Eles têm aulas sobre emoções e passaram a zangar-se menos

Novembro 16, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Nuno Ferreira Santos

 

Artigo de Clara Viana para o jornal Público, publicado em 5 de Maio de 2017.

 

Identificar as emoções e aprender a geri-las desde pequenos é também uma forma de prevenir problemas na infância e adolescência, diz directora de escola de Leiria. Num congresso no ISCTE vai-se debater a empatia.

 

Valentim, 7 anos, diz que está ali “para aprender a ficar mais alegre”. A alegria foi um dos sentimentos que estavam a trabalhar na aula a partir de um pequeno vídeo de animação. Da alegria foram até ao orgulho. “Sinto orgulho quando sinto que vou conseguir”, define Valentim, que dirá depois ao PÚBLICO que a “atitude” de que “gosta mais” é a paciência. “Às vezes fico impaciente porque o meu mano mais novo está sempre a interromper-me e não quero ficar assim.”

Ao fim de quase dois anos de escola das emoções, há crianças no jardim-escola João de Deus, em Leiria, que “começaram a questionar-se mais sobre como o outro se sente, a antever a sua reacção e a adoptar comportamentos” em função dessa percepção, relata Vera Sebastião, directora daquele estabelecimento de ensino.

O projecto tem sido desenvolvido em parceria com a Associação Escola das Emoções, criada em 2014, com o objectivo de levar aos mais novos “ferramentas para poderem conhecer-se melhor”, diz Marco Coelho, presidente da organização, acrescentando que o que está em causa “não é controlar as emoções, mas sim saber identificá-las e geri-las”.

Entre sexta-feira e sábado, a escola de Leiria e a associação promovem no ISCTE, em Lisboa, o seu segundo congresso sobre educação emocional, sob o tema De dentro para fora – como nasce a empatia. E mesmo que ainda possam não saber exactamente o que quer dizer a palavra empatia, este é o sentimento vivenciado por muitos dos alunos que frequentas as aulas das emoções, que no jardim-escola João de Deus faz parte do currículo das crianças de 4 e 5 anos de idade e é também oferecido como actividade de enriquecimento curricular para alunos até aos 9 anos, assegura Sílvia Branco, uma das psicólogas da associação.

“Conseguem olhar para o outro e perceber o que se está a passar”, especifica. “É um projecto ajustado à ideia da vivência em conjunto. E isto é importante porque quanto melhor soubermos relacionar-nos com os outros, mas felizes seremos”, afirma Vera Sebastião, para acrescentar que “é também um projecto preventivo já que pode ajudar desde cedo a resolver problemas muito comuns na infância e na adolescência”. Tudo isto, frisa, é tanto mais importante quanto hoje em dia as crianças “vivem cada vez mais individualmente têm cada vez mais dificuldades em saber lidar com as frustrações”.

E frustração é precisamente o sentimento que Jaime, de 8 anos, aponta quando questionado sobre qual sentimento escolheria. “É quando estamos tão ansiosos por irmos ganhar e depois não conseguimos. Se soubermos o que isto é ficamos melhor”, diz. Jaime é um dos seis alunos que participaram na aula das emoções a que o PÚBLICO assistiu. Diz que “tem aprendido os sentimentos e a reagir com os outros”. Resultado? “Zango-me menos, mesmo quando os meus irmãos se põem a refilar.”

 

“Menos medos, menos birras”

No início do ano lectivo e no final a equipa da Associação Escola das Emoções faz um teste aos alunos de modo a aferir a sua evolução. Os resultados do ano passado mostraram que no final “havia mais medos resolvidos, menos birras, maior controlo da agressividade”, diz Sílvia Branco.

Vera Sebastião confirma que estas mudanças também se fazem sentir nas outras aulas. Aliás, no jardim-escola João de Deus não são só as crianças que passam pelas aulas das emoções. Também as educadoras e professores foram assistindo de modo a ganhar formação na área. Vera Sebastião defende que a educação emocional devia fazer parte da formação inicial dos docentes.

Seria um primeiro passo para outro ainda maior que a associação defende – a inclusão desta componente no currículo nacional. Recordam a propósito que no relatório da OCDE Skills Strategy Diagnostic report Portugal 2015 se recomenda que “o ensino em Portugal deve dar maior ênfase ao desenvolvimento de competências emocionais (….), consideradas vitais na redução do abandono escolar e melhoria da qualidade e equidade na escola”.

Na aula das emoções, em Leiria, Tomé, de oito anos, recusa-se a responder às perguntas do PÚBLICO. A todas menos a uma. Que sentimento escolheria para aquele momento? “Aflição.” Também recusou dizer porquê.

 

Conferência com Álvaro Laborinho Lúcio “O Papel da Educação na Formação Individual e Coletiva da Sociedade Atual”, 15 setembro em Espinho

Setembro 11, 2018 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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10 Mães de 10 nacionalidades revelam as diferenças na forma como educam os filhos

Setembro 3, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto e imagem da Activa de 21 de agosto de 2018.

Catarina Fonseca

Em que é que uma mãe japonesa é diferente de uma mãe sueca? Todas as mães são únicas, mas há formas de educar que passamos culturalmente de geração em geração. Pedimos a mães de outros países que nos dissessem como educam os seus filhos. E deram-nos muitas ideias que talvez possamos ‘importar’…

*artigo publicado originalmente em julho de 2015

Zoe Tsang | China | duas filhas de 2 anos

As minhas gémeas são tudo para mim. Em Honk Kong, é moda ter uma empregada doméstica o dia todo para tratar da casa e para tomar conta das crianças. Eu também tenho, mas prefiro tratar das minhas filhas eu própria. Eu e a minha irmã temos a nossa própria escola de inglês, e isso torna possível que tenhamos horários mais flexíveis.
Os laços de família são muito importantes para os chineses. Tentamos apoiar-nos uns aos outros e funcionamos como uma unidade. Lembro–me que na Dinamarca, onde cresci, a maioria dos adolescentes sai de casa à volta dos 18 anos. Aqui, em Hong Kong, só deixamos a nossa família para casar, e isso não é malvisto. Há mesmo quem continue a viver em casa dos pais depois do casamento, escolhendo funcionar como uma família maior. Mas hoje em dia já há pessoas mais novas que vivem de forma mais ‘ocidentalizada’, e já saem mais cedo de casa para viverem sozinhos.
Como chinesa, acho que a minha responsabilidade é ensinar às minhas filhas o valor da família como um todo, para que possam viver uma vida feliz e harmoniosa.

Olga Volodymyrivna | Ucrânia | um filho de 4 anos

Uma coisa que as mães ucranianas fazem é: nunca obrigamos as crianças a comer. Não quer,
não come.
Outra diferença: é impossível, na Ucrânia, alguém que tenha um bebé a gatinhar deixar entrar pessoas em casa sem tirar os sapatos. Também acho isso um bocado exagerado. As ucranianas limpam o chão duas vezes por dia, se for preciso.
As crianças ucranianas costumam ser boas alunas porque os pais as ensinam a levar a escola muito a sério. Os pais estão em contacto constante com os professores e ajudam as crianças no seu percurso escolar.

Maria José Benito | Espanha | dois filhos de 11 e 14 anos

Na minha opinião, as mães portuguesas não fazem grande diferença das espanholas, porque as nossas sociedades são cada vez mais parecidas e isso faz com que a educação que damos aos filhos também seja cada vez mais similar.
Se calhar, nós somos mais expansivas. Eu, como mãe espanhola, diria às portuguesas para exprimirem mais os sentimentos aos filhos, não só com palavras, mas também com beijos, abraços, festas… porque isso pode fazer milagres! E quando temos de ralhar com eles, que seja também para ralhar mesmo!
Também lhes diria para ensinarem aos filhos a valorizar mais o facto de serem portugueses, a defender a sua cultura, a sua língua e a terem orgulho neles próprios.

