Conferência “Pais e professores à beira de um ataque de nervos, porque o melhor do mundo – nem sempre – são as crianças” 25 de março em Ponte de Lima

Março 15, 2017 às 10:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações:

http://www.cenfipe.edu.pt/eventos/?id=64

Uma entrevista para pais, dirigentes e treinadores. “Os atletas brincaram muito na rua e foram felizes, não se fabricaram em laboratório”

Março 13, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Carlos Neto ao http://tribunaexpresso.pt/ de 1 de março de 2017.

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Carlos Neto é professor e investigador da Faculdade de Motricidade Humana e não há ninguém melhor para explicar como a formação desportiva em crianças e jovens deve ser feita. É que a atual, em Portugal, não está adequada às necessidades dos mais novos, explica à Tribuna Expresso, ressalvando também que é urgente formar… os pais

Mariana Cabral

[começa a falar antes da pergunta] Bem, gostava de começar por dizer que, em pleno século XXI, o fenómeno desportivo é um fenómeno social de grande envergadura em termos mundiais, o que significa que nunca o desporto teve tanto impacto na sociedade como nos dias de hoje. Quer de um ponto de vista económico, porque é de facto uma economia gigantesca, como social, porque motiva todas as idades e credos, e ultrapassa fronteiras em todos os espaços geográficos e culturas diferenciadas. De facto tornou-se um fenómeno nunca visto na vida do homem. Significa que tem impacto ao longo da idade, desde as crianças até aos idosos, quer quanto a praticantes, quer quanto a espetadores, quer quanto aos que são agentes relacionados com o desporto, sejam treinadores, dirigentes ou formadores. É um fenómeno de facto fantástico. Hoje em dia temos imensas crianças e jovens a fazer atividade desportiva organizada e estruturada, o que significa que há uma expectativa muito forte destas crianças poderem atingir sucesso.

Tem tudo a ver com o mediatismo do desporto?

Também. É evidente que nas últimas décadas os orgãos de comunicação social são responsáveis por tornar o fenómeno desportivo altamente mediático e altamente participativo em todo o mundo e em todas as culturas. O que significa que de um ponto vista sociológico, de um ponto de vista cultural, de um ponto de vista político, a prática desportiva em crianças e jovens e adultos tornou-se de facto viral. É algo que faz parte da vida, não só em termos de objetivos de saúde, em termos de objetivos pedagógicos, mas também do ponto de vista que é o treino de alto rendimento, o espectáculo desportivo, com todos os seus ingredientes de natureza emocional, de natureza psicológica, de natureza económica, de natureza antropológica. Diria que a prática desportiva faz parte do quotidiano dos portugueses e praticamente de todas as sociedades. O que é interessante aqui analisar é a questão de como a formação desportiva em crianças e jovens deve ser feita.

Pelos clubes ou pelos pais?

Necessariamente a questão da família, a questão do clube, do local onde pratica, que também pode ser na escola. Os pais têm um papel absolutamente fundamental na capacidade de guiar os seus próprios filhos nessa prática desportiva. Nos últimos anos têm vindo a ser feitos alguns estudos no sentido de demonstrar como o comportamento parental é uma variável muito importante neste processo. É claro que podemos discutir esta questão do ponto de vista das perceções que os adultos têm do que deve ser a vida dos filhos. Normalmente os pais têm uma tendência quase patológica de querer colocar nos filhos as frustrações do seu próprio processo de desenvolvimento desportivo e querem que os filhos sejam campeões a qualquer preço, e muitas vezes esquecem-se que eles são seres humanos em crescimento, que necessitam de aprender coisas fundamentais da vida, que necessitam de um acompanhamento escolar como deve ser… E tudo isso está integrado. Significa que há aqui perceções, crenças, valores e imaginários que é preciso compreender, quer do ponto de vista das crianças e jovens, quer do ponto de vista dos pais, quer do ponto de vista dos treinadores. Esta trilogia pais-treinadores-crianças… é absolutamente importante falar nisto hoje em dia. Há um assunto que considero da maior importância, que é, como é que se dá valorização à formação desportiva dos jovens do ponto de vista de criação de valores, de cidadania.

É preciso mais desportivismo e menos competitividade?

