“O meu filho corta-se”

Junho 14, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no Público de 29 de maio de 2019.

Muitos jovens têm comportamentos de auto-mutilação. Os pais questionam o que fazer, e eu acrescento o que não fazer.

Muitos jovens têm comportamentos de auto-mutilação. Com as unhas, o x-acto, o compasso, a tesoura ou a lâmina do afia-lápis, desenham cortes no seu corpo. Cortam-se nos pulsos e nos antebraços, nas virilhas e nos tornozelos, havendo mesmo quem se corte no corpo todo, de forma quase indiscriminada. Outros jovens não se limitam a cortar-se e, com agulha e linha, cosem a pele. Inspirados pelo célebre desafio “Tokyo Ghoul”, que começou na China em Setembro de 2011, imitam a personagem Juuzou Suzuya, que costura os lábios, o pescoço e os braços para modificar o corpo.
Os pais descobrem, habitualmente, de modo acidental, ou alertados por alguém. Muitas vezes, os professores são os primeiros a dar o alerta, ou não tivesse a escola um papel privilegiado na identificação de sinais de mau estar e sofrimento das crianças e jovens.

Mas porque o fazem? Pode parecer algo muito estranho e quase paradoxal, mas a verdade é que os cortes são sentidos como um alívio, quando comparados com uma dor emocional mil vezes maior. É isto que os jovens reportam. Uma tristeza, revolta, zanga e angústia tão poderosas e intensas que, quando confrontadas com uma dor física, parecem acalmar. “O meu peito está a arder e a sangrar por dentro, e quando sangro cá fora parece que o que se passa lá dentro fica menos mau… por momentos esqueço-me de todas as coisas más que não me saem da cabeça e sinto um alívio tão grande…”, diz Maria, com 14 anos de idade. Uma jovem deprimida, vítima de maus tratos diversos.

Este comportamento auto-lesivo surge frequentemente associado a um estado depressivo, que pode manifestar-se com sinais e sintomas diversos, desde físicos, afectivos, cognitivos ou comportamentais. Muitas vezes de mãos dadas com perturbações de ansiedade e ideação suicida. De uma forma geral, estes jovens apresentam uma visão profundamente negativa de si próprios, do mundo e do futuro.

Vêem-se a si mesmos como não tendo valor, como sendo inadequados, indesejáveis e incapazes, atribuindo as suas experiências negativas a defeitos psicológicos, morais ou físicos.

Vêem o mundo como insustentável, apresentando obstáculos insuperáveis e resultando continuamente em falha ou perda.

Vêem o futuro sem esperança, pois acreditam que os esforços que despendem serão sempre insuficientes para modificar o curso da sua vida, percepcionando-a como um prolongamento indefinido do seu sofrimento e frustração.

Porque é que isto acontece? Pois, não existe uma resposta simples. Sabemos que existem situações de maior risco, especialmente nos adolescentes, como sejam a baixa auto-estima, sentimentos de culpa, perdas precoces, dinâmica familiar disfuncional ou a exposição prolongada a situações de stress. Também as situações de maus tratos, físicos ou emocionais, a negligência e o abuso sexual são factores de risco acrescido.

Os pais questionam o que fazer, e eu acrescento o que não fazer.

Os pais devem estar atentos, pois outros sinais e sintomas, mais subtis e nem sempre valorizados, precedem a auto-mutilação. Seja a tristeza, a raiva ou a ansiedade, a maior irritabilidade, a apatia ou o isolamento. Ainda, as dificuldades de atenção e concentração (com impacto no rendimento escolar), o comportamento agressivo ou as alterações no sono ou alimentação. Sinais de alerta aos quais os pais (e outros adultos próximos) devem prestar especial atenção. Ao mesmo tempo, desconfiar quando o jovem usa roupas compridas e que tapam o corpo em dias quentes. Recusa vestir algo que mostra os braços ou as pernas? Usa casaco e capuz em dias de verão? Cobre os pulsos com numerosas pulseiras que nunca tira? Pode não ser nada. Ou pode ser.

O que não fazer? Gritar, ralhar, ameaçar, culpabilizar. Ao invés disso, escutar. Mostrar disponibilidade para ajudar e pedir ajuda especializada. Os comportamentos de auto-mutilação não são uma fase, uma mania ou uma mera tentativa de chamar a atenção. São um sinal de alerta vermelho.

 

Psicóloga especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, Psicoterapia e Psicologia da Justiça; docente e investigadora no ISCTE-IUL

 

Nuno Lobo Antunes: “Dizer que hiperatividade resulta de má educação é um insulto terrível aos pais”

Maio 19, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Carlos Manuel Martins

Entrevista do DN LIFE a Nuno Lobo Antunes no dia 7 de maio de 2019.

Sentidos, o livro lançado no fim do ano passado e que escreveu em colaboração com a equipa do PIN – Progresso Infantil, que coordena, tem 640 páginas e pretende responder às dúvidas de pais, técnicos e professores sobre perturbações do desenvolvimento e comportamento de crianças e adolescentes. O guião da entrevista tinha a pretensão de cobrir quase todas, mas o tempo não estica e Nuno Lobo Antunes não gosta de atrasos. Uma família e uma criança esperavam-no. São eles que importam. É sobre eles esta entrevista, é sobre eles o livro e é por causa deles que o médico de 65 anos e uma vasta experiência, nacional e internacional, não hesita em ir contra correntes.

Entrevista de Catarina Pires | Fotografia de Carlos Manuel Martins/Global Imagens

Amor e uma infância feliz é o melhor que podemos dar aos nossos filhos, disse uma vez. Não é tão fácil como parece, pois não?

Dar amor é fácil, já uma infância feliz não depende inteiramente dos pais. Essa história tem que ver com uma mãe que conheci, a quem tudo tinha corrido mal. O filho tinha uma doença horrível e tudo à volta dela desabava e ela mantinha um sorriso de uma serenidade extraordinária. Um dia perguntei-lhe como era possível manter aquela serenidade e ela respondeu: «porque tive uma infância feliz». Aquilo teve um enorme impacto em mim, pensar nesse porto de abrigo, nesse tempo, nessas memórias, aonde, à medida que a vida caminha, podemos sempre retornar.

A nossa obrigação como pais é procurar que os nossos filhos tenham uma infância feliz até porque, passada a infância, a felicidade deles depende cada vez menos de nós. Uma palavra de um amigo ou colega pode ser catastrófica e a palavra do pai ou da mãe passa a ter progressivamente menos relevância. Não interessa nada eu dizer que a minha filha é linda se a rapariga mais popular da turma diz que ela é feia.

Mas se nos primeiros anos de vida elogiar os seus feitos e conquistas estará a contribuir para a consolidação de uma autoestima e segurança difíceis de abalar mais tarde, até pela rapariga mais popular da escola, não é?

Exato.

Até que idade está a autoestima em construção?

Até ao fim da adolescência, sobretudo nas raparigas. Eu penso que, em geral, os rapazes vão de menos a mais [confiança] e as raparigas vão de mais a menos, ou seja, nelas, à medida que vão progredindo na adolescência, a fragilidade, a vulnerabilidade e a insegurança relativamente ao corpo vão aumentando. Depois as coisas mudam, mas entre o início da puberdade e a idade adulta, há uma grande vulnerabilidade, em especial nas raparigas.

Há diferença entre rapazes e raparigas no que diz respeito a perturbações do desenvolvimento e comportamento?

Há diferenças sensíveis, não só na incidência, maior nos rapazes, mas também na forma como algumas dessas perturbações se manifestam. Por exemplo, nas perturbações do espetro do autismo, creio que não serão diagnosticadas mais raparigas porque um certo isolamento é considerado até ajustado ao temperamento feminino.

Por outro lado, as dificuldades de interação nelas surgem bastante mais camufladas do que neles porque elas são melhores imitadoras, pedem emprestados estereótipos verbais, por exemplo, bué, tipo, a cena, palavras que nada significam, mas que de alguma maneira são identificadoras do grupo e da idade e levam a que as suas dificuldades de interação e até um menor vocabulário e léxico emocional passem despercebidos. Os rapazes, pelo contrário, tendem a utilizar uma linguagem mais sofisticada, mais pedante que soa esquisita entre os pares.