Mikaela Öven | Suécia | três filhos entre 7 e 11 anos

As mães suecas são descontraídas. Não temos medo do frio, nem da criança se sujar, nem de cair do baloiço. Só se estiver um tempo mesmo mesmo impossível é que não saímos de casa, estamos habituados a sair e a brincar lá fora com todo o tipo de tempo. Também temos uma relação muito forte com a natureza, não gostamos de estar fechados.
As mães portuguesas vestem as crianças de maneira muito arranjadinha (risos). Nós damos prioridade ao conforto acima de tudo. O que interessa é que a criança consiga brincar e esteja confortável.
As mães suecas dão muita liberdade às crianças, não andam sempre em cima delas. Elas vestem o casaco se quiserem. Respeitamos muito a individualidade delas. Temos uma relação muito de igual para igual, mas isso faz parte da cultura sueca, que sempre foi muito democrática. Temos muita confiança neles, não andamos sempre à espera que façam qualquer coisa de errado, esperamos sempre o melhor. Na Suécia, se alguém der uma palmada a uma criança pode ir preso. Também ralhamos com os nossos filhos, claro, mas não é com a impulsividade do sul, não o fazemos de maneira agressiva. Os pais homens têm uma relação bastante forte com os filhos, porque partilham o tempo de licença de maternidade, que é um ano e meio (na pior das hipóteses). São muito desenrascados, fazem tudo o que as mães fazem, e as mães suecas confiam bastante neles.

Hiroko Gamito | Japão | um filho de 22 anos

As crianças japonesas respeitam muito o espaço dos outros, são educadas para não incomodar. Se uma criança portuguesa sai do baloiço, ainda continua lá à frente, e as outras crianças não podem brincar. São pouco educadas a ter limites e a respeitar os outros. Também me parece que as mães portuguesas gostam muito de exibir os filhos e de falar muito bem deles, quando a realidade não é bem assim.
Uma coisa muito boa que existe em Portugal: há muito convívio entre as gerações. No Japão, as crianças são educadas para usar todas aquelas fórmulas tradicionais de respeito para com os mais velhos, mas depois na prática é raro ver um adolescente a acompanhar um idoso. Em Portugal, isso vê-se muito, e é muito bonito de ver.

Penélope Martins | Brasil | dois filhos de 9 e 13 anos

Penso que o calor melhora as relações humanas. Menos roupa para prender os movimentos, menos medo de se molhar e apanhar resfriado, mais pés descalços, mais cantoria. O calor é colorido, e a mãe brasileira tem esse calor.
É claro que uma mãe brasileira carrega hábitos portugueses, mesmo que não perceba. Talvez um dos mais fortes seja a constante reunião familiar na cozinha. Alimentamos nossas crianças o tempo todo. E se o arroz com feijão é diferente do hábito português, a mania de empurrar comida nos filhos não é. Eu cresci ouvindo ‘tens fome?’ e ‘já comeste?’ Somos mães habituadas a andar mais tempo descalças dentro e fora de casa, brincamos mais com água, agachamos no chão, no parque fazemos bolinhos de terra. Esse pé no chão, terra e água, talvez seja o legado indígena. Além disso, pé no chão faz barulho, batuque de palma da mão também faz. A mãe brasileira é barulhenta. Pudera, somos também misturados por diversas africanidades. A música é um refúgio de comunicação para a mãe brasileira dizer a vida aos seus filhos; a gente canta para dar comida, canta para brincar, canta para contar história e na hora de dormir a gente canta.
Por um lado, não criar silêncios profundos pode ser nossa maior dificuldade. O silêncio é precioso, e faz falta. Por outro lado, a musicalidade é desenvolvida desde sempre.

Carla David | Angola | dois filhos de 4 e 9 anos

As angolanas são mais rígidas que as portuguesas, acho eu. Eu recomendo que não cedam aos caprichos das crianças e que não tenham medo
de se fazer obedecer.
Nós, angolanas da minha geração, que tenho 38 anos, crescemos sem espaço de manobra. Não sei se era das sequelas da guerra, de pais que estavam pouco tempo connosco e portanto tinham de se concentrar
no que era essencial, mas a educação em nossas casas sempre teve muita rigidez. Crescemos com a ideia de que os nossos pais eram a autoridade máxima, e isso nunca nos fez confusão. Levávamos palmadas, e havia mesmo quem levasse chicotadas, mas na realidade só era preciso um olhar para obedecermos. Crescia-se com o fantasma do chinelo (às vezes não era só o fantasma). Eu não sou tão rígida com os meus filhos porque os tempos também são outros, mas mantenho essa ideia de que os pais são a autoridade máxima, que partilham com os professores (a educação, acho eu, deve ser um trabalho conjunto). E os meus filhos também obedecem a um olhar meu. Eles não fazem birras em casa,
não choram no hipermercado.
Nem é preciso levarem uma palmada – o meu olhar é desafiador. E isto não significa falta de carinho.
Eles amam-me na mesma porque eu estou com eles em todas as alturas importantes da vida deles.
Acho que os pais não deviam ter tanto medo de que os filhos deixem de gostar deles, porque a nossa posição de pais já está mais do que garantida. Ainda hoje, quando o meu pai me diz Tu vê lá!, eu ainda oiço.
Criei meus miúdos com sons que povoavam os dois lados do Atlântico. E sim, sempre brincando com água. E terra. E vestindo uma mistura de cores.

Régine Campagnac | França | uma filha de 8 anos

Portugal tem uma coisa muito boa: as mães são muito carinhosas com os filhos. Outras coisas acho que podiam aprender mais com os franceses: responsabilizar-se pelos seus atos e sentir-se parte ativa da sociedade, são aspetos que os franceses levam mais a sério. Em Portugal, toda gente culpa os outros dos problemas mas escolhe poucas vezes responsabilizar–se. Em França, as pessoas queixam–se, mas agem. Parece-me que uma educação geral mais atenta e firme das crianças permitiria melhorar a eficiência da sociedade portuguesa. Assisto diariamente nos adultos a hábitos antiprodutivos: chegar atrasado, não respeitar prazos, fazer as coisas sem grandes cuidados, envolver-se o menos possível no trabalho para evitar “chatices”. Seria útil ensinar limites aos filhos: ser pontual, ter responsabilidades em casa, esperar a sua vez para falar, saber ficar calmo quando é preciso, falar mais baixo, não dizer palavrões, etc. Ensiná-los a encarar os desafios de forma otimista também me parece valioso nestes tempos difíceis, e é preciso determinação para isso.
Promover a cultura, sem dar demasiada importância à cultura de massas (Disney, etc.), e sensibilizá-los para o respeito às diferenças: inclusive as das próprias crianças. Acho que é uma forma de respeito deixar o seu filho desenvolver a sua personalidade, independentemente dos nossos desejos de mãe. Por exemplo, deixar-lhe a opção de escolher as suas opções espirituais: não o batizar nem inscrevê-lo na catequese.
Uma ideia bem francesa: promover a leitura de bandas desenhadas. São divertidas, espertas, e há para todos os gostos e idades. Os pais franceses costumam deixar algumas na casa de banho, que é um ótimo sítio de leitura! Outra ideia divertida é assistir a espetáculos de comédia ou ‘one man show’. Costumo ouvir na internet a estação de rádio “Rire et Chansons”, e a minha filha fica logo bem disposta!
E, finalmente, informo que em França comem-se croissants sem fiambre nem queijo! Seria comparável a comer um pastel de nata com fiambre ou com queijo!

