O Instituto de Apoio à Criança e a Humanização dos Serviços de Pediatria – Press Release

Agosto 11, 2017 às 4:44 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Press Release

O Instituto de Apoio à Criança e a Humanização dos Serviços de Pediatria

 

Instituto de Apoio à Criança congratula-se com o despacho n.º 6668/2017, do Ministério da Saúde, publicado em Diário da República, o qual estabelece as disposições e procedimentos sobre a efetivação do direito de acompanhamento de criança ou jovem, com idade inferior a 18 anos, em situação de intervenção cirúrgica, no momento da indução da anestesia e durante o recobro cirúrgico. Este despacho é igualmente aplicável a pessoas maiores de idade com deficiência ou em situação de dependência.

O despacho assinado pelo Secretário de Estado Adjunto e da Saúde, Fernando Araújo, refere que “A ansiedade da criança ou jovem e da família tendem a diminuir quando existe suporte emocional no pré-operatório, sendo este importante quer por razões humanitárias e de desenvolvimento, quer porque aumenta a cooperação com a equipa de saúde, quer ainda porque reduz a angústia ao acordar e assim os problemas de comportamento no pós-operatório.”

Nesta linha, ao longo de mais de trinta anos, o IAC defende e promove os Direitos da Criança, designadamente o direito à assistência médica e aos cuidados de saúde necessários e adequados às crianças.

Em 1998, o Instituto de Apoio à Criança através do Setor da Humanização dos Serviços de Atendimento à Criança  publicou e divulgou a nível nacional a Carta da Criança Hospitalizada, que reafirma os direitos da criança hospitalizada e expressa os princípios universalmente aceites, tais como:

 

o internamento como último recurso;

– o acompanhamento pelos pais ou seus substitutos dia e noite;

– o dever de informar as crianças e os pais ou seus substitutos sobre qualquer tratamento, a fim de os incentivar à participação, decisão e colaboração dos cuidados;

– a equipa de saúde deve responder às necessidades psicológicas e emocionais das crianças e das famílias;

– entre outros.

A hospitalização é uma situação em que a criança é sujeita a um internamento hospitalar para procedimentos de diagnóstico ou terapêuticos. Para a criança, a hospitalização significa a separação da família, a rotura com as suas atividades diárias, doença e tratamentos, ou seja, sofrimento e dor. Estes fatores manifestam-se de diferentes formas e podem ser geradores de ansiedade, pelo que se considera como prioritário a Humanização dos Serviços de Atendimento à Criança – O Direito aos melhores cuidados é um Direito fundamental para o desenvolvimento integral e harmonioso da Criança.

 

      A Direção do Instituto de Apoio à Criança

                                                                                                                                      Lisboa, 11.08.2017

Pais vão poder acompanhar filhos durante anestesia no bloco operatório

Agosto 9, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 2 de agosto de 2017.

A indução da anestesia pode ser uma das experiências mais marcantes da vida da criança ou jovem Nelson Garrido

Hospitais têm que criar condições, até ao final do ano, para que o direito ao acompanhamento seja possível. O objectivo é diminuir a ansiedade das crianças no momento da anestesia e na fase do recobro.

Alexandra Campos

As crianças e jovens com idade inferior a 18 anos que forem sujeitas a cirurgias vão passar a poder ser acompanhadas no bloco operatório no início da anestesia por um dos pais ou alguém que os substitua e será também permitida a presença de um acompanhante mais tarde, no momento do recobro. “A ansiedade da criança ou jovem e da família tendem a diminuir quando existe suporte emocional”, justifica o secretário de Estado Adjunto e da Saúde, Fernando Araújo, num despacho que vem instituir este direito e que é publicado esta quarta-feira em Diário da República.

Os hospitais onde são efectuadas cirurgias em idades pediátricas têm agora cinco meses – até ao final do ano – para avançarem com as medidas de adaptação necessárias para que este despacho seja cumprido. Mas será sempre necessária a autorização prévia dos médicos responsáveis pela cirurgia e anestesia, especifica o diploma a que o PÚBLICO teve acesso.

O direito genérico dos doentes ao acompanhamento está previsto na legislação que define os direitos e deveres dos utentes dos serviços de saúde desde há anos. Mas a lei acentua expressamente que é “vedado ao acompanhante assistir a intervenção cirúrgica”, excepto se para tal for dada “autorização do clínico responsável”.

Agora, pretende-se abrir esta possibilidade em momentos específicos das intervenções cirúrgicas nas crianças e jovens, mas não só – prevê-se que passem igualmente a beneficiar do direito de acompanhamento durante a anestesia e no momento do recobro os adultos com deficiência ou em situação de dependência, “com as necessárias adaptações”, prevê o diploma.

Para materializar este direito, estabelece-se que, quando uma equipa decide que um menor vai ser operado, “o cirurgião e o anestesista responsáveis devem providenciar para que se reúnam as condições adequadas”.

Experiência marcante

Mas estão previstas algumas restrições. “Factores como patologia grave da criança ou do jovem ou outros que desaconselhem a presença no bloco operatório” devem ser esclarecidos e convenientemente transmitidos antes da cirurgia, sublinha-se.

