A ansiedade e os traumas de pais e filhos no dia em que as crianças entram na creche

Setembro 12, 2018 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Texto do site MAGG de 3 de setembro de 2018.

por Catarina da Eira Ballestero

Semanas antes do derradeiro momento, há pais que já não conseguem controlar a ansiedade. A MAGG ouviu mães, educadoras e psicólogas.
horo. Há muitas lágrimas envolvidas no primeiro dia de creche dos filhos depois de umas férias de verão, sobretudo se for a primeira vez que as crianças deixam o núcleo familiar de pais e avós e enfrentam um mundo novo numa escola. No início desta nova etapa na vida de uma família, nem sempre são apenas os miúdos que choram — em muitos casos, as lágrimas mais insistentes correm dos olhos das mães e dos pais.

Foi o que aconteceu a Paula Santos, 43 anos, mãe de um rapaz e duas meninas, mas apenas quando repetiu a experiência. A entrada do filho mais velho na creche, que aconteceu quando o bebé tinha seis meses, foi relativamente tranquila — a jornalista não se consegue recordar de o momento ter sido doloroso. “Honestamente, quando olho para trás, não me lembro de me ter custado muito. Eu via-o como um bebé forte e de fácil adaptação e tínhamos gostado muito da educadora de infância que o iria acompanhar”, conta Paula Santos à MAGG, que admite que o cenário se alterou completamente com a segunda filha.

Apesar de ter inscrito a bebé exatamente com a mesma idade do irmão mais velho, Paula recorda que os momentos não podiam ter sido mais distintos. A entrada da filha na creche foi um período complicado. “No primeiro dia quase não consegui falar com as cuidadoras, tinha a voz embargada e fui-me embora a chorar. Foi impossível evitar. Tinha de ir buscá-la passada uma hora e fiquei no carro à porta do infantário, a trabalhar e a contar os minutos”, recorda a jornalista, que está quase a passar por esta experiência uma terceira vez.
Prestes a lidar com a entrada da filha mais nova na creche (que irá acontecer esta segunda-feira, 3 de setembro), e apesar de a menina ter dois anos e ser mais velha do que os irmãos aquando da ingressão num espaço escolar, Paula diz já estar a sofrer por antecipação. “Estou certa de que irá correr tudo bem, porque é uma criança sociável e vai para a mesma instituição onde está a irmã, na qual confiamos; mas isto é o meu lado racional a falar. O lado animal de mãe tem as sirenes todas ligadas com a expetativa da separação. Só posso concluir que tenho vindo a piorar em vez de melhorar. Nem quero imaginar se tiver um quarto filho”.

As maiores preocupações dos pais

Na generalidade, o primeiro dia de creche não é fácil para as crianças nem para os adultos. Trata-se de uma situação delicada, que pressupõe uma separação e uma grande mudança na dinâmica familiar — e são várias as questões que preocupam os progenitores.

De acordo com Beatriz Matoso, psicóloga clínica, os pais preocupam-se muito em “como vão as crianças suportar a sua ausência, como vão comer e adormecer num ambiente estranho, se são capazes de se adaptar à nova realidade social que lhes é desconhecida, onde é fundamental sentirem-se bem com os educadores e com as outras crianças”.

A educadora de infância Carlota Yoshicawa assina por baixo, e explica à MAGG que a ansiedade dos pais nos primeiros dias de creche prende-se muito com a preocupação em deixar os filhos com alguém que lhes é desconhecido. “Por mais que confiem em nós, educadores, não deixamos de ser um extra, alguém que lhes vai ficar com os filhos, por vezes até mais tempo do que eles próprios”, afirma Carlota Yoshicawa, que também assume que, mesmo que apenas no primeiro dia, os pais não conseguem deixar de pensar se os mais pequenos estão bem entregues, “ficam sempre na dúvida se as crianças vão receber a mesma atenção e mimo que têm em casa”.

Esta é uma ideia partilhada pela também educadora de infância Marta Parracho, que admite que as mães tentam perceber como será o dia a dia dos filhos na creche. “Preocupam-se em saber tudo o que a criança irá fazer desde que chega até que sai e tentam dar-nos a conhecer todas as manias, manhas e preferências dos filhos para que saibamos o que fazer em cada momento”, afirma a profissional.

Ana Gomes, 30 anos, mãe de Vitória, hoje com 15 meses, passou por isso no primeiro dia de creche da filha, na altura com apenas quatro meses. A blogger responsável pela plataforma “A Melhor Amiga da Barbie” estava muito nervosa e acreditava que a adaptação da filha iria ser difícil. “Afinal, como é que estranhos iam tomar conta da minha bebé sem lhe conhecerem os truques? Pensei que ela fosse chorar imenso”, recorda Ana Gomes.

Mas a blogger não está sozinha: de acordo com a educadora Marta Parracho, são muitas as mães que têm pânico que os filhos desatem a chorar, embora esse seja um receio normal. “Percebo que nenhum pai quer deixar o filho para trás em lágrimas, mas esse é um comportamento expetável para uma criança que é deixada num local onde nunca esteve, com pessoas que não conhece e em quem ainda não confia”, afirma a profissional.

Para além do choro, e apesar de a psicóloga clínica Vera Lisa Barroso alertar que os receios das mães diferem muito de acordo com a idade da criança, a especialista realça que, “perante crianças mais novas, com menor destreza física e a marcha recentemente conquistada, muitos dos medos prendem-se com a possibilidade de os filhos caírem e magoarem-se, ou eventualmente não se conseguirem defender dos colegas mais velhos”.

“Os pais não devem impor a sua presença na creche depois de entregar a criança.”

Quando as crianças ainda não dominam a fala, Vera Lisa Barroso explica que “os medos podem prender-se com o facto de os filhos não conseguirem comunicar o seu dia ou solicitar a ajuda precisa em determinadas situações decorrentes na creche”. Já no caso de crianças mais velhas, mais introvertidas ou ansiosas, “os pais podem recear a dificuldade no estabelecimento de relações sociais, envolvimento e interação com os pares; quando são irrequietas, podem recear a obediência às regras e limites estabelecidas pelos adultos ou mesmo a desestabilização das normas da sala e do comportamento do grupo”, explica a especialista, que alerta que é expectável que os pais mais ansiosos e protetores antecipem muitos perigos e dificuldades.

Em todo o caso, as preocupações fundamentais prendem-se com o bem-estar e com a boa adaptação dos filhos à creche, acima de tudo. A psicóloga Vera Lisa Barroso destaca que os adultos querem muito saber se “a criança se alimenta bem, dorme, respeita regras e limites da sala, ouve e respeita as educadoras, interage com os pares e fica bem quando é deixada de manhã”, sendo um bom sinal quando regressa a casa bem-disposta e alegre.

Alerta vermelho: o que não deve (mesmo) fazer nos primeiros dias de creche

Lúcia Pimentel, 36 anos, é mãe de três filhos, com 16, 15 e quatro anos e, tal como conta à MAGG, a experiência de os deixar ao cuidado de terceiros quando teve de regressar ao trabalho não foi fácil.

“Um tinha dois anos, o outro apenas oito meses. Nunca os tinha deixado com ninguém e estava a passá-los para o colo de uma pessoa totalmente desconhecida”, afirma a assistente hospitalar, que recorda que estava muito insegura e ansiosa. “O meu coração batia a mil, tinha medo, já estava com saudades deles. Na verdade, parecia que ia tudo desabar à minha volta e tinha uma vontade enorme de chorar, coisa que aconteceu assim que os passei para o colo das profissionais”, conta Lúcia Pimentel.

“Não concordo, e não sou a favor, de ficarem ali agarrados aos filhos com várias trocas de palavras, como quando tentam enganá-los, dizendo ‘vou ali e venho já’.”

Porém, a educadora Marta Parracho alerta que a ansiedade das mães, apesar de compreensível, não deve ser demonstrada às crianças, bem como “manifestar preocupações em conversas com a educadora ou familiares em frente aos mais pequenos”. A educadora assinala também outras atitudes contraproducentes e negativas para a adaptação dos miúdos, como “deixá-lo entregue à educadora e, depois de ouvir o filho chorar, voltar a trás e levá-lo para casa; ir à creche um dia e no seguinte não (a rotina é extremamente importante nesta fase); e não cumprir o que prometeu à criança, como dizer que a vai buscar depois do almoço, e afinal só aparece depois do lanche”.

