Tem filhos viciados em videojogos? 5 dicas para lidar com o problema

Maio 20, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Observador de 7 de maio de 2019.

Há cada vez mais crianças a trocar o hábito de brincar ao vivo por longas sessões de videojogos. Cabe aos pais impor regras simples para evitar comportamentos de risco.

O novo bicho papão para os pais de crianças a partir, sensivelmente, dos oito anos chama-se Fortnite Battle Royale. Não, não é o nome de um novo vírus incurável ou de uma qualquer estranha substância psicotrópica. É, apenas e só, um videojogo que tem atraído milhões e milhões de crianças e adolescentes no mundo inteiro. A premissa é muito simples: cada jogador — ou equipa — é lançado numa ilha e tem de lutar pela sua sobrevivência, eliminando os outros jogadores — ou equipas — que têm o mesmo objetivo. O jogo é gratuito, intuitivo e, sobretudo, viciante. Pais e professores denunciam, com frequência, alterações de comportamento em crianças que jogam Fortnite Battle Royale diariamente. Muitas ficam mais agressivas e desinteressadas de outras actividades. Mas as dicas que se seguem podem ajudar a lidar com o vício neste e noutros videojogos.

1. Mostre-se interessado/a, jogue com as crianças

A melhor maneira de entender o fenómeno Fortnite Battle Royale ou outros não é submeter as crianças a interrogatórios nem pesquisar na Internet. A melhor maneira é estar por dentro, jogar. De preferência com elas. Por isso, nada como mostrar interesse na actividade e procurar jogar com a criança. Podem fazer disso, por exemplo, uma actividade em família. Sendo que este jogo, especificamente, nem sequer é particularmente violento — os gráficos fazem lembrar banda desenhada.

2. Imponha limites, use o controlo parental

À semelhança do que já aconselhámos num artigo anterior, relacionado com a navegação na Internet, também neste caso é importante usar as ferramentas de controlo ao dispor. Todas as consolas, telemóveis, computadores ou tablets possuem opções que permitem aos pais gerir e controlar a sua utilização por parte dos filhos. Não só o tempo, mas também as compras online — e é muito importante ter atenção a essa parte —, os jogos que estão autorizados a jogar e com quem. Além das ferramentas deste género que cada aparelho traz por defeito há software especializado que aumenta o leque de opções e protecção. Uma vez estabelecidos esses limites, seja firme, não abra exceções.

3. Conversem sobre o assunto

Mas atenção: conversar não é discutir. É mais provável que a criança responda honestamente sobre o que a atrai em determinado jogo, os seus hábitos, com quem joga e de que forma se isso surgir numa conversa amigável com os pais do que se sentir ameaçada ou interrogada de forma agressiva. Pior do que o jogo em si são, muitas vezes, os comportamentos agressivos e/ou de bullying que a ele estão associados. Procure perceber com quem é que a criança joga, e de que fala enquanto joga. É possível desligar a opção de chat, caso entenda necessário.

4. Traga as crianças para fora do ecrã

O problema não são os videojogos per se mas sim o tempo que as crianças passam em frente ao(s) ecrã(s) nos dias de hoje. Pode não ser fácil trazê-las de volta à vida real, já que muitas tendem a achar tudo desinteressante em comparação com o YouTube ou os videojogos. Mas há que fazer um esforço. Se as crianças já têm por hábito jogar Fortnite Battle Royale (ou outros jogos) com os amigos da escola, pode tentar envolvê-los — e aos respectivos pais — nesta missão, planeando saídas em conjunto ou formando uma equipa de um qualquer desporto, por exemplo.

5. Em caso de necessidade, procure ajuda profissional

Se perceber que o vício nos videojogos está a afectar gravemente o rendimento escolar da criança, a forma como se comporta — mais agressiva e irritável — e as suas relações interpessoais, e nenhum dos passos anteriores pareceu resultar, não será descabido procurar ajuda profissional. Os psicólogos e pedopsiquiatras estão cada vez mais equipados para lidar com este tipo de problemas, também eles cada vez mais recorrentes: não é por acaso que a Organização Mundial de Saúde incluiu, há cerca de um ano, o “distúrbio de jogo” na lista de doenças classificadas como perturbações do foro mental.

 

“Tenho 14 anos e abandonei as redes sociais depois de descobrir o que foi publicado sobre mim”. Relato de uma adolescente na primeira pessoa

Maio 7, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da Visão de 25 de abril de 2019.

São meia dúzia de minutos de leitura ávida que mal nos deixa respirar. Esta é a experiência de Sonia Bokhari, aluna do 8º ano, quando se inscreveu nas redes sociais.

Nunca imaginara nada daquilo. Sonia escrevia compulsivamente, era a líder da Aliança Gay-Hetero na sua escola e também pertencia ao Clube do Ambiente. Resolveu abrir conta no Facebook e no Twitter. Foi então que descobriu o que tanto a mãe como a irmã já tinham postado sobre ela – acabou por decidir fechar as contas e desaparecer dali, em seguida.

O relato faz parte de uma série de reportagens da Fast Company e começa assim: “Ah, isso é engraçado!” Era o último comentário da minha irmã, de 21 anos, à mais recente atualização do Face da nossa mãe. O primeiro de muitos: afinal, as redes sociais têm tido uma importância significativa na vida da minha irmã desde os seus 13 anos e, desde então, publica regularmente.”

A regra lá em casa, conta Sonia, é a comum a muitos pais de crianças pequenas: como o que não faltam por aí são avisos sobre os riscos do uso abusivo das redes sociais, tanto ela como a irmã só poderiam inscrever-se depois dos 13 – e isto mesmo que muitos dos seus amigos já o fizessem desde os dez. E ela acatou isso sem grande contestação.

“É verdade que isso me deixava algo curiosa, mas nada que me perturbasse no dia a dia. E como não tinha smartphone nem autorização para me inscrever, acabou por não ser propriamente um problema para mim.”

Até que chegou o dia D – e Sonia fez como esperado. Inscreveu-se e, claro, dado que as redes eram uma presença tão valorizada nos telemóveis lá de casa, o primeiro perfil que pesquisou foi o da mãe. Mas a reação não foi a melhor.