Recordando que são prioridades do Governo a promoção da “humanização dos serviços” e o reforço do “poder do cidadão” no Serviço Nacional de Saúde, o secretário de Estado cita estudos efectuados no Reino Unido e nos Estados Unidos da América que demonstram que, além de diminuir a ansiedade da criança, a presença dos pais antes da operação “aumenta a cooperação”, o que acaba por beneficiar a “própria equipa de saúde”.

“A indução da anestesia pode ser uma das experiências mais marcantes da vida da criança ou jovem, existindo estudos que evidenciam a associação significativa entre induções anestésicas difíceis e alterações do comportamento no pós-operatório”, lê-se no despacho, que sublinha que, sendo muitas vezes as cirurgias nestas idades encaradas como uma “vivência ameaçadora”, os esforços para minimizar este tipo de efeitos têm um “efeito positivo” mesmo “em termos da capacidade para lidar com a adversidade no futuro”.

Preparar os pais e os hospitais

Caberá aos hospitais assegurarem a formação prévia do acompanhante, em consultas antes da cirurgia, que podem incluir visitas e vídeos informativos.

As unidades de saúde terão também que disponibilizar locais próprios onde os progenitores possam trocar de roupa e deixar os seus pertences e definir circuitos em que estes possam movimentar-se “sem colocar em causa a privacidade de outras crianças e jovens nem o funcionamento normal do serviço”.

Os acompanhantes serão ainda devidamente industriados sobre as fases da anestesia e do recobro e sobre o momento em que devem sair do bloco operatório. Caso surjam complicações inesperadas, devem abandonar de imediato o local.

Médicos a favor

Resta saber como vão reagir os cirurgiões e os anestesistas. No diploma, explica-se que foram pedidos pareceres à Comissão Nacional da Saúde Materna, da Criança e do Adolescente e à Direcção-Geral da Saúde e que foram também ouvidas as ordens dos médicos e dos enfermeiros, que se pronunciaram a favor.

Em 2016, também através de despacho, esclareceu-se que os pais ou qualquer “pessoa significativa” podiam assistir aos partos das crianças que nascessem por cesarianas nos hospitais públicos. Este direito de acompanhamento já estava previsto na lei mas não era até então possível na maior parte dos hospitais, porque os profissionais de saúde recusavam frequentemente a presença de acompanhante no bloco, argumentando que aumenta o risco de infecção.

Este ano, porém, o colégio da especialidade de anestesiologia da Ordem dos Médicos contestou a possibilidade de acompanhamento durante as cesarianas, num parecer muito crítico. “Compreende-se e valoriza-se a importância da presença parental”, mas esta não se considera “apropriada” em “ambiente de sala operatória”.

O bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, explicou, entretanto, ao PÚBLICO que são situações diferentes. A Ordem dos Médicos é completamente a favor da presença dos pais no momento da indução da anestesia e no recobro, afirma Miguel Guimarães, lembrando que esta prática já se tornou habitual em vários hospitais. É o caso, por exemplo, do Hospital Pediátrico de Coimbra, onde isto já se faz há cerca de 20 anos.

o despacho citado na notícia é o seguinte:

Despacho n.º 6668/2017

 

 

Robôs que ajudam crianças diabéticas

Março 30, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do http://pt.euronews.com/ de 13 de março de 2017.

 

A diabetes é um desafio sério para muitas crianças e adolescentes, o seu bem-estar depende de várias decisões que têm de tomar ao longo do dia. Será que os jogos eletrónicos podem dar uma ajuda?

Ilona vive numa pequena cidade perto de Amesterdão com o marido e os filhos, Tatum e Arjan. Tatum tem 11 anos e o irmão Arjan, de 13 anos, tem diabetes: “a escola fica a meia hora de distância de bicicleta. Todas as manhãs, uma criança precisa de pensar no que vai comer durante o dia e a na quantidade de insulina necessária. Precisam de ter isso em mente ao longo do dia para voltarem a casa em segurança, sem ficarem com açúcar no sangue pelo caminho”.

As crianças fazem parte de um projeto de investigação europeu que pretende ajudar crianças diabéticas através de jogos eletrónicos. Aplicações especiais nos tablets ajudam as crianças a escolher os alimentos certos e acompanham as suas atividades de uma forma mais divertida.

A investigação envolve três hospitais e duas organizações de diabetes em Itália e na Holanda. Nas consultas as crianças podem brincar com um robô programado para ser não apenas um treinador, mas também um amigo.

Os pediatras podem programar o robô para definir objetivos individuais para cada criança. Os investigadores notaram que as crianças que têm um amigo eletrónico chegam mais contentes às consultas.

No jogo, o robô oferece várias ações tais como um convite para uma festa de aniversário ou várias opções de sobremesa. A criança deve fazer a escolha mais saudável. Depois invertem-se os papéis e o robô deve adivinhar a resposta certa.

O robô não dá conselhos relativos à medicação, mas ajuda a compreender os sintomas da diabetes. Os investigadores planeiam envolver mais crianças nesta experiência e desenvolver uma rede que ligue robôs e tablets, para ajudar estes amigos eletrónicos a aprender e a crescer com as crianças.

