18 coisas que todos os pais fazem às escondidas

Janeiro 12, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto e foto da Activa de 26 dezembro de 2018.

Claro que somos pais abertos e honestos, mas uma mentirinha aqui e ali não mata ninguém, principalmente se for para manter a paz entre as nações. Ou entre pais e filhos.

Catarina Fonseca

**artigo publicado originalmente em setembro de 2016

1 Resumir a história dos Três Porquinhos. “Era uma vez três porquinhos e depois… eh… um deles fez uma casa de pedra e depois veio o lobo e teve de entrar pela chaminé. Fim.”

2 Adoçar o fim. “O lobo entrou pela chaminé mas depois… eh…” não caiu nada num caldeirão de água a ferver, coitadinhos dos miúdos, depois ainda têm pesadelos e eu preciso de dormir, então, “o lobo entrou pela chaminé e depois ficaram todos amigos e sentaram-se a lanchar”. Pronto. Pela concórdia entre os povos.

3 Comer porcarias depois de as crianças estarem na cama. AHHHHHHH, uma batatinha frita! Temos de dar bons exemplos enquanto estão acordados, mas ninguém diz que temos de continuar a dá-los depois de estarem a dormir. Certo?

4 Estar no Facebook enquanto se finge que se brinca. “Sim, a mãe já vai esconder-se… espera aí um bocadinho… Olha, vai recortando este desenho para depois colarmos… Agora desenha aí, eh, um burro… Nunca viste um burro? Ó pá, desenha um carro. Depois recorta o carro…” Isto tudo enquanto se espetam variados likes e se percorrem vários ‘quintais’. A criança, que não é burra, começa a perceber que a mãe só ali está fisicamente e há uma altura em que se tem mesmo de largar os amigos virtuais e voltar à criança real, mas enfim, uma pessoa não é de pedra.

5 ’Perder’ a chucha. Há quem seja democrata e faça acordos do tipo ‘Se deixares a chucha, eu levo-te à Eurodisney’ (pronto, eu levo-te à praia ao fim de semana). Mas a esmagadora maioria opta pelo ‘não sei da tua chucha, a sério que não sei, acho que vais ter de dormir sem ela’.

6 ‘Perder’ o brinquedo que apita. Os tios ou o seu melhor amigo resolveram dar-lhe o que ele sempre quis: uma bateria. Ou um daqueles telemóveis a fingir da loja do chinês que descarregam uma música chinesa em agudos que ninguém merece, assim que lhe tocam. Claro que a criança ama. Sorriso amarelo da mãe. Ai que lindo, o que ele sempre quis isso! Pois sempre quis, mas havia uma razão para nunca ter tido: ainda só passaram dois minutos e já ninguém aguenta o chinfrim. Teme que os vizinhos a obriguem a mudar de prédio. E de país. Daqui a nada de certeza que alguém chama a polícia. E todos os pais merecem sossego. Amanhã, quando ele acordar, a bateria e o telemóvel de plástico desapareceram misteriosamente. Fugiram de casa. Pluft. Nunca mais ninguém os viu (nem verá, se Deus quiser).

7 Dar-lhe o telemóvel para que ele coma sossegado. Pois toda a gente sabe que não se deve fazer, que eles depois vão ficar zombies tecnológicos sem coração, mas no momento presente a gente quer é que ele coma o raio das ervilhas. Pronto, os douradinhos. Qualquer coisa. Nem que para isso seja preciso ‘capitular’ e deixá-lo ver desenhos animados no smartphone.

8 Usar a criança como desculpa. “Ai ó Sofia, não vamos poder ir ao vosso churrasco anual de verão, o Manelzinho tem uma festa e já confirmou há semanas. Sabes como é, ser mãe é não ter um momento de descanso, festinhas a toda a hora.” E também é ter uma fantástica desculpa para não sair de casa quando não lhe está mesmo nada a apetecer.

9 Dizer ‘quando viermos para baixo’. É uma ‘peta’ clássica, já utilizada pelas nossas mães. “Sim, filho, esse carrinho é lindo, mas agora não temos tempo, olha, quando viermos para baixo a mãe compra-te, ok’.” Está bem abelha. Quando vierem para baixo vêm estrategicamente por outro caminho, outra rua, ou de táxi, ou de metro, ou ele já não se lembra, ou vem a dormir. Coitadinhos dos miúdos, passam a vida a ser enganados, mas sabem-no. Todos os miúdos à segunda vez sabem que isto é tanga, mas enfim, por um lado não há nada a fazer, e por outro a esperança é a última a morrer…

10 Pedir a mais no restaurante só para acabar o esparguete à bolonhesa. “Não comes um prato todo, pois não? Então a mãe pede o esparguete e depois acaba o que tu não queres, está bem?” Os sacrifícios que uma mãe faz por um filho.

11 Dizer-lhe que o carro do Nodi está estragado. Ou a Abelha Maia. Ou o cavalinho. Ou a mota. Ou o mini-carrossel. Nenhuma criança resiste às máquinas de diversão dos centros comerciais, mas quase nenhum pai lá vai pôr a moedinha para aquilo andar… E no entanto é uma felicidade tão grande por uma quantia tão pequena…

12 Dar-lhe aquele livro que adorámos em criança… e que ele nunca vai ler. Se lesse ia adorar, mas o problema é que por um estranho mecanismo de autodefesa, zero crianças fazem de boa vontade aquilo que os pais gostariam que elas fizessem. Por isso, bem pode dizer-lhe ‘Ai ó Tiaguinho o que eu gostei deste livro quando tinha a tua idade” (geralmente tinha aí mais uns 5 anos, se fizer bem as contas), que ele nunca lhe vai pegar.

13 Bisbilhotar os segredos deles. Dantes lia-se os diários dos miúdos, agora vasculha-se o Facebook deles (e os coitados têm de passar pela humilhação de amigarem a mãezinha, senão ficam sem casa e sem herança) à procura de alguma coisa com que stressar. Dica n.º1: Não vai encontrar nada, porque a partir do momento em que eles amigarem a mãezinha, bazam. Dica n.º 2: Caso encontre, não vai saber o que fazer com aquilo. Boa sorte.

14 Fazer ‘contratos’ deseducativos. “Se não comeres o bife todo, não há sobremesa.” Os psicólogos fartam-se de nos dizer que não se deve usar a sobremesa como recompensa, mas lá está, é outra das frases que herdámos das nossas mães e que se encasquetou no nosso DNA e não há nada a fazer.

15 Dizer-lhe que o que eles querem é ilegal. “Sabes que é proibido uma criança com menos de 15 anos deitar-se depois das 10h? Pois é. Está na Constituição.”

16 Jurar que a loja está fechada. “Não podemos lá ir agora, a loja não abre durante o fim de semana, os vendedores estão todos a dormir.”

17 Deixá-los ganhar. Pronto, de vez em quando também somos queridos e simpáticos. Quem é o pai ou a mãe de coração tão empedernido que se empenhe a sério a defender golos ou a chegar primeiro ao ponto de partida? Ok, há alguns que não gostam de perder nem com alguém de 2 anos, mas a maioria faz essa caridadezinha. Pronto, menos no Jogo da Glória, que não conhece pais ou filhos e onde não há nada a fazer: se se cai no inferno, cai-se no inferno e não há volta a dar. Quer se seja pai ou filho.

18 Ficar 5 segundos a olhar para eles enquanto dormem. E a pensar ‘é uma pena que não sejam sempre assim, anjinhos’.

É mau mentir aos filhos?
Segundo o site parenting.com, não faz mal mentir às crianças de vez em quando e sobre certos assuntos: aliás, ‘mentir’ é uma palavra demasiado pesada para situações como a mãe que disse à filha “a minha pasta de dentes cheira a chocolate” para não ter que lhe confessar que, afinal, havia chocolate em casa! Ou quando uma criança de 3 anos pergunta. “Mãe, casas comigo?” ou “Vais ficar comigo para sempre?” Claro que dizemos que sim. Vai ter muito tempo para aprender a verdade.

 

 

 

Na hora de brincar, os educadores desafiam e os pais substituem-se às crianças

Janeiro 11, 2019 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 7 de dezembro de 2018.

Como brincam os pais com os filhos? Como brincam os educadores de infância com os alunos? Há diferenças de género? Estudo mergulha no papel das brincadeiras e compara Portugal com a Alemanha. E mostra que os pais portugueses não estão habituados a brincar.

Bárbara Wong

Uma mala com objectos lá dentro, da caixa dos ovos à máquina de cola quente passando por um martelo, fios, tecidos, purpurinas, rolhas de cortiça, palhinhas, madeiras. O objectivo é, em 20 minutos, um adulto e uma criança fazerem uma actividade em conjunto. Um boneco, um quadro, uma maquete, o que se quiser. Quando os meninos, dos 3 aos 5 anos, realizam a tarefa com o seu educador de infância, este dá-lhes autonomia. Quando a actividade é feita com os pais, estes ajudam e chegam a substituir-se à criança.

Marina Fuertes e Otília Sousa, da Escola Superior de Educação de Lisboa (ESELx), são as autoras de um estudo que foi publicado na revista científica Plos One, em meados de Novembro. O objectivo era perceber como é que os adultos lidam com as crianças em actividades colaborativas. Esta observação começou por ser feita por Holger Brandes, reitor da Evangelische Hochschüle, em Dresden, que propôs a Fuertes replicá-lo em Portugal, de maneira a haver termo de comparação.

Na Alemanha, a ideia de Brandes era perceber se educadores do sexo feminino e masculino colaboram com as crianças de igual forma — “foi um estudo de género”, precisa Marina Fuertes, docente da ESELx e investigadora da Universidade do Porto. Por cá, como a percentagem de educadores homens é diminuta (não chega aos 2%), as investigadoras decidiram alargar a observação aos progenitores. Participaram 55 educadores (dez deles homens), 45 pais (23 mães e 22 pais), 47 rapazes e 48 raparigas, entre os 3 e os 5 anos.

O desafio era, em 20 minutos, levar a cabo uma tarefa com a tal mala cheia de materiais. As diferenças entre a Alemanha e Portugal fizeram-se sentir logo no início da actividade. As crianças germânicas não podem tocar em nenhum material sem antes explicarem ao educador qual é o seu projecto. As portuguesas são incentivadas a explorar a mala. “O educador alemão ajuda a criança a exercitar-se do ponto de vista cognitivo e da sua organização mental. É pedido a uma criança de 3 anos que faça uma planificação prévia. Os nossos [as crianças portuguesas] mexem em tudo”, explica Fuertes.

No entanto, “as crianças portuguesas tomam bastante a iniciativa”, salvaguarda Otília Sousa, docente da ESELx e investigadora do Instituto de Educação, acrescentando que exploram os materiais, os nomeiam e verbalizam o que podem fazer com eles. “A estratégia alemã é muito boa, mas a nossa é melhor em termos emocionais. É dado tempo à criança, as respostas são afectivas, há contacto ocular, não sentem que estão a fazer uma tarefa”, descreve Marina Fuertes.

E a partir daqui a atitude dos adultos também varia. Se os educadores portugueses incentivam a criança a criar sozinha (aconteceu com 21 crianças, em 50), os pais ajudam-na (18 em 45), mas a maioria substitui-a (25 em 45) e faz o projecto por ela (apenas duas crianças o fizeram a solo). Segundo a mesma observação — todos os pares foram filmados, posteriormente o filme foi visto e classificado pelos investigadores segundo uma escala tendo em conta a empatia, cooperação, desafio, atenção e comunicação —, também houve educadores que fizeram as tarefas pelos seus alunos (12), mas não tanto como acontece com os pais (25).