Já a educadora Carlota Yoshicawa não tem dúvidas quanto ao que considera ser uma das piores estratégias utilizadas pelos pais: “Não concordo, e não sou a favor, de ficarem ali agarrados aos filhos com várias trocas de palavras, como quando tentam enganá-los, dizendo ‘vou ali e venho já’. Nos primeiros dias, e em alguns casos ainda durante as semanas seguintes, os pais não devem alongar o tempo de entrega dos filhos. Deve ser um momento calmo com uma troca de carinho e uma palavra à educadora ou auxiliar, transmitindo à criança confiança neles e nos adultos”.

A psicóloga Beatriz Matoso também reforça a importância de uma coordenação atenta, disponível e confiante entre pais e educadores durante este processo de entrada na creche, alertando, mais uma vez, que as mães e pais “não devem impor a sua presença na creche depois de entregar a criança, a menos que essa seja solicitada, bem como referirem-se aos educadores como agentes de uma autoridade castigadora e à creche como um lugar de possível castigo”.

A adaptação a um novo espaço é um processo para pais e filhos

Apesar do nervosismo, Ana Gomes conta que a adaptação da pequena Vitória acabou por ser melhor do esperava: “Correu tudo lindamente, ela nunca chorou, nem nos primeiros dias, nem posteriormente”. E, de acordo com os profissionais que trabalham na área da educação, bem como dos especialistas em psicologia, o processo de adaptação é realmente muito importante, existindo várias ferramentas e ideias que os pais podem usar para que este corra da melhor forma.

Uma das estratégias é aumentar gradualmente o tempo de permanência das crianças na creche. A educadora de infância Carlota Yoshicawa realça que esta é uma ótima ideia, dado que, por vezes, existem casos de crianças que nunca foram deixadas com estranhos. “Se até à data estiveram em casa com familiares ou caras já conhecidas, ali encontram-se numa sala que lhes é completamente estranha, com adultos e outras crianças que nunca viram na vida”, alerta a educadora, que acrescenta que “a realidade é que são cerca de oito horas com esses ‘estranhos’, e nos primeiros dias, é um choque muito grande para os mais pequenos”.
A criação de rotinas é igualmente importante para os mais pequenos, tal como explica Carlota Yoshicawa: “A criança deve começar a ter noção das suas rotinas, e saber que existem momentos para a brincadeira, para a higiene e para a alimentação. Assim, quando a mãe tiver de o colocar na creche, sabe que ele já vai com essa noção e não se vai sentir perdido e desamparado”.

Para que esta nova fase na vida de uma família seja tranquila, a educadora Marta Parracho sugere que encarregados de educação e educadores se conheçam antes de a criança começar a frequentar a creche. “Uma conversa aberta com a educadora sem qualquer vergonha, sem tabus, sem complexos, assumindo desde logo a ansiedade pode ajudar na relação entre pais e profissionais, e no ganho de confiança e segurança entre todos”, salienta Marta Parracho, que não é a única a acreditar na importância vital de encontros prévios com as educadoras.

“Para se assegurarem de que os seus filhos ficam bem entregues, os pais devem contactar previamente os educadores para os conhecerem e lhes colocarem as questões que os preocupam, aproveitando para lhes pedir orientações que facilitem a adaptação da criança a esta nova realidade”, afirma a psicóloga Beatriz Matoso, que ainda oferece outra preciosa dica. “Uma foto da criança em interação com outros miúdos, enviada para o telemóvel da mãe e do pai, pode reduzir a ansiedade e facilitar o processo de adaptação em curso”, conclui a especialista.

10 Mães de 10 nacionalidades revelam as diferenças na forma como educam os filhos

Setembro 3, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto e imagem da Activa de 21 de agosto de 2018.

Catarina Fonseca

Em que é que uma mãe japonesa é diferente de uma mãe sueca? Todas as mães são únicas, mas há formas de educar que passamos culturalmente de geração em geração. Pedimos a mães de outros países que nos dissessem como educam os seus filhos. E deram-nos muitas ideias que talvez possamos ‘importar’…

*artigo publicado originalmente em julho de 2015

Zoe Tsang | China | duas filhas de 2 anos

As minhas gémeas são tudo para mim. Em Honk Kong, é moda ter uma empregada doméstica o dia todo para tratar da casa e para tomar conta das crianças. Eu também tenho, mas prefiro tratar das minhas filhas eu própria. Eu e a minha irmã temos a nossa própria escola de inglês, e isso torna possível que tenhamos horários mais flexíveis.
Os laços de família são muito importantes para os chineses. Tentamos apoiar-nos uns aos outros e funcionamos como uma unidade. Lembro–me que na Dinamarca, onde cresci, a maioria dos adolescentes sai de casa à volta dos 18 anos. Aqui, em Hong Kong, só deixamos a nossa família para casar, e isso não é malvisto. Há mesmo quem continue a viver em casa dos pais depois do casamento, escolhendo funcionar como uma família maior. Mas hoje em dia já há pessoas mais novas que vivem de forma mais ‘ocidentalizada’, e já saem mais cedo de casa para viverem sozinhos.
Como chinesa, acho que a minha responsabilidade é ensinar às minhas filhas o valor da família como um todo, para que possam viver uma vida feliz e harmoniosa.

Olga Volodymyrivna | Ucrânia | um filho de 4 anos

Uma coisa que as mães ucranianas fazem é: nunca obrigamos as crianças a comer. Não quer,
não come.
Outra diferença: é impossível, na Ucrânia, alguém que tenha um bebé a gatinhar deixar entrar pessoas em casa sem tirar os sapatos. Também acho isso um bocado exagerado. As ucranianas limpam o chão duas vezes por dia, se for preciso.
As crianças ucranianas costumam ser boas alunas porque os pais as ensinam a levar a escola muito a sério. Os pais estão em contacto constante com os professores e ajudam as crianças no seu percurso escolar.

Maria José Benito | Espanha | dois filhos de 11 e 14 anos

Na minha opinião, as mães portuguesas não fazem grande diferença das espanholas, porque as nossas sociedades são cada vez mais parecidas e isso faz com que a educação que damos aos filhos também seja cada vez mais similar.
Se calhar, nós somos mais expansivas. Eu, como mãe espanhola, diria às portuguesas para exprimirem mais os sentimentos aos filhos, não só com palavras, mas também com beijos, abraços, festas… porque isso pode fazer milagres! E quando temos de ralhar com eles, que seja também para ralhar mesmo!
Também lhes diria para ensinarem aos filhos a valorizar mais o facto de serem portugueses, a defender a sua cultura, a sua língua e a terem orgulho neles próprios.

Mikaela Öven | Suécia | três filhos entre 7 e 11 anos

As mães suecas são descontraídas. Não temos medo do frio, nem da criança se sujar, nem de cair do baloiço. Só se estiver um tempo mesmo mesmo impossível é que não saímos de casa, estamos habituados a sair e a brincar lá fora com todo o tipo de tempo. Também temos uma relação muito forte com a natureza, não gostamos de estar fechados.
As mães portuguesas vestem as crianças de maneira muito arranjadinha (risos). Nós damos prioridade ao conforto acima de tudo. O que interessa é que a criança consiga brincar e esteja confortável.
As mães suecas dão muita liberdade às crianças, não andam sempre em cima delas. Elas vestem o casaco se quiserem. Respeitamos muito a individualidade delas. Temos uma relação muito de igual para igual, mas isso faz parte da cultura sueca, que sempre foi muito democrática. Temos muita confiança neles, não andamos sempre à espera que façam qualquer coisa de errado, esperamos sempre o melhor. Na Suécia, se alguém der uma palmada a uma criança pode ir preso. Também ralhamos com os nossos filhos, claro, mas não é com a impulsividade do sul, não o fazemos de maneira agressiva. Os pais homens têm uma relação bastante forte com os filhos, porque partilham o tempo de licença de maternidade, que é um ano e meio (na pior das hipóteses). São muito desenrascados, fazem tudo o que as mães fazem, e as mães suecas confiam bastante neles.