 

 

Marcelo Rebelo de Sousa conta histórias a crianças internadas no Hospital Santa Maria

Março 27, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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O Presidente da República esteve no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, a contar histórias a crianças e jovens internados no serviço de Pediatria, a convite da Associação Nuvem Vitória. A associação partilhou um vídeo na sua página de Facebook, em que se vê Marcelo Rebelo de Sousa sentado numa cama do hospital, junto a uma criança, a contar uma história. A publicação refere ainda que o Chefe de Estado “contou duas horas de histórias às crianças internadas”.

De acordo com informação divulgada no site da Presidência, que também partilhou um vídeo e várias fotografias, a visita de Marcelo Rebelo de Sousa deu-se a propósito do Dia Mundial do Sono, que se comemora no dia 17 de março. O Presidente foi recebido por Fernanda Freitas e Pedro Dias Marques, presidente e vice-presidente da associação, por Carlos das Neves Martins, presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar Lisboa Norte, e por Maria do Céu Machado, diretora do Serviço de Pediatria do Hospital de Santa Maria.

Durante a visita, Marcelo Rebelo de Sousa recebeu os voluntários da associação e esteve presente durante “um briefing sobre cuidados e procedimentos a ter com as crianças”.

Criada em 2016, a Associação Nuvem Vitória tem como objetivo “contribuir para melhorar o sono das crianças, nomeadamente em hospitais ou outras instituições que, temporariamente, as retirem dos seus ambientes familiares”, lê-se na página de Facebook. Além de desenvolver materiais e ferramentas para um ambiente favorável a uma boa noite de sono, a associação pretende estimular “o envolvimento dos progenitores e restantes familiares e cuidadores na área da leitura e da narração oral”.

 

Rita Porto para o Observador, em 16 de março de 2017

Veja os vídeos AQUI.

Carta da Criança Hospitalizada e Zebedeu – Um Príncipe no Hospital em destaque no site da DGS

Fevereiro 17, 2017 às 12:00 pm | Publicado em O IAC na comunicação social, Publicações IAC-CEDI | Deixe um comentário
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carta

Texto do site da https://www.dgs.pt/

A Carta da Criança Hospitalizada foi preparada por várias associações europeias em 1988, e o Sector da Humanização dos Serviços de Atendimento à Criança do Instituto de Apoio à Criança (IAC) publica, desde 1996, a sua versão em português.

A Carta da Criança Hospitalizada, nos seus dez princípios, define de forma clara um conjunto de direitos da Criança que, uma vez garantidos, asseguram a excelência do acolhimento e estadia da criança no hospital.

Em 2012, procurando cumprir um dos direitos consignados na própria Carta da Criança Hospitalizada – direito a receber uma informação adaptada à sua idade e compreensão -o IAC lançou o livro “Zebedeu – Um Príncipe no Hospital”, que aborda os direitos da criança no hospital, numa linguagem adaptada à compreensão do público infantil.

Para aceder a estes conteúdos, visite o website do IAC.

zebedeu

277 vítimas de agressões nas escolas foram parar ao hospital em 2015/16

Janeiro 6, 2017 às 5:52 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do http://observador.pt/ de 6 de janeiro de 2017.

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Marlene Carriço

Em 2015/16, a PSP registou 4.102 crimes nas escolas portuguesas, um número que tem vindo a crescer nos últimos anos. 277 pessoas tiveram de ser assistidas no hospital.

No ano letivo de 2015/16, 277 pessoas vítimas de agressões dentro e nas imediações das escolas acabaram por ser conduzidas ao hospital. Os dados, noticiados pelo DN e pelo jornal Público, são da PSP, que, no âmbito do Programa Escola Segura, registou 4.102 casos de agressões — ameaças, injúrias e agressões físicas — nas escolas que vigia, mais 700 casos do que três anos antes.

O número de idas para o hospital, na sequência de agressões físicas nas escolas, tem-se mantido mais ou menos estável nos últimos anos. No ano 2014/2015 foram hospitalizadas 242 vítimas e em 2013/14 acabaram no hospital 280 pessoas agredidas, “na grande maioria alunos”, de acordo com o coordenador do Programa Escola Segura, Hugo Guinote. Esse foi o caso, divulgado esta quinta-feira, de Rómulo que, em novembro de 2016, foi vítima de uma brutal agressão por parte de um grupo de jovens, em Almada.

Já o número global de agressões registadas tem vindo a crescer: 4.102 em 2015/16; 3.939 em 2014/15; 3888 em 2013/14 e 3.486 em 2012/13. Isto não significa, porém, que haja mais episódios de violência. Pode refletir um aumento do número de denúncias.

Ao DN, Hugo Guinote afirma que “há um aumento das denúncias dos miúdos em relação ao bullying devido às ações de sensibilização que temos feito nas escolas. As queixas que têm aumentado referem-se sobretudo a crimes ocorridos no interior do espaço escolar”.

 

 

As crianças doentes sem cura já têm uma “casa” quando saírem do hospital

Julho 24, 2016 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 24 de junho de 2016.

Paulo Pimenta

(texto) e (fotos)

Primeira criança a chegar ao Kastelo tem uma doença crónica complexa e estava há 11 meses internada num hospital. Unidade de cuidados continuados e paliativos pediátricos é inaugurada nesta sexta-feira pelo Presidente da República.