“Foi quando percebi que, embora essa fosse a primeira vez que andava por ali, estava longe de ser a primeira vez que as minhas histórias apareciam online. E quando vi as fotos que tinham vindo a ser publicadas nos últimos anos, senti-me profundamente envergonhada e mesmo traída.”

É que, ali, à vista de todos, estavam os momentos mais “embaraçosos” da sua infância – desde a carta que tinha escrito para as fada dos dentes aos cinco anos a fotos suas a chorar quando era mais pequena, e outras ainda já mais velha.

“Tudo sem que eu tivesse qualquer conhecimento. Parecia que a minha vida inteira estava documentada no Facebook e eu não fazia ideia.”

Sonia reconhece a razão por que a mãe o fez: afinal, para a família e amigos em geral aquilo eram só, como ela fiz, “momentos engraçados e fofos”. Mas para ela não.

“Para mim foram mortificantes. Além disso, percorrendo os comentários da minha irmã, apercebi-me do que ela se riu à conta daquilo.”

O impacto na vida de Sonia foi tremendo, ela que tinha acabado de fazer 13 anos e achava que ia finalmente começar a sua vida nas redes sociais.

“Só que afinal já havia centenas de fotos e histórias online, para sempre, quer eu quisesse quer não. E eu não tinha controlo algum sobre aquilo. Obviamente, senti-me traída.”

Depois da fúria, a calmaria e um pedido: “Não voltem a fazer isso sem a minha permissão.”

E mãe e irmã prometeram não voltar a fazê-lo, embora não sem antes mostrarem a maior surpresa perante aquela reação. “Que não era para me envergonhar, era só para contar as minhas gracinhas e assim manter um registo do que eu fazia quando era pequena.”

E, por fim, com muita tranquilidade – e, até, mais maturidade do que as pessoas à sua volta – Sonia relembrou: “Nós, os adolescentes, passamos a vida a ser alertados para o facto de que tudo o que postamos fica online para sempre. Mas então digo-vos que os pais também devem refletir sobre a forma como isso pode afetar a vida dos seus filhos quando estes se tornam jovens adultos.”

E na altura em que Sonia se tornou mais ativa no Facebook e no Twitter ainda nem tinha pensado seriamente na sua pegada digital. Era outubro e, durante aquele mês, houve uma série de apresentações na sua escola sobre isso e sobre segurança online.

Os autores pertenciam a uma organização chamada OK2SAY, que educa e ajuda os adolescentes a sentirem-se seguros online. O primeiro grande conselho foi que nunca publicassem nada negativo sobre alguém – nem fotos inapropriadas – porque isso pode afetar profundamente a vida desse pessoa, tanto na escola como em futuras oportunidades de emprego.

“Também nos alertaram sobre predadores online, algo que sempre me perturbou, porque poderia, por qualquer razão acabar no perfil de alguém que acabasse por me fazer mal. É verdade que não tinha muito com que me preocupar, já que não tinha entrado em contacto com estranhos nem partilhado informações pessoais.”

Só que, nessa altura, Sonia já cometera o mais comum dos erros de quem é inexperiente em redes sociais: todas as suas contas eram públicas. Quando se apercebeu disso – e do impacto que isso tinha – foi logo a correr às definições. A sua ideia, inicialmente, era só remover tudo o que incluia a sua localização. Mas acabou por apagar tudo o que tinha publicado.

“Percebi que ter 13 anos e andar já nas redes sociais, afinal, não era assim tão fantástico”, confessa. Um ano depois, as suas contas, acrescenta, permanecem inativas. “Penso que poderei voltar a usá-las, em algum momento, no futuro, mas para já não.”

E esta é a explicação: “Pode parecer uma decisão dramática, mas tudo o que vi e ouvi foi mais do que suficiente para me convencer o quanto prefiro ficar longe de tudo isso. Não sinto que esteja a perder seja o que for da minha vida social e sempre me poupo a uma série de riscos.”

Houve, reconhece Sonia, alguns amigos que a acusaram de ser chata, mas não a deixaram de tratar da mesma maneira. Aliás, salienta, a sua decisão acabou por influenciá-los – graças a todas as suas reticências, passaram a ter mais cuidado. “Já não partilham o local onde estão nem o seu nome completo e mantêm as suas contas privadas. Nesta altura, já acho que a minha geração vai ter de ser mais madura e responsável do que a dos nossos pais.”

Diz Sonia que, para quem é agora adolescente, ser anónimo não é mais uma opção – afinal, para muitos deles as decisões sobre a sua presença online são tomadas ainda antes de aprenderem falar.

“Agora que já passou algum tempo desde soube o que a minha irmã e mãe publicavam sobre mim, consigo reconhecer que isso permitiu que tivéssemos uma conversa sobre isso, algo que todo os pais precisam fazer com os seus filhos. E, mais importante ainda, tornou-me consciente de como quer usar as redes sociais hoje e no futuro. “

 

 

 

Como posso eu apoiar a escolaridade dos meus filhos?

Maio 6, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Lourdes Mata publicado no Público de dia 29 de abril de 2019.

Todos os pais* desejam que os seus filhos gostem da escola, trabalhem, se esforcem, aprendam, passem de ano e ganhem competências que lhes permitam ser bem-sucedidos nas suas vidas pessoais e profissionais. Todos querem o melhor para os seus filhos e também conseguir contribuir da melhor forma para esse sucesso. No entanto, os múltiplos constrangimentos diários que sobrecarregam o quotidiano não são sempre fáceis de ultrapassar. Tudo isto pode levar a um maior distanciamento e até a assumirem que a responsabilidade de ensinar é da escola e dos professores e que eles pouco podem fazer.

Sabe-se hoje em dia que a participação e envolvimento das famílias na educação e no apoio à escolaridade é altamente benéfico para as crianças e jovens e pode mesmo fazer a diferença no seu desenvolvimento ao nível académico e profissional. A educação é uma responsabilidade partilhada entre profissionais e famílias, em que cada um tem um papel específico, não sendo os pais ‘ajudantes’ dos professores, nem estando estes sozinhos na responsabilidade de ensinar e promover o sucesso dos alunos. É nesta especificidade de papéis que se baseiam as parcerias entre profissionais e famílias, onde não têm todos que fazer o mesmo nem assumir as mesmas responsabilidades.