Hiroko Gamito | Japão | um filho de 22 anos

As crianças japonesas respeitam muito o espaço dos outros, são educadas para não incomodar. Se uma criança portuguesa sai do baloiço, ainda continua lá à frente, e as outras crianças não podem brincar. São pouco educadas a ter limites e a respeitar os outros. Também me parece que as mães portuguesas gostam muito de exibir os filhos e de falar muito bem deles, quando a realidade não é bem assim.
Uma coisa muito boa que existe em Portugal: há muito convívio entre as gerações. No Japão, as crianças são educadas para usar todas aquelas fórmulas tradicionais de respeito para com os mais velhos, mas depois na prática é raro ver um adolescente a acompanhar um idoso. Em Portugal, isso vê-se muito, e é muito bonito de ver.

Penélope Martins | Brasil | dois filhos de 9 e 13 anos

Penso que o calor melhora as relações humanas. Menos roupa para prender os movimentos, menos medo de se molhar e apanhar resfriado, mais pés descalços, mais cantoria. O calor é colorido, e a mãe brasileira tem esse calor.
É claro que uma mãe brasileira carrega hábitos portugueses, mesmo que não perceba. Talvez um dos mais fortes seja a constante reunião familiar na cozinha. Alimentamos nossas crianças o tempo todo. E se o arroz com feijão é diferente do hábito português, a mania de empurrar comida nos filhos não é. Eu cresci ouvindo ‘tens fome?’ e ‘já comeste?’ Somos mães habituadas a andar mais tempo descalças dentro e fora de casa, brincamos mais com água, agachamos no chão, no parque fazemos bolinhos de terra. Esse pé no chão, terra e água, talvez seja o legado indígena. Além disso, pé no chão faz barulho, batuque de palma da mão também faz. A mãe brasileira é barulhenta. Pudera, somos também misturados por diversas africanidades. A música é um refúgio de comunicação para a mãe brasileira dizer a vida aos seus filhos; a gente canta para dar comida, canta para brincar, canta para contar história e na hora de dormir a gente canta.
Por um lado, não criar silêncios profundos pode ser nossa maior dificuldade. O silêncio é precioso, e faz falta. Por outro lado, a musicalidade é desenvolvida desde sempre.

Carla David | Angola | dois filhos de 4 e 9 anos

As angolanas são mais rígidas que as portuguesas, acho eu. Eu recomendo que não cedam aos caprichos das crianças e que não tenham medo
de se fazer obedecer.
Nós, angolanas da minha geração, que tenho 38 anos, crescemos sem espaço de manobra. Não sei se era das sequelas da guerra, de pais que estavam pouco tempo connosco e portanto tinham de se concentrar
no que era essencial, mas a educação em nossas casas sempre teve muita rigidez. Crescemos com a ideia de que os nossos pais eram a autoridade máxima, e isso nunca nos fez confusão. Levávamos palmadas, e havia mesmo quem levasse chicotadas, mas na realidade só era preciso um olhar para obedecermos. Crescia-se com o fantasma do chinelo (às vezes não era só o fantasma). Eu não sou tão rígida com os meus filhos porque os tempos também são outros, mas mantenho essa ideia de que os pais são a autoridade máxima, que partilham com os professores (a educação, acho eu, deve ser um trabalho conjunto). E os meus filhos também obedecem a um olhar meu. Eles não fazem birras em casa,
não choram no hipermercado.
Nem é preciso levarem uma palmada – o meu olhar é desafiador. E isto não significa falta de carinho.
Eles amam-me na mesma porque eu estou com eles em todas as alturas importantes da vida deles.
Acho que os pais não deviam ter tanto medo de que os filhos deixem de gostar deles, porque a nossa posição de pais já está mais do que garantida. Ainda hoje, quando o meu pai me diz Tu vê lá!, eu ainda oiço.
Criei meus miúdos com sons que povoavam os dois lados do Atlântico. E sim, sempre brincando com água. E terra. E vestindo uma mistura de cores.

Régine Campagnac | França | uma filha de 8 anos

Portugal tem uma coisa muito boa: as mães são muito carinhosas com os filhos. Outras coisas acho que podiam aprender mais com os franceses: responsabilizar-se pelos seus atos e sentir-se parte ativa da sociedade, são aspetos que os franceses levam mais a sério. Em Portugal, toda gente culpa os outros dos problemas mas escolhe poucas vezes responsabilizar–se. Em França, as pessoas queixam–se, mas agem. Parece-me que uma educação geral mais atenta e firme das crianças permitiria melhorar a eficiência da sociedade portuguesa. Assisto diariamente nos adultos a hábitos antiprodutivos: chegar atrasado, não respeitar prazos, fazer as coisas sem grandes cuidados, envolver-se o menos possível no trabalho para evitar “chatices”. Seria útil ensinar limites aos filhos: ser pontual, ter responsabilidades em casa, esperar a sua vez para falar, saber ficar calmo quando é preciso, falar mais baixo, não dizer palavrões, etc. Ensiná-los a encarar os desafios de forma otimista também me parece valioso nestes tempos difíceis, e é preciso determinação para isso.
Promover a cultura, sem dar demasiada importância à cultura de massas (Disney, etc.), e sensibilizá-los para o respeito às diferenças: inclusive as das próprias crianças. Acho que é uma forma de respeito deixar o seu filho desenvolver a sua personalidade, independentemente dos nossos desejos de mãe. Por exemplo, deixar-lhe a opção de escolher as suas opções espirituais: não o batizar nem inscrevê-lo na catequese.
Uma ideia bem francesa: promover a leitura de bandas desenhadas. São divertidas, espertas, e há para todos os gostos e idades. Os pais franceses costumam deixar algumas na casa de banho, que é um ótimo sítio de leitura! Outra ideia divertida é assistir a espetáculos de comédia ou ‘one man show’. Costumo ouvir na internet a estação de rádio “Rire et Chansons”, e a minha filha fica logo bem disposta!
E, finalmente, informo que em França comem-se croissants sem fiambre nem queijo! Seria comparável a comer um pastel de nata com fiambre ou com queijo!

Sabine Halbich | Alemanha | uma filha de 8 anos

É verdade o que se diz, que as crianças alemãs são mais independentes e responsabilizadas, sim. Desde a primeira classe que vão sozinhas para a escola. Quatro semanas antes de a escola começar, há avisos da televisão e nos jornais sobre como ensinar as crianças a andarem sozinhas na rua, mesmo nas cidades. Há uma rede de escolas públicas muito grande, por isso a grande maioria das crianças vive perto da sua escola, mas mesmo as que vivem longe vão de autocarro sozinhas. Nunca temos a sensação de que estão em perigo, porque existem os vizinhos. Portanto, elas movem-se sempre em comunidade. E, por exemplo, se os pais estão num restaurante, as crianças entretêm-se a brincar lá fora e os pais não estão constantemente a olhar para ver o que elas estão a fazer ou se está a chover ou se têm o casaco vestido…
Na Alemanha, o ensino é consistente. As coisas não estão sempre a mudar e não se tenta ensinar-lhes tudo desde bebés. As coisas são aprendidas se calhar mais devagar mas de maneira mais sólida. Fica tudo na cabeça. As aulas acabam ao meio dia e as crianças têm tempo para fazer os seus TPCs sozinhas.
Quanto à ideia de que as mães alemãs são organizadas, também é verdade. Somos mesmo. Ensinamos as crianças a respeitar o espaço e o tempo dos outros, a cumprir as regras. Têm de ser pontuais. Não toleramos atrasos, porque é uma falta de respeito. Deixar o carro mal estacionado ou passar com um sinal vermelho, porque não há ninguém, são ‘exemplos’ que não damos aos nossos filhos. Também é muito importante que tenham as suas coisas arrumadas e organizadas.
Uma coisa engraçada: gostamos muito de rituais. Na Páscoa, cozemos e pintamos ovos, fazemos bolos em forma de coelhos, construímos ninhos. O Natal é uma enorme festa, toda a família se junta para fazer bolachas.
Mas em geral a responsabilidade individual e o respeito para com os outros são as bases da educação alemã.