“O adulto não deve fazer [a tarefa] pela criança ou rejeitar as suas ideias, mas pode contribuir para elas. Apesar de tudo, os educadores trabalharam muito em parceria, alguns preferiram seguir a criança mas não ‘abandonaram na tarefa’. Nalguns casos, questionar e dar várias opções à criança também pode ajudá-la a reflectir, a planear, a tomar decisões”, defende Marina Fuertes.

Homens e mulheres agem de maneira

“O género de quem está com a criança também é importante”, informa Otília Sousa. Inicialmente, as investigadoras não encontraram diferenças entre pais e educadores na interacção com as crianças. Contudo, quando se separaram os pais e os educadores de infância homens para um lado e as mães e as educadoras para o outro, surgiram diferenças: os homens tendem a ser mais competitivos, liderando a actividade e promovendo projectos paralelos. As mulheres permitem que a criança participe e promovem um trabalho colaborativo.

Mais: homens e mulheres agem de maneira diferente quando ao seu lado têm um rapaz ou uma rapariga. Com as meninas, os pais homens dão-lhes a oportunidade de trabalharem em conjunto; já com os meninos, os pais fazem a actividade enquanto eles observam. “Com as mães são os rapazes os autores e a mãe apoia. Com os pais, os rapazes são introduzidos numa hierarquia muito cedo: eles são liderados pelos pais e lideram as mães. Apreendem que podem ser líderes ou liderados. Com as meninas, a parceria é maior. As raparigas são introduzidas à colaboração”, diz Marina Fuertes. Desconhece-se se este comportamento terá impacto no futuro.

“A forma como os adultos comunicam com as crianças também é muito interessante”, diz Otília Sousa. Enquanto os educadores dão sugestões, os pais dão indicações. “Quando o adulto manda, o interesse e a participação diminuem; quando sugere, a criança envolve-se e elabora”, acrescenta Marina Fuertes.

O elogio é outra forma de manter os miúdos envolvidos. Não o elogio “a torto e a direito”, mas o “sofisticado”, como: “‘Ensina-me como se faz’; ‘isto é muito interessante, não sabia’; ‘podes ajudar a mãe?’. É a melhor forma de os elogiar”, acredita Marina Fuertes.

O resultado final do projecto também varia de Portugal para a Alemanha, diz Otília Sousa: “Nós temos mais sujeitos animados [as crianças fazem bonecos que personificam as famílias ou animais], e eles [os alemães] fazem mais objectos.”

As investigadoras observaram ainda que os pais portugueses não estão habituados a brincar com os filhos. “Toda a atitude do adulto é de espanto porque não está à espera que a criança saiba fazer”, aponta Marina Fuertes.

Educadores e pais complementam-se

O que era proposto neste estudo passava por construir algo: como se fosse um jogo de legos. E nem as crianças nem os pais têm o hábito de brincar assim. As crianças “são cada vez mais passivas”. “É-lhes dado espaço para brincar, mas não para fazer”, critica Fuertes.

E a comparação volta à Alemanha. Por lá, nas salas do jardim-de-infância há uma mesa de carpintaria a sério, com materiais cortantes, como uma serra. Por cá, isso é impensável. Por lá, há campo para explorar, é comum haver um tanque de areia ou de lama; por cá, os tanques de areia foram retirados das escolas por falta de higiene. Por lá, os meninos podem subir às árvores; por cá nem por isso. “O lado da exploração, o lado mais físico não existe. Afastámo-nos da natureza e higienizámos a brincadeira”, nota Otília Sousa. “Até há 15 anos, no exterior havia árvores, pedras, terra; hoje temos tartan (quente no Verão e ensopado no Inverno). É preciso correr riscos e quanto mais a criança ganha essa noção, nos primeiros anos, mais dificilmente correrá riscos reais no futuro. Estamos a protegê-los tanto, que não estamos a protegê-los e já vemos crianças a correr em superfícies planas e a cair [porque a coordenação motora não está bem desenvolvida]”, lamenta Marina Fuertes.

Em suma, as investigadoras concluem que é importante os pais e os filhos brincarem. Isso melhora a relação, além de que quer uns quer outros aprendem entre si. E também é importante a criança ter várias experiências: “Criar quando lhe dão espaço e regular emoções quando não têm esse espaço, por isso a complementaridade entre educadores e pais é importante”, conclui Marina Fuertes.

E a partir daqui a atitude dos adultos também varia. Se os educadores portugueses incentivam a criança a criar sozinha (aconteceu com 21 crianças, em 50), os pais ajudam-na (18 em 45), mas a maioria substitui-a (25 em 45) e faz o projecto por ela (apenas duas crianças o fizeram a solo). Segundo a mesma observação — todos os pares foram filmados, posteriormente o filme foi visto e classificado pelos investigadores segundo uma escala tendo em conta a empatia, cooperação, desafio, atenção e comunicação —, também houve educadores que fizeram as tarefas pelos seus alunos (12), mas não tanto como acontece com os pais (25).

“O adulto não deve fazer [a tarefa] pela criança ou rejeitar as suas ideias, mas pode contribuir para elas. Apesar de tudo, os educadores trabalharam muito em parceria, alguns preferiram seguir a criança mas não ‘abandonaram na tarefa’. Nalguns casos, questionar e dar várias opções à criança também pode ajudá-la a reflectir, a planear, a tomar decisões”, defende Marina Fuertes.

Homens e mulheres agem de maneira

“O género de quem está com a criança também é importante”, informa Otília Sousa. Inicialmente, as investigadoras não encontraram diferenças entre pais e educadores na interacção com as crianças. Contudo, quando se separaram os pais e os educadores de infância homens para um lado e as mães e as educadoras para o outro, surgiram diferenças: os homens tendem a ser mais competitivos, liderando a actividade e promovendo projectos paralelos. As mulheres permitem que a criança participe e promovem um trabalho colaborativo.

Mais: homens e mulheres agem de maneira diferente quando ao seu lado têm um rapaz ou uma rapariga. Com as meninas, os pais homens dão-lhes a oportunidade de trabalharem em conjunto; já com os meninos, os pais fazem a actividade enquanto eles observam. “Com as mães são os rapazes os autores e a mãe apoia. Com os pais, os rapazes são introduzidos numa hierarquia muito cedo: eles são liderados pelos pais e lideram as mães. Apreendem que podem ser líderes ou liderados. Com as meninas, a parceria é maior. As raparigas são introduzidas à colaboração”, diz Marina Fuertes. Desconhece-se se este comportamento terá impacto no futuro.

“A forma como os adultos comunicam com as crianças também é muito interessante”, diz Otília Sousa. Enquanto os educadores dão sugestões, os pais dão indicações. “Quando o adulto manda, o interesse e a participação diminuem; quando sugere, a criança envolve-se e elabora”, acrescenta Marina Fuertes.

O elogio é outra forma de manter os miúdos envolvidos. Não o elogio “a torto e a direito”, mas o “sofisticado”, como: “‘Ensina-me como se faz’; ‘isto é muito interessante, não sabia’; ‘podes ajudar a mãe?’. É a melhor forma de os elogiar”, acredita Marina Fuertes.

O resultado final do projecto também varia de Portugal para a Alemanha, diz Otília Sousa: “Nós temos mais sujeitos animados [as crianças fazem bonecos que personificam as famílias ou animais], e eles [os alemães] fazem mais objectos.”

As investigadoras observaram ainda que os pais portugueses não estão habituados a brincar com os filhos. “Toda a atitude do adulto é de espanto porque não está à espera que a criança saiba fazer”, aponta Marina Fuertes.

O que era proposto neste estudo passava por construir algo: como se fosse um jogo de legos. E nem as crianças nem os pais têm o hábito de brincar assim. As crianças “são cada vez mais passivas”. “É-lhes dado espaço para brincar, mas não para fazer”, critica Fuertes.

E a comparação volta à Alemanha. Por lá, nas salas do jardim-de-infância há uma mesa de carpintaria a sério, com materiais cortantes, como uma serra. Por cá, isso é impensável. Por lá, há campo para explorar, é comum haver um tanque de areia ou de lama; por cá, os tanques de areia foram retirados das escolas por falta de higiene. Por lá, os meninos podem subir às árvores; por cá nem por isso. “O lado da exploração, o lado mais físico não existe. Afastámo-nos da natureza e higienizámos a brincadeira”, nota Otília Sousa. “Até há 15 anos, no exterior havia árvores, pedras, terra; hoje temos tartan (quente no Verão e ensopado no Inverno). É preciso correr riscos e quanto mais a criança ganha essa noção, nos primeiros anos, mais dificilmente correrá riscos reais no futuro. Estamos a protegê-los tanto, que não estamos a protegê-los e já vemos crianças a correr em superfícies planas e a cair [porque a coordenação motora não está bem desenvolvida]”, lamenta Marina Fuertes.

Em suma, as investigadoras concluem que é importante os pais e os filhos brincarem. Isso melhora a relação, além de que quer uns quer outros aprendem entre si. E também é importante a criança ter várias experiências: “Criar quando lhe dão espaço e regular emoções quando não têm esse espaço, por isso a complementaridade entre educadores e pais é importante”, conclui Marina Fuertes.

 

 

 

Quatro a cada dez crianças não tem vínculos fortes com seus pais

Janeiro 10, 2019 às 10:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Sciencedaily

Notícia do site Psicologias do Brasil

(traduzido e adaptado por Thiago Queiroz, do site Paizinho, da versão inglesa, link original)

Em um estudo com 14.000 crianças dos Estados Unidos, 40% não têm fortes vínculos emocionais – o que os psicólogos chamam de apego seguro – com os pais, que são cruciais para o sucesso mais tarde na vida, de acordo com um novo relatório. Os pesquisadores descobriram que essas crianças são mais propensas a enfrentar problemas educacionais e comportamentais.

Em um relatório publicado pelo Sutton Trust, um instituto com sede em Londres, que já publicou mais de 140 trabalhos de pesquisa sobre educação e mobilidade social, pesquisadores da Princeton University, Columbia University, the London School of Economics and Political Science e University of Bristol descobriram que crianças com menos de três anos de idade que não formam vínculos fortes com suas mães ou pais são mais propensas a serem agressivas, desafiadores e hiperativas como adultos. Estes vínculos, ou apego seguro, são formadas por meio de cuidado parental que inicia muito cedo, tais como pegar uma criança no colo quando ele ou ela chora, ou segurando e tranquilizando uma criança.

“Quando os pais sintonizam e respondem às necessidades de seus filhos, e são uma fonte confiável de conforto, as crianças aprendem a gerir os seus próprios sentimentos e comportamentos”, disse Sophie Moullin, doutoranda estudando no Departamento de Sociologia da Princeton University e do Escritório de Pesquisa Populacional, que é baseado na Woodrow Wilson School of Public and International Affairs. “Estes apegos seguros com suas mães e pais fornecem a esses bebês uma base a partir da qual eles podem florescer.”

Escrito por Moullin, Jane Waldfogel da Columbia University e London School of Economics and Political Science e Elizabeth Washbrook da University of Bristol, Londres, o relatório usa dados coletados pela Early Childhood Longitudinal Study, um estudo nacional representativo dos EUA de 14.000 crianças nascidas em 2001. Os pesquisadores também analisaram mais de 100 estudos acadêmicos.