Um enorme balancé para crianças em cadeiras de rodas é o primeiro sinal de que o antigo palacete, quase escondido entre duas movimentadas ruas de S. Mamede de Infesta (Matosinhos), está preparado para receber uma população muito especial. Quem entra desprevenido no Kastelo poderá pensar que esta é uma casa absolutamente normal. Não é. A luminosa casa senhorial, rodeada de um enorme jardim, uma horta biológica, um pomar e uma quintinha com ovelhas, um burro, patos e coelhos, vai servir de abrigo temporário para meninos e meninas com doenças graves e incuráveis, alguns em fase terminal. Pioneira em Portugal (e até na Península Ibérica, segundo os seus fundadores), a primeira unidade de cuidados continuados e paliativos pediátricos do país é inaugurada nesta sexta-feira pelo Presidente da República e pelo ministro da Saúde.

No Kastelo, pais e mães vão poder acompanhar os filhos (a unidade acolherá crianças e jovens até aos 17 anos) ou mesmo descansar um pouco. “Ter um filho muito doente é extremamente duro, a vida fica completamente desfeita”, enfatiza Teresa Fraga, presidente da associação Nomeiodonada e enfermeira especializada em cuidados intensivos pediátricos no Hospital de Santo António, no Porto, que se habituou a lidar de perto com crianças com doenças muito complicadas, algumas com final infeliz. Crianças que, muitas vezes, ficam em casa quase abandonadas à sua sorte ou então são obrigadas a permanecer nos hospitais semanas e meses a fio.

Como o menino de 12 anos com uma doença crónica complexa que estava “há 11 meses internado num quarto” no Centro Materno-Infantil do Norte e que será o primeiro a beneficiar da nova estrutura. “Deve entrar nos próximos dias”, diz Teresa, que se recorda de casos bem mais complicados, como um que ficou tristemente para a história, o de uma criança com uma miopatia grave que passou os 11 anos da sua vida nos cuidados intensivos do antigo Hospital Maria Pia. “Foi quatro vezes à rua”, lembra.

Paulo Pimenta

“A enfermeira Teresa Fraga, que se habituou a falar com as crianças nos cuidados intensivos mesmo quando estão em coma — “elas não estão surdas” —, não abdica do seu lema. Quer que tenham “o melhor de tudo” enquanto a vida durar: “A filosofia do Kastelo é dar vida aos dias das crianças e não dias à vida”

Foram precisas grandes doses de persistência e tenacidade para erguer — reerguer é a palavra mais exacta — a casa senhorial deixada em testamento, no século passado, por Marta Ortigão às irmãs hospitaleiras do hospital pediátrico Maria Pia para benefício de crianças “doentes ou desemparadas”. O edifício permaneceu encerrado ao longo de algumas décadas, até que o Centro Hospitalar do Porto concedeu à associação o direito de superfície por 28 anos.

Quando arrancou, a associação Nomeiodonada — “no meio do nada é como os pais se sentem quando os filhos entram numa unidade de cuidados intensivos, dizem que é como se estivessem no deserto”, explica a enfermeira — tinha mesmo muito pouco. Cada sócio inicial — oito profissionais de saúde e um pai — participou com 32 euros. Daí até aos 2,3 milhões de euros que foi necessário angariar para custear a obra bastaram meia dúzia de anos. De resto, quase tudo no Kastelo é doado, desde os tapetes aos candeeiros, aos móveis e mesmo vários equipamentos de saúde.

Tudo ali foi pensado para mascarar o facto de esta ser, afinal, uma unidade de saúde. Não há refeitório, mas sim “sala de jantar, como em nossa casa”, os enfermeiros e auxiliares vestem informais t-shirts em vez de batas, há bonecos pintados em todas as paredes. Uma “sala de terapias” está equipada com tudo o que é necessário para exercitar as crianças, numa ala à parte e que foi construída de raiz ficam os quartos, todos com saída para os jardins.

“É um pequeno hospital, mas tentámos desconstruir essa ideia”, explica José Couceiro da Costa, o empresário que começou por ser voluntário e agora é director financeiro da associação, depois de ficar com “uma dívida de vida para com o Serviço Nacional de Saúde”. Complicações na sequência de uma cirurgia levaram o seu filho mais novo a permanecer quase dois meses em coma no Hospital de Santo António e José nunca esquecerá o apoio dos profissionais que o trataram.

Enquanto vai falando com os operários que tratam dos últimos retoques e com o padre da paróquia de S. Mamede de Infesta que acaba de trazer o oratório e o crucifixo para a sala de oração, José não esconde a sua preocupação com a sustentabilidade do Kastelo. Com 30 camas, só foi possível contratualizar com o Ministério da Saúde dois terços, numa experiência-piloto que custará cerca de 700 mil euros por ano. “Não havia dinheiro para mais”, lamenta o empresário, que teme que a contribuição estatal para as 20 camas — dez em internamento, dez em ambulatório — não chegue para custear as despesas fixas e o pagamento à equipa de profissionais, que conta com médicos, enfermeiros, psicólogos e fisioterapeutas, entre outros.

Na associação todos estão, porém, habituados a fazer esticar o dinheiro. Muitas das salas e quartos do Kastelo têm mecenas. Há empresas, desde metalúrgicas a têxteis, mas também não faltam pessoas singulares a patrocinar a causa. Graças à campanha Arredonda levada a cabo pelo Lidl, foi possível juntar um milhão de euros, o prémio BPI Capacitar representou mais 100 mil euros, a Câmara de Matosinhos contribuiu com outros 300 mil, a Missão Sorriso doou 36 mil euros, enumeram. Mas muitos mais contribuíram. “Milhares de pessoas ajudaram. Portugal inteiro está aqui reunido”, frisam.

