Sincronizar ondas cerebrais entre pais e bebé é possível

Dezembro 15, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do http://kids.pplware.sapo.pt/ de 4 de dezembro de 2017.

Criado por Célia Simões

Comunicar com um bebé não é tarefa fácil. Até que comece a falar, a forma mais usada para se expressar é chorar e decifrar os vários tipos de choro é um desafio para os pais. Mas já nessa fase existe comunicação entre eles.

Atividade cerebral entre pais e bebé

Uma pesquisa efetuada pela Universidade de Cambridge, no Reino Unido, mostra que, através da sincronização das ondas cerebrais, ao existir contacto visual entre o adulto e a criança, é possível melhorar a comunicação entre eles e até, acelerar a aprendizagem.

A comunicação entre pais e bebé é uma fase muito importante. Embora possa parecer que o bebé não entende nada do que os pais lhe dizem, a verdade é que durante esse tempo está a haver interação entre eles.

O olhar, as emoções e os batimentos cardíacos são comportamentos que se sincronizam no decorrer dessa interação. Quando os pais falam para o bebé este fica extremamente atento e parece até que também quer falar.

Investigadores da Universidade Tecnológica de Nanyang, em Cingapura e da Universidade de East London, no Reino Unido, fizeram uma pesquisa mais aprofundada sobre a sincronização das ondas cerebrais na interação de pais e bebé.

Ondas cerebrais em sintonia

A atividade cerebral entre adultos já foi estudada, e esses estudos demonstraram que, quando dois adultos estão a conversar, a comunicação entre eles é mais eficaz se as suas ondas cerebrais estiverem em sintonia.

As ondas cerebrais refletem a atividade de diversos grupos de milhões de neurónios que estão envolvidos na transferência de informações entre as várias regiões do cérebro.

Neste novo estudo, os investigadores realizaram um teste com a finalidade de descobrir se os bebés conseguem sincronizar as suas ondas cerebrais com as dos adultos. E de que forma o contacto visual pode ou não influenciar essa sincronização.

Os padrões de ondas cerebrais de 36 crianças foram examinados, 17 numa primeira fase e as restantes 19 numa segunda. Para isso foi usada a eletroencefalografia. O estudo foi feito com o adulto a cantar canções infantis para o bebé.

Estudo comprovado

Na primeira fase, os adultos cantaram para os bebés, mas não ao vivo (o padrão das ondas cerebrais dos adultos foi gravado). Através de um vídeo, a criança estabeleceu contacto visual com a imagem, mas nem sempre. Por vezes o adulto desviava o olhar.

Tal como previsto, neste registo, ficou provado que as ondas cerebrais dos bebés estavam mais sincronizadas com as do adulto quando o olhar dos dois se encontrava.

Na segunda fase, o adulto cantou presencialmente para o bebé, olhando diretamente para ele, mesmo que, evitando por vezes o olhar. Desta vez as ondas cerebrais de ambos foram monitorizadas ao vivo de forma a entender-se se os padrões eram influenciados pelo olhar um do outro.

Aqui, tanto o bebé como o adulto, ficaram mais sincronizados com a atividade cerebral um do outro, quando foi estabelecido contacto visual mútuo. Isso aconteceu mesmo quando os adultos, embora tendo oportunidade de estabelecer contacto visual com os bebés, não o fizessem. Os bebés mostraram interesse pelo adulto mesmo quando o adulto evitava o olhar.

No final ficou concluído que a sincronização de ondas cerebrais não se deve apenas ao contacto visual, mas que o facto, de estar presente, da intenção compartilhada de comunicar é um fator de enorme peso.

mais informações na notícia da University of Cambridge:

Eye contact with your baby helps synchronise your brainwaves

 

 

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Adolescentes: chegou a altura de os deixar sair à noite (mas com regras…)

Dezembro 13, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do https://www.noticiasmagazine.pt/ de 2 de novembro de 2017.

Agressões, álcool, drogas, acidentes, sexo, sexo desprotegido… Os medos dos pais com as saídas dos filhos à noite é tão natural como o desejo de autonomia dos mais novos. A solução para os deixar crescer sem estar sempre de coração nas mãos passa por três pilares: diálogo, negociação e regras.

Leia também: Os seus filhos querem sair à noite? 5 conselhos práticos

Guilherme tem 17 anos e começou a sair à noite neste ano, depois de muito desafiado pelos amigos. A irmã, Margarida, com 14, já sai e adorava sair mais. «Ele não gosta de confusão, prefere ir a um bar, conversar com os amigos e jogar snooker», diz a mãe. «Ela é afoita e aventureira. Adora dançar.»

Com o Guilherme, as horas de chegada são negociadas caso a caso – chegou uma vez às seis da manhã, no aniversário da prima. Com a irmã as coisas ainda são diferentes. «Não sai à noite sem o irmão e vamos buscá-la sempre à meia-noite. Ainda não é negociável.

Mas às vezes vai dormir a casa das amigas ou elas vêm dormir cá a casa. Assim eu também as vou conhecendo e às famílias.» A diferença nas regras não se deve ao género. Deve-se, sustenta Joana Miranda, 36 anos, à diferença de idades e respetiva maturidade. Não há pediatra ou psicólogo que não diga o mesmo: sair ou não sair não tem que ver só com a idade, mas com a responsabilidade e a preparação de cada adolescente.

Os filhos reivindicam autonomia, os pais percebem até que ponto eles estão preparados para a ter. Sempre foi assim, sempre será. Uma avaliação que o psicólogo Vítor Rodrigues defende que só é possível «cultivando um relacionamento próximo e de respeito mútuo», no qual é essencial os pais enfrentarem os seus próprios receios e irem dando autonomia aos filhos. O especialista garante que muitos dos medos dos pais nascem do facto de eles se projetarem nos filhos. «Receiam, no fundo, que os filhos façam igual ou pior do eles mesmos fizeram. Isso é normal, mas não deve ser um entrave à autonomia.»

Em casa de Joana Miranda, as experiências dos pais, em vez de serem parte do problema, são parte da solução. Fala-se de tudo abertamente e o tema «saídas» foi sendo preparado ao longo dos anos. Ela e o marido, David Soalhães, contam com frequência as próprias peripécias nas saídas noturnas quando eram mais novos e perguntam aos filhos como reagiriam se fosse com eles.

Muitos dos exemplos que contam e perguntas que fazem estão relacionados com uma regra de ouro: evitar confrontos com pessoas alcoolizadas ou que procuram problemas. «Nunca sabemos quem está do outro lado e não vale a pena armarmo-nos em heróis», diz Joana. «Uma vez, numa noite, quando era adolescente, fui abordada na casa de banho por um grupo de raparigas que queriam arranjar confusão. Fiz por fugir dali o mais rapidamente possível. Perguntei aos meus filhos o que fariam no meu lugar. O Guilherme disse que tentaria fugir ou avisar alguém cá fora. A Margarida disse que não saberia o que fazer.»

A questão das drogas nas bebidas, que também preocupa hoje muitos pais, foi outra das que foram abordadas: o mais velho disse que se devia andar com a bebida sempre atrás, a mais nova não sabia que tal coisa existia. Razões, entre outras, para a mãe perceber que com Joana ainda tem de haver muita prudência, com Guilherme pode estar mais descansada.

Esta aproximação de experiências e pais que definem regras mas não proíbem é uma tendência. «As gerações que têm filhos adolescentes são mais flexíveis do que as anteriores. Intuem mais facilmente que regras e prisão são coisas diferentes», diz o psicoterapeuta Nuno C. Sousa. «É frequente que sejam os próprios pais a começar a levar os filhos a saídas noturnas. É uma aproximação de gerações muito construtiva, desde que não se percam os papéis na relação.» Até porque, como lembra, um objetivo pode ser alcançado por vários caminhos. «Se os pais pretendem incutir responsabilidade, será mais fácil através de uma relação de cumplicidade, porque os filhos sentirão uma verdadeira preocupação e não uma imposição de regras para chatear.»

