Pais preocupados com ideias extremistas da internet. Como proteger as crianças?

Setembro 17, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto e imagem do site MAGG de 20 de agosto de 2019.

por Rafaela Simões

Os pais têm medo de que os filhos se tornem em supremacistas brancos de direita. A solução começa em casa: educar sobre a internet.

A semana passada, 13 de agosto, uma escritora, critica dos media e mãe de três filhos escreveu um tweet que se tornou viral. Joanna Schroeder mostrou preocupação com o facto de os adolescentes estarem expostos a conteúdos extremistas online e o potencial de influência que isso pode ter nos seus comportamentos. Falamos aqui de adolescentes associados a um padrão: são jovens, brancos e do sexo masculino.

Esta preocupação adensa-se com os últimos acontecimentos: a 28 de julho, um ataque de um adolescente que matou três pessoas num festival de comida, em Gilroy, na Califórnia. Apenas seis dias depois, acontece um outro episódio, classificado como um dos tiroteios em massa mais violentos dos Estados Unidos. Aconteceu a 8 de agosto no supermercado Walmart, em El Paso, no Texas, e provocou mais de 20 mortos. O jovem branco de 21 anos terá agido por ódio, já que antes de entrar no supermercado publicou na internet um manifesto anti-imigração, que entre as quatro páginas explicava o objetivo: matar o maior número de pessoas que encontrasse.

Perante esta série de acontecimentos sucessivos, os pais e professores estão mais alerta e tentam perceber o que está a acontecer com a geração do digital. Já os jovens, não sentem que este seja um problema generalizado. “Sou um adolescente branco que passa a maior parte do meu tempo aqui. No YouTube, no Twitter, nos jogos, apenas por entretenimento. Tenho ideias conservadoras porque eu penso que são lógicas e são o caminho certo. Não porque alguma figura da internet está a fazer-me uma lavagem cerebral para uma fantasia de ‘supremacia branca’”, responde um adolescente ao tweet de Schroeder que tem mais de 80 mil retweets e quase 180 mil gostos.

A mãe disse ao jornal “BBC” que a sua preocupação começou quando há cerca de um ano os seus filhos começaram a fazer perguntas que pareciam ter vindo de discursos de alta direita. Questionaram porque é que os negros podiam “copiar a cultura branca, mas os brancos não podiam copiar a cultura negra”. O alerta foi acionado aqui, e depois de pesquisar percebeu que os adolescentes partilhavam entre si conteúdos como memes machistas e racistas (que aparentemente seriam inofensivos).

Alguns especialistas referem que os algoritmos nas plataformas online podem estar a alimentar a expansão de pontos de vista extremistas e de conspirações, que afetam também os adultos, mas os jovens continuam a ser o principal foco de preocupação, pelo facto de serem mais vulneráveis e de ainda estarem a desenvolver o sentido critico. E o algoritmo é uma das razões que leva Joanna Schroeder a preocupar-se, já que assistir, por exemplo, a um vídeo com conteúdos influenciáveis pode ser o inicio do problema: “É provável que seja conteúdo cuidadosamente criado para atrair os jovens rapazes. Depois de assistir a um desses, os próximos vídeos podem ficar cada vez mais extremistas”.

Tudo começa em casa

“Devíamos estar a ensinar o pensamento crítico e a empatia. Não devíamos ensinar às crianças o que pensar, mas podemos ensiná-las a ouvir as pessoas que têm um pensamento diferente delas”, refere Tom Rademacher, professor do oitavo ano em Minnesota, nos Estados Unidos, ao jornal americano.

O caminho passa pelas escolas, mas começa em casa, onde a professora de sociologia Margaret Hagerman, passou dois anos a estudar um grupo de famílias brancas ricas e a maneira como discutiam e ensinavam sobre raça. Percebeu que os pais achavam que os seus filhos eram “daltónicos” no que toca às raças e que este mesmo assunto deixava os pais desconfortáveis quando abordado entre adultos: “Se os adultos brancos não conseguem ter conversas sobre racismo na América com outros adultos brancos, eu não percebo como é que eles pensam estar preparados para ter essas conversas com crianças”.

Mas por mais que os pais pensem que esta é uma realidade distante ou que não afeta os seus filhos, não é isso que acontece se estiverem atentos. Além dos jovens viverem rodeados de pessoas de raça branca — os vizinhos e os colegas de escola — que os induz para ideias relacionadas com supremacia branca, as conversas entre eles abordam temas como raça, racismo e desigualdade. “As crianças estão a aprender sobre raça na América através de diferentes aspetos das suas vidas quotidianas”, refere a professora.

Também a sala de aula é palco de estudo de Margaret que refere que “[os jovens brancos] estão a tentar perceber onde está a linha de pensamento. Porque é que as coisas são engraçadas e porque é que são ofensivas.” Neste limbo, os jovens acabam por se sentir “como se estivessem sob ataque” pela sociedade dominante, acrescenta.

Os pais não devem temer mensagens “anti-branco”

Os pais devem funcionar como educadores ou, mais precisamente, como explicadores críticos. Ou seja, quando uma dúvida surgir no seguimento de algo que os adolescentes viram online, a professora se sociologia sugere que os pais perguntem onde é que os jovens ouviram aquela ideia para poderem ter conhecimento do contexto e explicar de forma critica aquele meme, fotografia ou comentário que lhes pareceu inofensivo.

“Os nossos filhos precisam de saber que esperamos que eles sejam bondosos, respeitosos e honestos. Não porque pensemos que eles não são assim, mas porque sabemos que eles têm uma bondade natural dentro deles”, refere. Acrescenta que seria mais fácil implantar algumas destas ideias num ano do currículo escolar para ensinar a lidar com a radicalização na internet.

Contudo, os pais temem que a ideia acabe por passar mensagens “anti-branco”. Margaret desmistifica a ideia explicando que a sua sugestão é que “a sala de aula possa ser um local onde as crianças possam explorar sem se sentirem envergonhados. Quando aplicamos vergonha num grupo, estamos a empurrá-lo para um caminho mais negativo”, conclui.

Como sou visto pelos meus filhos?

Setembro 12, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site Sapo Lifestyle de 30 de julho de 2019.

Perceber os dois lados para um desenvolvimento familiar saudável

Como é visto pelos seus filhos? Será essa perceção a que gostaria que eles retivessem? Enquanto psicoterapeuta, muitas vezes, oiço em consulta o lado dos pais sobre como veem os filhos. Mas, depois, também oiço o lado contrário, os filhos, cuja compreensão, tantas vezes, contrasta com a opinião dos próprios pais. Pelo que observo, as duas visões são importantes para o desenvolvimento familiar saudável, estimulando a comunicação entre os seus elementos.

Grande parte das questões familiares que nos chegam a consulta envolvem dificuldades na comunicação e interação entre os seus membros, tornando-se interessante ver os dois lados de uma mesma moeda, que é o seio familiar.

No que toca às dinâmicas familiares, existe uma ampla investigação sobre a importância das mesmas para o desenvolvimento das crianças. Contudo, geralmente essas investigações centram-se no ponto de vista dos pais e no tipo de atitudes que os mesmos poderão ter no sentido do desenvolvimento e bem-estar dos seus filhos.

Mais recentemente, as pesquisas voltaram o foco para a perspetiva dos filhos, quanto aos estilos parentais adotados pelos seus pais, percebendo qual é o mais valorizado pelos filhos, bem como o mais benéfico para o seu desenvolvimento.

Os quatro estilos parentais

Vários autores da área indicaram que é importante ter em conta três aspetos principais no crescimento dos seus filhos:

  1. A socialização;
  2. As práticas parentais utilizadas para que os filhos atinjam os objetivos;
  3. O clima emocional no qual a socialização acontece entre ambos.

No relacionamento com os seus filhos, e com o objetivo de influenciar o clima emocional, cada educador pode adotar diversas atitudes e comportamentos, ou práticas parentais. Com base nisso, podemos identificar quatro estilos parentais. São eles: o permissivo, o autoritário, o autoritativo/democrático e o negligente. De modo a perceber cada um deles, iremos recorrer a duas dimensões: a responsividade (apoio prestado e sentido) e a exigência (que os pais colocam na aplicação de regras e limites).

Que estilo parental é o mais indicado?

Sabemos e compreendemos que não existe uma receita mágica para educar um filho saudavelmente. E reconhecemos que, atualmente, muitos pais deixaram de ter tempo para intervir ativamente na educação dos seus filhos, adotando, assim, um estilo mais negligente, não servindo de referência para o crescimento deles.