Sua análise mostra que cerca de 60% das crianças desenvolvem apegos fortes com os pais, que são formados por meio de ações simples, como segurando um bebê com amor e respondendo às necessidades do bebê. Tais ações ajudam o desenvolvimento social e emocional das crianças, que, por sua vez, fortalece o seu desenvolvimento cognitivo, como escrevem os pesquisadores. Estas crianças são mais propensas a serem resilientes à pobreza, instabilidade familiar, estresse parental e depressão. Além disso, se os meninos que crescem na pobreza têm vínculos de apego forte com os pais, eles têm duas vezes e meia menos chances de apresentar problemas de comportamento na escola.

Os cerca de 40% que não têm um apego seguro, por outro lado, são mais propensos a terem linguagem e comportamento mais pobres antes de entrar na escola. Este efeito continua ao longo da vida das crianças, e essas crianças são mais propensas a abandonar a escola, emprego e formação, escrevem os pesquisadores. Entre as crianças que crescem em situação de pobreza, a falta de cuidado parental e apego inseguro antes de quatro anos de idade têm uma tendência forte a não terminar a escola. Dos 40% que não têm apego seguro, 25% evitam seus pais quando eles estão chateados (porque seus pais estão ignorando as suas necessidades), e 15% resistem aos seus pais porque os pais lhes causam sofrimento.

“Este relatório identifica claramente o papel fundamental do apego seguro poderia ter ao estreitar essa lacuna na preparação para a escola e melhorar as oportunidades de vida das crianças. Mais apoio por parte dos visitantes de saúde, centros infantis e as autoridades locais no sentido de ajudar os pais a melhorar a forma como eles criam o vínculo com seus filhos poderia desempenhar um papel na redução do hiato educacional”, disse Conor Ryan, diretor de pesquisa do Sutton Trust.

Susan Campbell, professor de psicologia da University of Pittsburgh, que estuda o desenvolvimento social e emocional de crianças pequenas e bebês, disse que o apego inseguro emerge quando cuidadores primários não estão “em sintonia” com os sinais sociais do bebê, especialmente os seus choros de socorro durante a infância.

“Quando os bebês indefesos aprendem cedo que seus choros serão respondidos, eles também aprendem que suas necessidades serão satisfeitas, e provavelmente irão formar um apego seguro com seus pais”, disse Campbell. “No entanto, quando os cuidadores estão sobrecarregados por causa de suas próprias dificuldades, os bebês são mais propensos a aprender que o mundo não é um lugar seguro — levando-os a se tornarem necessitados, frustrados, afastados ou desorganizados”.

Os pesquisadores afirmam que muitos pais – incluindo os pais de classe média – precisam de mais apoio para fornecer a criação adequada, incluindo a licença de família, visitas domiciliares e apoios ao rendimento da família.

“Intervenções direcionadas também pode ser altamente eficazes em ajudar os pais a desenvolverem comportamentos que promovam o apego seguro. O momento de dar apoio a famílias que estão em risco de oferecer uma criação deficitária, idealmente, começa cedo — no momento do nascimento ou até antes”, disse Waldvogel, co-autor do relatório e professor de serviço social e de assuntos públicos na University of Columbia.

***

Data da tradução: 28/03/2014

 

Daniel Sampaio. “Os pais não devem ver pornografia com os filhos. Tenho casos de homens que o fazem

Janeiro 2, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Daniel Sampaio ao i 15 de dezembro de 2018.

Aos 72 anos, o psiquiatra quer viver até aos 80 e continuar a acompanhar famílias nos anos que tem pela frente.

É no escritório de sua casa, rodeado de livros, que Daniel Sampaio nos recebe para uma conversa que passa pela omnipresença da tecnologia mas também por questões clássicas na prática de um psiquiatra, como álcool, drogas e sexo. Gatos e psiquiatria são algumas das palavras que saltam à vista nas lombadas coloridas. Com uma experiência de mais de 40 anos a acompanhar famílias, adolescentes e casais, Daniel Sampaio defende o envolvimento dos pais na vida dos filhos, mas assinala que os mais novos também têm direito à sua privacidade. E acredita que a falta de tempo de que os pais se queixam é “um falso problema”, porque o envolvimento não passa só pela presença física.

Quando fala da sua família deixa sempre transparecer uma ideia de equilíbrio, de que cresceu com regras mas que os seus pais lhe deram sempre espaço para participar. É esse equilíbrio que faz falta às famílias?

Os meus pais eram pais com muito pouco tempo. Agora ouço pais dizer que não têm tempo, mas isso é um falso problema porque o tempo entre pais e filhos é sobretudo um tempo de momentos. Nós temos é de aproveitar bem os momentos do dia com os filhos, não é preciso estarmos muitas horas, porque o convívio intimo das pessoas que vivem em conjunto proporciona vários pequenos momentos. Os meus pais trabalhavam muito, o meu pai era médico de saúde publica e foi Diretor-Geral de Saúde. Vivemos em Sintra até aos meus 15 anos – portanto infância e parte da adolescência foi passada em Sintra. O meu pai saía muito cedo, voltava tarde, e a minha mãe era explicadora particular de inglês e dava lições todo o dia. O grande contributo para a minha educação foi o aproveitar muito bem o tempo do pequeno-almoço, do final da tarde, da hora de jantar e da hora de deitar, de que eu falo no meu livro “Do Telemóvel para o Mundo”, e proponho esses tempos como tempos essenciais. Depois, o mais importante é que estimulavam muito a participação. Promoviam conversas sobretudo à hora de jantar e nos fins de semana sobre temas variados, da atualidade. O meu irmão tem mais sete anos do que eu, havia uma diferença grande de idades, mas eles conseguiam mesmo assim um equilíbrio de modo a pôr os dois filhos a participar, e isso foi muito estimulante.

Lembra-se de algum episódio em particular?

Lembro-me por exemplo de aos 12 anos, quando Humberto Delgado se candidatou à Presidência da República. Eu não sabia nada sobre Humberto Delgado, o meu irmão tinha 19 e já sabia muito, mas eu fui chamado a participar e a dar opinião sobre Salazar e sobre Humberto Delgado, e era sempre assim. Essa participação foi muito formativa e estimulante.

Referiu-se à falta de tempo como “um falso problema”. Mas a verdade é que isso é algo de que os pais se queixam cada vez mais, não é?

Sim. Os pais usam muito esse argumento, quanto a mim mal. Evidentemente que os pais que têm filhos, crianças ou adolescentes, estão numa fase muito ativa da vida profissional e do ponto de vista físico não têm muito tempo, mas há uma falsa ideia nos pais de que têm de promover conversas com os filhos e estar muitas horas a falar com eles.

Não é isso que os filhos querem?

Nas crianças e adolescentes de hoje, esse não é um bom método porque eles gostam de coisas rápidas e não gostam de estar muito tempo sentados a conversar. Portanto nós temos de aproveitar os momentos em que o pai está a fazer a barba, em que a mãe está eventualmente a preparar o pequeno-almoço ou o jantar, e os filhos podem colaborar. E é aí que pode falar-se sobre o que aconteceu na escola, sobre uma coisa que apareceu na internet, sobre um encontro que eles tiveram. Tem de haver envolvimento emocional dos pais.

Esse envolvimento tem que ver com aquela ideia de que os pais devem ser amigos dos filhos? É defensor disso?

Não sou nada defensor disso, mas sim da renovação da autoridade. O que me preocupa hoje em dia, e tenho muitas consultas sobre isso, são pais que não têm autoridade sobre os filhos, porque eventualmente foram muito camaradas, estiveram muito próximos e portanto ficaram sem autoridade. E na adolescência é preciso ter autoridade, que tem de ser construída, porque uma criança e um adolescente não aceita imediatamente a autoridade do pai e da mãe. O pai verdadeiramente sábio é o pai que conhece bem os filhos e que está próximo dos filhos e daí emana uma autoridade natural. Se eu for muito próximo de uma pessoa, posso influenciá-la. Essa construção da autoridade começa na infância. As pessoas pensam que quem mais influencia são os amigos, os professores, a internet, os namorados; tudo isso é muito importante, mas a grande influência é dos pais. Quando os pais estiveram muito envolvidos e não conseguiram essa autoridade, é natural que haja uma contestação por parte dos filhos adolescentes. Apesar de essa contestação fazer parte do crescimento, se os pais têm uma autoridade natural conseguem ultrapassar esse obstáculo.

Mas essa gestão é um bocadinho complicada, não é? Porque os pais têm de se envolver, mas ao mesmo tempo não podem envolver-se demasiado…

Têm de se envolver afetivamente e isso passa pela proximidade física, pelo carinho, pela ternura, mas passa também pelo respeito da intimidade da criança e sobretudo do adolescente. É preciso haver alguma distância. O quarto do adolescente, por exemplo – é importante que os pais respeitem esse espaço, mas não quer dizer que o filho não tenha de arrumar o quarto de vez em quando. O envolvimento passa não por muito tempo físico, mas por muita atenção, orientação, companheirismo, respeito de parte a parte. Em Portugal devia haver muito mais estruturas que apoiassem os pais, como grupos de pais nos centros de saúde, onde pudessem trocar experiências. Muitos pais pensam que é preciso mandar o filho ao psicólogo e ao psiquiatra, mas nem sempre. Estimulo muito que os pais contactem com pais que tenham filhos da mesma idade porque a troca de experiências é muito importante, o falar sobre a condição de ser pai.

Porquê psiquiatria?

No final do secundário fui muito influenciado por uma professora de filosofia, Maria Luísa Guerra, que ainda está viva e lúcida, julgo que com 92 anos. Era uma pessoa que trabalhava com o grupo dos alunos, mandou-nos fechar o livro, que era muito mau, e dava textos para discutirmos. E portanto criou ali uma dinâmica de grupo muito boa, comecei a interessar-me por psicologia, que em Portugal estava muito pouco desenvolvida. Era filho de um médico, comecei a pensar que podia ir para psiquiatria e entrei na Faculdade de Medicina sempre a pensar que ia ser psiquiatra. Achei que o psiquiatra podia ter um campo mais vasto de atuação, porque pode fazer terapêuticas medicamentosas e pode fazer psicoterapia.

Como começou a dar aulas?

Fui convidado para assistente e depois fiz a carreira toda, que passa por vários graus. Foi muito bom, mas muito difícil. Tenho muitas saudades dos alunos e tenho saudades sobretudo do tempo em que a faculdade era professores e alunos, porque infelizmente a faculdade agora é professores, alunos e burocratas, há muitas pessoas nas faculdades que se perdem a exigir declarações e relatórios. Esses foram os últimos anos da minha carreira, quanto a mim houve muito tempo perdido a fazer relatórios e justificações.

Destaca em algumas conversas o facto de ter tido um gato até aos 18 anos. Os animais fazem falta às famílias?

Tenho tido sempre gatos, toda a vida. Agora tenho uma com 14 anos. Sou completamente um cat lover. Há ali uma oferta [aponta para uma estante] que um neto me trouxe de Roma, que diz “io amo i gatti”. Gosto muito da personalidade dos gatos e da companhia que fazem, acho que o gato é como os filhos: se nós tratamos bem o gato, o gato trata-nos muito bem; se tratarmos bem o filho, com muito envolvimento, com ternura, mas também com regras – os gatos também precisam de regras – o filho gosta muito de nós. Os animais são muito bons para as crianças. É muito importante que as pessoas possam desenvolver uma relação com o animal, possam cuidar do animal – às vezes pedem por exemplo um cão aos pais e depois não se interessam por cuidar dele e é o pai que vai levar o cão à rua, e isso é pena. Dá trabalho, mas vale muito a pena.

