“Alguns pais olham para os filhos e vêem um porquinho-mealheiro”

Novembro 6, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 10 de outubro de 2019.

Jaume Funes: “Educar um adolescente é dar-lhe autonomia e fazê-lo aprender a gerir riscos”

Outubro 9, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Jaume Funes, psicólogo espanhol especialista em adolescência e autor do livro “Ama-me quando menos mereço, porque é quando mais preciso”.

Entrevista do DN Life a Jaume Funes no dia 3 de outuubro de 2019. Foto do DN Life

Jaume Funes é psicólogo, educador e jornalista. Trabalha há mais de 40 anos com adolescentes e jovens, na área da educação. Não acredita em receitas para lidar com adolescentes, mas considera que pode ajudar pais e professores a saber como relacionar-se com eles. Nos seus 40 anos de experiência, conheceu várias gerações, de A a Z, e descobriu que, além de quilos de paciência e uma dose equilibrada de autonomia, eles precisam sobretudo de amor, mesmo que nem sob tortura o admitam.

Entrevista de Catarina Pires

Ama-me quando menos mereço, porque é quando mais preciso. Ajude-nos a decifrar este título. Porque é que um adolescente merece menos e precisa mais?

Normalmente, ter um adolescente em casa significa ter uma vida ocupada. Dito de outra forma, ele ou ela está a afirmar-se, entrando em conflito com os seus adultos, questionando as ideias destes. Acabam por ser encantadoramente insuportáveis.

No meio de toda esta batalha, podemos ter a sensação de que eles já não precisam de nós ou que é melhor deixá-los sozinhos com as suas impertinências. Mas a verdade é que eles ainda precisam de nós, só que de maneira diferente.

Precisam de beijos, mas ai de nós se nos atrevermos a pensar em dar-lhes um. Precisam saber que estamos sempre lá, mas ai de nós se tentarmos intrometer-nos na sua vida. Eles precisam de sentir a segurança de saber que os amamos, mas não demonstram que precisam de nós.

Uma das primeiras coisas que recomenda é que os pais esqueçam os manuais de autoajuda. Porquê?

A educação de um adolescente é sempre presidida por uma palavra: “DEPENDE”. Não há receitas a aplicar. Sim, existem critérios educacionais a serem aplicados, mas não consigo escrever um livro dizendo o que fazer. O livro que escrevi é sobre como fazê-lo, sobre as respostas que criam problemas, sobre quais são as características inevitáveis dos adolescentes e quais são as dificuldades.

O amor, quando falamos de adolescentes, é saber estar ao seu lado, saber acompanhar um caminho que dará muitas voltas, parará, perder-se-á e voltará a encontrar-se.

Este seu livro é um guia. Seria bom que os adolescentes viessem com um manual de instruções?

Os rapazes e as raparigas adolescentes precisam de descobrir que os seus adultos, em casa ou na escola, olham para eles de maneira positiva, que não são apenas olhos que investigam possíveis problemas.

No meio do inesperado sucesso editorial deste livro, há alguns meses, escrevi um pequeno diário adolescente, que o resume (“Fiz-te sofrer… mas amaste-me”). Nele, um filho faz a sua mãe morder o anzol no Instagram e vá lá ler um texto com sua versão da adolescência.

É um “guia” no sentido de ajudar a não nos sentirmos perdidos, a gerir as perplexidades e a saber como ser-lhes úteis, lado a lado com eles.

O amor tem um efeito protetor? Como?

Em todas as etapas da infância, todas as crianças precisam de sentir, de maneira estável e intensa, que são importantes para alguém, que alguém se preocupa com elas, e que as suas vidas estão vinculadas a outras pessoas.

Em cada etapa, a experiência de sentir-se amado assume formas diferentes. Para alguns, os abraços são essenciais; para outros, trata-se de saber que não estão sozinhos, que há adultos que respondem. O amor, quando falamos de adolescentes, é saber estar ao seu lado, saber acompanhar um caminho que dará muitas voltas, parará, perder-se-á e voltará a encontrar-se.

A adolescência é um tempo de descobertas e experiências. Como equilibrar a importância de lhes dar liberdade com o medo de que algo de mal lhes aconteça (ou com a necessidade de prevenir problemas graves)?

Quando se tem filhos adolescentes, é inevitável ficar angustiado, pensar que eles podem destruir-se. Quando se trabalha com adolescentes, também é inevitável querer evitar que tenham problemas, tentar fazer prevenção. Mas confunde-se os riscos com os problemas, queremos impedi-los de fazer coisas para impedir que imprevistos aconteçam… e não pode ser.

Ser adolescente significa explorar, descobrir, experimentar (um dia um adolescente disse-me que era “um explorador reprimido”). A educação, a atenção dos adultos, deve ser no sentido de garantir que eles aprendam a proteger-se e saibam como gerir os riscos. A nossa obrigação não é criar controlos, mas dificultar algumas experiências e, principalmente, capacitá-los para aprenderem com as suas experiências.

Se nos lembrássemos da nossa adolescência, entenderíamos melhor os seus entusiasmos e as suas angústias, seríamos capazes de contextualizar as dificuldades.

Diz que a adolescência é uma invenção social. Em que sentido?

Pelo menos no sul da Europa, a adolescência “universal e obrigatória” só começou no fim dos anos 70 do século passado. Antes, apenas os filhos e filhas das classes altas é que podiam passar um tempo da sua vida a ler poemas, a contemplar as estrelas e a viver. A adolescência dos filhos dos trabalhadores era passada como aprendizes, a varrer uma oficina, na linha de montagem de uma fábrica ou assumindo as responsabilidades do lar.

Sempre existiu puberdade, mas dispor de quatro ou cinco anos de vida para ser adolescente é uma realidade com apenas quatro décadas. Isso só acontece quando o sistema produtivo já não precisa da força de trabalho de pessoas com 14 anos. O problema é que os adultos continuam a não perceber para que serve esta nova etapa evolutiva da vida.

Para lidar com adolescentes, e educá-los, é importante lembrarmo-nos da nossa própria adolescência ou é melhor esquecê-la?

Tendemos a esquecê-la, mas seria bom lembrá-la. Eu costumo lembrar aos pais e mães que também já foram adolescentes, que também fizeram muitos cabelos brancos aos seus pais, mas que agora são mães e pais razoáveis. Convido-os a acreditar que os seus filhos podem mudar e a não perder a esperança.