O autismo é por vezes “romantizado”, tanto na ficção, em séries e filmes, como na vida real, por exemplo com a história da jovem ativista Greta Thunberg. Isto é positiva ou contraproducente para as famílias que têm um filho com uma perturbação deste tipo?

Sim, as perturbações do espetro do autismo são muito cinematográficas, inspiram filmes e séries, como o The Good Doctor, por exemplo, mas essas são as exceções. A maior parte dos miúdos com perturbações do espetro do autismo não tem competências excecionais, muitos têm uma inteligência média ou abaixo da média, muitos não têm nenhuma competência extraordinária, têm é dificuldades.

Mas o pai do João, que tem síndrome de Asperger, não olha para o síndrome de Asperger no quotidiano, olha para o João, olha para o filho, o diagnóstico é um instrumento que lhe permite compreender algumas atitudes e comportamentos fora do comum e ter uma resposta mais ajustada, mas o João não deixa de ter um nome próprio para passar a ser um diagnóstico.

Quando se fala de um grande aumento de perturbações como o autismo ou a hiperatividade e o défice de atenção, que têm hoje um caráter de quase epidemia, isso deve-se a uma maior atenção às crianças, que leva a mais diagnósticos, ou será a sociedade atual, a forma como se organiza e outros fatores a isto associados que estão na base de um aumento destas perturbações?

Não temos a certeza absoluta, mas eu diria que será mais resultado de uma melhor deteção do que verdadeiramente de uma maior incidência. Dito isto, é difícil ter a certeza absoluta de que não existem fatores ambientais, mas se existem, não descobrimos ainda quais são. Por isso, diria que a fatia maior deve-se seguramente a uma maior atenção.

No caso da hiperatividade e défice de atenção, a medicação com ritalina está no centro da discussão. Muitos, entre os quais alguns médicos, afirmam que existe uma sobreprescrição. Porquê tanta polémica?

Não acho que exista qualquer discussão à volta da ritalina. Do ponto de vista científico, todos os estudos feitos com metodologias sérias chegaram à conclusão que para o tratamento da perturbação da hiperatividade e défice de atenção não existe nada tão eficaz como a medicação. Não existe, pois, qualquer polémica. A não ser talvez do tipo rede social.

Nenhum médico que trata esta condição tem qualquer dúvida quanto ao que afirmei. Qualquer consulta de PHDA, de norte a sul do país, está de acordo: é de longe a intervenção mais eficaz. Quanto a isso há zero dúvidas.

Portanto, todas essas vozes que se levantam contra a medicação são vozes de burro. São sobretudo vozes de quem não passou por isso e o mais injusto é que as outras vozes estão silenciadas, porque quem tem a experiência da medicação, quem tem miúdos medicados, está calado porque não quer identificar os miúdos, tem medo da exclusão, tem medo do dedo que aponta. As vozes dos milhares e milhares de famílias das crianças que beneficiam da medicação não se ouvem.

Há quem defenda também que há um sobrediagnóstico de PHDA e que a falta de regras, a falta de tempo dos pais ou mesmo a desadequação da escola poderão estar na origem de comportamentos que podem confundir-se com esta perturbação. Há até quem afirme que esta não existe e é uma invenção da indústria farmacêutica.

Bom, quanto à não existência do problema, só pode afirmar isso quem nunca teve um filho com um problema destes e ainda bem porque quem tem sente na pele o impacto da perturbação.

Quanto a ser resultado da falta de regras ou disciplina, às vezes em conferências perguntavam-me como é que eu sabia se uma criança era mal criada ou hiperativa, e eu durante algum tempo lutei com esta questão até chegar a uma resposta que é esta, verdadeiramente simples: uma criança mal criada não vai ao médico.

Só vão ao médico os que já tentaram tudo para ajudar a criança, já tentaram ser severos, já tentaram ser indulgentes, já tentaram ser assim às vezes e assado outras vezes, já deram tempo ao tempo, esperaram que se fizesse o clique, ouviram os conselhos da família, ouviram os conselhos do professor e em geral passam-se meses ou anos até que tomem a decisão de ir ao médico.

Até que ponto é negativo que algumas perturbações sejam tidas como falta de educação?

Dizer que a hiperatividade e défice de atenção é resultado de má educação é um insulto horrível a quem sofre e sofreu durante anos com uma criança que tem uma dificuldade que os pais não conseguem resolver. Não calcula a indignação que esse tipo de afirmações me provoca… porque eu vivo com as famílias e com o seu sofrimento.

Uma das histórias que conta no livro Sentidos, e me impressionou, é a de uma mãe e um pai que diziam que não se divorciavam porque nenhum deles queria ficar sozinho com o filho hiperativo. A PHDA é muito pesada para uma família a PHDA?

Sim, é muito pesado. Depende, obviamente, do grau, mas o número de divórcios aumenta de forma considerável. O facto de ser uma perturbação de cariz genético e por isso muitas vezes os próprios pais são pessoas poucos estáveis do ponto de vista emocional, também concorre para isso, mas é uma realidade que muitas famílias ficam prisioneiras: não podem ir a um café, não podem ir a uma festa, ninguém quer ficar com a criança, e isso tem um impacto terrível na vida das pessoas.

Se cada um de nós se interrogasse e perguntasse: com que facilidade daria eu ritalina ao meu filho? Todos diríamos que só em circunstâncias muito especiais. Ora bem, os outros pais, todos os pais que dão ritalina aos seus filhos, são pessoas iguais a nós. É de uma extraordinária arrogância pensarmos que somos melhores do que eles. Não somos. Eles estão é em situações mais difíceis. Portanto, provoca-me uma certa indignação e revolta todos os livros e psicólogos e pediatras que vejo a apontarem o dedo aos pais. Não sabem do que estão a falar.

É incutida muita culpa aos pais: porque não estão tempo suficiente, porque não educam como deve ser, porque não criam regras, porque criam regras a mais?

Eu acho que sim e estou em completo desacordo com isso. Acho que cada um de nós faz o melhor que pode e sabe. Somos muito melhores pais e mães do que os nossos antecessores e dedicamos muito mais tempo e atenção aos nossos filhos.

Um divórcio é sempre mau ou pode, pelo contrário, salvar uma infância?

Um divórcio é sempre mau, mas pode ser a menos má das soluções. Aqui não há regras e o médico tem pouco que ver com isso a não ser que o casal peça ajuda para terapia familiar, mediação ou aconselhamento.

Não tenho muito que dizer a esse respeito, visto que fui divorciado. Por vezes, as pessoas encontram-se em becos sem saída e essa é a melhor das soluções. Há imensos fatores que entram em linha de conta e é preciso perceber que os adultos também têm que viver a sua vida. Não se pode pensar só em termos do que é melhor para as crianças, tem que se pensar também no que é melhor para os adultos e geri-lo de forma a que seja o melhor para as crianças, acautelando o seu bem estar.

Em 40 anos de experiência como médico, o que mudou nas crianças e nas famílias portuguesas?

Mudou o que mudou na sociedade. Eu vou fazer 65 anos, tinha 20 anos quando se deu o 25 de abril, e a minha infância foi vivida numa família burguesa, grandemente privilegiada. Creio que as pessoas não têm a noção exata de que atualmente o cuidado que temos com as crianças é incrivelmente superior e melhor do que era há 40 anos. Eu acho que somos cada vez melhores pais, as crianças têm cada vez melhores condições e a igualdade de oportunidades, embora ainda não seja nem de longe nem de perto idêntica para todos, teve uma enorme evolução. Portanto, quando oiço muitas vezes pediatras e psicólogos famosos denunciarem a falta de tempo dos pais para as crianças, a vida de stress que as pessoas levam, acho completamente irreal se pensarmos no que é, e foi, o país globalmente.

Há muita gente que já esqueceu os homens e mulheres que nunca foram meninos e meninas.

Há 40 anos não havia adolescência, as crianças passavam diretamente da infância para a idade adulta, não era de todo raro famílias de 14, 15 crianças, e verdadeiramente não tinham infância, começavam a trabalhar cedíssimo, as raparigas tomavam conta dos mais novos, os rapazes iam trabalhar logo que podiam para contribuir para a economia doméstica.