Além do seu irmão [o ex-presidente da República Jorge Sampaio], que é mais velho sete anos, teve também outra presença mais velha com quem conviveu bastante – o cientista Filipe Duarte Santos. Ambos foram pessoas bem sucedidas desde cedo, observá-los influenciou-o de alguma forma?

É meu primo direito, do lado da minha mãe. O que eu recordo da nossa infância e adolescência é que era a nossa avó que estimulava muito o nosso convívio, dos três netos. E esse convívio foi muito importante para mim. O meu primo sempre foi cientista, desde novo. De vez em quando estava connosco, era muito novo, pegava numa folha de papel e desatava a fazer fórmulas matemáticas à nossa frente e nós não percebíamos como era possível fazer aquilo. Sempre foi uma pessoa muito avançada do ponto de vista da ciência e fico muito satisfeito que agora tenha este reconhecimento internacional em termos das alterações climáticas. Foi pioneiro e está muito bem, com 76 anos. A par do meu irmão, foi muito formativo ter duas pessoas que sempre foram boas na sua área. São duas referências para mim.

Os pais queixam-se dos filhos, os filhos queixam-se dos pais. O que está a falhar?

As pessoas queixam-se, mas não quer dizer que esteja alguma coisa a falhar. Se nós pensarmos em grande números, na maioria dos casos as famílias correm bem. As queixas são inevitáveis. A relação entre pais e filhos passa por uma separação que é inevitável. Para crescer tenho de me separar das pessoas que estão comigo, se não não consigo enfrentar o outro. Tenho de me separar e é difícil não o fazer sem conflito. Na maior parte dos casos, os conflitos são pequenos. A contestação é fundamental, ocorre sobretudo entre os 15 e os 18. A adolescência é uma época boa, apesar de as pessoas costumarem dizer que é terrível, que é a idade do armário, na maioria dos casos não é assim – é uma época de descoberta, de fazer amigos, de descobrir o amor e a sexualidade, de ter novas experiências, de viajar. Acho que se dramatiza muito as questões. Mesmo nas situações em que os pais se separam, o que é sempre muito traumático – os divórcios nunca são felizes, é sempre muito traumático para as crianças e para os adolescentes, e isso é uma coisa que às vezes se esquece – é preciso estar muito atento às consequências que isso traz sobre os filhos. Depois do divórcio, sou a favor da guarda alternada para que a criança ou jovem fique em contacto com o pai e a mãe.

Mas isso não é, de outra perspetiva, mau para a criança? Porque acaba por andar mais cansada, por exemplo.

Não. Sabe que eu tenho 40 anos de experiência, já passei por tudo, como ficarem só com a mãe e com o pai de 15 em 15 dias e jantar à quarta-feira – que durante anos foi a extraordinária decisão unânime dos tribunais, mesmo que o pai vivesse a 300 quilómetros de distância da mãe. A evolução para a guarda conjunta e residência alternada tem que ver com o facto de os pais durante muito tempo estarem privados do convívio com os filhos, porque se se está com uma criança um fim de semana de 15 em 15 dias e num jantar por semana, não se consegue desenvolver intimidade. É preciso partilhar a vida para haver envolvimento e ganhar-se autoridade e esses pais não tinham autoridade porque não tinham intimidade. A residência alternada é mais parecida com a família, porque as crianças e adolescentes têm contacto com o pai e com a mãe e adaptam-se muito bem.

As gerações mais velhas têm muito aquela ideia de que antigamente havia mais respeito, de que os jovens eram mais bem educados. Concorda?

Havia mais respeito porque havia mais distância, não é? A disciplina está ligada ao respeito, mas muito do respeito que havia em relação aos pais e professores era baseado no medo e agora esse autoritarismo já não funciona. Temos de construir o respeito, mas recíproco. É preciso que os professores respeitem os alunos para que os alunos os respeitem. É circular. O que observo mais é que há invasões do espaço de um adolescente que hoje são inadmissíveis. Não faz sentido que um pai mexa no telemóvel de um filho, não faz sentido que um pai pesquise os bolsos de um filho ou a gaveta, é uma falta de respeito. Claro que quando um filho usa um palavrão para o pai isso é falta de respeito, também. O respeito também te de ser construído.

Já exercia antes do boom da tecnologia – telemóveis, internet… Desde que a tecnologia se generalizou, as dinâmicas familiares pioraram?

Não. Estamos numa fase de transição. Apesar de o Facebook já ter 14 anos, falamos sempre de novas tecnologias – o Facebook, de resto, já é muito pouco usado pelos adolescentes, que usam mais o Instagram. Há uma evolução como houve no século XV, com a revolução na imprensa. Nos períodos de grande mudança das comunicações há adaptações e o que é interessante é que os jovens são os precursores desta nova forma de comunicar, eles vão à frente. É um território onde os pais e sobretudo os avós se mexem com mais dificuldade, mas defendo que é preciso que pais e avós estejam muito atentos e se atualizem. Eu tive de me atualizar, primeiro como médico e como escritor, mas adaptei-me também a comunicar em família. Nós temos um grupo no Whatsapp que se chama “family project” e é muito interessante porque estamos sempre a comunicar uns com os outros. Eu, a minha mulher – que é a campeã dessa forma de comunicar, está sempre em contacto com os três filhos e sete netos, menos os dois mais pequenos, que têm 7 e 8 anos. Temos cinco adolescentes e estamos sempre em contacto com eles, é permanente. É algo muito importante para a família – lá está a questão do tempo, não estamos sempre juntos e isto é extremamente positivo.

Quando se deve dar o telemóvel?

A partir dos dez anos, mas antes deve-se explicar e ir acompanhando com o tal envolvimento afetivo.

Até a criança ter telemóvel, o ver televisão – o tempo passado no ecrã – pode ser usado como ferramenta para educar para o uso futuro do telemóvel?

Exatamente, é a mesma coisa. Não se deve deixar uma criança passar muito tempo a ver televisão, como não se deve deixar depois um adolescente muitas horas no computador e no telemóvel. É uma questão que é adequada à idade, mas desde muito cedo deve-se interiorizar a regra. A educação é muito interessante: se conseguirmos fazer uma criança interiorizar uma regra, ela depois vai tomar conta dessa regra e torna-se natural. Se desde o princípio as crianças perceberem que o telemóvel, o computador, o tablet é para utilizar com tempo relativamente curto, isso vai ser interiorizado. Agora, o proibir não resulta. E a investigação é muito interessante porque já se sabe que em relação às dependências da internet sobretudo nos rapazes não funciona o castigo. Os rapazes são mais turbulentos do que as raparigas, são mais dependentes, mas justamente pelas características diferentes nos rapazes e nas raparigas, nos rapazes funciona muito melhor a persuasão e a autorregulação, ajudá-los a perceber que têm desde muito cedo de autorregular a utilização. As raparigas são mais fáceis de convencer através da retirada. Alguns pais tiram o telemóvel, escondem o telemóvel, nalguns caso até chegam a desligar a luz elétrica da casa quando tudo está sem bateria e assim impedem os filhos de carregar os aparelhos. Não faz nenhum sentido, são casos extremos, mas existem.

No fundo, nessas situações há uma transferência de autoridade.

Exatamente. Nalguns casos o que se passa é que a autoridade está invertida. São os adolescentes que mandam nos pais e isso é muito mau sinal do funcionamento da família.

Como podem os pais lidar com essa perda de autoridade?

Falando com outros pais e até procurando ajuda especializada, terapia familiar. O último livro que escrevi [”Do Telemóvel Para o Mundo”] é muito comprado pelas famílias e apareceu-me uma família com o livro todo sublinhado e com um papelinho com as regras. E o adolescente de 16 anos, que passava a vida no jogo Fortnite e no telemóvel, disse uma coisa muito interessante: “para que é que estamos a falar do telemóvel, quando nós não falamos uns com os outros?”. Ou seja, muitas vezes, o telemóvel e a internet servem um propósito, que é esconder a dificuldade que as pessoas têm de falar umas com as outras. Tem de se perceber que não se pode passar a vida a guerrear por causa do telemóvel quando o que está em causa é a dificuldade de aproximação entre pais e filhos e a gestão daquilo que é autonomia e daquilo que é controlo. Tem de haver sempre muita troca de informação entre pais e filhos. Os pais não podem controlar demasiado.

Quais são os perigos?

Esses filhos, que são superprotegidos, não se desembaraçam na escola, tenho verificado muito isto. Na escola, hoje em dia, um adolescente tem de se afirmar. Se um rapaz ou rapariga não sabe gerir a sua afinação pessoal, se mostra medo, se de alguma forma é muito diferente dos outros e não se consegue integrar, esse jovem tem problemas de relacionamento e isola-se. E aí é vitima dos outros. Esta mensagem é muito importante para os pais: “eu tenho de tornar o meu filho competente e para tornar o meu filho competente tenho de educar contra o medo, tenho desde muito cedo dizer quenão pode mostrar medo, mesmo que o sinta”. Nas situações de bullying – e de cyberbullying, através da internet – temos de pensar nos agressores e ver o que podemos fazer em relação aos jovens que fazem isso, mas temos de pensar nas vítimas também, que muitas vezes são muito tímidas e muito inseguras e não se conseguem afirmar. E aí é muito importante que a educação seja uma educação para enfrentar os outros. Muitos me dizem isto, que é difícil estar na escola, que há muitos comentários – que somos gordos, caixa de óculos. Por exemplo, as raparigas falam muito no problema do cabelo. Além dos testes, os pais devem preocupar-se com o modo como o rapaz ou a rapariga está a viver a sua relação com os outros. Temos de educar para esta afirmação pessoal.

Falou em cyberbullying. Tem acompanhado muitos casos?

Sim, bastantes. É uma das minhas preocupações neste momento. O bullying tradicional é uma coisa visível no pátio, vemos uns a baterem noutros, o cyberbullying é silencioso, de intimidação e provocação através da internet, e o que se passa muitas vezes é que o jovem que está a ser vítima desse cyberbullying está a sofrer em silêncio, não fala sobre isso a ninguém porque tem vergonha – aos amigos, aos professores, aos pais. Às vezes isso mantém-se por muito tempo e as mensagens vão-se tornando-se mais agressivas. É um tema que tem de se discutir na escola e é preciso que os pais estejam atentos, quando as crianças começam a dizer que têm dores de barriga, que não querem ir a escola, começam a chegar a casa chorosos, tristes, são sinais indiretos de que algo se passa. E aí é preciso confrontar diretamente e perguntar: “Passa-se alguma coisa com o teu telemóvel, estás a receber alguma mensagem?”. Há casos de jovens que foram submetidos a esta pressão durante muito tempo em que ninguém fez nada.

Disse que os pais não podem mexer no telemóvel do filho, mas nesse tipo de casos têm licença o fazer?

Só com autorização do filho. Sei que é muito discutível, mas a minha experiência pessoal como avô – porque na altura dos meus filhos não havia internet – e como psiquiatra, trabalhando com dezenas de jovens por semana, é um território muito íntimo e a linha vermelha é os pais não poderem entrar. Para saber o que se passa no telemóvel do meu filho em caso de risco, tenho de estar próximo dele, e isso tem que ver com a construção da autoridade e com a construção da intimidade. Se eu estou próximo, sento-me ao lado dele e digo – “olha acho que estás aflito, estás sempre a olhar para o telemóvel, passa-se alguma coisa? Vou sentar-me ao teu lado para que me possas mostrar”. O mais importante não é a mensagem em si, é ele poder dizer ao pai ou à mãe que está a receber mensagens de humilhação e provocação.