Tendo em conta a anterior tabela, bem como os resultados apurados em diversas investigações, podemos concluir que o estilo parental autoritativo é o mais adequado. Este estilo permite que os pais se envolvam, respondendo às necessidades da criança ou jovem (atenção, incentivo, auxílio, diálogo, diversão), bem como acompanha os comportamentos do filho (exigindo a obediência de regras, limites e cumprimento dos seus deveres), favorecendo o respeito pelos pais, mas também estimulando a autonomia e autoafirmação dos filhos.

Aqui, há a salientar que a comunicação é essencial. Só assim os pais conseguem perceber quais as perceções dos seus filhos face ao seus comportamentos e atitudes. Porque, mesmo que um pai/mãe pense que é responsivo e exigente, é importante saber qual a opinião dos seus filhos, pois pode diferir da sua.

É um desafio fácil? Não é. É uma tarefa exigente para qualquer pai/mãe, mas estará a contribuir, assim, para o crescimento emocional dos seus filhos, de modo que se tornem adultos saudáveis.

Margarida Rogeiro / Psicóloga e Psicoterapeuta

Caso Team Strada. Vale tudo no YouTube? “O primeiro ‘influencer’ tem de estar em casa”

Setembro 11, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia e imagem da Rádio Renascença de 13 de agosto de 2019.

Daniela Espírito Santo

Os problemas são os de sempre, mas em plataformas novas. Crianças e adolescentes procuram fama e aceitação nas redes sociais e no YouTube. Se não forem guiados, podem ser levados a quebrar as regras à procura de cliques.

A recente polémica a envolver a “Team Strada”, um grupo de jovens “youtubers” liderado por um “agente” de 36 anos, fez levantar muitas questões sobre a utilização das redes sociais por parte de menores.

Diversos especialistas entrevistados pela Renascença acreditam que a sociedade tem de estar atenta a este fenómeno, mas que, apesar de as plataformas usadas pelos mais novos serem, também elas, muito recentes, os problemas inerentes são os mesmos que apoquentavam os pais de outras gerações.

Os jovens que almejam uma carreira como “influenciador” ou “youtuber” querem, no fundo, o mesmo que todos os jovens sempre quiseram – ser famosos para se sentirem aceites pelos seus pares. Se não forem guiados, podem colocar-se em situações de risco em nome de cliques e visualizações.

Tito de Morais, responsável pelo projeto “Miúdos Seguros na Net”, reconhece que foi surpreendido pelo caso “Team Strada”, que está agora a ser investigado pelo Ministério Público. Hugo Strada, 36 anos e líder do grupo de jovens, foi filmado a beijar na boca um jovem de 16 anos, gerando uma onda de indignação nas redes sociais.

“Fiquei horrorizado com o que vi”, confessa Tito de Morais à Renascença, acrescentando não se recordar de nenhum caso similar, nem sequer a nível internacional. “Poderá haver situações que não sejam próprias em canais com menor expressão. A mim espantou-me foi ter sido num canal com a dimensão que aquele tinha e com os apoios que também tem. Este caso apanhou toda a gente de surpresa e isso deve fazer-nos refletir.”

Ana Neves, psicóloga clínica, psicoterapeuta e presidente da Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) da Amadora, considera que podemos estar perante “uma relação de poder de um adulto relativamente a estes jovens, consentida pelos pais”, um cenário não muito comum. “A questão do adulto que influencia não é muito conhecida. Não sei se as pessoas estão preparadas para isto”, salienta.

“Este caso apanhou toda a gente de surpresa e isso deve fazer-nos reflectir”

Também Ana Jorge, professora e investigadora da Universidade Católica na área da comunicação, acredita que este caso é relativamente novo, razão pela qual captou a atenção do público.

“É uma coisa nova, no sentido de haver um adulto suspeito de interações com crianças e jovens, menores de idade, de uma forma que pode comprometer a sua saúde e bem-estar”, esclarece. Ana Jorge também não se recorda de casos similares em que se suspeite de comportamentos que lesem crianças e jovens “envolvidos enquanto produtores”.

Plataformas novas, problemas antigos

Se este caso em particular parece novo, a questão de fundo não é, contudo, inédita. “Isto é só uma forma nova de comunicar um problema que já existia noutra forma”, defende Ana Neves. “Adultos que se aproveitam de crianças, isso já existia.”

Também não é novo o facto de haver polémica no Youtube. “O que talvez não seja novo é a preocupação em torno de ‘youtubers’ que promovem entretenimento muito inconsequente, muito irresponsável para atrair público”, adianta a investigadora da Católica. “Isso já era visto com alguma preocupação por parte de pais de crianças.”

Ana Neves mostra-se preocupada com o que viu, mas também com quem viu. “Nós vimos estes vídeos com jovens, mas existem crianças que assistem a isto. Estudos apontam para percentagens elevadas de adolescentes entre os 11 e os 16 anos que se sentem pressionados a serem perfeitos nas redes sociais. Sentem-se pressionados precisamente por estes influenciadores, que passam uma imagem daquilo que eles devem ser”, lamenta.

Afinal de contas, o desejo de aceitação dos mais jovens é transversal e intemporal. A única coisa que muda é a plataforma. “Antes, muitas crianças queriam ser futebolistas ou atores nos ‘Morangos com Açúcar'”, relembra Ana Jorge, que entende que “ser youtuber” não é um mau sonho, mas que não pode ser o único.

Ana Jorge aponta a “falta de horizontes” de muitas crianças como fator que as leva a procurarem no Youtube “um sonho de vida”.

“Não ver outras alternativas pode torná-los suscetíveis à influência de pessoas com outras intenções“, ressalta a especialista.

“Os miúdos querem ser ‘youtubers'” para serem aceites e famosos

Ser “youtuber” é, hoje em dia, uma opção profissional e foram os mais novos que mais rapidamente repararam nas vantagens de uma carreira “mediática”.

“Vejo professores que perguntam aos seus miúdos e 80% deles querem ser ‘youtubers'”, diz Tito de Morais, que acredita que pais e filhos deixam-se, muitas vezes, levar pela promessa da fama fácil e rápida.

“As pessoas ficam com a ideia de que vamos ser todos ricos a criar canais no Youtube e a jogar Fortnite. Esqueçam. Isto é uma realidade para muito poucos”, assegura, pedindo às autoridades para estarem “atentas a este tipo de situações” que envolvem “youtubers” menores.

“Na realidade, estamos a falar é de exploração de trabalho infantil”, sublinha, acrescentando que, neste caso, também se trata de “manipulação”.

“Vejo professores que perguntam aos seus miúdos e 80% quer ser youtuber”

Ana Jorge também defende que é preciso orientar os pais. “Há novas questões a surgir. Os pais estão à procura de orientação e não há fórmulas únicas e milagrosas para dizer como é que isto se deve fazer”, admite. “Mesmo tendo conhecimentos mais técnicos sobre o mundo digital, por vezes surgem questões que não são previsíveis”, remata.

A psicóloga Ana Neves concorda e diz acreditar que os pais têm de ser “educados para este novo fenómeno”.

“Os pais têm de saber o que está a acontecer e têm de perceber o que isto significa para os seus filhos, mas também precisam de ser educados e perceber o que isto significa para eles, enquanto pessoas, e quais são as repercussões disto no futuro.”

A culpa é dos pais?

Muitos foram os dedos apontados aos pais dos jovens que aparecem nos vídeos. Tito de Morais, no entanto, tem outra visão do que poderá acontecer nestes casos.

“É muito fácil cairmos em cima dos pais e perguntar onde estão os pais destas crianças. Às tantas, muitos deles estavam a acompanhar os filhos e não se apercebiam das situações”, refere.

Tal acontece porque, muitas vezes, os pais “acompanham os filhos de forma ingénua”, pensando que estão a ajudá-los a cumprir o sonho de se tornarem famosos no Youtube. “Os pais precisam de ser críticos. Não podem entregar os filhos a qualquer ‘youtuber'”, lamenta, acreditando que, nestes casos, o gestor pode ser encarado como uma figura de autoridade ou um meio de atingir um fim.

“Somos treinados para aceitar aquilo que as autoridades nos dizem”, o que nos deixa vulneráveis “quando somos expostos a pessoas que se fazem passar por uma autoridade”.

Já Ana Jorge entende que o papel de um agente de “celebridades digitais” ou das agências que fazem a assessoria destes “influencers” é o de ajudar os jovens e as suas famílias a lidarem com a potencial fama repentina.

“Os outros agentes que existem no mercado estão completamente na invisibilidade a ajudar precisamente os adolescentes nestes empreendimentos”, garante. “Não o vejo tanto como neste caso que, de facto, se mostra algo estranho e que merece, no mínimo, investigação por parte da Justiça.”