Também não havia tecnologia que ajudasse às tarefas domésticas, nem dinheiro, nem educação…. a educação era feita à pancada. A violência sobre as mulheres hoje é chocante, mas não tem nada que ver com a que existia há 40 anos… as pessoas não têm noção do caminho que foi feito. Não quer dizer que não existam muitíssimas coisas por fazer ou que esteja tudo bem ou perfeito, mas é preciso ter consciência do caminho percorrido.

Se calhar, só é possível olhar para o tempo e a história em retrospetiva e não quando estamos a vivê-lo. Quais foram as grandes mudanças?

Por exemplo, a ideia de ter atividades extracurriculares, dança, música, desporto, a quantidade de miúdos que sabem nadar hoje, é praticamente universal… Até uma coisa tão simples como o acesso a férias de verão, quem é que tinha isso? As pessoas não têm noção. A preocupação que os pais têm hoje de passar o fim de semana com os filhos, nem que seja o domingo, brincar com eles, ir passear, isso é novo, é novíssimo. E tem sobretudo que ver com a melhoria considerável das condições de vida e o aumento da cultura, os pais são mais instruídos do que eram antes.

Os próprios temas a que me dedico – a hiperatividade, o défice de atenção, a dislexia – eram praticamente inexistentes, ou desconhecidos, há 30 ou 40 anos. Não dava para a escola, não dava para a escola, saltava fora. Há uns tempos, fui a Moçambique falar sobre estas questões e um jornalista moçambicano perguntou de que servia falar daquilo quando havia tanto por resolver e eu lá dei a volta ai texto, mas é evidente que muitas destas questões são preocupação de nação desenvolvida, que já resolveu as suas questões de base, de saúde, alimentação, de um teto para dormir.

Entrei para medicina com uma média miserável de 11,7 e costumo dizer que hoje não daria nem para ministro, mas porquê? Porque não havia numerus clausus, porque eram pouquíssimos aqueles cujos pais tinham dinheiro para eles entrarem na faculdade. Eu, filho da burguesia, tinha o meu caminho completamente livre para o curso superior, para aquilo que a minha mãe chamava de uma enxada. Hoje, as minhas filhas competem por igual com todas as outras adolescentes da idade delas e têm que provar que são tão boas ou melhores, caso contrário acabou-se.

Claro que o privilégio de se nascer numa família culturalmente evoluída continua a ser uma vantagem evidente, mas apesar de tudo passou a haver um equilíbrio de oportunidades que antigamente não existia. Quem tem hoje vinte ou trinta anos não tem consciência do caminho que foi feito e eu acho que é importante ter essa perspetiva. Não que iniba de fazer mais e melhor, mas que permita um certo orgulho do que foi a evolução da sociedade portuguesa.

«Todos os meus doentes têm o meu telefone e o meu e-mail»

Uma das questões abordadas no livro Sentidos é a da relação do médico com as famílias e de como deve ser gerida a transmissão de diagnósticos complicados. Como dizer a uns pais que o filho que idealizaram tem um problema? Como é que isso se gere?

Acho que não há maneiras boas de dizer coisas más, mas há maneiras melhores do que outras. Eu tenho fama de ser eventualmente demasiado duro no contacto com as pessoas, o que não deixa de me espantar um bocadinho, porque não corresponde de todo à imagem que tenho de mim mesmo, mas a questão é esta, e às vezes é mal compreendida: eu tenho um treino oncológico feito nos Estados Unidos, e esse treino oncológico de alguma forma moldou-me na verdade. Para mim prende-se com o respeito pela pessoa.

Nessa altura, trabalhava com crianças com cancro?

Sim e se alguém me perguntasse quanto tempo tinha de vida, eu diria o tempo provável, não torneava a questão, não me afastava dela, não dizia números que não fossem verdadeiros. Portanto, se acho que uma criança tem uma perturbação do espetro do autismo, digo: «eu acho que o seu filho tem uma perturbação do espetro do autismo». Não digo: «vamos ver, vamos esperar, ainda é muito cedo», não uso subterfúgios, que aparentemente é a atitude bondosa, mas que, por um lado, é uma atitude insuportavelmente paternalista do meu ponto de vista, e por outro não respeita nem a dignidade nem a inteligência de quem nos pede ajuda. E sobretudo não protege a criança, que vê adiados todos os cuidados que devia ter. Mas pago um preço por isto.

Se digo a alguém que o filho tem uma perturbação do espetro do autismo e depois os pais vão a outro lado, onde lhes é dito que não tem coisa nenhuma e que eu não sei do que estou a falar, evidentemente arrisco a que vão para as redes sociais dizer que, além de incompetente, tenho um conjunto de outros defeitos. É um risco que corro.

E qual é o preço que paga uma família que não aceita o diagnóstico?

O de ver adiado o tratamento. Mas eu sou antes de tudo advogado da criança, essa é que precisa de ser defendida. As pessoas pagam para ouvir o que penso, pagam a minha experiência, o meu treino, e não faz sentido que levem gato por lebre, que eu diga uma coisa diferente daquilo que penso, por muito duro que seja.

O acompanhamento a pais e irmãos de crianças com perturbações de desenvolvimento e comportamento é fundamental para o tratamento, não é?

Claro e nós no PIN – Progresso Infantil fazemos isso. Temos uma equipa multidisciplinar que acompanha não só as crianças como as famílias. A equipa do PIN é um conjunto de gente bem formada, quer do ponto de vista técnico quer do ponto de vista humano.

Há uma coisa que eu faço questão: todos os meus doentes têm o meu telefone e o meu e-mail e mesmo de férias não deixo de responder. É preferível dar uma má notícia e dizer “sempre que precisar de mim, estou aqui” do que estar com falinhas mansas e desaparecer da vista quando a criança ou a família precisam de ajuda, que é o que algumas vezes acontece.

O PIN é privado, nem todos têm acesso. A resposta pública portuguesa na área da saúde mental infantil é satisfatória?

Acho que é variável. Não podemos generalizar, haverá sítios onde é ótima e outros onde é péssima. Mas há um problema de base que é: eu tenho uma hora para uma primeira consulta, os médicos do serviço nacional de saúde não têm uma hora. O tempo para ouvir e para cuidar necessariamente não é o mesmo porque eles têm listas de espera infindas e estão muito limitados, trabalham em condições muito mais difíceis do que aquelas em que eu trabalho.

O PIN dá consultas online, para dar resposta a outras regiões do país. Quais os resultados dessa experiência?

Tem tido um sucesso imenso. Neste momento, temos acima de três centenas de crianças acompanhadas regularmente, espalhadas por todo o país e no mundo inteiro. Mas apesar de tudo são pessoas que têm dinheiro para pagar a mensalidade, têm computador, têm câmara, têm internet.

Portanto, permite que pessoas que vivem em Trás-os-Montes tenham acesso a cuidados de extrema qualidade, mas são pessoas que têm algum suporte económico e cultural e não é para todos os miúdos – têm que ter uma idade suficiente para ficarem uma hora ligados ao computador sem se levantarem dali. É algo que fez uma enorme diferença, a experiência tem sido fantástica, mas não é resposta para tudo nem para todos.

É muito crítico das terapias alternativas. Não admite vantagens de algumas delas como complemento à medicina tradicional?

É preciso separar um pouco as águas. Eu sou ferozmente contra coisas como a homeopatia, o reiki e esse tipo de patranhas. Em relação ao mindfulness, por exemplo, tenho sérias reservas quanto à evidência científica da sua utilidade, mas essa minha reserva não é partilhada por alguns dos meus colaboradores que utilizam a técnica e a acham útil.

Eu sou líder da equipa, mas não sou um ditador, daí que tenha dado espaço para que a técnica seja abordada no livro por quem tem experiência dela e nela acredita. O livro resulta de um trabalho coletivo da equipa do PIN e a minha função é dar esse espaço de liberdade às pessoas que trabalham comigo, que têm direito a pensar de forma diferente da minha, são mesmo incitadas a pensar de forma diferente.

Entre as perturbações do desenvolvimento e comportamento, quais são as que representam um maior desafio para as famílias?

Cada uma tem as suas implicações e tudo depende da intensidade de cada uma delas. Há perturbações do espetro do autismo que são gravíssimas e destruidoras de tudo quanto está à sua volta e tornam a vida num inferno como as há ligeiras e com muito menos impacto.