Deve haver regras quanto a horas para uso?

Sim, mas combinadas. Deve haver períodos em que não há telemóvel, aqueles que são fundamentais para a convivência em família – o acordar e partir para a escola, o pequeno-almoço tomado em casa – que muitas vezes não é -, a hora de chegar a casa e fazer os trabalhos e jantar e a hora de deitar. Não concordo por exemplo que os jovens estejam a estudar e ao mesmo tempo a receber mensagens, e aí é preciso bom senso, porque eles às vezes estudam a partir do telemóvel. E aí o pai tem de gerir, dar um tempo ao filho para estudar no telemóvel com os amigos, mas depois estudar sozinho. À hora de deitar, estar com o telemóvel torna-se um pouco complicado, porque muitos namoram a essa hora. E sabemos que o uso a essa hora perturba o sono por causa da luz, ao contrário do que eles dizem, que dizem que é muito bom porque provoca sono.

Disse que a idade certa para ter o telemóvel são os dez anos, mas nem todos os jovens têm maturidade nessa idade para ter um telemóvel.

Sim, claro, isso é uma orientação. Tem que ver com a passagem da monodocência para a pluridocência, eles passam a ter mais estímulos, vão ter um horário com menos horas, vão chegar mais cedo a casa, estão na pré-adolescência e a descobrir coisas novas. Os pais é que precisam de gerir, e não precisam de dar de início um telemóvel de último modelo. Mas devem dar um smartphone.

Se não a criança acaba por ser alvo de chacota entre os colegas, não é?

Exatamente. Tive um adolescente com 13 anos a quem os pais não davam um smartphone e ele dizia “eu tenho o telemóvel da minha bisavó, porque a minha avó já tem um smartphone, a minha bisavó é que tem um telemóvel destes”. Deve dar-se um smartphone com regras de utilização.

E se os pais se recusam a dar telemóvel e o adolescente vai para casa a dizer que todos os amigos têm, como gerir isso?

Eles fazem sempre isso. Os amigos têm sempre os melhores ténis, a t-shirt mais à moda, têm o melhor tablet, saem à noite todos os dias… isso é discurso adolescente, não é? Mas os pais aí têm de marcar a sua posição e dizer, por exemplo, que dentro de seis meses ou um ano o filho poderá ter.

Exerce há quarenta anos. Tem vindo a aperceber-se de que as crianças têm cada vez menos vontade de ganhar responsabilidade, de crescer?

Sim, completamente, mas isso deriva da educação. Uma educação que é sobretudo típica da Europa do Sul, Grécia, Itália e que é superprotetora. E a educação superprotetora dá pessoas imaturas e pessoas menos responsáveis. E eu sou muito contra isso, sou absolutamente a favor de que os adolescentes muito novos andem sozinhos na rua, utilizem o metro – se bem que agora todos querem andar de Uber – e se saibam desembaraçar. Isso de brincarem na rua, andarem na rua desde cedo e saberem safar-se de situações difíceis é extremamente importante para a maturação emocional. Isto é uma coisa que os pais devem com cuidado ir fomentando. Poder ir a pé uma parte do trajeto, poder andar de metro muito cedo, com 11 ou 12 anos podem perfeitamente desembaraçar-se desde que tenham um amigo ou andem em grupo, são coisas que os pais devem fomentar em vez desta coisa terrível e completamente paradoxal que é a criança estar a uma relativa distância de um clube onde vai fazer desporto e podia perfeitamente ir a pé e o pai vai levá-la de carro. E portanto os adolescentes veem a cidade através dos vidros dos carros dos pais. Nas grandes cidades, os pais têm muito medo – dos assaltos, dos predadores sexuais.

E então, protegem demasiado.

Exato. E prejudicam a sua vida – porque muitas vezes têm de interromper o trabalho e ir a correr para levar ao futebol e depois voltar para o trabalho e isso dá um cansaço enorme que se repercute depois ao fim do dia quando chegam a casa. A educação deve ser para a autonomia. Desde muito cedo, a criança com um ano pode começar a perceber que pode arrumar os seus brinquedos num cantinho, logo que comece a andar com dois anos já pode fazer mais coisas, com sete ou oito anos pode pôr e levantar a mesa e pode ir dormir a casa de um amigo. Todas essas coisas são muito importantes.

Tem muitos casos de jovens deprimidos?

Sim, muitos.

Mas têm vindo a aumentar?

O que tem vindo a aumentar são as perturbações de ansiedade – jovens com muita ansiedade social, que têm dificuldade em contactar com os outros, situações de fobias, de ataques de pânico. Tenho jovens muito ansiosos, com muita angústia, muita dificuldade nos testes, por exemplo. Há jovens com medos em relação à sexualidade, que têm muito medo – sobretudo os rapazes têm medo de se afirmar sexualmente, de não serem capazes de estar à altura da rapariga.

E o que podem fazer quanto a essas angústias?

Exercício físico. Sabe-se hoje em dia que o exercício físico regular é fundamental para o nosso cérebro, que com o exercício liberta substâncias calmantes. E a estes jovens, de 15, 16, 17 anos, ponho-os a correr na cidade.

E os resultados são bons?

Os resultados são espetaculares. As raparigas é mais difícil porque dizem que os homens se metem com elas quando correm, mas os rapazes não têm esse problema. Muitas vezes consigo não dar medicamentos, converso com eles, converso com os pais e ponho-os a correr, duas ou três vezes por semana, é melhor até do que o ginásio. Ficam mais satisfeitos com a sua imagem, mais calmos e de alguma forma dá-lhes bem estar psíquico para as dificuldades que têm de enfrentar.

Há quem diga que as redes sociais aproximam, há quem diga o contrário. A amizade mudou muito?

Não, os jovens saudáveis contactam muito em presença e contactam muito através das redes sociais. Estiveram a conversar com os colegas de manhã e chegam a casa e falam com os mesmos. A internet permite até que falem com amigos de outros países – isso é sobretudo importante na faculdade, quando fazem Erasmus, que é uma coisa que faz muito bem. Quanto àqueles jovens que têm dificuldade de comunicação, refugiam-se muito na comunicação virtual e temos de promover a ida dos amigos lá a casa, fomentar o desporto…

Tem uma relação longa, que começou no quarto ano da faculdade.

Tenho um casamento de 48 anos. Estamos a dois anos das bodas de ouro.

Da mesma forma que as redes sociais alteraram a amizade, mudaram também o amor? O amor ganhou com as possibilidade que a internet oferece ou perdeu?

Nunca me tinham feito essa pergunta. Está diferente, sim. Acho que o risco de infidelidade é maior, começa-se muitas vezes com uma mensagem e de repente está-se numa situação diferente. Acho que a fragilidade do elo conjugal é cada vez maior – isso é válido também para os casais do mesmo sexo, que acompanho na terapia familiar. O elo é muito frágil, porque as pessoas idealizam o amor. As pessoas gostaram muito uma da outra de início, estiveram apaixonadas, há a química do início da relação, há a grande descoberta do outro, mas isso tem curta duração, ninguém está apaixonado durante muito tempo. E depois é preciso que se construa uma relação e o mais importante para tal é reconhecer o outro e estarmos permanentemente atentos ao outro. Ou seja, eu só consigo ter uma relação profunda com a pessoa que amei, só posso continuar a amar essa pessoa, se estiver permanentemente atento ao que ela está a sentir e àquilo que ela deseja. E a outra pessoa a mesma coisa em relação a mim. Outro dia disse isto a um jovem adulto que vive com a namorada, tem 30 anos, e ele disse “mas isso dá imenso trabalho”. E eu respondi “imenso trabalho”. E o que se passa neste momento é que as pessoas são muito narcísicas, estão muito viradas para si próprias, para o seu êxito pessoal, para o seu bem estar físico – há muito investimento no próprio corpo, os ginásios estão cheios de pessoas para tirar a barriga. Este investimento na própria pessoa dá pouco espaço emocional para o investimento no outro.

A par das redes sociais, os pais continuam a ter preocupações clássicas como o tabaco, o álcool, a droga, o sexo. O que os assusta mais nestas questões?

O que assusta mais, em geral, é a perda de controlo dos pais em relação aos filhos, que pode levar a uma perda de controlo dos filhos. Os pais a certa altura percebem que não podem continuar a controlar, e isso é bom, mas têm de continuar a acompanhar, e como vimos às vezes há dificuldade nessa questão. Ou seja, eu tenho de ir controlando, mas ao mesmo tempo tenho de promover autonomia e esse equilíbrio é muito difícil, sobretudo nas famílias em que as pessoas não falam umas com as outras. É muito frequente que eles comecem a beber aos 15 ou 16 anos, mas ao contrário do que se ouve na televisão, muito poucos ficam alcoólicos. E é preciso passar essa mensagem. “Tens de ter cuidado com o que bebes, mas não é uma catástrofe se beberes aos 16 anos. Tens de beber com moderação e ao mesmo tempo tens de beber agua, para evitar desidratação. Quando vais sair à noite e sais de casa à meia noite, deves comer antes de sair, porque com o estômago cheio o álcool faz menos efeito.” São várias mensagens que se devem ter para evitar essas coisas mais graves, como o coma alcoólico, não se deve é dramatizar.

E as drogas?

O mesmo em relação à experimentação de drogas. Sou absolutamente contra a canábis, como psiquiatra, vi muitos jovens que desencadearam psicoses por causa do uso sistemático da canábis. É uma droga perigosa que tem consequências graves sobre o cérebro dos nossos adolescentes, que é um cérebro em formação e devem dizer não às drogas. Mas, se por acaso experimentarem, não quer dizer que venham a ser toxicodependentes, como os pais me dizem. “Ah, é um drogado”, não é, essa mensagem é terrível. Se experimentou, é uma coisa, se está a consumir todas as semanas é outra coisa, se está a consumir todos os dias já é muito mais grave. E temos de perceber qual é o significado do consumo, porque a canábis serve um propósito – muitas vezes é usada por causa da ansiedade, porque é calmante de início.

E quanto ao sexo, como devem os pais por exemplo lidar com a clássica situação de apanhar um filho a ver pornografia?

Mais de 90% dos rapazes veem pornografia. Muito mais do que as raparigas. É uma coisa que deve ser valorizada sobretudo pelas consequências negativas que pode ter. O que se passa muitas vezes com alguns rapazes que veem muita pornografia é que pensam que a vida sexual das pessoas é aquilo que veem no telemóvel e portanto fazem uma ideia da vida sexual que não corresponde à realidade das pessoas com quem estão e das raparigas com quem se vão cruzar. E os pais não devem ver pornografia com o filhos.

Tem casos desses?

Sim, casos de homens que veem com os filhos. Acham tudo muito natural.

Mas isso é levar a questão a um extremo pouco saudável, não é?

