Educação. Devem os pais ser os melhores amigos dos filhos?

Julho 19, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do MAGG de 10 de julho de 2018.

por Catarina da Eira Ballestero

Ou deverão os pais assumir-se como educadores e figuras de autoridade, estabelecendo barreiras bem definidas? Uma psicóloga responde.

Corria o ano de 2004 quando a comédia “Giras e Terríveis” estreou. O filme, protagonizado por Lindsay Lohan e Rachel McAdams, parecia, à primeira vista, ser apenas mais um blockbuster de verão dirigido ao público juvenil — afinal, o argumento centrava-se num liceu e na chegada de uma nova aluna ao ambiente, por vezes cruel, do ensino secundário.

No entanto, para além de se ter tornado num filme referência para as vítimas de bullying, a comédia também abordou outro tema importante: a necessidade de muitos pais quererem ser os melhores amigos dos filhos, de forma a ficarem mais próximos. Numa cena de “Giras e Terríveis”, a personagem de Mrs.George (interpretada por Amy Poehler), mãe da vilã Regina, cai no ridículo ao usar calão, fatos de treino iguais aos das adolescentes e ainda oferecer álcool às menores numa tentativa destas a acharem a mãe mais porreira e jovem de sempre.

Esta é uma dúvida que assombra muitos pais: será a relação com os filhos melhor se adultos e jovens forem os melhores amigos ou deverão os pais assumir-se como educadores e figuras de autoridade, estabelecendo barreiras bem definidas?

Segundo Beatriz Matoso, psicóloga clínica e psicoterapeuta, o papel fundamental dos pais é o de protetores. “Os pais devem procurar compreender os filhos, ajudando-os no seu processo de autonomia e realização pessoal, de acordo com a fase da vida em que se encontram, oferecendo-se como um possível modelo de identificação”, conta à MAGG.

Os filhos não têm de contar tudo aos pais — e não há mal nenhum nisso

De acordo com a especialista, existem várias razões que podem levar os pais a quererem que os filhos os identifiquem como amigos. “A confirmação do desejo que têm de ser bons pais é um dos motivos, mas também é possível que os pais queiram conhecer mais detalhes da vida dos filhos, na perspetiva de melhor os poderem acompanhar ou mais facilmente os controlar.”

“É benéfico que os pais compreendam que não podem substituir os amigos dos filhos.”

Tal como explica a psicóloga, apesar de uma aproximação entre pais e filhos ser essencial, de forma a que estes se conheçam e se compreendam mutuamente, bem como também útil para quebrar barreiras de comunicação, há que entender que as crianças e jovens também têm de ter outros amigos, sendo estes figuras de confiança com quem se possam identificar e partilhar sentimentos e informações — e os pais têm de aceitar que outros jovens, pares dos seus filhos, possam ser os melhores amigos destes.

“É benéfico que os pais compreendam que não podem substituir os amigos que os filhos têm o direito de eleger. Todo o ser humano tem direito a fazer as suas escolhas, ainda que posteriormente possa vir a reconhecer que não foram as melhores”, conta Beatriz Matoso, que acrescenta que é natural que os filhos não contem tudo aos pais e “procurem entre os amigos da sua faixa etária, alguém que os compreenda e aceite com as suas qualidades e dificuldades”.

Hoje em dia, as relações entre pais e filhos são mais descontraídas e muitas barreiras caíram por terra. Afinal, de acordo com a psicoterapeuta, mesmo para desempenhar o seu papel fundamental de educadores, os pais precisam de ter uma boa relação com os seus filhos.

No entanto, é preciso saber que “não há pais perfeitos, assim como não há filhos perfeitos. Os pais devem colocar-se no seu papel de pais e educadores para poderem proteger e orientar os filhos no seu processo de crescimento. Na medida em que há uma diferença de gerações e experiências de vida em contextos socioculturais, com características distintas, é natural que pais e filhos tenham pontos de vista diferentes”, explica Beatriz Matoso.

A especialista acrescenta que o confronto entre modos diferentes de pensar pode ser enriquecedor. Porém, é possível que também possa originar conflitos, principalmente “quando não há suficiente flexibilidade e respeito pelo pensar do interlocutor. Para os evitar, é natural que os filhos não contem tudo aos pais e procurem entre os amigos, como colegas de escola por exemplo, esse apoio fundamental”.

São os pais divorciados mais tentados a quererem ser vistos como amigos?

Um divórcio tem consequências nos filhos. Por mais que a separação dos pais tenha sido tranquila e o relacionamento entre ambos seja saudável, as crianças e jovens têm sempre de se adaptar a uma nova realidade, que dita que o tempo será agora dividido entre a casa da mãe e do pai.

Assim sendo, serão os pais divorciados mais propensos a quererem ser vistos como o pai “fixe” e amigo? De acordo com Beatriz Matoso, psicóloga clínica, a resposta é sim. “Os pais divorciados que querem manter um vínculo com os filhos, sentem uma necessidade mais premente de se aproximarem destes e de que os filhos os sintam como amigos.”

Segundo a psicóloga, isto não tem sempre origem no desejo de vivenciar trocas afetivas e pode ter outras causas, inconscientes até.

“Há casos em que pode predominar a culpabilidade pela dissolução do núcleo da família original e pelo esforço exigido aos filhos de se adaptarem a novas famílias, constituídas depois do divórcio. Noutras situações, podemos estar a falar de uma rivalidade em relação ao ex-cônjuge e o desejo de se afirmar socialmente como mais competente enquanto pai ou mãe”, explica Beatriz Matoso à MAGG, que relata que os filhos podem ser utilizados, perversamente, como instrumento de ataque ao ex-companheiro, “em vez de serem amados e respeitados como têm direito”.

Para a especialista, é fundamental que qualquer um dos pais não diga mal do outro aos filhos. “Quando há decisões a tomar sobre a vida destes, deve existir disponibilidade para se ouvirem e colaborarem mutuamente. Os filhos não têm culpa do conflito entre os pais”, conclui Beatriz Matoso.

 

 

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“Os jovens não têm noção de mortalidade. Ninguém pensa que vai morrer aos 13 ou 14 anos”

Julho 11, 2018 às 6:00 am | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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Consumir drogas e perder a virgindade aos 12 anos é uma realidade em Portugal. Quem é o afirma é Francisco Salgueiro, que traça um retrato da adolescência em pleno século XXI. O escritor, autor de vários livros dedicados ao tema, lançou em junho “Sexo, Drogas e Selfies”, e revelou ao Expresso uma realidade que leva muitos jovens a arriscarem a vida para serem populares no grupo de amigos.

Francisco Salgueiro é autor de vários livros sobre um dos períodos mais complexos e exigentes na vida de pais e filhos: a adolescência. Em 2010 publicou o primeiro livro dedicado ao tema “O Fim da Inocência – Diário Secreto de Uma Adolescente Portuguesa” e três anos mais tarde repetia a dose com o 2.º volume – “O Fim da Inocência – Diário Secreto de Um Adolescente Português”. Este mês lançou “SDS – Sexo, Drogas e Selfies”. Uma visão crua sobre uma realidade que muitos pais continuam a ignorar.

O que é que o levou a escrever um terceiro livro sobre os adolescentes portugueses?
Os pais ainda não acreditam que esta é uma realidade e que acontece aos seus filhos. Continuo a ter muitos pais que me dizem: “também na nossa altura uns fumavam erva, outros cheiravam cocaína e apanhávamos bebedeiras de coma alcoólico”. Não percebem que há muito mais a acontecer. As crianças estão a começar cada vez mais cedo nas drogas, álcool e sexo. Há um mundo diferente que os pais têm de perceber. Os mais novos, de 12 anos, tentam imitar os mais velhos, de 14 e 15 anos.

Este livro é um alerta para os pais?
Sim. Quis passar a mensagem de que na realidade destes jovens não há afetos genuínos, há pessoas descartáveis, pessoas utilizadas pelos seus corpos, relacionamentos de amizade que não o são. Estes miúdos não estão atentos ao que se passa à volta deles e gostam em massa dos mesmos temas sem sequer os discutirem.

Como é que surgiu a necessidade de partilhar estas mensagens?
Sou uma esponja de inspiração, tudo aquilo que posso absorver à minha volta vou absorvendo e há uma altura em que tenho necessidade de partilhar o que andei a recolher. O SDS junta centenas de histórias desde o “Fim da Inocência”. Nos dois primeiros livros, as histórias que contava passavam-se aos 14 anos e os editores da Leya diziam “como é que é possível ser tão cedo? Se calhar temos que indicar outra idade”. Eu dizia-lhes que não, que tínhamos de ser sinceros. Ficaram boquiabertos com as histórias que conto neste livro e que envolvem jovens de 12 anos.

Qual a principal diferença entre este livro e os anteriores?
É a idade, tudo se inicia mais cedo. As selfies, por exemplo, vieram tornar as relações descartáveis. Ter uma conversa pouco importa se tirarmos uma selfie e parecermos muito contentes. Há uma falta de auto-estima muito grande e o ‘fear of missing out’ – o medo de perder alguma coisa. Os jovens vivem na era dos ‘likes’, precisam de fazer algo para serem validados, para terem aprovação social. Os pais não estão lá a dizer “não precisas da aprovação social porque eu estou aqui, eu valido-te, eu gosto de ti”.

Este livro retrata a sociedade ou apenas um estereótipo?
Não posso generalizar que todas as pessoas sejam assim. Mas dei muitas palestras de norte a sul do país e percebi que esta realidade existe de facto, porque há uma coisa comum a todos estes jovens: a internet.

A internet é o pólo agregador dos comportamentos de risco atuais. É lá que os miúdos vêem pornografia desde muito cedo, os ‘youtubers’, que podem comprar droga, é lá que tudo se passa…

Os jovens têm consciência do que estão a fazer?
Muitos miúdos afirmam ter tomado “um comprimido qualquer” que lhes ofereceram e eu pergunto-lhes: “então mas o que é que continha o comprimido? Perguntaram? Fizeram um teste? (existem muitas carrinhas que fazem esse tipo de testes)”. Respondem-me: “não me interessa, era uma coisa qualquer e eu tomei porque achei graça”. Existe a cultura do YOLO – you only live once (só vives uma vez). Não há noção de mortalidade, ninguém pensa que vai morrer aos 13 ou 14 anos. Portanto, é um comprimido que pode ter sido feito numa garagem na China e que ninguém faz a mínima ideia do que contém, e para os miúdos é totalmente indiferente tomar este ou outro qualquer.

São os protagonistas das suas histórias que o procuram?
No primeiro livro, foi a Inês que veio ter comigo e que se expôs, contando-me uma série de histórias, nas quais não acreditei desde logo. Encontrei-me com ela, mais tarde, e com o seu grupo de amigos no Bairro Alto e apercebi-me que o que ela contara não era assim tão descabido. Assisti a algumas das histórias relatadas, e se eu que saio à noite não conhecia aquela realidade, como é que os pais haveriam de conhecer? No “Sexo, Drogas e Selfies (SDS)” peguei em histórias de várias pessoas. De repente passei a ser o repositório das histórias que todas as raparigas me queriam escrever e contar porque não têm coragem para falar com os pais.