Ana Rocha Leite | Portugal | três filhos entre 4 e 9 anos

Não sei se é característica de quem é portuguesa, mas eu sou…GALINHA! E com muito gosto… Sou cuidadosa, stressada, exigente, chego a ser um bocado intransigente. Gosto de regras, de horas, de ter tudo sentado à mesa a jantar em família, de os chamar e que eles me respondam à primeira, gosto que digam “bom dia” a quem chega, que cumprimentem com um beijinho, que agradeçam e digam se faz favor, que façam uma grande festa quando veem os avós e os tios, e que, ainda assim, sejam o mais descontraídos possível! Não vou em conversas do não se deve obrigar as criancinhas…eu obrigo e exijo.
Tenho a mania de os vestir de igual (isto é muito ‘tuga’). As características de uma mãe portuguesa? Passamos aos nossos filhos aquilo que nos passaram a nós, cultura, educação, e temos sangue na guelra, caramba! Eu sou um bocado “vai tudo à frente”, e às vezes não consigo manter a calma.
E eles já sabem que quando a mãe se passa, de vez em quando salta um tabefe!
Mas nada disso impede que tenha uma relação muito próxima com eles, dou beijos apertados e abraços esborrachados, brinco e digo parvoeiras, toco viola e canto com eles, dou-lhes conselhos, estudo com eles (ok, esta parte chateia-me um bocadinho, esta obrigação de, irrita-me! Alguma vez os nossos pais?… enfim), vou com eles às compras de roupa, deixo-os opinar q.b. Só espero que os meus filhos cresçam felizes, que saibam escolher o melhor caminho para eles (com as minhas indicações, luzes, e apoio), que ganhem asas quando tiver que ser… e voem… (para perto!)

 

 

 

 

O lado positivo do não

Agosto 23, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 13 de agosto de 2018.

António Sacavém e Paulo Sargento escrevem sobre como o ‘não’ pode ser a resposta certa para um “sim maior amanhã”.

Catarina Lamelas Moura

Foi conhecido há alguns anos o caso de uma menina britânica de quatro anos que teve de receber tratamento psiquiátrico por estar viciada no iPad. Sofria inclusive de crises de abstinência quando lhe retiravam o aparelho. Há algum tempo que os pais revelam dificuldade em contrariar os filhos e isso reflecte-se na sua educação, na forma como chegam à escola e até no futuro, no seu local de trabalho. Para os especialistas António Sacavém e Paulo Sargento, é importante saber dizer “não”.

O caso da criança britânica, que espelha a situação de tantas outras crianças, é descrito no livro de Paulo Sargento, Ensine o seu filho a dizer que não. O psicólogo desafia-nos a pensar no “não” como um acto de amor. Neste caso, dos pais para com os filhos, “num sentido de prevenir o risco, de habilitar o jovem a ele próprio saber defender-se”, explica ao PÚBLICO. No livro, apresenta uma série de situações comuns na infância e adolescência, desde o bullying aos comportamentos de risco, passando pelos perigos da Internet e pela violência no namoro. No fundo, trata-se de “ajudar as crianças e os adolescentes nas grandes decisões”, como descreve no subtítulo.

“O nosso cérebro desenvolve-se não só com processos de natureza excitatória, mas também com processos de natureza inibitória”, aponta o psicólogo. Naturalmente, há que haver comunicação entre pais e filhos. E essa deve ter por base dois elementos fundamentais: amor e criatividade. Amor na forma como disciplinam, e criatividade para encontrar soluções pertinentes para cada família e cada criança. Sargento exemplifica: se o filho mais pequeno pergunta à mãe se joga tão bem quanto o irmão, esta “seria desonesta e injusta se dissesse ‘sim’, mas também seria muito bruta se dissesse ‘não’”. Antes, pode dizer algo como: “O mano joga muito bem à bola e tu andas muito bem de bicicleta.”

São ensinamentos que levamos para a idade adulta – para a casa e o trabalho. “Vivemos numa sociedade de consumo imediato”, observa o professor António Sacavém, que lançou recentemente o livro Aprenda a dizer não sem culpas. “Não tem nada de bom nem de mau, mas estimula-nos a, por vezes, não ter a resiliência necessária para aguardarmos, pagarmos o preço, trabalharmos para depois procurarmos ter algo que se assemelha mais a uma felicidade duradoura.”

O autor defende que “o ‘não’ que dizemos hoje pode ser um sim maior amanhã”. Serve o aforismo para explicar que o “não” – ou antes, o “não-positivo”, como apresenta no livro – é, essencialmente, uma forma de estabelecermos as nossas prioridades. É uma ferramenta para gerir conflitos, “que nos convida a compreender as necessidades e sentimentos dos outros e depois a procurar uma solução vantajosa para ambas partes”, explica o autor.

Pode tratar-se de uma questão de ultrapassar a dificuldade de contrariar um parceiro, de dizer “não” ao chefe ou até mesmo de controlarmos os nossos próprios impulsos procrastinadores e mantermo-nos focados numa tarefa. Por exemplo, saber como dizer “não” a um café com um amigo, quando temos um livro para escrever. “Tive de dizer um conjunto de ‘nãos’, até durante as férias, mas procurei sempre que fossem positivos, que não pusessem em causa a relação que tenho com os meus filhos”, exemplifica António Sacavém.

As situações mencionadas não serão com certeza alheias a grande parte das pessoas. Tão pouco estes livros são os primeiros a identificar o lado positivo do “não”. O best seller do New York Times de 2016 The Subtle Art of Not Giving a F*ck tem todo um capítulo dedicado à “importância de dizer ‘não’”. Tal como Boundaries: When to Say Yes, How to Say No To Take Control of Your Life, editado pela primeira vez em 1992, chegou à lista de best- sellers.

“No fundo estamos todos a falar de uma ideia fundamental que é a construção de um cidadão, de como nos situamos perante o outro”, comenta Paulo Sargento. “É um processo que acontece ao longo da vida”, acrescenta. No entanto, depois da adolescência, “aquilo a que chamamos personalidade já não é tão moldável”.

Vários tipos de “não”

António Sacavém tem, na verdade, três variações da palavra “não”: há o “não-negativo”, o “não-positivo” e o “não-assertivo”. É nestes dois últimos que centra a sua abordagem. Permitem-nos, por um lado, manter o foco no que é importante e por outro preservar uma relação saudável com quem nos rodeia. O “não-negativo”, que define como “ácido sulfúrico para as relações”, é aquele que nos afasta de desafios que nos fariam evoluir, pelo medo da mudança, ou aquele que é dito de forma destrutiva. Já o “não-assertivo” clarifica a nossa posição, sem necessitar que “expliquemos os motivos que justificam um determinado comportamento”.

A capacidade de dizer “nãos mais competentes” pratica-se e, por isso, é essencial definirmos o nosso propósito pessoal. É isso que nos vai dar direcção “nos momentos em que temos de decidir o melhor caminho a trilhar”, escreve no livro.

Um dos primeiros passos que o autor propõe é dissociar o “não” do sentimento de culpa. “O não-positivo é essencialmente não-egoísta”, atira. Isto porque “procura conciliar os meus interesses com o do outro enquanto nos mantém focados”. O profissional afirma que “temos, enquanto seres humanos, uma tendência para misturar o comportamento com a pessoa”. “Mas dizer ‘não’ ao comportamento da pessoa não significa dizer ‘não’ à pessoa”, explica. “Duas pessoas podem sentir uma mesma afirmação que eu faça de forma completamente diferente. Somos responsáveis pelas nossas acções e não pelos sentimentos dos outros”, argumenta.

 

 

Pais estão a criar ‘bebés de estufa’

Agosto 22, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Expresso de 11 de agosto de 2018.

 

Os divórcios tiram férias? Eduardo Sá

Agosto 19, 2018 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Eduardo Sá publicado no Público de 7 de agosto de 2018.

Deixemo-nos de coisas: nenhum divórcio “corre bem”. Isto é: nunca se passa por ele sem muitas dores. E, no entanto, todos os divórcios se dão por “mútuo consentimento”. Acontecem! Vamos acumulando pequenos ressentimentos. Em vez de falarmos, amuamos e embirramos. E, a certa altura, o fim-de-semana começa a ser à segunda-feira. Na verdade, divorciamo-nos por dentro muito antes de nos divorciarmos por fora. E são tantas as “pequenas coisas más” que um processo de divórcio aclara no outro que, quando se dá por isso, todos os divórcios, mesmo os “amigáveis”, são… “litigiosos”.