Assim, a participação dos pais vai muito além do apoio às tarefas escolares, do estudarem com os filhos, de ensinarem uma matéria que não foi percebida ou de estarem presentes nas reuniões. Esta vertente da participação, direcionada para a monitorização da escolaridade, passa pelo criar condições para o estudo, organizar rotinas ajustadas com equilíbrio entre momentos de trabalho e de lazer, pela comunicação com a escola, manterem-se informados e colaborarem no que for necessário. Contudo, o papel dos pais vai além em aspetos e momentos mais informais, onde se assumem como centrais tanto a comunicação com os filhos, como a valorização do saber numa perspetiva social e cultural.

No que se refere à comunicação com os filhos, é essencial o interesse que os pais demonstram pelo trabalho, esforço, aprendizagens e saberes destes. As conversas informais sobre as conquistas, as dificuldades, as novidades e as vitórias devem fazer parte das vivências quotidianas sem serem sentidas como rotineiras. Estes momentos podem permitir identificar não só problemas que de outro modo não seriam visíveis, mas também apoiar e monitorizar o processo de aprendizagem e criar relações mais sólidas. Não podem ser momentos conflituosos nem sentidos pelos filhos como de controlo — devem ser momentos de partilha e, para isso, é necessário haver confiança, não se sentir julgado nem que se está a defraudar expetativas. Tem assim de existir uma disponibilidade pessoal e um interesse genuíno que, com a pressão e ritmo do dia-a-dia, muitas vezes nos esquecemos de mostrar, mas que felizmente não precisa de horário ou formalismo e que pode ocorrer tanto à hora da refeição como ao deitar, num percurso casa-escola ou simplesmente num momento em que estamos ali, juntos. Só temos de o descobrir e aproveitar!

Importante também é a valorização do saber: isto envolve a participação em eventos culturais e sociais, aproveitando as infraestruturas, recursos e oportunidades existentes à nossa volta. Muitas estruturas comunitárias, como as bibliotecas municipais, associações recreativas e/ou culturais, museus ou associações desportivas, desenvolvem ações disponibilizando ocasiões não só de convívio, mas para um tempo de lazer de qualidade e que podem ter um impacto positivo na educação das crianças e dos jovens. Muitas vezes focamo-nos demasiado nas aprendizagens e conteúdos escolares, esquecendo-nos de que eles só fazem sentido se estiverem ligados à vida, se fizerem sentido para quem os aprende. Neste aspeto, a família desempenha um papel crucial, devendo aproveitar sempre que possível para partilhar e diversificar saberes.

Assim, da próxima vez que for com os seus filhos a um espetáculo, a um concerto, a uma exposição ou a outra iniciativa cultural, não se esqueça o quão importante ela pode ser e de que modo pode ser uma mais-valia, um elemento importante para o seu crescimento. Sinta-se bem, partilhem esse momento e esteja certo de que esteve a apoiá-los na sua escolaridade.

O termo “pais” será usado em sentido lato, referindo-se ao responsável legal ou a um familiar ou outra pessoa que acompanhe a criança/jovem e tenha um papel significativo na sua vida.

Professora auxiliar do ISPA – Instituto Universitário

 

 

Conferência Educar para a Felicidade – 18 maio Ponta Delgada

Maio 5, 2019 às 6:43 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações no link:

https://www.conferenciaeducarparaafelicidade.pt/

“Um filho stressado é menos autónomo, independente e responsável” Mário Cordeiro

Maio 1, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista da Visão a Mário Cordeiro no dia 24 de março de 2019.

Clara Soares

No gabinete do pediatra Mário Cordeiro, os livros infantis partilham as estantes com os peluches familiares. Nas paredes, há pinturas abstratas feitas pelo médico que presidiu à Associação para a Promoção da Segurança Infantil, publicou dezenas de livros e manuais sobre bebés, crianças e adolescentes, e tem uma cadela adotada, estando também ligado à Provedoria dos Animais de Lisboa. Aos 63 anos, o mais novo de oito irmãos e pai de cinco filhos optou por reformar-se da Função Pública e dedicar-se apenas à clínica privada. O ponto central da conversa não foi o romance ou a poesia, paixões que lhe dão atualmente muito gozo, mas antes o seu novo livro, que pretende desafiar-nos, a todos. Pais Apressados Filhos Stressados é sobre o tempo que não temos mas podemos ter, se conseguirmos fazer escolhas conscientes e desfrutar da vida, enquanto dura, com quem amamos – sem despachar tudo e todos nem andar a reboque, lamentando: “Prefiro a adrenalina dos dias de semana ao stresse dos fins de semana.”

Comecemos pelo fim: a família vista pelos olhos do cão…
Quis mostrar um casal e três filhos, numa sexta-feira à noite, exaustos, cada um com o seu programa a colidir com o dos outros e a discutir quem tem razão. O cão observava, sem ter a noção do tempo dos humanos. Tem aquilo que advogo no livro: ouvir, parar, pensar e refletir antes de fazer e de ser dono do tempo.

O mal-estar infantil e juvenil, aliviado com fármacos, por vezes em excesso, pode ser evitado?
As chamadas drogas sempre existiram. Podemos drogar-nos até com trabalho e desporto. Fugimos à realidade quando ela se torna pouco suportável. Temos de aceitar que somos finitos e que o tempo é escasso. As fugas para a frente criam a disrupção dos ritmos biológicos do animal que somos. Mudar o quotidiano implica parar e pensar.

O que pensarão as mulheres portuguesas que, à luz de um estudo, só têm 54 minutos do dia para elas?
Embora aquém da igualdade de direitos de género, estamos melhor do que há 40 anos. Se nós e as instituições políticas e laborais assumirmos isso, chegaremos à meta em menos de cinco gerações.

Como arranja tempo para fazer tudo o que gosta?
Faço o que me dá prazer. Tenho este grau de liberdade, porque lutei por isso. Quando os meus filhos eram pequenos, não havia sábado sem festa de aniversário. Se era possível iam; quando não era, não iam. Eu sempre lhes disse: não são menos pessoas por não irem a todas. Ir a todas e correr à procura nem se sabe do quê cria um stresse enorme e impede o desfrutar das coisas. Ser humano não é ser perfeito; é aperfeiçoar-se e ter gozo nisso.