“Os pais precisam de ser críticos. Não podem entregar os filhos a qualquer youtuber”

Para Tito de Morais, é precisa mais “regulamentação, educação e sensibilização”, não só para as crianças e jovens, mas também para pais e professores.

A surpresa chega também por desconhecimento. Muitos pais consomem vídeos de Youtube mas escapam à “moda” dos influenciadores. Apesar de muitos terem Facebook, Instagram e até WhatsApp, falha a compreensão das plataformas que os filhos mais usam, como o Snapchat ou o Tik Tok.

“Instagram, Youtube e Facebook é o universo dos pais”, assegura Tito de Morais.

Qual é a responsabilidade das plataformas?

Muitos “youtubers” fazem carreira a chocar para chamar a atenção. É o caso, por exemplo, de PewDiePie, um dos mais conhecidos nomes do Youtube, que começou por mergulhar no mundo do “gaming”, mas rapidamente ganhou milhões de visualizações com conteúdo diversificado que se destacava por ser provocante e polémico.

A popularidade do sueco que se filmava a jogar acabou por ser beliscada quando publicou um vídeo onde pagava a dois homens para empunharem sinais onde se podia ler “Morte a todos os judeus”. A brincadeira saiu-lhe cara: foi notícia em todo o planeta pelas piores razões e levou-o a perder o apoio da Disney, com quem estaria a preparar negócios.

Mais recentemente, outro “youtuber”, Paul Logan, também foi obrigado a pedir desculpa depois de ter filmado um homem enforcado numa floresta no Japão.

Os dois casos levantam questões sobre quem produz conteúdo, mas também sobre as plataformas que os albergam. O Youtube, por exemplo, na sequência do sucedido com Paul Logan, mudou as regras do jogo. Mas será isso suficiente?

Estes “youtubers”, defende Ana Jorge, são “reféns” da necessidade de “tentar atrair audiências e produzir continuamente” para continuarem relevantes.

“Os produtores estão a ser pressionados a produzir constantemente, quase diariamente, a cativar audiência, a ultrapassar novos limites porque os algoritmos assim o ditam.” A especialista aponta o dedo às plataformas “que estão a lucrar com o conteúdo produzido” por estes jovens, e que deviam “controlar os conteúdos de forma a que cumpram certos princípios aceites socialmente”.

Isto torna-se especialmente premente se nos recordarmos que estes jovens estão a falar para outros jovens, que acreditam no que veem no ecrã.

“O que os ‘youtubers’ mais populares dizem é tomado como verdade pelo público a que chegam”, refere Ana Jorge, salientando o risco da “desinformação” que isto representa, mas também do “surgimento de discursos mais extremistas e populistas”, que rapidamente podem espalhar-se por estes meios.

“É preciso olhar com atenção para estas plataformas que estão a ganhar muita visibilidade e uma grande importância na vida das crianças”, remata a professora da Universidade Católica.

“Os produtores estão a ser pressionados a produzir constantemente”

Para contrariar esta tendência, Ana Jorge acredita que há um “movimento para recalibrar” a realidade, sob o qual se defende que “há certos limites que têm de ser respeitados”.

Apontar o dedo às marcas

Tito de Morais, responsável pelo projeto “Miúdos Seguros na Net”, sublinha que as marcas que patrocinam este tipo de fenómenos têm culpas no cartório.

“As marcas também têm responsabilidades, têm de ter noção do que estão a apoiar e a incentivar”, defende. “Devia haver algum escrutínio às entidades que apoiaram este grupo. Alguns deviam fazer ‘mea culpa’.”

Ana Jorge defende o mesmo tipo de escrutínio. A investigadora acredita que os patrocinadores têm “a responsabilidade de verificar e de fazer algum controlo sobre o tipo de comunicação e conteúdos que eles estão a passar”, servindo as mesmas para “balizar e dar referências do que é aceitável”.

Quem está mais vulnerável?

Para Ana Jorge, os “adolescentes mais novos”, entre os 10 e os 13 anos, sobretudo as raparigas, são o público mais vulnerável nas interações digitais. Juntam-se a esse grupo as crianças e jovens “de famílias mais desfavorecidas” que, explica a investigadora, têm maior tendência a ligarem-se “a esta cultura da celebridade clássica”.

Também Ana Neves acredita que as vulnerabilidades aparecem “quando a família está mais vulnerável”. “Acredito que os jovens estão vulneráveis porque andam à procura de influências externas, de uma imagem que lhes é dada”, diz.

Nas redes sociais, no entanto, ninguém está imune a “esta ideia de ser famoso”, que “parece ter-se tornado acessível a qualquer um”, diz Ana Jorge. “Há mais a ilusão de que qualquer um pode ser famoso.”

Ana Neves acrescenta, por sua vez, que “a promessa de ter muitos seguidores” e de ter “uma boa vida” com isso pode ter repercussões “nas relações humanas do dia a dia”.

“Não podemos achar que vamos retirar uma criança de uma situação de perigo quando não dotamos a sua família de competências para conseguir ultrapassar este problema”, diz.

“Há coisas que não são para partilhar”

Uma tendência a que também poucos parecem estar alheios é a partilha da intimidade. Afinal de contas, as redes sociais servem para partilhar, mas será que não estamos a partilhar demais?

“A questão da privacidade é fundamental. Há coisas que não são para partilhar, que não são para contar aos pais. São coisas pessoais. Uma das coisas que mais me assusta ver é a perda da intimidade e da individualidade”, explica, acreditando que, sem isso, “perdemos a noção do nosso limite”.

“As redes sociais não me assustam. Estamos todos lá. Temos é de ter noção de que há coisas que não são daquela esfera, são da nossa esfera. E é bom e bonito ser privado.”

Como estabelecer limites no “admirável novo mundo” digital?

Há que ajudar os jovens a navegar nas movediças lides das redes sociais. Especialmente se houver sinais de que algo não está bem.

“Os pais têm de perceber se existem sinais de ansiedade, tristeza, quebra do rendimento escolar, isolamento, dificuldades em dormir, baixa auto-estima”, explica a psicóloga Ana Neves. “Os pais devem estar atentos a isto e falar com os seus filhos para perceber se precisam de algum tipo de apoio e se existe algo que os está a influenciar, a coagir ou a chantagear de alguma forma.”

Se tal se verificar, tanto os pais como a própria criança podem pedir ajuda às autoridades competentes ou diretamente à Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ), pois são estes organismos que “protegem os direitos das crianças”.

“Só conseguimos combater situações de violência com apoio e os jovens têm de perceber isso: que não existem estes segredos maus, que eles não têm de viver sozinhos com isto”, esclarece.

Igual opinião tem a investigadora Ana Jorge, que acredita que a melhor estratégia passa pelo acompanhamento, por parte dos pais, dos “tipos de canais e tipos de conteúdo” que os filhos consomem para “suscitar a conversa” e “dar referências” aos mais novos “do que é aceitável e do que não é”.

Ana Neves completa: “Eles que não tenham medo de olhar para o que os filhos procuram. Temos de ser capazes de não nos assustarmos, porque não se consegue uma relação com o adolescente proibindo. É preciso saber o que se estáa passar para estabelecer o limite, que é fundamental para o jovem.”

A questão do limite repete-se quando se olha para estes fenómenos. “Os pais precisam de ouvir, de querer perceber onde os filhos estão, o que é que eles veem, como é que veem, com quem veem, quem são os amigos e depois tentar, para além de compreender, explicar e viver a relação com os filhos”, acrescenta.

Ambas acreditam que, para além dos pais, que devem procurar informar-se sobre os novos desafios que os filhos enfrentam, também a escola pode ser uma boa alavanca para um maior entendimento deste “novo” mundo.

“As escolas estão preparadas”, admite Ana Neves, lembrando que os estabelecimentos de ensino “têm psicólogos a pensar nestas questões e a olhar para os jovens”.

“O primeiro ‘influencer’ tem de estar em casa”

Para a psicóloga Ana Neves, nada no comportamento das crianças da nova geração, que desejam ser influenciadoras ou estrelas do Youtube, é surpreendente.

“O que estes miúdos querem é ser aceites. Querem ser populares, ter um estatuto social elevado, ser aceites pelos seus pares e estar no topo”, explica. “Isto faz parte das relações humanas. Queremos sentir-nos bem, queremos ser aceites pelos outros. As queixas são as mesmas, as plataformas é que mudam”, salienta.

Nada disto é novidade, mas pode ter um significado diferente nos tempos que correm: tudo está no que “este tipo de relação e de necessidade de aceitação quer dizer”.