Paulo Pimenta

“Muitas das salas e quartos do Kastelo têm mecenas. Há empresas, desde metalúrgicas a têxteis, mas também não faltam pessoas singulares a patrocinar a causa. “Milhares de pessoas ajudaram. Portugal inteiro está aqui reunido”

A casa também foi idealizada a pensar nos pais. Pais muitas vezes completamente exaustos, esgotados com o peso de terem um filho gravemente doente. Para eles, o Kastelo reserva o “quarto mais atípico de Portugal” — uma sala com três camas, duas mesinhas de cabeceira e nenhuma porta, “para não se sentirem constrangidos” — no primeiro piso do palacete, que alberga ainda uma biblioteca e duas salas de formação. A família, frisa-se, “é parte integrante do Kastelo”: às terças e quintas “cuida-se” das mães, ao domingo, dos pais, e, ao sábado, dos irmãos.

Cá fora, no jardim, foi criado um espaço recatado, atrás de treliças com heras, para os pais “chorarem”. “Em nenhum idioma existe um vocábulo para expressar a perda de um filho. Quando se perde um pai fica-se órfão, quando se perde um marido ou mulher fica-se viúvo. E se se perder um filho? Não há palavras. Se for filho único, deixa-se mesmo de ser pai ou mãe”, reflecte José Couceiro. No Kastelo, todos estão preparados para dar apoio no luto.

Teresa, que se habituou a falar com as crianças nos cuidados intensivos mesmo quando estão em coma — “elas não estão surdas” —, não abdica do seu lema. Quer que tenham “o melhor de tudo” enquanto a vida durar: “A filosofia do Kastelo é dar vida aos dias das crianças e não dias à vida.”

 

 

Há crianças vítimas de maus-tratos que ficam meses no hospital depois da alta

Novembro 26, 2015 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da http://rr.sapo.pt de 18 de novembro de 2015.

radio renascença

João Carlos Malta

No hospital Amadora-Sintra, entre 5% e 10% das crianças vítimas de abusos físicos e sexuais ficam internadas,dias ou mesmo meses, depois de terem alta clínica, aguardando que lhes decidam o futuro . No caso mais grave, um menino viveu cinco anos no hospital. “É o pior dos sítios para uma criança ficar, mas, por vezes, é a única solução”.

Há crianças vítimas de abusos físicos e sexuais que, depois de serem tratadas nas unidades de saúde e terem alta clínica, acabam por ficar internadas no hospital durante dias ou meses à espera que a Justiça lhes encontre um destino para começarem um novo futuro.

No Hospital Amadora-Sintra, entre 2012 e 2014, foi o que aconteceu a cerca de 10% das 108 crianças que deram entrada nas urgências hospitalares por “motivos sociais”. Uns ficaram alguns dias ou semanas, outros, alguns meses.

Num dos casos mais dramáticos, um menino portador de VIH e com paralisia cerebral, após ter sido internado com sinais de ter sido agredido, viveu cinco anos no Amadora-Sintra. A criança , de ascendência africana, só conseguiu ter um lar quando um casal sueco o encontrou.

Helena Isabel Almeida, pediatra e coordenadora do grupo de protecção de crianças em risco do hospital Amadora-Sintra, alerta que esta unidade hospitalar, apesar de acolher os meninos depois de lhes dar alta, não está “preparada” para o fazer.

“É o pior dos sítios para uma criança ficar. Uma grande parte das crianças internadas está infectada e as que ali ficam podem apanhar doenças”, sublinha a médica.

A pediatra alerta para a morosidade da resolução dos casos em que a criança não pode ser reintroduzida em contexto familiar. É prejudicial para o desenvolvimento psicológico da criança permanecer num hospital, um local em que “se trabalha por turnos com equipas muito grandes e em que a relação é bastante impessoal”.

“Uma criança maltratada é alguém que precisa de ter profissionais especializados e a encorajá-la no seu novo projecto de vida”, reforça a médica.

Sem alternativa

O director-adjunto do Centro de Estudos Judiciários, juiz-desembargador Paulo Guerra reconhece que estes casos ocorrem. “As crianças não devem ficar nos hospitais. Essa é a luta entre a Saúde e a Justiça. Os profissionais de saúde querem que a criança saia, porque é um sítio em que facilmente é contaminada. Temos que dar uma resposta social”, sublinha.

No entanto, o director-adjunto do Centro de Estudos Judiciários, com carreira em casos que envolvem a criança e a família, reconhece que há casos em que não tem existido outra alternativa.

Helena Isabel Almeida chama a atenção que nestes casos em que a criança fica no hospital depois de ter alta a maior parte dos agressores fazem parte do núcleo familiar. Pai e mãe são percentualmente as figuras mais visadas nestes abusos, o que torna a possibilidade de regresso à família “residual”.

Das 108 crianças que nos últimos dois anos chegaram às urgências de pediatria do Hospital Amadora-Sintra, 85 são recém-nascidos e 23 têm entre três e cinco anos.