Joana tem uma relação próxima, aberta e de diálogo, mas não deixa que os filhos se esqueçam quem é a mãe lá em casa. Há várias regras e são para ser cumpridas: o álcool não está permitido, as horas de chegada são bem estabelecidas e eles sabem que os pais devem sempre saber onde estão e com quem. Tem tudo corrido bem, mas talvez Joana Miranda tenha uma coisa a seu favor: a formação em coaching, com especialização em educação parental. Claro que isso não a deixa imune a preocupações, mas mais bem preparada para lidar com elas. E a principal preocupação são os excessos.

«O álcool, as drogas e o facto de saber que os adolescentes, quando em grupo, por vezes gostam de se mostrar. Fico preocupada, mas confio neles.» Aquilo que diz para dentro de si mesma é o mesmo que diz aos pais com quem trabalha: «Não se pode pura e simplesmente proibir só porque se sente medo. Faz parte do desenvolvimento deles e proibir é sempre o caminho mais penoso e o que vai gerar maiores confrontos.» Além da confiança nos filhos, a atenuar as preocupações está também está o facto de conhecer os amigos e os pais dos amigos, uma medida que também recomenda a todos os pais.

As preocupações dos pais não estão só nas cabeças deles. Vários estudos – e o senso comum – estabelecem uma associação entre saídas para sítios de diversão noturna e o consumo de tabaco, álcool e drogas. E é por isso que a maturidade dos adolescentes deve ser avaliada. É a única arma que têm para se defender dos riscos que as saídas à noite podem comportar.

A outra parte da história, da qual os pais falam menos, é o sexo. «É natural que na adolescência a ênfase na sexualidade e o despertar do instinto sexual façam recear que os nossos filhos se precipitem em relacionamentos de risco físico e afetivo», diz o psicólogo Vítor Rodrigues. «Os pais sabem que muito disso lhes escapa ao controlo e temem o que é mais difícil de controlar.»

Apesar de tudo, há uma forma de controlo e um tranquilizador que pais de hoje têm ao dispor: o telemóvel. Agora podem telefonar se estiverem preocupados, em vez de ficarem a agonizar no sofá ou a dar voltas na cama. «Apesar de ser um facilitador, não deve ser uma desculpa para estarem constantemente a pedir relatórios do que andam os filhos a fazer», alerta o psicoterapeuta Nuno C. Sousa.

«O segredo está numa negociação prévia equilibrada, que deve ser cumprida por ambas as partes. Determinadas as regras, é extremamente importante que os filhos sintam que há confiança por parte dos pais.» Que é como quem diz: não é para abusar. Se combinou com o adolescente que ele envia um sms às três da manhã, não vale enviar-lhe dois ou três a pedir novidades antes dessa hora, como também não vale ligar-lhe meia hora antes da hora marcada para estar em casa. As regras são para todos.

Para um adolescente, sair à noite ao fim de semana não se resume ao período entre o momento em que sai de casa e o momento em que entra. São as combinações que começam a meio da semana, em que se discutem os sítios onde ir, os amigos que se vão encontrar, as dezenas de mensagem trocadas para saber se o João ou a Catarina também vão lá estar, escolher a roupa para levar, etc. É um ritual – que não tem só problemas, riscos e perigos, também tem benefícios.

«Durante a adolescência a formação da personalidade está intimamente ligada às relações dos jovens com os pares», diz o psicoterapeuta Nuno C. Sousa. «Através do contacto com pessoas diferentes, em contextos diversos, o adolescente vai ganhando consciência do que gosta de fazer, como e com quem. Nas saídas à noite alarga-se a rede de conhecimentos além dos amigos da escola, num contexto em que o tempo de convívio não está limitado pela campainha dos intervalos.»

E depois, mais do que olhar para a questão pela ótica dos riscos e dos benefícios, há que vê-lo como uma inevitabilidade. «Na adolescência estamos a transitar de crianças para adultos e precisamos de desenvolver a nossa identidade. Para isso, temos de sentir e experimentar, não creio que exista outra via», diz o psicólogo Vítor Rodrigues.

Claro que nem sempre isso acontece sem sobressaltos e a tarefa dos pais não é fácil. Ainda assim, a «ditadura benévola» que resulta nas crianças pode ser uma péssima medida, geradora de muita revolta, na adolescência. «A transição para a democracia no lar costuma ser mais útil. Os adolescentes precisam de sentir que têm direito de voto.»

O psicólogo sabe do que fala: tem uma filha adolescente em casa e aquilo que aconselha na teoria é aquilo que também tem feito na prática, um equilíbrio entre respeito e vigilância: «Estar atento, acompanhá-la, combinar horas e lugares de encontro, ir percebendo quais os problemas que pode estar a atravessar e como posso contribuir para que encontre os materiais de que precisa para se autoesculpir.»

COMO AVALIAR O SENTIDO DE RESPONSABILIDADE DOS FILHOS?

  • Estar atento à maturidade que evidenciam a nível afetivo, social, sexual e intelectual.
  • Verificar se manifestam preferência por dizer a verdade, em vez de optarem pela mentira fácil.
  • Perceber se compreendem os riscos envolvidos nas saídas noturnas e avaliar a capacidade que têm para lidar com eles.
  • Não esquecer que todas estas capacidades dos filhos dependem muito do papel dos pais enquanto educadores.
  • Perceber até que ponto assumem responsabilidade pelos seus atos.
  • Avaliar se se mostram capazes de relativizar afetos e acontecimentos.

FONTE: VÍTOR RODRIGUES, PSICOTERAPEUTA

 

 

 

A geração “floco de neve”: pessoas sensíveis que se ofendem por tudo

Dezembro 8, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto da http://www.revistapazes.com/ de 7 de novembro de 2017.

Quando imaginamos um floco de neve, nós o associamos à beleza e singularidade, mas também à sua enorme vulnerabilidade e fragilidade. Estas são precisamente duas das características que definem as pessoas que atingiram a idade adulta na década de 2010. Afirma-se que a geração “floco de neve” seja formada por pessoas extremamente sensíveis aos pontos de vista que desafiam sua visão do mundo e que respondem com uma suscetibilidade excessiva às menores queixas, com pouca resiliência.

A voz de alarme, por assim dizer, foi dada por alguns professores de universidades como Yale, Oxford e Cambridge, que notaram que a nova geração de alunos que frequentavam suas aulas era particularmente suscetível, não tolerante à frustração e particularmente inclinados fazerem uma tempestade em um copo de água.

Cada geração reflete a sociedade que eles viveram

Dizem que as crianças saem mais ao padrão da sua geração que aos pais. Não há dúvida de que, para entender a personalidade e o comportamento de alguém, é impossível abstrair do relacionamento que estabeleceu com seus pais durante a infância e a adolescência, mas também é verdade que os padrões e expectativas sociais também desempenham um papel importante no estilo educacional e moldam algumas características de personalidade. Em resumo, podemos dizer que a sociedade é a terra onde a semente é plantada e crescida e os pais são os jardineiros que são responsáveis por fazer crescer.

Isso não significa que todas as pessoas de uma geração respondam ao mesmo padrão, felizmente há sempre diferenças individuais. No entanto, não se pode negar que as diferentes gerações têm metas, sonhos e formas de comportamento característico que são o resultado das circunstâncias que tiveram que viver e, em alguns casos, tornam-se inimagináveis em outras gerações.
Claro, o mais importante é não colocar rótulos, mas analisemos para entender o que está na base desse fenômeno, para não repetir os erros e para que possamos dar a devida importância a habidades de vida tão importantes quanto a Inteligência Emocional e a resiliência.