“Será que estas crianças estão a ter relações pessoais e de amizade com laços afetivos que são importantes? Temos de regular as relações das crianças de forma a que elas não sejam superficiais”, alerta.

É esse exatamente o maior desafio para os pais, acredita a psicoterapeuta: “criar relações de qualidade” e “ter tempo para brincar com os filhos”.

“O que estes miúdos querem é ser aceites”

“Olhem para os seus filhos, percebam quem são os amigos, percebam o que é que eles veem, que redes sociais utilizam, que videos vêem, fiquem com eles, percebam o que eles estão a ver, percebam o que eles querem ser no futuro, entendam-nos e percam tempo com isto. Estejam com eles, relacionem-se com eles. O primeiro ‘influencer’ tem de estar em casa”, defende, lamentando a falta de tempo dos pais para os filhos, muitas vezes imposta pelo ritmo frenético do dia-a-dia.

“Os pais, hoje em dia, têm muita dificuldade em ter tempo para parar, para ouvir, para estar, para brincar”, diz. Por isso, acabamos por não olhar para as suas necessidades e não nos “conseguirmos colocar no lugar deles”.

Apesar disso, Ana Neves defende que as redes sociais “não têm de ser encaradas como um grande problema”, mesmo que tenham os seus perigos.

Um deles é a figura do ‘influenciador’. Porquê? “Estamos a estruturar uma imagem igual para todos. Temos de ter cuidado para que a singularidade de cada um seja respeitada e permitir que as crianças sintam que podem ser diferentes. Temos de passar a ideia aos nossos jovens de que podem ser únicos”, defende.

“Há o perigo de massificarmos. Em vez de procurarmos novas formas de expressão da singularidade de cada um, há este perigo de massificar a forma como se pensa”, entende, pelo que apela aos pais para “estarem atentos” e reforçarem as relações que criam com os filhos, até porque o perigo da massificação abrange todas as gerações.

“Acho que os adultos também estão a passar por isto”, sentencia.

No final, no entanto, há uma constante que não deve mudar tão cedo… “As formas de comunicação são muito rápidas e têm mudado muito depressa, mas o amor não muda assim tão rapidamente”, assegura.

“Estamos um bocadinho perdidos a tentar entender como é que se faz tudo isto e como é que se comunica mas, não querendo ir ao cliché, o amor salva tudo. As pessoas quando gostam e quando querem perceber e entender, acabam por arranjar forma de o fazer”, remata.

“A brincar também se educa”. Um guia para envolver os pais e afastar as crianças dos ecrãs

Setembro 10, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do Observador de 15 de agosto de 2019.

Ana Cristina Marques

90% das crianças entre 5 e 14 anos já têm telemóvel e preferem o smartphone aos jogos tradicionais. Os pais têm cada vez menos tempo. Mas os especialistas alertam: brincar sem ecrãs é fundamental.

Uma amostra de 1.200 crianças portuguesas, dos 5 aos 14 anos, concluiu que 90% tinha um telemóvel ou um Ipad próprio ou, então, partilhado com os irmãos. “São os dispositivos que os pais já não querem e que ficam para os filhos. Fiquei surpresa, os professores também não sabiam”, relata Ivone Patrão ao Observador, investigadora, psicóloga e terapeuta familiar do ISPA – Instituto Universitário. O estudo por ela coorientado teve por base alunos de escolas públicas e privadas e serviu para criar o jogo Missão 2050, lançado em junho último, que visa a promoção do uso saudável de tecnologia. “Enquanto investigadora foi uma surpresa”, insiste. “Tinha ideia que isto começava aos 10 anos, com a entrada para o 5.º ano. Mas não. E eles comunicam uns com os outros depois da escola, à noite.”

Enquanto se rendem aos ecrãs — assumam eles a forma de smartphones ou de tablets –, as crianças estão a tirar tempo aos estudos e à própria brincadeira. Ivone Patrão fala “na normalização de comportamentos”, isto é, de um comportamento online que substitui o ir brincar para a rua ou o jogar ao UNO, por exemplo. Não quer isto dizer que estas crianças sejam dependentes do uso do ecrã — isso é outra conversa — mas pode realmente existir um comportamento considerado excessivo.

Vários artigos que alertam para o facto de haver pais que usam os telemóveis e os tablets como babysitters: segundo o estudo “Happy Kids: Aplicações Seguras e Benéficas para Crianças”, do Católica Research Centre for Psychological, Family and Social Wellbeing (CRC-W), da Universidade Católica Portuguesa, as crianças que mais usam aplicações têm até 2 anos e são os pais os primeiros a dar aos filhos o acesso a dispositivos eletrónicos, além de 90% das casas portuguesas ter ligação à internet, “smartphones, computadores portáteis ou tablets”.

O debate em torno dos ecrãs é tanto que o insólito já aconteceu: nos EUA há famílias que contratam coaches para as ajudar a educar crianças longe dos ecrãs, porque é difícil recordar um tempo em que tal não existia. Também nos Estados Unidos, como já antes explicou o Observador, são cada vez mais os pais que atrasam de propósito a idade a que os filhos recebem smartphones para as mãos, existindo até movimentos organizados nesse sentido — por exemplo o “Wait Until 8th” (Espera até ao 8º).

O papel dos pais nas brincadeiras dos filhos

Brincar é essencial para o desenvolvimento dos mais novos, seja a nível sócio-emocional, psicomotor ou cognitivo. O ato de brincar deve seguir três etapas evolutivas: as atividades que geram ação (quando um bebé atira um brinquedo ao chão está a ter uma primeira noção da lei da gravidade), as simbólicas (pegar numa vassoura e transformá-la num cavalo é um exercício de imaginação) e as que exigem regras (os jogos de computador e os de tabuleiro ajudam a perceber que a vida se rege por um conjunto de normas).

A brincadeira funciona como uma espécie de tubo de ensaio para a vida real. Permite explorar, conhecer, aprender e percecionar o mundo, perceber como este funciona. Brincar faz parte da vida de uma criança e é tão importante que a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda três horas diárias de atividade física, leia-se jogos e brincadeiras, a partir do primeiro ano. O gesto tão naturalmente associado à infância parece estar, por estes dias, em vias de extinção. Tanto que há sensivelmente um ano a Sociedade Norte-americana de Pediatria recomendava que os pediatras receitassem mais tempo para brincar. A escassez está, muito provavelmente, associada ao atual estilo de vida marcado por agendas cheias e acesso facilitado aos ecrãs, o que veio alterar a forma como as crianças olham o mundo à sua volta.

Para Inês Afonso Marques, psicóloga infantil e autora do livro “A brincar também se educa” (editora Manuscrito), quando os pais dão tempo aos filhos para brincar estão a educá-los, a ajudá-los a fazer escolhas e a usar a criatividade, entre outras vantagens. Mas o uso que fazemos da tecnologia pode estar a impedir as crianças de brincar, diz. E os pais são o modelo dessa realidade. Ao Observador, a psicóloga explica que brincar implica envolvimento e atividade, enquanto a tecnologia é passiva. “As crianças gostam de se sujar, de sentir, de envolver os cinco sentidos naquilo que estão a fazer. Tudo aquilo que possa suscitar a descoberta, tudo isso estimula uma criança.”

Foi Sílvia e o marido que aproximaram a tecnologia do filho de três anos para garantir aos pais momentos de descanso e para ajudar a criança nas refeições. Ao Observador, esta mãe admite que o filho sempre comeu mal, pelo que recorria ao ecrã para o distrair. “Talvez isto tenha sido um pouco mau porque ele hoje não come bem. Antes fazia as refeições sem saber o que estava a comer, hoje não tem uma relação boa com a comida.” Atualmente, o filho vê alguma televisão em casa — sempre sintonizada em canais infantis — e Sílvia congratula-se pelo facto de ele não ter ficado muito adepto dos ecrãs. “Sinto-me aliviada porque ele não os procura, não ficou dependente. Entretém-se sozinho, encarna personagens com acessórios.”

A psicóloga e investigadora Ivone Patrão é perentória quando argumenta que as crianças não deveriam ter ecrãs nas horas das refeições e no tempo de brincar porque “têm de estar concentradas no que estão a fazer, seja comer ou brincar”. O ecrã, continua, deve ser encarado como um complemento à brincadeira, mas não o pode substituir. “O ecrã é muito assumido como algo que os vai tranquilizar, mas é preciso fazer um uso adaptado, caso a caso, dependendo das necessidades da família. Acho que os pais devem perguntar-se porque usam a tecnologia. Muitas vezes dá-se a ferramenta, mas não o manual de instruções.”