Mas se separar os garfos ou os quadros já é difícil, separarmo-nos dos filhos dói “horrores”. Começando pela forma como lhes dizemos que “a mãe e o pai já não são namorados”. (O que, por outras palavras, quer dizer: “A mãe e o pai vão-te magoar muito porque precisam de ser felizes.”). E acabando na transformação radical d’ “A nossa casa” na casa da mãe e na casa do pai. Todos os divórcios doem muito a todos os filhos. Independentemente da idade. E doem, sobretudo, quando os pais – que até aí pareciam ser a “reserva natural” de bom senso – são, muitas vezes, engolidos por iras e por ódios. E por episódios muito feios de um em relação ao outro que acabam por colocar os filhos em sucessivos conflitos de lealdade onde amar, igualmente, os dois pais parece ser vivido quase como uma traição.

É claro que que todos os filhos, porque são amados, são um bocadinho egocêntricos. Logo, o divórcio dos pais passa por uma perplexidade do género: “Mas, se eu existo, do que é que eles precisam mais?”. Para que, de seguida, quando um dos pais encontra alguém que namore, a questão se colocar outra vez. E quando essa pessoa chega “equipada” com filhos, essa mesma questão voltar a colocar-se. Sobretudo, quando eles passam a estar mais tempo com um dos pais duma criança do que ela própria acaba por passar.

E, depois, é um bocadinho “contra-natura” comunicar a um filho que existe “uma pessoa” com quem se namora. Mesmo que essa pessoa seja, simplesmente, “um amigo da mãe” ou “uma amiga do pai”. Seja como for, há pais que entre um divórcio e a tal pessoa “amiga” a viver lá em casa esperam tempo de menos. E há pais que namoram, na “clandestinidade”, por tempo demais.

Mas, quando chegam as férias, um pouco por tudo isto, nem sempre elas são o descanso com que se sonhou. Porque “as nossas férias” são interrompidas pelas saudades que fazem com que o outro dos pais apareça, de surpresa, “só para dar um beijinho”. Porque, para as crianças mais pequeninas, 15 dias seguidos sem um dos pais é um tempo interminável, que as deixa tristonhas e desconsoladas. Porque as férias arriscam-se a não ser férias tal é o número de coisas difíceis por dizer que os pais e os filhos mais velhos aproveitam para pôr em dia. Porque os telefonemas regulares do pai que não está com a criança são, muitas vezes, vividos como um controle insuportável pelo outro. Porque, ao contrário do que se queria, acaba-se por “levar”, por causa disso tudo, a ex-mulher ou o ex-marido para férias. E porque as férias são as alturas escolhidas para um convívio mais a sério com “a tal pessoa amiga” (que, entretanto, traz os seus filhos, na esperança de que todos sejam amigos, muito rapidamente). E nem sempre isso ajuda.

Dividirmos o melhor de nós com quem passou a ser um “lado feio” da nossa vida não é fácil. Que o pai e a mãe não sejam namorados sempre se entende. Mas que as férias sirvam para descobrir que eles já nem amigos são fica mais difícil de aceitar.

Psicólogo

 

Pais pagam a explicadores para ensinarem os filhos a jogar “Fortnite”

Agosto 17, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da SIC Notícias de 3 de agosto de 2018.

Mais de 125 milhões de pessoas jogam diariamente Fortnite, a sensação virtual que está a conquistar cada vez mais crianças. Como acontece com uma disciplina escolar, há agora ‘explicadores’ que ajudam a passar, neste caso, de nível. E são cada vez mais os pais que contratam os seus serviços.

Para os pais, o sucesso dos filhos num videojogo parece nunca ter sido tão importante como agora. Isto porque vencer no Fortnite não só é sinónimo de inclusão social, como pode também resultar numa generosa bolsa para o ensino superior.

Um dos clubes de eSports (competição de videojogos) de uma faculdade norte-americana anunciou um prémio de um milhão de dólares (cerca de 862 mil euros) em bolsas de estudo. Também a Epic Games, detentora do jogo virtual, anunciou o financiamento de prémios no valor de 100 milhões de dólares (cerca de 86 milhões de euros) para as competições de Fortnite.

Razões que parecem suficientes para contratar aulas que podem custar mais de 20 dólares (cerca de 17 euros) por hora, conta o pai de um jogador de 12 anos ao The Wall Street Journal. Lições que fizeram diferença entre o filho raramente ganhar e passar agora a ganhar frequentemente.

Uma moda que está a ganhar cada vez mais adeptos, até pela pressão social que os jovens sentem por não jogarem um dos jogos mais populares da atualidade.

Fortnite foi lançado a 25 de julho do ano passado e a sua versão para telemóvel já ultrapassou o tão conhecido ‘Candy Crush Saga’.

 

 

Nem permissividade, nem autoritarismo ensine-os a lidar com as consequências dos seus atos

Agosto 7, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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thumbs.web.sapo.io

Texto do site Sapolifestyle de 25 de julho de 2018.

Educar as crianças com base na autoridade deixou de funcionar. Mas o estilo permissivo que se generalizou também não surte bons efeitos. O que fazer, então? Pô-los a aprender com os seus próprios erros.

As livrarias estão cheias de manuais para educar os filhos, mas os filhos não param de arranjar formas de surpreender os pais – nem sempre pela positiva. A democratização da parentalidade, com base no princípio da cooperação (em vez de obediência), tem os seus efeitos positivos, mas deixa frequentemente nas mãos das crianças um poder que é dos adultos.

No livro The Collapse of Parenting (O Colapso da Parentalidade), o psicólogo e especialista em relações familiares, Leonard Sax, deixa um conselho liminar: “Comande, não pergunte, não negoceie”.

O médico norte-americano disse à CNN que, sem quererem, muitos pais estão a contribuir para um leque variado de problemas das novas gerações, nomeadamente, a obesidade e as doenças mentais

Leonard Sax admite que a educação autoritária, que tão bem funcionou no passado, já não é eficaz para os jovens de hoje. Mas isso não quer dizer que a obediência deva ser completamente substituída pela autogestão dos miúdos. Sax defende a premissa “ensinar as crianças através das consequências dos seus atos”. E alerta: “Mais rigidez quer dizer mais autoridade dos pais, mas isso também pode desencadear mais insanidade. Será assim tão mau permitir que a vida, e todos os seus imprevistos e circunstâncias, ocasionalmente atrapalhem as regras?”

Já Katherine Lewis, autora do livro The Good News About Bad Behavior (Boas Notícias Sobre o Mau Comportamento) defende que a velha ideia de que “quem manda sou eu, pura e simplesmente deixou de funcionar”.

Lewis tenta responder àquilo que considera ser “uma crise de autorregulação entre os miúdos” e acredita que esse fenómeno vai fazer com que quase metade das crianças venha a sofrer de problemas de humor, distúrbios emocionais ou algum tipo de dependência aos 18 anos.

Para Lewis, há quatro razões básicas para esta crise. A saber: a ascensão das redes sociais e da cultura tecnológica (que, garante, só faz o indivíduo “olhar para fora”), o declínio do tempo de vida em família, o desenraizamento social e uma educação pouco eficaz. “As crianças de hoje tendem a vaguear por aí sem grandes preocupações; são ensinadas a concentrar-se mais nas conquistas individuais do que no apoio à família, amigos e conhecidos”, disse a autora ao site da CNN.

Relativamente à responsabilidade dos pais, Lewis reforça que não os está a culpar, e pede que encarem a disciplina de outra forma. Primeiro, defende, é preciso “separar a nossa função de pais da ideia pré-estabelecida de que, como adultos, sabemos sempre o que é melhor”. E prossegue: “Embora essa abordagem autoritária tenha funcionado no passado, é ineficaz para a geração atual de jovens, mais familiarizada com a colaboração”, defende. “O volante já não está nãos mãos do pai e da mãe. Há hoje uma forte ideia de igualdade e eles sabem bem disso”.