Ter sofrido um enfarte contribuiu para ter uma vida mais tranquila?
Acho que não. Penso neste tema há algum tempo e tenho um estilo de vida tranquilo. O problema de saúde teve que ver com uma herança genética.

No livro, retrata os adultos como seres que vivem uma angústia existencial e que a transferem para a prole. O que se passa?
Fui buscar o livro O Macaco Nu (Desmond Morris, 1967) para ilustrar isso mesmo. Construímos sociedades bem diferentes das dos nossos antepassados, mas continuamos a ser mamíferos com crias dependentes, incapazes de fazer escolhas.

Refere-se ao paradigma do sucesso de que tanto se fala?
O ter e o fazer estão a dominar a sociedade. O desejável é que pais e filhos cheguem a casa e que desliguem durante um bocado, envolvendo-se em atividades calmas. É preciso perceber o que queremos da vida e deixar as comparações. “Quero um carro igual ao do vizinho.” Costumo usar o nonsense. “Sabe uma coisa? Vou arranjar uma betoneira”, disse uma vez a uns pais. Eles ficaram a olhar para mim, perplexos. “O meu vizinho também tem uma.” A frugalidade é preferível à ganância do ter por ter: quando se tem algo, isso perde o interesse.

Há quem diga que as obras sobre a parentalidade geram sentimentos de culpa e de inadequação nos pais. Confirma?
Nos meus livros, procuro tranquilizá-los, mas uma pessoa que leu este título disse-me que ficou inquieta. A ideia é mesmo essa: dar mais poder aos pais, sem que eles tenham receio de reconhecer os seus erros. Quando se queixam do comportamento dos filhos, sugiro que pensem como uma empresa, que reúnam o conselho de administração num sítio agradável e conversem, usando até o método de análise SWOT (Forças, Fraquezas, Oportunidades, Ameaças), e que descubram, por exemplo, “uma maneira de fazer com que o Zé se torne mais persistente sem ser casmurro”.

Sobre a hiperatividade: doença, sintoma de mal-estar ou, como se queixam alguns adultos, falta de educação?
De facto, há uma ideia de que tudo o que se mexe é hiperativo e de que todos os que sonham têm défice de atenção. Retirando os casos de dispersão e a falta de concentração, com hiperatividade sem aspas, posso dizer que as crianças vivem numa contenção enorme e com excesso de vigilância. Em vez de apanharem ar puro e de brincarem na rua, passam o tempo em espaços fechados, e até os prisioneiros têm mais liberdade do que elas, como se disse num estudo recente.

Pertence a uma família numerosa e foi por várias vezes pai. Como lidava com as birras e com os maus comportamentos?
Tentamos sempre definir regras e explicar por que razão elas existem. Dizer só “Manel, não faças isso” resulta em ameaças e em castigos – “ficas sem ver televisão durante uma semana” – que não se cumprem. Mesmo que a criança obedeça, fica à espera de que o regime caia para fazer o que quer. Freud explicava isto bem. No território da fantasia, há total liberdade, posso pensar que sou serial killer, mas o polícia interno refreia-nos e permite desenvolver a empatia: “Extirpar pessoas não é bom. E mesmo que o seja, já pensaste no que a pessoa sentirá?” O bom polícia vem dos pais. A atitude deles permite que a criança ultrapasse a fase narcisista e interiorize que há coisas que não pode fazer.

O que os pais precisam de saber para estar de bem com a vida e facilitarem a dos filhos?
Parar para pensar, sem medo. Ser frugal e pôr fim à ânsia, quase ganância, do ter. Contemplar, deleitar-se, descobrir a vida. Nas relações com o próximo, não criar um colete de forças sentimental à volta dos outros por terem opiniões divergentes. Apreciar as microexpressões, o silêncio, as pausas, como numa composição musical que não é possível sem elas.

Qual a fatura de crescer a despachar, em modo acelerado?
Um filho stressado é menos autónomo, independente e responsável. Não somos donos deles nem eles são réplicas nossas, mas podemos influenciá-los através de valores que lhes damos. Se inventámos as máquinas foi para nos permitirem dedicar-nos à criatividade, à fantasia e à arte. A ligação do corpo com a Natureza, por exemplo, está completamente esquecida na escola. É quase um crime.

É também um alerta que faz aos professores.
Durante quase 40 anos fui professor, sei que eles nem sempre são bem tratados face à importância que têm. Porém, ao entrarem numa aula, desliguem dos problemas e descubram coisas novas com os alunos. Lembro Agostinho da Silva, a quem perguntaram sobre o que iria falar numa apresentação, que respondeu: “O que quereis saber?”

 

 

9 Estratégias para ajudar o seu filho com dislexia

Abril 10, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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up to kids

Texto e imagem do site Up to Kids

Está ao alcance de qualquer pai. Não precisa ser um especialista. Mas ajudar o seu filho que apresenta um quadro de dislexia pode ser um desafio.  Para que consiga desenvolver algumas competências ou fortalecer a sua autoestima há estratégias simples que pode seguir. Algumas, cujo respetivo sucesso só depende de si.

Antes de mais, tenha em atenção que as crianças (e as famílias) são todas diferentes. E, como tal, há abordagens que resultam e outras que podem não surtir efeito. Não entre em pânico se as primeiras estratégias não forem eficazes. É normal que, só depois de as experimentar, consiga encontrar e escolher a que melhor serve o seu filho. Eis algumas que pode tentar em casa:

  1. Leia em voz alta todos os dias.

Se o seu filho ainda é criança, aconselhamos a leitura de livros de banda desenhada. Se for um pouco mais crescido, uma história do famoso Harry Potter pode ser uma boa solução. Para um adolescente, considere a leitura de artigos de revista, jornal ou talvez uma receita. A sua leitura em voz alta, de forma diária, pode permitir ao seu filho compreender e expandir com maior probabilidade de sucesso a sua base de conhecimento global. Pratique.