Sabine Halbich | Alemanha | uma filha de 8 anos

É verdade o que se diz, que as crianças alemãs são mais independentes e responsabilizadas, sim. Desde a primeira classe que vão sozinhas para a escola. Quatro semanas antes de a escola começar, há avisos da televisão e nos jornais sobre como ensinar as crianças a andarem sozinhas na rua, mesmo nas cidades. Há uma rede de escolas públicas muito grande, por isso a grande maioria das crianças vive perto da sua escola, mas mesmo as que vivem longe vão de autocarro sozinhas. Nunca temos a sensação de que estão em perigo, porque existem os vizinhos. Portanto, elas movem-se sempre em comunidade. E, por exemplo, se os pais estão num restaurante, as crianças entretêm-se a brincar lá fora e os pais não estão constantemente a olhar para ver o que elas estão a fazer ou se está a chover ou se têm o casaco vestido…
Na Alemanha, o ensino é consistente. As coisas não estão sempre a mudar e não se tenta ensinar-lhes tudo desde bebés. As coisas são aprendidas se calhar mais devagar mas de maneira mais sólida. Fica tudo na cabeça. As aulas acabam ao meio dia e as crianças têm tempo para fazer os seus TPCs sozinhas.
Quanto à ideia de que as mães alemãs são organizadas, também é verdade. Somos mesmo. Ensinamos as crianças a respeitar o espaço e o tempo dos outros, a cumprir as regras. Têm de ser pontuais. Não toleramos atrasos, porque é uma falta de respeito. Deixar o carro mal estacionado ou passar com um sinal vermelho, porque não há ninguém, são ‘exemplos’ que não damos aos nossos filhos. Também é muito importante que tenham as suas coisas arrumadas e organizadas.
Uma coisa engraçada: gostamos muito de rituais. Na Páscoa, cozemos e pintamos ovos, fazemos bolos em forma de coelhos, construímos ninhos. O Natal é uma enorme festa, toda a família se junta para fazer bolachas.
Mas em geral a responsabilidade individual e o respeito para com os outros são as bases da educação alemã.

Ana Rocha Leite | Portugal | três filhos entre 4 e 9 anos

Não sei se é característica de quem é portuguesa, mas eu sou…GALINHA! E com muito gosto… Sou cuidadosa, stressada, exigente, chego a ser um bocado intransigente. Gosto de regras, de horas, de ter tudo sentado à mesa a jantar em família, de os chamar e que eles me respondam à primeira, gosto que digam “bom dia” a quem chega, que cumprimentem com um beijinho, que agradeçam e digam se faz favor, que façam uma grande festa quando veem os avós e os tios, e que, ainda assim, sejam o mais descontraídos possível! Não vou em conversas do não se deve obrigar as criancinhas…eu obrigo e exijo.
Tenho a mania de os vestir de igual (isto é muito ‘tuga’). As características de uma mãe portuguesa? Passamos aos nossos filhos aquilo que nos passaram a nós, cultura, educação, e temos sangue na guelra, caramba! Eu sou um bocado “vai tudo à frente”, e às vezes não consigo manter a calma.
E eles já sabem que quando a mãe se passa, de vez em quando salta um tabefe!
Mas nada disso impede que tenha uma relação muito próxima com eles, dou beijos apertados e abraços esborrachados, brinco e digo parvoeiras, toco viola e canto com eles, dou-lhes conselhos, estudo com eles (ok, esta parte chateia-me um bocadinho, esta obrigação de, irrita-me! Alguma vez os nossos pais?… enfim), vou com eles às compras de roupa, deixo-os opinar q.b. Só espero que os meus filhos cresçam felizes, que saibam escolher o melhor caminho para eles (com as minhas indicações, luzes, e apoio), que ganhem asas quando tiver que ser… e voem… (para perto!)

 

 

 

 

“A coisa correcta é ter bons professores, que ensinem bons programas e dar-lhes autoridade”

Agosto 15, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Inger Enkvist ao Público no dia 3 de agosto de 2018.

Inger Enkvist é uma professora que conhece bem os sistemas educativos onde o sucesso impera. Voltar a dar autoridade aos professores é um dos segredos. Não ter medo de dizer “não” aos filhos é outro.

Bárbara Wong

Inger Enkvist é uma professora universitária sueca que está reformada, mas continua a ter o seu gabinete na Universidade de Lund, onde estudam cerca de 42 mil alunos. A catedrática emérita de literatura espanhola e latino-americana tem sido convidada para dar aulas da sua especialidade um pouco por todo o mundo — em Agosto está no Chile, no mês seguinte em Madrid e Barcelona, e em Novembro no México —, mas também para falar sobre pedagogia, tema sobre o qual tem escrito em várias revistas da especialidade e em jornais, tendo alguns livros publicados.

A docente, que deu aulas do secundário ao ensino superior, é crítica da “nova pedagogia” e defende o regresso a uma escola onde os professores são a autoridade, os alunos aprendem em turmas de nível e os pais têm uma palavra a dizer… mas em suas casas. Tem 71 anos e dois filhos.

Como surgiu o interesse por estudar os sistemas educativos?
Há uma crise na educação. Comecei a interessar-me e a escrever sobre as soluções que eram encontradas por alguns países, que estavam a fazer um trabalho melhor do que outros.

Tem trabalhado com o governo sueco?
Não, o que faço é escrever e ser convidada para dar palestras. Por vezes falo com os políticos ou estes pedem-me a minha opinião, mas prefiro manter-me de fora porque sou mais útil dessa forma.

Conhece o sistema português?
Não muito bem, mas o que observei é que Portugal fez um esforço enorme, tornou-se melhor e isso não é muito conhecido. Gostava de conhecer as novas reformas de Portugal, que me parecem interessantes, para poder escrever sobre elas.

Creio que as novas reformas em Portugal não se coadunam com aquilo que defende…
Bem, muitos países estão numa situação crítica. No mundo ocidental tem havido uma “ocupação”, digo-o com ironia, uma agenda ideológica centrada na pedagogia, que não procura que o estudante aprenda – claro que é uma generalização –, mas porque são cépticos em relação à aprendizagem e como têm um background marxista dizem que os factos o são por pouco tempo, logo, não é útil conhecê-los. Ser esta a visão central nos sistemas educativos provoca grandes estragos. Fazem grandes estragos porque dizem que podemos pôr qualquer estudante em qualquer classe, que não precisam de trabalhar muito.

Não é apologista do “aprender a aprender”?
Isso está espalhado por todo o lado. Quando aprendemos alguma coisa é sempre específico e o “aprender a aprender” dá a ideia que se aprendeu alguma coisa que se pode usar noutras situações, mas a investigação diz que não. Portanto, é preciso aprender os factos para ser capaz de pensar, compreender e chegar a conclusões. É preciso ter muito conhecimento para ser capaz de pensar bem.

Isso não é fácil quando os estudantes são tão diferentes. O ex-ministro da Educação, Marçal Grilo, escreveu O difícil é sentá-los. Ou seja, muitos professores antes de conseguir ensinar factos têm de ensinar os alunos a ficarem sentados.
Aí estamos a falar da autoridade da escola e dos professores. Estes, no 1.º ano, têm de ensinar os alunos a tirarem o chapéu, a sentarem-se, a pegarem na caneta para aprender a escrever. Todas estas coisas têm de ser aprendidas e normalmente é isso que o professor tem de ensinar. Alguns não têm ajuda em casa? São esses que precisam mais do que os outros de aprender correctamente a comportarem-se. No 1.º ano, a professora é quem abre o mundo do conhecimento às crianças, ao mesmo tempo que mostra como funciona a escola. Precisa de dizer-lhes: “É assim que se aprende e aprender é entusiasmante e transformador, vai mudar-te, vai tornar-te um adulto, mas há regras às quais tens de obedecer.”

No entanto, muitos professores fazem a distinção entre educar e ensinar. Educar – tirar o chapéu, sentar-se – cabe aos pais e a função dos professores é ensinar a matéria.
Compreendo e é uma reacção normal, sobretudo entre os professores dos anos mais avançados porque os colegas do 1.º ciclo não ensinaram às crianças como comportarem-se. Portanto esse problema deveria ter sido resolvido anteriormente.

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Mas há mais por detrás dessa afirmação, a ideia de que todas as crianças são iguais e que devem ter o mesmo e a escola é que deve adaptar-se.

Isso não está correcto?
Diria que não, observo que nos países em que isso acontece, as turmas onde há problemas são as dos alunos entre os 11 e os 16 anos, que acumulam dificuldades e não estão interessados no que se passa na sala de aula. Portanto é preciso ter outras opções.