Katherine Lewis explicou que, embora a educação autoritária ajude as crianças a serem melhores na escola e a evitarem alguns problemas, pode deixar cicatrizes emocionais. Razão pela qual, acredita, “muitos pais na década de 1980, criados por mães e pais autoritários, preferiram adotar uma abordagem oposta e seguir um estilo mais permissivo.”

O problema, sugere, é que fomos para o extremo oposto. “É daí que vem o culto da autoestima e da gratificação”, diz.

O que fazer? Renunciar à lei do medo que vigorava no passado e ajudar os miúdos a se auto-regularem. Não há receitas mágicas, é certo, mas existe uma regra permanente: “A única constante é encontrar uma forma de os consciencializar das consequências do que fazem, ao invés de avançar para a punição”, diz Lewis. “O castigo é algo imposto por alguém mais poderoso a outro, sem poder. As consequências ensinam-nos a aprender com os erros. São uma lição de vida”.

 

 

Entrevista ao pediatra Mário Cordeiro: “Os pais têm que deixar de ter tanto medo de tudo”

Agosto 4, 2018 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista da Conti outra a Mário Cordeiro. Imagem da Conti outra

Por Catarina Fonseca

É um dos mais respeitados pediatras portugueses e afirma que, embora sejamos melhores pais agora, ainda há muito para melhorar. Aqui falamos de culpa, TPCs e stresse, mas também de fins de semana e da mudança.

Somos melhores pais agora?

Somos melhores pessoas, em geral. Tenho fé na humanidade. Acredito que a maioria das pessoas tem coisas muito boas para dar, e a evolução em relação ao bem-estar, aos direitos humanos, às desigualdades, tem evoluído muito. Não é preciso recuarmos séculos. Em 1900 a média de vida em Portugal era de 40 anos. Havia bolo nos dias de festa e no resto do tempo era pão seco.

Vivemos no terror de sermos maus pais, mas nunca se falou tanto em parentalidade nem as pessoas se preocuparam tanto com isso…

Sim, às vezes até demais… (risos) Andamos demasiado preocupados com a nossa ‘performance’ enquanto pais e pelo caminho perdemos espontaneidade, naturalidade e bom senso, que são qualidades muitíssimo importantes. A naturalidade significa não andarmos sempre a pensar no que estamos a fazer ou no que o médico manda.
Quando as pessoas me dizem ‘Eu sigo-o’ dá-me sempre vontade de dizer ‘Não faça isso, que eu não sou um pregador evangélico!’. A espontaneidade é deixar as coisas correr e não ter obrigação de sermos pais ou mães iguais todos os dias. O bom senso é aquilo que nos rege sem regras nem obrigações.

Por que é que temos tanto medo de sermos maus pais?

Porque somos inseguros e estamos sempre preocupados com aquilo que os outros acham de nós. E muitas vezes essa censura social não existe. Às vezes pensamos ‘os outros vão achar que…’ e os outros não acham nada. São mecanismos projetivos: pomos na cabeça dos outros o que se passa na nossa. Outra das razões é por que a ciência nos ensinou que o que nós somos hoje radica na infância. Dantes, antes dos 18 anos a criança andava às ordens dos outros e não havia a noção de uma criança triste ou deprimida. Se estava triste era porque não tinha nada que fazer. Hoje sabemos que as crianças têm emoções e sentimentos, e que o ser humano se constrói desde que nasce.
E nós temos medo de os estragar para sempre e que a culpa seja nossa…
Sim, sim. Às vezes isso para nós, portugueses, também é um sentimento de autoflagelação e culpa, são muitos anos de moral judaico-cristã.

Para que serve a culpa?

Serve para nos redimir de algumas ações. Se eu der uma bofetada ao meu filho e achar que fui injusto, pergunto-me se, de cada vez que olhar para ele, não vou sentir-me mal. A necessidade de reparação é muito importante. É fundamental, quando se é injusto, perceber por que é que exageramos. Nós ainda temos muito a ideia de poder para com as crianças. Como não podemos bater no chefe, ralhamos ao filho. Quando uma pessoa sente que foi injustiçada, arranja um bode expiatório. E não podendo bater no S. Pedro, no governo ou no chefe, mantemos uma raiva latente que nos faz ter de mandar em alguém. E esses poderzinhos são aplicados em quem é mais frágil e mais desprotegido.

Confundimos poder com autoridade?

E autoridade com autoritarismo. Numa família, há um triângulo pai-mãe-filho, em que o filho ocupa o vértice inferior. E qualquer inversão deste esquema dá asneira. Agora, o ter de haver esta hierarquia não quer dizer que a amizade e a compreensão não dominem. Mas há de facto uma autoridade, que não se baseia no autoritarismo. Pais e filhos devem ser educados, saber argumentar, saber escutar e chegar a um consenso. Mas se não se conseguir um consenso, quem tem a última palavra são os pais.

Dê-me um exemplo de um bom castigo e de um mau castigo…

Um bom castigo é justo, equilibrado, e visa o comportamento e não a pessoa. O mau castigo é o contrário disto: pretende valorizar o castigador em vez de ensinar o castigado, e acima de tudo humilha a pessoa em vez de corrigir o comportamento. Por isso é que eu insisto muito que, antes de um castigo, devemos sempre dizer à criança ‘Eu amo-te muito’. Porque assim lhe dizemos duas coisas: não está aqui em causa o meu amor por ti e faço isto porque te amo. Ou seja, temos de passar à criança que o amor por ela nunca está em causa, apesar de eu poder estar zangado naquela altura. Porque a criança é literal, acha que vai ser deitada fora, como acontece quando não queremos qualquer coisa. O castigo deve ser acima de tudo pedagógico. Deve explicar-se o que a criança fez mal, não descarregar a nossa fúria.

Como dantes se davam reguadas na escola, na esperança de que por milagre a criança de repente ‘se lembrasse’ do que não sabia…

(risos) Totalmente. É um exemplo de um castigo absurdo. Felizmente que isso já passou. Mas repare que o que se passa com as crianças passa-se com qualquer um de nós. Se o seu chefe lhe disser ‘Olhe, ó Catarina, neste seu artigo há aqui umas coisas que gostaria que abordasse com mais pormenor, veja lá se eu não tenho razão, você faz isso tão bem”, você vai-se embora toda motivada para emendar o artigo. Agora se eu lhe disser ‘Este seu texto está uma verdadeira porcaria, você acha que eu vou publicar essa porcaria?’, isso só vai gerar ressentimento.

Mas já estamos a educar melhor, não?

Sem dúvida. Houve uma mudança geracional muito grande e muitíssimo repentina, que apanhou a era da internet e a evolução da ciência. As mudanças de paradigma nestes 20 anos foram uma explosão brutal, e é normal que por vezes se ande um bocado confuso com tudo o que nos chega.

O que é que estamos a fazer mal e a fazer bem?

De bem, aprendemos a valorizar as crianças, a estimular a autonomia, o esforço, o rigor (isto quando os miúdos não são abebezados). O que se faz de mau corresponde a um grande paradoxo na nossa sociedade: por um lado, infantiliza-se muito as crianças, por outro, dá-se-lhes um estatuto de ‘crescido’ e de opinativo que não condiz. Mas o pior, para mim, é o stresse diário em que mergulhamos os nossos filhos.

As crianças estão a ter cada vez mais uma vida muito parecida com a nossa, não é? Chama-lhe ‘vida mais-do-mesmo’: levanta, vai à escola, volta, banho, tpcs, cama…

Há duas coisas terríveis: eles trabalham demais na escola e submetemo-los a deslocações enormes. Um estudo provou que se uma pessoa for a caminhar o cérebro vai registando e descodificando as imagens à sua volta. Mas se for à velocidade de um automóvel, as imagens passam tão depressa que fazem o mesmo efeito de uma lâmpada a piscar, e essas imagens são lixo que ocupa o cérebro. A criança quando chega à escola já vai cheia de informação que não é nada. Tudo o que tem na cabeça são vertigens sem sentido, e este ‘lixo informativo’ é altamente stressante e tóxico porque o cérebro tem de se esforçar para perceber onde é que o vai ‘arrumar’… É por isso que muitas crianças chegam estoiradas ao meio da manhã. E depois os pais queixam-se de que elas estão desatentas. Elas não estão desatentas. Elas estão entupidas de informação inútil.

Como se quebra o ciclo do cansaço?

