O consumo de álcool moderado dos pais afecta os filhos? Estudo diz que sim

Outubro 20, 2017 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança, Relatório | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 19 de outubro de 2017.

Segundo um estudo do Institute of Alcohol Studies de Inglaterra, estes comportamentos afectam a forma como os filhos vêem os pais.

Catarina Lamelas Moura

Um estudo publicado esta semana pelo Institute of Alcohol Studies de Inglaterra (IAS) designa o álcool como “açúcar para adultos”. De acordo com os resultados obtidos, os impactos negativos do consumo de álcool por parte dos pais sobre os filhos acontecem também com quantidades menores, consideradas normalmente pelas entidades como comportamentos de baixo risco.

O estudo – centrado nos consumos sem dependência – analisou as respostas de 997 pais e os seus respectivos filhos, em Inglaterra. Foram realizados inquéritos ao público, quatro focus groups e um inquérito online.

O relatório publicado pela IAS alerta que o debate acerca do consumo de álcool se foca demasiado na questão da quantidade de álcool, em detrimento do verdadeiro impacto do mesmo nas crianças. Os resultados demostram que os pais não têm necessariamente de beber grandes quantidades de forma consistente para que os seus filhos notem mudanças no seu comportamento e sofram impactos negativos. As crianças que viram os pais alegres ou mesmo bêbados demonstraram algum tipo de consequência, como sentirem-se menos consoladas ou a perturbação das rotinas nocturnas. Há ainda uma probabilidade menor de não verem nos pais um exemplo positivo.

Os inquéritos conduzidos concluíram que “muitos pais assumem que os seus filhos não reparam naquilo que bebem” e que, por isso, “os impactos negativos são involuntários, em grande parte dos casos”. Esses hábitos acabam por reflectir-se na postura que os filhos tomam em relação ao álcool, indicam ainda os inquéritos online.

De acordo com os dados do IAS, 29% dos pais admitiu que já tinha estado bêbado em frente aos filhos e 51% disse que já tinha estado alegre. Dos pais inquiridos, 29% considera não haver problema em beber em frente aos filhos, desde que não aconteça com regularidade. Das crianças abordadas, 18% já se sentiu envergonhada devido ao consumo alcoólico dos pais.

“É preocupante que a maioria dos pais relate ter estado alegre em frente aos filhos. Todos os pais lutam por fazer o melhor para os seus filhos, mas este relatório realça a preocupante lacuna no seu conhecimento”, comenta Katherine Brown, chefe executiva dos IAS, citada pelo Guardian.

Um local “seguro” para beber

Aquilo que muitos pais consideram uma forma de educar os filhos a terem comportamentos responsáveis relativamente ao consumo de álcool – deixá-los experimentar uma bebida numa ocasião especial, em casa, por exemplo – pode não produzir os efeitos desejados.

“Os pais muitas vezes tentam evitar que o álcool se torne um tabu, contra o qual as crianças se rebelem, e têm tendência a ver a casa como um ambiente seguro para a aprendizagem de comportamentos adequados”, aponta o relatório do IAS. No entanto, aponta ainda, um estudo conduzido por Marie B. H. Yap e outros investigadores concluiu que as crianças cujos pais lhes fornecem bebidas alcoólicas, têm maior probabilidade de começar a beber mais cedo, de ter problemas alcoólicos e de beber em quantidades e frequência maiores.

O relatório citado na notícia é o seguinte:

Like sugar for adults: The effect of non-dependent parental drinking on children & families

 

 

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O regresso às aulas… dos pais

Outubro 11, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Eduardo Sá publicado na http://www.paisefilhos.pt/ no dia 5 de setembro de 2017.

“É o medo dos pais diante de um mundo diferente e o seu excesso de proteção que tornam o regresso às aulas mais difícil”.

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As férias das crianças nunca são demais. Em primeiro lugar, porque as férias dos pais, quando eram pequeninos, seriam maiores. E, depois, porque olhando para as horas de trabalho dos pais e dos filhos, tendo uns e outros a mesma idade, as crianças trabalham na escola e para a escola em demasia. Fosse o mundo mais justo e, para que “as contas” fossem como deviam ser, as férias grandes deviam ser maiores para quem trabalha mais…

”Mas a vida é, hoje, mais dura e mais competitiva”, argumentam os pais, enquanto reclamam por mais escola e vão resolvendo problemas pelos filhos. Não é verdade! A vida sempre foi dura e competitiva. Por outras palavras, a vida nunca foi fácil! Não tanto no sentido trágico de quem vê nas dificuldades o pretexto para se desculpar por tudo aquilo que não ousou fazer, mas, pelo contrário, no sentido de quem as vê como a forma de descortinar nelas problemas que se transformam em oportunidades para novas dúvidas com que, depois de resolvidas, se cresce mais um bocadinho. A vida traz o difícil; a inteligência, a humildade e a perseverança transformam o difícil em simples. E é o simples, depois de descoberto, que (por ser óbvio) parece fácil. Mas, sendo assim, poupar às crianças os problemas que tenham para resolver e fazer da escola um “fast food” em que quase tudo lhes é dado, sem que haja quem as ensine a pensar, é o mesmo que as pôr a crescer sem que seja preciso que elas percebam, minimamente, como isso se faz. É “embrulhar” o difícil no fácil. E iludi-las com a grandiosidade com que “atrofiam” competências que tinham. Por outras palavras: é o medo dos pais diante de um mundo diferente e o seu excesso de proteção que tornam o regresso às aulas mais difícil para as crianças.

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Ainda assim, comparado o mundo em que os pais cresceram com o mundo ao acesso das crianças, tudo parece, hoje, “à primeira vista”, mais difícil. Porque é mais complexo e exige mais escolhas. Mas, com melhor trabalho, será mais amigo de melhor crescimento. Seja como for, o mundo em que as crianças vivem é parecido, em muitos aspetos, com aquele em que os pais cresceram. É igualmente assimétrico, igualmente demagógico e igualmente ganancioso. É verdade! Talvez porque seja igualmente “costurado” por pessoas. Ainda assim, é mais aberto, e mais acolhedor para quem for honesto, imaginativo e inimitável. Logo, é um mundo de mais oportunidades para aqueles que não forem “produtos normalizados”.
Já em relação à escola, ao contrário da das crianças, a escola dos pais foi, garantidamente, mais injusta. Porque dividia os alunos em inteligentes e em “burros”. Porque ensinava ao abrigo de humilhações e de castigos físicos. E porque muitos professores exerciam um poder discricionário que destroçava crianças.