Segundo a Sociedade Norte-americana de Pediatria, até aos 2 anos o uso de smartphones e de tablets não é recomendável, sendo que a introdução deve ser feita de forma gradual e com a supervisão dos adultos. Inês Afonso Marques insiste nesta tónica: é importante controlar o que é transmitido à criança, bem como limitar ao máximo todo o tipo de monitores. “Há crianças [em consultório] que verbalizam ‘Preciso do telefone porque não tenho nada com que me entreter’. Isso revela uma dependência associada à incapacidade de a criança encontrar outros estímulos.”

“Não gosto de culpar a tecnologia… Na minha infância tive consolas. Muitas vezes, no consultório, pergunto aos miúdos as brincadeiras preferidas e a maior parte responde o telemóvel, o tablet, o computador e a consola. Por outro lado, sinto que eles têm sede de brincadeiras, têm vontade de usar os jogos que estão nas prateleiras do consultório, jogos banais, mas o mais imediato é a tecnologia muito por observação e pelo modelo que têm à sua volta”, continua Inês Afonso Marques, que ressalva que cabe aos adultos quebrar o ciclo e encontrar ou reencontrar outras formas de brincar. A isso acrescenta-se a “falsa questão” da falta de tempo, até porque a psicóloga ouve em consultório como as crianças se queixam de que os pais não têm tempo para brincar e como os pais argumentam que já não sabem brincar. “Não é necessário muito tempo, desde que este seja de qualidade”, diz, aconselhando os adultos a seguir os interesses da criança e a seguir o ritmo desta.

O uso pouco saudável das tecnologias pode, entre outras coisas, impactar a criança do ponto de vista motor, no sentido em que pode prejudicar a sua destreza. Também por isso a OMS alertou recentemente para a necessidade de as crianças com menos de cinco anos terem de passar menos tempo sentadas diante dos ecrãs para passarem, ao invés, mais tempo a brincar de maneira a crescerem de forma saudável. Entre as recomendações da Organização Mundial de Saúde está, por exemplo, o facto de os bebés com menos de um ano de idade terem de ser “fisicamente ativos várias vezes ao dia e de formas diversas” e não ficarem “contidos” mais de uma hora de cada vez em cadeiras ou carrinhos. “Tempo de ecrã não é recomendável”, acrescenta a OMS.

Sobre isso, Carlos Neto, professor e investigador da Faculdade de Motricidade Humana (FMH), disse em 2015 ao Observador que o ecrã “alterou muito significativamente a vida das crianças e dos pais”. “Passou-se da trotinete ao tablet de uma forma rapidíssima e não há equilíbrio. E o que está em causa neste momento é que nem a atividade desportiva que as crianças fazem em clubes, nem a educação física escolar, nem o desporto escolar — que são muito importantes — são suficientes para acabar com o sedentarismo que existe.”

Aos 44 anos e com duas filhas, de 7 e 8 anos, Sofia não diaboliza a tecnologia, mas faz questão de impor regras que, espera, um dia, as miúdas levem consigo para a complicada fase da adolescência. O ecrã mais utilizado lá em casa é a televisão, sobretudo para ver desenhos animados e filmes familiares como a saga “Harry Potter”. “A regra, embora não seja sempre cumprida, é dois desenhos animados quando chegam da escola, o que dá no máximo uma hora de televisão”, conta ao Observador. Limitar o tempo de acesso à televisão deriva da preocupação de Sofia, que considera que os estímulos emitidos por este ecrã são muito rápidos para os cérebros das crianças. “Se passar o tempo, a mais nova, por ter alguns problemas, fica perturbada, começa a rodopiar em loop, sem parar, a mexer freneticamente as pernas, até o discurso dela fica mais confuso.”

Outra regra imposta por Sofia passa pelo uso de smartphones: o uso exclusivo dos telefones dos pais (elas não têm gadget próprio) serve para jogar jogos escolhidos a dedo e testados pela mãe, preferencialmente que estimulem o raciocínio matemático, embora também haja momentos para “maquilhar e vestir princesas”. As filhas só podem jogar duas a três vezes por semana, cinco jogos à vez. “Quanto mais cedo elas tiverem noção de que os ecrãs têm de ser usados com inteligência, melhor. Eu não uso o telemóvel à frente delas, caso contrário nada disto faria sentido. Faço questão de dar o exemplo.”

Também o pedopsiquiatra Pedro Strecht considera que as tecnologias — em particular as aplicações — podem interferir no desenvolvimento das crianças, sobretudo em relação a algumas áreas cognitivas e de relação social. “Se um menino de 8 anos brinca no tablet ou se um de 12 anos joga na playstation, diria que isso é normal e não vejo mal nisso — só aconselho os pais a darem os jogos apropriados à idade dos filhos; mas se ele só brincar com o tablet ou com a playstation… Há crianças que crescem quase só com experiências de relação e de estímulo centradas no ecrã. Há pessoas que acham que tenho uma visão muito crítica em relação às tecnologias… As tecnologias têm coisas ótimas que podem facilitar ganhos de tempo, simplesmente acho que, nos dias de hoje, elas próprias se tornam tão opressivas no chamado tempo tecnológico que também bloqueiam a nossa vivência, o nosso tempo biológico e emocional”, já antes disse ao Observador.

O que mais preocupa a psicóloga Ivone Patrão é precisamente o estado das relações sociais. A socialização, diz, deve ser mista, tanto presencial como online. “O que me preocupa é se for só online. Se as crianças começam assim já não vão ter relações”, afirma, referindo-se ao impacto nas respetivas competências sociais. “Elas deixam de estar treinadas para a resposta em direto.”

Afinal, o que dizem os estudos?

Indepentemente da idade, Ivone Patrão refere que o ecrã tem, de facto, afetado pela negativa o ato de brincar. “Vejo que isso os deixa sentados, inertes, parados do ponto de vista físico. E há outra questão: o ecrã dá-lhes um input… o output vai ter de sair. Quando deixam de estar ao ecrã podem ficar mais irrequietos. A energia natural da infância tem de sair de outra forma. Isso tem impacto ao nível do comportamento e do ponto de vista cerebral. A luz do ecrã, por exemplo, pode provocar alterações no sono”, assegura.

O problema não é necessariamente o ecrã, mas o uso que se faz deste. Porque também nos smartphones ou nos tablets há vantagens: como a facilidade de acesso à informação, a capacidade de aprender novas línguas ou o facto de ser uma ferramenta útil na sala de aula. Nem de propósito, segundo um estudo do ano passado, publicado no jornal semanal The Lancet Child & Adolescent Health, limitar o tempo que as crianças passam a olhar para um ecrã melhora a sua capacidade de aprendizagem — o ideal seria passarem menos de duas horas por dia nessa condição.

Em 2017, a Sociedade Norte-americana de Pediatria apresentava um estudo — feito entre 2011 e 2017 com 894 crianças entre os seis meses e os dois anos — que mostrava que as crianças menores de dois anos que usavam ecrãs táteis corriam o risco de começar a falar mais tarde. Sobre isso, Catherine L’Ecuyer, doutorada em Educação e Psicologia e autora do bestseller “Educar na Curiosidade”, já antes disse ao Observador que “o tipo de interação que o tablet promove não é como a interação humana, que requer um processo ativo. Diante do ecrã, a criança anda a reboque de estímulos frequentes e intermitentes. Transforma-se numa espécie de porta USB ou numa impressora.”

As recomendações já antes citadas pela Organização Mundial de Saúde, tendo em conta o uso do ecrã por parte das crianças, não foram bem aceites por todos, já que o The Guardian cita especialistas que argumentam que, na sua base, há falta de provas. Juana Willumsen, uma das autores das referidas recomendações, diz que não há como negar que os ecrãs fazem parte da vida moderna, ao mesmo tempo que argumenta que o grupo de trabalho em questão não encontrou vantagens em introduzi-las a crianças com menos de três anos. “Capacidades sociais e cognitivas são mais bem desenvolvidas com outra pessoa do que com um ecrã. Cuidadores que brincam interativamente são absolutamente vitais para o desenvolvimento das crianças, em particular nos primeiros anos.”

Regras sim. Autoritarismo não!

Setembro 5, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto e imagem do site Up to Kids

By Centro Sei

Regras sim. Autoritarismo não!

Estratégias para treinar o comportamento do seu filho

Todas as crianças precisam que os pais lhes apresentem regras claras, constantes e coerentes. Não ao ponto de serem “pais tiranos” que impeçam a criança de crescer livre de espartilhos e pressões, mas firmes o suficiente para lhes transmitir, desde cedo, como funciona o mundo e a sociedade que as rodeia. Isto é fundamental para que a criança aprenda a distinguir o que é certo do que é errado, e para que se sinta mais estruturada, segura e protegida. Isso fará dela uma criança mais espontânea para explorar o mundo que a rodeia, e com mais espírito de aventura para enfrentar os desafios sem (tantos) medos ou vacilações.