  1. Perceba quais são os interesses do seu filho.

Uma criança com dislexia e outros problemas de leitura consegue interessar-se mais facilmente por um livro se o respectivo tema for do seu interesse. Experimente, por exemplo, histórias de mistério, banda desenhada, livros de desporto e  de artistas musicais. Investigue.

  1. Use áudio-livros.

A internet é um grande contributo e pode ajudá-lo a encontrar os temas mais desejados. Nas livrarias, alguns livros também já são vendidos em formato digital. Sabia que, ouvir uma história no computador (ou no tablet) enquanto se olha para as respectivas palavras, pode ser uma boa ajuda para ensinar o seu filho? É verdade. A estratégia pode permitir ao seu filho relacionar os sons que está a ouvir com as palavras que vê. Experimente.

  1. Procure aplicações na internet e outras ajudas tecnológicas.

Processadores de texto e de correção ortográfica podem ajudar as crianças com problemas de leitura e ortografia. Os programas de reconhecimento de voz também podem ser importantes para o desenvolvimento destas competências do seu filho. Deixe-o ditar as suas ideias em vez de as digitar. É um bom exercício. Na internet, não faltam aplicações que permitem desenvolver as habilidades de leitura. Procure.

  1. Observe e tome notas.

Observe o seu filho mais de perto e tome notas sobre o seu comportamento. Verá que ajuda a revelar padrões e a identificar os problemas. As suas anotações podem ser preciosas para os professores na escola, os médicos e outros profissionais. Tudo começa por aqui.

  1. Concentre-se no esforço, não no resultado.

Estimule o seu filho a querer melhorar. O seu encorajamento constante vai ajudá-lo a permanecer motivado. Faça-o perceber a importância dos afetos, dos abraços, dos beijos. Sempre que sentir pequenos progressos partilhe com ele e reconheça-o. Esse reconhecimento é fundamental para o seu desenvolvimento. Ao mesmo tempo, reforce a ideia de que errar é humano e que todos nós erramos.

  1. Perceba o que se sente.

Através dos olhos do seu filho tente perceber o que pode estar a sentir. Esse exercício é importante na medida em que o pode ajudar a saber lidar com os problemas e com as soluções. Se os pais souberem o que o filho está a sentir em determinado momento menos difícil, será essa a escolha da estratégia mais correta a seguir. Experimente até acertar na mais eficaz.

  1. Faça da sua casa uma biblioteca.

Coloque vários livros que podem interessar ao seu filho espalhados pela casa. Na sala, nos quartos e até na casa de banho. O seu filho sentir-se-á estimulado para a leitura. Quando sair à rua, por exemplo, para comer uma pizza, dar um passeio ou fazer uma viagem, leve consigo um livro. E, sempre que possível, leia-o em família para que seja discutido em conjunto. Seja criativo e encontre maneiras de incentivar a leitura e a escrita.

  1. Aumente a confiança.

Use as atividades extracurriculares e outros passatempos para ajudar a melhorar a autoestima e a resiliência do seu filho. Experimente diferentes formas de identificar, construir e reforçar os seus pontos fortes.

 

 

 

“Poderíamos prevenir doenças se durante a infância tivéssemos tempo com os nossos pais”

Abril 9, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Expresso de 27 de março de 2019.

Conte o tempo que passa todos os dias com o seu filho. Conte os minutos em que está com ele e não está a despachá-lo para ir para a escola, a dar-lhe o jantar ou a prepará-lo para a cama. Conte quando está mesmo com ele. Quanto tempo tempo brinca diariamente com o seu filho?

Estar não é estar presente. Estar presente é muito mais do que estar apenas ali. Estar com um filho é ter tempo para brincar. E é também a importância destas horas que estão na base da Greenspan Floortime, uma abordagem desenvolvida no final dos anos 70 do século passado pelo psicólogo infantil norte-americano Stanley Greenspan.

Este modelo tem sido aplicado em crianças com perturbação do espectro do autismo. Falámos com Jake Greenspan que é, além de filho do fundador da abordagem, um dos responsáveis pelo centro de desenvolvimento Greenspan Floortime, em Washington, nos EUA. Esta quinta-feira, está em Coimbra para um workshop.

Qual é a génese desta abordagem?
O meu pai foi um dos primeiros médicos a defender que logo no nascimento as crianças têm emoções. E que são também estas primeiras experiências emocionais que influenciam a forma como estamos no mundo: aquilo que nos assusta e o que nos entusiasma, o que gostamos e o que detestamos. Até essa altura – estávamos no final da década de 70 – acreditava-se que só por volta dos três ou quatro anos é que as nossas emoções e traumas se desenvolviam. Na realidade, lembramo-nos de todas as experiências anteriores, que ficam gravadas ao nível neurológico. É mais ou menos assim que começa a desenvolver a sua teoria: a Greenspan Floortime. Acreditava que passamos por seis fases desenvolvimento e que as emoções são a força propulsora da vida. Por exemplo, não desenvolvemos a linguagem e o pensamento apenas por uma razão cronológica, mas sim porque as nossas experiências emocionais nos levam a explorar e a aprender, tal como também nos podem reprimir. Defendia que ao controlarmos o ambiente a que a criança é exposta e ensinando os pais a interagirem com os filhos de uma forma mais carinhosa e positiva se pode “religar” o cérebro. Quando há uma predisposição para um atraso na fala ou um défice social, isso pode significar que aquela parte do cérebro não está a funcionar tão bem como as restantes e, aumentando a quantidade de experiências emocionais significativas, pode “religar-se” essa parte do cérebro. E é a isso que chamamos a Floortime: em que os pais, filhos e terapeutas passam mais tempo no chão a conhecerem-se e em que os adultos ouvem mais vezes as crianças.

Porque são tão importantes as emoções?
Sabemos que o cérebro organiza as informações principalmente de duas formas. Por exemplo, quando olhamos para uma cor e vemos que é azul, essa é a primeira forma. Depois, sendo consciente ou não, fazemos logo a distinção se gostamos ou dessa cor. Essa é uma distinção emocional e a segunda forma. Todos guardamos um ficheiro emocional associado a cada experiência. É por isso que aquilo que gostamos procuramos fazer mais vezes, enquanto tentamos evitar o que não gostamos – sobretudo as crianças. Se passarmos um bom bocado a conversar, jogar ou a olhar para alguém vamos querer voltar a fazê-lo. No entanto, se for uma má experiência, não queremos repetir. As emoções são uma das partes mais importantes da forma como o cérebro funciona.