O que eu acho é que ainda não foi feito o caminho para compreender o comportamento humano, sobretudo aquele que tem aspetos atípicos que levam as pessoas a procurar ajuda. Penso que estamos a fazer um caminho de uma maior compreensão e integração do pensamento sobre estes miúdos, mas existe uma simplificação excessiva na categorização diagnóstica. Essa simplificação é necessária por um conjunto de razões – estatísticas, demográficas, científicas, económicas, burocráticas – que levam a essa compartimentalização, mas perante o caso individual, temos que pensar nos múltiplos fatores e interações que existem em cada criança.

É excecional fazer um diagnóstico de uma perturbação absolutamente pura sem outros fatores a influenciarem, mas para pensar desta maneira é preciso pensar, é preciso tempo e é preciso coragem de pensar diferente daquilo que parece ser o conhecimento instituído e é isso que nós aqui tentamos fazer. Podemos fazer uma medicina de altíssimo nível, não devemos nada a ninguém.

Sentidos tem como subtítulo o grande livro das perturbações do desenvolvimento e comportamento. Pretende ser uma espécie de bíblia nesta área, em que há tanta informação contraditória?

Eu diria que sim, embora exista uma diferença grande: é que ninguém vai reescrever a Bíblia, enquanto em relação a um livro deste tipo se calhar daqui a quatro anos vai ter que ser reescrito porque entretanto houve coisas que mudaram, o pensamento alterou-se, fizeram-se novas descobertas. Mas sim, pretende ser a bíblia do momento.

 

 

São cadas vez mais novas as crianças cuja felicidade depende do número de “gostos” nas redes sociais

Janeiro 5, 2018 às 2:30 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da http://visao.sapo.pt/ de 4 de janeiro de 2017.

Cátia Leitão

Novo estudo realizado no Reino Unido sugere que as crianças entre os 8 e os 12 anos estão a tornar-se viciadas nas redes sociais e que os ‘gostos’ no Facebook e Instagram funcionam como uma validação social para elas

Entre outubro e novembro, Anne Longfield, comissária das crianças em Inglaterra, desenvolveu uma pesquisa com o objetivo de perceber o impacto que as redes sociais têm atualmente no bem-estar de uma criança entre os 8 e os 12 anos, especialmente no que diz respeito à autoestima. Esta investigação analisou 8 grupos com 32 crianças e concluíu que apesar da idade mínima para um indivíduo se registar numa rede social ser de 13 anos, há um número cada vez maior de crianças com menos de 12 anos que já têm uma conta própria e que procuram aprovação social através dos ‘gostos’.

Esta investigação foi realizada com base em entrevistas feitas às crianças. Para que estas se sentissem à vontade e mais disponíveis para responder às perguntas colocadas, os investigadores juntaram todas as crianças em pares com alguém que estas já conhecessem, como por exemplo um amigo ou colega de escola. Mas antes disso, tanto as crianças como os respetivos pais teriam de completar um conjunto de tarefas para que os autores ficassem a saber mais sobre o estilo de vida, comportamento e relação de cada família com as redes sociais.

Os investigadores chegaram à conclusão que existiam vantagens e desvantagens no uso das redes sociais por parte das crianças. Por um lado, “percebeu-se que as redes sociais têm um efeito positivo no bem-estar das crianças e permite-lhes fazer coisas que elas gostam como de se manter em contacto com os amigos e estar ocupado”, segundo o estudo. Mas, por outro lado, “tem um efeito negativo porque leva as crianças a preocuparem-se com coisas sobre as quais não têm qualquer controlo” como explica Anne Longfield ao dizer que “as redes sociais providenciam grandes benefícios, no entanto, também expõem as crianças a riscos emocionais muito significantes”.

3 em cada 4 crianças com menos de 12 anos tem uma conta própria numa rede social apesar de a idade mínima de registo seja de 13 anos. O estudo descobriu também que as redes sociais mais utilizadas por esta faixa etária são o Snapchat, Instagram e Whatsapp. As crianças entre os 8 e os 10 anos ainda estão a descobrir como funcionam as redes sociais e por isso mesmo ainda não desenvolveram o hábito de verificar estas aplicações frequentemente. Nestas idades, os mais novos ainda acedem à internet a partir dos dispositivos móveis e das contas dos pais e admitem ter um tempo limite para usar as mesmas. Mas, os mais pequenos revelam que usam a internet para jogar com os amigos, explorar as surpresas das redes sociais – como os filtros – e ver vídeos para descobrir coisas para fazer.

Na faixa etária entre os 10 e os 12 anos o caso muda completamente de figura. Nestas idades as crianças já têm mais noção de como usar as redes sociais e começam a fazê-lo a partir dos seus próprios dispositivos móveis. Enquanto os mais novos apenas usam a internet depois da escola, neste grupo as crianças passam a usá-la quando querem mesmo durante o período escolar. É nesta idade que começam a sentir pressão social para usar as redes sociais com o objetivo de se tornarem populares e passam a dar mais importância aos ‘gostos’ e à aprovação social que estes trazem.

A comissária Longfield avisa os pais que “lá porque as crianças aprenderam algumas coisas sobre segurança na escola primária não significa que estejam preparadas para os desafios que as redes sociais apresentam” e acrescenta ainda que as escolas têm de se “certificar que as crianças estão preparadas para as exigências emocionais das redes sociais. O que significa que as companhias das redes sociais também têm de assumir uma maior responsabilidade”. Anne Longfield acredita que se os pais, as escolas e as companhias não tomarem medidas, existe um grande risco de “deixar crescer uma geração de crianças que persegue ‘gostos’ para se sentir feliz e apenas se preocupa com a aparência e imagem devido ao estilo de vida irrealista que vê nas plataformas como o Instagram e Snapchat”. Além disso Anne alerta ainda que isto tudo pode aumentar significativamente os estados de ansiedade nas crianças caso estas não consigam responder às exigências das redes.

O estudo inclui ainda frases das crianças inquiridas com o objetivo de alertar os pais para os pensamentos dos filhos. Harry tem 11 anos e diz que “se não usarmos coisas caras e de designer as pessoas gozam” mas “quando chegamos aos 50 ‘gostos’ começamos a sentir-nos bem porque isso significa que as pessoas acham que ficámos bem naquela fotografia”. Bridie, também com 11 anos, admite que usa as redes sociais cerca de 18 horas por dia e acrescenta ainda que “vi uma rapariga muito bonita e quero tudo o que ela tem, quem me dera ser como ela. Quero as coisas dela, a casa dela e a maquilhagem da MAC que ela tem. Vê-la faz me sentir aconchegada”.

As redes sociais fazem com que as crianças criem uma ideia de um mundo irreal onde podem ter tudo aquilo que desejam. Para chegar a esse ponto, acreditam que têm de ser aceites no mundo social da internet e que os ‘gostos’ são o meio para ter a validação que tanto procuram. Para evitar este tipo de ilusões nas crianças, a investigação sugere algumas medidas para os pais como falar com as crianças sobre os aspetos positivos e negativos das redes sociais e fazê-las entender as diferenças entre a aparência e a realidade para tentar combater a pressão que as crianças colocam nelas próprias.

Esta pesquisa integra o relatório “Life in Likes” publicado hoje por Anne Longfield, comissária das crianças de Inglaterra – um cargo independente do Governo com o objetivo de ajudar a melhorar a vida das crianças a longo prazo, principalmente das mais vulneráveis.

 

 

A geração “floco de neve”: pessoas sensíveis que se ofendem por tudo

Dezembro 8, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto da http://www.revistapazes.com/ de 7 de novembro de 2017.

Quando imaginamos um floco de neve, nós o associamos à beleza e singularidade, mas também à sua enorme vulnerabilidade e fragilidade. Estas são precisamente duas das características que definem as pessoas que atingiram a idade adulta na década de 2010. Afirma-se que a geração “floco de neve” seja formada por pessoas extremamente sensíveis aos pontos de vista que desafiam sua visão do mundo e que respondem com uma suscetibilidade excessiva às menores queixas, com pouca resiliência.

A voz de alarme, por assim dizer, foi dada por alguns professores de universidades como Yale, Oxford e Cambridge, que notaram que a nova geração de alunos que frequentavam suas aulas era particularmente suscetível, não tolerante à frustração e particularmente inclinados fazerem uma tempestade em um copo de água.