“Muitas vezes, a família depende economicamente do agressor. São situações complicadas. E estas crianças não podem voltar para casa. Têm que ficar institucionalizadas: ou num hospital ou num lar de emergência, que apareceram nos últimos anos e que funcionam bem”, explica Helena Isabel.

A mesma especialista alerta ainda para os casos dramáticos de crianças agredidas que sofrem de doenças crónicas. Para elas não há lares, nem centros de acolhimentos. “Há crianças com a cor, com a idade e com doença errada. Sabemos que há crianças que vão ser rapidamente adoptadas e outras que nunca o vão ser”, lembra.

P. esteve cinco anos a viver no Amadora-Sintra

O caso mais emblemático e marcante no serviço liderado por Helena Isabel Almeida foi o de um menino com ascendência num país africano de língua oficial portuguesa.

P. deu entrada no hospital vítima de agressão, mas com um quadro clínico associado complicado. Era portador de VIH e tinha paralisia cerebral. A mãe não ajudou a que o caso se resolvesse. Não queria que P. fosse adoptado.

O menino acabou por viver cinco anos no hospital Amadora-Sintra. Em Portugal não se encontrou uma solução para o caso. Só depois de P. ter sido colocado nas redes de adopção internacionais através de instituições creditadas é que o caso se resolveu, em 2014.

P. encontrou uma família na Suécia. “Está muito feliz. Recebemos e-mails e estão todos muito contentes. Foi um final feliz, mas não foi possível que ocorresse em Portugal. Teve de ser fora do país”, diz Helena Isabel.

Reconhece que estes casos têm uma solução complicada. A família de acolhimento tem de ter condições económicas que permitam fazer face aos desafios que crianças com necessidades especiais exigem.

Faltam famílias de acolhimento

O juiz-desembargador Paulo Guerra afirma que, em muitas situações, os serviços de saúde dão a alta clínica, mas é preciso “uma alta social”. Há que conseguir uma casa para a criança ser alojada. As famílias de acolhimento temporário seriam uma solução, mas não existem em número satisfatório em Portugal.

“Há casos em que o regresso a família é impossível, e precisamos de dar um destino. Houvesse mais famílias de acolhimento, que não existem. Essa é uma situação que é residual”, reconhece. Não existe em Portugal uma cultura de acolhimento temporário de crianças, para que a institucionalização possa ser um último recurso.

O magistrado avança que a 8 de Outubro entrou em vigor um novo enquadramento legal que pode minorar o fenómeno das crianças vítimas de maus-tratos que ficam nos hospitais depois de terem alta médica. “A solução imediata” para estas crianças que não podem ser reintegradas na família é “a institucionalização num centro de acolhimento [temporário]”.

“É uma solução de emergência em que as crianças não devem passar mais de 48 horas. Trata-se de uma entrada para preparar uma passagem para uma casa de acolhimento futura, mas isso está por regulamentar”, explica Paulo Guerra.

O juiz diz que, apesar de a lei já ter entrado em vigor, o mesmo não ocorreu com a regulamentação. “Com a instabilidade política que o país vive, não sabemos quando é que isso irá acontecer”, teme o jurista.

 

 

Hospital infantil cria sala pirata para tornar exames menos assustadores e até divertidos

Agosto 28, 2015 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do site http://www.pipop.info de 11 de agosto de 2015.

foto

Fonte: New York Daily News

O Hospital Infantil Morgan Stanley, em Nova Iorque, nos Estados Unidos, decorou o seu aparelho de tomografia com ondas do mar, animais divertidos, bandeiras, piratas e muitas aventuras, para tornar as tomografias menos assustadoras e ajudar as crianças a descontraírem num ambiente divertido.

O espaço foi decorado com papel de parede infantil com amigáveis bichinhos estampados na parede. O aparelho faz lembrar um navio pirata, pois a maca parece a proa de um navio, o buraco da máquina de tomografia é o leme e o piso imita a água.

A intenção era deixar os mais pequeninos mais à vontade, para que pudessem associar a experiência a algo positivo.

A ideia surgiu de uma enfermeira, depois de ter tido um pequeno paciente que reclamou porque queria terminar o exame para poder ir brincar.

mais fotografias e informações no link:

http://www.nydailynews.com/new-york/pirate-themed-ct-scanner-helps-new-york-city-kids-find-calm-waters-tests-article-1.1435876

 

 

No hospital há aulas todos os dias e as crianças gostam

Junho 10, 2015 às 2:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Reportagem do Público de 7 de junho de 2015.

Sérgio Azenha

Graça Barbosa Ribeiro

Há quem pense que é quase cruel estar a incomodar uma criança com um cancro ensinando-lhe Matemática, Português ou Estudo do Meio. Mas, para os meninos que ficam internados meses ou anos, as aulas podem ser o que lhes permite manter uma rotina com alguma normalidade e não perder o contacto com a turma.

Leandro, de 11 anos, fez uma cirurgia há dois dias e tem-se queixado de dores. Mas, neste momento, não mostra qualquer incómodo. Deitado, no quarto do Hospital Pediátrico de Coimbra (HPC), onde está internado desde Janeiro devido a uma doença oncológica, conseguiu soerguer-se o suficiente para ler a ficha de Matemática que a professora lhe trouxe e está com os olhos fixos no papel e com o lápis suspenso, a pensar.