Hoje, a escola é melhor! E se o regresso às aulas parece muito difícil e quase tumultuoso é porque, para além dos conflitos de agenda, os pais veem a escola à imagem da forma como a viveram. E imaginam o mundo como se o deles tivesse sido “cor de rosa” e o das crianças fosse, invariavelmente, cinzentão. E colocam sobre as aulas a responsabilidade que elas não podem ter. E não exercem, tanto como deviam, o seu direito de comparticipar na escolha da escola, da turma, do professor e de tudo o mais que está para além das próprias aulas. E desvalorizam o brincar, o preguiçar, o conviver ou, simplesmente, o imaginar.

 

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As férias estão a chegar ao fim. Mas se não quer que as crianças se estraguem na relação com a escola não se esqueça, por favor, que:
a) Os pais erram sempre. E isso é bom. Sobretudo se aproveitarem os seus erros para serem pais mais humildes. Sem nunca perder de vista que os piores amigos dos pais são “os bons pais”. Aqueles que querem tanto ser bons que olham mais para os seus desempenhos e para os pais que tiveram, competindo com eles, do que para os próprios filhos.

b) As crianças devem ser escutadas mas não podem decidir pelos pais. Seja a propósito da escola que vão frequentar ou das suas atividades extracurriculares. Aliás, como também não podem ser os técnicos a fazê-lo. Simplesmente porque os pais sabem sempre mais que os filhos. Mas não perca de vista que pais exageradamente cuidadosos são filhos de pais ou excessivamente exigentes ou demasiadamente descuidados.

c) Os pais serão mais atentos se tiverem memória. Ou, melhor, se não fugirem de “conversar” com ela. Dizer aos filhos que os tempos, hoje, são outros, faz com que os pais se sintam com legitimidade para exigirem que a relação dos filhos com a escola seja muito diferente daquela que eles, quando alunos e com a idade que as crianças têm, terão tido com ela. Mas será que os pais faziam todos os trabalhos de casa com agrado? E será que, alguma vez, terão achado as férias grandes ou exageradas? E será que tinham os resultados escolares exemplares que, agora, exigem aos filhos?

d) Todas as crianças são sobredotadas e todas têm necessidades educativas especiais. Ao contrário do que devia ser, a escola acarinha mais as áreas onde as crianças são, aparentemente, “sobredotadas”. E ignora, não identifica ou faz por não reparar nas suas “necessidades educativas especiais”. O que não será razoável é que as boas notas das crianças sejam, unicamente, a todas as disciplinas da escola. Ou a algumas, em particular. Porque as boas notas unicamente às disciplinas da escola — alavancadas com trabalho de pais exagerado, com excesso de explicações e com ateliês de tempos livres que existem para que os trabalhos de casa apareçam feitos, não interessa com que proveito, antes de lá se chegar – são úteis para disfarçar necessidades educativas especiais. Quando as necessidades educativas especiais são as melhores amigas da humildade, da tolerância à frustração e da “capacidade de sofrimento” com as quais se aprende a crescer. Cresce-se melhor quando se aprende a viver com algumas dores, com as experiências de tristeza que “tenham de ser” e, sobretudo, com mais tempo para “digerir” a experiência, para experimentar e para pensar, descobrir e inventar. Começa-se a conhecer quando se reconhece a primeira dificuldade

e) As crianças precisam de duas horas de tempo livre todos os dias! Porque quem brinca aprende melhor.

f) Não compita, através do seu filho, com as notas dos amigos deles. Nem confunda os seus sonhos escolares que não concretizou com projetos para ele. Alunos que não erram são crianças em perigo. Ou seja, só quem foge dos erros é que se desencoraja de aprender. Ainda assim, aprender não é fácil nem rápido. Nem se conquista com pouco trabalho. E, claro, não se aprende sempre com boas notas, sem erros e sem derrotas.

g) Não queira saber tudo acerca da escola, todos os dias. Os pais só precisam de ser atentamente distraídos. Tudo o que for para além disto é exagero.

h) Não transforme o regresso às aulas numa oportunidade para entrar num quadro de excelência só para pais. Também em relação à escola, insista em errar! Porque isso significa que não desiste nunca de aprender.

 

 

4 atitudes que enfraquecem o vínculo emocional com seus filhos

Setembro 28, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site http://www.psicologiasdobrasil.com.br/

Ser pai, mãe, avô, avó e, além disso, um educador eficaz, não é fácil. Cada criança vem a este mundo com necessidades próprias que devemos saber atender, com virtudes a serem potencializadas e emoções que devem ser incentivadas, orientadas e desenvolvidas.

Educar não é apenas ensinar as crianças a ler ou mostrar como podem realizar seu trabalho de pesquisa para o colégio com o computador. Ser pai ou mãe não é presentear os filhos com um telefone celular em seu aniversário, nem assegurar-nos de que colocamos o cinto de segurança neles cada vez que entram no carro. É muito mais que tudo isso.

Contudo, em algumas situações, mesmo que conheçamos a teoria não a aplicamos na prática. Além de pais e mães, também somos casal, empregados, empresários ou pessoas que querem trocar de emprego e que, possivelmente, ainda querem atingir novos objetivos profissionais. Tudo isso ocorre concomitantemente em nosso cotidiano e, sem saber como, começamos a cometer erros na educação de nossos filhos.

Se você for pai, se lembrará de quando foi filho e saberá, sem dúvida, o que você mais valorizou – e ainda valoriza! – ou do que mais sentiu falta nos seus dias de infância. Se a sua infância não foi especialmente feliz, entenderá quais aspectos romperam este vínculo emocional com os seus pais, esses erros que não devem ser repetidos sob nenhuma hipótese com seus filhos.

Falemos sobre isso.

1 – Não os escutar

As crianças falam e também perguntam muito. Pegam você de surpresa com mil questionamentos, inúmeras dúvidas e centenas de comentários nos momentos mais inoportunos. Desejam saber, experimentar, querem compartilhar e desejam compreender tudo que acontece diante delas.

Tenha bastante claro que, se você mandar que fiquem quietas, se você as obrigar a ficar em silêncio, ou se não atender suas palavras, respondendo com severidade ou de forma rude, isso fará com que, no curto prazo, a criança deixe de se dirigir a você. E o fará privilegiando seus próprios espaços de solidão, atrás de uma porta fechada que não desejará que você cruze.

2 – Castigá-los, transmitindo-lhes falta de confiança

São muitos os pais que relacionam a palavra educação com punição, com proibição, com um autoritarismo firme e rígido em que tudo se impõe e qualquer erro é castigado. Este tipo de conduta educativa resulta em uma falta de autoestima muito clara na criança, uma insegurança e, ao mesmo tempo, uma ruptura do vínculo emocional com eles.