Cada geração reflete a sociedade que eles viveram

Dizem que as crianças saem mais ao padrão da sua geração que aos pais. Não há dúvida de que, para entender a personalidade e o comportamento de alguém, é impossível abstrair do relacionamento que estabeleceu com seus pais durante a infância e a adolescência, mas também é verdade que os padrões e expectativas sociais também desempenham um papel importante no estilo educacional e moldam algumas características de personalidade. Em resumo, podemos dizer que a sociedade é a terra onde a semente é plantada e crescida e os pais são os jardineiros que são responsáveis por fazer crescer.

Isso não significa que todas as pessoas de uma geração respondam ao mesmo padrão, felizmente há sempre diferenças individuais. No entanto, não se pode negar que as diferentes gerações têm metas, sonhos e formas de comportamento característico que são o resultado das circunstâncias que tiveram que viver e, em alguns casos, tornam-se inimagináveis em outras gerações.
Claro, o mais importante é não colocar rótulos, mas analisemos para entender o que está na base desse fenômeno, para não repetir os erros e para que possamos dar a devida importância a habidades de vida tão importantes quanto a Inteligência Emocional e a resiliência.

3 erros educacionais colossais que criaram a geração “floco de neve”

  1. Sobreprotecção. A extrema vulnerabilidade e escassa resiliência desta geração têm suas origens na educação. Estes são, geralmente, crianças que foram criadas por pais superprotetores, dispostos a pavimentar o caminho e resolver o menor problema. Como resultado, essas crianças não teve a oportunidade de enfrentar as dificuldades e conflitos do mundo real e desenvolver tolerância à frustração, ou resiliência. Não devemos esquecer que uma dose de proteção é necessária para que as crianças cresçam em um ambiente seguro, mas quando impede que explorem o mundo e limite seu potencial, essa proteção se torna prejudicial.
  2. Sentido exagerado de “eu”. Outra característica que define a educação recebida pelas pessoas da geração “floco de neve” é que seus pais os fizeram sentir muito especiais e únicos. Claro, somos todos únicos, e não é ruim estar ciente disso, mas também devemos lembrar que essa singularidade não nos dá direitos especiais sobre os outros, já que somos todos tão únicos quanto os outros. O sentido exagerado de “eu” pode dar origem ao egocentrismo e à crença de que não é necessário tentar muito, uma vez que, afinal, somos especiais e garantimos o sucesso. Quando percebemos que este não é o caso e que temos que trabalhar muito para conseguir o que queremos, perdemos os pontos de referência que nos guiaram até esse momento. Então começamos a ver o mundo hostil e ameaçador, assumindo uma atitude de vitimização.
  3. Insegurança e catástrofe. Uma das características mais distintivas da geração do floco de neve é que eles exigem a criação de “espaços seguros”. No entanto, é curioso que essas pessoas tenham crescido em um ambiente social particularmente estável e seguro, em comparação com seus pais e avós, mas em vez de se sentir confiante e confiante, temem. Esse medo é causado pela falta de habilidades para enfrentar o mundo, pela educação excessivamente superprotetiva que receberam e que os ensinou a ver possíveis abusos em qualquer ação e a superestimar eventos negativos transformando-os em catástrofes. Isso os leva a desejarem se bloquear em uma bolha de vidro, para criar uma zona de conforto limitado onde eles se sintam seguros.

Para entender melhor como a educação recebida afeta uma criança, é importante ter em mente que as crianças procuram pontos de referência em adultos para processar muitas das experiências que experimentam. Isso significa que uma cultura paranóica, que vê abusos e traumas por trás de qualquer ato e responde com sobreproteção, gerará efetivamente crianças traumatizadas. A forma como os adultos enfrentam uma situação particularmente delicada para a criança, como um caso de abuso escolar, pode fazer a diferença, levando a uma criança que consegue superar e se torna resiliente ou uma criança que fica com medo e torna-se uma criança vítima

Qual é o resultado?

O resultado de um estilo de parentesco superprotetivo, que vê o perigo em todos os lugares e promove um sentido exagerado de “eu”, são pessoas que não possuem as habilidades necessárias para enfrentar o mundo real.

Essas pessoas não desenvolveram tolerância suficiente à frustração, então o menor obstáculo os desencoraja. Nem desenvolveu uma Inteligência emocional adequada, então eles não sabem como lidar com as emoções negativas que certas situações suscitam.

Como resultado, eles se tornam mais rígidos, se sentem ofendidos por diferentes opiniões e preferem criar “espaços seguros”, onde tudo coincide com suas expectativas. Essas pessoas são hipersensíveis à crítica e, em geral, a todas as coisas que não se encaixam na visão do mundo.

Também são mais propensos a adotar o papel das vítimas, considerando que estão todos contra ou equivocados. Desta forma, eles desenvolvem um local de controle externo, colocando a responsabilidade sobre os outros, em vez de se encarregar de suas vidas e mudar o que podem mudar.

O resultado também é que essas pessoas são muito mais vulneráveis ao desenvolvimento de transtornos psicológicos, do estresse pós-traumático à ansiedade e à depressão. Na verdade, não é estranho que o número de transtornos de humor aumente ano após ano.

Fonte:
Mistler, BJ et. Al. (2012) The Association for University and College Counseling Center Directors Annual Survey Reporting. Pesquisa do AUCCCD ; 1-188

Este artigo foi publicado originariamente no site Rincón Psicología e fora livremente adaptado pela equipe da Revista Pazes.

Créditos da foto de capa: Andrew Robles
@andrewroblesphoto/unsplash.com

 

 

 

Seminário: Publicidade, Imagem Corporal e Auto-Estima em Crianças e Adolescentes – 14 outubro em Lisboa

Outubro 9, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Inscrições até 13 de outubro no link:

https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLScsTfGjPCAds65Bw6rAX54Tfw4Da9OxH1hhkbQLDA0YGfvpUA/viewform

A adolescência pode ser um fardo impossível de suportar

Abril 11, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social, Vídeos | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 30 de março de 2017.

Clay (Dylan Minnette) ouve a história dos últimos meses de vida de Hanna Beth Dubber /Netflix

Por Treze Razões estreia-se esta sexta-feira na Netflix. Parte do best-seller homónimo de Jay Asher para falar de temas como cyberbullying, abuso sexual e suicídio juvenil.

Maria João Monteiro

Quando Clay chega a casa depois de mais um dia de escola, tem uma misteriosa caixa à sua espera. Lá dentro encontram-se sete cassetes com 13 mensagens gravadas por Hannah, a sua colega de turma que se suicidou duas semanas antes e por quem sentia um carinho especial. A missão de Hannah é simples – dirigir-se a cada uma das 13 pessoas que tiveram um papel, maior ou menor, na sua decisão de pôr fim à vida e explicar o impacto das suas acções aparentemente inofensivas naquele desfecho trágico. Por Treze Razões é a nova série da Netflix e baseia-se no best-seller homónimo de Jay Asher lançado em 2008 (em Portugal foi editado pela Presença). “Este livro é incrivelmente trágico e sombrio em muitos aspectos, mas, em última instância, é uma história que fala de esperança”, disse Brian Yorkey, criador da série, citado pelo The Hollywood Reporter.

Ao longo de 13 episódios contados por Clay e Hannah, numa narrativa dual que flutua entre o presente e o passado, somos convidados a percorrer as memórias da protagonista relacionadas com cada uma das pessoas envolvidas nas circunstâncias da sua morte – quer as que a afectaram directamente, quer as que poderiam ter tido uma maior intervenção a seu favor – e com os lugares onde esses acontecimentos decorreram. A ideia é que as cassetes sejam ouvidas por todos os nomes que constam da lista deixada por Hannah. “Estou prestes a contar-vos a história da minha vida – mais especificamente, por que é que a minha vida acabou. Se estás a ouvir esta gravação, és uma das razões”, diz Hannah no trailer de apresentação da série. Clay só tem memória de ter tratado bem a colega de turma, mas quando carrega no play percebe que essa impressão pode não corresponder à verdade.