O silêncio dura ainda alguns segundos. “Se não souberes conta as barras pintadas da figura, sim?”, pede Clara Santos. A aula começou há cerca de 30 minutos e ela não mostra impaciência nem pressa. Todos os dias aprende a respeitar o ritmo de cada um dos seus alunos, que muda diariamente e, às vezes, várias vezes por dia. É uma das quatro professoras que acompanham as crianças internadas naquele hospital.

“Se me contassem não acreditava”, comenta a mãe de Leandro. Está sentada no sofá que mais logo se há-de transformar na sua cama e sussurra, com mão à frente da boca, para não atrapalhar a aula. Diz que o filho mudou. “Era hiperactivo, tomava imensos medicamentos por causa disso e, ainda assim, estava sempre a arranjar problemas com a antiga professora, que já o punha de lado, a um canto da sala — não passou do 4.º ano. Agora não toma nada dessas coisas e olhe para isto.”

Sem mover a cabeça, que tapou com um boné, o rapaz volta os olhos para professora, numa interrogação tímida, quando arrisca que se tirar oito décimas a uma unidade “sobram duas décimas”. Clara sorri e diz, baixinho: “Estás a ver? Já percebeste!” Ele não corresponde com um sorriso, mas parece orgulhoso. Num gesto decidido e a mão firme preenche o espaço em branco com o resultado e, sem dizer palavra, prossegue para as alíneas seguintes, que têm questões do mesmo género, acertando sempre. A professora só avança para o ponto que se segue depois de se certificar de que Leandro está bem — “Tens a certeza de que queres continuar? Não estás cansado?”

Clara Santos, tal como Margarida Moreira, dá aulas a meninos do 1.º ciclo — cerca de 260, nos últimos quatro anos lectivos, por períodos que nalguns casos duraram apenas três semanas e noutros se prolongaram ao longo meses e até anos. No mesmo período, as professoras Catarina Violante e Cláudia Cerca acompanharam mais de 200 crianças que frequentavam os anos seguintes de escolaridade, entre o 5.º e o 12.º.

“Nada nos prepara”

“Basicamente estudamos muito para poder ensinar de tudo”, explicará, mais tarde, Catarina Violante. Essa versatilidade é essencial, mas não é o único requisito para trabalhar num hospital pediátrico, como há dois anos descobriu João Ferreira, professor do quadro de uma escola das imediações, que cumpre ali parte do seu horário. “Nada nos prepara para aquilo para que vimos. Nada”, comenta, emocionado. E, ainda assim, “nem por um segundo” hesitou, quando as colegas lhe propuseram pedir o destacamento, para ficar a tempo inteiro. Ainda à espera do aval do Ministério da Educação, conta que foram “inúmeras”, as razões que pesaram na sua decisão. Uma delas, “a mais importante, talvez, é o valor que os miúdos”, ali, “dão à escola”. “De repente sentimos que aquilo que fazemos é realmente importante, sabe?”

Elsa, de 13 anos, está na enfermaria de Ortopedia. “Fizeste os TPH?”, pergunta Catarina Violante, explicando, com uma piscadela, de olho, que ali não há TPC (trabalhos para casa) mas sim TPH, ou seja, tarefas para fazer no hospital. “Não setôra, não tive tempo. Sabe que eu aqui tenho uma vida muito ocupada”, responde Elsa, com uma gargalhadinha.

Quando Elsa chegou, há três semanas, sentaram-na numa cadeira própria para fazer tracção à coluna vertebral que uma colega de quarto com mais mobilidade transformou rapidamente num trono, enfeitando-a com pedaços de papel recortados em forma de flocos de neve.

Depois, concedeu-lhe o título de “Princess Elsa”, do filme Frozen, da Disney. Ri-se. Conta que a companheira de quarto se inspirou na estrutura metálica que lhe aplicaram no crânio e que quase faz desmaiar alguns, mas que, vendo bem, achou a amiga, é exactamente igual a uma coroa.

Elsa já transitou para o 9.º ano, porque a lei determina que assim aconteça a quem tem dois períodos com avaliações positivas e não frequenta a escola no 3.º por motivos clínicos. Muito direita, porque não pode estar de outra maneira, abre a mochila da escola para tirar o estojo, e explica que, apesar disso, “faz tudo” para tentar acompanhar a turma. Acabou de ter uma aula de Inglês com uma professora voluntária de uma escola privada, e passa para a de Matemática sem pestanejar: “Preciso de manter as boas notas. Um dia quero ganhar uma bolsa para ir para a universidade”, diz. Atrás dela, a mãe encolhe os ombros e revira os olhos, com um sorriso — “Já lhe disse que tem tempo, que o importante é a saúde, mas que é que se há-de fazer?…”

O primeiro contacto com os pais, quando as crianças ou jovens são hospitalizados, é sempre muito breve, conta Catarina Violante, que trabalha em hospitais desde 2001. A maior parte das crianças cujo internamento se prevê longo tem problemas de saúde graves, da área da oncologia, e “a escola, após o diagnóstico, está no fim da lista das prioridades”, explica a professora. Assim, num primeiro momento limitam-se a informar que, se o desejarem, os filhos serão apoiados por professores do hospital, em articulação com os da escola.