Há pais que o abordam ou pedem para falar consigo?
Há casos em que vieram falar comigo para me contar uma história que aconteceu, mas geralmente são poucos. Muitos dizem-me que têm medo de ler os meus livros e são eles quem mais precisa de os ler. Alguns acham que por os filhos não saírem à noite estão protegidos mas na verdade não estão. Basta terem um computador em casa, com ligação à internet, e fecharem-se no quarto.

Antigamente era preciso ir para a rua, agora bastam estes comportamentos dentro de casa. Os próprios pais cometem erros nas redes sociais, pelo que tem de haver um crescimento coletivo. Não se pode recorrer ao argumento “eu sou mais velho, sei mais coisas que tu”, até porque provavelmente isso não é verdade, os miúdos sabem muito mais das redes sociais.

Como é que um escritor se transforma (quase) num psicólogo de adolescentes?
Não é fácil. Tento não o ser. Há dois tipos de emails que eu recebo: o mail de exposição, de quem quer falar, desabafar, sem procurar mais. Depois há outras pessoas que querem procurar e precisam, porque não sabem o que fazer à sua vida. Eu não sou psicólogo, mas como já me cruzei com muitas destas histórias procuro dar-lhes força, agir com bom-senso, tentando alertar para os comportamentos de risco.

Como foi sair à noite com estes miúdos e perceber o que se passava?
Depois de terem tomado comprimidos, aconteceu estarem ao telemóvel comigo e dizerem-me “vou-me atirar da janela abaixo, porque é lindo, vou voar”. Como na história do comboio (partilhada no SDS), em que tirar uma selfie para se ser popular é uma prioridade, mesmo quando se está completamente bêbedo (ou quando se ingeriu qualquer coisa), colocando a vida em risco. Os jovens não ganham consciência, procuram cada vez mais imitar os mais velhos. O pensamento é este: “Se os mais velhos cheiram cocaína, eu com 13 anos também quero experimentar, se não lhes acontece nada de especial, porque é que me há-de acontecer a mim?”

A história em que me inspirei para a parte final do livro chocou-me muito, foi-me contada pela irmã da pessoa que passou pelo problema. Foi a que mais me chocou até hoje. Estamos a chegar ao limite, para lá daquilo não há mais nada.

O que falta na relação entre pais e filhos?
Muitas vezes os pais chegam cansados do trabalho e a última coisa que lhes apetece é dar atenção aos filhos e falar com eles. O “Fim da Inocência” trouxe à tona o interesse da comunicação social por estes temas que surgem muitas vezes nas primeiras páginas. Não há desculpa para que os pais não estejam alerta.

Como é que os pais conseguem falar com os filhos sem estes acharem as conversas uma “seca”?
Este tipo de livros e artigos da Comunicação Social podem ser tema de conversa. Tem de haver um espaço dinâmico e de troca de ideias, e não de moralismos. É a pior coisa. Os jovens falam muito comigo porque não sou moralista e tenho um espírito muito aberto. Se um filho diz aos pais “já experimentei”, não o podem colocar de castigo, e têm de desconstruir o problema para que o filho não volte a consumir. Se os pais optam por colocar os filhos de castigo, eles voltam a repetir, porque o fruto proibido é o mais apetecido.

 

Entrevista publicada no jornal Expresso em 2 de julho de 2018

De onde vem a ideia de que as meninas são mais próximas dos pais e os rapazes das mães

Julho 8, 2018 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site MAGG de 13 de abril de 2018.

por Catarina da Eira Ballestero

Duas mães concordam com esta ideia, mas os especialistas acreditam que a aproximação com os pais depende da relação que têm com os filhos.

A ideia de que as filhas são mais ligadas aos pais, enquanto os rapazes têm uma melhor relação com as mães, é antiga e tem origem na teoria clássica freudiana. Hoje em dia, quase ninguém parece ter dúvidas disso.

“Esta foi uma teoria que revolucionou o modo de conhecer a sexualidade”, afirma à MAGG Beatriz Matoso, psicóloga clínica e psicanalista. “Efetivamente, o conceito de ‘complexo de Édipo’, que explica como as meninas são mais atraídas pelo pai e os meninos pela mãe, veio demonstrar que a sexualidade não tinha início na puberdade mas sim numa fase mais precoce do desenvolvimento.”

“O meu filho é completamente obcecado por mim”

Joana Pratas é consultora de comunicação, tem 36 anos e é mãe de duas crianças: Maria Teresa, de cinco anos, e António Maria, de três. “A minha filha é mais neutra em relação aos pais, embora tenha uma forte ligação com o avô materno. Já o meu filho é completamente obcecado por mim”, confessa à MAGG.

Embora o filho mais novo de Joana e do marido, João, recorra ao pai para brincadeiras e atividades relacionados com o exterior, o pequeno António Maria tem uma ligação muitíssimo forte com a mãe — tanto que já causa algum desconforto à filha do casal.

Estávamos a tentar perceber como gerir esta situação quando a minha filha me diz ‘Mãe, o mano está sempre colado a ti. Se vou para o teu colo, começa a chorar e vais logo ter com ele’.”

“Lembro-me de uma semana em que eles ficaram os dois doentes, o António primeiro e a Teresinha a seguir. Ele já estava a recuperar e tive de pedir ao meu marido para arranjar atividades para fazer com o António, dado que estava a chover e as brincadeiras habituais fora de casa não eram possíveis. Estávamos a tentar perceber como gerir esta situação quando a minha filha me diz: ‘Mãe, o mano está sempre colado a ti. Se vou para o teu colo, começa a chorar e vais logo ter com ele’.”

Joana conta que esta frase da filha foi um alerta e que, desde então, tem feito um esforço para ser mais neutra e equilibrar-se entre os dois filhos. “Ele também é mais novo, precisa mais de mim e é muito mais mimoso que a irmã. Mas é tudo comigo. Sou eu que adormeço, que dou banho, que dou de comer. Recusa-se mesmo a que seja o pai a realizar essas tarefas”, explica a consultora de comunicação.

A exigência constante da presença da mãe é desgastante e suga a energia de Joana, que admite que há alturas em que chega a ter guerrilhas tontas com o filho para que este permita que seja o pai a dar-lhe de comer, por exemplo — o que é raro acontecer. Mas a mãe de António e Maria Teresa, apesar do cansaço, confessa que não preferia outra situação.

“É desgastante sim, mas cada vez mais quero ter isto. O tempo passa muito depressa, tudo isto é demasiado rápido. É verdade que às vezes sinto que o meu filho me suga toda a atenção, mas prefiro assim. Até porque quando tiverem 10 anos já não vão querer dormir na cama dos pais.”

O que leva uma criança a aproximar-se do pai ou da mãe é a qualidade da relação

Beatriz Matoso acredita que o conceito dos filhos se ligarem mais aos pais consoante o género sexual está ultrapassado e evoluiu bastante da teoria original de Freud.

“O conceito de parentalidade tem cada vez mais importância para compreendermos as relações entre pais e filhos”, afirma a especialista, que acrescenta que este é um processo evolutivo de realização humana, que se inicia no desejo de ter um filho e se constrói pela experiência de “serem pais”.

O que leva uma criança a aproximar-se mais de um ou outro progenitor é a qualidade de relação, isto é, a capacidade de compreender e procurar satisfazer as necessidades dos filhos, de acordo com a sua fase de crescimento.”

“Esta experiência consiste em ir ao encontro da satisfação das necessidades físicas e emocionais do filho, de acordo com o seu grau de crescimento e a fase de vida em que se encontra.”

Se os pais são capazes de descodificar as necessidades do bebé e de as satisfazer de uma forma adequada, a criança sente-se satisfeita e segura, reforça a psicóloga clínica, que acredita que “o que leva uma criança a aproximar-se mais de um ou outro progenitor é a qualidade de relação, isto é, a capacidade de compreender e procurar satisfazer as necessidades dos filhos, de acordo com a sua fase de crescimento. ”

As mães são para as regras, os pais para as brincadeiras

Carolina, de 30 anos, é jornalista e mãe de Clara, de apenas um ano. E apesar da tenra idade da filha, é notória uma clara aproximação ao pai.

“Sempre ouvi dizer que as meninas eram mais apegadas aos pais e, no nosso caso, isso tem-se verificado. A Clara é completamente pai. Mas acho que também tem muito a ver com o tempo que passam juntos, que acaba por ser superior ao meu”, salienta a jornalista.

Devido aos horários do casal, é o companheiro de Carolina que acorda a bebé de um ano e a leva para casa dos pais antes de ir trabalhar, rotina que repete por volta das 18h30, quando apanha Clara e a leva de regresso para casa, lhe dá banho, brinca e, na grande maioria das vezes, dá jantar durante a semana.

“Num dia bom, consigo chegar a casa por volta das 19h30, ainda ajudo no banho ou dou a comida. Mas na grande maioria das vezes, quando chego já tudo isso está feito. A Clara tem horários que devem ser cumpridos, caso contrário fica completamente desrregulada e birrenta. E também já chegou a acontecer chegar a casa e ela já estar a dormir.”

Para além de ser menos presente durante a semana, Carolina acaba por ter uma postura mais rígida com a filha do que o companheiro.

Os pais são mais direcionados para as brincadeiras, enquanto as mães não são tão liberais.”

“Não sou nada dura, não se é dura com uma criança de um ano. Mas ela está numa fase em que adora explorar, que já começa a tentar ficar de pé, a abrir gavetas. E claro que se pode magoar e eu digo não, ela fica magoada e faz birra. Já o pai é mais desligado dessas coisas e, apesar de ter mil cuidados, é mais permissivo, deixa-a mexer em coisas que pode estragar, como os comandos da TV, por exemplo. Mas é um bocadinho frustrante, já passo imenso tempo sem ela e, quando estou, parece que é para lhe ralhar.”

Margarida Alegria, psicóloga clínica, também concorda com a ideia de que as mães, muitas vezes, são vistas como a figura que impõe as regras. “Os pais são mais direcionados para as brincadeiras, enquanto as mães não são tão liberais e costumam apertar mais com as rotinas e regras. No entanto, tem a ver muito com cada caso”, conclui a especialista.

 

Geração Inabilitada

Julho 2, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto e imagem publicados no site Up to Kids

 A crença de que a felicidade é um direito tem tornado inabilitada a geração mais preparada

Ao conviver com os mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos há pouco e com aqueles que estão no caminho para tornar-se adultos, percebo que estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, a mais inabilitada.

Preparada do ponto de vista das habilidades, inabilitada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, inabilitada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, inabilitada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o património da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor.

Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que os seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – só falta apenas que o mundo reconheça a sua genialidade.

Tenho-me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação das suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e uma boa parte embirra e desiste.

Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que alcançaram tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é baseada na construção – e que para conquistar um espaço no mundo é preciso virar muitos frangos. Com ética e honestidade – e não às cotoveladas ou aos gritos. Como os seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que lhes anuncia uma nova e não lá muito animadora: viver é para os insistentes.

Porque razão grande parte dessa nova geração é assim? Penso que este é uma questão importante para quem está a educar uma criança ou um adolescente nos dias de hoje. Esta época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de tudo e de todos – sem esperar qualquer responsabilização nem reciprocidade.

É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinónimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces do mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto da sua condição humana como das suas capacidades individuais?

A nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “o fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de trabalhar para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bom, bom é aquele que não estudou, passou a noite nos copos e passou nas específicas para entrar em Medicina. Este atesta a excelência dos genes dos seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar o seu lugar no país.

Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforços, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pago caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”.

Basta andar por este mundo para testemunhar a cara de espanto e de mágoa de alguns jovens ao descobrir que a vida não é como os pais lhes tinham prometido. Expressão que logo muda para o amuo. E o pior é que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não estão minimamente preparados para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer.

A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é: “Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”? É no passar dos dias que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumo desaparece deixando nada para trás. Ninguém descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria crescer – este momento é apenas quando a condição humana, frágil e falha, começa a explicitar-se no confronto com os muros da realidade. Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem sequer para falar da tristeza e da confusão.

Parece-me que é isto que tem acontecido em muitas famílias por aí: se a felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir desencaixado? Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando do seu lugar no mundo, porque isso seria um reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da felicidade e da completude.

Quando o que não pode ser dito se torna um sintoma – já que ninguém está disposto a ouvir, porque ouvir significaria rever escolhas e reconhecer equívocos – o mais fácil é calar. E não é por acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo o desconforto de crianças que não se comportam segundo o manual. Assim, a família pode manter o quotidiano sem que ninguém precise olhar a sério para ninguém dentro de casa.

Se os filhos têm direito de ser felizes simplesmente porque existem – e aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir.

Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele dia após dia. É pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem alcançar. E por isso, é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo a funcionar.

O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas não se conhecem. E, portanto, estão a perder uma grande chance. Todos sofrem muito neste teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.

Quando converso com estes jovens no parapeito da vida adulta, com as suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores à sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que um jovem se transforma em adulto.

Seria muito bom que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad, dizer de vez em quando: “Organiza-te, dá a volta e resolve, meu filho. Poderás contar sempre comigo, mas essa batalha é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, o meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou a tentar descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode significar dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência. É tão mau quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito.

Agora, se os pais transmitiram que a felicidade é um direito e seu filho merece tudo simplesmente por existir, paciência. De nada vai adiantar choramingar ou amuar ao descobrir que vai ter de conquistar o seu espaço no mundo sem qualquer garantia. O melhor a fazer é ter a coragem de escolher. Seja a escolha de lutar pelo seu desejo – ou para descobri-lo –, seja a de abrir mão dele. E não culpar ninguém porque eventualmente não resultou, porque com certeza vai dar errado muitas vezes. Ou transferir para o outro a responsabilidade pela sua desistência.

Crescer é compreender que o facto da vida ser insuficiente não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo a sentir-se injustiçado porque um dia a vida acaba.

Por Eliane Brum, publicado na Revista Época, por Clínica Alamendas
Adaptado por Up To Kids®

imagem@saltoyouth

 

 

O que acontece quando os pais trocam os filhos pelos smartphones

Junho 21, 2018 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Diário de Notícias de 14 de junho de 2018.

Profissionais de saúde infantil contam ao DN que há pais que não conseguem parar de utilizar os dispositivos eletrónicos nem quando vão às consultas com os filhos

Frustração, birras, queixas, amuos. É este o resultado da “tecnoferência”, ou seja, da interferência que a tecnologia tem nas relações familiares. De acordo com um estudo feito por investigadores dos estados do Illinois e Michigan (EUA), quando os pais passam muito tempo a ver televisão ou agarrados aos smartphones durante as refeições e nos momentos de brincadeira, as crianças tendem a mostrar comportamentos problemáticos, maior frustração e hiperatividade. A longo prazo, alertam, as relações podem ficar comprometidas.

A questão já se colocava com a televisão, mas os dispositivos móveis vieram agravar o problema. Segundo a Science Daily, os investigadores acompanharam 172 famílias com filhos de cinco anos ou mais novos durante dois anos. Na grande maioria das famílias, um ou mais dispositivos eletrónicos interrompiam a interação pais e filhos em algum momento do dia. Enquanto estavam absorvidos pelos ecrãs, os pais conversavam menos e reagiam mal quando as crianças tentavam obter atenção.

“O bom senso já nos dizia que isto acontece, mas é bom que haja estudos que o demonstrem. O facto de os pais estarem muito agarrados aos ecrãs vai prejudicar as relações com os filhos”, admite o pediatra Hugo Rodrigues. Nessas alturas, explica, “os filhos sentem que os pais não estão genuinamente interessados neles, em brincar com eles. Não chega estar ao lado”.

Para “ativar os adultos”, as crianças têm comportamentos desajustado: “Se os pais não lhes prestam atenção, elas desviam-lhes a atenção dos ecrãs com maus comportamentos”. À pergunta sobre se estas situações são comuns, a resposta é afirmativa. “Basta olhar à nossa volta, nos transportes públicos, nos restaurantes. Sempre que se veem famílias com crianças, há uma alta probabilidade de pais e filhos estarem agarrados ao ecrã”.

Impacto a longo prazo

O estudo publicado na revista Pediatric Research tinha como objetivo examinar o impacto que os dispositivos eletrónicos têm na paternidade e no comportamento das crianças. Entre as conclusões, os investigadores dizem que a tecnologia pode influenciar negativamente as relações entre pais e filhos a longo prazo.

Inês Afonso Marques, responsável pela área infantojuvenil da Oficina de Psicologia, diz que “pode levar a um fenómeno de desamparo aprendido”. Se for muito repetido, explica a psicóloga, “há um desligamento entre pais e filhos que não tem um impacto positivo nas relações”. Estas, prossegue, “fazem-se de contacto físico, ocular”.

Nas sala de espera do consultório, Inês Afonso Marques vê frequentemente “crianças e pais agarrados ao telemóvel”. E até mesmo dentro do consultório. “Há pais que não conseguem não olhar para o smartphone na consulta. Qual a mensagem que passam aos filhos? Que eles não são assim tão importantes?”

A mesma situação é relatada ao DN pela pedopsiquiatra Ana Vasconcelos: “Vejo pais a mexer nos telemóveis enquanto converso com eles e com os filhos”. Segundo a especialista, estes têm caraterísticas semelhantes às de muitas crianças: “Têm de estar sempre ocupados com algo que lhes preencha o espírito, caraterísticas do défice de atenção e da hiperatividade”.

Ao passarem muito tempo focados nos ecrãs, Ana Vasconcelos diz que os pais “não são a bússola empática para guiar os filhos, e as crianças ficam em auto-gestão”. Paralelamente, há ambientes familiares “de grande tensão”.

Falta consciência

Da parte dos adultos, não haverá consciência do tempo que dedicam às novas tecnologias. “Os pais tentam cada vez mais regular o tempo que os filhos passam nos dispositivos, mas não o que eles passam ligados”, adianta a psicóloga Cátia Teixeira. É preciso, frisa, que tenham consciência de que são modelos. “Se o modelo de relação é mais distante, isso terá as suas consequências”, assinala.

Segundo os investigadores, a situação complica-se porque há um ciclo vicioso: há pais que se refugiam na tecnologia dos comportamentos problemáticos dos filhos, dando menos atenção às crianças, o que vai gerar mais comportamentos desajustados.

 

Mais informações na notícia:

Digital devices during family time could exacerbate bad behavior

 

Excesso de atividades extracurriculares pode prejudicar as crianças

Junho 7, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Photo by Bianca Isofache on Unsplash

 

Os malefícios incluem uma menor conexão entre pais e filhos ao tornar a rotina das crianças exaustiva.

Muitos pais desejam que os filhos sejam proativos. Uma criança que realiza diversas atividades, está na maior parte do tempo alerta, e têm menos chances de tornarem-se entediadas ou sedentárias. Os benefícios das atividades extracurriculares são diversos, porém, o excesso delas podem prejudicar a saúde mental das crianças. É o que indica um novo estudo publicado pelo periódico Sport, Education and Society.

Por mais que praticar aulas de música e esportes possa agregar no conhecimento dos filhos, ao envolvermos as crianças em meio a tantas atividades, podemos lhe causar estresse e um menor envolvimento frente às questões familiares, já que os pequenos permanecem menos tempo em casa.

 

Como o estudo foi conduzido

Para o estudo, foram entrevistadas 50 famílias de 12 escolas primárias localizadas na Inglaterra. Descobriu-se que uma grande parte das crianças (88% delas), participavam de atividades extracurriculares de quatro a cinco dias por semana, com 58% praticando mais de uma dessas atividades por dia.

O envolvimento em atividades extracurriculares parece dominar a vida familiar, especialmente para pais com mais de um filho. E consequentemente, as famílias começaram a ter menos tempo para passar com as crianças, além de estarem gastando muito mais dinheiro e energia para garantir estas práticas aos filhos.

Uma das mães entrevistadas para o estudo, alegou que seu filho não conseguia levantar durante as manhãs caso alguma das atividades extracurriculares fossem canceladas. “Ele ficava extremamente triste e sem vontade para realizar outras coisas durante o dia”, disse a mãe em entrevista ao periódico.

 

Conclusões

Após a análise dos dados, os estudiosos apontam que há também uma intensa pressão por parte dos pais e das instituições de ensino para que as crianças tenham uma rotina cheia, que as mantenham ocupadas integralmente.

“Os pais têm boas intenções ao incluir os filhos em diversas atividades. Eles querem que eles absorvam a maior quantidade de conhecimento que puderem, para que possam inteirar-se em diversas áreas”, diz Sharon Wheeler, autor do estudo. “Eles acreditam que tais atividades irão beneficiar as crianças à curto prazo, através da atividade física e do desenvolvimento de grupos de amigos, e à longo prazo, potencializando seus intelectos, tendo em vista a carreira das crianças”, conclui.

“Entretanto, nosso estudo mostra que os resultados podem ser diferentes. Por mais que estes benefícios possam ser atingidos, uma rotina turbulenta e com excesso de atividades causa uma tensão no relacionamento familiar, além de causar danos ao desenvolvimento e bem estar das crianças”, afirma Wheeler.

É necessário buscar o equilíbrio. Os pais não devem se sentir pressionados a colocar os filhos em diversas aulas, sobre variados assuntos. Uma menor quantidade de atividades extracurriculares permite que as crianças possam ter um desenvolvimento da fase infantil de maneira sadia, aproveitando momentos de lazer e afetividade com os pais, o que ocasionará em menos estresse tanto no presente, quanto no futuro delas.

 

Artigo publicado em http://www.minhavida.com.br, em 15 de maio de 2018.