Se castigamos não ensinamos. Se me limito apenas a dizer para a criança tudo o que ela faz de errado, jamais saberá como fazer algo bem. Não dou a ela medidas ou estratégias, limito-me a humilhá-la. E tudo isso gerará nela raiva, rancor e insegurança. Evite sempre esta atitude.

3 – Compará-los ou rotulá-los

Poucas coisas podem ser mais destrutivas do que comparar um irmão ao outro ou uma criança a outra para ridicularizá-la, para dar a entender suas escassas aptidões, suas falhas, sua pouca iniciativa. En algumas ocasiões, um erro que muitos pais cometem é falar em voz alta diante das crianças como se elas não os escutassem.

“É que o meu filho não é tão inteligente como o seu, é mais lento, o que se pode fazer”. Expressões como estas são dolorosas e geram neles um sentimento negativo que causará não apenas ódio em relação aos pais, mas um sentimento interior de inferioridade.

4 – Gritar com eles e apoiar-se mais nas ordens do que nos argumentos Não trataremos aqui de maus tratos físicos, pois acreditamos que não há pior forma de romper o vínculo emocional com uma criança do que cometer este ato imperdoável.

Mas temos de ser conscientes de que existem outros tipos de maus tratos implícitos, quase igualmente destrutivos. É o caso do abuso psicológico, esse no qual se arruína a personalidade da criança por completo, sua autoimagem e a confiança em si mesma.

Há pais e mães que não sabem dirigir-se de outra forma a seus filhos, sendo sempre através de gritos. Levantar a voz sem razão justificável provoca um estado de euforia e estresse contínuo nos filhos; eles não sabem em que se apoiar, não sabem se fizeram algo bom ou mau. Os gritos contínuos enfurecem e fazem mal, já que não há diálogos, apenas ordens e críticas.

Deve-se ter muito cuidado com estes aspectos básicos. O não escutar, o não falar e o não demonstrar abertura, compreensão ou sobrepor a sanção ao diálogo são modos de ir afastando aos poucos as crianças do nosso lado. Elas nos enxergarão como inimigos dos quais devem se defender e romperemos o vínculo emocional com eles.

Educar é uma aventura que dura a vida toda em que ninguém é um verdadeiro especialista. Contudo, basta apoiar-se nos pilares da compreensão, do carinho e em um apego saudável que proporcione a maturidade e a segurança nesta pessoa que é também parte de você.

Fonte indicada: A Mente é Maravilhosa

*O conteúdo do texto acima é de responsabilidade do autor e não necessariamente retrata a opinião da página e seus editores.

 

 

Mário Cordeiro: “O narcisismo é a grande doença social de hoje, e há muita gente que não o consegue ultrapassar”

Setembro 28, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista da http://visao.sapo.pt/ a Mário cordeiro no dia 19 de dezembro de 2016.

Teresa Campos

Entrevista publicada na VISÃO 1240 de 8 de dezembro

“Uma criança que cresça com valores e princípios, limites e amor, mesmo que a determinada altura seja chamada pelo ‘lado negro da força’, tem uma capacidade de se levantar muitíssimo maior”, diz o pediatra, em entrevista à VISÃO

Sentado num cadeirão do seu consultório, em Lisboa, o conhecido médico segura, orgulhoso, o seu mais recente livro: “Os nossos adolescentes e a droga”. É o 35º, contabilizando os que partilhou a autoria, em mais de 30 anos de dedicação às crianças e à promoção da saúde uma produção num ritmo alucinante, associada aos cinco filhos e à atividade médica. Aos 61 anos, não é a primeira vez que Mário Cordeiro escreve a pensar na segunda década de vida dos mais novos, a fase em que se desenvolvem as melhores ferramentas para enfrentar o futuro com mais segurança e resiliência. Desta vez, quis fazer uma espécie de manual para pais, com contexto, glossário e experiências contadas na primeira pessoa para esclarecer dúvidas que possam surgir sobre as diversas drogas, álcool incluído.

O objetivo, sempre, é informar. Porque mais vale prevenir do que tratar.

Já tinha escrito sobre adolescentes. O que o fez voltar ao tema?

Achei que valia a pena revisitar este tema porque deixou de se falar nele. Mas [o problema] existe. Há uns anos, verifiquei que o consumo comparado entre alunos da escola privada e da pública eram similares, o que contraria a ideia de que uns estão mais protegidos de determinadas experiências. O que faz sentido, se pensarmos bem nisso: um dealer vai investir mais junto de um público que tem mais dinheiro, certo?

A dada altura, lê-se: “Educar não é difícil, é ter momentos terríveis.” É isso que os pais de adolescentes devem esperar?

Os adolescentes trazem muitas alegrias e muitas dores de cabeça, no sentido de termos muitas dúvidas. Mas isso acontece a nós e a eles, porque o processo tem dois lados. O mais comum é, a partir de um sentimento de frustração, haver birras e não saber geri-las. E isso, claro, também acontece na adolescência. Um filho dá–nos recompensas extraordinárias, mas também imensas dores de cabeça. Além disso, idealizamos sempre os nossos filhos, e às vezes esquecemos que eles têm de fazer o percurso de vida deles.

Eles não são nossos. Podemos ser uma espécie de polícias-sinaleiros a indicar o melhor caminho, mas o automobilista é que decide se vai por ali ou não. E às vezes os filhos desiludem-nos, fazem escolhas que não faríamos e nem sempre é fácil lidar com isso. Tantas vezes oiço de alguns pais: “Mas nós demos a melhor educação, o máximo de carinho…”, quando descobrem que o filho anda a mentir ou a consumir tabaco e álcool e tem só 13 anos. Ao que respondo sempre que isso não é um passaporte para tudo. Há diferenças tremendas até entre irmãos. O melhor é dar o exemplo do que é o respeito, a ética e a disciplina, em vez de andarmos a dar sermões.

Uma criança que cresça com valores e princípios, limites e amor, mesmo que a determinada altura seja chamada pelo “lado negro da força”, tem uma capacidade de se levantar muitíssimo maior do que se não tiver azimutes nenhuns.

Isso leva-nos à ideia da criança-rei que se torna o adolescente tirano. As questões que se levantam na adolescência têm sempre a génese na infância?