Se nos lembrássemos da nossa adolescência, entenderíamos melhor os seus entusiasmos e as suas angústias, seríamos capazes de contextualizar as dificuldades.

Exigimos muito do ponto de vista do sucesso académico ou social e muito pouco naquilo que implica permitir que assumam responsabilidade nas suas decisões e na sua vida.

Trabalha há 40 anos com adolescentes. Quais são as grandes diferenças e transformações a que tem vindo a assistir?

As várias adolescências foram e são especialmente adaptadas a uma sociedade que muda rapidamente. Portanto, têm sido continuamente diferentes. O âmago do seu mundo interior, das contradições e desafios a resolver, permanece mais ou menos o mesmo, mas as suas expressões, estilos de vida, influências e pressões sociais é que têm vindo a mudar muito. Daí que os sociólogos da juventude e os media falem em gerações (já esgotaram o alfabeto, já vão agora na “geração Z”).

Comecei a trabalhar com “bandos” de jovens num mundo em que eles já não podiam ir trabalhar, como tinha acontecido com os seus pais, e acabei a dar conselhos sobre como educar entre ecrãs. Pelo meio, vivi a geração de heroína, as “tribos” urbanas, a escolaridade obrigatória, as adolescências das novas famílias… Todos os dias tenho que pensar em novas maneiras de ser útil nas suas vidas.

Exigimos de mais dos adolescentes?

Exigimos muito do ponto de vista do sucesso académico ou social e muito pouco naquilo que implica permitir que assumam responsabilidade nas suas decisões e na sua vida. Grande pressão social e pouca autonomia. Não aceitamos que o bom adolescente seja aquele que toma decisões, erra e a quem ajudamos a fazer-se responsável.

Os rapazes têm que aprender mais com as raparigas (especialmente no que respeita a emoções e afetos) e elas têm que ser um pouco mais como eles (menos responsáveis, mais autónomos, mais “loucos”)

Devemos lidar de forma diferente com rapazes e raparigas ou isso deixou de ser uma questão?

As adolescências são muito diversas, não existe apenas uma. Além disso, as adolescências masculinas e femininas, em geral, têm diferenças importantes. Costumo dizer (e trabalhar para isso) que os rapazes têm que imitar uma parte da adolescência das raparigas (especialmente o que tem a ver com emoções e afetos) e que estas têm que ser um pouco mais como eles (menos responsáveis, mais autónomos, mais “loucos”). A igualdade teórica já foi assumida, a prática da igualdade nos seus relacionamentos não.

Nesse meio tempo, mistura-se a grande questão da descoberta e prática da sexualidade adolescente com as condicionantes externas, como as séries ou a pornografia, que não vivem da mesma forma e precisam de nossa atenção educacional diferenciada.

Diz que há três grandes razões para intervir nas vidas adolescentes. Quais são?

Defendo que é uma etapa educativa em que é preciso os pais continuarem a educar, mas de forma diferente. A vida deles não será a mesma se não criarmos oportunidades educacionais (é por isso que, por exemplo, tornámos a escolaridade universal e obrigatória). Eles não evoluem automaticamente.

Precisam de fazer experiências, mas devemos garantir que haja adultos ao seu lado dispostos a ajudá-los a aprender com suas experiências. Como têm que viver num mundo complexo e em mudança, devemos cuidar para que tenham capacidade de adaptação, de resiliência, para gerir as angústias e problemas que enfrentarão pelo caminho.

Qualquer bom castigo para um adolescente é sempre uma pena pesada para os seus adultos. Podemos proibi-lo de sair de casa no fim de semana, mas teremos que ficar a vigiá-lo (com provisões de diazepan).

O que é que é “normal” esperar de um adolescente e o que pode e deve fazer soar alarmes?

No livro, sugiro uma lista do que podemos e não podemos esperar de um adolescente. Não podemos esperar, por exemplo, que deixe de nos fazer oposição (viver com adolescentes e ter conflitos é inevitável). Mas também sugiro não confundir conflitos com problemas ou não etiquetar todas as suas angústias, mal estares e dificuldades como doenças mentais. Por isso, proponho aprender a conjugar verbos como ver, observar, ouvir, perguntar…

Os castigos não funcionam na adolescência? Qual é a melhor forma de educar criaturas que estão em fase de rutura e questionamento constante?

Qualquer bom castigo para um adolescente é sempre uma pena pesada para os seus adultos. Podemos proibi-lo de sair de casa no fim de semana, mas teremos que ficar a vigiá-lo (com provisões de diazepan).

Há uma longa lista de sugestões para saber quando e como responder, para tratar de aguentar uma certa pedagogia dos pactos. É preciso responder ao seu comportamento, mas nem sempre da mesma maneira nem de imediato. Pensar castigos pressupõe ter acumulado antes algumas toneladas de paciência.

É mais importante ouvir do que falar? E quando falamos, eles, mesmo que não pareça, estão a ouvir-nos? É mais importante o que fazemos (o exemplo que damos) do que o que dizemos?

Qualquer adulto que esteja perto de um adolescente é sempre um educador. Representamos modelos de mulheres e homens, cidadãos, comportamentos aceitáveis, valores, etc. Falar significa aproveitar diferentes momentos (raramente num lugar e horário programado) em situações imprevistas. Também significa ir deixando cair opiniões, dúvidas, perguntas para que descubram como pensamos.

Às vezes, levantam dúvidas e, mesmo que não seja no momento certo, hão de ligá-las a alguma possibilidade de resposta (no momento ou mais tarde). Mas não podemos explicar sem mais as nossas experiências (batalhões de adultos) ou distribuir conselhos. Voltaríamos aos verbos a conjugar que referi acima…

A escola secundária é um verdadeiro símbolo da distância entre os adolescentes e o mundo adulto. Uma parte das dificuldades tem a ver com uma crise do ensino, com a forma como se ensina e se aprende hoje.

“Conviver com adolescentes é como estar dentro de um duche escocês”. O que quer dizer com isto?

Não há meteorologista capaz de prever os seus estados emocionais, eles vivem numa espécie de panela de pressão emocional e, além disso, passam de um estado para outro em frações de segundos. Nós, adultos, ficamos desconcertados com o exagero das suas reações e não é fácil para nós acompanhar o ritmo das suas mudanças.