Por Treze Razões retrata a pressão social da adolescência e contextualiza o cyberbullying, a depressão, o abuso físico e psicológico, o suicídio. Paralelamente, aponta a passividade individual e de grupo – de pais e funcionários da escola – que protege muitas vezes os agressores de sofrerem as consequências das suas acções e empurra as vítimas para um estado de desespero sem retorno. “Lembro-me de que depois de filmar vi uma notícia sobre uma rapariga que se matou”, disse Katherine Langford, que interpreta a protagonista, citada pelo New York Daily News. “Foi um lembrete horrível de que o que tínhamos filmado é real e acontece com adolescentes em todo o lado.”

À medida que a história avança pelos últimos meses da vida da protagonista, é possível perceber que a situação de Hannah, embora levada ao extremo, não é única. Problemas como o bullying e a baixa auto-estima estendem-se a grande parte da sua comunidade escolar e, nomeadamente, às 13 pessoas mencionadas nas gravações. A série aborda, ainda, a forma como os pais de Hannah lidam com a sua inesperada morte, já que não lhes é deixada qualquer nota, mas sim muitas perguntas que aparentemente não têm resposta.

Com argumento de Brian Yorkey e Jay Asher, a série tem produção executiva de Tom McCarthy (O Caso Spotlight), que também realizou dois dos episódios. O projecto foi inicialmente pensado por Mandy Teefey para ser desenvolvido e protagonizado pela filha, Selena Gomez, mas desde então a história sofreu grandes alterações e as duas acabaram por aparecer como produtoras executivas da série, tendo os papéis principais sido entregues aos novatos Katherine Langford e Dylan Minnette. “Gosto do facto de não aparecer. Este livro tem um público tão grande que eu queria que [a série] fosse credível. Se eu fizesse parte dela, iria gerar um outro tipo de conversa”, explicou Selena Gomez numa entrevista ao jornal norte-americano New York Times.

Por Treze Razões promete ser o ponto de partida para uma maior discussão entre os pais e os adolescentes sobre os temas abordados e tem recebido diversas críticas positivas. A Variety refere que a série “faz um excelente trabalho ao retratar as emoções intensas da adolescência sem ser condescendente para com os espectadores, tenham eles a idade que tiverem”. Já o Uproxx acrescenta que “os melhores episódios são pequenas histórias marcantes sobre a forma como os adolescentes (…) se magoam mutuamente sem terem a intenção de o fazer ou sem se aperceberem do que estão a fazer”. A série conta ainda com nomes como Kate Walsh (Clínica Privada, Anatomia de Grey), Brian D’Arcy James (Smash), Derek Luke (Empire) e Miles Heizer (Parenthood).

 

 

Reforçar a autoestima para diminuir chumbos

Abril 10, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://www.educare.pt/ de 29 de março de 2017.

Programa “Mediadores para o Sucesso Escolar”, da EPIS – Associação Empresários pela Inclusão aumenta em 14% a probabilidade de sucesso no 3.º Ciclo. O projeto trabalha competências não cognitivas dos alunos para melhorar resultados.

Sara R. Oliveira

“Mediadores para o Sucesso Escolar” é o programa da EPIS – Associação Empresários pela Inclusão, que estabeleceu como objetivo combater o insucesso escolar sobretudo no 3.º ciclo do Ensino Básico, ou seja, nos 7.º, 8.º e 9.º anos de escolaridade. O trabalho concentra-se no reforço de competências não cognitivas dos alunos para melhorar o desempenho em termos dos resultados escolares. Estas competências incluem a autoestima, a motivação, a dedicação, a organização, bem como o bom relacionamento com os colegas, professores, pais, encarregados de educação e familiares. Competências que, por regra, não são trabalhadas no ambiente escolar mais tradicional. Um estudo pioneiro revela que o programa da EPIS aumenta em 14% a probabilidade de sucesso escolar, quando analisados os anos entre 2014 e 2016. Pedro Martins, professor catedrático e doutorado em Economia, coordenou o estudo.

Na comparação entre dois subgrupos de jovens, verifica-se que os alunos que foram selecionados, de forma aleatória, para o acompanhamento feito pelos mediadores, apresentam um desempenho escolar significativamente superior aos que não tiveram a mesma ajuda. O primeiro grupo exibe uma diferença de 4,8 pontos percentuais na percentagem de aprovações. Esta diferença corresponde a um aumento de mais de 10% na probabilidade de não retenção, efeito que resulta da participação no programa dos mediadores. Excluindo-se os cerca de 200 jovens que, por vários motivos, foram selecionados mas não participaram na mediação, os efeitos tornam-se ainda mais expressivos, chegando a 6,2 pontos percentuais- comparando com o valor anterior de 4,8 percentuais -, ou seja, um aumento de mais de 14% na probabilidade de não retenção no período em análise. Há um aumento de cerca de 80 jovens a não reprovar.

Há estudos internacionais que sublinham a importância das competências não cognitivas trabalhadas pelo programa, tanto a nível da promoção do sucesso escolar junto dos alunos, como também em vários indicadores de qualidade de vida dos adultos, nomeadamente em termos de emprego ou rendimento. Tudo indica que há uma relação entre os níveis baixos dessas competências e os percursos escolares associados a retenções. O trabalho de análise dos perfis dos jovens é desenvolvido no programa da EPIS tendo em conta quatro dimensões: o aluno, o seu encarregado de educação, a escola e o território. Cada dimensão é analisada através de vários indicadores que, por último, são aferidos com vista a incluir ou não cada jovem junto de um grupo de acompanhamento.

O trabalho de mediação é conduzido por um grupo alargado de técnicos em educação, contratados pela EPIS ou pelo Ministério da Educação (ME). É atribuída a cada mediador uma carteira de jovens, que são acompanhados durante um período de pelo menos dois anos letivos. O trabalho de mediação é feito através de sessões individuais ou em pequenos grupos – um mediador para dois ou três jovens. As sessões de mediação têm duração e periodicidade variáveis mas duram, em geral, cerca de 20 minutos e são feitas a cada duas semanas.

Sessões individuais ou coletivas

Em 2010, foi feita uma avaliação do primeiro período de funcionamento do programa, isto é, entre 2006 e 2009. Nessa altura, verificou-se uma redução significativa do insucesso escolar dos alunos participantes em relação a outros grupos de jovens comparáveis mas não participantes. “Estes resultados mereceram ampla divulgação nacional e internacional, em cerca de 30 outros estudos e relatórios”, lembra a EPIS.

O novo estudo apresenta duas inovações em relação ao efetuado há cerca de sete anos: incide sobre um período mais recente, entre 2014 e 2016, e baseado numa metodologia diferente, na avaliação experimental baseada em grupos de comparação aleatórios. Segundo a EPIS, a avaliação do programa resulta da comparação do desempenho escolar entre jovens sinalizados participantes e jovens sinalizados não participantes. Esta metodologia garante que, em termos médios, eventuais diferenças de desempenho entre os dois grupos possam ser atribuídas exclusivamente à participação no programa. A utilização desta nova abordagem permite aumentar a compreensão dos efeitos do programa, bem como a sua visibilidade e o seu potencial de recetividade e implementação em termos internacionais.

A avaliação abrange três distritos: Lisboa, Setúbal e Açores, 15 concelhos, 55 escolas e 1029 turmas em dois anos letivos, 2014-2015 e 2015-2016. Quanto aos alunos participantes, 2311 foram selecionados para participação ativa no programa, enquanto que 648 foram selecionados para grupo de controlo, em ambos os casos na sequência de autorização parental. Em termos médios, os quase 3000 jovens pré-selecionados tinham à data, em setembro de 2014, 14,2 anos e 47% eram raparigas.

400 mil euros de poupança

As turmas tinham, em média, 22,3 alunos, sendo que 13,7% dos alunos estavam a frequentar os novos cursos vocacionais. Sensivelmente, metade dos alunos frequentava o 7.º ano de escolaridade. No primeiro trimestre desse ano letivo, o número médio de notas negativas ascendia a 4,8, num total de 12 disciplinas, sendo que 77% dos alunos tinham tido nota negativa a Matemática, 59% a Português e 50% a Inglês. Ao longo dos dois anos letivos analisados, os jovens foram acompanhados por um total de 57 mediadores, na sua maioria professores do ME. Cada aluno participou, em média, em 12,8 sessões individuais ou coletivas com os mediadores, durante um período total médio de cerca de 12 meses.