O narcisismo é a grande doença social de hoje, e há muita gente que não o consegue ultrapassar. É uma fase que a criança começa aos 15 meses, quando já tem uma imensa autonomia e percebe que os outros podem ser manipulados, e passa a agir de acordo com a ideia do “quero tudo já”. Só com limites é que vai perceber que terá de trabalhar para conseguir o que quer. Há depois uma terceira fase, quando percebem que não são deuses e passam à condição humana, em que agradecem não ter tudo, para assim apreciarem melhor a conquista. A liberdade, a verdadeira liberdade, reside na escolha, em ter de escolher.

É por isso que a superproteção leva a excessos?

Claro, porque não se permitem as escolhas. Cada um precisa de saber os seus limites. Muito importante também é estar informado, porque isso pode ajudar a escolha. Reparamos hoje que há overdose de informação mas, ao mesmo tempo, falta de conhecimento. Outro problema deste viver muito fugaz é a falta de sabedoria. Porque a sabedoria exige tempo, reflexão, e esse processo é muito lento, não pode ser tudo no calor do momento. Se queremos tudo já, saber tudo já, isso muitas vezes armadilha-nos.

É isso que acontece com a superproteção: os pais tem a informação mas não têm sabedoria?

Sim. Querem respostas rápidas. Sou o maior fã da tecnologia, mas a forma como a usamos tem de ser adequada. É preciso ainda ouvir outros, porque nem sempre o que nos chega é o todo.

Ouvir relatos e experiências muitas vezes ultrapassa a pura informação. Quantas vezes em manuais se escreve “faça-se assim”, mas depois a experiência diz-nos algo mais. Veja-se os livros de dietas e afins a prometerem “seja feliz em três dias”. Dá-me vontade de rir, porque os próprios títulos matam logo o prazo.

E isso cria ansiedade, claro.

É aquilo a que chamo a “urgentificação de tudo”, e vê-se nas idas às urgências, para resolver qualquer problema. Recebo imensas mensagens e percebo que os pais estejam preocupados, mas em muitos casos é preciso saber esperar.

Hoje, sentimos que, seja o que for que queiramos saber, basta fazer clique.

Temos de aprender a abrandar. Este “quero tudo já” pode estragar tudo e não nos deixa apreciar momentos bons.

É o que, depois, na adolescência leva a uma insatisfação imensa…

É. A geração de jovens de que falo no livro nasceu e cresceu com esta ânsia de comunicação e de estar presente, que muitas vezes funde os fusíveis às pessoas, porque faz com que deixemos de saber conviver com a solidão, e isso é indispensável. A realidade ser tão voraz leva a doenças físicas, ao ataque à nossa imunidade, ao aumento do cancro, tudo também muito relacionado com o nosso modo de vida. Tornámo-nos escravos do telefone e deste modo de estarmos sempre contactáveis. Se não tivermos cuidado, deixamo-nos massacrar, e isso vai levar à falta de espaços privados, nossos. Esta invasão constante do telefone, durante as refeições e em qualquer conversa, é o exemplo maior da má educação. É uma fuga ao momento presente. É também isso que leva ao consumo de droga, que começa por não se saber encarar a realidade, não saber apreciar o que há de bom, subvalorizar o que não corre tão bem. Perante uma realidade que se acha horrível, e sem armas para dar a volta, o nosso desejo é de nos eclipsarmos. Se tivermos ao alcance uma substância, seja droga ou álcool, que nos permite fazê-lo, isso é muito tentador.

Quando é suposto falarmos com os nossos filhos sobre droga?

Não pode ser como antigamente, em que os pais sentavam os filhos e lhes diziam que precisavam de ter uma conversa. Não pode ser assim porque não surte efeito é por isso que sou contra a disciplina de Educação Sexual, porque é ridículo que se trate do assunto à terça-feira, das 11 à uma. Pode aproveitar-se um texto de Língua Portuguesa, ou a estatística, na Matemática, para falar de demografia, ou em Ciências, para falar da nossa biologia, ou em História, que é em si um repositório imenso de casos para todos os gostos. O mesmo se aplica às drogas: pode-se falar em vários momentos. Os pais têm de saber comunicar os filhos e têm de estar informados e não podem ficar-se pelo “Ele, ou ela, não fala comigo”. Tem é de ser numa linguagem que não seja desconfortável para nenhum dos dois, e tem de ser crível.

Podíamos resumir tudo a duas ideias: “Não vale a pena dizer que a droga mata” e “se experimentares é natural que gostes, mas deixa-me falar do resto.” É isso?

Não vale a pena dizer que mata porque, em si, é uma mentira, ou só é verdade a longo prazo. É como os maços de tabaco trazerem inscrito que fumar mata. A frase que mais gosto, mesmo, é “Os fumadores morrem prematuramente”, quando o que devia dizer é “Os fumadores têm maior probabilidade de morrerem prematuramente”. Aí já não há quem possa argumentar com o tio-avô que fumou cinco maços por dia e viveu até aos cem anos. Já é mesmo preciso pensar se quero aumentar a probabilidade de morrer mais cedo. É o mesmo com a droga. Por isso elenquei no livro os efeitos de cada uma e incluí depoimentos que não procuram julgar pessoas quem sou eu para julgar as pessoas? Às vezes, quem caiu naquele buraco pode ser só alguém que não encontrou na sua rede o suporte para dar a volta aos problemas e encontrar a felicidade em outro lado.

É também a forma de lhes dizer que há um dia seguinte, porque, como vivemos na tal voracidade, falamos demasiadas vezes apenas do hoje. Temos de lhes dizer que o que construímos, no amanhã, depende do que acontecer hoje. É essa pedagogia que muitas vezes falta. Quando falo com os meus filhos para cultivarem a excelência, não é pelas notas em si, mas porque ficam mais bem posicionados para, no futuro, poderem escolher à vontade o que querem.

Fala no desporto, no voluntariado, na cultura. Isso também lhes dá ferramentas para lidar com as adversidades?

Dá-lhes uma experiência de vida muito mais variada. Estas atividades, feitas com gozo, libertam endorfinas, que são as nossas morfinas. Pensar que temos essa possibilidade de nos “drogarmos” sem droga, e que a esquecemos… Quem faz desporto, ou se dedica às artes, ou outras atividades, tem uma probabilidade muito menor de cair nas drogas. E isso faz uma diferença abissal.

Que sinais de risco é que a família deve saber reconhecer para pedir ajuda?

É preciso dizer que não é por se encontrar papel de prata no quarto de um filho que se vai concluir que ele anda a queimar heroína. Se calhar, andou apenas a comer uma tablete de chocolate. Temos de ter noção de que os nossos filhos adolescentes precisam do seu espaço e de refletirem sobre a sua vida. Às vezes há pais que falam com uma ansiedade… “Ele/ela vai entrar na adolescência, não é?!”. Costumo dizer que eles não caíram na chaminé, atirados pelo Pai Natal, na véspera. Foram educados por aqueles pais, eles conhecem-nos.