Quando pensamos que está tudo bem, surge uma discussão, quando ainda não nos recuperámos de um confronto, acalmam-se e dizem-nos que “não era caso para tanto”. Passamos de um calor de 40 graus para a imersão em zero graus… e já não temos a energia e flexibilidade deles.

As escolhas que fazem e decisões que tomam nestas idades podem ser decisivas para o resto da vida. Condicionar essas escolhas é uma tentação. Até que ponto podemos deixá-los decidir sozinhos?

Apesar do nosso pânico, na adolescência tudo é provisório, embora tudo possa ter o seu impacto. Salvo algumas experiências, por que passam apenas alguns e que devemos tentar impedir, a chave é saber esperar, descobrir o momento oportuno, garantindo que tem ao seu lado outros adultos em quem confia (um bom tutor na escola, um bom explicador, um bom treinador, um bom pediatra…).

A construção da identidade é particularmente desafiante na adolescência. Hoje é ainda mais complexo? Que questões é importante ter em conta?

Ser adolescente significa sentir a necessidade (afetiva, racional) de perceber quem se é e o que quer fazer com a vida. Muitos de seus comportamentos têm subjacente esse objetivo.

No livro, insisto que educar sobre identidade tem pelo menos três dimensões. Por um lado, eles devem descobrir que têm e devem ter identidades diferentes (evite que superem as suas dificuldades identificando-se apenas com uma bandeira, uma pátria, um dogma, um grupo).

Por outro lado, insisto em educá-los para que possam mudar as suas identidades sem se sentir mal (ancorar em vários lugares seguros, não enraizar num ponto imóvel).

Finalmente, é essencial que construam identidades com os outros, decidam o que querem ser juntos, não aceitem identidades para as quais alguém tenha de lhes conceder um cartão prévio de pertença.

Como estimular uma relação saudável e equilibrada com a escola?

A escola secundária é um verdadeiro símbolo da distância entre os adolescentes e o mundo adulto. Uma parte das dificuldades tem a ver com uma crise do ensino, com a forma como se ensina e se aprende hoje na sociedade da informação (por exemplo, o papel do adulto já não é apenas transmitir, mas ajudar a integrar; não faz sentido dividir as aprendizagens por temas em vez de áreas do conhecimento).

A outra parte tem que ver com metodologias e técnicas didáticas desadequadas para a adolescência (por exemplo, ter que memorizar em vez de investigar). Os desafios são, por exemplo, estimular o desejo de saber, manter a vontade de fazer perguntas, não se contentar com qualquer resposta…

Por fim, a grande dificuldade é que o adolescente percebe que a escola não está interessada no seu mundo, que este não tem espaço na sala de aula, poucas vezes os professores se tornam próximos e cúmplices, atentos aos adolescentes que têm à frente e aos processos por que passam.

Nem a escola pode esquecer que a última coisa que eles fazem antes de entrar na sala de aula é postar uma foto no Instagram, nem os pais podem pensar que tudo se resume a controlo quando estamos num mundo em que não se pode ser adolescente sem ter um smartphone.

A sexualidade desperta nesta altura. Como devem os pais lidar com isso?

Já aflorei esta questão quando falei na diferença entre rapazes e raparigas. De qualquer forma, temos que pensar que são tempos de “primeiras vezes”, de descoberta também no território da nova sexualidade (desejos, atrações, emoções, etc., desconhecidos).

Eles devem aprender a proteger-se, a gerir riscos (é um direito deles), mas não podemos focar a sexualidade nisso. De uma maneira esquemática, temos que pensar em como levar em consideração o universo de influências externas (pornografia), em como assegurar que seguem seu próprio ritmo pessoal sem serem apressados pelos amigos ou pelo mercado, em como conseguir que não se queimem etapas que passam por desejar e sentirem-se desejados.

(Embora tenha prometido que este era o meu último livro sobre adolescência, estou a escrever agora, por causa da confusão que parece dominar-nos, uma espécie de “sequela” sobre a educação para a sexualidade em tempos de pornografia e outras questões aparentemente complexas, como os ecrãs).

O desafio é que não se perca a descoberta dos abraços e dos beijos, que experimentem uma sexualidade saudável, humanizadora e feliz.

Quais são os sinais de alerta a que os pais devem estar atentos no que respeita a saúde mental?

No livro, dediquei um capítulo aos adolescentes que sofrem e fazem sofrer, enfatizando que quando as situações são complicadas, o sistema de atenção à saúde mental geralmente é muito pouco útil e adequado aos adolescentes.

Às vezes, o problema é que não sabemos e não temos recursos para ajudá-los. Não vão, sem mais, consultar psicólogos ou psiquiatras. Além disso, ninguém no seu ambiente quotidiano (da escola aos pontos de encontro) educa as suas emoções e sentimentos.

Na maioria das vezes, encontramo-nos, como já disse, com problemas que podem tornar-se dificuldades sérias e de longo prazo se não existir acompanhamento para os resolver. Exceto em casos extremos, os “sintomas” têm que ver com a perceção de que não estão felizes, que andam perdidos sem encontrar saídas.

Deixamos para outra ocasião a questão da educação em tempos de ecrãs. Nem a escola pode esquecer que a última coisa que eles fazem antes de entrar na sala de aula é postar uma foto no Instagram, que os alunos que tem à sua frente são alunos virtuais, nem os pais podem pensar que tudo se resume a estabelecer controlo quando estamos num mundo em que não se pode ser adolescente sem ter um smartphone.

A mensagem do pai que perdeu o filho enquanto passava muito tempo a trabalhar: “É mais tarde do que pensam”

Outubro 7, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Observador de 8 de setembro de 2019.

Storment estava numa reunião quando soube que o filho tinha morrido subitamente. Agora, arrepende-se de ter passado mais tempo a trabalhar do que com a família. E deixou conselhos no LinkedIn.

“Abracem os vossos filhos. Não trabalhem até muito tarde. Provavelmente vão arrepender-se de estar a gastar o vosso tempo nas coisas em que o gastam agora quando ele se esgotar.” Foi este o conselho que um pai deixou no LinkedIn poucas semanas depois de saber que o filho tinha morrido subitamente. E de perceber que, nos oito anos de vida da criança, tinha passado menos tempo com a família para se concentrar no emprego. O texto foi publicado por ele nas redes sociais e tornou-se viral.