Daniel Sampaio: “Vivemos uma espécie de Big Brother familiar, todos a vigiarem-se uns aos outros”

Junho 4, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do Observador a Daniel Sampaio no dia 22 de maio de 2018.

Ana Kotowicz

Pornografia, sexo, álcool, saídas à noite. As maiores preocupações dos pais estão no livro de Daniel Sampaio, no qual pede aos adultos que repensem a forma de comunicar com os filhos adolescentes.

“Deixe-me contar-lhe uma história curiosa…” Daniel Sampaio, que já a seguir nos vai falar sobre O homem que matou Liberty Valance, abriu-nos a porta de sua casa para conversarmos sobre o seu mais recente livro, “Do telemóvel para o mundo: pais e adolescentes no tempo da internet”. O título, como se vê, é auto-explicativo.

Ao longo da conversa, vai partilhando vários episódios do seu dia a dia, embora dizendo que não valem a pena ser referidos nesta entrevista. Este é um deles: “Ontem à noite vi um filme antigo, gosto muito de ver filmes antigos, e entrava o Lee Marvin, um ator de filmes duros. E eu lembrei-me de uma cena de outro filme em que o Lee Marvin atira um café a ferver para cima da namorada e ela aparece com uma cicatriz. Aquilo impressionou-me muito quando vi. Andei à procura na internet e descobri o nome da atriz e o filme onde isso se tinha passado. Isto é uma coisa maravilhosa, é uma recordação minha, antiga. O filme é de Fritz Lang, um filme muito antigo, e eu jamais encontraria esta cena numa enciclopédia de cinema.”

Com este exemplo, o professor de psiquiatria jubilado, de 71 anos, quer exemplificar aquilo que tenta dizer aos pais dos adolescentes no seu 27.º livro: as vantagens da internet superam largamente os riscos. Riscos, como diz, existem em todo o lado, “até quando usamos uma faca”. Frontalmente contra que as famílias se espiem na internet, defende que o importante é saber utilizar esta tecnologia e não deixar que ela se torne motivo de conflito. “Sabe… tenho consultas que nada têm a ver com psiquiatria. As pessoas não estão doentes, estão só a gerir mal a comunicação na família”, diz, sentado no sofá do seu escritório em casa, ao mesmo tempo que faz questão de lembrar que é psiquiatra e não psicólogo. Pelos últimos tem muito respeito, é até a profissão do seu filho, mas ele, Daniel Sampaio é psiquiatra com muito orgulho.

Do seu lado esquerdo vê-se um quadro do surrealista português Raúl Perez que mais tarde irá sugerir ao fotógrafo que aproveite para o enquadramento do seu retrato. “Já sei que o escritório tem pouca luz e que o espaço é pequeno. Também já sei que pestanejo muito. Mas não quer aproveitar este quadro? É surrealista, é lindo, é a melhor peça que tenho cá em casa.” Quanto ao início da conversa, e ao duro Lee Marvin, também nós fomos à internet. O filme de Fritz Lang, de 1953, chama-se Corrupção (Big Heat) e a namorada é Gloria Grahame. A partir daqui, a conversa começa e acaba nos telemóveis e na Galáxia Internet.

Posso deixar aqui o telemóvel? O meu colega fotógrafo vai avisar quando estiver próximo de nós.
Claro que sim. O meu está aqui [diz, pondo a mão no bolso]. Os telemóveis hoje fazem parte de nós, vão connosco para todo o lado.

Nem de propósito, é mesmo sobre telemóveis que vamos falar.
Vamos lá, então.

Nós, como diz, andamos sempre com o telemóvel atrás. Mas como é que devemos agir quando os miúdos nos começam a pedir o telefone?
Quando as crianças começam a exigir — e a palavra é mesmo exigir — é importante que nos sentemos ao lado deles a dizer desde muito cedo: “O que é que estás a ver?”, “Como é que estás a jogar este jogo?”, “Olha que não deves estar muito tempo com esse jogo, vamos interromper, vamos jogar um jogo de tabuleiro, vamos para a rua”. É importante introduzir a ideia de que o telemóvel é para usar durante um curto período de tempo. Mas se deixarmos uma criança sozinha com um tablet como vemos hoje, enquanto os adultos vão fazer outra coisa, passamos a mensagem errada. Hoje estive com uma pessoa que me disse que uma criança com um ano já tem uma grande apetência para pedir o telemóvel. E os pais dão-lho porque para eles o telemóvel é completamente banal. Nós adultos estamos sempre com o telemóvel.

Estamos a falar de crianças de 5, 6, 7 anos?
Ou menos, mesmo com 4! Se observar nos restaurantes, é muito frequente ver crianças de 4 anos com um ipad na mão enquanto os pais ou estão no telemóvel ou estão a comer, não é?

Ainda há dias assisti a isso. Era uma criança que teria uns dois anos, no máximo, e a mãe ainda antes de vir a refeição, preparou o tablet com uns desenhos animados e durante todo o tempo em que esteve a dar de comer à criança, ela esteve a ver o que se passava no tablet.
Seguramente que isso se passa em casa também. Temos de evitar que a criança se habitue a estar a fazer outras coisas enquanto está no tablet. Temos de evitar que ele seja utilizado como uma ama eletrónica. O que estamos a pedir é que seja o dispositivo a tomar conta da criança.

Às vezes, os pais estão desesperados…
Sim, claro, se for por um curto período não tem qualquer problema. Aliás, não há qualquer problema na utilização do telemóvel se tivermos a ideia de que tem de ser um curto período de tempo e de que aquelas horas de que eu falo no livro, que são horas fundamentais para os jovens e a família, sejam preservadas: a hora do pequeno-almoço, a hora de chegar a casa, a hora de jantar e a hora de deitar. Depois pode haver muita abertura… Mas é importante perceber que é preciso ensinar a fazer uma boa utilização quando se dá um telemóvel a uma criança de 10 anos.

“Uma criança com um telemóvel antiquado vai ser alvo de piadas”

É essa a idade certa para a criança ter o seu primeiro telemóvel?
É a altura que eu acho que é adequada. Mas deve dar-se um smartphone, não se deve dar um telemóvel de teclas, porque isso vai fazer com que sejam gozados na escola. Temos de perceber que se damos um telemóvel antiquado a uma criança de dez anos, que até poderia ser adequado para a idade, ela é automaticamente alvo de piadas na escola.

Mas a pedagogia do telemóvel não pode começar só aos 10 anos, pois não?
Não. A pedagogia do ecrã começa com a televisão. Os adolescentes não vêem televisão praticamente nenhuma e se precisarem vêem no telefone. Mas as crianças vêem. Podemos começar a pedagogia do ecrã desde muito cedo para que elas saibam ver televisão moderadamente e para, mais tarde, quando entrarem em contacto com o computador e o telemóvel, também os saberem utilizar de uma forma correta.

A televisão pode então ser uma preparação para mais tarde saberem usar um telemóvel?
É essa a ideia.

E o que devem os pais fazer nessa altura?
Restringir o tempo. No livro, tenho a certa altura uma proposta que não é minha, é do Serge Tisseron [psicanalista], sobre a utilização dos ecrãs. Eles começam com desenhos animados na televisão. Devem ver durante um curto período e não estar muito tempo a ver televisão para criar, desde logo, a ideia de que qualquer visionamento tem de ter uma regra de utilização. O que é fundamental é criar nas crianças e nos jovens a ideia de uma boa utilização. A internet é uma coisa maravilhosa se for bem utilizada.

A internet tem esse lado óptimo, um estudante pode ver uma palestra que se está a passar do outro lado do mundo e já ninguém procura enciclopédias de papel.
Isso é muito importante. Tenho ali uma Enciclopédia Larousse, muito boa, mas que já ninguém utiliza. A internet tem esta coisa maravilhosa, abre para o mundo, permite aumentar o conhecimento, marcar uma viagem, marcar um restaurante, um encontro amoroso… Sou contra que se diga que a internet é uma coisa má. Tem riscos, mas qualquer coisa tem riscos. Uma faca pode ter riscos. É preciso é interiorizarmos esta ideia, desde muito cedo, de que a internet onde eles todos vão viver é uma coisa extremamente positiva, desde que bem utilizada.

É uma porta para o mundo, como diz no livro?
Essa é a perspetiva que tem de ser dada. Porque, se não é trabalhada na infância, transforma-se num instrumento de poder de filhos contra pais. Depois os pais têm necessidade de repor o poder na família e vivemos uma espécie de Big Brother familiar, o Orwelliano, no sentido do livro “1984”, não no sentido da TVI. Tudo a vigiar-se uns aos outros.

Vê isso acontecer nas famílias, essa vigilância excessiva?
O que se passa em algumas famílias é muito preocupante: é a entrada nos telemóveis dos filhos, a vigilância constante do computador de casa, o tal Big Brother Orwelliano. E esse é o principal motivo para não haver confiança entre pais e filhos, porque as pessoas passam a vida a vigiar-se umas às outras. Há casais que também se espiam no telemóvel. Mas quando os pais entram no telemóvel dos filhos, depois ficam prisioneiros por que não podem confessar que o fizeram. Descobriram coisas que não gostaram.

E depois o que é que os pais fazem com a informação que recolheram dos telemóveis dos filhos? 
Não conseguem fazer nada. Esta semana tive uma consulta onde estava um rapaz de 14 anos que frequentava sites pornográficos — muito frequente nestas idades — e o pai marcou uma consulta para lhe poder dizer que estava a espiar o telemóvel. A consulta foi muito difícil, porque o filho tomou consciência de que o pai andava a entrar-lhe no telemóvel e ficou extremamente zangado. Tive de trabalhar o conflito, porque o pai ficou preso à sua informação.

Então como é que se pode fazer de outra forma?
Através da confiança. Através de o pai e a mãe estarem habituados a partilhar o mais possível aquilo que os filhos fazem nos ecrãs. Claro que há sempre uma zona que os filhos não vão partilhar, mas se houver algum problema significativo, o filho que está habituado a partilhar os problemas com os pais desde o princípio vai fazê-lo.

“Quando os filhos sabem mais do que os pais, o poder na família é abalado”

Diz-nos no livro que, pela primeira vez, e falando dos telemóveis, os filhos sabem mais do que os pais. Isto cria conflitos na família?
Esse é um ponto fundamental. Escrevi este livro porque sei que há muitos conflitos na família a propósito da internet e do telemóvel. Foi o ponto de partida. Ao longo da história, as gerações mais velhas sempre tiveram maior experiência de vida e souberam mais do que os filhos em praticamente todas as circunstâncias. Pela primeira vez com estas novas tecnologias — que não são tão novas assim, mas continuamos a chamá-las novas — os filhos têm um conhecimento maior de que os pais, sabem mais. Isso faz com que a situação de poder na família, que deve estar sempre do lado dos pais, seja abalada. Donde, uma advertência dos pais aos filhos é rejeitado com a expressão “não sabes nada disto”. E é mesmo esta a expressão que se usa. Não sabes nada disso. Isto gera um desequilíbrio de poder que tem sido fonte de conflitos.