Se fizeram um bom trabalho, podem aceitar esta fase com um mínimo de segurança. Há que acreditar nos filhos, permitir que tenham a sua identidade, e que não pensem exatamente como os pais pensam. Agora, quando o isolamento é exagerado, quando há uma vida seca, amarga, desistente das atividades que são boas, quando as notas caem sem razão aparente (às vezes podem só estar apaixonadíssimos!), aí os pais devem pedir ajuda. E aqui ressalvo: o álcool, e o seu consumo excessivo e prematuro, também é uma droga.

Os consumos dos adultos podem passar mensagens erradas?

Beber um copo por dia, à refeição, não é ter um comportamento de risco.

O problema é o consumo fora de horas, em excesso, e sobretudo para esconder alguma coisa. Uma coisa é beber um copo para acompanhar a refeição, outra é, sozinho, engolir uma garrafa inteira. Falar das coisas com verdade não é torná-las banal. Um pai uma vez disse-me que sentia que não tinha autoridade para falar com os filhos sobre os malefícios do tabaco porque ele também fumava.

Disse-lhe logo que não estava nada de acordo: se a verdade científica é que não faz bem à saúde, se acha que o seu filho não devia fumar, diga-lhe. Diga-lhe até porque começou, mostre-lhe até algumas das suas fraquezas. Queira ou não deixar de fumar, pode na mesma achar que aquilo é errado para o filho e que, se ele o fizer, pode dar cabo da sua saúde. Um pai tem tanta liberdade de escolher como um filho e aí está a dar-lhe armas para escolher. Isso é perfeitamente legítimo.

E isso também se aplica em relação à droga?

Um dos casos que relata no livro é de uma mulher de 50 anos que conta os seus consumos.

Sim, sem dúvida. A essa mulher, as anfetaminas não só lhe permitiam estudar horas a fio, sem dormir, como ainda a faziam emagrecer. Não é por acaso que tinham nomes como Libriu ou Valium, que fazem lembrar liberdade ou valor… Parece que sempre andámos à procura da felicidade sem esforço, não é? Mas digo também que este esforço e trabalho, que é necessário, não devem ser vistos como um calvário, como nos diz a nossa tradição galaico-cristã. Isto não é a via sacra. Trata-se de aprender a gerir a nossa liberdade de escolha. Falamos também muito de litigância (“porque tu não fizeste, não ligaste…”) mas dizemos pouco “gosto de ti”. Precisamos de fazê–lo com urgência, e sobretudo com os nossos filhos, que não são estranhos. Às vezes, o que se passa é que o filho gosta tanto dos pais que, para se diferenciar, arranja um pretexto qualquer para entrar em conflito. Os pais não podem ceder a essa pressão.

 

 

 

“Os nossos filhos podem tornar-se estranhos”

Setembro 18, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista da http://www.paisefilhos.pt/ a Gordon Neufeld no dia 31 de agosto de 2017.

 

Escrito por Elsa Páscoa

Nas últimas décadas, o papel dos adultos enquanto motores de educação e transmissão de valores tem vindo a ser substituído junto das crianças pela influência incontrolada dos seus pares. E as consequências podem ser preocupantes.

O psicólogo clínico canadiano Gordon Neufeld, em entrevista à Pais&filhos, revela de que forma os educadores podem perder o norte, em favor de terceiros. E de que modo são capazes, através de um profundo conhecimento das crianças e dos seus próprios instintos, de resistir à maré que ameaça colocá-los à margem.

A nossa sociedade permitiu o surgimento do fenómeno da orientação das crianças pelos seus pares, em detrimento da orientação da família. Os pais desistiram do seu papel?
Não acredito que os pais devam ser responsabilizados na maior parte dos casos. Penso que é a cultura instalada nas nossas sociedades que deve ser responsabilizada. O papel fundamental das estruturas culturais é o desenvolvimento e a preservação dos vínculos necessários à educação das crianças e à transmissão dos nossos valores. A cultura tem vindo a desempenhar esse papel há milhares de anos. Entretanto, surgiu a revolução industrial e o materialismo dela resultante, a revolução na escola e, hoje, a revolução digital. Estas profundas alterações tiveram reflexos nos costumes, rituais e tradições que tinham como papel manter-nos unidos. Alguns exemplos são as refeições, os passeios, os jogos as reuniões de família. Tudo isto tem vindo a ser substituído por atividades e tecnologias que favorecem a criação de vínculos das crianças umas com as outras. Assim, em vez de viverem na órbita dos adultos responsáveis por elas, muitas crianças gravitam agora em redor de outras crianças e afastam-se da órbita dos pais e dos educadores.

Sem que estes possam fazer alguma coisa?
Cabe-lhes compensar o que a atual cultura não consegue transmitir. Os vínculos não acontecem de forma espontânea. São cultivados nos momentos em que nos deliciamos na companhia uns dos outros, desfrutando a experiência de existirmos na presença dos outros. A menos que assumamos esta missão, criando as tradições que nos permitam permanecer unidos, ficaremos aquém do que desejamos.

Estão os valores, identidade e códigos de conduta das crianças irremediavelmente afastados da influência da família?
Levando em linha de conta que muitas crianças substituíram a família pelos pares e que estes apresentam diferentes valores, é um facto que os nossos filhos podem tornar-se estranhos para nós. As boas notícias são que muitas crianças ainda vivem na órbita dos seus pais, famílias e professores. A má notícia é que este estado de coisas está a mudar e é essa alteração que nos deve preocupar. O problema não é tanto saber se existe uma mistura de influências, mas sim o facto de que as crianças não conseguem ser próximas dos pais e dos pares em simultâneo. É nesse cenário que os vínculos podem entrar em polarização e, frequentemente, as crianças afastam-se da família para procurar vinculação aos seus pares.

A orientação pelos pares é sempre um fenómeno negativo?
Certamente que não. Existe um conjunto de cenários em que a orientação pelos pares pode ser positiva. Por exemplo, todos nós conhecemos casos em que uma criança ou um adolescente foi resgatado da sua família disfuncional pelos amigos. Neste caso, a orientação pelos pares é certamente uma coisa boa. O mesmo acontece quando uma criança é orientada por pares que partilham os valores da família: nestes casos serve mesmo para reforçar o sentido de pertença.