E de que forma a Greenspan Floortime é útil para uma criança com perturbação do espectro do autismo?
Isso depende de cada criança. Diria que a abordagem é tão boa quanto o tempo que lhe dedicarmos e nos EUA temos muitas famílias que, em casa, não dedicam o suficiente, acabando por desistir. Por outro lado, as famílias que seguem o programa tal como se fosse um plano de medicação têm resultados. Algumas crianças – e não estou de todo a dizer que isto é uma cura para o autismo – foram tiradas da categoria da perturbação do espectro do autismo. Ou seja, inicialmente, foram avaliadas por um médico que diagnosticou a perturbação do espectro do autismo e agora, depois da nossa abordagem, foram reavaliadas e já não se enquadram nos critérios. Claro que não tenho a certeza de que o diagnóstico foi desde logo bem feito, mas o que é certo é que já não apresentam os sintomas que apresentavam. Outras crianças têm tido progressos mais pequenos, depende sempre da capacidade de cumprimento do plano e do perfil biológico de cada criança.

Na prática, o que é que é feito?
Existe um laço biológico entre pais e filhos, essa relação deve ser parte do programa. Alguns estudos defendem que o cérebro da criança fica mais ativo com a voz dos pais do que com a voz de um estranho. As partes do cérebro que estão mais ativas são os centros emocionais, comunicacionais e sociais. E, por definição, o autismo é um atraso ou uma dificuldade em comunicar e relacionar-se com os outros, ou seja, no desenvolvimento das capacidades socioemocionais. Portanto, quem melhor que os pais para estimular essas partes do cérebro? Ao mesmo tempo, os pais não podem fazer tudo sozinhos e também precisam de orientação. O ideal é ter o acompanhamento de pelo menos um profissional que entenda a abordagem.

Que tipo de exercícios fazem?
Não há exercícios específicos. A ideia do Floortime é que devemos seguir as crianças para ativarmos o seu cérebro, a criança tem de ser um participante ativo e a única forma de garantir que participa é fazendo as coisas que ela quer fazer: se gosta de camiões, usamos camiões; se gosta de correr, corremos com ela; se gosta de andar as voltas, ajudamos a dar voltas. É baseado nos interesses de cada um, não nas idades.

Qual o tempo necessário até se verem resultados?
O único estudo alguma vez feito sobre a quantidade de tempo a que a criança deve estar exposta a esta abordagem concluiu que para conseguir uma mudança neurológica significativa, o mínimo de tempo são 20 horas por semana, ou seja, uma média de três ou quatro horas diárias.

Quais as melhorias ou mudanças registadas?
Cada uma das crianças com que lidamos torna-se mais ligada, feliz e em sintonia com as pessoas que se preocupam com ela. Torna-se mais amável e ama mais. Basicamente, constroem-se relações. Depois, melhora a sua comunicação e não estamos, necessariamente, a falar da linguagem. A forma como todas as crianças comunicam antes de desenvolverem a linguagem é com o corpo: sorriem, choram, apontam, acenam, puxam, empurram… E, na maioria das crianças com autismo, ninguém retrocede para trabalhar com elas primeiro a linguagem corporal e só depois a linguagem.

Acredita que esta abordagem deve ser combinada com outras terapias?
Não, mas apenas porque o que queremos realmente é que esta abordagem seja usada pelo terapeuta da fala, pelo terapeuta ocupacional, pelo professor de educação especial… todos devem usar a abordagem. Não é combinada com nada, é usada dentro de cada uma dessas sessões.

Pelo menos em Portugal, a Greenspan Floortime não é uma abordagem amplamente conhecida. Como espera que isto seja recebido?
O melhor que guardo da experiência no estrangeiro é a dinâmica familiar que não há nos EUA. É muito mais próxima e as famílias gostam de estar mais tempo juntas. Isso é fundamental para desenvolver esta abordagem com sucesso. Infelizmente, nos EUA é o contrário e estamos a ir contra a norma cultural ao dizermos aos pais para passarem tempo com os filhos. Aqui, os pais já passam tempo com os filhos, estamos apenas a ensinar estratégias para conseguir extrair resultados disso. Sei que em Portugal ainda não é uma abordagem muito difundida, embora creio que existem duas ou três clínicas que a aplicam.

Posso concluir da nossa conversa que, independentemente de as crianças terem ou não uma perturbação do espectro do autismo, acredita que é essencial os pais terem tempo para brincar com os filhos?
Correto. Estudos recentes defendem os benefícios de cada um dos pais estar pelo menos 30 minutos diários com os filhos. E a nossa abordagem defende o mesmo, apenas dez vezes mais tempo que esse [risos]. Cada criança precisa do tempo e da atenção dos pais e os 30 minutos por dia são o mínimo dos mínimos. Sinceramente, acho que poderíamos prevenir determinadas doenças no futuro se durante a nossa infância tivéssemos tempo com os nossos pais. Funciona assim como uma espécie de medicamento em antecipação. Talvez não resultasse em algumas crianças, mas pelo menos estaríamos a começar a intervenção mais cedo. Este é o nosso objetivo: que as todas as famílias percebam a importância de brincar com as crianças. E, se existir um factor biológico que provoque algum tipo de atraso no desenvolvimento, então intensificamos consoante a necessidade de cada uma delas.

 

 

Brincamos muito pouco com os nossos filhos

Abril 8, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Ana Francisconi on unplash

Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no DN Life de 27 de março de 2019.

Vivemos todos uma vida acelerada e sem tempo para nada. Ou melhor, sem tempo para aquilo que deveria ser o mais importante, essa é a verdade. E de entre as várias coisas para as quais não temos tempo, brincar com os nossos filhos assume-se como uma delas. Talvez mesmo a principal.

Proponho que façamos todos um breve exercício que, prometo, não irá demorar mais do que cinco minutos.