E os pais estão preparados para esta inversão de papéis?
Os pais estão a preparar-se, sobretudo os mais novos. Os pais das crianças estão mais preparados e há uma grande diferença entre eles e os pais dos adolescentes, que têm 45 anos aproximadamente. O que está a acontecer é que a partir dos conflitos de utilização do telemóvel, começam a surgir outros problemas na família que têm a ver com a intimidade, com a privacidade, com a gestão da hora do sono, com a relação com os amigos… Problemas que foram levantados por uma situação que devia ser banal na família e que é a autoregulação da internet.

Está a fazer uma diferenciação entre pais de adolescentes e de crianças. O nível de problemas tem também a ver com o conhecimento que os próprios pais têm das tecnologias?
Claro. Os pais mais novos têm mais experiência, mais conhecimento, estão mais à-vontade e isso facilita. Os pais das crianças atuais estão mais alerta para o problema e quando esses filhos chegarem à adolescência poderão gerir melhor a situação. Muitas vezes o que aconteceu foi que os pais não fizeram nada durante a infância, deram o telemóvel aos filhos aos 10 anos, e continuaram sem fazer nada. Depois surgem os problemas.

Se não os ensinamos a pôr a roupa suja no cesto quando têm 5 anos, não vão passar a fazê-lo só porque um dia fizeram 15 anos. É isso?
Sim, como a história da cadeira que quase todos têm no quarto, onde deixam a camisa usada para vestir noutro dia. Um dia vou escrever sobre isso. Esta regra tem de ser explicada na infância, que a roupa não fica atirada, tem de ser arrumada. Ou seja, uma adolescência saudável ganha-se na infância. É muito importante passar essa mensagem. As pessoas dizem: “Não deu problema nenhum na infância, mas agora está a dar.” É verdade, mas na infância os pais tinham uma grande possibilidade, um grande poder sobre a criança. Depois perdem poder, perdem autoridade. Se as regras não estão interiorizadas, é muito mais difícil na adolescência conseguir isso.

Ou seja, os pais não podem esperar que um dia os jovens passem a respeitar regras que nunca lhes ensinaram na infância. É isso que quer dizer?
Sim, sim. Há outra coisa a propósito disso. É a ideia de que a adolescência é uma fase em que vai haver muitos problemas, mas vai passar. Essa é uma ideia errada. A adolescência, de facto, tem problemas, mas se não tivermos uma intervenção nos problemas, não vai passar. Pelo contrário, vai-se agravar. Como sabemos que a adolescência se prolonga, muitas pessoas chegam à idade adulta com problemas que podiam ter sido resolvidos antes. Deve-se intervir. Os pais devem ter uma atitude muito presente, bastante assertiva, com envolvimento. E isso é muito mais fácil se tiver havido essa relação na infância.

No livro usa a imagem de que os pais devem ir sentados no banco de trás do carro durante a adolescência dos filhos.
É uma metáfora que funciona bem. Primeiro, os pais devem conduzir o carro, depois devem passar para o lado do volante quando ele fizer 18 anos e começar a conduzir, e depois devem ir no banco de trás. Significa que temos sempre de acompanhar a vida dos filhos, mas que o controlo que vamos exercer é menor à medida que eles vão avançando na idade. Os pais nunca podem achar que os filhos podem estar sozinhos — aquilo a que eu chamo a educação indulgente, que é deixar fazer tudo, não haver vigilância nenhuma —, mas também tem de haver envolvimento afetivo.

A tal parentalidade construtiva de que fala?
Quando introduzo o tema da parentalidade construtiva, que é baseado em muitos estudos, não quis maçar o leitor com muita informação, mas há dados consistentes que dizem que se os pais tiverem uma atitude com autoridade, sem autoritarismo, e ao mesmo tempo estiverem envolvidos afetivamente, se partilharem a vida dos filhos, se forem acompanhando, se se interessarem, esta parentalidade é mais eficaz e funciona como modelo. É muito provável que esses filhos quando forem pais tenham esse modelo apreendido. Se os pais forem muito autoritários, ou pelo contrário muito permissivos, é muito pouco provável que funcione.

Aliás, diz isso no livro, que o tipo de parentalidade que exercemos influencia de forma determinante a adolescência.
Não é só os anos da adolescência. Há estudos que dizem que influencia também as gerações seguintes, porque esse modelo, apreendido pelo adolescente, vai ser posto em prática quando ele, mais tarde, for pai ou mãe.

“É utópico pensar que um rapaz de 16 anos não vai beber”

Até porque quando somos pais acabamos por ir buscar memórias de que não nos lembrávamos há anos, não é?
Começando logo pelo parto. As mulheres lembram-se sempre das suas mães na altura do parto, é muito frequente. E quando não têm uma boa relação com a mãe é mais difícil. Os avós também são cada vez mais importantes, vivem mais tempo, têm mais saúde e há muitos divórcios. É um papel muito significativo, como o dos padrastos e das madrastas, a quem se deve tirar a carga negativa, porque em muitos casos são extremamente importantes e positivos para os adolescentes. O importante é ter adultos disponíveis por perto dos adolescentes. As pessoas pensam que os jovens não gostam de falar com adultos e isso não é verdade. Os jovens gostam de falar entre si, mas gostam de ter momentos com os adultos.

Por falar na conversa com os adultos, no livro diz que não faz sentido estar a maçar os adolescentes com conversas muito longas…
As chamadas conversas à séria… Foi um amigo do meu neto que me inspirou, tem 18 anos. Ele dizia: “Eu ficava logo nervoso quando os meus pais diziam que íamos ter uma conversa séria.” Sobretudo no campo da sexualidade. Daí a pequena conversa: um pequeno acontecimento de vida que é comentado, uma série que se está a ver e que serve para uma pequena conversa. Quando a filha fala dos amigos e diz, por exemplo, a Carolina está grávida… Bom, isto é uma mensagem que quer dizer que ela própria está a iniciar a vida sexual e que está com esse problema. Temos de captar essas mensagens e usar esses momentos em vez daquela coisa antiga, que alguns pais ainda tentam, que é ter uma conversa muito a sério sobre a pílula ou as drogas. Nada disso funciona. Funciona a pequena coisa. “Vais sair à noite, já sei que vais beber. Mas o que deves fazer em relação ao beber? Beber pouca quantidade, beberes água e comeres antes de sair.” São três coisas fundamentais.

E isso chega?
Não chega, porque há excessos. Não digo que isto, do álcool, não é um problema. Mas é mal abordado. Para já, a grande maioria dos jovens não se vai tornar alcoólico como às vezes oiço dizer. Eles bebem em excesso e isso não é bom, mas é preciso desdramatizar o consumo e dar-lhes regras de utilização. É utópico pensar que um rapaz de 16 anos vai sair à noite e não vai beber. Se o pai lhe diz para não beber, perde autoridade. É preferível não dizer. O que deve fazer é ensinar-lhe as regras fundamentais: comer, não ter o estômago vazio, beber água, beber com moderação e não misturar as bebidas. Quando o adolescente está a sair e vai cheio daquele entusiasmo é preciso lembrar estas regras.

Essa pequena conversa funciona melhor do que sentá-los para a conversa séria?
Funciona melhor do que a dos perigos do álcool, dos jovens que acabam na esquadra ou em coma alcoólico. Eles já sabem isso tudo. O que é preciso é saber beber.

Esse estilo de conversa passa também por falar com os filhos através de mensagens ou WhatsApp?
O mais possível. É uma ferramenta que é extremamente importante e que é a comunicação instantânea. Sem ter a preocupação de estar sempre a controlar, mas ter alguma noção de onde eles estão e o que estão a fazer. Em relação aos meus netos, que me introduziram no WhatsApp, foi muito bom. Mas disseram-me: “Instagram não, avô. Não é para ti.” Mas o WhatsApp é muito bom porque podemos comunicar.

E se calhar os adolescentes respondem mais depressa a uma mensagem do que a 4, 5 ou 6 telefonemas, não é?
Completamente. Eles não gostam muito de falar ao telefone, a não ser quando namoram. Eles próprios comunicam muito rapidamente. Eles não gostam de conversas prolongadas. E os pais, a falar com eles, dizem: “Como foi a escola? Já lanchaste? Trouxeste o caderno? Ligaste à avó?” E eles respondem com monossílabos: “Sim, pai, sim, mãe.”

É o nagging de que fala no livro?
nagging é o ralhar persistente. É muito importante deixá-los descontrair um bocadinho quando chegam a casa e isso pode passar pela ida ao computador, ao telemóvel e à internet. Não faz mal nenhum. Não se deve começar logo a dizer tens de estudar, tens teste amanhã, vai tomar banho… Este tipo de persistência, o nagging, nos jovens de hoje que são mais cientes dos seus direitos, vai provocar uma contra-reação.

Essa é uma das grandes angústias dos pais de adolescentes, a perda do controle?
Sim, é o grande problema. Antes, quando os filhos ficavam na casa de um amigo, era muito fácil saber o que se passava. Telefonava-se à mãe do amigo. Hoje, o mundo é diferente, é a tal Galáxia Internet do Manuel Castells [sociólogo espanhol]. Os pais não sabem o que se passa: se eles estão a ver pornografia, se estão num site perigoso, se estão a dar elementos de identificação a um estranho… Há novos riscos, mas eles só se podem obviar com confiança.

“A confiança nas famílias é mais importante do que o diálogo”

A confiança é fundamental no mundo de hoje?
É, é a palavra-chave. A confiança nas famílias é mais importante do que o diálogo. Se vir os meus livros anteriores, eu falava muito no diálogo. O que tenho vindo a perceber é que a palavra-chave, neste momento, é a confiança. Tem de haver confiança entre as gerações. Por isso é que sou completamente contra que se espie o telemóvel, ou que se entre no quarto de um adolescente sem bater à porta. É preciso que os pais se habituem a conceder alguma privacidade, mas também é importante os filhos perceberem que estão numa casa de família e têm de ter respeito pelas convicções dos pais. Eles têm de ter o seu território privado, que é o seu quarto, mas o quarto não está fechado em relação ao que se passa à volta.

Mas os adolescentes são desconfiados por natureza…
São desconfiados porque têm muito receio de ser controlados. E quando temos só a perspetiva do controlo, sem envolvimento, o controlo torna-se excessivo e eles ficam muito preocupados com isso. Por isso é que digo sempre que é preciso tender para a autonomia. E como se vence a desconfiança? Com confiança. Parece uma coisa de La Palice, mas é verdade. Se temos uma relação de abertura — há coisas que nos vão sempre escapar como pais — mas, de uma forma geral, as coisas correm bem.

Estes pais que agora vão espreitar os telemóveis dos filhos são os mesmos que há uns anos não gostavam que as mães lhes fossem ler os diários…
Não tinha pensado nisso, mas sim, é o correspondente. Lembra-se que os diários tinham uma chave? Uns livrinhos muito bonitos, mais para as raparigas do que para os rapazes, mas tinham essa pequena chave que depois se escondia. É a mesma coisa. Havia mães que às vezes até tentavam arrombar a fechadura. É a mesma coisa, mas muito ampliada porque a internet é uma coisa muito constante.