Claro que manter a persistência e a coerência nem sempre é fácil para os pais que, cansados de uma vida agitada e sem tempo, chegam a casa no final de um dia de trabalho para serem recebidos com birras, desarrumações generalizadas e comportamentos hostis. Isto torna-se ainda mais difícil quando os pais não compreendem o significado por detrás dos comportamentos mais impulsivos e irrazoáveis dos seus filhos, impedindo-os de reagir adequadamente às situações. Porém, há quase sempre uma razão, quase uma intenção, mesmo que inconsciente, por detrás de cada “mau comportamento”. Frequentemente, a criança está apenas a testar a resiliência dos pais, como forma de se assegurar da sua capacidade para segurá-la com força e protegê-la de todos os perigos.

Em seguida, damos-lhe uma série de estratégias comportamentais para lidar com o seu filho, ANTES e DEPOIS de ocorrer o comportamento indesejado.

COMO LIDAR ANTES DO COMPORTAMENTO INDESEJADO

A EVITAR:

Partir do princípio que as suas expetativas já foram percebidas.

– Não devemos partir do princípio que a criança já sabe o que dela esperamos;

– Quando as expetativas não estão claras e bem definidas, há maior probabilidade de ocorrem problemas comportamentais.

Dar as instruções à criança, gritando de longe

– As instruções importantes devem ser transmitidas cara-a-cara com a criança e com contacto ocular.

Não informar a criança de alterações/mudanças/transições que vão acontecer

– As mudança podem ser difíceis, sobretudo se a criança estiver envolvida numa atividade/contexto de que gosta;

– Avisar a criança antes da transição permite-lhe escolher um bom momento de paragem entre uma coisa e outra.

Sobrecarregar a criança

– Emitir muitas instruções e/ou perguntas diminui a capacidade da criança para escutar, responder e lembrar-se das tarefas.

A PROMOVER:

Estar atento ao contexto da criança

– Cansaço, ansiedade, distrações, fome (entre outros) podem dificultar o contexto da criança e levá-la a ter comportamentos mais difíceis.

Tenha em consideração o impacto destes fatores quando está a lidar com a criança. Tente controlar estas variáveis e/ou adaptar os seus pedidos ao contexto da criança.

Adaptar o contexto envolvente

– Por ex. quando a criança estiver a fazer um trabalho de casa, desligue a TV;

– Por ex. ajude a criança a manter a secretária livre de brinquedos e outros distratores.

Colocar as suas expetativas de forma explícita

– Mesmo quando a criança “já deveria saber” o que é esperado dela, faz toda a diferença apresentar novamente as suas expetativas de forma explícita.

Sente-se com o seu filho e explique-lhe as suas expectativas de forma clara.

Fazer contagens decrescentes antes da transição entre atividades diferentes

– Se o seu filho estiver a ver TV, avise-o de que “dentro de 10 minutos ele vai…”.

Um pouco depois diga-lhe que “dentro de 2 minutos vamos…”. Isto permite à criança preparar-se mentalmente, e auto-regular o seu comportamento.

Oferecer diferentes escolhas ao seu filho

– Por exemplo: “preferes fazer o trabalho antes ou depois de…”;

Esta abordagem vai desenvolver a sua responsabilidade, maturidade e auto-regulação.

COMO LIDAR DEPOIS DO COMPORTAMENTO INDESEJADO

A EVITAR:

Atenção negativa

– Gritar e ralhar com o seu filho pode aumentar os problemas de comportamento, dado que as crianças tendem a preferir atenção negativa a nenhum tipo de atenção.

Consequências retardadas

– Se a consequência (por ex. o castigo ou ralhete) não for seguida e claramente associada ao comportamento indesejado, poderá transmitir-lhe a ideia de que quer castigá-lo só por castigar.

Consequências exageradas

– Por vezes, enquanto adultos, a frustração leva-nos a ter reações exageradas, quase impulsivas. Na ausência de uma reação adequada e assertiva da parte do adulto, a criança não consegue antecipar claramente os seus limites nem percebe até onde pode ir, dificultando-lhe a tarefa de auto-regular as suas próprias reações e comportamentos.

Consequências positivas, apesar do mau comportamento

– Por ex. a criança faz birra porque não quer fazer os trabalhos de casa e o adulto cede, respondendo-lhe: “então vá…, fazes só a metade dos exercícios”

A PROMOVER:

  1. Atenção positiva para um comportamento positivo

– Tentar “apanhar” a criança num momento em que esta apresenta um comportamento positivo e reforçá-la por isso;

– Fazer isto de forma persistente, mesmo se estiver frustrado e cansado de chamar a sua

atenção.

  1. Ignorar de forma ativa

– Consiste em ignorar propositadamente a criança enquanto esta se “porta mal”, e depois reforçar positivamente assim que ela apresentar o comportamento pretendido;

– Não recorra a esta estratégia para lidar com comportamentos graves, nem para momentos em que ignorar significa reforçar o comportamento indesejado (por ex. não ignorar o seu filho quando ele se recusa a pôr a mesa).. Aja com autoridade (diferente de “autoritarismo”)

– Imponha as regras de forma clara, assertiva e sem hesitações. Evite entrar em argumentação ou negociação com a criança. A explicação dos motivos deve ser realizada posteriormente.

  1. Aplicar o Time-Out corretamente

– Time-out é uma técnica comportamental que tem por objetivo ajudar a criança a controlar-se internamente e a refletir nas suas ações. Consiste em retirar a criança do local onde ocorreu o comportamento e levá-la para outro sítio onde ficará sozinha durante alguns minutos, sem distrações. Durante esse período (por ex. 1 minuto por cada ano de vida da criança), o adulto não deve falar-lhe nem dar-lhe atenção;

– Termine o time-out apenas quando a criança se tiver acalmado durante alguns minutos;

– Seja claro a explicitar antecipadamente quais os comportamentos que conduzem a um time-out;

– Seja consistente a introduzir time-outs, apesar do cansaço e saturação que possa sentir;

– Após o time-out, a criança deve voltar à tarefa anterior para evitar que este seja usado como fuga.

Conhecer os amigos dos filhos e os pais deles reduz episódios de bullying

Agosto 27, 2019 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do Público de 6 de agosto de 2019.

Portugal é dos países onde os pais mais conhecem os amigos dos fılhos, mas o cenário muda quando se olha apenas para as escolas favorecidas. Especialistas mostram, contudo, reservas nesse tipo de divisão

Um estudo que parte de dados do PISA concluiu que, quando os pais conhecem os amigos dos filhos (e os respectivos pais), as ocorrências de bullying diminuem e os estudantes mostram melhor desempenho na resolução conjunta de problemas. Apesar de a investigação não conseguir provar uma causa-efeito directa neste último ponto, assegura que os resultados do PISA vão ao encontro desta expectativa.

Para esta análise foram utilizados 288 mil inquéritos feitos no âmbito do PISA dirigidos a pais e estudantes de 18 países da OCDE sobre a frequência com que foram vítimas de  bullying físico e psicológico. Portugal teve 13.600 pais e alunos a responder. No estudo reforça-se que, quando se cultivam estas relações, os estudantes terão mais relutância em praticarem bullying. Além disso, se todos se conhecerem, será mais fácil definir normas.

Simão Bento, estudante de 18 anos e presidente da associação de estudantes da Escola Secundária Camões, em Lisboa, é a da opinião que “existem dois lados da moeda”: “Conhecer os amigos do filho pode ajudar, os jovens podem sentir-se mais intimidados, mas também podem estar mais reticentes em expor um caso de bullying, principalmente no ensino básico”, afirma.

Segundo a psicóloga Margarida Gaspar de Matos, existe um respeito maior “quando os miúdos conhecem os pais dos amigos” — no fim de contas, “não vão bater no amigo com quem lancham em casa”. Mas reconhece que pode dar-se exactamente o fenómeno oposto: os filhos podem ter medo de que, ao contarem aos pais que foram vítimas de  bullying, estes sejam “demasiado protectores” e reajam de forma excessiva na escola. “É difícil gerirmos o modo como podemos ajudar os nossos filhos. Temos de falar muito com eles e a qualidade do diálogo deve começar cedo”, explica.