3 erros educacionais colossais que criaram a geração “floco de neve”

  1. Sobreprotecção. A extrema vulnerabilidade e escassa resiliência desta geração têm suas origens na educação. Estes são, geralmente, crianças que foram criadas por pais superprotetores, dispostos a pavimentar o caminho e resolver o menor problema. Como resultado, essas crianças não teve a oportunidade de enfrentar as dificuldades e conflitos do mundo real e desenvolver tolerância à frustração, ou resiliência. Não devemos esquecer que uma dose de proteção é necessária para que as crianças cresçam em um ambiente seguro, mas quando impede que explorem o mundo e limite seu potencial, essa proteção se torna prejudicial.
  2. Sentido exagerado de “eu”. Outra característica que define a educação recebida pelas pessoas da geração “floco de neve” é que seus pais os fizeram sentir muito especiais e únicos. Claro, somos todos únicos, e não é ruim estar ciente disso, mas também devemos lembrar que essa singularidade não nos dá direitos especiais sobre os outros, já que somos todos tão únicos quanto os outros. O sentido exagerado de “eu” pode dar origem ao egocentrismo e à crença de que não é necessário tentar muito, uma vez que, afinal, somos especiais e garantimos o sucesso. Quando percebemos que este não é o caso e que temos que trabalhar muito para conseguir o que queremos, perdemos os pontos de referência que nos guiaram até esse momento. Então começamos a ver o mundo hostil e ameaçador, assumindo uma atitude de vitimização.
  3. Insegurança e catástrofe. Uma das características mais distintivas da geração do floco de neve é que eles exigem a criação de “espaços seguros”. No entanto, é curioso que essas pessoas tenham crescido em um ambiente social particularmente estável e seguro, em comparação com seus pais e avós, mas em vez de se sentir confiante e confiante, temem. Esse medo é causado pela falta de habilidades para enfrentar o mundo, pela educação excessivamente superprotetiva que receberam e que os ensinou a ver possíveis abusos em qualquer ação e a superestimar eventos negativos transformando-os em catástrofes. Isso os leva a desejarem se bloquear em uma bolha de vidro, para criar uma zona de conforto limitado onde eles se sintam seguros.

Para entender melhor como a educação recebida afeta uma criança, é importante ter em mente que as crianças procuram pontos de referência em adultos para processar muitas das experiências que experimentam. Isso significa que uma cultura paranóica, que vê abusos e traumas por trás de qualquer ato e responde com sobreproteção, gerará efetivamente crianças traumatizadas. A forma como os adultos enfrentam uma situação particularmente delicada para a criança, como um caso de abuso escolar, pode fazer a diferença, levando a uma criança que consegue superar e se torna resiliente ou uma criança que fica com medo e torna-se uma criança vítima

Qual é o resultado?

O resultado de um estilo de parentesco superprotetivo, que vê o perigo em todos os lugares e promove um sentido exagerado de “eu”, são pessoas que não possuem as habilidades necessárias para enfrentar o mundo real.

Essas pessoas não desenvolveram tolerância suficiente à frustração, então o menor obstáculo os desencoraja. Nem desenvolveu uma Inteligência emocional adequada, então eles não sabem como lidar com as emoções negativas que certas situações suscitam.

Como resultado, eles se tornam mais rígidos, se sentem ofendidos por diferentes opiniões e preferem criar “espaços seguros”, onde tudo coincide com suas expectativas. Essas pessoas são hipersensíveis à crítica e, em geral, a todas as coisas que não se encaixam na visão do mundo.

Também são mais propensos a adotar o papel das vítimas, considerando que estão todos contra ou equivocados. Desta forma, eles desenvolvem um local de controle externo, colocando a responsabilidade sobre os outros, em vez de se encarregar de suas vidas e mudar o que podem mudar.

O resultado também é que essas pessoas são muito mais vulneráveis ao desenvolvimento de transtornos psicológicos, do estresse pós-traumático à ansiedade e à depressão. Na verdade, não é estranho que o número de transtornos de humor aumente ano após ano.

Fonte:
Mistler, BJ et. Al. (2012) The Association for University and College Counseling Center Directors Annual Survey Reporting. Pesquisa do AUCCCD ; 1-188

Este artigo foi publicado originariamente no site Rincón Psicología e fora livremente adaptado pela equipe da Revista Pazes.

Créditos da foto de capa: Andrew Robles
@andrewroblesphoto/unsplash.com

 

 

 

Afinal os adolescentes têm razão quando dizem que ninguém os percebe, diz esta neurocientista

Dezembro 5, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Blakemore é professora de Neurociências Cognitivas na UCL (University College London)

Notícia do http://observador.pt/ de 18 de novembro de 2017.

A sociedade não os entende: diaboliza e espera muito dos adolescentes, sem ter em conta que há comportamentos que fazem parte do desenvolvimento cerebral. Palavra de uma neurocientista britânica.

Encontramo-nos com Sarah-Jayne Blakemore numa manhã chuvosa de novembro. É no lobby do hotel que conversamos com ela sobre o quanto pressionamos e até subestimamos os adolescentes. Afinal, eles podem ter razão quando dizem que ninguém os compreende. Nada é ao acaso: Blakemore é professora de Neurociências Cognitivas na UCL (University College London) e há anos que se dedica ao estudo do desenvolvimento da cognição social e da tomada de decisões no cérebro do adolescente.

Ao Observador, fala abertamente sobre como a sociedade — pais e professores incluídos — esperam muitos dos adolescentes, uma vez que o desenvolvimento do cérebro, que continua bem depois da infância, ajuda a explicar muitos dos comportamentos associados a este período. A neurocientista, que esteve em Portugal a convite da Fundação Francisco Manuel dos Santos, afirma ainda que as escolas deviam adaptar-se à condição particular da adolescência e não o contrário.

“Até há pouco tempo as pessoas não compreendiam bem os adolescentes e até os culpavam, mas isto é apenas parte de um estágio de desenvolvimento natural, adaptativo e inevitável. É um pouco estranho que diabolizemos os adolescentes.”

Já o disse antes numa entrevista: os adolescentes terão alguma razão quando dizem que ninguém os entende porque têm, de facto, dificuldade em ver outras perspetivas que não a deles. É isso?
Sim. Interessa-me muito a forma como nós entendemos as mentes das outras pessoas e as interações sociais. Há muitos estudos de desenvolvimento psicológico que se debruçam sobre aquilo a que chamamos “teoria da mente” [“mentalizing” ou “theory of mind”, em inglês] nos primeiros anos de vida, mas há muito poucos estudos feitos depois da infância. Descobrimos um exercício que aborda a questão da perspetiva durante a adolescência, que nos obriga a ter em conta a perspetiva da outra pessoa de maneira a tomar a decisão correta; descobrimos que a habilidade de ter em conta a perspetiva do outro ainda está em desenvolvimento durante a adolescência. Mas o importante a dizer sobre isto é que até os adultos nos nossos estudos — e noutros estudos que usam este exercício — consideram este exercício muito difícil. Sim, são melhores do que os adolescentes, mas falham quase 50% das vezes. É difícil para nós, humanos, termos em conta a perspetivas dos outros. É surpreendentemente difícil.

Então não é uma questão de idade?
É uma questão de idade. Nós melhoramos com a idade, mas mesmo nos nossos 20-30 anos ainda não somos bons. Nós somos egocêntricos, a nossa perspetiva egocêntrica interfere.

Somos egocêntricos, mas não egoístas?
Não é uma questão de sermos egoístas. É vermos o mundo do nosso ponto de vista. É preciso um esforço para vermos as coisas pela perspetiva do outro.

Numa conferência TED referiu que os comportamentos da adolescência há muito que são retratados na história. Há quem pense que a adolescência é um fenómeno novo?
Sim, há quem pense. A palavra “adolescência”, que serve para descrever este grupo etário, foi usada pela primeira vez há cerca de 100 anos, nos Estados Unidos da América. Muitas culturas não têm nome para este período de desenvolvimento porque não o encaram como tal — as crianças passam, de repente, da infância para a fase adulta. Há expetativas sociais muito diferentes face a este grupo etário, pelo que há quem argumente que não existe adolescência, que é algo que nós, no ocidente, permitimos que as crianças tenham, como se fosse uma coisa que não é real. Nós defendemos que é real, que é um período único de desenvolvimento biológico, psicológico e social que podemos constatar através da história e de diferentes culturas — até o podemos constatar tendo em conta diferentes espécies. Os ratos, por exemplo, passam pela adolescência entre a puberdade e a maturidade sexual — são 20 ou 30 dias de adolescência, mas conseguimos ver comportamentos típicos naqueles dias.