O desporto é uma atividade absolutamente fascinante para tornar as pessoas mais cidadãs, com mais humanismo, com mais socialização e com mais capacidade crítica e mais capacidade de perceber o mundo que as envolve. Portanto há aqui constragimentos sociais e políticos que muitas vezes são centrados numa preocupação excessiva de querer uma competitividade fora das características de desenvolvimento da criança e do jovem e por outro lado um sucesso muito rápido e a qualquer preço. Os campeões não se fazem à pressa. Tem que ser respeito o seu processo de desenvolvimento e têm que ser respeitadas as motivações intrínsecas das crianças. E há aqui algumas regras que são absolutamente fundamentais: é preciso ter tempo para crescer. Ainda recentemente, a Telma Monteiro, uma grande atleta olímpica portuguesa, dizia, porque começou a atividade desportiva de judo muito tarde, “deixem as crianças brincar”, e depois então fazer a atividade desportiva. E, de facto, é preciso que as crianças primeiro tenham uma vivência variada do seu próprio corpo, que tenham uma exploração diversa de vários tipos de atividades, que possam construir uma cultura motora básica e fundamental, que seja essencial depois para uma capacidade adaptativa a habilidades e atividades mais específicas mais tarde. Claro que isto varia muito de modalidade para modalidade desportiva, não podemos comparar a aprendizagem na ginástica aos jogos coletivos, são duas dinâmicas distintas. Mas é preciso que as crianças construam primeiro a sua própria identidade, brinquem muito na infância, consigam correr riscos, consigam fazer uma diversidade de atividades, de modo a ganharem essa cultura motora básica, que é o pré requisito para terem sucesso mais tarde, do ponto de vista de atletas.

Puxando o exemplo do futebol, atualmente fala-se muito da necessidade do futebol de rua no desenvolvimento de talentos, mas hoje em dia já não temos futebol na rua, praticamente. Como é que pomos uma criança na rua, a brincar, a subir às árvores?

Vivemos num tempo de grande sedentarismo e as crianças sofrem por isso. É um tempo de analfabetismo motor, porque elas não têm de facto uma literacia corporal adequada, porque o tempo de brincar na rua desapareceu, está em vias de extinção. As crianças hoje não têm tempo para brincar, explorar com os amigos a rua, não jogam à bola – porque uma coisa é jogar futebol, outra coisa é jogar à bola. É preciso dizer que há declínio enorme nas últimas décadas do ponto de vista de tempo e espaço para brincar. Para ter uma ideia, 70% das crianças em Portugal brincam menos de uma hora por dia. As crianças hoje têm menos tempo para brincar do que os prisioneiros nas prisões, que têm mais tempo de ócio fora das celas. Tempo, na infância, passou a ser um treino muito organizado, muito estruturado, muito limitado. Temos currículos escolares muito extensos e intensos, e a criança passa muito tempo sentada e quieta, sem mexer o corpo. É uma criança sedentária por princípio, devido ao facto de se terem criado agendas muito organizadas.

Mas a educação física na escola não tem sido permanentemente desvalorizada? Sim, de facto tem sido completamente desvalorizada. Mas penso que há, no entanto, boas notícias, deste ministério atual e deste governo atual, porque vai ser implementada a educação física no 1º ciclo com um professor coadjuvante que ajuda o professor titular e isso é uma boa medida. Está a ser feita neste momento uma reflexão sobre os objetivos da educação em Portugal e há 30 dias para discussão pública. É uma boa oportunidade. Também foi feita uma revisão das recomendações para o ensino pré-escolar que considero absolutamente fundamental: a motricidade, o movimento, o jogo, são coisas fundamentais nessas idades porque é aí que tudo começa, isto é, a atividade física começa mais cedo do que as pessoas julgam. Não se fazem campeões a partir dos 12, 13, 14 anos. Começa antes, mas é preciso perceber qual é a conceção que se deve trabalhar nas primeiras idades.