Pegue numa folha branca e desenhe um círculo. Depois, divida esse círculo em cinco fatias (como se fosse uma pizza), relativas ao tempo médio despendido com a família, apenas com os filhos, no trabalho, com amigos ou em actividades de lazer, e em outros contextos.

Já está? Certo.

Desenhe agora um segundo círculo, relativo apenas ao tempo despendido com os seus filhos. Divida este círculo em quatro fatias, relativas ao tempo que, em média, ocupa com as rotinas (p. ex., banho, refeições), a ensinar (p. ex. trabalhos escolares), a brincar (brincadeira pura e dura) ou sem qualquer tipo de interacção (p. ex., as crianças estarem a ver televisão ou a brincar sozinhas).

Agora que terminou ambos os círculos, observe com atenção e reflicta. O que pensa? O que sente? O que gostaria que fosse diferente? O que pode fazer para mudar?

Este exercício tem como objectivo ajudar os pais a tomar consciência de quão pouco tempo passam a brincar com os seus filhos, sendo que a interacção lúdica se assume como especialmente importante para o desenvolvimento de vínculos afectivos. Este tempo de interacção, que diversos autores chamam de “tempo especial”, permite não apenas fortalecer os vínculos afectivos, como também potenciar a aprendizagem através do brincar. É através da actividade lúdica que a criança apreende e aprende, que interage com os outros e com o mundo. A projecção e o jogo simbólico permitem desenvolver competências muito diversas, como a empatia, a capacidade em tolerar a frustração e a resolução de problemas. É através da brincadeira, também, que a criança comunica aquilo que pensa e sente. Que se relaciona com os outros e, ao mesmo tempo, que se organiza dentro de si própria.

Desejamos muito que os nossos filhos nos sintam como pessoas de confiança, a quem possam recorrer se precisarem de algum tipo de ajuda. Queremos ser os seus confidentes e guardiões dos seus segredos. Para isso, é preciso tempo de interacção. Brincar com eles ajuda.

Após este exercício, desafio os pais a criarem tempos especiais, em que devem brincar com os seus filhos. Sem estarem particularmente preocupados em que aprendam algo, mas “apenas” brincar. Bastam 10 a 15 min, diariamente ou a cada dois dias. Para as crianças, garanto que serão os minutos mais preciosos do dia.

Vamos experimentar?

(Já agora, e que tal reflectir sobre as outras fatias do tempo?).

 

 

“Os filhos são as primeiras vítimas do stress dos pais. E de forma muito violenta”

Abril 5, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto e foto do site NIT de 19 de março de 2019.

Não é novidade para ninguém. Cada vez mais parece que a sociedade ocidental vive a um ritmo acelerado, com as pessoas na rua a correrem de um lado para outro, com menos tempo para as refeições, para o lazer, e, em geral, para tudo. Isso faz com que todos fiquemos mais stressados e, como sabemos, o stress é contagiante.

Que o diga o pediatra Mário Cordeiro, especialista na área da saúde infantil e ex-professor universitário. É autor de vários livros e tem um novo trabalho. “Pais Apressados, Filhos Stressados” foi publicado a 15 de fevereiro e é uma edição da Desassossego. Tem 240 páginas e está à venda por 14,94€.

O pediatra dá consultas a muitas crianças que apresentam sintomas de stress por causa da forma como os pais vivem e gerem a sua vida. As refeições à mesa são um dos exemplos que dados no novo livro.

“Curiosamente, numa altura em que tanto se fala do ‘regresso ao básico’ e às dietas do Paleolítico, valha isso o que valer, a hora das refeições parece estar cada vez mais relegada para segundo (ou quinquagésimo segundo) plano”, escreve Mário Cordeiro.

“O pequeno-almoço raramente é tomado e, quando o é, toma-se de pé, a correr, com a escova de cabelo numa mão e a escova de dentes na outra. Ao almoço está cada um em seu lado — as crianças na escola ou sozinhas em casa em frente ao televisor, os pais no emprego, os avós sabe-se lá onde —, o lanche não existe (engole-se meia dúzia de ‘faz-de-conta-que-são-alimentos’ altamente calóricos, mas que se podem comer com as mãos ao volante ou enquanto se leem os jornais nos transportes públicos; desde que sejam doces ou carregados de açúcar, ou então pastéis fritos) e, finalmente, o jantar é muitas vezes um momento em que cada um chega à sua hora e procura qualquer coisa que lhe cale o apetite e que não lhe consuma muito tempo a preparar — o dia já vai longo e são quase horas de o despertador tocar outra vez, além de que cada um precisa ‘urgentemente’ de ir para o seu ecrã, seja computador, televisão, tablet ou telemóvel. A refeição é vista, assim, como ‘mais uma’ maçada, uma perda de tempo, uma chatice consumada, uma prova da ausência de liberdade para gerirmos o (escasso) tempo de que dispomos. Infelizmente, são cada vez menos os que olham para o espaço-refeição como um espaço de libertação.”

Neste livro, o pediatra dá dicas aos pais para tentarem mudar os hábitos do dia a dia — o objetivo é melhorar a própria qualidade de vida e, claro, a dos filhos. Mário Cordeiro explica de que forma é que o stress dos pais influencia os filhos. A NiT entrevistou o especialista.

É muito comum ter crianças stressadas entre os seus pacientes? Foi por isso que quis escrever um livro sobre este tema?
Creio que andamos todos stressados, em certo grau, mas muitas pessoas ultrapassam os limites da razoabilidade e, sim, encontro muitos pacientes, pais e filhos, muito angustiados, inquietos e descontentes com os seus estilos de vida e com o quotidiano. A observação da sociedade, passatempo que me fascina, revela-me muitas coisas que demonstram este grau de stress, latente e patente, na sociedade e, portanto, nas pessoas, em todos os seus ecossistemas: casa, escola, rua, lojas, empregos… Até nas férias. A razão do livro reside aí, claro, se bem que escreva, também, por prazer e por “upgrading” intelectual, dado que me obriga a “ginasticar os neurónios” e a ler, rever, debater, pesquisar, investigar… O meu lado científico fica radiante com estas coisas, bem como o de escritor e leitor.