Depois de a filha passar por esta situação, Rui Martins, da Confederação Nacional Independente de Pais e Encarregados de Educação, é a favor de uma abordagem que envolva toda a comunidade escolar: “Na altura foi uma surpresa, pensei que só acontecia aos outros. Só é possível resolver estas situações se todos trabalharem em conjunto, pais, directores, psicólogos… Quem faz bullying também precisa de ser ajudado.”

O “perigo” de generalizar

Geórgia, Espanha e Irlanda são os países onde os pais mais conhecem os amigos dos filhos e os respectivos pais — Portugal situa-se em sexto lugar na lista e acima da média da OCDE. Por outro lado, é em França, Hong Kong e Macau que os pais menos conhecem os amigos dos seus filhos. O estudo aponta duas razões para estes dados: por um lado, o número de vezes que o aluno tem de mudar de escola — em Espanha, um aluno de 15 anos só tem de mudar de escola uma vez, aos 12 anos, enquanto em França terá de mudar três vezes, aos 6, 11 e 15 anos.

Por outro, a participação dos pais em reuniões e conferências escolares, que potenciam as relações entre eles — na Geórgia, Alemanha, Irlanda, Escócia e Espanha, oito em cada dez pais foram a reuniões escolares; já em países como França, Coreia, Macau e Hong Kong, menos de sete em cada dez pais participou nestas actividades. Não constam no documento os dados de Portugal.

“Há uma tendência para que a participação de um maior número de pais torne o ambiente escolar mais interessante”, começa por dizer Rodrigo Queiroz e Melo, director executivo da Associação de Estabelecimentos do Ensino Particular e Cooperativo. “Os alunos exprimemse e aprendem mais. Também se sentem mais seguros”, conclui.

Embora Margarida Gaspar de Matos defenda que “a qualidade da relação entre a escola e a família” seja importante para a criança, e que “a comunicação entre os dois é um valor acrescentado”, ressalva: “Não me parece que exista uma relação directa entre conhecer os amigos dos filhos e o sucesso escolar. Existem pais atentos, empenhados e que estão interessados na evolução do filho na escola.”

Manuel Pereira, presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares, partilha da mesma opinião: “É perigoso generalizar na educação. Tive alunos que tinham tudo para dar errado e acabaram por ser muito bem sucedidos. Não são a regra, mas esses casos existem.”

Quando os dados da investigação comparam os alunos que andam em escolas mais ou menos favorecidas do ponto de vista socioeconómico, Portugal muda de posição e passa para o grupo de quatro países onde a clivagem é mais acentuada. Ou seja, no México, República Dominicana, Geórgia e Portugal, quanto mais favorecida for a escola, menos pais e filhos se conhecem e contactam uns com os outros. O oposto acontece na Bélgica, Hong Kong, Luxemburgo, Macau, Chile e Malta.

Diferenças regionais?

Se Rui Martins acredita que “existe um factor de competição em escolas de elite”, que cria uma barreira para que os pais conheçam os amigos dos filhos, há quem tenha mais dificuldades em aceitar a divisão entre escolas favorecidas e desfavorecidas em Portugal. Manuel Pereira considera que as diferenças se situam noutro patamar, o das realidades urbanas e rurais. “Em zonas menos populosas é mais fácil conhecer os amigos dos filhos em relação às zonas urbanas, que estão cheias de alunos”, explica.

Já a psicóloga Margarida Gaspar, apesar de concordar que não é “totalmente possível separar o mais favorecido do mais desfavorecido a nível nacional”, acredita que também não é possível fazer uma divisão entre o rural e o urbano: “Não é útil dividirmos o país, porque depois passamos a ver o mundo através desses óculos de categorias”, defende.

Texto editado por Rita Ferreira

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Do parents of 15-year-olds know many of their child’s school friends and their parents?

É um “pai curling”? Se for, faz parte da “pandemia da parentalidade tóxica”

Agosto 12, 2019 às 12:30 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Observador de 24 de julho de 2019.

Edgar Caetano

Conhece o “curling”, o desporto em que alguém lança uma pedra e a equipa usa vassouras para, freneticamente, limpar o caminho? Um especialista em educação diz que há pais que educam os filhos assim.

Conhece o desporto olímpico “curling“, aquele onde alguém lança uma pedra e a restante equipa usa vassouras, freneticamente, para limpar o caminho que a pedra vai seguir, até ao alvo, para que nada interfira com a direção do granito? Um especialista em educação, o australiano John Marsden, diz que há pais que educam os filhos assim — e isso está a originar uma “pandemia” de “parentalidade tóxica”, com pais que protegem os filhos em demasia, mesmo quando eles fazem coisas erradas.

John Marsden, que além da experiência como diretor e fundador de várias escolas escreveu bestsellers sobre educação, diz em entrevista ao The Guardian que está cada vez mais preocupado com o que considera ser um “problema generalizado”. Fala-se de pais que, como no curling, tentam de forma obsessiva eliminar todos os obstáculos do caminho dos filhos, privando-os de experiências de aprendizagem e desenvolvimento que seriam naturais (e recomendáveis), desde logo quando cometem erros e precisam de aprender com eles.

Pais excessivamente protetores, pais que não concebem a ideia de os filhos fazerem alguma coisa de mal, que atuam como advogados de defesa mesmo quando é claro que os filhos não agiram bem em alguma situação. Estes são pais que estão a originar uma “pandemia” que tem, na sua base, ideias “erradas” sobre a forma como os filhos devem ser incentivados a trilhar os seus próprios caminhos, aprendendo com os sucessos e com os insucessos.

“Estou a falar, sobretudo, da classe média”, diz John Marsden. “Não estou a defender que estes pais tenham intenção de, deliberadamente, agir de forma destrutiva em relação aos filhos. Mas o seu senso comum e os seus instintos parecem estar a ser perturbados por outras considerações”, diz o especialista, clarificando que está a falar sobre “danos emocionais” que advêm de uma “ansiedade [por parte dos pais, na educação dos filhos] que, muitas vezes, se assemelha a pânico”.

Uma das consequências disso — e John Marsden sabe do que fala porque está na direção de duas escolas — é que está a tornar-se cada vez mais difícil gerir uma escola, não só pela dificuldade em lidar com crianças com saúde emocional questionável mas, também, com pais que assumem sempre uma posição de defesa inabalável dos filhos. Uma coisa está ligada à outra, diz o autor da série de livros bestseller “Tomorrow, When The World Began”.

John Marsden tem um novo livro, The Art of Growing Up, onde defende que muita gente está a “falhar”, enquanto pai e mãe, porque num mundo onde — reconhece — há cada vez mais perigos, o enfoque excessivo nesses perigos está a contribuir para que, paradoxalmente, as crianças e os jovens se tornem menos equipados para reagir a esses perigos.

A geração de filhos que se sentem trocados pelo telemóvel

Agosto 12, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Texto e imagem do site Up to Kids

Telemóvel: Quando os pais o colocam à frente dos filhos

Só um segundo, filho! A mãe está só a acabar esta story e já falo contigo!”

Esta frase, que podia ser tirada de um cartoon, serve perfeitamente como alegoria a uma questão extremamente contemporânea que tem vindo a contaminar as relações entre pais e filhos. Cerca de 42% das crianças com idades entre 8 e 13 anos sentem-se trocadas pelo telemóvel dos pais. Esta é uma constatação do estudo Digital Diaries, realizado em junho por uma das maiores empresas globais de tecnologia de segurança.

Ficou surpreendido com os dados? Então leia o resto, porque não melhora.

O que diz o estudo?

Para este estudo a AVG entrevistou 6.117 pessoas de países como Austrália, Brasil, República Checa, França, Alemanha, Nova Zelândia, Reino Unido e Estados Unidos. Ou seja, o estudo reflete a realidade de pais e filhos de diferentes nacionalidades e culturas. Isto reforça o argumento de que o problema não é apenas reflexo do comportamento de um grupo específico de pessoas..

O estudo concluiu ainda que 54% das crianças reclamaram da frequência com que os seus pais olham para o telemóvel, especialmente enquanto conversam com elas.  Outra conclusão relevante: o sentimento de desprezo (32%) pela falta de concentração no diálogo, segundo informações do R7.

“Os meus pais estão sempre no telemóvel. Odeio o telefone e queria que nunca tivesse sido inventado”. Esta foi a declaração de uma criança após responder à simples pergunta da professora americana, Jen Adams: “Que invenção gostavas que nunca tivesse sido criada?”.

“Se eu tivesse que dizer qual a invenção que não gosto, diria que não gosto do telemóvel. Porque os meus pais estão sempre agarrados a ele. O telemóvel às vezes é um hábito muito mau. Eu odeio o telemóvel da minha mãe e gostava que não existisse. Essa é a invenção que eu não gosto”, respondeu um aluno do 2º ano de um colégio no estado de Louisiana, segundo a Crescer.

