxo de informação, que os estimula constantemente e alimenta uma personalidade hiperactiva e que pode conduzir, não raramente, a situações de ansiedade”.

E a ansiedade, diz o médico psiquiatra e psicoterapeuta, é um veículo para a depressão. Além disso, a globalização das redes sociais veio tornar as relações humanas “mais superficiais e menos estruturantes, facto que reduz a resiliência dos adolescentes às adversidades”, acrescenta.

Aos olhos de Rosário Carmona, psicóloga especialista em adição à Internet, o problema não é novo. “A pressão social, a pressão da integração, sempre existiu. Agora, apenas existe em moldes diferentes.” E prossegue: “Enquanto essa pressão existia na realidade, agora há uma pressão adicional — a do mundo virtual. É esta pressão, que as gerações antigas já tinham, mas a duplicar.” E que é passível de ser encontrada nos episódios mais banais do dia-a-dia de um adolescente. “O não pertencer a um grupo de turma já é motivo de stress. Tudo é uma pressão social” na vida dos adolescentes.

Já a pedopsiquiatra Maria de Lurdes Candeias considera que se um adolescente está sujeito a uma pressão social resultante das redes sociais, então é natural que essa utilização “agrave uma patologia que o jovem já possa ter”. Na perspectiva da especialista, as redes sociais funcionam, assim, como factor de agravamento de uma condição já existente — embora adormecida —, mas não como raiz de um problema da ordem mental.

Não há atenção suficiente

É precisamente nas redes sociais que têm lugar algumas páginas dedicadas à divulgação de imagens e citações de carácter depressivo. De origem desconhecida, o fenómeno tem atraído milhares de jovens utilizadores em todo o mundo. São exemplos as páginas de Facebook Depression Memes 2.0, seguida por 25.323 pessoas, e a Yes, I’m sad, com mais de um milhão de seguidores.

Em Maio, a Organização Mundial de Saúde (OMS) divulgou um relatório onde apontava as cinco principais causas de morte em adolescentes entre os 15 e os 19 anos, em 2015. No estudo Acção Global Acelerada para a Saúde dos Adolescentes: Orientações para apoiar a implementação nacional, a autolesão foi apontada como a terceira causa de morte no mundo — antecedida por acidentes de viação e infecções respiratórias. Este número (67 mil mortes num ano) engloba, segundo o relatório, os suicídios e mortes acidentais resultantes de lesões auto-infligidas pelos jovens que não tinham como intenção. O mesmo estudo divulgou ainda diferenças a nível de género: a autolesão é mais frequente entre raparigas adolescentes do que entre rapazes.

Em Portugal, Diogo Telles Correia lembra os dados partilhados pelo Programa Nacional para a Saúde Mental, em 2015, que davam conta de que, nos últimos anos, se registara “um aumento do número de crianças e adolescentes que recorreram às urgências por depressão, ansiedade e tentativas de suicídio ou para-suicídio — autolesões cujo objectivo não era morrer, mas sim passar uma mensagem de sofrimento ou mágoa”.

Já Rosário Carmona, ainda que admita que há uma relação causa-efeito entre redes sociais e saúde mental dos jovens, não considera, a partir daquilo que presencia no seu consultório, que o problema esteja a crescer. “Não sinto que tenha aumentado. Mas também não quero dizer que acredito nisto porque damos maior atenção ao assunto, porque há pais que vão ler e vão achar que, efectivamente, têm prestado mais atenção, o que não é verdade. Há uma maior informação, mas ainda não há atenção suficiente ao assunto”, subinha.

Prevenção desvalorizada

Nas escolas, junto dos jovens — é onde a psicóloga Rosário Carmona diz ser necessário prevenir e exactamente onde considera que está a falhar a prevenção.

Garante que “há especialistas suficientes no país para ajudar estas crianças”, mas, nos estabelecimentos de ensino, a realidade é outra. “Ou não há psicólogos ou há poucos”, afirma.

Desde cedo que “a prevenção está muitíssimo desvalorizada”. A psicóloga é ainda da opinião que o Governo deveria prestar mais atenção ao problema da saúde mental dos jovens, pois “está confirmado que ganha mais em prevenir do que em remediar”.

Rosário Carmona também lamenta que “a maioria dos pais” chegue “demasiado tarde” ao seu consultório. Para a pedopsiquiatra Maria de Lurdes Candeias, esta é mesmo a raiz do problema. “Não há uma boa formação junto das crianças, sobre o que é certo e o que é errado. Há escolas que querem ter mão nisto, outras que não. Mas eu continuo a dizer que isto depende da formação dada em casa, pelos pais, pelos primos, pelos avós, pelos tios”, conclui.

Travar este fenómeno e as falhas que dele têm decorrido no sistema é, de acordo com Diogo Telles Correia, responder multidisciplinarmente, “incluindo psiquiatras, pediatras, clínicos gerais, psicólogos, entre outros”.

“Como em todas as áreas de saúde mental, o número de médicos e técnicos especializados na área podem não estar à altura deste acréscimo contínuo da prevalência das perturbações mentais” e da complexidade do tema, explica Telles Correia que também ressalva que o trabalho tem que começar em casa, com “pais mais atentos” a sintomas que podem estar associados a uma possível depressão ou problemas de ansiedade.

 

 

 

Página seguinte »


Entries e comentários feeds.