Se os pais estiverem stressados, devem esconder isso dos filhos, para não os preocupar e stressar?
Creio que o stress não é passível de esconder. Impossível. Os filhos leem os pais, a alma dos pais, através de tudo: o nosso sistema nervoso autónomo que, como o nome indica, é independente da vontade, gere a produção hormonal das suprarrenais e de outras glândulas: as hormonas adrenalínicas e as endorfínicas. As primeiras, quando produzidas em excesso ou desajustadamente, acabam por produzir stress, manifestando-se numa série de pormenores comportamentais e fisiológicos, do tónus muscular ao brilho do olhar, do timbre de voz à inquietação da própria pessoa. Claro que os pais podem poupar os filhos de várias formas: não andarem stressados para não andarem, consequentemente, irritados, sem paciência, deixando de pensar que “crianças são crianças” e evitando cair até no ridículo que é dizer a um filho de dois ou três anos: “Não sejas criança!” e coisas assim; por outro lado, envolver as crianças em discussões e assuntos com acrimónia, que elas não entendem, apenas sobrará para elas os gritos e berros, mesmo até que a discussão possa ser sobre o Brexit ou sobre o futebol… Finalmente, o stress é contagioso, no sentido em que, quando um elemento da família está “à beira de um ataque de nervos”, todos os outros ficam também em stress, e estou em crer que este estado de coisas, vivido semanas após semanas, meses após meses, mina totalmente o amor, a cumplicidade, o “trabalho de equipa” da família, levando também, estou em crer, a muitos dos divórcios, separações e conflitos entre pais e filhos.

Que dicas práticas costuma dar às pessoas que enfrentam este problema?
As que constam do livro, em que exemplifico amiúde situações de stress no quotidiano. A primeira e mais importante é parar para pensar. Parar para pensar e refletir sobre o dia a dia, sem ter receio do que se pode encontrar mas, pelo contrário, entender que esse processo de análise pode conduzir a encontrar graus de liberdade para ajustamentos – mesmo que pequenos – que levam a uma melhor qualidade de vida e, até, a uma nova hierarquização das prioridades. Por outro lado, há que separar claramente a nossa parte de ação, trabalho, escola, fazer, empreender, etc., e a parte de descanso, lazer, prazer, gozo e afetos… Se isto não se faz, se trazemos tendencialmente para casa as “guerras” do trabalho, do trânsito, do “mundo lá fora”, então estará tudo contaminado e as crianças, claro, serão as primeiras a sofrer com isso e de uma forma muito violenta. É bom ter isso em mente, quando nos interrogamos sobre que tipo de vida queremos ter e proporcionar aos nossos filhos. Andamos a correr, a correr, a correr, arrasando tudo e todos, mas para onde, para quê e porquê?

Quais são as causas mais comuns para o stress dos pais que, por sua vez, passa para os filhos?
A relação laboral, que no nosso País é completamente absurda (e a escolar, nas crianças), ultrapassando o que o trabalho deve constituir: uma forma de dignificação do ser humano, de utilidade social, de realização de talentos e capacidades, e não de escravatura; o trânsito ou, dito de outra forma, as deslocações, os problemas de mobilidade, as horas e horas que se perdem, diariamente, dentro de um automóvel a vociferar com tudo e todos; a crispação relacional, muito comum a todos os níveis, até quando vamos pedir um café numa esplanada ou comprar o jornal no quiosque, e as redes sociais que estimulam o dislate, a agressão, a violência verbal no anonimato e o descarregar catártico de tudo o que há de pior na condição humana. A tecnologia, que prezo e da qual gosto e uso, quando hiper-utilizada e não controlada, também invade o espaço de descanso mental e físico, e “estoira” com o equilíbrio da pessoa e das que a rodeiam. Os filhos, obviamente, são as primeiras vítimas desta situação, não apenas porque são os “sacos de pancada” do stress dos pais, mas porque são forçados, desde o nascimento, a ritmos e hábitos que, muitas vezes, estão em plena contradição com as suas necessidades irredutíveis biológicas, psicológicas e sociais.

Que outros problemas é que o stress costuma desencadear nas crianças?
O mesmo que nos adultos: irritabilidade, desconcentração, incapacidade de escutar o outro e até de reconhecer que ele pode ter razão, obstinação, egocentrismo, falta de paciência, vontade de “emigrar para uma ilha deserta”, má performance escolar… Enfim, um cortejo de atitudes e comportamentos (e sentimentos) que não são nada bons e que se resumem a muita infelicidade, frustração e mais stress.

 

 

 

Erros alimentares das crianças são responsabilidade dos pais

Abril 3, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da TSF de 18 de março de 2019.

Rita Costa

Ou porque compensam com doces, ou porque não dão o melhor exemplo, os pais acabam por cometer erros na alimentação dos filhos. O alerta é da nutricionista Helena Canário.

“Dar a uma criança com menos de 12 meses refrigerantes como um ice tea, que é uma bebida que os pais consideramque não faz mal, mas que tem imenso açúcar” é um erro crasso, defende a nutricionista Helena Canário.

“TSF Pais e Filhos”, um programa de Rita Costa, com sonorização de Miguel Silva

A nutricionista acredita que “a maioria dos erros acaba por ser a compensação que se dá porque não se está todos os dias, ou porque os meninos estão no infantário e os pais não estão presentes na hora da refeição”.

“Provavelmente, no momento em que estão juntos, os pais não querem ser os maus da fita”, afirma Helena Canário, que reconhece que dizer sim é mais fácil. “Por isso, muitas vezes os pais vão prevaricando e oferecem às crianças alimentos que não são os mais saudáveis.”

Outras vezes, o problema deriva do exemplo e por desconhecimento, ou não, os pais cometem erros alimentares: “Os hábitos da criança refletem os hábitos da família.” “A maioria das crianças tem alguma relutância em consumir fruta e vegetais, mas isto porque, se calhar, os seus pais não os consomem em quantidade”, sublinha Helena Canário.

Ouvir as declarações de Ana canário no link:

https://www.tsf.pt/sociedade/saude/interior/erros-alimentares-das-criancas-sao-responsabilidade-dos-pais-10688465.html?fbclid=IwAR1uBJ2WG0fhr2-G-fWCfIfPPEfIeY5FMm60IfdSdZtfRsDroe5PG7L4sfM

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