As idades e o desenvolvimento da criança

Donald W. Winnicott e Henri Paul H. Wallon, dois dos principais teóricos da aprendizagem, apontaram a relação mãe-bebé como um fator-chave para o sucesso do bom desenvolvimento cognitivo e emocional das crianças nos seus primeiros meses e anos de vida. O período que vai dos 0 aos 5 anos, para teóricos como Sigmund Freud, M. Klein, Lev Vygotsky, Jean Piaget, constitui uma fase crucial para esse desenvolvimento.

Não se trata apenas do desenvolvimento motor e cognitivo mas também do desenvolvimento emocional. Quanto mais segura afetivamente a criança se sente, melhor se torna a sua capacidade de superar adversidades e de encarar a vida. Para se desenvolver a criança absorve as referências que a rodeiam. Os pais são a sua maior referência. É com base no comportamento dos pais que a criança constrói a sua ideia de mundo, especialmente de relacionamentos.

A autoimagem da criança, isto é, a forma como se vê, também é reflexo da forma como os seus pais a tratam e se tratam mutuamente.

A falta de segurança e de referências na vida das crianças na geração atual tem produzido uma geração emocionalmente vulnerável, carente, insegura e ansiosa.

Crianças de 7, 10, 11 anos (período compatível com a evolução da internet) estão, cada vez mais, a apresentar problemas de ordem afetiva associados à falta de atenção dos pais. Isto afeta também a (falta de) disciplina.

Esta é a geração que nos últimos anos tem apresentado maiores índices de psicopatologias, suicídio, automutilação, depressão e “rebeldias”. Não é só a falta de referência dos pais, mas a substituição dela por outra qualquer, literalmente, já que diante da ausência da família, a criança procura encontrar-se no que o mundo lhe oferece de forma fácil e rápida.

E qual seria a solução?

É preciso que os pais e mães dediquem parte das suas vidas ao momento mais crucial da vida dos filhos. Falamos do período em que a personalidade se forma e as primeiras habilidades sociais se desenvolvem. Esta fase vai dos 0 aos 5 anos, sendo esse um período crítico, mas que se consolida até os 10/12 anos.

A partir da adolescência, já no início da puberdade (11/12 em diante), a lógica começa a inverter-se. Os filhos querem tornar-se mais independentes dos pais. É nessa fase que começam a “trocar” os pais pelos amigos. Isso é natural e necessário. É uma preparação para o mundo e algo contrário a isso não é um bom sinal.

Será nessa fase da adolescência que os seus filhos colocarão à prova toda a herança recebida durante a infância. Os que tiverem tido referências de segurança dificilmente deixarão para trás os conselhos dos pais. Aliás, antes pelo contrário, vão utilizá-los ao longo da vida. O bom vínculo parental construído até os primeiros 10/12 anos de relação servirá de âncora para toda a juventude.

Resumindo, vale a pena investir na atenção ao seu filho sem a presença da tecnologia. Até porque podemos estar no Facebook enquanto a criança dorme ou está distraída a ver bonecos animados. Porque ninguém é de ferro, certo?

Redação CONTI outra. Com informações do texto de Will R. Filho, em Opinião Crítica, adaptado por Up To Kids®

mais informações na notícia:

Kids Competing with Mobile Phones for Parents’ Attention

Sabemos onde andam os nossos filhos?

Agosto 10, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de opinião de Rute Agulhas publicado no DN Life de 28 de julho de 2019.

Esta semana os adultos passaram a conhecer a chamada “Team Strada”. Sim, os adultos, porque as crianças e jovens portugueses há muito que conhecem este adulto que terá 36 anos, angariador de miúdos que desejam ser youtubers (nome chique) e influencers. Que é como quem diz, alguém famoso que ganha dinheiro a fazer vídeos parvos e tem uma legião de seguidores.

Que os miúdos de hoje já não aspiram a serem astronautas, pilotos de automóveis ou futebolistas, isso já sabíamos. Vários estudos recentes têm comprovado isso mesmo. À célebre pergunta “o que queres ser quando fores grande?”, cerca de metade das crianças a partir da idade escolar responde youtuber. E é vê-los chatearem os pais para tirarem cursos de youtuber (sim, existem), gastarem rios de dinheiro em câmaras de filmar, luzes e todo um conjunto de parafernálias necessárias para conseguirem um vídeo perfeito.

Após diversas queixas, a Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Protecção de Crianças e Jovens (CNPDPCJ) expôs a situação ao Ministério Público, pedindo uma investigação para aquilo que considera poder configurar uma situação de perigo para as crianças e jovens envolvidos. Ao vermos os vídeos em questão, deparamo-nos com um tipo de proximidade física aparentemente muito intrusiva, com toques e comportamentos que parecem exceder aquilo que será adequado. É bem-vinda esta investigação.

No entanto, esta polémica deve fazer-nos reflectir a outro nível.

Em primeiro lugar, onde estão os pais ou cuidadores destas crianças e jovens que se deixam enredar nestes meandros, sedentos de fama? Ao ponto de poderem fazer qualquer coisa, aceitar qualquer coisa, calar qualquer coisa? Ou querem os pais, mais ainda do que os filhos, esta mesma fama fácil a troco do que tiver de ser?

Em segundo lugar, sabemos a influência gigante que os youtubers têm nas crianças e jovens. E sabemos nós, pai e cuidadores, a que vídeos assistem os nossos filhos? Que influencers influenciam a sua vida? Que comportamentos tentam eles imitar? Que fotos postam eles, na ânsia de receberem mais likes? Que conversas têm nos milhentos grupos de WhatsApp a que pertencem? Quais os conteúdos dos seus jogos preferidos?

Pois é. Às vezes pensamos que sabemos, mas não sabemos. Os maiores perigos há muito que deixaram de ser as más companhias e as drogas na rua. O maior perigo pode estar mesmo aí ao seu lado, aqui ao meu lado, em nossa casa. Debaixo dos nossos olhos. E este perigo é maior ainda porque é silencioso e não incomoda muito. Os miúdos até estão sossegados e entretidos entre quatro paredes, e acreditamos (ou queremos acreditar) que isso é o bastante para os proteger. Mas não é.

Numa era digital, as competências parentais têm de ser transpostas para o mundo online. O que equivale a dizer que é necessário comunicar abertamente com os filhos e conhecer as actividades digitais em que eles se envolvem, protegendo-os dos perigos que a Internet pode representar.

Dá trabalho? Dá.

Eles refilam porque detestam sentir-se controlados? Refilam.

Mas a supervisão é o único caminho seguro.

 

[Entretanto, o YouTube terá encerrado o canal do Team Strada, depois da abertura de um inquérito por parte do Ministério Público, na sequência das queixas que chegaram à CNPDPCJ.]

Superproteger as crianças é desprotegê-las | Eva Millet

Agosto 7, 2019 às 12:00 pm | Publicado em Site ou blogue recomendado, Vídeos | Deixe um comentário
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Post do blogue RBE de 21 de julho de 2019.

Eva Millet · Jornalista e escritora

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Eva Millet

Jornalista e escritora especializada em educação e crianças, Eva Millet alerta para os efeitos sobre crianças e jovens da “hiperpaternidade“, modelo que surgiu nos Estados Unidos com a primeira geração “milenarista” e que já chegou a Espanha. Esse novo fenómeno vai “da superproteção ao controlo excessivo, tanto em casa como na sala de aula”, recusa os professores e invade o espaço das crianças na escola.

Millet investigou essa mudança na educação por meio de entrevistas com psicólogos, pedagogos, educadores, pais e professores, a quem dá voz em seus livros “Hiperpaternidad” e “Hiperniños”. A autora destaca que esse sistema de “criação monstruosamente intensiva” está a criar uma geração de jovens ansiosos, impacientes e dependentes, com medos e baixa tolerância à frustração, o que também se reflete na sua aprendizagem e desempenho académico.

Millet propõe que “as mães tigres, os pais bulldozer ou helicóptero” deem lugar a um modelo que lhes permita relaxar, confiar no senso comum e nas crianças, e não apostar apenas no acumular de experiências e conhecimentos, e optem por uma ” educação de caráter “que reforce a sua empatia, resistência, valores e tolerância à frustração.

Referência“Sobreproteger a los niños es desprotegerlos”. (2019). BBVA Aprendemos juntos. Retrieved 21 July 2019, from https://aprendemosjuntos.elpais.com/especial/ensenar-a-los-ninos-a-tolerar-la-frustracion-eva-millet/

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