Faz sentido sermos amigos dos nossos filhos nas redes sociais?
Acho que se pode ser amigo, mas sem ter a preocupação de controlo excessivo. Por outro lado, toda a excessiva camaradagem entre pais e filhos não é uma coisa boa, é preciso saber-se separar o que é ser pai do que é ser pai camarada. No livro conto a história de um pai que fumava charros ao pé do filho. Isso é o pai camarada e o pai camarada perde autoridade. Não é suposto sermos amigos dos nossos filhos, somos pais. Evidente que há pais amigos, mas não somos os amigos deles. A partir dos anos 1980, as gerações tornaram-se mais próximas e os pais de hoje — o Eduardo Sá diz isso e eu concordo — são muito próximos dos filhos. Isso é muito bom do ponto de vista dos afetos. Mas há o reverso, o excesso de camaradagem com a respetiva perda de autoridade. E é preciso recuperar a autoridade, mas não passa pelo regresso do não… não é isso. O caminho é a confiança e caminhar lado a lado com os filhos desde a infância.

Mas é preciso dizer não de vez em quando?
É preciso dizer não muitas vezes, mas tem muito mais força dizer não se se tiver uma relação de confiança com os filhos.

Em relação aos pais que são amigos dos seus filhos nas redes sociais, temos de pensar bem nos comentários que fazemos?
Claro que sim. Não se deve fazer comentários, devemos evitá-los, tal como as imagens que podem ser contestadas mais tarde. É preciso muita prudência com as imagens que se põem dos nossos filhos. As que parecem muito adequadas e fáceis na infância podem, mais tarde, ser detestadas. Conto-lhe um exemplo: um pai disse-me que estava radiante porque conseguiu que o filho de 7 anos fosse fotografado ao lado dos jogadores do Benfica, e perguntou-me se devia pôr no Facebook. Eu disse para não pôr. Ele vai achar maravilhoso agora, mas se calhar aos 14 ou 15 anos pode não gostar dessa imagem. Tire antes a fotografia e partilhe através do telemóvel com as pessoas amigas. Se põe no Facebook fica uma marca para sempre.

E nós não temos isso, mas os nossos filhos vão ter uma pegada digital desde o dia em que nascem.
Sabe que agora quando vão a uma festa de anos e sabem as pessoas que lá estão, a primeira coisa que vão fazer é ver o perfil dessa pessoas na redes sociais? Quando vão a uma seleção para uma entrevista de emprego, a primeira coisa que o empregador vai saber é o que consta na internet sobre essa pessoa. Descobrem-se coisas que depois não são boas paras as pessoas.

É difícil ser pai de um adolescente e ter de lidar com tantas preocupações e cuidados e alertas…
A adolescência é uma época difícil por definição. Nunca disse que é fácil, o que eu proponho e torná-la mais fácil e divertida. Não temos de ter aquela ideia de que é uma época trágica e de crise. Mas é difícil. É muito mais fácil ter as crianças com 5, 6, 7 anos. Um pai de um adolescente está permanentemente preocupado. Tem é de compensar a preocupação com as coisas positivas que tem a adolescência.

“Os adolescentes sempre viram pornografia, agora o acesso é mais fácil”

Falta-nos falar da questão da pornografia.
Adoro o tema. Adoro porque temos de falar sobre ele. O que me preocupa na pornografia — os adolescentes sempre viram pornografia— é que agora o acesso é muito simples e mais fácil. A grande questão é que nós não temos educação sexual em Portugal. Não temos sítios onde as pessoas possam falar sobre o que é a sexualidade saudável. E os adolescentes podem estar a ser influenciados por visões de imagens sexuais que não correspondem à sexualidade das pessoas.

Que tipo de visões?
O corpo da mulher é explorado, o corpo do homem é exagerado… As imagens que parecem proezas do ponto de vista sexual não correspondem à vida das pessoas e isso pode dar a ideia, sobretudo nos rapazes que vêem mais pornografia do que as raparigas, que assim é que deve ser. Isso é mau. O que é que vamos fazer? Não vamos entrar no telemóvel e ver se eles estão a ver pornografia, vamos normalmente falar sobre o tema: “É natural que estejas a ver sites pornográficos. O que é que estás a pensar sobre isso?” Isto costuma acontecer por volta dos 12, 13, 14 anos.

Um adolescente que consome pornografia com muita frequência pode acabar viciado?
Claro, é viciante. Completamente viciante porque está ligado à masturbação. E é antes do início da vida sexual ativa que o fazem, quando a iniciam vêem muito menos pornografia. Corresponde à fase da descoberta do corpo e da sexualidade. É muito possível que ao evitar falar sobre a pornografia, ela se torne viciante e o adolescente acaba com um problema de dependência.

Mas o que se pode fazer para evitar uma situação de dependência? Como disse, é certo que vão vê-la. Antigamente era mais difícil, era preciso ter coragem para ir ao quiosque, encarar o vendedor e comprar a revista pornográfica.
Devemos falar sobre a pornografia, abrir a porta de nossa casa aos amigos deles, não os deixar estar muito tempo sozinhos. Quando temos um grupo de rapazes e raparigas é muito pouco provável que vão ver pornografia em conjunto. Antigamente dizíamos que eram preocupantes os casos de adolescentes que saíam muito e que iam muito para as discotecas. Hoje, devemos preocupar-nos com um jovem que está muitas horas no quarto sem nenhum controle. Não se pode entrar lá de repente, mas deve-se chamar a atenção. E, aos poucos, eles vão falando. Temos de fazer isso: falar da sexualidade normal, não ter medo de abordar o tema, até porque é uma fase passageira.

A pornografia pode influenciar as relações futuras dos adolescentes?
Ainda não há estudos sobre isso, mas há esse receio entre os investigadores. Pode estar relacionado com a violência sexual no namoro, por exemplo. Alguns estudos dizem que eles podem estar a reproduzir comportamentos que vêem em sites pornográficos. Aí, entra novamente a educação sexual: o que se pode ver e o que se pode fazer a partir daí. Mas há esse risco, daí ter abordado este tema.

Falou sobre a necessidade de uma boa educação sexual. O que é que devia estar a acontecer nas escolas?
Como sabe, pertenci a um grupo de trabalho que lançou a Educação Sexual nas escolas através de uma lei de 2009. O que se verifica, penso que sobretudo por falta de vontade política e porque o tema não está na agenda do Ministério da Educação, é que depende muito da vontade dos professores. É uma pena. Como vimos, é muito difícil eles falarem com os pais sobre este assunto, o acesso à internet é muito fácil, e se a escola não faz nada… Temos um problema. Espero que a disciplina prometida de Cidadania não seja apenas com conteúdos muito teóricos e muito gerais, mas que seja com coisas muito práticas e que a Educação Sexual seja recuperada. Falar de educação sexual é uma oportunidade para falar de educação. À volta dela tem tudo: o respeito entre pessoas, a privacidade, o amor. A escola não é só o Português e a Matemática. Os pais são o mais importante, mas a escola pode dar um contributo, tem de dar instrução e educar.

A internet também mudou as amizades e o amor dos jovens?
Sobre a amizade, seguramente. Sobre o amor, não se sabe, é uma questão muito complexa. Não sabemos muito sobre o amor. Sobre a amizade, sim. Havia a ideia de que havia jovens com poucos amigos reais e muitos virtuais. Hoje sabe-se que não. Têm muitos amigos reais e depois continuam a contactar com os amigos reais através da internet. A amizade aumentou muito com a internet e aumentou para além fronteiras, porque há muitos jovens que através do Erasmus têm amigos estrangeiros. E isto é uma coisa completamente nova. Em relação ao amor, acho que seguramente vai ter influência, mas ainda não sabemos qual é a repercussão. Nos casais, sim, há casos de ciúmes potenciados pela internet. Nos adolescentes, ainda vamos ter de esperar alguns anos para ver.

 

 

Daniel Sampaio: “Têm de ser definidas regras e implementados castigos. o que se passa é que nas famílias não há regras”

Maio 31, 2018 às 9:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Paulo Rascão – MadreMedia

 

A internet pode aproximar mais do que dividir pais e filhos. Entrar-lhes no telemóvel é invadir a sua privacidade, mas há formas de os fazer falar. Sem ser chato e sem medo de se impor. Por estranho que pareça, nem tudo são problemas psiquiátricos, (…).

Os pais queixam-se de que os filhos passam a vida ao telemóvel. Os filhos revidam e respondem que os pais estão sempre no Facebook. O psiquiatra Daniel Sampaio vem agora dizer uma coisa aparentemente simples: se não podes vencê-los, junta-te a eles. No seu livro “Do Telemóvel para o Mundo”, o médico especializado em adolescência defende que o telemóvel e as novas tecnologias, já não tão novas como isso, podem e devem ser utilizadas como ponte entre pais e filhos e não como fonte de conflitos.

(…)

Afinal, o que mudou nos últimos 20 anos na maneira de ser e de estar de jovens e pais? O que é feito do famoso generation gap? Foi isso que fomos descobrir.

Ouvi-o dizer que considera o telemóvel, em termos de privacidade, uma extensão do cérebro e, por isso, os pais não devem invadi-lo.

Exactamente, penso que é território privado. Defendo que os pais não devem invadir esse território e devem antes estabelecer uma relação de confiança com os filhos para que estes possam falar sobre aquilo que fazem no telemóvel. Como psiquiatra especializado em adolescentes, aquilo a que tenho assistido é que as consultas de psiquiatria são marcadas justamente por questões de comunicação. Ou seja, a utilização do telemóvel tornou-se um ponto de conflito. Nalgumas famílias mais disfuncionais tornou-se uma questão de ruptura: tira-se o telemóvel, há gritos, procura-se o telemóvel onde os pais o escondem, depois passa-se para o computador, utiliza-se a bateria até ao fim e os pais chegam a desligar a electricidade para não se poder recarregar os aparelhos. É um palco de conflito entre gerações. A proposta do livro é que seja exactamente o contrário, uma aproximação entre gerações. Porque a internet, particularmente no telemóvel, permite uma comunicação instantânea entre pais e filhos, entre avós e netos. Se podemos ter isso como uma coisa positiva, é nessa direcção que temos de caminhar.

 

“Provavelmente pela primeira vez na história das famílias há um território em que os mais novos sabem mais do que os mais velhos”

 

E por que motivo se tornou fonte de conflito?