Naquele dia, J. R. Storment tinha acordado cedo para trabalhar na FinOpsFdn, a empresa de que era presidente. Não se despediu dos filhos antes de sair de casa. Passado umas horas, estava numa reunião — a comentar que nunca tinha tirado férias desde que aceitou aquele cargo –, quando recebeu uma chamada da mulher: “J.R., o Wiley está morto. O Wiley morreu. Lamento muito, mais tenho de chamar o 112”.

Wiley, que havia sido diagnosticado com uma forma leve de epilepsia, que tende a desaparecer durante a adolescência, morreu durante o sono com uma “morte inexplicável e repentina de epilepsia”: “É visto como imprevisível, inevitável e irreversível quando é iniciado. Pode estar ligado a uma convulsão, mas muitas vezes o cérebro simplesmente desliga. Estatisticamente, era altamente improvável que atingisse nosso filho. Uma em 4,5 mil crianças com epilepsia é afetada. Às vezes acabamos a ser nós a estatística”, explicou o pai.

Agora que perdeu o filho, J. R. Storment diz-se arrependido por não ter passado mais tempo com a família: “Nas últimas três semanas, cheguei a um fluxo interminável de coisas de que me arrependo. Elas tendem a dividir-se em duas categorias. Coisas que eu gostaria de ter feito de maneira diferente e coisas com as quais fico triste por não o poder ver a fazer”.

É que, com cinco anos, Wiley já sabia que queria abrir uma empresa e casar quando fosse crescido. Aos seis anos, até já sabia com quem queria fazer tudo isso. “Ver o nome dele escrito na certidão de óbito custou muito. No entanto, dois campos do formulário esmagaram-me. O primeiro dizia: ‘Ocupação: nunca trabalhou’. E o seguinte: ‘Estado civil: nunca se casou’. Ele queria tanto fazer como duas coisas. Sinto-me feliz e culpado por ter tido sucesso em cada um desses dois campos”, desabafou J. R. Storment.

R. Storment termina a publicação a lembrar os internautas que é “mais tarde do que se pensa” para “gozar a vida”. O empresário recordou a letra de uma das canções favoritas do filho, chamada “Enjoy Yourself”, que diz:

Tu trabalhas e trabalhas há anos e anos, estás sempre em movimento. Nunca tiras um minuto de folga, muito ocupado a fazer dinheiro. Um dia, hás-de te divertir quando fores milionário. Imagine toda a diversão que terás quando estiveres sentado numa velha cadeira de balanço. Diverte-te, é mais tarde do que pensas. Diverte-te enquanto estás na maior. Os anos passam tão rapidamente quanto um piscar de olhos. Diverte-te, que é mais tarde do que pensas“.

Quanto mais baixo se fala mais as crianças ouvem

Outubro 3, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto e imagem do site Up to Kids

A parentalidade está a evoluir a passos largos.

Há cada vez pais mais conscientes que conseguem conjugar o seu dia-a-dia e a parentalidade de uma forma absolutamente singular. Que conseguem guardar um tempo para se repensar e para equilibrar a forma como estão a educar. Apesar destas conquistas, continuamos a observar quer em contexto familiar, quer em contexto escolar, que a maioria dos adultos opta por gritar com as crianças quando quer que levem a cabo uma tarefa que não estão a executar. Ou quando simplesmente quando querem repreender. Aí, a opção mais fácil e a que muitas vezes se recorre é encher os pulmões de ar e gritar.

Por norma aquilo que os adultos pensam é que isso é inócuo para a criança. Que a vai fazer obedecer, sem consequências para ela. No entanto, e se fizermos o exercício de nos colocarmos no lugar da criança, conseguimos imaginar como esta se sente quando, lá do alto, sai um grito na sua direcção.

Mais tarde ou mais cedo todos os pais vão acabar por soltar um grito na tentativa de conter alguma atitude da criança ou de a mobilizar para alguma acção.  Até aí o problema não é de maior, desde que os pais consigam fazer um exercício de tomar consciência e tentarem controlar numa próxima oportunidade esse grito.

Gritar não é educar.

O que nos preocupa é a facilidade com que, sob o pretexto de educar, se grita. Sempre que gritamos com uma criança, não a estamos a educar ou a ensinar que fez algo errado. Estamos sim a mostrar-lhe que não somos capazes de nos controlar e conversar tranquilamente e com respeito. Mostramos-lhe que nós próprios estamos num estado de tensão que não conseguimos gerir.

Gerir emoções.

Para que as crianças aprendam a gerir e a controlar as suas emoções é fundamental que os adultos de referência também sejam capazes de o fazer.

Gritar tem consequências para a criança. Habitualmente quando um adulto grita a criança fica com medo. Muitas vezes obedece com base no medo e não no respeito. A criança acaba por não aprender o que esta incorreto, e obedece apenas por “sobrevivência”.

Quando o grito vira norma, a criança começa a perceber que só precisa de agir quando surge o grito. A criança compreende o funcionamento dos pais e de alguma forma adapta-se a ele. Só quando surge o grito lhe soam os alarmes de “agora tenho de obedecer”, acabando sempre por ‘exigir’ aos pais que gritem.

O grito consecutivo. Será que as crianças ouvem?

Quando uma criança tem na escola uma professora que grita, em casa uma família que grita, esta fica sobre um stress contínuo que não faz mais do que aumentar a sua agitação e angústia. Mesmo que a criança já se tenha adaptado aos gritos, o grito faz com que se sinta ‘pequenina’. O grito consecutivo pode gerar o medo de errar e no limite fazê-la sentir-se humilhada. A longo prazo, isto contamina o seu pleno desenvolvimento. Sempre que na ânsia de educar gritamos, embora às vezes o grito pareça funcionar, não só não educamos, como geramos confusão e angústia na criança.  Às vezes, envolta em alguma raiva, gera sentimentos de “é injusto, não cuidam de mim.

Para que os gritos deixem de ser uma constante, é fundamental mudar a perspectiva com uma atitude firme e positiva perante os erros das crianças. Não gritar não significa sermos permissivos. Significa que conversarmos e mostramos às crianças as consequências dos seus erros. Assim, para contornar o hábito do grito é importante que os pais sejam assertivos e consistentes. Quanto mais alto se fala menos as crianças são capazes de nos ouvir. A “formula” será, quanto mais baixo se fala, desde que com segurança, coerência e afeto, mais as crianças nos ouvem.