Pô-los noutra escola, noutra turma?
Deve haver a possibilidade de escolha. Em Singapura há turmas para os alunos que aprendem mais depressa. Na Finlândia há muita ajuda extra para os alunos que aprendem mais devagar. Na Suíça pode escolher-se, aos 12 anos, cursos diferentes com mais ou menos disciplinas práticas.

Isso não é discriminação?
Não. É preparar o aluno o melhor possível para o seu futuro. Fala-se muito de discriminação, mas se você tivesse sido professora veria nos olhos dos alunos a ansiedade ou o aborrecimento porque não conseguem gerir o conhecimento que o professor está a transmitir. O que acontece a esses alunos é que se limitam a sobreviver na escola, na esperança de que um dia aquilo termine e sejam livres. Outros ficam tão aborrecidos que começam a fazer disparates porque não acham que o conhecimento seja importante. Na adolescência, diria que submeter os alunos a isso é um mau trato psicológico.

Mas ao separá-los [um função do seu nível] não estamos a traçar o seu destino? Por exemplo, os pais têm pouca escolaridade e eles terão também?
Se o aluno consegue acompanhar as aulas trabalha como os outros. Não é discriminação, é adaptar-se à situação.

Não estamos a decidir que, em vez de serem médicos ou professores, serão canalizadores ou mecânicos?
Isso depende. Se estudarem muito, conseguem acompanhar as aulas. Ninguém colocará uma criança perfeitamente integrada numa turma especial. Isso seria incompreensível.

Por causa dos resultados dos alunos de 15 anos nas provas da OCDE, a Finlândia tornou-se um modelo para Portugal, é um bom exemplo?
O mais importante no modelo finlandês é que a escola tinha o total apoio dos pais porque houve várias guerras e crises económicas severas. Portanto, as famílias sabem, fruto do seu passado, que é preciso estar preparado. Por isso, apoiam as escolas. Não houve grandes experiências pedagógicas.

E ser professor é uma profissão muito reconhecida lá. Isso é importante porque os bons alunos querem ser professores – também é verdade para os educadores de infância e para os professores de 1.º ciclo. Se as crianças aos 4, 5, 6 anos tiverem bons educadores, inteligentes e preparados, arrancam bem, conseguem aprender bem a língua e ganham bons hábitos sobre como comportar-se na sala de aula. É mais divertido para um aluno estar com um professor inteligente que torna a aprendizagem divertida – este é um dos segredos do sucesso da Finlândia.

Em Portugal ou no Reino Unido ninguém quer ser professor.
É um problema também noutros países que, em comum, têm o facto de terem introduzido a “nova pedagogia” que diz que o estudante tem direitos e não é obrigado a obedecer ao professor. Quando o aluno pode entrar ou sair da sala de aula, pode chegar e não trazer os trabalhos feitos, pode dirigir-se ao professor de forma desrespeitosa, então, ninguém quererá ser professor.

Qual é o perfil de um bom professor?
Para ter bons professores é preciso ter um Governo que imponha boas regras. Um bom professor tem de ter uma boa preparação, em termos da língua e do conhecimento, e gostar de aprender. Mas é preciso aceitar que qualquer aluno possa estar em turmas de diferentes níveis.

Mas os alunos não deviam estar no centro das aprendizagens? Não é o professor que tem de se adaptar aos alunos?
(Riso) Já vi que sabe o jargão todo, foi a pergunta do “aprender a aprender”, a preocupação com a discriminação e agora o estudante no centro…

Acompanho o tema há muitos anos…
É uma boa pergunta, mas é uma forma enganosa de olhar para o assunto. Claro que a educação é para os estudantes, mas nada nos diz que é melhor ter um plano personalizado para cada um. Pelo contrário, o ensino funciona nos países onde os professores trabalham com grupos com as mesmas necessidades. É mais fácil que estes aprendam ao mesmo tempo. Essa ideia do aluno no centro leva a que seja precisa muita ajuda na escola e os recursos são mal usados. Se pensarmos em dinheiro, é mais económico aprender num grupo semelhante.

Há duas ideologias por detrás da ideia de que todos devem ter uma atenção pessoal, uma de direita e outra de esquerda. A de esquerda diz que todos somos iguais e quem não é precisa de ajuda para se tornar igual. A de direita diz que todos têm direito a atenção, direito à escolha, a ser um agente livre para fazer o que quer.

E qual é a que está certa?
Ambas estão erradas! Não funcionam e não são do interesse do estudante, do país ou da aprendizagem. Mas são muito comuns e apresentadas como algo moderno. A coisa correcta é ter bons professores, que ensinem bons programas e dar-lhes autoridade. Mas aos 12 anos é preciso dar escolha aos alunos porque é impossível estarem todos interessados nas mesmas coisas e, ao desinteressarem-se, tornam o trabalho dos professores impossível.

Como é que aos 12 anos eles sabem o que escolher? Em Portugal, o que se verifica é que aos 15 anos eles escolhem e há uma percentagem que volta atrás porque, de facto, não soube fazê-lo ou não teve maturidade para decidir.
Existem os professores que conhecem extremamente bem os seus alunos e sabem dizer o que é melhor. Não pode ser a próprio aluno, isso é errado. Deixem os professores serem os orientadores.

E os pais?
Talvez na retaguarda porque sabem menos sobre como é que o filho trabalha em sala de aula. Os pais têm sonhos e muitas vezes são ilusões sobre as capacidades dos filhos. Não penso que seja um problema os alunos começarem numa área e, mais tarde, mudarem porque têm mais maturidade, outros interesses, têm mais mundo ou querem fazer outra escolha. Na Suíça, o sistema tem itinerários para os adolescentes e os que escolhem uma via mais prática, se quiserem, podem voltar atrás e fazer a mais teórica. Isso não é um problema.

Qual deve ser o papel dos pais na escola?
Há diferentes tipos de pais. É mais difícil quando não se interessam, aí o papel do professor é muito importante porque todo o input intelectual fica a seu cargo. Há outros, os modernos, que querem assegurar que o filho tem as melhores notas e o melhor futuro profissional, de preferência numa firma internacional, diria que são exagerados. Numa situação normal, o papel dos pais é providenciar uma boa educação em casa: uma boa alimentação, uma boa noite de sono, ensiná-los a sair para brincar e garantir que chegam a horas à escola. Também devem dar-lhes estímulos intelectuais – à noite comerem e conversarem juntos sobre o que se passa no mundo e perguntar-lhes o que aprenderam. E mesmo se não souberem muito sobre esses temas, estão a estimular os filhos para recordarem a matéria. E mostram aos filhos que têm interesse.

Há países que se queixam de os pais não terem livros em casa. Na Coreia do Sul e em Singapura há duas gerações os pais não tinham livros, nem muita escolaridade, mas os filhos estão no topo [dos estudos da OCDE].

E os pais nunca devem falar mal dos professores?
Nunca. Podem dizer: “Se fosse eu não faria assim, mas aprende tudo o que puderes com essa pessoa.”

Nas férias do Verão, os alunos devem continuar a estudar?
Primeiro, é necessário ir com eles para a rua, depois pô-los a ler. Ler pelo prazer.

Isso não é difícil?
É difícil, mas é muito importante que os pais insistam. Até podem oferecer uma recompensa: “Lê dez livros e oferecemos-te uma viagem.” Este é um trabalho que tem de ser feito em casa. Se não forem bons leitores, não serão bons alunos.

Transmissão de factos, autoridade dos professores, pais fora da escola. Não é um regresso ao século XIX?
Não, mas o que defendo de séculos anteriores é a importância do conhecimento, que os estudantes devem respeitá-lo e querer adquiri-lo.

Mas eles estão convencidos que o conhecimento está no seu smartphone.
Isso é errado, errado, errado. Porque a nossa biologia não mudou e aprender é sobre mudar o nosso cérebro e se não o fizermos, então não aprendemos. A tecnologia é limitada, eles podem dizer muita coisa com o smartphone na mão, mas se lho tirarmos não sabem nada. É como se fosse uma prótese.