Que tipo de comportamentos associados à adolescência podem ser explicados pelo desenvolvimento cerebral?
O cérebro desenvolve-se praticamente todo no período da adolescência, particularmente o córtex. É difícil de dizer como é que isso se associa especificamente ao comportamento, sobretudo porque é tudo correlacional. Todos estes estudos têm por base correlações. Vemos mudanças no comportamento e, ao mesmo tempo, mudanças no cérebro. Não sei o que é que causa o quê, na verdade. É o problema desta área de investigação, neurociência cognitiva, porque é tudo correlacional. Ainda não é possível dizer que determinada mudança no cérebro explica definitivamente determinado comportamento na adolescência, mas existe muita pesquisa feita que mostra mudanças correlacionais no cérebro durante exercícios que envolvem o ato de correr riscos e/ou pressão de pares, em que decisões são influenciadas ou tomadas na presença de amigos. Estas coisas mudam durante a adolescência.

A atividade do sistema límbico muda com a idade. O que descobrimos é que o sistema límbico está mais “desperto” a recompensas durante a adolescência, pelo que responde mais a esses estímulos, em particular a exercícios em que exista algum risco. Se estivermos a jogar por dinheiro, por exemplo, temos um nível mais elevado de atividade no sistema límbico — mais na adolescência do que na fase adulta. Isso pode ser uma explicação sobre o motivo por que os adolescentes gostam de correr riscos, uma vez que poderão estar a receber maiores sensações de recompensa. Ao mesmo tempo, o córtex pré-frontal, que inibe a tomada de decisões de risco e nos impede de fazer coisas consideradas inapropriadas ou arriscadas, ainda está em desenvolvimento, ainda não amadureceu. Esta é uma explicação que atualmente é controversa. É controversa por diversas razões mas, do meu ponto de vista, o motivo principal é que há grandes diferenças individuais em tudo. É difícil generalizar.

Há cerca de 20 anos, pensava-se que o cérebro só se desenvolvia nos primeiros anos de vida. Afinal, não é bem assim…
Até há 20 anos assumíamos que o cérebro parava de se desenvolver numa certa altura durante a infância. Foi isso que me ensinaram na universidade e era o que o meu manual de estudo dizia. Isso acontecia porque não tínhamos a tecnologia necessária para ver dentro do cérebro. Na verdade, não sabíamos nada sobre o desenvolvimento do cérebro humano. A ideia de que o cérebro parava de se desenvolver particularmente cedo era apenas uma suposição. Nos últimos 20 anos fomos capazes de scanear o cérebro humano através de MRI (imagem por ressonância magnética). Muitos grupos em todo o mundo utilizaram este método para, ao analisar cérebros de diferentes idades, perceber como é que este órgão se desenvolve em termos de estrutura e função. O que todos esses estudos mostram é que o cérebro humano não deixa de evoluir na infância, continua a fazê-lo em termos de estrutura e função durante a adolescência e até aos 20 anos (até aos 30 anos em algumas regiões do cérebro).

O que é que isto significa?
Acho que nos dá uma explicação adicional sobre o porquê deste período da vida, a adolescência, representar uma mudança de desenvolvimento tão grande, ao nível comportamental e psicológico. Os comportamentos que associamos à adolescência — como o ato de correr riscos, a pressão dos pares ou a impulsividade — existem desde sempre. Podemos encontrar exemplos desses comportamentos na Grécia antiga, através de Platão, sendo que até Shakespeare escreveu sobre isso. Existem desde sempre, na história. Esses comportamentos, a que chamamos comportamentos típicos da adolescência, foram explicados por mudanças hormonais na puberdade e por mudanças socais. Agora sabemos que é uma parte muito natural e adaptativa do desenvolvimento cerebral, mas também das mudanças hormonais e sociais.

Tendo em conta que o desenvolvimento cerebral pode variar de cultura para cultura, o que é que sabem até agora que possa ser válido para a cultura ocidental?
Tudo o que sabemos sobre desenvolvimento cerebral provém de cérebros de adolescentes americanos e europeus. Acho que todos os cientistas que trabalham nesta área assumem que o cérebro se desenvolve [de formal igual] em todos os adolescentes em todo o mundo. Seria muito estranho se assim não fosse, mesmo que numa determinada cultura as expetativas sociais para com os adolescentes sejam muito diferentes da nossa… O que acontece é que, à partida, haverá diferenças subtis, não serão diferenças assim tão grandes. Essa é a minha previsão. Mas certamente que vão existir diferenças subtis, até porque o ambiente na infância e na adolescência tem uma influência subtil na forma como o cérebro se desenvolve.

Acha que a sociedade é dura com os adolescentes?
Sim, acho que os adolescentes passam um mau bocado. Em parte, acho que isso acontece porque eles comportam-se de forma diferente e mudam muito desde a infância. Até há pouco tempo as pessoas não compreendiam bem os adolescentes e até os culpavam, mas isto é apenas parte de um estágio de desenvolvimento natural, adaptativo e inevitável. É um pouco estranho que diabolizemos os adolescentes.

Já disse que os professores deveriam ter noções básicas de neurociência. Também acha que as escolas são duras com os adolescentes? Acha que as escolas deveriam estar melhor preparadas e não o contrário?
Sim. Na adolescência, o córtex pré-frontal, que está relacionado com o planeamento, ainda se está a desenvolver e, talvez porque eles se pareçam com adultos, a escola e a sociedade espera que os adolescentes sejam capazes de planear os TPC e diferentes projetos, coisa que não esperaríamos de uma criança. Colocamos expetativas muito altas nos adolescentes. Talvez fosse útil os professores saberem como o cérebro dos adolescentes se desenvolve.

 

 

O que precisa de saber antes de discutir com um adolescente

Novembro 15, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://observador.pt/ de 15 de outubro de 2017.

Ana Cristina Marques

Não são crianças nem adultos. A adolescência é um processo de afirmação que gera sucessivos conflitos entre pais e filhos. Antes da próxima discussão, eis o que precisa de saber sobre o seu filho.

“O que se passa na cabeça do meu adolescente?” não é só o título do mais recente livro da psicóloga Cristina Valente (já antes entrevistada pelo Observador), como a pergunta na ponta da língua de qualquer pai que tenha um adolescente em casa. Na obra que agora chega às livrarias, a autora tenta explicar o que pode estar por detrás de determinados comportamentos dos mais novos e como os pais podem ou devem reagir a essas situações.

A pensar nisso, perguntámos à autora o que é que os pais devem ter em mente na hora de trocar argumentos com os filhos. Ao Observador, Cristina Valente explica que o desenvolvimento neuronal interfere com decisões e atitudes dos adolescentes e explica porque é que estes precisam de estar numa constante luta com os pais. Antes de prosseguirmos, fica a nota: as dicas não servem para desculpar os comportamentos dos mais novos, mas para ajudar a explicá-los.

É tudo (ou quase tudo) uma questão de desenvolvimento neuronal

Adolescência. É esta a fase em que os futuros adultos começam a desenvolver a autoregulação, o pensamento abstrato (como noções de justiça e honestidade) e os valores em si. “Os adolescentes passam, agora, a ter uma maior consciência crítica de si próprios e também dos outros. Quando isso acontece, começam a ver incongruências no mundo dos adultos e é muitas vezes aí que começam os confrontos”, esclarece Cristina Valente. A tendência é para questionar e até negar tudo o que chegou antes deles. Diz a psicóloga e mãe de dois adolescentes que isto se deve ao amadurecimento das suas capacidades cognitivas, mas também ao processo de afirmação de identidade dos mais novos. “O adolescente gosta de poder examinar [como quem diz questionar] os sistemas de crenças com que foi educado ou aqueles que dominam a sociedade. Daí ser respondão”, assegura Valente, reforçando a ideia de que os pais devem olhar para esta situação como um aspeto positivo. É bom sinal (e natural).

Quando o adolescente começa a entrar naquela que é a idade da razão, os pais tendem a olhar para os confrontos enquanto lutas intelectuais. “Basicamente, os pais comportam-se como crianças, no sentido em que não conseguem sair do seu umbigo, não conseguem dissociar as coisas e envolvem-se emocionalmente. Na base deste comportamento está o medo”, assegura a autora do livro, para quem as respostas negativas ou não produtivas, regra geral, estão diretamente relacionadas com o sentimento de medo que gera inevitavelmente uma necessidade de controlo. Se na primeira década de vida de um filho tudo o que os pais fazem tem um resultado visível — damos de comer e ficam saciados, zangamo-nos com eles e amuam connosco, etc. –, chega a adolescência e os pais já não sabem lidar com os filhos. Os resultados “não só não são visíveis como os investimentos não são imediatos”.