Claro. E tenho também pais que fumam haxixe com os filhos. É o pai camarada. “Já que sou camarada dos meus filhos, posso fumar ganzas com eles, e porque não também ver pornografia com eles?”. Tenho casos assim e não é um ou dois. E eu digo logo que isso não se pode fazer. Mas quanto à pornografia, os pais devem falar sobre isso. Devem dizer que não corresponde à vida normal das pessoas e por outro lado é um negócio que explora o corpo da mulher e do homem e não é uma coisa saudável. Mas faz parte de um percurso, claro que depois quando arranjam namorada deixam de ver. Deve ser falado na escola e em casa sem constrangimentos. Eu passei a falar da questão da pornografia nas consultas, porque eles ficam aliviadíssimos, porque veem às escondidas dos pais. Noutro dia perguntei a um rapaz de 17 anos se de vez em quando via pornografia e a resposta foi “vejo todos os dias”, e a partir daí começámos a falar. Curiosamente este rapaz tem muita dificuldade na interação com as raparigas, e a pornografia prejudica a interação.

A educação sexual devia ter um papel nisso, não é?

Sim. É lamentável. Fez-se um esforço enorme entre 2005 e 2009 para se pôr educação sexual nas escolas, estive nisso, criou-se um grupo de trabalho e uma lei de educação sexual. Entre 2009 e 2018, houve um desinvestimento. É uma pena, porque educação sexual permite falar de tudo. Não é só falar do preservativo e da pila. Também é, mas o mais importante é que se fala de educação – respeito homem-mulher, respeito das minorias sexuais, afetos e emoções ligados à sexualidade. Quando há educação sexual as pessoas iniciam a vida sexual mais tarde, porque percebem que é um momento muito importante na vida.

Acha que as crianças e os jovens passam muito tempo na escola? Muitas vezes o que acontece é que perdem fins-de-semana a fio, por exemplo, para estudar. É sensato?

Isso acontece sobretudo com aqueles que querem ter boas notas no secundário para entrar na faculdade. Acho que a escola tem um horário excessivo, passam muito tempo na escola, sobretudo os mais novos. Mas o que me impressiona mais é que a escola é muito pouco caritativa, é muito semelhante à escola do meu tempo. Tenho netos no Pedro Nunes, onde eu andei, e as histórias que me contam de professores a falar durante 90 minutos são muito semelhantes às minhas, mas no meu tempo eram 50 minutos. A escola não evoluiu em termos de metodologia de ensino, o ensino continua muito dependente do professor, com muito pouco trabalho de grupo e muito pouco interativo. Ao contrário dos estudantes e da sua vida, que é muito interativa. E depois querem que estejam 90 minutos numa cadeira a ouvir os professores. A escola de hoje é um confronto entre professores e alunos, muitas aulas não são dadas por indisciplina.

Disse que acompanha também casais homossexuais. Uma criança que cresce dois pais ou duas mães é prejudicada?

Não. Não vejo nenhum problema nisso e a criança não se torna homossexual por isso, desde que esse casal tenha a preocupação de se dar com pessoas de outro sexo para que a criança possa diversificar as suas relações. Crianças educadas por casais do mesmo sexo não têm mais problemas do que as outras nem se tornam homossexuais, isso são receios das pessoas. O percurso para a aceitação da homossexualidade não é um percurso fácil, às vezes ouve-se que determinada pessoa “optou” por ser homossexual, isso não existe. As pessoas não optam, não é uma opção. A partir do momento em que uma pessoa aceita a sua homossexualidade e vive com uma pessoa do mesmo sexo, não vejo nenhum problema em que a pessoa adote uma criança. Aliás, eu fui das pessoas que falou logo a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo e tenho acompanhado vários casais.

Esses casais têm problemas semelhantes aos dos casais homossexuais?

Os problemas são exatamente os mesmos. São problemas de comunicação, de fidelidade, das redes sociais, da sexualidade. Tem que ver com partilhar a vida. é difícil partilhar a vida com uma pessoa, mas é mais difícil estar sozinho. As pessoas sozinhas têm muito mais doença mental e são mais infelizes, apesar de os casais se queixarem. As pessoas sozinhas sentem uma grande solidão e um grande desejo de encontrar a pessoa certa. Vejo isso em pessoas hetero e homossexuais.

Como é que vê a saúde em Portugal hoje em dia? Estamos a atravessar uma greve prolongada dos enfermeiros que põe em causa cirurgias programadas e, em alguns casos, a vida das pessoas.

Acho completamente inaceitável. As pessoas que a promovem deviam ponderar,  apesar de terem razões para reivindicar, porque estão vidas em jogor. Quem trabalhou 40 anos num hospital como eu sabe como é difícil ter cirurgiões e anestesistas disponíveis no SNS para fazer as operações programadas. Mas acho que o SNS funciona de uma maneira geral bastante bem, exceto na psiquiatria e saúde mental, onde há muitas lacunas.

Integrou a comissão de acompanhamento de apoio psicológico às vítimas dos incêndios. Como estavam aquelas pessoas que de repente perderam tudo?

Destaco que as vítimas tiveram um apoio muitíssimo bom. Na zona de Pedrógão havia uma equipa de saúde mental comunitária que partiu do serviço de psiquiatria dos hospitais universitários de Coimbra. Num ano, essa equipa realizou três mil consultas. A situação foi altamente traumática, as pessoas perderam familiares, mas podemos dizer que não houve casos de doença mental grave nas pessoas que ficaram. Não houve suicídios e houve muito poucos internamentos .

Há coisas que independentemente da tecnologia nunca vão mudar?

Sim. a relação entre pais e filhos e as questões de amor nunca vão mudar, são eternas. Têm novas facetas, mas os problemas são os mesmos. Na adolescência falamos de coisas que não existiam há 10 ou 20 anos, mas no fundo estamos a falar da mesma coisa: como educar. A mensagem principal é que não há felicidade maior do que amar e ser amado. Digo isto a pessoas que estão no auge da carreira, que querem fazer muitas coisas e trabalham das nove da manhã às dez da noite e depois não conseguem ter relações afetivas. Digo-lhes que a carreira é importante, mas também é importante estar com a pessoa amada. Na minha experiência, o mais importante é ter uma família e sentir-me amado, apesar da carreira que tive.

Chegou ao topo da carreira médica e da docência, tem uma família preenchida. O que lhe falta fazer?

Numa outra entrevista disse que queria chegar aos oitenta anos e uma doente minha perguntou-me: “só aos 80?”. Mas partindo do princípio que me faltam oito anos, quero dedicar os últimos anos da minha vida à relação entre pais e filhos.

Os 80 anos é por algum motivo em especial?

É simbólico, é um número redondo.

 

 

 

Pais, se tremem à primeira birra no Natal, “algo está mal”

Dezembro 23, 2018 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 20 de dezembro de 2018.

Como dizer não no Natal? Faz sentido dar tudo o que as crianças pedem? Há estudos que dizem que “o grau de satisfação e de felicidade da criança começa a baixar a partir do terceiro presente que recebe”

Susana Pinheiro

O Natal está a chegar e muitas crianças têm uma lista sem fim para pedir ao Menino Jesus ou ao Pai Natal. Como dizer-lhes “não” sem que façam uma birra? Ou será melhor dar-lhes tudo para que não sofram uma desilusão? Mesmo no Natal, “os pais que dizem ‘sim’ a tudo, não estão a ser pais. Não estão a educar, mas a estragar”, alerta o psicólogo Eduardo Sá. “Se tremem à primeira birra dos filhos, algo está mal”, realça. É preciso uma “firmeza serena” para dizer não. Há que ser “assertivo”, sublinha também o pedagogo Renato Paiva. As crianças e os jovens têm de perceber que não podem ter tudo, que têm de fazer por merecer o que recebem e aprender a seleccionar. “A vida adulta é feita de escolhas”, sustenta o autor de livros como Queridos Pais, Odeio-vos.

“Eles só puxam a corda se sentirem que os pais são todos tremeliques”, aponta Eduardo Sá. Na realidade, é uma questão de quase “tentativa e erro”, continua. “As crianças atiram o barro à parede a ver se cola”, para ver até onde conseguem ir. Mas, salvaguarda o autor do Livro de Reclamações das Crianças, “estão bem atentas ao que os pais podem ou não comprar”. É, de todo, uma “ideia errada pensar que são pequenos tiranos”, diz. “São, sim, negociadores.” Por isso, faz parte da função dos pais saberem dar-lhes a volta quando começam com birras. E, se for preciso, zangarem-se e fazerem cara feia, aconselha.

Os limites fazem parte da educação, mesmo no Natal. “Eles podem ser os príncipes e princesas lá de casa, mas quem manda são os reis e as rainhas. Importa deixar isso bem vincado”, defende Renato Paiva.

“Se a criança ficar desiludida, paciência. A frustração faz parte da vida”, afirma, por seu lado, o pediatra Mário Cordeiro. Até porque, corrobora Renato Paiva, “aprender a frustrar nesta fase mais precoce da vida fará com que saibam lidar com adversidades e frustrações futuras de forma mais madura, equilibrada e com menor sofrimento”.

Se a criança fizer uma birra, aconselha Mário Cordeiro, “há que mostrar que está desenquadrada do espírito de Natal, que é um espírito de humildade, solidariedade, afecto e alegria pela dádiva, e não um momento narcisista de ‘quero tudo, já’”. Na realidade, não se pode ter tudo. Ponto final.

“Se a criança está a fazer birra porque não recebeu o brinquedo x, vamos propor que experimente o jogo y. Não nos devemos justificar muito com os presentes”, aconselha Renato Paiva.

Listas, sim ou não?

Para Eduardo Sá, “é óptimo que as crianças façam uma lista de Natal, porque é uma maneira de não arriscarem a ter as prendas que os pais gostariam de ter tido quando eram da idade deles”.

Já Mário Cordeiro é “contra as listas de exigências e a escravidão de quem oferece — quem dá tem de ter o mesmo júbilo de quem recebe, e quem escolhe tem de pensar no outro e ‘estar presente’ — daí o nome ‘presente’”.

“‘Prendas’ é quando se dá um prémio por algo que se fez de talentoso, ou quando [a criança] se transcendeu na escola, no que for. O presente é… estar presente na vida dos outros através desse objecto — é o que acontece no Natal”, distingue o pediatra e autor de Educar Com Amor.

Se os pais optarem por deixar fazer a “carta ao Pai Natal”, devem explicar que esta “não é uma lista de compras, mas de sugestões”, aconselha Renato Paiva. É importante “deixar bem claro que não serão todos e até pode acontecer não ser nenhum. É uma lista de possibilidades!”

O melhor é não dar mais de três presentes, recomenda, por seu lado, Susana Albuquerque, coordenadora de educação financeira da Associação de Instituições de Crédito Especializado, sustentando-se em estudos franceses e norte-americanos. “O grau de satisfação e de felicidade da criança começa a baixar a partir do terceiro presente que recebe”, garante. “Depois, é muito importante dizer ‘não’, porque os filhos não podem ter tudo o que pedem. E estamos a ajudá-los a desenvolverem competências para saberem poupar e como gerir o orçamento”, continua. “A educação financeira faz-se desde sempre. Não necessitam de saber quanto dinheiro [os pais] têm ou podem gastar, mas podem ter uma ideia para melhor perceber as opções”, acrescenta Renato Paiva. Deve explicar-se que se o gastamos hoje não teremos amanhã.

Susana Albuquerque aconselha a envolver as crianças no orçamento de Natal. Assim, tomam “consciência” do valor das coisas, do investimento que os pais fazem. “Um dos problemas em relação à gestão do dinheiro resulta de não se falar abertamente sobre o dinheiro na família e é preciso que as crianças conheçam as possibilidades financeiras dos pais.” Eles devem perceber que deve haver uma “boa saúde financeira”, que se deve poupar e ter uma reserva para imprevistos. E deve-se ainda “ensiná-los a ‘esperar para ter’”. Pode não ser hoje nem amanhã, é quando houver dinheiro, ou no dia do aniversário, por exemplo. “O esperar para ter aumenta a satisfação”, realça.