É possível os adultos perceberem quando as desejáveis amizades dos filhos se transformam na indesejável orientação pelos pares?
Habitualmente não é difícil distinguir as situações. As amizades saudáveis permitem à criança ou ao adolescente manifestar a sua personalidade de forma livre. Quando começa a substituir o seu “eu”, por influência do “outro” – a nível de preferências, atitudes, linguagem – então estamos perante orientação por pares, em vez de amizade. Um outro sinal é visível quando a criança já não consegue manifestar vínculos familiares quando está na presença dos seus pares. As ligações com outras crianças não devem ser incompatíveis com a família. As crianças que não são orientadas pelos seus pares desejam que estes e a família tenham pontos de ligação. A situação já não é muito saudável quando estar com os ‘amigos’ leva a que a criança ou o adolescente se afaste dos irmãos, dos pais e dos avós.

Pais, educadores, e até os media, tomaram já consciência de que muitas crianças e jovens estão a ser afastados das famílias?
A orientação pelos pares tem vindo a desenvolver-se. No entanto, os media parecem mais preocupados em transmitir as mensagens que o consumidor quer ouvir do que a verdade.

Como assim?
Por exemplo, os parâmetros de avaliação escolar centram-se agora nas médias obtidas, em vez de valorizar as classificações que era possível obter. Nos dias de hoje, muitos adultos viram-se para os seus próprios pares para receberem orientação de como se comportarem e até de como serem. Tradicionalmente, isso não acontecia: virávamo-nos para os mais velhos, para as tradições, para a religião e mesmo para a ciência. Atualmente, na nossa sociedade obcecada pelos pares, existe uma preocupação avassaladora para ser normal, o que basicamente significa ser igual a toda a gente. A generalização da orientação por pares está na base da cultura popular e é o motor, por exemplo, das indústrias de publicidade e de moda. Até atingiu já o campo da investigação científica. Em muitos estudos sociais e comportamentais, entende-se a norma não como o que poderia ser, ou deveria ser, mas como o que é típico. E qualquer desvio do típico é considerado fora do normal.

Qual é a maior ferramenta que os pais necessitam na educação dos seus filhos? A intuição?
Tradicionalmente, a intuição tem sido a nossa grande ferramenta enquanto pais. Enquanto as estruturas culturais permaneceram intactas e as crianças mantinham vínculos familiares fortes, era possível, na maior parte dos casos, confiar nos nossos instintos. Os nossos antepassados não precisavam de ler livros para saberem o que fazer. O problema com a intuição é de que necessita do contexto para ser utilizada. Quando a nossa cultura nos falha, ou as nossas crianças não estão fortemente vinculadas, perdemos a intuição. É precisamente isto que parece estar a acontecer aos pais um pouco por todo o mundo. A intuição esteve ao serviço de pais e educadores durante milhares de anos, mas hoje estamos a perder acesso a esta importantíssima parte de nós mesmos. O que pode trazer esperança é o facto de ser possível recuperarmos os nossos instintos enquanto educadores.

De que forma?
Através de um profundo conhecimento das nossas crianças. Se as conseguirmos conhecer e compreender de forma profunda e total, recuperamos a intuição que nos é inata. Assumir conscientemente a missão de perceber quem são e como são os nossos filhos não era uma necessidade em sociedades antigas: esse conhecimento era resultado de vínculos quase inquebráveis. Hoje necessitamos de o fazer, para compensar a falta do contexto educativo natural. É por isso que é essencial que as nossas crianças nos façam sentido.

E como é que isso é possível?
Passei toda a vida a tentar que as crianças fizessem sentido – as minhas e as dos outros. Felizmente tive cinco filhos meus e, agora, três netos com os quais pude e posso praticar. E foi assim que desvendei algumas conceções da ciência do desenvolvimento nos campos das teorias da vinculação, vulnerabilidade e maturidade. Nos últimos 40 anos, tenho tentado mover as peças do puzzle, na tentativa de criar uma teoria integrada do desenvolvimento baseado nos esquemas de vinculação, que seja relativamente livre do ‘calão’ e dos termos esotéricos que tendem a ser a grande praga das teorias psicológicas.

Como é que isso se consegue?
Uma boa teoria deve ser acessível, ecoar a intuição e explicar fenómenos que não podem ser entendidos de outra forma. Procuro ajudar outros a verem as suas crianças através destes instrumentos. O maior problema dos dias de hoje é que não estamos a fazer as perguntas certas. Em vez de nos perguntarmos ‘o que estou a ver?’, a perguntarmo-nos ‘o que devo fazer?’ Assim, em vez de discernimento, obtemos estratégias inúteis, pois a vida tende a ser muito mais complexa. Se conseguirmos perguntar ‘o que estou a ver?’, procurando ir para além dos sinais de comportamento, é possível obter progressos.

A uma certa altura das nossas vidas, todos necessitamos de orientação. A educação de uma criança começa no sentido de missão e/ou na confiança dos pais?
Há algo de errado connosco, enquanto pais, se não experimentarmos sentimentos de insegurança perante a perspetiva de criarmos uma criança. Mas se respondermos a essa insegurança procurando respostas em terceiros, acabamos por perder a intuição. Para encontrar a nossa intuição parental, ao invés de procurar as respostas, devemos assumir o papel de sermos a resposta ao nosso filho. Se assumirmos esta atitude, tudo o resto surgirá quando for necessário. O tipo de confiança de que necessitamos enquanto pais não se encontra nos livros. Provém do sentido de que a nossa missão é sermos o pai ou a mãe de que o nosso filho precisa. O sentido de missão e a confiança é tudo para os pais e educadores, mas apenas se podem descobrir. Não se podem ensinar.


O livro que escreveu chama-se “Hold on to your kids – Why parents need to matter more than peers (“Segure os seus filhos – Por que razão os pais devem ter mais importância que os pares”, em tradução livre). Como é que isso se faz?
É necessário fazer os possíveis para preservar o tipo de proximidade que os protege da necessidade de se realizarem fora da família. Os nossos filhos necessitam de nós até à altura em que são maduros o suficiente para procurarem o seu caminho. Como é que seguramos os nossos filhos? Fazendo da nossa relação mútua uma prioridade, não deixando nada ficar entre nós e criando estruturas e rituais que nutram a relação e não ‘namorando’ os nossos competidores.

Os pares e a sua influência?
Certamente. O melhor das relações entre pais e filhos é que nunca é demasiado tarde e existe sempre esperança. A partir do momento em que sabemos por onde começar, habitualmente surgem progressos.