“Os pais aparecem uma duas semanas depois, quando as coisas assentam”, prossegue Cláudia Cerca. Por iniciativa própria ou em conversa com os filhos, percebem aquilo que elas já sabem: “A escola faz parte da vida das crianças, das suas rotinas, e elas querem manter a normalidade possível dentro das circunstâncias. Além disso, muitas temem perder o ano e, principalmente, os colegas de turma, e esta é uma maneira de tentar evitar que isso aconteça.”

São inúmeras as variáveis que depois entram em jogo e condicionam a estratégia dos professores, entre os quais o momento do ano lectivo. No 1.º período e no 2.º, do 2.º ciclo ao secundário, é preciso acompanhar todas as disciplinas, na medida do possível, em articulação com a escola de cada criança; os meninos fazem as fichas de avaliação, que chegam por e-mail e são devolvidas da mesma forma, depois de digitalizadas. Quando chegam ao hospital no 3.º período, trata-se de assegurar as aprendizagens essenciais para o sucesso escolar no ano lectivo seguinte. O ritmo é mais suave.

A colaboração das escolas também varia. “Às vezes a comunicação é difícil porque, simplesmente, os professores que os acompanhavam consideram quase cruel estar a incomodar uma criança com um cancro ensinando-lhe Matemática, Português ou Estudo do Meio”, comenta Margarida Moreira. “Dizem: ‘Deixe estar, não o mace, que para o ano logo vemos! Eu quero é vê-lo bom e aqui na sala outra vez!’”

Outras vezes, contam as professoras do HPC, “a colaboração é extraordinária”. Lembram-se de um caso em que todos os professores se organizaram para diariamente um ou outro enviar materiais de estudo e comentários de incentivo ao trabalho que uma menina ia realizando. E de um professor do 1.º ciclo que colocou uma câmara de vídeo no lugar exacto em que a criança se sentava na sala de aula, para ela poder ir à escola sempre que lhe apetecesse, através do computador pessoal.

Outro dos factores a ter em conta, para quem dá aulas, é a disposição das crianças. Leandro, por exemplo, não conseguiu ter aulas nos primeiros três meses do ano, porque os tratamentos deixaram-no demasiado debilitado. O mesmo se passou com Carlota, que tem sete anos e está internada, também, desde Janeiro. É ela que agora olha para Clara Santos, com um beicinho de mimo: “Dói-me um bocadinho a cabeça.”

Dois minutos antes estava a enumerar, despachada, as partes da planta — “raiz, caule, folhas, flores e frutos” — e a explicar que já semeara ou plantara com a avó “abóboras, feijões, tomates, nabos e outras coisas”. Agora põe as mãos na cabeça coberta por um lencinho colorido — “Dói.” “Será que dói mesmo? Ou mais uma vez Carlota foge às perguntas de interpretação, que a obrigam a escrever ‘respostas muito compridas’, como ela diz?”, pergunta-se Clara Santos. A menina não gosta de escrever. Aprendeu no 1.º ano e teve quase só o 1.º período do 2.º ano para praticar.

“Amanhã passamos à escrita. Estes meninos têm o direito de dizer ‘não me apetece’”, diz a professora, depois de distrair Carlota com um jogo, arrancando-lhe sorrisos, e de ver a dor de cabeça regressar à vista da ficha de trabalho. A mãe, Inês, aflige-se: “Está a atrasar-se e não queria nada que perdesse o ano. As perdas já são tantas.”

Algumas crianças só têm uma vaga noção do que perderam, como Gonçalo, um menino chinês, que já está no 4.º ano e só se sentou na sua sala de aulas por duas — apenas duas — vezes, “para saber como era”. Reteve a imagem de “um quadro gigante” e a informação de que se pode levar “comida para depois”. “Não é ‘depois’, é ‘no intervalo’”, corrige Margarida, que desta vez lhe dá a aula no hospital de dia.

Sofia, madeirense, de 14 anos, a frequentar agora o 8.º ano, tem uma noção muito clara do que perdeu, mas também do que ganhou. Desde que ficou doente, há seis anos, passou mais tempo no HPC do que na escola. Agora, que regressou (mais uma vez) para exames médicos (e tratamentos, “se for necessário”) franze os olhos num sorriso, a fitar os professores que na maior parte do 2.º período voltaram a apoiá-la nas diferentes disciplinas. Em pleno corredor, vai soltando as notícias uma a uma, fazendo pausas, a gozar as reacções quando anuncia: “90% a Matemática; 100% a Inglês; 91% a Francês; Geografia 89%; História 86%; 80 e tal por cento a Português.”

Mais tarde, ao lado do pai, na casa da associação Acreditar, conta que estava ansiosa por falar das classificações que teve na escola. “É muito importante para mim que estes professores, aqui, sintam orgulho naquilo faço. Estou a estudar graças a eles, e também é por eles que estou tão atenta nas aulas. Não é toda a gente que tem a sorte que eu tive — professores dedicados apenas a mim.” Trouxe os apontamentos. Os professores da Madeira vão mandar as matrizes dos últimos testes por e-mail e ela já avisou os do hospital, para que fiquem atentos. Alguns até disseram que ela não precisava de realizar estas provas, mas ela vai fazê-las: “Porque quero.”

 

 

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