Certo é que as campanhas publicitárias, os descontos e as facilidades de pagamento são como sereias que cativam os pais a comprar por impulso. Se o fazem, com que cara dizem ‘não’ aos mais pequenos? “Se as crianças presenciam ou percebem que se comprou algo por impulso, na próxima visita ao centro comercial vão querer comprar algo de que nem se tinham lembrado”, refere Renato Paiva. Por isso, lembra: “Educamos mais pelo que fazemos do que pelo que dizemos”. “O exemplo é sempre mais significativo.”

 

 

Pais de hoje sofrem de síndrome do coelho da Alice e (também) exigem demasiado aos filhos. Psicóloga clínica deixa o alerta

Dezembro 21, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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thumbs.web.sapo.io

Notícia do SapoLifestyle de 4 de dezembro de 2018.

A cultura das multitarefas e das multiatividades está a prejudicar as crianças. A denúncia foi feita, hoje, em Lisboa, por Rita Coelho, fundadora de um centro de desenvolvimento nos arredores da capital. “É preciso desligar”, aconselha.

O fast parenting dos dias que correm está a prejudicar o desenvolvimento das crianças. “Parecemos o coelho da Alice no País das Maravilhas, sempre a correr de um lado para o outro”, alertou hoje a psicóloga clínica Rita Coelho, fundadora e diretora técnica do centro de desenvolvimento Maria Cegonha, na Amadora, durante a sua intervenção no evento de apresentação dos novos produtos de uma linha de cuidados dermopediátricos.

Adepta da calma do slow parenting, a psicóloga clínica mostrou-se critica das opções de muitos pais que, por falta de tempo e de disponibilidade, inscrevem os filhos em tudo o que são atividades extracurriculares. “Como trabalham muitas horas, têm de arranjar uma forma de manter os filhos ocupados mas, na prática, o que eles querem é ter tempo para estar connosco”, garante a especialista, que é mãe de duas meninas.

A exigência atual acaba por refletir-se no comportamento dos mais novos. “Não há crianças difíceis, o difícil é ser criança num mundo de gente cansada, ocupada, sem paciência e com pressa”, afirma Nuno Pinto Martins, especialista em disciplina positiva, outra das correntes que a psicóloga clínica subscreve. “Os centros de ocupação de tempos livres são espaços com mesas e cadeiras para onde as crianças vão depois de saírem da escola, onde passam o dia sentadas em cadeiras, rodeadas de mesas. Os meninos precisam de brincar”, afirma Rita Coelho.

“Devemos dar tempo às crianças para crescer ao seu ritmo, valorizando cada etapa do crescimento. Eu não sugiro uma mudança radical de um momento para o outro, mas é preciso encontrar um equilíbrio para arranjar esse tempo”, defende a especialista. “Eu recebo muitos pais que vêm com os filhos às consultas [de psicologia] mas, depois, não são as crianças que ficam [para serem acompanhadas], são eles”, refere.

“A cultura das multitarefas e das multiatividades está a transformar os pais de hoje em pessoas que se sentem insuficientes, preocupadas e com baixa confiança, pais que educam uma geração de crianças que não têm possibilidades de autodescoberta e de autoexploração”, condena. “Eu digo isto para os filhos e para nós. Também precisamos de tempo, que é uma coisa que nos falta, para respirar. É preciso desligar”, adverte.

 

 

 

 

 

Deve beijar o seu filho na boca? Declarações de Manuel Coutinho do IAC à revista Sábado

Dezembro 17, 2018 às 1:13 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia e fotografia da Sábado de 7 de dezembro de 2018.

Declarações do Dr. Manuel Coutinho (Secretário–Geral do Instituto de Apoio à Criança e Coordenador do Sector SOS-Criança do Instituto de Apoio à Criança).

por Vanda Marques

Manuel Coutinho diz que é um “afecto desnecessário”. Além de aumentar risco de doenças, os pais “não namoram com os filhos”.

David Beckham não é conhecido apenas como um grande futebolista inglês, marido da ex-spice, Victoria, mas também por gostar de beijar os filhos na boca. No dia 27, partilhou na sua rede social uma imagem a dar um beijinho na boca de Harper, a filha de 7 anos, numa pista de patinagem no gelo. As críticas não tardaram, com acusações de que não era próprio nem aconselhável.

Mas não é a primeira vez que o atleta o faz. Já em 2017 publicou uma imagem a dar um beijo na boca da filha. Defendeu-se das críticas, dizendo que é uma pessoa muito carinhosa com os filhos e que foi assim que foi educado. Acrescentou apenas que seria estranho fazê-lo com o filho Brooklyn, na altura com 18 anos. Mas será adequado fazê-lo?

Manuel Coutinho, psicólogo e secretário-geral do Instituto de Apoio à Criança, defende que se trata de um “afecto desnecessário”, apesar de existirem culturas que o podem interpretar de outra forma. “Na nossa cultura o beijo na boca entre pais e filhos é uma manifestação de afecto completamente desnecessária e pode ser vista como abusiva, para além de poder trazer risco de contágio de doenças.” E acrescenta: “Há outras maneiras de manifestar afecto pelos filhos. O beijo na boca é muito íntimo, pode comprometer o bem-estar do filho e/ou causar-lhe eventual desconforto.”

A coach parental, Magda Gomes Dias, acredita que se trata de um tema delicado porque toca em assuntos que estão relacionados com intimidade. “Há uma relação de grande proximidade e de grande intimidade quando falamos de parentalidade. É frequente vermos pais com filhos pequenos a comunicarem essa intimidade seja com um beijo na boca dos pequenos, seja partilhando a cama com os mesmos, de forma igualmente, frequente”, explica à SÁBADO. Defende ainda que se não for frequente, não vê mal. Ainda assim: “Não vejo interesse nesse tipo de contactos, menos ainda à medida que os miúdos vão crescendo.”

O psicólogo Manuel Coutinho vai mais longe e diz que os pais não o devem fazer. “O beijo na boca pode ser um sinal de puro afecto, mas na nossa cultura está muito associado ao ‘namoro’ e os pais não namoram com os filhos.”

Os riscos deste tipo de intimidade podem até contribuir para uma confusão na cabeça das crianças. “Acredito que normalmente não há segundas intenções e que muitos pais que beijam os seus filhos na boca estão simplesmente a demonstrar carinho, mas não o devem fazer. O beijo na boca entre pais e filhos para além de os poder confundir na gestão dos seus afectos é na nossa cultura uma prática com conotação sexual e erótica que não pode ter lugar entre adultos e crianças.”

 

Aconselhamento Parental Saber lidar com os filhos – Formação no ISPA – janeiro e fevereiro de 2019

Dezembro 17, 2018 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Objectivos 

Conhecer modelos e princípios de aconselhamento  parental

Desenvolver competências de aconselhamento a pais numa perspectiva de intervenção em situações de crise

Programa 

O aconselhamento psicológico (definição, objectivos, habilidades fundamentais)
Educação Parental e Aconselhamento parental (definições)
O aconselhamento parental (princípios, objectivos, fases)
Aconselhamento a pais de crianças e aconselhamento a pais de adolescentes (especificidades)
Estilos educativos, práticas parentais, aliança parental , ligação parental (definição e avaliação)
Aconselhamento relativo a problemáticas específicas das crianças e dos adolescentes (birras, luto, divórcio, alimentação, sono, novas tecnologias, controlo dos esfíncteres, mentira, roubo/furto, rivalidade entre irmãos, saídas à noite)

mais informações no link:

http://fa.ispa.pt/formacao/aconselhamento-parental

O tablet não é uma ama digital no mundo das crianças

Dezembro 7, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site dn_insider de 21 de novembro de 2018.

Cátia Rocha

A partir de que idade é que as crianças devem ter acesso a telemóveis, tablets e computadores? Os especialistas respondem à pergunta, numa era em que a tecnologia já é usada para acalmar birras ou apenas para distrair os mais pequenos.

Nativos digitais e imigrantes digitais são dois conceitos sociológicos nos quais não se pensa no dia-a-dia. No primeiro grupo estão as pessoas que já cresceram com tecnologia – normalmente está associado a quem nasceu depois de 1980, os millennials; já os imigrantes digitais são pessoas que tiveram de fazer a transição e o processo de habituação a um admirável mundo novo – o da tecnologia.

Um dado relevante: os nativos digitais são, na sua maioria, os pais das crianças de hoje. E por que razão é que isto é importante? Porque estas crianças vão bem além do conceito dos nativos digitais, vivendo uma experiência ainda mais imersiva do que a dos pais.

E é precisamente a consciência tecnológica destes últimos que os leva a questionar: a partir de que idade é recomendável uma presença tech na vida dos mais pequenos?

A verdade é que a tecnologia está cada vez mais presente na vida das crianças, com acesso a smartphones, dispositivos de realidade virtual e tablets – talvez o gadget que mais vezes é citado como um motivo de birras ou simplesmente de distração.

“Não deve haver pressa no uso do ecrã”, adverte o especialista, defendendo que a recomendação passa por evitar os meios digitais nos primeiros anos de vida. “Até aos 2 anos, o pensamento simbólico é muito imaturo, aquilo que a criança vê no tablet não consegue aplicar na sua vida normal, no dia-a-dia, exceto se for complementado por um adulto.” E, mesmo a partir dessa idade, há limites: “Um tablet não consegue perceber se uma criança está a ficar frustrada com a brincadeira, não há ainda uma inteligência artificial para conseguir lidar com a frustração.”

O pedopsiquiatra Pedro Strecht, que publicou recentemente o livro Pais sem Pressa, concorda com a visão de que, até aos dois anos, a tecnologia não deve ser um ponto central da vida. “Nessas idades, as crianças estão em fase de desenvolvimento de outras formas de comunicação e de relação; não podemos esquecer que é a partir dos 12 meses que a maioria começa a andar e a correr, descobrindo assim o mundo em seu redor. É a partir dessa idade que a aquisição e a expansão da linguagem adquirem um aspeto verdadeiramente central no desenvolvimento cognitivo e emocional dos mais novos.”

Pedro Strecht reconhece naturalmente um “mundo tecnológico que está presente no dia-a-dia e que, de verdade, as crianças já nascem por dentro dele”. Critica, porém, pais que “usam as tecnologias como forma de preencher espaços ou lacunas na relação direta com os filhos, mesmo com os de baixa idade”. Exemplo disso é o uso de tablets durante a refeição “para que não existam birras ou o tempo da alimentação seja mais rápido”.

Para a especialista em sono infantil Filipa Sommerfeldt Fernandes “vedar o acesso das crianças à tecnologia é tolice”, embora acredite na lógica do “bom senso e no equilíbrio”, para que se possa “retirar o melhor da tecnologia”.

São três especialistas com uma opinião transversal a todos: a tecnologia não é superior ao contacto humano no processo de desenvolvimento infantil. Ter um adulto em interação com a criança continua a ser o melhor caminho – e há estudos que o comprovam.

Pequenos nas lojas de apps

Um estudo do departamento de pediatria da Universidade de Medicina de Nova Iorque mostrou a influência que os meios eletrónicos têm na vida de crianças com menos de 2 anos. Os resultados revelaram, em 2010, que crianças mais expostas a conteúdos como filmes, DVD, televisão ou vídeos eram menos desenvolvidas em comparação com crianças com menor tempo de exposição a estes meios.