No entanto, eles estão à frente de ecrãs desde muito cedo. Por exemplo, no restaurante, ainda bebés, para não incomodarem os pais.
E é completamente errado. É curioso, na década 1950 os pais queriam oferecer uma prenda aos filhos e tinham dificuldade em fazê-lo. Agora, os pais dão tudo e não têm a coragem de dizer “não”. Muitos não estão preparados e não compreendem como é importante dizer “não” a alguém de quem gostam.

Porquê?
Porque queremos ser amados pelos nossos filhos e também porque, no caso dos ecrãs, pensamos que não é muito tempo e, por isso, não faz mal. Mas isso é errado porque através dos ecrãs as crianças não recebem todos os estímulos necessários para aprender e com o nosso dinheiro estamos a empobrecê-los.

 

 

 

Conferência “A Criança em Portugal, na Idade Média” 9 junho em Estremoz

Junho 6, 2018 às 5:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações no link:

https://www.facebook.com/events/196317537668206/

 

Comissão Europeia preocupada com equidade na educação, em Portugal

Fevereiro 12, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia https://www.educare.pt/ de 5 de janeiro de 2018.

Progressos na participação no pré-escolar, nos resultados obtidos no PISA, na redução do abandono escolar precoce e na luta contra o insucesso escolar. Ainda assim, Portugal precisa estar atento ao impacto das desigualdades sociais nos resultados dos alunos.

Andreia Lobo

Os alunos portugueses estão a conseguir melhores resultados. Há menos jovens, entre os 18 e os 24 anos, a abandonar a escola. Portugal vai conseguir assegurar até 2019 que o ensino pré-escolar público possa atender a todas as crianças entre os três e os cinco anos. A aposta na educação de adultos será “crucial” para aumentar a qualificação da população. O “Monitor da Educação e da Formação 2017” aponta os progressos alcançados e o que ainda pode melhorar no sistema educativo nacional.

Baixam os fracos aproveitamentos e aumentam as boas classificações dos alunos portugueses nas avaliações internacionais. Exemplo disso são as pontuações obtidas no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA) 2015 que testa os conhecimentos de literacia, matemática e ciências dos jovens de 15 anos e é realizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).

Desde a avaliação feita em 2012, as pontuações dos alunos portugueses aumentaram doze pontos nas ciências, dez pontos na leitura e cinco na matemática. A percentagem de alunos com fraco aproveitamento em Portugal diminuiu em todas as áreas testadas, situando-se abaixo da média da União Europeia (UE) na leitura (17,2%) e nas ciências (17,4%), mas acima da média na matemática (23,8%). Por outro lado, aumentou a percentagem de alunos que demonstram competências de elevada complexidade, estando mais próxima da média da UE.

Apesar da tendência positiva, a Comissão Europeia, entidade responsável pela publicação do relatório – que contém indicadores sobre os sistemas educativos dos 28 países União Europeia -, alerta que relativamente a Portugal “subsistem preocupações em relação à equidade”. A percentagem de alunos com fraco aproveitamento entre os mais carenciados é 25 pontos superior à dos alunos com estatuto socioeconómico mais favorecido (29,9% contra 4,5%).

Além disso, o relatório confirma que Portugal terá ainda de lidar com o facto de registar a terceira taxa mais elevada de repetições de ano na UE: 31 % dos estudantes portugueses chumbam. “O fosso social a este respeito é significativo, com taxas superiores a 52% entre estudantes desfavorecidos e inferiores a 9% entre os mais favorecidos.”

Já as diferenças entre alunos não migrantes e imigrantes de primeira e segunda geração ao nível do abandono escolar precoce, do desempenho no PISA e da taxa de repetições “são comparativamente pequenas”, lê-se.

A análise por país do “Monitor da Educação e da Formação 2017” refere o Plano Nacional de Promoção do Sucesso Escolar (PNPSE) – que prevê o sistema de provas de aferição no 2.º, 5.º e 8.º anos, o acompanhamento por um tutor dos alunos repetentes e a afetação de recursos suplementares às escolas que apresentem ao Ministério da Educação planos para melhorar o aproveitamento dos alunos – como uma “iniciativa emblemática” na prevenção do insucesso escolar e na redução dos chumbos em todos os níveis de ensino. Durante o primeiro ano de aplicação, aderiram ao PNPSE um total de 663 centros educativos, representando 80% das escolas portuguesas.

A redução do abandono escolar precoce, entendido como a percentagem de jovens entre os 18 e os 24 anos que não completaram o 12.º ano e não estão em ações de educação e formação, é outro dos indicadores em que Portugal se destaca. A taxa desceu de 34% em 2008 para 14% em 2016. Caso se mantenha a tendência, o país cumprirá o objetivo nacional de 10% previsto na  Estratégia Europa 2020.

Falta de instalações dificulta acolhimento dos zero aos 3 anos
É de esperar que até 2019 estejam criadas as condições para que em Portugal todas as crianças entre os 3 e os 5 anos possam frequentar o pré-escolar. Segundo dados do instituto de estatística europeu Eurostat, em 2015, 95,6% das crianças de cinco anos frequentavam o ensino pré-escolar.

A participação nas idades entre os 4 e os 6 era de 93,6%, ligeiramente abaixo da média da UE de 94,8%. No entanto, a Comissão Europeia lança um alerta para algumas falhas existentes ao nível dos cuidados para a infância: “A falta de instalações disponíveis faz com que seja mais difícil alargar a provisão universal de acolhimento na primeira infância, que está sob a responsabilidade dos serviços sociais, a crianças com idades entre os zero e os três anos”.

Novos cursos técnicos nos politécnicos
A Comissão Europeia, entidade que publica este relatório, reconhece ainda melhorias ao nível da taxa de conclusão do ensino superior: de 14,9% em 2003 para 34,6% em 2016, aproximando-se da média da UE de 39,1%. Ainda assim, “cumprir o ambicioso objetivo nacional da Europa 2020 será difícil”, lê-se no documento. A meta definida na Estratégia Europa 2020, recorde-se, é de conseguir pelo menos 40% de diplomados até esse ano.

A análise ao sistema educativo português destaca a iniciativa do Governo de pôr em prática medidas para ajudar a simplificar a oferta neste nível de ensino e acabar com a sobreposição de programas oferecidos nas universidades e politécnicos. Num cenário, onde prosseguem estudos superiores apenas 6%  dos alunos do ensino secundário profissional, contra 78% dos da via geral, recebe parecer positivo a criação dos Cursos Técnicos Superiores Profissionais (CteSPs). Funcionam no ensino politécnico e reservam até 50% das vagas para os alunos provenientes do ensino profissional, estando abertos a estudantes de diferentes vias e graus de ensino. Só em abril deste ano foram aprovados 598 cursos, no ano letivo de 2015/2016 estavam inscritos 6430 estudantes, na sua maioria no ensino público.

Educação para adultos é “determinante”
A promoção da educação de adultos, escreve a Comissão Europeia, “desempenha um papel crucial na política de educação atual, com o objetivo de combater o nível baixo de competências básicas da população adulta”. A participação de adultos, entre os 25 e os 64 anos, na aprendizagem ao longo da vida diminuiu ligeiramente, de 9,7% em 2013 para 9,6% em 2016, e permanece abaixo da média europeia de 10,8%.

De acordo com o relatório da Comissão Europeia, a recém-lançado Programa Qualifica – destinado à requalificação da população adulta, mas também dos jovens que não estudam, nem trabalham (NEET, na sigla inglesa) – “é um elemento determinante da estratégia do Governo para fomentar a educação de adultos”. A iniciativa pretende assegurar que 50% da população ativa conclua o 12.º ano e que 40% dos jovens entre os 30 e os 34 anos possam obter um diploma de ensino superior. Atualmente, existem cerca de 300 Centros Qualifica.