Porque provavelmente pela primeira vez na história das famílias há um território em que os mais novos sabem mais do que os mais velhos. As crianças e jovens são muito mais ágeis e sabedoras das tecnologias a que nós chamamos novas, mas que já não são assim tão novas, e o que acontece é que a autoridade familiar se sente questionada. Os pais têm experiência de vida e em muitas circunstâncias sentem-se por isso capacitados para exercer a sua autoridade: tu fazes assim porque eu sei que isso é mau ou bom. Quando entramos no território da internet, há muito desconhecimento das pessoas mais velhas e isso vem alterar a relação de poder na família. Os mais novos dizem aos mais velhos: “És um totó”, “És um cota”, “Não percebes nada disso”, “Eu é que sei”. Isto veio alterar a hierarquia familiar, digamos assim. O que o livro vem dizer é: tenhamos atenção aos riscos, mas aproveitemos as coisas boas, que são muito mais do que os riscos. Porque a internet veio para ficar. Há quem compare a internet com a revolução da imprensa, iniciada por Gutenberg no século XV. Temos de aproveitar este período para nos aproximar mais dos filhos, dos netos – quem tem netos, como é o meu caso – para fazer com que a internet seja uma ponte entre gerações.

 

“Temos de aproveitar este período para nos aproximar mais dos filhos, dos netos. Para fazer com que a internet seja uma ponte entre gerações”

 

Os pais tiram o telemóvel às crianças para as castigar. E porque é que o dão?

Porque sofrem uma grande pressão por parte dos filhos para que eles tenham um telemóvel. Quase todos os miúdos de dez ou de oito anos têm telemóvel, um smartphone.

Muito menos do que isso: dois, quatro, cinco anos.

Mas isso é completamente errado. Isso é aquilo a que se chama a ama electrónica, a babysitter electrónica: dá-se um tablet ou um telemóvel à criança, ela fica fascinada e fica quieta. O que digo é que é preciso definir regras de utilização desde muito cedo. Aos cinco anos pode jogar um jogo no telemóvel do pai ou do irmão mais velho, mas tem de perceber que há regras, a mais importante de todas é o tempo de utilização. Isso tem de ser interiorizado pela criança, que se não faz isso na altura certa dificilmente poderá aceitar as regras mais tarde. Na família, como na escola.

 

“Têm de ser definidas regras e implementados castigos. O que se passa é que nas famílias não há regras”

 

Também tem falado sobre o assunto em escolas?

Estive ontem numa escola, a Escola Secundária de Carcavelos, onde o telemóvel é utilizado na sala de aula. Tudo porque verificaram que era um inferno proibir o telemóvel quando os alunos estavam sistematicamente a desobedecer, a enviar mensagens, etc. Então optaram por trabalhar as regras de utilização durante um ano e no ano seguinte implementaram o uso segundo os critérios definidos com o acordo da associação de estudantes. Hoje é utilizado como instrumento de trabalho durante uma parte da aula, depois é desligado. Os prevaricadores, aqueles que utilizam o telemóvel de uma forma diferente, são imediatamente punidos com a aceitação dos alunos. Na família deve ser da mesma maneira: têm de ser definidas regras e implementados castigos. O que se passa é que nas famílias não há regras. E tudo se torna anárquico. Quando se torna anárquico, o poder que as crianças e jovens têm por dominarem as tecnologias leva a que a hierarquia se inverta e tenhamos filhos a mandar nos pais, como acontece nalgumas famílias.

 

“O poder que as crianças e jovens têm por dominarem as tecnologias leva a que a hierarquia se inverta e tenhamos filhos a mandar nos pais”

 

Se não fosse o telemóvel ou a internet essas famílias estariam unidas ou, de facto, estaria cada um para seu lado?

Antes essas famílias estavam em frente da televisão. Em 1996, já lá vão 22 anos, escrevi “Voltei à Escola”, e o que os pais me diziam era: “Passam a vida a ver televisão”. E eu respondia: “Há um botão para desligar a televisão”. Nessa altura, as famílias também não falavam. E em 1994 escrevi sobre a síndrome das bandejas, em que cada um pegava no seu tabuleiro e sentava-se em frente da televisão a ver o seu programa, em vez de jantar em família. Portanto, este é um problema que vem de trás. Agora foi empolado porque o telemóvel abre-se para o mundo, não sabemos o que pode acontecer, não controlamos o que estão a ver, com quem estão a falar.

Sempre existiu o generation gap. Esse fosso entre pais e filhos é muito diferente do que era há 20 anos?

Hoje os pais estão mais próximo. Desde o final do século XX, com a Convenção sobre os Direitos da Criança, os pais passaram a debruçar-se muito mais sobre os filhos. De uma forma geral, são mais afectuosos. A maioria dos pais aproximou-se dos filhos, mas perdeu autoridade por causa da camaradagem. Depois veio a fase, no início do século XXI, do “é preciso dizer não”. Ora, só é possível dizer não em determinadas circunstâncias: se os pais forem muito distantes, os filhos não aceitam um não. Se forem muito permissivos – e há pais que o são – evidentemente não conseguem manter o não. Precisamos, e a internet pode ser um contributo para isso, de nos envolver com os mais novos, de estar próximo deles, para daí emergir uma autoridade natural. Se eu estiver distante e quiser impor a autoridade de repente ou, ao contrário, se for muito permissivo e quiser impor-me, não consigo. A autoridade é um tema muito importante.

 

“Devia haver uma série de apoios intermédios, os médicos de família ou o enfermeiro do centro de saúde deviam ter formação e ajudar os pais nestas questões, que não são de psiquiatria na maioria dos casos, são de comunicação”

 

Os pais são muito sujeitos a interferências externas – legislação, escolas, psicólogos, psiquiatras, comissões de protecção – e isso traz medo e indefinição que se reflecte na educação dos filhos…

Os pais estão muito sozinhos. Em Portugal, infelizmente, não há a cultura de os pais conversarem uns com os outros, de haver grupos de pais onde se podem trocar experiências. Os pais estão sozinhos e quando precisam de ajuda vão ao psicólogo ou ao psiquiatra. Devia haver uma série de apoios intermédios; os médicos de família ou o enfermeiro do centro de saúde, por exemplo, deviam ter formação e ajudar os pais nestas questões, que não são de psiquiatria. Evidentemente que há jovens com questões psiquiátricas, mas a maioria das vezes que recorrem ao psicólogo ou ao psiquiatra fazem-no por problemas de comunicação que a internet e o telemóvel vieram tornar mais nítidos, mas que já existiam. Quando há 20 anos os jovens passavam o dia em frente da televisão, o problema era exactamente o mesmo, o exterior é que era diferente. Os pais podem estar inseguros, mas são sempre a principal influência dos filhos, está mais do que provado. E se não sabem como agir, têm de reflectir. Os miúdos não vêm com livro de instruções, mas podem, por exemplo, falar com outros pais, isso é muito interessante. Porque alguns pais são bons a orientar os filhos nos estudos e péssimos guiá-los nas saídas à noite, há pais competentes numas áreas e menos competentes noutras. E é bom trocar experiências, saber como outros fazem.

 

“O nagging persistente: não vale a pena dizer mais do que duas vezes. As coisas têm de ser ditas com voz calma e se houver uma resposta agressiva é preciso chamar a atenção sem confronto, sem tensão, o que não significa falta de firmeza”

 

No livro fala muito no nagging, o chatear constante dos pais – que, quem tem filhos adolescentes sabe, é difícil evitar. Pode explicar a sua teoria?

O nagging, o ralhar persistente. Os adolescentes são contestatários, não aceitam as coisas muito facilmente porque têm dentro deles a ideia de que têm de ser diferentes dos pais. Mas o nagging não é eficaz. O que eu digo é: diga no máximo duas vezes. Não vale a pena dizer mais do que isso, porque se diz mais do que duas vezes vai ter uma retroacção: “A mãe é chata”. E isso também é interessante acerca do telemóvel, a necessidade que os adolescentes têm de descansar agarrando-se às ditas novas tecnologias; mal chegam da escola e a primeira coisa que fazem é precipitarem-se sobre os telemóveis, faz parte da maneira de ser actual. E temos de saber esperar um bocadinho por essa descompressão antes de desatarmos a falar. As coisas têm de ser ditas sem ser de forma persistente e com voz calma e se houver uma resposta agressiva é preciso chamar a atenção sem confronto, sem tensão. Criar pontes de diálogo não significa falta de firmeza, não ser persistentes não significa não ser firme.

 

“Eu digo sempre que a família não é uma democracia. E é muito importante passar essa ideia, a certa altura é preciso decidir”

 

Falou nos direitos da criança e do jovem. Hoje podem justificar tudo, têm sempre uma palavra. Isto, com os filhos, tem de ser uma democracia?

Isso faz parte da cultura actual, os jovens têm muito poder nas famílias, têm muito poder na sala de aula. Mas eu digo sempre que a família não é uma democracia. E é muito importante passar essa ideia, a certa altura é preciso decidir. Há famílias que ficam num impasse: os filhos a justificarem-se, os pais a justificarem-se, todos numa discussão sem fim. Que normalmente termina numa zanga ou com um choro ou qualquer coisa do género. Nestas situações, é preciso dizer que não há condições para continuar a discutir, é preciso decidir. O que não significa que três dias depois não se volte ao assunto para conversar sobre a decisão. Mas os pais são normalmente muito oscilantes e deixam muitas vezes que sejam os mais novos a tomar as decisões, como se tivessem capacidade para o fazer.

 

“Uma adolescência normal é pedir tudo e ficar com aquilo que os pais dão. Cabe aos pais perceberem que os filhos estão sempre a pedir, mas que não têm de dar. E isso começa na infância.”

 

A verdade é que eles estão à espera que os pais decidam, mesmo quando parece que não…

Aconteceu com um jovem de 16 anos uma coisa que achei muito interessante… Quando há um patologia psiquiátrica é normal nas consultas os pais perguntarem-me: “Mas isso é da anorexia ou é da adolescência?” ou “Mas isso é da depressão ou é da adolescência?”, é uma pergunta que fazem muitas vezes, para saber se é daquele problema específico ou da adolescência em geral. E eu interrogo-me muito sobre o que é uma adolescência normal. E perguntei a este rapaz o que é uma adolescência normal. E ele respondeu: “É muito simples: uma adolescência normal é pedir tudo e ficar com aquilo que os pais dão”. Ou seja, quer sair à noite todos os dias, quer comprar o telemóvel topo de gama, quer carta e carro, quer dormir até tarde… Mas depois contenta-se com o que os pais lhe dão. Cabe aos pais perceberem que os filhos estão sempre a pedir, mas que não têm de dar. E isso começa na infância. Há muitos pais que dizem: “Não deu problemas nenhuns até aos 13 anos, mas entrou na adolescência e foi um drama”. Quando vemos isso, verificamos que os pais foram muito permissivos e começaram a ceder às solicitações dos miúdos muito novos. Quando fala com adolescente mais velhos, como fiz com este rapaz, percebe que é muito importante que os pais estejam numa espécie de fundo de palco, de bastidores. Os pais têm de estar ali, embora eles precisem de liberdade.

Voltando ao telemóvel como extensão do cérebro, ou seja, à privacidade. Como se controla, então, a pornografia, as conversas, as amizades? Haverá sempre segredos, mas agora estão também mais expostos.