Numa luta pela independência, como adiante veremos, o aumento do controlo significa quase automaticamente o piorar de uma relação entre pais e filhos. “O controlo é uma ilusão. Usamo-lo como educação, mas o que funciona mesmo é a inspiração”. Nesse sentido, o importante é evitar as perguntas de curto prazo — por exemplo: como faço com que ele me obedeça?” — e fazer as de longo prazo: “Como é que eu faço com que ele se sinta integrado cá em casa?”. “Muitas vezes, os pais reagem ao comportamento visível do filho sem descobrirem o motivo que está por trás. O mau comportamento do adolescente é sempre um pedido de ajuda.”

A luta é pela independência

O movimento de independência já começou e o que importa agora é balizá-lo. “Embora o adolescente tenha alguma racionalidade, ainda não consegue ter uma visão de longo prazo e não se apercebe das consequências de algumas ações”, assegura Cristina Valente. Dar liberdade e limites é um jogo de diplomacia, de cintura se quisermos. A negociação e a comunicação são essenciais, mesmo considerando que, segundo a opinião da autora, “comunicamos muito mal, de forma pouca eficaz”. É nesse sentido que Cristina Valente introduz algumas dicas que, por esta altura, já deveriam ser consideradas verdades universais: há uma clara diferença entre escutar (processo cognitivo) e ouvir, sendo que os pais deveriam ter em primeiro plano o cuidado de escutar sem julgamentos, tentando sempre perceber o que é que o adolescente quer.

“Muito do comportamento do adolescente é repetitivo, pelo que podemos ir treinando as nossas respostas. Escutar é a chave do sucesso. A maior parte dos adolescentes desiste de falar com os pais porque sabem que eles não os ouvem”, continua a psicóloga. Em causa está o facto de os pais quererem que os filhos se rejam pelos valores com que foram educados. Mas a noção de contrariar valores faz parte do processo de crescimento, não fosse esta a fase em que o adolescente sente necessidade de dizer ao mundo que pensa pela própria cabeça. “A forma mais fácil de o fazer é agindo exatamente ao contrário daquilo em que os pais acreditam.”

Desafiar os pais faz parte

Os adolescentes precisam da luta constante, quase diária, com os pais. Sendo a adolescência um processo de individualização, é também uma fase de grandes inseguranças e não é difícil de perceber o porquê: à falta de estatuto corporal (no sentido em que existe um crescimento físico repentino) acrescenta-se a falta de estatuto social — os adolescentes já não são crianças mas também não são adultos. “A sociedade confunde-os. Por um lado, podem matar ou ir à guerra; por outro, são tratados como crianças em muitas situações.” Desafiar os pais acaba por fazer parte da tentativa dos mais novos de encontrar referências próprias.

Existe também uma maior necessidade de emoções fortes e até de experiências radicais. De um momento para o outro já não basta ouvir música, mas sim pôr o volume no máximo; já não basta deslocar-se, é preciso ir a grandes velocidades. “O cérebro tem, nesta fase, uma capacidade de aprendizagem enorme. Praticar um desporto e ter uma experiência radical acabam por ser aprendizagens”, diz Cristina Valente, confirmando ainda que, neste período, a avaliação real de risco está muito pouco ativa. A solução passa por promover experiências intensas — mas saudáveis — para os adolescentes.

“O adulto aqui somos nós”

Já aqui escrevemos que um dos maiores “erros” dos pais é não escutar. É normal que isso suceda: quando iniciamos uma discussão temos necessidade de falar porque isso gera segurança, no sentido em que queremos aconselhar o outro o melhor possível. E se escutar é importante, o mesmo se pode dizer de aceitar o ponto de vista de um adolescente. “Em primeiro lugar é preciso entendê-los e só depois esperar que eles nos entendam. Porque o adulto aqui somos nós. É preciso que nos coloquemos no lugar dos outros e isso é coisa que os pais têm muita dificuldade em fazer.

Uma alternativa pode passar pela aplicação do método socrático (não referente ao ex-primeiro-ministro português). Ir perguntando “porquê” ao longo de uma conversa pode ajudar o adolescente a abrir-se mais e a explicar-se melhor. “Ele não sabe responder logo porque está habituado a não ser ouvido. Mas isto só funciona se estivermos genuinamente interessados no ponto de vista dele.” Sendo este um processo de aprendizagem, para miúdos e graúdos, é preciso acrescentar que os pais devem expressar emoções no decorrer de uma conversa e, ao mesmo tempo, dominar sentimentos (e isto inclui controlar os eventuais acessos de raiva).

 

Como lidar com o stress matinal entre pais e filhos

Novembro 1, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site http://uptokids.pt/de 4 de outubro de 2017.

O stress matinal está a prejudicar os momentos em família?

Oito e meia da manhã, o relógio a dar horas, o pequeno-almoço por tomar, a roupa por vestir, gritos, choro, birras, “não posso mais com isto!”, “despacha-te!”, “anda lá!”. Um stress. Cenário comum e que se repete em dezenas de lares portugueses. Rotina que se repete dia após dia. Será que passa com os anos? Será que os miúdos melhoram com a idade? Dúvidas, irritabilidade, culpa… E assim está montado o cenário perfeito para que a família comece a sentir que está a viver em stress constante.

Para os pais, há ainda o acumular das tarefas profissionais e de manutenção da casa. Para os miúdos, o acumular dos conflitos na escola, da dificuldade em algo que está a ser ensinado e dos trabalhos para casa.

Mas será que de alguma forma os comportamentos de cada membro da família acabam por alimentar o stress familiar?

Sim e com certeza!

Os filhos frequentemente testam os pais para verem até onde podem ir, e frequentemente exigem atenção através de coisas que irritam profundamente os pais. Por sua vez, os pais que se sentem soterrados em obrigações, frequentemente dão uma ordem acabando por contraria-la, ou seja, pedem para os filhos que executem determinada tarefa, e acabam por fazê-la.

Anda lá! Calça as sapatilhas! Temos que ir!” E… dois segundos depois está o pai ou a mãe em stress a calçar os miúdos.

Como estas situações alimentam o stress familiar?

Simples, os pais, enquanto adultos, passam num simples comportamento a mensagem de que ela não tem capacidade de se calçar sozinha, que receberá muita atenção se fizer fitas a vestir-se, e que tampouco precisa de obedecer porque, a tarefa vai aparecer feita na mesma. E assim a mesma cena perpetua-se manhã após manhã.

Mas, como resolver essa situação?

Com treino. Treino dos pais e treino dos miúdos. Num dia calmo em que não tenham horários a cumprir (como um fim de semana, por exemplo), tenha uma conversa honesta com os pequenos e proponha uma competição contra o relógio “tive uma ideia para que nós não tenhamos que discutir pela manhã!”, por exemplo: “Vou colocar aqui o alarme e quando tocar tens que estar já vestido(a) e com as sapatilhas calçadas. Se conseguires terminar antes do alarme, vais ganhar um prémio!”. Para tal, coloque um tempo no alarme que saiba que será viável para o seu filho realizar a tarefa com sucesso (5 min a 8 min). O que queremos aqui é que ele se sinta capaz de executá-la. Ah! Mais importante ainda, não ajude! Deixe que ele faça sozinho, incentivando-o a cada etapa concluída com sucesso “Boa! estás mesmo rápido, já conseguiste vestir a camisola! Fixe!! Agora já calcaste as meias!!”. O prémio a ser dado, nesse caso, pode ser algo tão pequeno como um autocolante ou carimbos numa folha. Depois, podem ser estabelecidas metas para a semana juntamente com os miúdos (a começar por metas mais fáceis). Se os pequenos conseguirem vencer o alarme três vezes na semana ganham três autocolantes e esta soma de conquistas pode ser trocada por um prémio maior (um kinder surpresa, a escolha da sobremesa para o jantar, um jogo mais barato que queiram, enfim, algo que não tenha um valor elevado mas que seja do interesse deles). Esses pequenos prémios vão promovendo motivação para a realização de tarefas e o desafio deve ser aumentado a cada conquista. Após duas semanas, conseguindo vestir-se sozinhos e vencendo a meta de três vezes na semana, pode aumentar-se o desafio para conseguir fazê-lo os cinco dias da semana.