Não se deve trabalhar em especificidade, portanto. Primeiro deve haver uma diversidade de atividades, numa atitude lúdica, e mais tarde é que vem a especialização. Porque, repare, a criança tem direitos no desporto. A criança tem direito de expressar, em primeiro lugar, a sua individualidade. Isto é, o pai não pode impor. Quem decide? Esta é a pergunta. Os pais ou as crianças? O pai não pode impor a modalidade desportiva que o filho deve praticar, em função de alguma frustração ancestral. Não pode ser feito dessa forma. Depois as crianças devem ser tratadas como crianças e não como atletas. Deve ser respeitado o seu processo de desenvolvimento. Também devem participar de forma independente, isto é, quando fazem desporto deve ser respeitado o seu nível de habilidade e, obviamente, devem competir com os seus opositores mas em função de valores, daquilo a que se chama o fair play. Tem de haver fair play na formação desportiva, para não acontecer depois aquelas coisas desgraçadas e lamentáveis que acontecem no desporto dos adultos, ao mais alto nível. A criança deve poder decidir quais são as atividades que quer fazer. Conheço imensos jovens que começaram a fazer ginástica, depois foram para o atletismo, depois natação, depois ténis… e se calhar acabaram por ser grandes atletas no futebol, por exemplo.

Quem é muito bom numa modalidade normalmente também tem aptidão para outras modalidades. Exatamente. Há uma cultura motora eclética, uma cultura de rua intensa e uma apropriação de habilidades muito diversificada. Os atletas de alto nível brincaram muito na rua e foram felizes, não se fabricaram em laboratório. Há aqui muitas variáveis em jogo que têm a ver com o local onde vivem, onde crescem, a identidade do lugar… Os estudos biográficos demonstram que o sucesso desportivo ao mais alto nível está diretamente ligado à qualidade de vida que tiveram na infância e à estimulação diversificada que tiveram do ponto de vista motor e do ponto de vista social. Isso é perfeitamente claro. Há crianças que são talentosas e em termos dos clubes não se pode impor desde muito cedo uma prática muito especializada sem explorar primeiro as tendências que essa criança pode apresentar. E isto não é só no desporto, também é nas áreas artísticas.

Mas, às vezes, quando os treinos são mais lúdicos dão a sensação de desorganização e há pais que depois reclamam. Preferem ver filas e obediência.

Uma das maiores prioridades que deve haver é discutir este tema, que recentemente foi promovido pela Panathlon clube, em conjunto com o Comité Olímpico: o papel dos pais no desporto. De facto, é preciso fazer formação parental. É urgente que os clubes façam escolas de formação de pais. Os pais têm de perceber que os seus filhos não podem ter um sucesso a qualquer preço. Têm de respeitar os níveis de envolvimento, têm de respeitar os treinadores e as perspetivas de aprendizagem que eles têm. Os pais têm de compreender bem primeiro que tem de haver uma educação motora básica, um saber inicial fundamental no qual se suporta uma especialização, mais tarde. É um processo progressivo que tem de respeitar várias fases de desenvolvimento. A especialização desportiva deve obedecer a níveis de desenvolvimento e de aprendizagem, a etapas de ensino no processo desportivo. Por isso, as crianças devem ter uma aprendizagem muito lúdica numa primeira fase e depois então quando consolidam essas habilidades motoras específicas é que podem treinar num sentido mais exaustivo. Aliás, há um estudo que foi recentemente publicado pela academia americana de pediatria, em que é demontrado efetivamente que os benefícios de uma criança praticar desporto são enormes, quer do ponto de vista da capacidade de liderança, do prazer que têm em fazer desporto, da autoestima, da autoconfiança, da autoregulação, do sentido de equipa, da capacidade de aprendizagem de capacidades motoras mais complexas e da socialização em pares, que é uma questão fundamental nos tempos de hoje, as crianças têm de ter amigos. Mas também é verdade que se sabe que cerca de 70% destas crianças não chegam ao mais alto nível. Quer dizer que há aqui um fenómeno no meio que é preciso que os pais tenham consciência e a sociedade em geral tenha consciência, é que dos milhares de crianças que fazem prática desportiva organizada durante anos nem todos têm sucesso, nem todos podem chegar ao topo. Quer dizer que pelo caminho perdem-se imensos e esse é um fenómeno que devia ser mais estudado em Portugal e que não está efetivamente bem consciencializado, quer por treinadores, quer por pais, quer por dirigentes, quer por políticos, que é o abandono desportivo. Há muito abandono desportivo em Portugal, provocado por métodos de treino que não estão adequados, que desmotivam as crianças, e por pressões que muitas vezes existem de pais e treinadores para que as crianças tenham sucesso, e não têm.