O relatório citado na notícia é o seguinte:

Education and Training Monitor 2017

mais informações no link:

http://ec.europa.eu/education/policy/strategic-framework/et-monitor_en

Novas medidas para fomentar as competências essenciais e as competências digitais, bem como a dimensão europeia da educação – Comissão Europeia

Fevereiro 7, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Comissão Europeia – Comunicado de Imprensa

Novas medidas para fomentar as competências essenciais e as competências digitais, bem como a dimensão europeia da educação

Bruxelas, 17 de janeiro de 2018

No seguimento da Cimeira de Gotemburgo, a Comissão Europeia adotou hoje novas iniciativas para melhorar as competências essenciais e as competências digitais dos cidadãos europeus, promover valores comuns e sensibilizar os estudantes para o modo de funcionamento da União Europeia.

As novas propostas chegam dois meses apenas depois de os Chefes de Estado e de Governo terem debatido os temas da educação, formação e cultura na Cimeira de Gotemburgo, em novembro de 2017. O seu objetivo é reduzir as desigualdades socioeconómicas, ao mesmo tempo que se favorece a competitividade com vista à criação de um Europa mais unida, mais forte e mais democrática.

Jyrki Katainen, Vice-Presidente da Comissão responsável pelo Emprego, Crescimento, Investimento e Competitividade, afirmou: «As iniciativas hoje lançadas visam capacitar os indivíduos para que possam tirar o máximo partido das suas vidas e para que possamos construir economias e sociedades justas e resilientes. É nosso dever garantir que a educação dá reposta às necessidades de todos os cidadãos, em toda a Europa, de modo a que possam adaptar-se às mudanças e delas tirar benefícios. Este desígnio é fundamental para o crescimento sustentável e a competitividade da Europa e a sua importância será ainda mais premente no futuro. Estamos prontos para apoiar os Estados-Membros e colaborar com eles nesse sentido.»

Tibor Navracsics, Comissário responsável pela Educação, Cultura, Juventude e Desporto, declarou: «Os sistemas europeus de educação e formação têm de dotar todas as pessoas, independentemente do meio de onde provêm, das competências adequadas para progredirem e prosperarem profissionalmente, mas também para lhes possibilitar o exercício de uma cidadania ativa.Temos de explorar o potencial da educação para favorecer a coesão social e fomentar um sentimento de pertença. Para tal, é necessário apoiarmo-nos nos nossos valores comuns e fazer da educação um vetor que permita aos alunos uma vivência da sua identidade europeia em toda a sua diversidade, veiculando-lhes conhecimentos mais aprofundados sobre a Europa, os outros países europeus e sobre si próprios.»

Mariya Gabriel, Comissária responsável pela Economia e Sociedade Digitais, acrescentou: «A era digital está a expandir-se para todas as áreas da nossa vida, e não são só as pessoas que trabalham no sector das tecnologias da informação que terão de estar atentas à transformação digital. O défice de competências digitais é real. Embora 90% dos empregos do futuro já exijam um certo nível de literacia digital, 44 % dos europeus carecem de competências digitais básicas. O Plano de Ação para a Educação Digital que hoje propomos contribuirá para ajudar os cidadãos europeus, as instituições de ensino e os sistemas educativos a melhor se adaptarem à vida e ao trabalho em sociedades cada vez mais digitais»

 

As novas propostas contribuirão igualmente para a primeira Cimeira Europeia para a Educação que o Comissário Navracsics acolherá em Bruxelas, em 25 de janeiro, subordinada ao tema «Lançar as bases do Espaço Europeu da Educação: para uma educação inovadora, inclusiva e assente em valores».

As três iniciativas propostas pela Comissão são as seguintes:

  1. Uma Recomendação do Conselho sobre as competências essenciais para a aprendizagem ao longo da vida: Com base na Recomendação sobre as competências essenciais adotada em 2006, esta proposta consubstancia atualizações importantes que traduzem a rápida evolução do ensino e da aprendizagem desde então. Visa melhorar o desenvolvimento de competências essenciais das pessoas de todas as idades ao longo das suas vidas, fornecendo aos Estados-Membros orientações sobre a forma de atingir esse objetivo. Coloca uma tónica particular na promoção de mentalidades empreendedoras e orientadas para a inovação, a fim de estimular nos indivíduos as suas potencialidades, criatividade e iniciativa própria. Além disso, a Comissão recomenda medidas para promover competências nos domínios da ciência, da tecnologia, da engenharia e da matemática (CTEM) e motivar mais jovens a enveredar por uma carreira nestas áreas. As propostas hoje apresentadas devem também ser consideradas parte da estratégia que visa melhorar urgentemente os sistemas educativos europeus para enfrentar os muitos desafios salientados no mais recente estudo PISA. De um modo mais geral, as medidas ajudarão os Estados-Membros a prepararem mais eficazmente os alunos para mercados de trabalho em permanente mutação e para o exercício de uma cidadania ativa em sociedades mais diversificadas, móveis, digitais e globais.https://ec.europa.eu/education/sites/education/files/recommendation-key-competences-lifelong-learning.pdf
  2. Um Plano de Ação para a Educação Digital, que descreve a forma como a UE pode ajudar as pessoas, as instituições de ensino e os sistemas educativos a melhor se adaptarem à vida e ao trabalho numa era marcada pela rápida evolução digital, mediante:
  • uma melhor utilização da tecnologia digital no ensino e na aprendizagem;
  • o desenvolvimento das competências e aptidões digitais necessárias para viver e trabalhar na era da transformação digital; e
  • a melhoria da educação através de análises e projeções mais precisas.

As iniciativas consistem, nomeadamente, em apoiar as escolas por meio de ligações de banda larga de alta velocidade, da disseminação nas escolas de uma nova ferramenta de autoavaliação da utilização das tecnologias no ensino e na aprendizagem (SELFIE) e de uma campanha de sensibilização sobre segurança em linha, literacia mediática e ciber-higiene.

  1. Uma Recomendação do Conselho sobre a promoção de valores comuns, da educação inclusiva e da dimensão europeia do ensino:Esta iniciativa propõe formas de a educação ajudar os jovens a compreender a importância dos valores comuns consagrados no artigo 2.º do Tratado da União Europeia e de os respeitar. Visa reforçar a coesão social e contribuir para a luta contra a ascensão do populismo, da xenofobia, do nacionalismo fraturante e da difusão de notícias falsas. A proposta salienta também a importância da educação inclusiva para promover uma educação de qualidade para todos os alunos, bem como a dimensão europeia do ensino, de forma a que as crianças aprendam sobre a diversidade e o património comum da Europa e compreendam cabalmente o funcionamento da UE. Para alcançar estes objetivos, a Comissão tomará medidas para multiplicar os intercâmbios virtuais entre escolas, nomeadamente através da iniciativa de sucesso de e-Twinning (geminação eletrónica de escolas), e fomentar a mobilidade escolar através do programa Erasmus +.

Contexto

Os Chefes de Estado e de Governo debateram informalmente os temas da educação e da formação na Cimeira Social de Gotemburgo, em novembro de 2017, orientados pelos princípios enunciados na Comunicação da Comissão «Reforçar a identidade europeia através da educação e cultura». Em consequência, as Conclusões do Conselho Europeu de 14 de dezembro de 2017 convidaram os Estados-Membros, o Conselho e a Comissão a levar por diante a agenda debatida em Gotemburgo. A revisão da Recomendação do Conselho de 2006 sobre as competências essenciais para a aprendizagem ao longo da vida foi anunciada na Nova Agenda de Competências para a Europa, adotada em junho de 2016. Para elaborar a presente proposta, a Comissão realizou, em 2017, uma consulta pública e uma conferência que reuniu as partes interessadas.

A proposta de recomendação do Conselho sobre a promoção de valores comuns, da educação inclusiva e da dimensão europeia do ensino tem por base a Declaração de Paris sobre a promoção da cidadania e dos valores comuns da liberdade, da tolerância e da não discriminação através da educação, adotada na reunião informal de ministros da educação em março de 2015. Foi anunciada na Comunicação da Comissão sobre o apoio à prevenção da radicalização que conduz ao extremismo violento, de 14 de junho de 2016. Para elaborar a presente proposta, a Comissão realizou uma consulta pública em 2017.