Pode-se controlar no sentido da confiança, de questionar o que estão a fazer. Até porque vai perceber que, a certa altura, ficam embaraçados se não estiverem a fazer a coisa certa. Isto acontece mais com os rapazes, a propósito de pornografia. Os rapazes vêem muita pornografia – no meu tempo era nas revistas. Não podemos impedir isso, faz parte do desenvolvimento, de uma época. O que podemos fazer é escolher entre ignorar ou perguntar o que andam a ver e explicar. E a segunda hipótese é a atitude correcta, caso contrário deixamos na mão dos outros a explicação e o entendimento daquilo que estão a ver, que pode não ser o melhor e o mais certo. Se controlarmos em casa, eles vão para casa dos amigos. Se controlarmos os amigos, eles vão escolher outros amigos. A perspectiva é a de monitorizar, de acompanhar e não de fazer guerra, de censurar. Assim, eles falam com os pais.

Qual é, para si, o principal problema de os pais terem acesso à informação dos filhos?

O principal problema é que muitas vezes os pais não sabem o que fazer com a informação que descobrem, ficam prisioneiros. Vou dar-lhe alguns exemplos: recentemente – e isto foi exactamente assim – um pai chegou à consulta com o filho de 14 anos, a mãe caladinha, e a primeira coisa que diz é: “Vim aqui porque sou engenheiro informático e tenho um device com o qual entrei no telemóvel do meu filho e vi coisas muito estranhas”. O filho começou a ficar em pânico. “Então e aqui à frente do médico é que dizes isso?” “Sim, vi que entraste em sites pornográficos e ainda por cima homossexuais”. Foi uma coisa terrível. O pai ficou completamente embaraçado com o que viu e a solução que encontrou foi marcar uma consulta no psiquiatra. Quando, no limite, até devia ter sido em casa que devia ter dito: “Olha, entrei no teu telemóvel, vi isto e estou muito preocupado”. Mas ficou de tal maneira preso que não teve outra acção. Outro caso também interessante e que estou a seguir, um rapaz que tem uma depressão, os pais começaram controlar os encontros dele e pediram para falar comigo. E eu cometi o erro de falar com os pais sem ser na presença do miúdo. O que aconteceu foi: ele anda com encontros com raparigas fáceis e isto está a fazer-lhe muito mal, o que vamos fazer? Obtiveram esta informação no telemóvel, ficaram muito chocados e agora? Tive de reunir todos, falar dos encontros dele, etc. Mas isso era uma conversa que podiam ter tido em casa, uma conversa banal entre um rapaz de 16 anos e os pais: com quem é que tu andas, quem são os teus amigos, com quem sais? Voltamos ao ponto de partida, o telemóvel pode ser um elemento para criar proximidade em vez de criar distância.

E se os pais não conseguem falar com os filhos, como fazer?

Têm de promover a conversa. Pode ser um avô, pode ser um tio, um mediador entre pais e filhos. Até um técnico, o tal de que falava, o enfermeiro. Não é preciso que seja logo um psiquiatra, porque isso dá logo a conotação da patologia mental que, em muitos casos, não existe.

Fez parte do grupo inicial que estudou a implementação da educação sexual nas escolas…

Sabe há quantos anos?

Em 2009, não foi?

Sim.

Mas não correu muito bem, correu? Hoje mal se fala no assunto.

Entre 2005 e 2009 correu muito bem. Trabalhámos com as escolas, formámos muitos grupos de professores e a educação sexual ficou integrada na educação para a saúde. Na altura fomos contra uma disciplina única, quando podíamos aproveitar a oportunidade para falar de outros temas muito importantes, como a alimentação e a actividade física, porque havia (e há) muitos alunos com excesso de peso, e portanto uma das alíneas passava pela exercício físico, a segunda era as drogas, a terceira era a educação sexual e a quarta era a violência no namoro. Ao mesmo tempo que se fez este trabalho, formaram-se centenas de professores que trabalhavam a educação para a saúde e que podiam ser os mediadores dessas áreas temáticas nas escolas. Representou um esforço grande e que correu muito bem, a lei foi aprovada na Assembleia da República. O que aconteceu depois é que houve um desinvestimento, deixou de haver um carácter obrigatório e passou a ser opcional. Algumas escolas continuam a trabalhar o tema, mas a nível geral este movimento perdeu força. Seria preciso vir dizer: ficam consagradas por ano tantas horas para a educação sexual, tantas horas para o álcool e drogas, tantas horas para a violência no namoro. Uma formação obrigatória. Agora existe a educação para a cidadania, mas o programa for dizer que devem ser bons cidadãos…

Hoje rapazes e raparigas parecem não se entender. Falo já do final da adolescência e idade adulta: elas dizem que eles só pensam no ginásio e no corpo, eles dizem que elas querem super-homens é só pensam na carreira. Há uma explicação?

Guerra de sexos. Isso tem de ser conquistado na adolescência. É uma questão de educação, tudo isso tem de ser trabalhado na adolescência, no início da adolescência. É quando conhecem o seu próprio corpo e começam a interagir com o sexo oposto – ou com o mesmo sexo se forem homossexuais. É uma fase importantíssima. Para, por exemplo, introduzir o tema do respeito, da ética relacional. Até que ponto é que eu posso pôr mensagens no telemóvel contra uma menina gorda da escola? Um grupo de WhatsApp a dizer mal de uma menina gorda? Evidente que ela ficou em silêncio, até que um deles disse que queria sair do grupo. Isso gerou uma discussão. É sobre estas coisas que os pais e a escola se devem pronunciar. Como é que tu vais respeitar as pessoas que convivem contigo. Ok, é gorda. E então? O rapaz é homossexual? É tudo muito natural, mas os homossexuais sofrem horrores na escola, muitas vezes através de cyberbullying. Se não for assim logo na infância, chegam à idade adulta disfuncionais, não reflectiram sobre isso.

Essa é outra questão. Vivemos na era do politicamente correcto, uma certa carneirada. Queremos que os miúdos aceitem conceitos à força, a diferença só porque sim, sem reflectir, sem debater, sem deixar sentir…

O respeito é importante… Eu faço terapia de casal e, de facto, é sempre o mesmo problema: a disputa do casal em que no frigorífico devia haver uma prateleira para ela e uma prateleira para ele. Simbólico, isto. A apropriação do espaço. O espaço masculino, para os iogurtes dele, as coisas que ele gosta. Quando havia uma mudança, havia uma guerra. Isto é a igualdade levada ao extremo. As pessoas são diferentes. Os homens gostam de sair com os seus amigos e as mulheres gostam de sair com as suas amigas. Há casais que têm extrema dificuldade em aceitar isto. É levada a coisa ao extremo, têm de fazer tudo em conjunto. Não é assim.

 

Artigo de Isabel Tavares para SAPO24, em 21 de maio de 2018.

Programa vai ajudar a reforçar laços entre pais e filhos para prevenir comportamentos aditivos no futuro

Maio 30, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Apostar na prevenção de comportamentos aditivos a médio prazo, em crianças dos 6 aos 14 anos, através da envolvência da família é o principal objectivo do programa “prevenir em família e comunidade” que deverá estar no terreno em 2019. Ontem, durante uma reunião entre as várias entidades parceiras do projecto que já foi aplicado nas Ilhas Baleares, em Espanha, a Directora Regional de Prevenção e Combate às Dependências, Suzete Frias, explicou que o mesmo vai ser aplicado inicialmente em territórios mais vulneráveis da ilha de São Miguel, Terceira, Pico e Graciosa. Rabo de Peixe é para já a única comunidade onde se sabe que o projecto vai avançar, uma vez que ali está já implementado o “Trajecto Seguro”, na escola Luísa Constantino, com uma metodologia semelhante de ligação da comunidade à família e da família à escola. A seguir a Rabo de Peixe, serão os resultados do estudo de comportamentos aditivos e comportamentos que está a ser feito prelo Governo Regional a indicar qual a localidade onde se justifica uma intervenção com o projecto.

Um projecto que se baseia na prevenção, através da formação para pais e para crianças onde a novidade são as sessões de interacção entre ambos. “Mais do que criar competências parentais, promove a vinculação da criança aos pais, dos pais à criança, a empatia, saber escutar, é a promoção dos factores protectores em relação a comportamentos de risco. Os estudos mostram que quanto mais vinculação, mais sentimento de pertença temos a nós próprios e ao mundo que nos rodeia, mais protegidos estamos em relação a comportamentos de risco, entre os quais os aditivos”, explica Suzete Frias.

O projecto, que ainda está em fase de organização, está a ser estruturado para famílias “que necessitam de prevenção selectiva, onde são detectados alguns sinais de que poderá haver problemas” no futuro e pretende numa fase posterior “criar um módulo mais pequeno de prevenção universal, porque é importante que tenhamos uma abordagem universal para todas as crianças e pais”.

Um trabalho em rede, tal como o que já vem sendo desenvolvido desde 2004 nas Ilhas Baleares e em 14 grandes cidades espanholas.

Luís Ballester Brage, professor da faculdade de Métodos de Investigação em Educação da Universidade das Ilhas Baleares, deu conta de alguns resultados “muito bons” em determinados parâmetros. O programa decorre em 14 sessões, durante quase 4 meses em que “com trabalho muito intenso” se trabalha com pais e filhos individualmente e posteriormente juntos para que se criem os tais laços de pertença e se melhore a comunicação. “Os resultados são muito importantes em termos de coesão familiar, resiliência familiar, coesão interna na família, controlo da dinâmica das relações familiares e noutros factores associados”, explica Luís Ballester Brage que reforça que “melhorou-se muito as atitudes positivas em respeito às drogas e aos consumos, com resultados consistentes”. O que a longo prazo, “influencia o consumo, ou seja, o consumo baixa e controla-se. A conduta de pequena delinquência e os comportamentos disruptivos também baixam”, explica.

A avaliação que o responsável pela Universidade das Ilhas Baleares faz deste projecto é bastante positiva já que o trabalho em conjunto permite que os filhos percebam “que os pais se preocupam porque durante quatro meses, os pais vêm todas as semanas para falar e comunicar com eles e isso é positivo. Temos miúdos que dizem que não sabiam que os pais se preocupavam

e que se interessavam em melhorar em família. Descobrem que há um projecto de família, que podem dizer coisas à família, confiar que a família pode ajudar”. E está dado o passo da confiança, pois “se aprendem a pedir ajuda, outros assuntos como o bullying, problemas de isolamento, depressão, como aprendem a falar sobre isso e ganham confiança com os pais e irmãos, também a ganham com os professores e com os colegas. Aprendem a comunicar melhor” e a pedir ajuda quando o caso assim o justifica.

Presente na reunião esteve também Jorge Negreiros, da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, que pretende também adoptar este projecto, bem como a responsável do departamento de psicologia da Universidade dos Açores, Célia Carvalho.

 

Escrito por Carla Dias para o Correio dos Açores, em 17 de maio de 2018

Calendário dos Afetos

Maio 18, 2018 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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