O último estudo apresenta resultados mais positivos do que os apurados em 2010. E uma vez que se utilizam recursos humanos do ME, com disponibilidade de horário para colaborar no projeto, a EPIS considera que a relação custo-benefício do programa “torna-se particularmente satisfatória”. Deste modo, os custos prendem-se exclusivamente com a administração do programa enquanto os ganhos traduzem-se na redução das despesas públicas inerentes às retenções, “potencialmente de 400 mil euros, considerando-se um custo de 5000 euros por aluno por ano, para 80 alunos ao longo desses dois anos”. A EPIS pondera alargar estas análises a outros aspetos, nomeadamente ao efeito das características dos mediadores, às diferenças dos efeitos entre regiões, aos potenciais efeitos multiplicadores resultantes das interações entre os alunos e ainda à avaliação do efeito das retenções no sucesso escolar subsequente.

 

 

Filhos perfeitos, crianças tristes: a pressão da exigência

Setembro 20, 2016 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site http://www.contioutra.com/ de 7 de setembro de 2016.

contioutra

Os filhos perfeitos nem sempre sabem sorrir, nem conhecem o som da felicidade: temem cometer erros e nunca alcançam as elevadas expectativas que os seus pais têm. A sua educação não está baseada na liberdade, nem no reconhecimento, e sim na autoridade de uma voz rígida e exigente.

Segundo a APA (American Psychological Association) a depressão nos adolescentes já é um problema muito grave na atualidade, e uma exigência desmedida por parte dos pais pode derivar facilmente na falta de autoestima, ansiedade, e em um elevado mal-estar emocional.

A educação sempre deve ser a base da felicidade, do autoconhecimento, e não uma diretriz baseada unicamente no perfeccionismo onde os direitos da criança são completamente vetados.

É preciso ter em mente que essa exigência na infância deixa a sua marca irreversível no cérebro adulto: a pessoa nunca se acha suficientemente competente, nem perfeita com base naqueles ideais que lhe foram incutidos. É preciso cortar esse vínculo limitante que veta a nossa capacidade de sermos felizes.

Filhos perfeitos: quando a cultura do esforço é levada ao limite

Frequentemente ouvimos que vivemos em uma cultura que baseia a sua educação na falta de esforço, na permissividade e na pouca resistência à frustração. Contudo, isso não é totalmente verdade: em geral, e mais ainda em tempos de crise, os pais procuram a “excelência” em seus filhos.

Se uma criança tira um 7 em matemática, é pressionado para alcançar um 10. As suas tardes são preenchidas com aulas extracurriculares e seus momentos de ócio são limitados à busca por mais competências, resultando em estresse, esgotamento e vulnerabilidade.

The Price of Privilege” é um livro interessante publicado pela doutora Madeleine Levine, onde ela explica como, na nossa necessidade de pais em educar filhos perfeitos e aptos para o futuro, o que estamos conseguindo é criar filhos “desconectados da felicidade”.

Educar é ser capaz de exercer a autoridade com amor, guiando seus passos com segurança e afeto porque a infância é um fundo de reserva para a vida toda.

Consequências de exigir demais das crianças

Existe uma coisa que precisamos considerar muito bem. Podemos educar nossos filhos na cultura do esforço, podemos e devemos exigir, sem dúvida, mas tudo tem um limite. Essa barreira, que deveria ser intransponível, é a de acompanhar a exigência a um colchão afetivo incondicional.

Do contrário, nossos filhos perfeitos serão crianças tristes que evidenciarão as seguintes dimensões:

-Dependência e passividade: uma criança acostumada a ser mandada deixa de decidir por conta própria. Assim, sempre procura a aprovação externa e perde a sua espontaneidade, a sua liberdade pessoal.

– Falta de emotividade: os filhos perfeitos inibem suas emoções para se ajustarem ao que “tem que ser feito”, e toda essa repressão emocional traz graves conseqüências a curto e longo prazo.

– Baixa autoestima: uma criança ou um adolescente acostumado à exigência externa não tem autonomia nem capacidade de decisão. Tudo isso cria uma autoestima muito negativa.

– A frustração, o rancor e o mal-estar interior podem se traduzir muito bem em instantes de agressividade.

– A ansiedade é outro fator característico das crianças educadas na exigência: qualquer mudança ou uma nova situação gera insegurança pessoal e uma elevada ansiedade.

Pais exigentes frente a pais compreensivos

A necessidade de educar “filhos perfeitos” é uma forma sutil e direta de dar ao mundo crianças infelizes. A pressão da exigência irá acompanhá-las sempre, e mais ainda se a sua educação for baseada na ausência de estímulos positivos e de afeto.

Fica claro que como mães, como pais, desejamos que nossos filhos tenham sucesso, mas acima de tudo está a sua felicidade. Ninguém deseja que na adolescência desenvolvam uma depressão ou que sejam tão exigentes com eles mesmos que não saibam o que é se permitir aproveitar, sorrir ou cometer erros.

Características gerais

Neste ponto, é preciso saber diferenciar entre a educação baseada na exigência mais rigorosa e aquela criação baseada na compreensão e na conexão emocional com nossos filhos.

Os pais muito exigentes e críticos costumam apresentar uma personalidade insegura que precisa ter sob controle cada detalhe.

– Os pais compreensivos “impulsionam” seus filhos para a conquista, permitindo explorar coisas, sentir e descobrir. São guias e não colocam fios nos seus filhos para movê-los como marionetes.

– O pai exigente é autoritário e leva um estilo de vida que está sempre seguindo o relógio. Indica regras e decisões para economizar tempo através do “porque eu sei que é melhor para você”, ou “porque eu sou seu pai/mãe”.

Para concluir: educar é exercer a autoridade, mas com bom senso. É usar o afeto como antídoto e a comunicação como estratégia.

Nossos filhos não são “nossos”, são crianças do mundo que deverão ser capazes de escolher por si próprios, com direito de errar e aprender, com a obrigação de chegar à maturidade sendo livres de coração e com seus próprios sonhos para realizar.

 

 

 

Pesquisa revela efeitos causados pelas princesas da Disney nas crianças

Julho 16, 2016 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Noticia do site http://www.diariodepernambuco.com.br de 27 de junho de 2016.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Pretty as a Princess: Longitudinal Effects of Engagement With Disney Princesses on Gender Stereotypes, Body Esteem, and Prosocial Behavior in Children

mais informações na notícia da Brigham Young University:

Disney Princesses: Not Brave Enough

Disney

Estudo foi aplicado em crianças de 3 a 4 anos durante um ano

Por: Viver/Diario – Diario de Pernambuco

Uma pesquisa com crianças em idade pré-escolar estuda como a exposição das princesas da Disney podem afetar o comportamento de meninos e meninas. A iniciativa é da professora Sarah Coyne, da Universidade Brigham Young, em Utah, nos Estados Unidos, que aplicou o estudo em 198 crianças de 3 a 4 anos durante um ano.

Os dados determinaram como cada gênero interagia com a cultura popular das princesas Disney – filmes e brinquedos – e qual a consequência dessa aproximação no comportamento deles.

De acordo com a pesquisa, a professora descobriu que 96% das meninas e 87% dos meninos consumiam algum produto das princesas. Do total, apenas 4% dos garotos brincavam com objetos inspirados nas personagens uma vez por semana, comparado a 61% de meninas.

A partir dos dados, Coyne constatou que as meninas com mais proximidade ao universo das princesas apresentavam maior desenvoltura em trocar roupinha e maquiar bonecas. Ela explicou que meninas e mulheres que se identificam como “princesas” tendem a se importar mais com a aparência e buscar uma beleza ideal inatingível, o que pode levar à infelicidade no futuro.

Por outro lado, o comportamento dos meninos não apresentou grandes disparidades. A maior exposição aos produtos das princesas não fez com que eles trocassem coisas “femininas” por armas de brinquedo. Porém, os garotos que assistiam a Frozen e Cinderela eram mais propensos a ajudar na escola ou dividir brinquedos.

 

Crianças que se sujam a brincar são mais felizes

Julho 10, 2016 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Observador de 24 de junho de 2016.

observador

OBS Lab

Se os seus filhos costumam sujar-se quando brincam, não os repreenda. Significa que estão a fazer o que é suposto, explorando o ambiente que os rodeia. E como resultado, são muito mais felizes.