 

Para saber mais:

MEMO — Perguntas e respostas

Ficha informativa sobre o Espaço Europeu da Educação

Ficha informativa sobre as competências essenciais para a aprendizagem ao longo da vida:

Ficha informativa sobre o Plano de Ação para a Educação Digital

Ficha informativa sobre a promoção de valores comuns, da educação inclusiva e da dimensão europeia do ensino

Recomendação do Conselho sobre as competências essenciais para a aprendizagem ao longo da vida:

Recomendação do Conselho sobre a promoção de valores comuns, da educação inclusiva e da dimensão europeia do ensino

Plano de Ação para a Educação Digital

Página Web da Aprendizagem digital

Fichas informativas sobre a Cimeira de Gotemburgo

VI Encontro da Rede de Bibliotecas Escolares de Lisboa . Literacias na Educação. Educação para as Literacias – 29 janeiro em Lisboa

Janeiro 20, 2018 às 6:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Inscrição até 24 de Janeiro

mais informações:

http://www.cm-lisboa.pt/noticias/detalhe/article/bibliotecas-escolares-discutem-literacias-e-educacao

 

 

A cultura da escola vai mudar “porque a economia está a pedir coisas diferentes”

Janeiro 3, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Nuno Ferreira Santos

Entrevista do https://www.publico.pt/ a Maria Emília Brederode Santos no dia 27 de dezembro de 2017.

Maria Emília Brederode Santos mostra-se satisfeita com as medidas já adoptadas pelo actual ministro da Educação e quer saber mais sobre as escolas que têm conseguido superar as expectativas que existiam sobre elas devido ao meio de origem de grande parte dos seus alunos.

Clara Viana

Aos 75 anos, a pedagoga Maria Emília Brederode Santos substituiu, em Outubro, o ex-ministro David Justino no cargo de presidente do Conselho Nacional de Educação — um órgão independente, com funções consultivas, constituído por académicos e especialistas, cujo presidente é eleito pela Assembleia da República.

Refere-se aos alunos por “meninos” e defende que tanto por razões de “justiça individual”, como de “justiça social”, se deve apostar num currículo mais amplo, que dê espaço às expressões artísticas, à educação para a cidadania, mas também às novas competências que hoje são pedidas pela economia e que, segundo ela, acabarão por levar a uma mudança da actual cultura escolar.

Porque é que aceitou este desafio nesta altura?
Quando estava relativamente sossegada? Primeiro porque não o estava. Desde que me reformei tenho continuado a trabalhar mais ou menos tanto quanto antes. A diferença é que tenho que trabalhar sobre algumas coisas que normalmente não trabalharia. Mas isso também é bom. Obriga-nos a não ir só por aquilo que já conhecemos e em que estamos interessados.

Mas pensa que tem algum contributo a dar a este sector tendo em conta a sua experiência?
Sim. Não gosto de me levar muito a sério. Mas penso que tenho uma visão humanista e com algumas preocupações que poderão interessar a um organismo como o Conselho Nacional de Educação (CNE). Primeiro porque penso que sou muito democrática e o CNE é um órgão muito democrático. O principal interesse do CNE é o de ter tantos parceiros da educação aqui representados e com interesses muitas vezes contraditórios. E eu gosto do contraditório. Aliás, um dos primeiros livros que escrevi tinha em epígrafe uma frase, que já não sei de quem era, mas de que gosto muito, que é a seguinte: o adversário é o principal amigo do investigador. Podia dizer-se também do decisor. Uma das minhas intenções é reforçar muito as comissões especializadas, que é onde há mais debate, para se construir senão consensos, pelo menos compromissos e ir mais longe, melhorar as decisões.

No prefácio ao relatório Estado da Educação 2016 que assinou defende que se deve levar às escolas o debate sobre “questões fracturantes”. Considera que a sociedade está disposta a aceitá-lo? Pergunto isto tendo na memória a onda de protestos que suscitou a possibilidade levantada pelo Ministério da Educação de se abordar a Interrupção Voluntária da Gravidez no 2.º ciclo de escolaridade, propósito que foi depois deixado cair. 
Esse é um assunto particularmente delicado, mas penso que há outros temas que interessam aos jovens ou que se pode levá-los a interessar-se e que são menos fracturantes. Por exemplo, a questão das fake news. Sempre defendi a necessidade de uma educação para os media, mas quando eu defendia isso era mais a televisão, os jornais. Hoje é global. Agora toda a gente diz que as fake news sempre existiram. É verdade, mas não desta maneira, como uma prática quase aceite em que até se inventam eufemismos para a palavra “mentira”. Penso que é uma questão de sobrevivência democrática haver uma formação mediática que permita às pessoas saberem defender-se e com o que estão a lidar.

E essa formação continua a estar ausente das escolas?
Depende muito dos professores. O que seria interessante era adoptar como perspectiva que as escolas deveriam tratar algumas questões transversais, aquilo que os franceses agora chamam questões vivas, os grandes problemas da actualidade, e sobre as quais os jovens ouvem falar e se poderão interessar mais. A sua abordagem obriga à transversalidade e ao trabalho de colaboração. Podem desenvolver-se mais estas competências dos jovens e criar também uma outra dinâmica nas escolas.

Em princípio esse é um dos objectivos do novo projecto da flexibilidade curricular que este ano lectivo está a ser desenvolvido em 235 escolas. Como é que vê esse projecto?
Ainda não vejo nada porque não conheço. Mas gostava muito que no CNE o acompanhássemos. Gostava de ver como é que as escolas estão a pegar na possibilidade de organizarem o currículo e de terem mais autonomia.

E como é que o CNE poderia fazer isso? No mesmo prefácio ao Estado da Educação defende que o CNE deve ir mais para o terreno, entrar na escola, nas salas de aula…
É uma questão de organizar e de fazer essas idas. Não estou a dizer que se façam investigações de fundo com a preocupação de uma grande representatividade. É mais a aposta de tentar identificar os caminhos que estão a ser seguidos e os problemas que surgem a tempo de serem corrigidos.

Muitas vezes as escolas não são muito receptivas a olhares que vêm de fora.
Nunca tive esse problema enquanto estive Instituto de Inovação Educacional [foi presidente entre 1997 e 2002] onde fazíamos muito esse acompanhamento de escolas. Desde que não haja um olhar fiscalizador, avaliador, penso que não existem problemas. E aqui o objectivo seria ir às escolas para aprender com elas e tentar melhorar em conjunto.

Também nesta perspectiva de proximidade, uma outra actividade em que o CNE se deve envolver é com as escolas que ultrapassam as expectativas. Tentar perceber quais são os caminhos que podem permitir que as escolas tragam de facto um valor acrescentado aos meninos

Os resultados do último PISA [testes internacionais que visam avaliar a literacia dos alunos com 15 anos] mostram que em Portugal o número destas escolas tem vindo a subir.
É curioso porque ao mesmo tempo também somos dos países, na Europa, onde há uma maior correlação entre o peso do meio social de onde se vem e os resultados escolares.

É como se estivéssemos ao mesmo tempo a viver em dois mundos. O que leva aquelas escolas, chamadas “resilientes”, a fazerem a diferença?
Não sei. Mas vou ver. É fantástico para as pessoas da educação que a escola possa fazer a diferença. Por um lado é uma grande responsabilidade, mas por outro lado uma grande motivação.

No seu seu texto defende o “reforço da intencionalidade educativa junto das crianças dos 0 aos três anos”. Quer isso dizer que deve existir um currículo para crianças tão pequenas?
Tudo isto são assuntos a analisar. Claro que não pode ser confundido com a ideia de um currículo escolar, mas a intencionalidade educativa já existe porque todas as creches têm de ter uma educadora de infância. É mais uma questão de se tomar consciência da importância disso. Porque há muito a tendência de se pensar que dos 0 aos 3 anos o que é preciso é que as crianças estejam bem alimentadas, estejam seguras, bem cuidadas. Mas também é importante conversar com elas, brincar com elas, contar-lhes histórias, ler-lhes poesias e é chamar a atenção para isso sem que se caia no excesso de estimulação.