Autores: Cátia Lopo & Sara Almeida

A (falta de) autonomia nas crianças

Outubro 3, 2019 às 11:30 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de luísa Agante publicado no Sapo Life Style de 18 de setembro de 2019. Imagem do Sapo Life Style

O conforto que os pais julgam estar a dar às suas crias tem um preço, que é o de não desenvolver o pensamento crítico e a capacidade de resolver problemas por eles próprios. Um artigo de opinião de Luísa Agante, professora de marketing na Faculdade de Economia do Porto e especialista em comportamento do consumidor infantil e juvenil.

Imaginem a cena seguinte: estamos no início do ano letivo e é necessário inscrever os alunos no primeiro ano. As setas indicam onde ficam os serviços administrativos e os novos alunos, acompanhados dos seus pais, vão perguntando informações e escolhem em conjunto as aulas. Os novos alunos vão ouvindo os seus pais a colocar questões que eles nunca se lembrariam de perguntar.

É esta a realidade do novo ano letivo, mas não estamos a falar do 1º ano do 1º ciclo do ensino básico, mas sim do 1º ano de entrada na Universidade. Ou seja, pessoas que supostamente são adultas com 18 anos precisam da ajuda dos pais para se inscreverem numa faculdade. Há uns anos atrás seria impensável. Hoje é a norma e já se começa a ver o mesmo fenómeno nos mestrados. Aliás, até quando as supostas “crianças” vão de Erasmus, muitos pais as seguem para ajudar na integração nos primeiros tempos…

Como foi possível chegarmos a este nível? O que se andou a fazer nos anos anteriores? Ou a questão essencial deste artigo, onde está e como é desenvolvida a autonomia das crianças hoje em dia?

Alguns pais estão a ler este artigo e a pensar “mas qual é o problema? Acho natural acompanhar o meu filho(a) na faculdade, mostra o meu interesse e sei que ele(a) fica mais confortável”. Pois é, mas esse conforto tem um preço, que é o de não desenvolver o pensamento crítico e a capacidade de resolver problemas por eles próprios.

Muitas vezes temos crianças e jovens que nunca andaram de autocarro. Aliás é natural ouvirem-se os pais dizer que “apanha um Uber”, e que é muito prático. Ouvimos dizer que os transportes públicos não são práticos pois não permitem cumprir a agenda dos seus filhos… Não será a agenda que está demasiado sobrecarregada?

Ainda há pouco tempo saíram os resultados de um estudo onde se dizia que Portugal era dos países da OCDE onde as crianças tinham mais horas letivas, ou seja, passavam muito tempo na escola. Pois para além da escola hoje temos ainda toda a panóplia de atividades que uma criança tem que ter… Música para desenvolver o raciocínio matemático, ballet, futebol, artes marciais, as línguas a partir dos três anos (porque senão nunca mais vai conseguir ser fluente na língua, o que é essencial para uma carreira internacional)… Uma estafa, uma canseira.

Andar de bicicleta na rua ou ir para estas atividades de bicicleta? Nem pensar que é um perigo andar na estrada. Ir a pé sozinho(a)? Credo, nem quero pensar nisso pois pode ser raptado(a)…

E neste mundo criado pelos pais cheio de perigos e medos, as crianças vão crescendo numa redoma, resguardadas do perigo, protegidas, ou seja, sem saber o que é ter autonomia e como ela se conquista. Sim, o mundo mudou e pode ter mais alguns perigos, mas o aumento da proteção dos pais foi mais que proporcional ao aumento da insegurança no mundo. Há hoje uma histeria, uma paranoia com a sobre proteção que está a gerar gerações de ineptos. Que depois chegam ao local de trabalho e esperam que lhes sejam dadas indicações do que devem fazer.

Por isso, se é pai/mãe e tem crianças ou jovens, tente de uma vez por todas perceber que os seus medos, a sua proteção dos seus filhos pode ser contraproducente. Eles vão cair, eles vão-se magoar, com toda a certeza, mas é assim que se cresce, é assim que se fazem homens e mulheres que sabem como resolver os seus problemas e ultrapassar dificuldades.

Deixo por isso alguns exemplos de ideias para aumentar a autonomia das crianças:

Autonomia Financeira: Dê ao seu filho(a) uma semanada (nos mais novos, até ao 6º ano) ou uma mesada (nos mais velhos, a partir dos 12 anos) para que ele possa gerir o seu dinheiro. Mas faça com que a semanada/mesada não seja apenas para os gastos supérfluos. Faça com que a criança/jovem possa tomar decisões de consumo no seu dia a dia. Por exemplo, ter um orçamento para os lanches e almoços na escola. Assim, se hoje escolhe ir almoçar fora com os amigos, amanhã já sabe que vai ter que levar almoço de casa ou encontrar uma solução mais barata. Vai passar fome alguns dias? Se calhar sim, mas vai aprender melhor do que se tiver sempre a quem recorrer para lhe dar o dinheiro.

Autonomia nas Deslocações: Escolha um trajeto habitual que o seu filho(a) possa fazer sozinho ou com outras crianças da sua idade. Pode implicar apanhar um transporte público, ir a pé ou de bicicleta/trotinete. Claro que isto depende das rotinas que forem criadas e por isso convém escolher atividades que geograficamente sejam acessíveis para a criança. Se não for possível no trajeto casa/escola, pelo menos numa atividade ele(a) deve ter autonomia no percurso e perceber como se pode desenrascar sozinho(a).

Autonomia nas Escolhas Alimentares: E porque não deixá-los escolher a quantidade que querem colocar no prato? Muitas vezes ouço os pais a dizer “vá, come o que tens no prato” ou “come pelo menos a carne”, etc. Ou outras vezes observo crianças que pedem doses grandes, ou que se servem de grandes quantidades, e depois deixam imensa comida no prato. Um desperdício alimentar diário ou quase diário. Por isso, porque não dizer à criança/jovem, que tem que comer alimentos de determinado tipo (ex: ser obrigatório servir-se de carne, arroz e salada), mas deixar a criança escolher a parte da carne que quer, a quantidade de arroz que quer, e que partes da salada quer. Com essa autonomia, vem a responsabilidade, ou seja, por um lado, depois terá que comer tudo o que tiver colocado no prato, e por outro lado, fica a saber quando é a hora da refeição seguinte, ou seja, não vai comer pouco ao almoço, para se encher de bolachas passado uma hora.