Em Portugal, os valores das famílias encontram-se ainda muito presentes. Uma determinada cultura pode influenciar a orientação por pares?
Com toda a certeza. Apetece-me dizer que vos invejo em Portugal. Neste campo, o vosso país está em muito melhor forma que outras regiões da civilização ocidental. Mas, a menos que determinem o que é realmente importante, correm o risco de perder essa vantagem. A vossa cultura terá agora de sobreviver a uma cultura europeia que sobrepõe os valores materiais aos valores culturais e a uma revolução digital que fomenta os vínculos indesejados com os pares. Para que a vossa cultura sobreviva, os portugueses terão de perceber o que vale a pena segurar.

 

Quem é Gordon Neufeld

Reconhecido psicólogo clínico canadiano, possui longa experiência em questões de família e viu as suas teses reconhecidas internacionalmente após a publicação do livro “Hold on to your kids – Why parents need to matter more than peers”, escrito em parceria com o médico Gabor Maté. Defensor da ideia de que o papel dos pais é insubstituível, procura alertar para a importância de manter vínculos estreitos em todas as fases de crescimento e desenvolvimento das crianças e adolescentes

 

 

10 coisas que devemos dizer aos nossos filhos todos os dias

Setembro 14, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://www.noticiasmagazine.pt/ de 9 de agosto de 2017.

Muitos pais limitam-se a bombardeá-los com ordens o tempo todo, porque o cansaço dos dias não lhes chega para mais, e depois admiram-se de ver os filhos ansiosos, revoltados, sempre do contra. Muitas vezes, dizer a frase certa na altura exata – e querer verdadeiramente ouvir a resposta – pode operar autênticos milagres na dinâmica familiar.

Texto Ana Pago | Fotografias Shutterstock

«Vai-te vestir. Vai lavar os dentes. Vai para a cama. Já viste as horas? Hoje não há tempo para história. Entra no carro e põe o cinto. Não faças barulho que eu quero telefonar. Vê lá se te entreténs um bocado. Estás-me outra vez a chamar? O que é que foi agora?» São muitas as frases que os pais repetem aos filhos no dia-a-dia, alguns fazendo mais disso a regra do que a exceção, mal se apercebendo do poder que têm de ferir com palavras os seres pequeninos que juraram proteger. A boa notícia é que as mesmas palavras que magoam também podem ajudá-los a crescer em amor, se soubermos o que dizer.

Ler o texto completo no link:

http://www.noticiasmagazine.pt/2017/10-coisas-que-devemos-dizer-aos-nossos-filhos-todos-os-dias/

 

Os meus pais não percebem nada

Setembro 11, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Crónica de José Manuel Diogo publicado no dia 24 de agosto de 2017 no http://www.noticiasmagazine.pt/

Crónica de José Manuel Diogo

Um dos maiores desafios para os pais deste milénio é conhecer e compreender a forma como os nossos filhos atingem e gerem o conhecimento. No centro desse desafio estão as redes sociais. No século xx – nesse distante «nosso tempo» –, os instrumentos de comunicação eram lineares e de fácil compreensão, mas hoje tudo é diferente. Antes «uma coisa» era sempre consequência «de outra»; e essa coisa estava quase sempre perto e era conhecida por todos. Não havia surpresa nas novidades.

Antigamente, os filhos aprendiam dos pais porque tinham menor acesso à informação. Hoje não é assim. Os nossos filhos, porque são mais novos, menos ocupados e mais digitais, têm acesso a mais e melhor informação do que os pais. O desafio dos mais velhos é hoje muito maior. Se antes o problema era saber que informação se devia proibir, hoje é preciso saber que mundo devemos conhecer. E neste «jogo» os mais novos levam grande vantagem.

As redes sociais são por excelência o território onde esta batalha se trava. Porque são mais imediatas, rápidas e expõem os nossos filhos a um mundo que nos é desconhecido; mas também porque, paradoxalmente, são o local onde nos encontramos com eles na internet. Por exemplo, o Google é muito mais perigoso do que o Facebook, mas os adultos preocupam-se menos com ele. Talvez porque as hipóteses de encontrar um filho ou uma filha num motor de busca é nula. Já nas redes sociais a coisa não é assim…

Quem tem filhos adolescentes preocupa-se. Perguntamo-nos se eles conseguem ter uma vida normal passando tanto tempo ligados aos amigos. Mas será que são eles que estão viciados na rede, ou seremos nós mais viciados do que eles? Se formos pelo que diz o dicionário – «vício é um efeito pelo qual uma pessoa se afasta do tipo considerado normal» – não parece que as redes sociais preencham o requisito. Antes pelo contrário. Se virmos com atenção, vício aplica-se mais aos adultos que as usam menos para adquirir ou partilhar conhecimentos e amizade e se dedicam a elas como instrumentos de vaidade e fervor voyeurístico.

Os mais novos sabem exatamente para que serve cada uma das redes sociais, como se «mantêm vivas», e qual a recompensa que existe em cada uma. A Kika, de 14 anos, sabe que o que mantém vivo o Snapchat (a rede mais utilizada pelos adolescentes nos EUA) é a regularidade com que contacta cada pessoa – é a rede da Amizade. Que no Instagram o objetivo são os gostos em cada fotografia – é a rede da Vaidade.

Já o Twitter é diferente e «muito fixe» e «serve para encontrar coisas interessantes» – é a rede da Informação. Os adolescentes estão a abandonar o Facebook. Têm-se transferido para o Snapchat e para o Instagram, deixando a rede criada por Mark Zuckerberg para a mais tradicional forma de comunicação: as mensagens de texto.

O nosso maior medo – como educadores – de que os nossos filhos possam estar a falar com um pedófilo, em vez do aparente amigo ou amiga digitais, rapidamente vai perdendo sentido. Eles sabem mais sobre o assunto do que nós, e as próprias redes sociais onde verdadeiramente se conhecem são elas próprias uma cadeia de segurança.

É verdade que as redes sociais são um assunto difícil de compreender, sobretudo pelos adultos, que gostam das coisas organizadas e hierarquizadas, porque nelas tudo está em mudança constante. Mas o que há de novo? Não foi sempre assim quando a tecnologia mudou a vida das pessoas? É tão difícil, hoje, aceitar as redes sociais como no fim do século xviii foi compreender o caminho-de-ferro. Há 160 anos, quando o comboio chegou a Portugal, houve quem dissesse, e escrevesse, que viajar à espantosa velocidade de 40 km/h até podia causar descolamento da retina.

Leia a reportagem sobre o crescimento do Instragram aqui.