Recentemente, o estudo “Happy Kids: Aplicações Seguras e Benéficas para Crianças”, do Católica Research Centre for Psychological, Family and Social Wellbeing (CRC-W), da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa, mostrou que as crianças mais novas – até aos 2 anos – são quem mais recorre às aplicações em dispositivos móveis.

O estudo foi feito através da plataforma Pumpkin e contou com as respostas de 1968 pais em Portugal, de filhos com idades até aos 8 anos. Além de mostrar que as crianças fazem um uso quase independente da tecnologia, o estudo coloca a questão: em que circunstância é que há maior permissão para os miúdos terem acesso à tecnologia?

No topo da lista surgem situações sociais: em restaurantes, 587 dos inquiridos dizem dar acesso a aplicações. Depois, os pais (490) cedem quando precisam de trabalhar ou de cumprir tarefas domésticas. Por fim, 99 apontaram para um uso em situações de stress – quando é preciso acalmar as birras dos filhos.

O processo de imitação

O número a que Pedro Strecht chegou dá que pensar: os pais passam 37 minutos por dia em interação exclusiva com os filhos.

Paulo Oom destaca o papel dos pais em todo o processo de educação, que deve ter em conta a moderação. “Entre os 2 e os 4 anos a criança pode ter ecrãs durante uma hora, mas com a presença de um adulto para orientar.” E não é apenas nesse ponto que pais e educadores têm importância. Muita da aprendizagem é feita através de imitação. “É fundamental os pais evitarem os ecrãs, porque às vezes dão um mau exemplo.”

Mas ainda há mais a ter em conta, principalmente nas ocasiões em que a palavra de ordem é brincar. “Não deve haver ecrãs nos momentos de brincadeira”, diz o pediatra. Filipa Sommerfeldt Fernandes aponta na mesma direção, referindo inclusive que a presença dos ecrãs na vida dos adultos também é excessiva.

“Os ecrãs em demasia impedem que haja momentos de conexão entre pais e filhos e são mais um fator para as birras dos pequenos – que passam a querer ver vídeos a toda a hora e que não gostam que estes lhes sejam retirados. Na hora de deitar podem ser mais um motivo de zanga. Além de que, embora estejam ‘quietos’ na cama, na realidade estão com o cérebro estimulado de uma forma que não ajuda ao sono”, garante a especialista.

Para dormir melhor

Quantas vezes é que não se ouve um pai ou uma mãe dizer que o filho não dorme bem? Cada criança tem uma rotina de sono muito particular, é certo, mas vale sempre a pena olhar para o ecrã do smartphone ou do tablet e perceber se não estará ali um contribuinte para o caso.

Os gadgets emitem luz azul. Embora os estudos nesta área sejam recentes, é referido sempre que esta tem influência no sono. “A forma como a luz é emitida pelos ecrãs afeta o relógio biológico, pois inibe a secreção de melatonina, a hormona do sono, desregulando os ritmos circadianos”, explica Filipa. E isto é válido tanto para adultos como para crianças. “Além de que a utilização de tablets antes de dormir atrasa a hora de deitar, e pode haver outros efeitos bem mais graves para a saúde física e mental” das crianças.
Paulo Oom refere que os pais devem aplicar a regra de não haver ecrãs uma hora antes de deitar. “A criança precisa de produzir melatonina antes de dormir.”

“Com a ativação e a excitação de certas zonas cerebrais, desencadeadas pelo uso excessivo de tecnologias (muitas delas mantêm-se ligadas durante a noite), é natural que as implicações negativas sejam diversas, como por exemplo no comportamento ou no aproveitamento escolar”, segundo o pedopsiquiatra. Mas também há que desdramatizar e perceber que a tecnologia no mundo infantil precisa de estar alicerçada no bom senso, no equilíbrio e numa forte orientação dos pais.

Paulo Oom acredita que o uso consciente da tecnologia nos momentos de interação “não se trata de uma cruzada contra os momentos de media – é sim uma cruzada contra não haver momentos de brincar na rua”.

*Este artigo foi originalmente publicado na Insider de outubro de 2018.

 

As crianças têm direito a não dar beijinhos

Novembro 1, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Shutterstock

Texto do Notícias Magazine de 18 de outubro de 2018.

Texto de Sofia Teixeira | Ilustração Shutterstock

Quem tem filhos pequenos conhece o filme: frequentemente familiares, amigos e conhecidos querem beijinhos dos miúdos quando os encontram e, também frequentemente, os miúdos recusam. Faz sentido insistir com os pequenos para darem beijos ou deve ser a criança a escolher como cumprimentar?

Carolina Pimentel, 33 anos e três filhos, tem em casa um autêntico “expositor” do que são as diferenças de personalidade, socialização e atitude perante manifestações de afeto. Rodrigo, de 7 anos, escondia a cabeça no meio das pernas dos pais quando era mais novo, continua tímido e envergonhado e não dá beijos nem abraços a ninguém.

Sebastião tem 5, ainda ninguém lhe pediu nada e já ele se está a esticar para dar beijos e abraços (cumprimenta e despede-se de toda a gente, mesmo que seja ao entrar e sair de um elevador, cheio de desconhecidos, no centro comercial). Mafalda, de 2 anos, faz jus à fama de esta idade ser temperamental e tem dias: ora está expansiva e beijoqueira, ora relutante em aproximar-se de alguém.

Carolina tem feito sempre questão de lhes explicar que dar beijos é opcional, ser bem educado é obrigatório. “Respeitamos os momentos e a personalidade de cada um. Sabem que “olá”, “boa tarde”, “adeus” têm sempre de dizer, que devem responder quando falam com eles, mas os beijinhos e abraços dão quando querem e a quem querem, sem obrigações.”

As crianças, como os adultos, têm diferentes níveis de tolerância ao contacto físico por parte de pessoas que não lhes são próximas. “O que para algumas crianças é prática comum, para outras pode ser muito incomodativo ou mesmo causar-lhes repulsa”, explica a psicóloga Carla Pacheco, defendendo que os limites de cada um devem ser respeitados.

Parece óbvio e do mais elementar bom senso, mas há pais que continuam a sentir-se incomodados perante a recusa dos filhos no que toca a cumprimentos físicos e há adultos que interpretam essa recusa das crianças como falta de educação.

Já a psicóloga clínica Cláudia Leal admite que, para os padrões da nossa sociedade, o cumprimento de beijinho faz parte da socialização, mas é importante que os pais consigam perceber que educação, regras e limites não devem chocar de frente com o respeito pelos afetos dos filhos, ainda que, por vezes, eles façam escolhas que vão contra o que é socialmente esperado.

Por essa razão, não tem dúvidas: “Os pais devem incutir-lhes a liberdade de poderem escolher a maneira como saúdam as pessoas, conhecidas ou desconhecidas. Com um passou-bem, um “boa-tarde” ou simplesmente com um sorriso e um aceno continuam a ser educados e simpáticos para com os outros, sem necessidade do beijo ou do abraço.”

Para Carolina, as recusas – quase sistemáticas de Rodrigo e esporádicas de Mafalda – são geridas com naturalidade e sem drama. Perante o pedido de alguém e a recusa deles, estando por perto, dirige-se aos miúdos dizendo: “Não precisas de dar beijinho, mas tens de dizer olá.”

“Nunca tive reações negativas entre o círculo de amigos ou conhecidos.” Mas admite que é mais difícil com pessoas mais velhas, como os avós e as tias, que não veem com tanta frequência. “Às vezes para os avós paternos é difícil aceitar. Mas explico-lhes que obrigar os meus filhos a dar beijinhos era o mesmo que obrigarem-me a mim a beijar alguém: não faz sentido.”

Cláudia Leal defende que a sensibilização para os afetos é muito importante para o desenvolvimento saudável de uma criança, mas não pode valer tudo. “Seja com os avós, tios, amigos ou até conhecidos, devemos sempre incentivar a retribuição de um gesto carinhoso, de uma palavra doce. Podemos e devemos promover o carinho, mas não podemos esquecer que o sentir não se impõe. Ao forçar, cria-se um falso conceito de afeto”, defende.

De acordo com a psicóloga, muitas vezes, as crianças aceitam cumprimentar alguém dessa forma, mesmo quando não gostam, com medo de serem castigadas. “Que liberdade de sentir lhes damos assim?”, questiona.

Carla Pacheco concorda: é importante sensibilizá-las para os estados emocionais dos outros e para o efeito das suas ações nelas, mas isto deve ser feito “sem culpabilização, chantagem ou com vista a convencer a criança, mas apenas com o intuito de fomentar a empatia e lhe permitir ser ela própria a desenvolver estratégias de retribuir o carinho e a atenção, nos seus próprios termos.”

Há quem vá mais longe e entenda que as imposições são perniciosas: ensina-lhes que devem submeter-se a contacto físico não desejado, só porque esse é o desejo dos outros. A coach parental norte-americana Jennifer Lehr criou celeuma no seu blogue quando, há dois anos, defendeu que este comportamento dos pais leva a criança a percecionar como sendo normal o uso do corpo para satisfazer os desejos alheios.

E – apesar de ter sido acusada por muitos de ser extremista – defendeu que isso era meio caminho andado para a criança tolerar uma relação abusiva, tanto na infância como na adolescência.

Carla Pacheco confirma que é essencial respeitar o espaço pessoal da criança, promovendo a noção de respeito por si própria e pelos seus afetos. “Ao forçarmos uma troca de afeto que não é sentida, estamos a transmitir-lhe a ideia de que a sua vontade, no que respeita ao seu espaço pessoal e aos seus afetos, poderá não ser tão válida como a de terceiros.”

A psicóloga defende que é importante não cairmos em extremismos – “Não vamos traumatizar a criança por a forçar a dar um beijinho à tia que veio de longe” –, mas que é importante refletirmos sobre qual é a mensagem implícita neste comportamento e quais são, afinal, as nossas verdadeiras motivações para isso.

“Enquanto pais, podemos sentir-nos melindrados, por receio de ver a nossa competência parental posta em causa pelos outros. Mas importa ter em mente que a criança é um indivíduo de direito próprio e que não existe para ir ao encontro das necessidades ou expetativas de terceiros.”

BEIJINHOS DAS VISITAS TODAS AO RECÉM-NASCIDO? É MELHOR NÃO.

Apesar de poder haver um batalhão de gente a querer ver, pegar e dar beijos ao bebé nos primeiros dias – seja na maternidade, seja já em casa, é prudente que, sem extremismos, haja alguma salvaguarda. O bebé esteve nove meses num ambiente perfeitamente estéril, protegido do exterior. Quando nasce tem alguma imunidade devido aos anticorpos da mãe, mas o sistema imunitário ainda é muito frágil e impreparado para lidar com os milhões de microrganismos do ambiente.

Herpes, mononucleose ou um simples vírus da gripe, que em crianças mais velhas ou em adultos não costumam ter um impacto muito grande na saúde, podem, num recém-nascido, provocar complicações. Por isso, sobretudo no primeiro mês de vida, as visitas devem ter o cuidado de não pegar no bebé se estiverem doentes e de lavar as mãos antes de lhe dar colo. Os beijos devem ser limitados às pessoas mais próximas da família e devem ser dados preferencialmente na testa ou cabeça, não na cara ou nas mãos.

 

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