Não estamos a falar de experiências científicas ou muito difíceis. São pequenas coisas, mas que podem fazer grandes diferenças no futuro. Aos poucos vamos acrescentando tarefas de autonomia e será um prazer observar os adultos em que eles se tornarão.

Luísa Agante é professora de marketing na Faculdade de Economia do Porto e especialista em comportamento do consumidor infantil e juvenil. Tem uma página no Facebook chamada “Agante & Kids” na qual publica e partilha regularmente conteúdos informativos sobre comportamento infantil para pais e educadores.

Júlio Machado Vaz: Falar de emoções com os pais, respeitar o espaço dos filhos

Setembro 29, 2019 às 1:00 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Entrevista de Júlio Machado Vaz ao DN Life de 14 de agosto de 2019.

“Se os filhos não falam connosco na infância não vão começar a fazê-lo na adolescência”, diz o psiquiatra Júlio Machado Vaz. Uma entrevista sobre as palavras que sempre disse aos filhos – e a importância de respeitar o espaço deles -, as conversas que tinha com a mãe – com quem falava de tudo, até de desgostos de amor – e o que só conseguiu dizer ao pai no fim de vida – com quem teve um amor envergonhado mas que se tornou diferente quando nasceram os netos.

Visualizar o vídeo da entrevista no link:

https://life.dn.pt/julio-machado-vaz-falar-emocoes-pais-respeitar-espaco-filhos/?fbclid=IwAR2WHVXtZMZa1ji5NUFsp0KEQCiHaaV5HDVjq2w8qSDy4d6IdNca4aYJz9c

Pais que estudam pelos filhos

Setembro 28, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no DN Life de 22 de setembro de 2019.

O ano lectivo ainda agora começou e já vemos pais e mães empenhados em organizar o processo de estudo… o seu, não o dos seus filhos. Pois é, existem milhares de pais que estudam, não com os filhos, mas sim pelos filhos.

Assumem os testes como sendo deles, as notas como sendo suas. Recordo-me, inclusive, de uma adolescente que chegou a casa e começou aos gritos com a mãe, acusando-a de não ter estudado “como deve de ser” e, por isso, ela (adolescente, a aluna) ter tido má nota. A mãe pediu desculpas…

Bem, temos mesmo que reflectir sobre isto.
O que queremos para os nossos filhos?

Queremos que cresçam e que sejam autónomos, ou que se mantenham dependentes dos pais ad eternum?

Queremos que sejam responsáveis e assumam as consequências dos seus comportamentos, ou que atribuam aos outros essa mesma responsabilidade?

A resposta a estas perguntas dita a forma de agir dos pais e educadores.

Se pretendemos fomentar a autonomia, independência e responsabilidade, então ensinamo-los a ler e a resumir, distinguindo o essencial do acessório. Ensinamo-los a fazer esquemas, a relacionar as matérias e a pensar! Pensar, esse verbo tantas vezes esquecido… e não apenas memorizar sem nada perceber! Ensinamo-los, ainda, a adquirir hábitos de estudo e a perceber que é bom aprender. Pelo prazer de descobrir coisas novas.

Damos-lhes a papinha toda feita, que é como quem diz, a matéria digerida e organizada. Eles apenas têm de ler ou ouvir esses tais resumos e fazer os testes.

Se pretendemos fomentar a dependência, pois estudemos por eles, Façamos os trabalhos de casa e os trabalhos de férias também. Lemos, fazemos os resumos e até os gravamos em ficheiros áudio! Damos-lhes a papinha toda feita, que é como quem diz, a matéria digerida e organizada. Eles apenas têm de ler ou ouvir esses tais resumos e fazer os testes.

Chegará o dia em que os pais fazem mesmo os testes pelos filhos? Já não sei…

Sei que no ensino superior há alunos que pedem para que os atendimentos sejam feitos… aos pais!

Sei que no ensino superior os alunos se queixam porque… há aulas ao sábado! (que professores ditadores são estes que sugerem aulas ao sábado??).

Sei que no ensino superior há alunos que perguntam se um texto deve ter uma introdução, um desenvolvimento e uma conclusão…. conteúdos que fazem parte do currículo do 2.º ano de escolaridade… sim, do 1.º ciclo…

Sei que no ensino superior há alunos que fazem queixa dos professores… porque não disseram as páginas exactas dos livros que teriam de estudar! Isto de sugerir uma bibliografia assim “sem mais nem menos” não pode ser! Temos de indicar as páginas e os parágrafos que devem ler!

Pois estes alunos, antes de chegarem ao ensino superior, passaram por todos os outros níveis de ensino. O que se passou para que atingissem este nível de dependência, desconhecimento, imaturidade e irresponsabilidade?

Naturalmente que não podemos sobregeneralizar. Mas, efectivamente, muitos destes alunos tiveram pais que sempre fizeram por eles. Estudaram por eles. Resolveram por eles. Pensaram por eles.

O que dizer destes pais? Muitas vezes, projectam nos filhos os objectivos e ambições que tinham para si próprios. Ou encontram nos filhos um meio para atingir um fim. O fim da realização e do sucesso.
Mesmo que seja um pseudo sucesso.

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Onze frases que mostram que o seu filho está ansioso

Setembro 23, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Notícias Magazine de 30 de julho de 2019.

Texto de Ana Patrícia Cardoso

A dificuldade de comunicação entre pais e filhos é uma das origens dos problemas de comportamento de crianças e adolescentes. O que eles dizem e fazem pode revelar um acumular de stress e ansiedade cada vez mais presentes na geração da tecnologia e redes sociais. Se o seu filho disser constantemente alguma destas 11 frases, pense duas vezes antes de o reprimir e procure saber o que realmente se passa.

Quando somos crianças, temos dificuldade em expressar o que sentimos de forma coerente e racional. Muitas vezes, as chamadas “birras” dos mais novos são uma tentativa desesperada de dizer alguma coisa ou marcar uma posição.