Este tipo de intervenção pode ser feita também para tomarem o pequeno-almoço ou para realizar qualquer outra tarefa, incentivando-os sempre com algum prémio pelo sucesso na execução e claro, com muita atenção!

A verdade é que as birras e a postura opositiva não passam com os anos, nem com a idade. Muito pelo contrário, a tendência é piorar se não for tomada nenhuma atitude pró-ativa por parte de quem cuida. O que faz os comportamentos mudarem são 4 coisas:

  • Treino, consistência por parte dos pais, regras e ordem.

Nesse sentido, os pais tem de ter atenção para não transmitirem exatamente aquilo que não pretendem.

Há pais que gritam frequentemente com os filhos pedindo para que estes não gritem.

Ora, quando gritas, o que estás a ensinar, é que ganha quem grita mais alto… Em vez de ensinar que com gritos não se ganha nada, ensinas que gritar é o importante. E, acredita, os miúdos vão aprender a gritar!

O que devemos fazer é exatamente o oposto: oferecer um elogio assim que a criança para de gritar “Fixe! Estou mesmo orgulhosa(o) de ti! Conseguiste acalmar-te e parar de gritar!”, assim conseguimos ensinar que gritar não serve de chamada de atenção, mas que parando de gritar se ganhar atenção e elogios dos pais!

Essas dicas funcionam muito bem quando bem executadas de forma consistente. É claro que algumas crianças são mais desafiadoras, mas há sempre maneiras de ajuda-las a compreender as regras e autoridade de forma positiva e não autoritária.

Quem poderá ajudar com mais precisão é um psicólogo especialista em atendimento infantil e de pais. Para além de promover rotinas menos conturbadas, um bom profissional ajuda na criação e manutenção de laços afetivos positivos nas famílias, mesmo perante os momentos de crise.

Se sente que sua rotina está a dar cabo do seu dia e da energia da sua família, procure ajuda. Acredite, as coisas não vão melhorar sozinhas e nem com o tempo. É necessário fazer modificações de forma organizada, consistente e coerente, e com ajuda profissional tudo fica mais claro e fácil.

imagem@trudnoca

 

 

 

“E se o meu filho for gay…?”

Outubro 25, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Mário Cordeiro publicado no https://ionline.sapo.pt/ de 3 de outubro de 2017.

É tempo de acabar com os preconceitos homofóbicos. A orientação do desejo sexual não é uma escolha, é uma característica determinada geneticamente.

Seria bom que, daqui a uns anos, só as crianças tivessem de fazer esta pergunta. Todavia, muitos adultos ainda andam confundidos quanto ao que é a homossexualidade, conotando-a com pedofilia, perversão, manias ou mesmo doença. Ou rindo-se, com ar superior, de quem acha que ser “hétero” (straight, que significa “direito”, como os anglo-saxónicos designam, o que só por si diz tudo) é ser superior a ser “homo”.

Primeiro que tudo, convém definir claramente o que a palavra significa: homossexualidade é a atração sexual, emocional e afetiva de pessoas de um género por pessoas do mesmo género, como parte de um continuum da expressão sexual, ou seja, a orientação do desejo sexual faz-se na direção de uma pessoa do mesmo sexo.

A orientação sexual, apesar de genética, estabelece-se (ou consolida-se) no final da adolescência, e muitos dos homens e mulheres homossexuais tiveram as suas primeiras experiências nesta idade, embora ter este tipo de relações neste grupo etário não tenha, só por si, qualquer valor preditivo (muitos heterossexuais têm experiências “homo” por uma questão das chamadas condutas de experimentação ou de ensaio).

Embora alguns relatórios tenham indicado estimativas em adultos de cerca de 4% para os homens e 2% para as mulheres, desconhece-se a taxa na adolescência e estes dados variam de região para região e de comunidade para comunidade, dependendo muito do grau de aceitação social e política que condiciona a resposta..

Sempre existiu homossexualidade na sociedade, só que, por razões que a antropologia facilmente explica, associadas ao desígnio de contribuir a todo o custo para a continuação da espécie, esta forma de orientação sexual foi quase sempre reprimida ou, pelo menos, olhada de esguelha. Para tal veio a contribuir, de forma decisiva, a posição das religiões e as condenações e culpabilizações inerentes a quem cometia esse “pecado”. Em muitos países, ser homossexual é correr o risco de pena de morte ou prisão, ou pelo menos ser-se ostracizado na sociedade.

Com o evoluir das sociedades, quando, hoje em dia, o facto de não ter filhos não lança ninguém no opróbrio, quando as liberdades, direitos e garantias individuais são promovidas, e não apenas as da comunidade como um todo, a questão da homossexualidade, tal como muitas outras, tornou-se objeto de debate e de discussão.

Se, por um lado, ainda se observam frequentemente atitudes segregacionistas e de exclusão (algumas vezes de autoexclusão), é crescente a normalidade com que, felizmente, o assunto é encarado. Não se trata de dizer, de modo paternalista, que o que cada um faz é da sua conta, mas de muito mais: o de entender que a sociedade é composta por indivíduos diferentes na cor, no tamanho, nas capacidades e também nas orientações sexuais.

Há 20 anos, a homossexualidade era definida como uma “doença mental” por academias de psiquiatria tidas como cientificamente irrepreensíveis – afinal, demonstraram que não o eram e atualmente ainda se assiste a classificações deste tipo nas mais variadas situações.

Não se escolhe ser homo, hétero ou bissexual. É-se, apenas e tão-só, e embora permaneçam desconhecidos os determinantes dessa orientação, sabe-se que são genéticos. O que entra no capítulo das opções é a forma de comportamento e os estilos de vida que as pessoas, homossexuais ou não, adotam, designadamente o tipo de experimentação sexual, mas isso é do foro íntimo de cada um desde que não colida com os direitos dos outros – e tanto se aplica aos homo como aos hétero ou bissexuais.

Por razões várias, para muitos pais é um choque ter um filho homossexual. Não temos espaço para aprofundar as razões que os assistem, mas o que importa referir é que os pais, ao saberem da homossexualidade dos filhos, devem em primeiro lugar dar todo o apoio – são os filhos, não são ET’s que apareceram de um momento para o outro – e ser empáticos com o eventual sofrimento que o filho possa estar a ter.

Quando os pais sentem que o filho tem elevadas probabilidades de não ter filhos porque não consegue estabelecer uma relação conjugal com uma pessoa do sexo oposto – pesem as alternativas todas que a realidade portuguesa agora permite – sentem que o seu próprio futuro está ameaçado, em termos conceptuais, e que todo o projeto imaginado desde a infância cai por terra… o que não é verdade, mas está na cabeça das pessoas… para lá do estigma social, da falta de hábito de receber em casa “o genro, casado com o meu filho” ou “a nora, casada com a minha filha”. Acresce que a desinformação sobre o que é a homossexualidade e a constatação bem real de que um jovem homossexual terá a vida social dificultada, apesar de todas as evoluções sociais, ainda assustam mais os pais e aumentam o “sentimento de desilusão”.

Estas angústias têm de ser compreendidas e os pais, ao saberem da homossexualidade dos filhos, devem, em primeiro lugar, dar todo o apoio – são os filhos! – e ser empáticos. Por outro lado, não devem esconder e remeter o filho para a clandestinidade, mas ajudá-lo e ajudar-se, assumindo o facto como normal e não fazendo tabu do assunto – assim, o diz-que-diz acaba e o filho tem mais hipóteses de se sentir bem e de ter um percurso de vida social normal. Finalmente, devem apoiar-se um no outro, não considerar que os outros filhos é que são bons, tentar esclarecer estes e pedir ajuda – a um médico, a um psicólogo -, se necessário, para ultrapassarem sentimentos, libertar angústias e obter esclarecimentos e informação importante.

Se, pelo contrário, os pais optarem por uma atitude “cavernícola”, quase irradiando o filho, estarão a maltratá-lo, a maltratar-se a si próprios e a agir de uma forma porventura emocional, mas muito pouco racional, inteligente, justificada e eficiente. Os nossos filhos serão sempre os nossos filhos.