Neste caso o sucesso entendido apenas e só como a vitória, correto?

Exatamente. Por outro lado, também se sabe que só 30% dos desportistas, uma percentagem muito baixa em Portugal, conseguem continuar os seus estudos nas escolas. O que significa que tem de haver aqui uma preocupação de haver coerência entre o processo desportivo e a escola, porque é fundamental que o cidadão tenha uma formação mínima. E muitas vezes sacrifica-se a formação escolar pela formação desportiva. Isto tem de ser bem pensado em Portugal. As crianças não podem ser vítimas de uma expetativa social e familiar de querer o sucesso a qualquer preço, fazendo disto um negócio em que todos tenham de ser Cristianos ou Messis.

Os piores pais são esses, que querem que os filhos, ainda crianças, sejam jogadores à força toda?

Exato. Como já disse, é preciso fazer a formação dos pais e a primeira mensagem que temos de transmitir é que é importante que a criança tenha uma formação escolar, que o sucesso desportivo não pode ser a qualquer preço, que tem de haver uma variedade de atividades físicas e desportivas numa primeira fase antes da especialização… É preciso que eles compreendam isso. Se você for ver aí, não só no futebol, mas noutras modalidades, quando os pais estão a observar treinos é inaceitável o que se passa, diria mesmo que é uma vergonha. É um atentado à dignidade social e cívica das crianças. Os nomes que os pais chamam, as ofensas que fazem aos treinadores, aos árbitros, aos próprios filhos… Isto não é aceitável em lado nenhum. Quer dizer que tem de haver uma dignificação no que é a formação desportiva, porque não se pode confundir o que é o desporto de alto nível com o que é o desporto de formação. E infelizmente em Portugal tem-se discutido muito pouco, tirando as universidades, que fazem investigação, o que é a formação desportiva de jovens. E não é só no futebol, é em todas as modalidades. Hoje em dia, em todo o mundo, estão em debate duas questões essenciais na formação desportiva: a seleção de talentos e a questão da especialização. Quanto à seleção de talentos, isso já está muito discutido e sabemos que é um fenómeno multifatorial, mas quanto à especialização tem de se saber de uma forma clara, de um ponto de vista cientifíco, que é necessária uma formação motora global, primeiro, e só depois a formação específica. Diria que há quatro fases na formação desportiva: a estimulação motora, que é brincar e adquirir um repertório motor genérico; uma fase em que se associam vários tipos de habilidades e a criança começa a ter uma capacidade de organizar tarefas motoras mais complexas; depois então uma escolha de atividades desportivas até chegar à fase de transição para uma especialização motora, que implica muito trabalho, persistência e resiliência. É preciso muitas horas de prática. Repare, para se ter sucesso desportivo não basta fazer meditação, não é?

É preciso treinar.

É preciso trabalho, muitas horas de prática. E essas horas de prática roubam muito tempo a outras coisas fundamentais na vida. Há muitos atletas que perderam a sua infância e a sua adolescência, e é preciso medir bem isto na balança do que se quer na vida. Os atletas que conseguem sucesso são verdadeiros heróis, porque muitas vezes investiram toda a sua infância e adolescência num objetivo, que é ganhar uma medalha. Mas há estudos muito críticos sobre isso. Uma medalha não vale a vida de uma criança, não é? Mas, enfim, o que interessa aqui é focar esta triangulação pais-jovem-escola. A política desportiva de formação tem de ter em atenção que as crianças e jovens têm direito ao seu desenvolvimento normal, como qualquer cidadão praticante de desporto, e que há que haver um balanço entre a prática desportiva e o tempo escolar.

Há tempo para tudo?