A pressão do crescimento, do ambiente familiar, da escola, da própria perceção do mundo que ainda está em formação é, por vezes, um peso e pode transformar-se em picos de ansiedade e stress.

A maioria dos pais tende a encarar estes momentos como «dores de crescimento», mas é preciso estar atento aos sinais.

Leonor Baeta Neves, psicóloga na área de desenvolvimento infantil, garante que “depende do modo como comunica com os pais. Para mim é o ponto mais importante, saber ‘ouvir’ uma criança, dar-lhe espaço para falar e tempo para se explicar. Uma dor de cabeça, de barriga ou sem motivo óbvio é um modo de se queixar de outras coisas.”

Não desvalorize certos comportamentos dos seus filhos. Podem ser um pedido de ajuda.

Não me deixes sozinho

Segundo a psicóloga Leonor Baeta Neves, quando uma criança pede para não ficar sozinha, «pode significar medo. Mas de quê? Pergunte-lhe o que se passa ou procure perceber.»

Podemos ficar em casa?

A psicóloga explica que esta frase, dita num momento em que «seria natural sairem, deve fazer os pais pensar duas vezes no que se passa com o seu filho. Pode ser um alerta. Oiçam a criança, por favor!»

Quero ir para casa agora

Para Leonor Neves, se a criança está a pedir para sair de um determinado ambiente, não deve ser censurada. «Tentem compreender o que lhe está a causar desconforto».

O que há de errado comigo?

Se a criança está a olhar para si própria de forma negativa, «a birra que está a fazer pode ser uma chamada de atenção», diz a psicóloga. Tente perceber o motivo da pergunta e como pode ajudar.

Desculpa.

«Se a criança estiver a pedir desculpa em demasia, é de facto um sinal de alerta e expressa o desejo de que lhe prestem mais atenção», diz Leonor Baeta Neves.

Não me sinto bem.

Tenha cuidado. «Este é um indício de que alguma coisa não está bem. Mais uma vez, deve prestar atenção à origem deste sentimento. Provavelmente, não é físico».

Não gosto do meu corpo.

Leonor Neves diz que é preciso atenção quando uma criança demonstra desconforto com o seu corpo. «Não é bom sinal. A frase é ou pode ser um indicativo de algum distúrbio».

Não quero ir para a escola.

A psicóloga aconselha a «não deixar que se torne uma birra e a explicar que tem mesmo de ir. Mais tarde tente saber o que se passa na escola. Mais uma vez, converse com a criança».

Dói-me muito a cabeça.

Pode não ser birra, diz Leonor Neves. Dor de cabeça ou barriga, garganta, etc. «Há que perceber se existe qualquer coisa ‘real’, ou se é a tensão em que a criança está. A ‘dor’ pode ser psicológica de facto, mas não menos importante do que a física».

Estou cansado.

A psicóloga sugere que pode «estar cansado de estar sozinho… tem de se ter em atenção o contexto».

Pais preocupados com ideias extremistas da internet. Como proteger as crianças?

Setembro 17, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto e imagem do site MAGG de 20 de agosto de 2019.

por Rafaela Simões

Os pais têm medo de que os filhos se tornem em supremacistas brancos de direita. A solução começa em casa: educar sobre a internet.

A semana passada, 13 de agosto, uma escritora, critica dos media e mãe de três filhos escreveu um tweet que se tornou viral. Joanna Schroeder mostrou preocupação com o facto de os adolescentes estarem expostos a conteúdos extremistas online e o potencial de influência que isso pode ter nos seus comportamentos. Falamos aqui de adolescentes associados a um padrão: são jovens, brancos e do sexo masculino.

Esta preocupação adensa-se com os últimos acontecimentos: a 28 de julho, um ataque de um adolescente que matou três pessoas num festival de comida, em Gilroy, na Califórnia. Apenas seis dias depois, acontece um outro episódio, classificado como um dos tiroteios em massa mais violentos dos Estados Unidos. Aconteceu a 8 de agosto no supermercado Walmart, em El Paso, no Texas, e provocou mais de 20 mortos. O jovem branco de 21 anos terá agido por ódio, já que antes de entrar no supermercado publicou na internet um manifesto anti-imigração, que entre as quatro páginas explicava o objetivo: matar o maior número de pessoas que encontrasse.

Perante esta série de acontecimentos sucessivos, os pais e professores estão mais alerta e tentam perceber o que está a acontecer com a geração do digital. Já os jovens, não sentem que este seja um problema generalizado. “Sou um adolescente branco que passa a maior parte do meu tempo aqui. No YouTube, no Twitter, nos jogos, apenas por entretenimento. Tenho ideias conservadoras porque eu penso que são lógicas e são o caminho certo. Não porque alguma figura da internet está a fazer-me uma lavagem cerebral para uma fantasia de ‘supremacia branca’”, responde um adolescente ao tweet de Schroeder que tem mais de 80 mil retweets e quase 180 mil gostos.

A mãe disse ao jornal “BBC” que a sua preocupação começou quando há cerca de um ano os seus filhos começaram a fazer perguntas que pareciam ter vindo de discursos de alta direita. Questionaram porque é que os negros podiam “copiar a cultura branca, mas os brancos não podiam copiar a cultura negra”. O alerta foi acionado aqui, e depois de pesquisar percebeu que os adolescentes partilhavam entre si conteúdos como memes machistas e racistas (que aparentemente seriam inofensivos).

Alguns especialistas referem que os algoritmos nas plataformas online podem estar a alimentar a expansão de pontos de vista extremistas e de conspirações, que afetam também os adultos, mas os jovens continuam a ser o principal foco de preocupação, pelo facto de serem mais vulneráveis e de ainda estarem a desenvolver o sentido critico. E o algoritmo é uma das razões que leva Joanna Schroeder a preocupar-se, já que assistir, por exemplo, a um vídeo com conteúdos influenciáveis pode ser o inicio do problema: “É provável que seja conteúdo cuidadosamente criado para atrair os jovens rapazes. Depois de assistir a um desses, os próximos vídeos podem ficar cada vez mais extremistas”.

Tudo começa em casa

“Devíamos estar a ensinar o pensamento crítico e a empatia. Não devíamos ensinar às crianças o que pensar, mas podemos ensiná-las a ouvir as pessoas que têm um pensamento diferente delas”, refere Tom Rademacher, professor do oitavo ano em Minnesota, nos Estados Unidos, ao jornal americano.