É tempo de acabar com os preconceitos homofóbicos. A orientação do desejo sexual não é uma escolha, é uma característica determinada geneticamente. Todas as pessoas devem poder expressar os seus afetos, desde que dentro do que é considerado pela lei como aceitável, e homens amarem homens ou mulheres amarem mulheres é normal. O amor é sempre belo quando é genuíno e é amor. Afinal, o que interessa saber quem dorme com quem? Excluindo casos abusivos ou forçados, a cama de cada um (e quem por lá passa) só a cada um (e a quem lá passa) pertence…

Pediatra

Escreve à terça-feira 

 

 

 

O consumo de álcool moderado dos pais afecta os filhos? Estudo diz que sim

Outubro 20, 2017 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança, Relatório | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 19 de outubro de 2017.

Segundo um estudo do Institute of Alcohol Studies de Inglaterra, estes comportamentos afectam a forma como os filhos vêem os pais.

Catarina Lamelas Moura

Um estudo publicado esta semana pelo Institute of Alcohol Studies de Inglaterra (IAS) designa o álcool como “açúcar para adultos”. De acordo com os resultados obtidos, os impactos negativos do consumo de álcool por parte dos pais sobre os filhos acontecem também com quantidades menores, consideradas normalmente pelas entidades como comportamentos de baixo risco.

O estudo – centrado nos consumos sem dependência – analisou as respostas de 997 pais e os seus respectivos filhos, em Inglaterra. Foram realizados inquéritos ao público, quatro focus groups e um inquérito online.

O relatório publicado pela IAS alerta que o debate acerca do consumo de álcool se foca demasiado na questão da quantidade de álcool, em detrimento do verdadeiro impacto do mesmo nas crianças. Os resultados demostram que os pais não têm necessariamente de beber grandes quantidades de forma consistente para que os seus filhos notem mudanças no seu comportamento e sofram impactos negativos. As crianças que viram os pais alegres ou mesmo bêbados demonstraram algum tipo de consequência, como sentirem-se menos consoladas ou a perturbação das rotinas nocturnas. Há ainda uma probabilidade menor de não verem nos pais um exemplo positivo.

Os inquéritos conduzidos concluíram que “muitos pais assumem que os seus filhos não reparam naquilo que bebem” e que, por isso, “os impactos negativos são involuntários, em grande parte dos casos”. Esses hábitos acabam por reflectir-se na postura que os filhos tomam em relação ao álcool, indicam ainda os inquéritos online.

De acordo com os dados do IAS, 29% dos pais admitiu que já tinha estado bêbado em frente aos filhos e 51% disse que já tinha estado alegre. Dos pais inquiridos, 29% considera não haver problema em beber em frente aos filhos, desde que não aconteça com regularidade. Das crianças abordadas, 18% já se sentiu envergonhada devido ao consumo alcoólico dos pais.

“É preocupante que a maioria dos pais relate ter estado alegre em frente aos filhos. Todos os pais lutam por fazer o melhor para os seus filhos, mas este relatório realça a preocupante lacuna no seu conhecimento”, comenta Katherine Brown, chefe executiva dos IAS, citada pelo Guardian.

Um local “seguro” para beber

Aquilo que muitos pais consideram uma forma de educar os filhos a terem comportamentos responsáveis relativamente ao consumo de álcool – deixá-los experimentar uma bebida numa ocasião especial, em casa, por exemplo – pode não produzir os efeitos desejados.

“Os pais muitas vezes tentam evitar que o álcool se torne um tabu, contra o qual as crianças se rebelem, e têm tendência a ver a casa como um ambiente seguro para a aprendizagem de comportamentos adequados”, aponta o relatório do IAS. No entanto, aponta ainda, um estudo conduzido por Marie B. H. Yap e outros investigadores concluiu que as crianças cujos pais lhes fornecem bebidas alcoólicas, têm maior probabilidade de começar a beber mais cedo, de ter problemas alcoólicos e de beber em quantidades e frequência maiores.

O relatório citado na notícia é o seguinte:

Like sugar for adults: The effect of non-dependent parental drinking on children & families

 

 

O regresso às aulas… dos pais

Outubro 11, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Eduardo Sá publicado na http://www.paisefilhos.pt/ no dia 5 de setembro de 2017.

“É o medo dos pais diante de um mundo diferente e o seu excesso de proteção que tornam o regresso às aulas mais difícil”.

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As férias das crianças nunca são demais. Em primeiro lugar, porque as férias dos pais, quando eram pequeninos, seriam maiores. E, depois, porque olhando para as horas de trabalho dos pais e dos filhos, tendo uns e outros a mesma idade, as crianças trabalham na escola e para a escola em demasia. Fosse o mundo mais justo e, para que “as contas” fossem como deviam ser, as férias grandes deviam ser maiores para quem trabalha mais…

”Mas a vida é, hoje, mais dura e mais competitiva”, argumentam os pais, enquanto reclamam por mais escola e vão resolvendo problemas pelos filhos. Não é verdade! A vida sempre foi dura e competitiva. Por outras palavras, a vida nunca foi fácil! Não tanto no sentido trágico de quem vê nas dificuldades o pretexto para se desculpar por tudo aquilo que não ousou fazer, mas, pelo contrário, no sentido de quem as vê como a forma de descortinar nelas problemas que se transformam em oportunidades para novas dúvidas com que, depois de resolvidas, se cresce mais um bocadinho. A vida traz o difícil; a inteligência, a humildade e a perseverança transformam o difícil em simples. E é o simples, depois de descoberto, que (por ser óbvio) parece fácil. Mas, sendo assim, poupar às crianças os problemas que tenham para resolver e fazer da escola um “fast food” em que quase tudo lhes é dado, sem que haja quem as ensine a pensar, é o mesmo que as pôr a crescer sem que seja preciso que elas percebam, minimamente, como isso se faz. É “embrulhar” o difícil no fácil. E iludi-las com a grandiosidade com que “atrofiam” competências que tinham. Por outras palavras: é o medo dos pais diante de um mundo diferente e o seu excesso de proteção que tornam o regresso às aulas mais difícil para as crianças.

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Ainda assim, comparado o mundo em que os pais cresceram com o mundo ao acesso das crianças, tudo parece, hoje, “à primeira vista”, mais difícil. Porque é mais complexo e exige mais escolhas. Mas, com melhor trabalho, será mais amigo de melhor crescimento. Seja como for, o mundo em que as crianças vivem é parecido, em muitos aspetos, com aquele em que os pais cresceram. É igualmente assimétrico, igualmente demagógico e igualmente ganancioso. É verdade! Talvez porque seja igualmente “costurado” por pessoas. Ainda assim, é mais aberto, e mais acolhedor para quem for honesto, imaginativo e inimitável. Logo, é um mundo de mais oportunidades para aqueles que não forem “produtos normalizados”.
Já em relação à escola, ao contrário da das crianças, a escola dos pais foi, garantidamente, mais injusta. Porque dividia os alunos em inteligentes e em “burros”. Porque ensinava ao abrigo de humilhações e de castigos físicos. E porque muitos professores exerciam um poder discricionário que destroçava crianças.

Hoje, a escola é melhor! E se o regresso às aulas parece muito difícil e quase tumultuoso é porque, para além dos conflitos de agenda, os pais veem a escola à imagem da forma como a viveram. E imaginam o mundo como se o deles tivesse sido “cor de rosa” e o das crianças fosse, invariavelmente, cinzentão. E colocam sobre as aulas a responsabilidade que elas não podem ter. E não exercem, tanto como deviam, o seu direito de comparticipar na escolha da escola, da turma, do professor e de tudo o mais que está para além das próprias aulas. E desvalorizam o brincar, o preguiçar, o conviver ou, simplesmente, o imaginar.