Além de se tentar que as crianças durmam mais e melhor (já agora, repare que investimos balúrdios num carro e ninguém investe num bom colchão) temos de perceber que nós não podemos ter tudo. Estamos habituados a ter o mundo na ponta dos dedos, e o acesso à informação imediata dá-nos uma sensação de omnipotência, de que podemos saber tudo e dominar tudo e ter tudo. Mas não podemos. Portanto, há que fazer concessões e escolhas.

E o que é que podemos fazer?

Por exemplo, podemos organizar-nos num estilo de vida em que as crianças possam ir para a escola de transportes. A partir dos 11, 12 anos podem perfeitamente andar de transportes. Nós é que somos bombardeados todos os dias por medos absurdos. Claro que o ideal é irem a pé para escola. Uma cidade é para se observar, para fruir. Os meus filhos sempre foram a pé. Mas eu dizia-lhes: ‘Se alguma vez vos apanhar a atravessar fora da passadeira, acaba-se logo isto.’ Não há autonomia sem responsabilidade.

O que acha da quantidade de TPCs que muitas crianças levam para casa?

Acho um perfeito disparate. Aceito alguns trabalhos, mas esta história de mais do mesmo é um atestado de menoridade à escola, que não soube ensinar-lhes o que eles precisavam de saber durante o tempo de aulas. Os pais devem proteger as crianças, e se necessário escrever ao professor: ‘O Manel hoje não teve tempo de fazer os TPCs’.

Mas os pais têm medo de que as crianças fiquem para trás…

Ai mas têm de deixar de ter tanto medo de tudo. Temos de ter uma voz mais ativa na educação das crianças. E são esses medos, mais do que o desinteresse, que desapoiam a criança. Devíamos ter associações de pais mais participativas.

Fazia os TPCs com os seus filhos?

Não os fazia com eles, mas sempre estive disponível para fazer revisões ou para tirar dúvidas. Eles sempre andaram e andam numa escola pública, e só tinham trabalhos aos fins de semana, o que eu apoiava. O que eu fazia era revisões antes dos testes. Mas fazer os TPCs com eles, nem pensar. As crianças têm de ser responsáveis pelo que têm de fazer, e os pais têm de estar disponíveis para uma dúvida ou outra, ou por exemplo para ensinar a investigar no Google.

Muitas pessoas querem filhos-troféu?

Querem um filho como um processo narcísico. Em vez de ‘que lindo filho que eu tenho’, pensam ‘que lindo pai que eu sou, que tenho um filho tão lindo’ (risos). Há pessoas que planeiam um filho como parte das ‘coisas’ que querem: uma casa, uma carreira, um carro, um emprego, um filho. Ora isto são domínios completamente diferentes em termos de realização. Um filho não é um bem, como um frigorífico, um filho dá trabalho, e as pessoas têm de se capacitar disso. Temos é de arranjar um equilíbrio entre as ‘peças’ do puzzle da nossa vida. Tanto é mau aquelas pessoas que acham que podem continuar a fazer tudo o que faziam quando não tinham um bebé, como as que se me vêm queixar: ‘Nunca mais fui ao cinema desde que o João nasceu.’ Isso é ser um bom pai ou mãe? Não, não é.

E depois o casamento ressente-se?

Claro. Porque deixamos de ser o Zé e a Maria e passamos a ser o pai e a mãe do João. E a relação conjugal não é a relação parental. Na relação conjugal, os filhos não devem entrar. Mas quando o INE nos diz que mais de metade das mães só terão um filho, as mães agarram-se àquele ser e infantilizam-no para lá do natural.

Por que é que gostamos tanto de manter os filhos bebés?

Porque as mães são o pólo regressivo e os pais o pólo de crescimento. Quando trabalhamos, por exemplo, estamos numa postura de crescimento. Em casa, estamos em ‘regressão’, relaxamos. As mães representam a segurança e proteção, os pais, o desenvolvimento e a progressão, o que não significa que muitas vezes as mães não façam de pais e vice-versa. Por isso, quando um filho cresce, dirige-se para o pai. E a mãe sente isso como uma traição. ‘Olha aquele agora só quer o pai’. Antigamente, quando a criança se dirigia para o pai, a mãe já tinha outro bebé na barriga. Hoje, isso deixa um grande vazio na mãe. E num país com uma das mais baixas taxa de natalidade do mundo, isto é dramático.

E depois culpabilizamo-nos por passarmos pouco tempo com eles…

E comparamo-nos com uma utopia que nunca existiu. Dizemos que as nossas mães passavam mais tempo em casa, mas as portuguesas sempre trabalharam imenso. Elas trabalhavam, tinham vida social, tinham hobbies, só que era tudo feito de modo contínuo. Um bocadinho com os filhos, depois apanhar couves, depois ir à loja, eram ‘bocadinhos’, o que dava uma sensação de continuidade. Não se vivia em ‘blocos’ de 8 horas. Mas a vida mudou radicalmente em pouquíssimo tempo. Tudo estava próximo, mesmo dentro das cidades a vida organizava-se em ‘aldeias’. Hoje isso perdeu-se.

O que podemos fazer?

Aproveitar as férias e os fins de semana para sair do esquema quotidiano, por exemplo. Deixar esse exibicionismo dos automóveis e das roupas e preocuparmo-nos mais com o que é verdadeiramente importante, porque não é isso que nos faz felizes. Mesmo as crianças já valorizam muito as coisas não pelo seu valor em si, mas pelo que custaram. Isto é espantoso! É mesmo isto que queremos passar-lhes? A cultura das marcas? Podíamos conversar mais com eles, discutir ideias e valores, coisa que não estão nada habituados a fazer.

Eles hoje é mais ecrãs?

Eles e nós. A ideia da tecnologia é poupar-nos esforços e libertar-nos. Mas não nos devia libertar para mais do mesmo! Devíamos usar esse tempo que ganhámos para qualquer coisa mais humana, ir passear, conversar, ir a uma esplanada, estar olhos nos olhos. Ou seja, devíamos pensar de vez em quando no que é que queremos da vida e no que pretendemos dos próximos anos. E o que é que podemos fazer para lá chegar. De certeza que haverá uma ou mais coisas que podemos mudar. E ter essa coragem de mudar. Temos muito medo da mudança. Às vezes vejo pais aflitíssimos porque a Rita vai mudar de escola e vai ter professores novos e colegas novos e ai ai ai. Mas qual é o problema? Mudar é saudável, cria-nos aptidões novas. Traz pessoas novas às nossas vidas, em vez de passarmos anos a fio no mesmo sítio, todos iguais uns aos outros e a debitar as mesmas banalidades. Isto é um desperdício da condição humana.

Fonte: ACTIVA

 

As tarefas adequadas à idade dos filhos: “Ó mãe, quero um copo de água!”

Agosto 2, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Filipe Raminhos

Texto da Sábado de 1 de janeiro de 2017.

“Tanto eu como a mãe sempre praticámos desporto e achámos importante ela ter estas actividades, mas se calhar metemo-la em demasiadas coisas e esquecemo-nos de lhe dar outras competências mais básicas”, diz à SÁBADO André (nome fictício), consultor, 38 anos.

Tempo e muita paciência
Pais convertidos numa espécie de mordomos dos filhos são um paradigma desta geração, em que alguns nem se levantam para ir buscar um copo de água. O problema são as consequências deste tipo de situação. “As crianças precisam de regras para crescerem com competências emocionais e comportamentais. Quanto mais se sentirem úteis, mais autónomos serão no futuro”, explica a psicóloga de adolescentes Bárbara Ramos Dias. A ideia é começar a ensiná-los o mais cedo possível e fazer o reforço pela positiva. “É normal que uma criança de 3 anos não faça a cama perfeita, mas já consegue puxar as orelhas e, se a incentivarmos (‘que orgulho, ajudas muito a mãe’), ela interioriza essas tarefas mais facilmente”, aconselha.

Ressalva: ensinar exige tempo e uma grande dose de paciência. Por isso, não desista logo à primeira, nem ceda à tentação de gritar. A próxima vez que o seu filho lhe pedir um copo de água, tente a seguinte solução: “Eu até ia, mas tu já és crescido e sabes onde estão os copos.”