O caminho passa pelas escolas, mas começa em casa, onde a professora de sociologia Margaret Hagerman, passou dois anos a estudar um grupo de famílias brancas ricas e a maneira como discutiam e ensinavam sobre raça. Percebeu que os pais achavam que os seus filhos eram “daltónicos” no que toca às raças e que este mesmo assunto deixava os pais desconfortáveis quando abordado entre adultos: “Se os adultos brancos não conseguem ter conversas sobre racismo na América com outros adultos brancos, eu não percebo como é que eles pensam estar preparados para ter essas conversas com crianças”.

Mas por mais que os pais pensem que esta é uma realidade distante ou que não afeta os seus filhos, não é isso que acontece se estiverem atentos. Além dos jovens viverem rodeados de pessoas de raça branca — os vizinhos e os colegas de escola — que os induz para ideias relacionadas com supremacia branca, as conversas entre eles abordam temas como raça, racismo e desigualdade. “As crianças estão a aprender sobre raça na América através de diferentes aspetos das suas vidas quotidianas”, refere a professora.

Também a sala de aula é palco de estudo de Margaret que refere que “[os jovens brancos] estão a tentar perceber onde está a linha de pensamento. Porque é que as coisas são engraçadas e porque é que são ofensivas.” Neste limbo, os jovens acabam por se sentir “como se estivessem sob ataque” pela sociedade dominante, acrescenta.

Os pais não devem temer mensagens “anti-branco”

Os pais devem funcionar como educadores ou, mais precisamente, como explicadores críticos. Ou seja, quando uma dúvida surgir no seguimento de algo que os adolescentes viram online, a professora se sociologia sugere que os pais perguntem onde é que os jovens ouviram aquela ideia para poderem ter conhecimento do contexto e explicar de forma critica aquele meme, fotografia ou comentário que lhes pareceu inofensivo.

“Os nossos filhos precisam de saber que esperamos que eles sejam bondosos, respeitosos e honestos. Não porque pensemos que eles não são assim, mas porque sabemos que eles têm uma bondade natural dentro deles”, refere. Acrescenta que seria mais fácil implantar algumas destas ideias num ano do currículo escolar para ensinar a lidar com a radicalização na internet.

Contudo, os pais temem que a ideia acabe por passar mensagens “anti-branco”. Margaret desmistifica a ideia explicando que a sua sugestão é que “a sala de aula possa ser um local onde as crianças possam explorar sem se sentirem envergonhados. Quando aplicamos vergonha num grupo, estamos a empurrá-lo para um caminho mais negativo”, conclui.

Como sou visto pelos meus filhos?

Setembro 12, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site Sapo Lifestyle de 30 de julho de 2019.

Perceber os dois lados para um desenvolvimento familiar saudável

Como é visto pelos seus filhos? Será essa perceção a que gostaria que eles retivessem? Enquanto psicoterapeuta, muitas vezes, oiço em consulta o lado dos pais sobre como veem os filhos. Mas, depois, também oiço o lado contrário, os filhos, cuja compreensão, tantas vezes, contrasta com a opinião dos próprios pais. Pelo que observo, as duas visões são importantes para o desenvolvimento familiar saudável, estimulando a comunicação entre os seus elementos.

Grande parte das questões familiares que nos chegam a consulta envolvem dificuldades na comunicação e interação entre os seus membros, tornando-se interessante ver os dois lados de uma mesma moeda, que é o seio familiar.

No que toca às dinâmicas familiares, existe uma ampla investigação sobre a importância das mesmas para o desenvolvimento das crianças. Contudo, geralmente essas investigações centram-se no ponto de vista dos pais e no tipo de atitudes que os mesmos poderão ter no sentido do desenvolvimento e bem-estar dos seus filhos.

Mais recentemente, as pesquisas voltaram o foco para a perspetiva dos filhos, quanto aos estilos parentais adotados pelos seus pais, percebendo qual é o mais valorizado pelos filhos, bem como o mais benéfico para o seu desenvolvimento.

Os quatro estilos parentais

Vários autores da área indicaram que é importante ter em conta três aspetos principais no crescimento dos seus filhos:

  1. A socialização;
  2. As práticas parentais utilizadas para que os filhos atinjam os objetivos;
  3. O clima emocional no qual a socialização acontece entre ambos.

No relacionamento com os seus filhos, e com o objetivo de influenciar o clima emocional, cada educador pode adotar diversas atitudes e comportamentos, ou práticas parentais. Com base nisso, podemos identificar quatro estilos parentais. São eles: o permissivo, o autoritário, o autoritativo/democrático e o negligente. De modo a perceber cada um deles, iremos recorrer a duas dimensões: a responsividade (apoio prestado e sentido) e a exigência (que os pais colocam na aplicação de regras e limites).

Que estilo parental é o mais indicado?

Sabemos e compreendemos que não existe uma receita mágica para educar um filho saudavelmente. E reconhecemos que, atualmente, muitos pais deixaram de ter tempo para intervir ativamente na educação dos seus filhos, adotando, assim, um estilo mais negligente, não servindo de referência para o crescimento deles.

Tendo em conta a anterior tabela, bem como os resultados apurados em diversas investigações, podemos concluir que o estilo parental autoritativo é o mais adequado. Este estilo permite que os pais se envolvam, respondendo às necessidades da criança ou jovem (atenção, incentivo, auxílio, diálogo, diversão), bem como acompanha os comportamentos do filho (exigindo a obediência de regras, limites e cumprimento dos seus deveres), favorecendo o respeito pelos pais, mas também estimulando a autonomia e autoafirmação dos filhos.

Aqui, há a salientar que a comunicação é essencial. Só assim os pais conseguem perceber quais as perceções dos seus filhos face ao seus comportamentos e atitudes. Porque, mesmo que um pai/mãe pense que é responsivo e exigente, é importante saber qual a opinião dos seus filhos, pois pode diferir da sua.

É um desafio fácil? Não é. É uma tarefa exigente para qualquer pai/mãe, mas estará a contribuir, assim, para o crescimento emocional dos seus filhos, de modo que se tornem adultos saudáveis.

Margarida Rogeiro / Psicóloga e Psicoterapeuta

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