José Manuel Diogo, autor e colunista, Especialista em media intelligence, informação e comunicação, é autor de uma biografia de Steve Jobs, iMe, a Vida de Steve Jobs. Escreve no Jornal de Notícias e no Diário de Coimbra.

 

 

Filhos teimosos? Nem sabe a sorte que tem

Setembro 11, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Açoriano Oriental de 27 de agosto de 2017.

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Tem um adolescente em casa? Ajude-o a gerir os erros

Setembro 3, 2017 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do http://www.noticiasmagazine.pt/ de 18 de agosto de 2017.

São novos, não pensam, tomam decisões precipitadas, esbarram com as consequências, pedem ajuda (quando pedem). Os pais são para todas as ocasiões e ensinar e ajudar a gerir erros na adolescência é uma tarefa difícil. Rita Castanheira Alves, psicóloga clínica infanto-juvenil, dá algumas dicas no seu livro «Adolescência – Os Anos da Mudança».

Texto de Sara Dias Oliveira

Gerem mal o tempo de estudo, estão confiantes que basta ouvir o que se diz nas aulas, que não é preciso abrir os livros em casa, e as negativas aparecem na pauta. Os amigos da sua idade já bebem e fumam como os adultos e por que não fazer como eles para ser bem aceite no grupo?

Há festa em casa de um amigo, pedem para chegar um pouco mais tarde, abusam do horário, chegam bem mais tarde do que a hora combinada. Chegam a casa com um piercing ou uma tatuagem e nem sequer se preocuparam com as condições de higiene e de segurança. Um amigo mais velho dá um toque num outro carro, estraga a viatura, e ninguém diz nada, ninguém se acusa.

Ajudar a gerir erros na adolescência? É complicado, mas essencial. Até porque, por vezes, os adolescentes tomam decisões imaturas e ficam mais preocupados com a reação dos adultos do que com os danos do erro.

Os pais não querem que os filhos cometam erros, sobretudo os que têm consequências graves e prolongadas no tempo. Prevenir é importante, fazer um trabalho consistente também, e nunca se pode esquecer a comunicação positiva, frequente e saudável.

Ralhar é a primeira vontade dos pais, sobretudo quando o erro é descoberto sem qualquer aviso, como uma má surpresa. Podem estar a ferver por dentro, mas é preciso manter a calma.

«Numa atitude consciente e de autorreflexão, tente perceber se o erro em questão pode relacionar-se com a forma como se relaciona com o seu filho, como o vê, como comunicam ou como gere as regras, limites e direitos e potencia a autonomia do seu filho», sugere Rita Castanheira Alves, psicóloga clínica infantojuvenil, no seu livro Adolescência – Os Anos da Mudança. Depois disso, é preciso ser adulto, reprovar o erro, mas sem qualquer descontrolo.

«A gestão do erro é também um jogo de experiências, em que o adulto poderá, com o devido controlo e avaliação prévia de riscos, permitir que certos erros menores sejam cometidos pelo adolescente, como forma de aprendizagem e crescimento. Deixar errar pontualmente e de forma controlada é uma oportunidade para o adolescente crescer com a ideia de que não há sempre algo externo ou alguém que o irá ‘salvar’, e que ele tem responsabilidade na gestão e na tomada das suas decisões», diz a psicóloga clínica. Como, por exemplo, permitir que durante uma semana se deite à hora que quiser e que tenha de lidar com o sono nos dias seguintes nas aulas.

Errar é humano e os pais têm um papel muito importante para que os adolescentes percebam que há decisões que devem ser bem ponderadas e analisadas.

 

 

 

Como obter a cooperação das crianças em 4 passos

Agosto 29, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://uptokids.pt/ de 17 de agosto de 2017.

“Quando saio do trabalho ainda tenho que arranjar paciência para os miúdos”. Ouvi esta frase à mesa, durante um jantar com amigos. O desabafo era de uma mãe, cansada da rotina diária casa-emprego e frustrada por não conseguir tem disponibilidade mental para os dois filhos.

Se perguntarmos aos pais sobre se os filhos são para eles a prioridade, a maioria responderá que sim. Que são a sua prioridade máxima. Só que, na prática, não é isso que acontece. Muitas vezes sem nos apercebermos, é no trabalho e nas preocupações do dia a dia que gastamos a maior parte da nossa energia. E os nossos filhos? Ficam, tantas vezes, em segundo plano. Levam com as nossas frustrações e angústias. Com o autoritarismo de quem quer ter tudo sob controle. Ou com a permissividade de quem não está para se chatear.

É possível fazer diferente?

Sim, é possível. É possível educar sem que a vergonha, os sentimentos de culpa ou a dor (física ou emocional) façam parte do léxico familiar. É possível educar pela positiva, evitando modelos extremos de controlo ou permissividade mas utilizando firmeza e amabilidade ao mesmo tempo, apelando ao respeito mútuo e à cooperação, como bases para ensinar habilidades para a vida, responsabilidade e autocontrolo.

Cabe aos pais criarem as condições para que os filhos aprendam a ser autónomos, cooperantes e responsáveis. No caso da responsabilidade, esta deve ser vista em relação direta com os privilégios de que dispõem. Sem prémios ou castigos. Caso contrário, como diz Jane Nelsen, co-fundadora da Disciplina Positiva, as crianças “não serão mais do que meros receptores, dependentes, e sentirão que a única forma de sentirem que pertencem a algo ou que são importantes para alguém é manipulando os outros”. 

Dicas úteis para obter ajuda dos miúdos

Eis os 4 passos para obter a cooperação das crianças, segundo os princípios de Disciplina Positiva:

1.Expressar compreensão pelos sentimentos.

Escutar em vez de ouvir, mostrar que se percebe aquilo que a criança está a sentir, mesmo que não se concorde com a atuação.

2.Mostrar empatia sem condenar.

Não significa estar de acordo, apenas que compreende a perceção da criança. Dica: pode, por exemplo, partilhar uma situação em que se sentiu da mesma forma que o seu filho, que se identificará com ela.

3.Compartilhar os seus sentimentos e perceções.

Muitos pais evitam mostrar ou dizer como se sentem aos filhos, acham que isso é sinal de fragilidade. Não é. Pelo contrário, reforça a empatia e conexão. Afinal, todos somos humanos, erramos. E os erros são magníficas formas de aprender

4.Convidar a criança a focar-se na solução.

Pergunte-lhe se tem alguma ideia do que fazer no futuro para evitar que o problema se repita ou para melhorar/resolvê-lo. Se a criança não tem nenhuma, faça sugestões até que cheguem a um acordo, que respeite ambos.

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