Em Portugal há o compromisso de se universalizar o pré-escolar aos três anos de idade até 2020, mas o último Estado da Educação aponta para uma redução da proporção de crianças a frequentar este nível. Tem algumas pistas para explicar o sucedido?  
Não, mas penso que devíamos ir ver, analisar, porque só constatar não chega. O Estado da Educação é um retrato, assim como alerta o Ministério da Educação e a Assembleia da República para determinados problemas, também nos deve alertar a nós próprios para tentar, sempre que possível, perceber o que as coisas significam.

Falando do estado da educação, como é que define hoje a escola em Portugal?
Como uma escola que fez uns avanços extraordinários, pelo menos no que é medido pelos testes internacionais e em certas disciplinas, mas receio que também esteja um pouco cristalizada e tenho pena de que tenha perdido a riqueza curricular. As pessoas, os meninos, são tão diferentes e há quem possa dar o melhor de si de outra maneira que não só na matemática e na língua materna.

Era importante que houvesse uma muito maior variedade de actividades e de aprendizagens. Por [uma questão de] justiça individual, já que toda a gente merece desenvolver-se em vários aspectos, mas também por justiça social, porque enquanto existem meninos cujas famílias valorizam a música e o teatro e os levam a essas actividades, há outros que não têm essa possibilidade. E, já que a escola é a única rede que chega a toda a gente, deveria proporcionar a todos essas aprendizagens e esse contacto com outras realidades.

Considera então que nas escolas existe pouco espaço dado ao conjunto das expressões?
Sim. Há pouco espaço dado às expressões artísticas, à educação para a cidadania, às tais questões transversais de que já falei.

Mas isso não aconteceu sempre?
Não, começou a acontecer quando os testes internacionais começaram a realizar-se. Estes testes foram e são importantes para nos ajudarem a situar e para ver que progredimos mas, como se situam só em certas áreas, também tiveram esse efeito redutor.

Que também foi potenciado pela generalização dos exames?
Penso que sim. Considero que de vez em quando é importante haver exames, mas quando se introduz esta avaliação tem de se ter consciência dos efeitos perversos que por vezes esta tem, como o de valorizar só determinadas áreas que são mais facilmente examinadas.

A função dos exames e da avaliação pode ser múltipla. Mas como pessoa da educação estou mais interessada nas informações que me podem dar para melhorar. Se um menino mostra dificuldades na resolução de um teste o que me interessa é tentar identificar quais são essas dificuldades, e porque é que existem, para poder intervir imediatamente para melhorar.

É então uma adepta das provas de aferição introduzidas pela actual tutela?
Sim, embora as provas de aferição sejam mais para aferir o sistema. E acho que até para os meninos é bom que haja provas, não sei se lhes chamaria de aferição ou outra coisa qualquer. Uma das coisas que a OCDE também recomenda é a intervenção ao primeiro sinal de dificuldade. Como é nós sabemos quando esse sinal acontece? Tem de ser através de um acompanhamento muito próximo do aluno ou através de qualquer manifestação. Não estou nada contra as provas mas depende da atitude com que são encaradas. Para que é que elas servem?

Intervir ao primeiro sinal de dificuldade não deveria ser o papel do professor, que é quem está mais próximo do aluno? Face aos fracos desempenhos dos alunos também evidenciados pelas provas de aferição pensa que este trabalho está a ser bem feito pelos professores? Têm essa formação?
Sempre que se fala em formação, os professores sentem isso como uma acusação, portanto não queria ir por aí. Mas há uma determinada cultura escolar que ainda perdura, do século XIX, século XX, que é dar a matéria. Isso antes fazia-se para grupos de alunos relativamente homogéneos, mas entretanto a população mudou, já não é uniforme. Terá de haver um repensar da escola no seu todo para fazer evoluir esta cultura da escola para uma cultura algo diferente e penso que isso vai acontecer. Porque a economia está a pedir coisas diferentes.

O que a economia hoje pede são competências diferentes daquelas que este modelo de escola desenvolve. Para além das competências digitais e do inglês língua estrangeira, requer-se hoje os chamados “soft skills”, ser capaz de colaborar, ter espírito de iniciativa. Sem querer que a escola ande a reboque da economia, penso que isso vai condicionar a escola. O que eu gostava é que a escola, para além de desenvolver estas novas competências, também formasse pessoas capazes de decidir o seu destino e de escolher em que tipo de sociedade pretendem viver.

Qual a avaliação que faz do mandato do ministro da Educação? 
Acho que nestes dois anos muita coisa já foi feita no sentido que gostaria, do tal alargamento do currículo, da maior autonomia das escolas, da vontade de valorizar a aprendizagem e não tanto os resultados. Tem ido nesse sentido, o que eu aprecio.

 

Estado da Educação: Alunos que estão atentos às aulas têm boas notas

Dezembro 21, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
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Notícia do http://observador.pt/ de 12 de dezembro de 2017.

A maioria dos alunos portugueses do secundário recorre a explicações, sendo os estudantes que estão com mais atenção nas aulas os que conseguem melhores resultados académicos, revela relatório.

A maioria dos alunos portugueses do secundário recorre a explicações, sendo os estudantes que estão com mais atenção nas aulas os que conseguem melhores resultados académicos, revela o relatório “Estado da Educação 2016”, divulgado esta terça-feira.

O Conselho Nacional de Educação (CNE) faz, no relatório “Estado da Educação 2016”, um retrato socioeconómico dos alunos e do seu desempenho académico, mas também da rede de escolas, do universo de professores e diretores assim como do financiamento atribuído a esta área, que abrange desde as crianças que entram para o pré-escolar até aos adultos que decidem voltar à escola.

A forma como os alunos do ensino secundário estuda e se prepara para as provas também é referido no relatório que indica que Portugal tem a percentagem mais elevada de alunos do ensino secundário que recorre a explicações fora do espaço escolar.

“61% (dos alunos) declaram ter aulas particulares de Matemática para ter boa nota nos exames”, lê-se no relatório divulgado.

Mas existem três ou quatro formas de agir que parecem ajudar no sucesso académico, tendo em conta os bons resultados dos alunos portugueses que participaram em provas internacionais.

Os estudantes com melhores notas dizem que “estão mais atentos nas aulas e resistem ao barulho e à desorganização”.

Além disso, estes alunos são mais perseverantes, “pois consideram que não desistir conduz a melhores resultados” e são também “mais autoconscientes da sua responsabilidade”.

O relatório aponta ainda como bom preditor de sucesso os alunos que dizem que querem ter boas notas e que querem ser dos melhores.

Em sentido oposto, faltar às aulas é apontado como um problema que poderá comprometer os resultados académicos, notando-se uma diferença muito grande entre a maioria dos alunos que nunca falta e uma pequena percentagem de quem falta com muita frequência.

O Estado da Educação revela ainda que os professores do secundário optam quase sempre por pedir aos alunos que façam trabalhos de casa que estão nos manuais – “os exercícios do livro são mais populares” — em detrimento de trabalhos de projeto, que foram apontados apenas por 13% dos alunos inquiridos.

Outro dos problemas prende-se com o facto de em Portugal a grande maioria das aulas continuar a ser expositiva, o que levou a presidente do CNE, Maria Emília Brederode Santos, a defender que é preciso repensar os métodos de ensino ainda utilizados pelos professores.

Maria Emilia Brederode Santos acredita que as aulas em que o professor se limita a falar sobre a matéria e os alunos a ouvir podem ter impacto na elevada taxa de insucesso escolar e Portugal é um dos países onde os professores mais utilizam o método expositivo (apenas ultrapassado pelos irlandeses).

As aulas expositivas são o método seguido por todos os docentes e não apenas pelos mais velhos: esta opção “não se correlaciona com a idade dos professores, mas sim com práticas enraizadas nos diferentes países”, sublinha o relatório.

descarregar o relatório Estado da Educação 2016 no link:

http://www.cnedu.pt/content/noticias/CNE/CNE-EE2016_web.pdf

 

 

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