Quase sempre, o rosto da criança que chega a casa com a roupa suja e os joelhos arranhados depois de brincar traz um sorriso. Já reparou? A explicação é simples: brincar ao ar livre é das melhores coisas que há. E é também, segundo diversos estudos, um promotor da felicidade.

Para perceber melhor esta ligação falámos com Helena Águeda Marujo, professora no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas e uma das principais investigadoras em Portugal na área da Psicologia Positiva. Nas suas palavras, “a importância da brincadeira ao ar livre para o desenvolvimento de crianças felizes é extrema, até mesmo vital”.

Brincar é fundamental para a saúde física, cognitiva, afetiva e relacional das crianças, sendo que estes benefícios tendem a fazer-se sentir ao longo da vida. Segundo a docente, as mais-valias da brincadeira “têm sido documentadas por inúmeras investigações científicas ao longo de décadas”, de tal maneira que “parece estranho estarmos a caminhar para sociedades que limitam o brincar ao mínimo”. Contrariando a tendência que se vive atualmente, reforça que “a escola é apenas uma parcela da vida, e cada vez com menos peso se não for entendida de forma holística, global, integradora, formadora do caráter e das virtudes, ensinando até a felicidade”.

Sujidade é descontração

Brincar ao ar livre tem quase sempre como consequência roupas e mãos encardidas. Mas quando se diz que uma criança suja é uma criança feliz, não se está a usar apenas uma forma de expressão. Trata-se de algo concreto em termos biológicos.

De acordo com a professora, que é igualmente presidente da Associação Portuguesa de Estudos e Intervenção em psicologia positiva, a brincadeira no exterior, nomeadamente em contacto com a natureza, tem implicações ao nível de neurotransmissores como a serotonina. “As emoções positivas que advêm de brincar nestas condições estimulam até o sistema imunitário, em vez de o enfraquecer como muitos pensam”, afirma, explicando que “a serotonina está associada a este brincar no exterior, sujar e desorganizar a arrumação da vida certinha e limpinha”.

Para a especialista, “o prazer que uma criança tem ao enfiar os pés nas poças, sujar-se na terra, moldar bolos de areia ou a fazer carreiros de água alimenta um lado do desenvolvimento que não se pode perder”.

Paralelamente, algumas investigações vieram reforçar a convicção de que brincar na natureza tem efeitos benéficos ao nível da serotonina. Uma dessas pesquisas foi levada a cabo na Universidade de Bristol, no Reino Unido, tendo concluído que uma bactéria presente na terra (a Mycobacterium vaccae) ajuda a ativar aquela substância, contribuindo para a regulação do humor, sono e apetite.

Felicidade a brincar

O que não falta são motivos que atestam a importância da brincadeira no desenvolvimento de criança felizes. De acordo com a também coordenadora da Plataforma para a Felicidade Pública, da Universidade de Lisboa, “a felicidade está fortemente associada a tempo passado com amigos, atividade física e tempo lúdico e de lazer”. Entre as várias razões, destaca os benefícios do sol, que estimula a produção de vitamina D, essencial ao desenvolvimento dos ossos e dentes, mas que também ajuda na melhoria do humor e consequente diminuição da depressão.

Por outro lado, recorda que “a beleza da natureza e o ar não poluído têm aparecido na investigação científica como associados ao bem-estar”. “A nível físico até a visão melhora, por permitir um constante movimento e adaptação dos músculos oculares a diferentes distâncias, o que não acontece quando se está a olhar para um computador ou outro tipo de ecrã durante horas”, frisa.

Sabe-se ainda que a capacidade de foco das crianças que brincam no exterior é maior, o que acaba por beneficiar o seu desempenho escolar. Helena Águeda Marujo justifica a relação: “Fora de paredes os comportamentos podem ser mais ruidosos e expansivos, mais divertidos e menos estruturados. Tudo isto é fundamental para termos crianças felizes e saudáveis e, por isso, sociedades felizes e saudáveis.”

Dar autonomia aos mais novos

Acima de tudo, é importante “normalizar o sair de casa”, diz a professora de psicologia, referindo o facto de Portugal ter sido considerado o quarto país mais seguro do mundo. Acredita que “o medo e a desconfiança em deixar brincar fora de casa é muitas vezes uma justificação simples para razões mais complexas, impedindo a experimentação e a autonomização dos mais novos”.

Dito de outra forma, “temos receio de dar autonomia aos nossos filhos”. “É uma forma de poder como qualquer outra, e é mais fácil limitar e impedir essa autonomização do que a apoiar e guiar em passos pequenos para ir sendo gerida da melhor forma pelas crianças e jovens”, constata. Para ajudar as famílias a encontrar tempo para as saídas, deixa um desafio, que passa pela “hierarquização do essencial”: “Será preferível ter a casa toda arrumada ou sair meia hora até ao parque com os filhos?”

Mas nem tudo é mau e a sociedade parece estar a tomar consciência da situação em que se vive atualmente. Na perspetiva de Helena Águeda Marujo, está a assistir-se a um “investimento recente em muitas áreas geográficas, mesmo nas grandes cidades, em espaços de lazer comum e que permitam atividades ao ar livre”.

A também autora de diversos estudos e obras sobre psicologia positiva acredita que esta aposta “deverá minimizar a queixa de muitos pais de que não têm fácil acesso a zonas de natureza”. Tal é mesmo importante. Afinal, como escreve Mia Couto em Pensageiro Frequente, “ser menino é estar cheio de céu por cima”.

Este artigo foi desenvolvido ao abrigo da parceria entre o Observador e a SKIP.

10 Aspetos que melhoram em crianças que brincam

1 – Socialização e criatividade. Estar sentado e inativo é um problema sério na atualidade. Segundo Helena Águeda Marujo, “estamos a potenciar uma geração não sociável, inativa e até não imaginativa”. Mas a brincadeira em espaços abertos e na natureza “traz recursos imprevistos e estimula formas de brincadeira desestruturada, essencial para desenvolver a imaginação e a criatividade”.

2 – Desenvolvimento de competências físicas. Coordenação, musculação, estiramento e equilíbrio são alguns dos aspetos essenciais para a saúde motora que acabam por ser desenvolvidos com a brincadeira. “Crianças que brincam menos ao ar livre têm mais propensão para ter problemas de excesso de peso”, acrescenta.

3 – Menos problemas de comportamento. Resultados de estudos recentes evidenciam o “impacto interessante de atividades na natureza na melhoria do comportamento de crianças ditas hiperativas e desconcentradas”.

4 – Maior autoconhecimento. “A exploração e os comportamentos com algum risco controlado, como subir pedras, saltar pequenos ribeiros ou subir árvores permitem a aprendizagem e o autoconhecimento de forças e limitações a melhorar”, sustenta a especialista.

5 – Autodeterminação estimulada. O contexto das brincadeiras permite mais oportunidade para as crianças “guiarem as suas próprias ações, fazerem escolhas e terem consciência espacial e corporal”.

6 – Consciência ecológica apurada. “As crianças com tempo e oportunidade para brincar fora de paredes tendem também a evidenciar um maior apreço pela natureza e pelos animais, aspeto essencial numa sociedade que precisa de voltar a cuidar de forma determinada da sustentabilidade e da ecologia.”

7 – Mais experiência de amor. Brincar em espaços confinados ou através de plataformas virtuais “faz perder alguns dos mais essenciais fenómenos psicológicos”, nomeadamente o contacto ocular, o toque ou o rir em conjunto que são “essenciais até para a experiência de amor”, diz, citando a autora norte-americana Barbara Fredrickson.

8 – Capacidade de empatia desenvolvida. Brincar com outras crianças ajuda também no desenvolvimento moral através da perceção de modelos, aprendizagem de regras sociais e até promoção da empatia.

9 – Melhores perspetivas de futuro. Até as perspetivas de futuro revelam-se diferentes para melhor em crianças com brincadeira de exterior nas suas vidas.

10 – Mais competências linguísticas. A investigação tem vindo a mostrar que além de estarem em melhor forma física, as crianças que brincam no exterior têm também melhores competências linguísticas

 

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