Entrevista publicada originalmente na edição n.º 654 da revista SÁBADO de 10 de Novembro de 2016

visualizar as tarefas no link:

http://www.sabado.pt/vida/detalhe/as-tarefas-adequadas-a-idade-dos-filhos-o-mae-quero-um-copo-de-agua

 

E quando os filhos saem de casa e os pais não sabem o que fazer?

Julho 28, 2018 às 1:00 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 17 de julho de 2018.

O síndrome do ninho vazio existe e pode levar alguns pais à depressão. A receita é transmitir confiança aos filhos e deixá-los voar, recomendam os especialistas. Quanto aos pais, há projectos que podem pôr em prática.

Bárbara Wong

Na cozinha, uma mulher faz pãezinhos chineses com destreza. Põem-nos a cozer ao vapor e leva-os para a mesa, onde ela e o marido comem em silêncio. Ele sai para trabalhar e ela fica a terminar a refeição até que o último pãozinho, o bao, ganha vida. É um bebé que segue a mãe para todo o lado, mas à medida que cresce vai ganhando autonomia para mal daquela mãe que não se consegue adaptar. O fim fica para quem quiser ir ver a curta-metragem Bao, da realizadora Domee Shi, que antecede Os Incríveis 2, nos cinemas. Amanhã começam as candidaturas à primeira fase do concurso nacional de acesso ao ensino superior, altura em que muitos jovens optam por escolher cursos ou escolas que ficam longe da casa dos pais. Como lidam estes com a situação?

Depende. Tal como a mãe chinesa de Bao, também os pais portugueses promovem pouco a autonomia dos filhos, começa por dizer a psicóloga Teresa Espassadim, da Clínica Psicodinâmica, em Lisboa, e que foi coordenadora do Gabinete de Orientação do Instituto Superior de Engenharia do Porto. “Há um estilo mediterrânico que parece que temos de estar muito juntos para sermos felizes enquanto há outros estilos parentais que promovem mais a autonomia”, aponta.

Embora se verifiquem algumas mudanças – os jovens vão estudar para outra cidade ou para outro país, e, terminado o curso, emigram – os pais continuam com as suas vidas muito focadas e centradas nos filhos. E, por isso, quando eles saem de casa podem sofrer do chamado síndrome do ninho vazio, ou seja, podem mesmo adoecer, entrar em depressão porque deixam de ter uma missão na vida e as suas rotinas em torno dos filhos. “Continuam a existir pessoas a sofrer com um vazio que se instala. A sós ou acompanhadas”, aponta Júlio Machado Vaz, psiquiatra, por e-mail, reconhecendo que são sobretudo as mães as que mais sofrem com o alegado abandono. No entanto, Bárbara Ramos Dias, psicóloga clínica e especialista em psicologia adolescente, refere que começam a surgir pais que sofrem do mesmo mal.

Separações e outras complicações

Bárbara Ramos Dias lembra que, por altura de os filhos saírem de casa, algumas mães passam pela menopausa. “A pessoa não se sente bem consigo, sente que já não tem objectivos na vida”, descreve. Teresa Espassadim acrescenta mais um dado para o sentimento de vazio: actualmente, muitos casais deixam para mais tarde a maternidade, logo, a idade da reforma pode coincidir com a altura em que os filhos abandonam o lar. “Quando as angústias são mascaradas por estar ocupado e preocupado com a vida de outros, os vazios podem ser mais angustiantes”, aponta a especialista.

Por vezes, é quando os filhos saem de casa que os pais se confrontam consigo próprios e concluem que o que os unia era apenas a descendência. “Após 30 anos, as pessoas podem perceber que são estranhas [uma para a outra]”, refere Espassadim. “Se se trata de um casal é preciso avaliar o estado da relação, o face a face pode ser insuportável ou [por outro lado] uma oportunidade de viver mais livremente”, aponta Machado Vaz. Se há casais que escolhem esta altura para se separar, outros aproveitam para se (re)conhecer. “Muitos reencontram o amor que os uniu, outros dizem que não faz sentido. O mais importante é compreender que esta é uma nova fase da vida”, acrescenta Bárbara Ramos Dias.

Mas não são só os pais que sofrem, os filhos também. A psicóloga que acompanha adolescentes conhece alguns casos de jovens que se sentem inseguros com o abandono da casa paterna. “E se não consigo pagar a renda? E se algo corre mal? E se a minha mãe passar o tempo todo a ligar-me? E se o meu pai ficar zangado pela decisão que tomei?” Estas são algumas das perguntas que surgem em consultas, revela Bárbara Ramos Dias. Desde que os filhos são pequenos que é importante prepará-los para serem autónomos – ensiná-los a cozinhar, a passar a roupa, a gerir o dinheiro – e responsáveis, propõe. “Quando saem para a faculdade ou quando querem ir viver com um amigo, os pais devem reconhecer que o filho tem coragem, dar-lhe força e apoiá-lo”, sugere.

Teresa Espassadim é da mesma opinião: cabe aos pais dar espaço aos filhos para que estes possam fazer as suas escolhas. Voltando a Bao, a mãe do pãozinho chinês fica em stress quando este quer ir brincar com os outros meninos. A psicóloga lembra que muitos pais vão às festas de anos dos amigos dos filhos e lá permanecem. São pessoas que “vivem a vida social dos filhos, que não lhes dão espaço”. Por isso, “seria estranho que não sentissem algum vazio depois da sua saída de casa”, constata.

“Olhar para sonhos antigos”

Na verdade, os pais que sempre deram espaço ao casal, enquanto os filhos ainda estavam em casa, os que já tinham os seus projectos, poderão ser aqueles que menos sentem o vazio da casa quando os filhos a abandonam. “Preparar a saída é um trabalho a tempo inteiro, desde que os filhos nascem e à medida que eles vão crescendo, procurando ter sempre espaço para que os pais sejam eles próprios”, aconselha Teresa Espassadim.

Mas há quem precise de ajuda profissional por se sentir depressivo, especialmente os que são muito dependentes dos filhos. “É preciso ajudar a pessoa a reconstruir o seu ‘eu’”, diz Bárbara Ramos Dias. Como é que isso se faz? A pessoa precisa de voltar a olhar para si, para o que gosta de fazer, reencontrar amizades antigas, criar novas, redescobrir o amor, enumera a psicóloga. “Olhar para sonhos antigos e querer concretizá-los. Usar os PPP – pensamentos positivos permanentes – porque enquanto estivermos a pensar de forma positiva, vamos ter respostas diferentes. É uma oportunidade de crescimento. E fazer um detox mental, ou seja, deitar fora tudo o que não interessa, as raivas, as angústias, as ansiedades”, defende Ramos Dias.

Pode ser uma altura difícil na vida dos pais porque confrontam-se com os seus próprios receios, refere Teresa Espassadim, salvaguardando que “isso é saudável”. “Tem de haver um ajuste e esse não se faz sem dor”, constata. Os pais têm de reconhecer que são mais do que isso. “Têm de deixar de se pôr em último lugar. Agora, já podem ir à hidroginástica, já podem comer a coxa do frango”, brinca a psicóloga. “Nós somos pessoas com vida própria e não apenas pais dos nossos filhos”, escreve por seu lado Machado Vaz.

Se a maioria, segundo os especialistas ouvidos, ultrapassa a síndrome do ninho vazio e descobre outros motivos para viver que não apenas os filhos, outros há que os sufocam com medos e telefonemas por tudo e por nada, que os culpam por se sentirem e estarem sozinhos, e que só recuperam quando os netos chegam, encontrando assim uma nova missão na vida. Esses pais têm de “perceber que a missão está cumprida”, diz Bárbara Ramos Dias.

Só depois de todo este processo – de reconhecimento que o ninho está vazio, de confiança que os filhos têm as ferramentas para voar e para fazer o seu próprio ninho – é que os pais estão preparados para novas rotinas, diz a psicóloga. “É o ciclo natural da vida. Temos de o encarar de forma positiva e reconstruir uma nova vida”, aconselha. Nessa, os filhos continuam a ter parte. “A saída física não significa abandono, a relação com os marotos mantém-se a outro nível. Hoje em dia, quantas vezes por Skype, com tanta emigração forçada para os jovens”, constata Júlio Machado Vaz.

 

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