 

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As férias estão a chegar ao fim. Mas se não quer que as crianças se estraguem na relação com a escola não se esqueça, por favor, que:
a) Os pais erram sempre. E isso é bom. Sobretudo se aproveitarem os seus erros para serem pais mais humildes. Sem nunca perder de vista que os piores amigos dos pais são “os bons pais”. Aqueles que querem tanto ser bons que olham mais para os seus desempenhos e para os pais que tiveram, competindo com eles, do que para os próprios filhos.

b) As crianças devem ser escutadas mas não podem decidir pelos pais. Seja a propósito da escola que vão frequentar ou das suas atividades extracurriculares. Aliás, como também não podem ser os técnicos a fazê-lo. Simplesmente porque os pais sabem sempre mais que os filhos. Mas não perca de vista que pais exageradamente cuidadosos são filhos de pais ou excessivamente exigentes ou demasiadamente descuidados.

c) Os pais serão mais atentos se tiverem memória. Ou, melhor, se não fugirem de “conversar” com ela. Dizer aos filhos que os tempos, hoje, são outros, faz com que os pais se sintam com legitimidade para exigirem que a relação dos filhos com a escola seja muito diferente daquela que eles, quando alunos e com a idade que as crianças têm, terão tido com ela. Mas será que os pais faziam todos os trabalhos de casa com agrado? E será que, alguma vez, terão achado as férias grandes ou exageradas? E será que tinham os resultados escolares exemplares que, agora, exigem aos filhos?

d) Todas as crianças são sobredotadas e todas têm necessidades educativas especiais. Ao contrário do que devia ser, a escola acarinha mais as áreas onde as crianças são, aparentemente, “sobredotadas”. E ignora, não identifica ou faz por não reparar nas suas “necessidades educativas especiais”. O que não será razoável é que as boas notas das crianças sejam, unicamente, a todas as disciplinas da escola. Ou a algumas, em particular. Porque as boas notas unicamente às disciplinas da escola — alavancadas com trabalho de pais exagerado, com excesso de explicações e com ateliês de tempos livres que existem para que os trabalhos de casa apareçam feitos, não interessa com que proveito, antes de lá se chegar – são úteis para disfarçar necessidades educativas especiais. Quando as necessidades educativas especiais são as melhores amigas da humildade, da tolerância à frustração e da “capacidade de sofrimento” com as quais se aprende a crescer. Cresce-se melhor quando se aprende a viver com algumas dores, com as experiências de tristeza que “tenham de ser” e, sobretudo, com mais tempo para “digerir” a experiência, para experimentar e para pensar, descobrir e inventar. Começa-se a conhecer quando se reconhece a primeira dificuldade

e) As crianças precisam de duas horas de tempo livre todos os dias! Porque quem brinca aprende melhor.

f) Não compita, através do seu filho, com as notas dos amigos deles. Nem confunda os seus sonhos escolares que não concretizou com projetos para ele. Alunos que não erram são crianças em perigo. Ou seja, só quem foge dos erros é que se desencoraja de aprender. Ainda assim, aprender não é fácil nem rápido. Nem se conquista com pouco trabalho. E, claro, não se aprende sempre com boas notas, sem erros e sem derrotas.

g) Não queira saber tudo acerca da escola, todos os dias. Os pais só precisam de ser atentamente distraídos. Tudo o que for para além disto é exagero.

h) Não transforme o regresso às aulas numa oportunidade para entrar num quadro de excelência só para pais. Também em relação à escola, insista em errar! Porque isso significa que não desiste nunca de aprender.

 

 

4 atitudes que enfraquecem o vínculo emocional com seus filhos

Setembro 28, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site http://www.psicologiasdobrasil.com.br/

Ser pai, mãe, avô, avó e, além disso, um educador eficaz, não é fácil. Cada criança vem a este mundo com necessidades próprias que devemos saber atender, com virtudes a serem potencializadas e emoções que devem ser incentivadas, orientadas e desenvolvidas.

Educar não é apenas ensinar as crianças a ler ou mostrar como podem realizar seu trabalho de pesquisa para o colégio com o computador. Ser pai ou mãe não é presentear os filhos com um telefone celular em seu aniversário, nem assegurar-nos de que colocamos o cinto de segurança neles cada vez que entram no carro. É muito mais que tudo isso.

Contudo, em algumas situações, mesmo que conheçamos a teoria não a aplicamos na prática. Além de pais e mães, também somos casal, empregados, empresários ou pessoas que querem trocar de emprego e que, possivelmente, ainda querem atingir novos objetivos profissionais. Tudo isso ocorre concomitantemente em nosso cotidiano e, sem saber como, começamos a cometer erros na educação de nossos filhos.

Se você for pai, se lembrará de quando foi filho e saberá, sem dúvida, o que você mais valorizou – e ainda valoriza! – ou do que mais sentiu falta nos seus dias de infância. Se a sua infância não foi especialmente feliz, entenderá quais aspectos romperam este vínculo emocional com os seus pais, esses erros que não devem ser repetidos sob nenhuma hipótese com seus filhos.

Falemos sobre isso.

1 – Não os escutar

As crianças falam e também perguntam muito. Pegam você de surpresa com mil questionamentos, inúmeras dúvidas e centenas de comentários nos momentos mais inoportunos. Desejam saber, experimentar, querem compartilhar e desejam compreender tudo que acontece diante delas.

Tenha bastante claro que, se você mandar que fiquem quietas, se você as obrigar a ficar em silêncio, ou se não atender suas palavras, respondendo com severidade ou de forma rude, isso fará com que, no curto prazo, a criança deixe de se dirigir a você. E o fará privilegiando seus próprios espaços de solidão, atrás de uma porta fechada que não desejará que você cruze.

2 – Castigá-los, transmitindo-lhes falta de confiança

São muitos os pais que relacionam a palavra educação com punição, com proibição, com um autoritarismo firme e rígido em que tudo se impõe e qualquer erro é castigado. Este tipo de conduta educativa resulta em uma falta de autoestima muito clara na criança, uma insegurança e, ao mesmo tempo, uma ruptura do vínculo emocional com eles.

Se castigamos não ensinamos. Se me limito apenas a dizer para a criança tudo o que ela faz de errado, jamais saberá como fazer algo bem. Não dou a ela medidas ou estratégias, limito-me a humilhá-la. E tudo isso gerará nela raiva, rancor e insegurança. Evite sempre esta atitude.

3 – Compará-los ou rotulá-los

Poucas coisas podem ser mais destrutivas do que comparar um irmão ao outro ou uma criança a outra para ridicularizá-la, para dar a entender suas escassas aptidões, suas falhas, sua pouca iniciativa. En algumas ocasiões, um erro que muitos pais cometem é falar em voz alta diante das crianças como se elas não os escutassem.

“É que o meu filho não é tão inteligente como o seu, é mais lento, o que se pode fazer”. Expressões como estas são dolorosas e geram neles um sentimento negativo que causará não apenas ódio em relação aos pais, mas um sentimento interior de inferioridade.

4 – Gritar com eles e apoiar-se mais nas ordens do que nos argumentos Não trataremos aqui de maus tratos físicos, pois acreditamos que não há pior forma de romper o vínculo emocional com uma criança do que cometer este ato imperdoável.

Mas temos de ser conscientes de que existem outros tipos de maus tratos implícitos, quase igualmente destrutivos. É o caso do abuso psicológico, esse no qual se arruína a personalidade da criança por completo, sua autoimagem e a confiança em si mesma.

Há pais e mães que não sabem dirigir-se de outra forma a seus filhos, sendo sempre através de gritos. Levantar a voz sem razão justificável provoca um estado de euforia e estresse contínuo nos filhos; eles não sabem em que se apoiar, não sabem se fizeram algo bom ou mau. Os gritos contínuos enfurecem e fazem mal, já que não há diálogos, apenas ordens e críticas.

Deve-se ter muito cuidado com estes aspectos básicos. O não escutar, o não falar e o não demonstrar abertura, compreensão ou sobrepor a sanção ao diálogo são modos de ir afastando aos poucos as crianças do nosso lado. Elas nos enxergarão como inimigos dos quais devem se defender e romperemos o vínculo emocional com eles.

Educar é uma aventura que dura a vida toda em que ninguém é um verdadeiro especialista. Contudo, basta apoiar-se nos pilares da compreensão, do carinho e em um apego saudável que proporcione a maturidade e a segurança nesta pessoa que é também parte de você.

Fonte indicada: A Mente é Maravilhosa

*O conteúdo do texto acima é de responsabilidade do autor e não necessariamente retrata a opinião da página e seus editores.

 

 

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