Em Portugal há muitas famílias que vivem um verdadeiro inferno a gerir a vida dos filhos entre o tempo escolar e o tempo de prática desportiva nos clubes, e é preciso suavizar isto. Diria, por exemplo, que é preciso não atirar as culpas todas para cima dos pais, porque de facto a forma como em Portugal se gere o tempo de vida é algo que é inconsistente do ponto de vista dos modelos de qualidade de vida das famílias que existem na comunidade europeia. Porque nós temos pais cansados, que trabalham demasiadas horas e que têm pouco tempo para os filhos. Há uma falta de harmonização entre o tempo de trabalho, o tempo passado na escola e o tempo passado na família, para além do tempo passado no clube. No meu prédio vejo crianças a chegarem a casa às onze da noite, vestidas a rigor dos treinos, e os pais completamente exaustos, e se calhar ainda vão fazer os trabalhos de casa e no outro dia às 7h da manhã já estão a sair de casa. Portanto isto atingiu uma dimensão patológica. É preciso suavizar isto e fazer uma prática desportiva humanista, com uma perspetiva de poder respeitar os direitos da criança no desporto mas também o direito à vida, ao prazer, a ter sucesso escolar. Veja-se o que acontece nas camadas jovens, nos infantis, nos iniciados, nos benjamins, com aquelas classificações todas que existem, em que as crianças já fazem uma competição como se fossem adultos. Acho inaceitável ver crianças a aprenderem a ser guarda-redes com quatro anos de idade, por exemplo. Isto é um disparate conceptual. Os modelos que existem de formação desportiva nos clubes têm de ser repensados. Têm de haver formação especializada para os dirigentes, para os pais, mas também para os treinadores, porque tem de ser perceber o que é uma criança e um jovem em desenvolvimento. Nós precisamos, com as federações, com as associações, com as próprias instituições do Estado – estou a falar do Instituto do Desporto…

Os cursos de treinador em Portugal foram remodelados há pouco tempo.

Sim, já houve coisas interessantes que foram feitas, mas ainda falta fazer muitas coisas. Porque depois temos no desporto um ciclo de influências muito complexo que vai desde a perspetiva dos media até à perspetiva do país em relação ao número de medalhas, ao número de atletas, ao sucesso. Mas nós não podemos ter medalhas fruto do acaso, como tem sido até aqui. Isto tem de ser visto como um sistema que tem de ser bem pensado, sob um ponto de vista de formação de base, de formação intermédia e de formação especializada. E depois há os pais que, como já disse, têm de ter formação.

Um “mau” pai será aquele que pergunta ao filho “ganhaste?” e um “bom” será o que pergunta “gostaste do jogo?”

Sim. Nós temos normalmente quatro tipos de comportamento parental. Temos os pais desinteressados, que têm algumas vantagens – eu sou desse tempo, o meu pai não sabia bem qual era a minha vida desportiva na escola e no clube -, depois temos os pais mal formados, que têm uma visão errónea do desporto e às vezes comportam-se de forma inaceitável de um ponto de vista verbal, não verbal, de pressão sobre as crianças, os treinadores e os árbitros. Depois temos os pais excitados, que se colocam excessivamente na vivência do desporto dos próprios filhos. E depois temos os pais fanáticos, aqueles que querem o sucesso a qualquer preço. Temos vários comportamentos. Há pais que são excessivamente críticos, muito exaltados, aquilo que chamamos de treinadores de bancada. Outros são super protetores e hoje o maior drama da sociedade é a super proteção. Esta super proteção não dá autonomia às crianças e aos jovens. São muito controlados. Isto acontece na escola e no clube. Nós temos hoje muitas crianças que até têm alguma aptidão motora mas depois são demasiadamente frágeis do ponto de vista emocional e cognitivo, porque são super protegidas. Os pais levam-nas aos treinos, vão lá buscá-las, observam tudo o que se passa, perguntam tudo o que acontece… A criança é uma vítima, de algum modo, e não tem autonomia. Para se ter sucesso desportivo é preciso ter-se autonomia, capacidade crítica, capacidade criativa e inovadora. Para se ser campeão tem de se ser também, de algum modo, caótico. Quero crianças e jovens ativos, impertinentes, que façam perguntas, que tenham motivação, que tenham objetivos. Quero crianças selvagens no desporto, porque são essas crianças selvagens que vão ser os verdadeiros campeões do futuro. Não podem ser totós. Nós hoje temos crianças que são rejeitadas pelo próprio sistema desportivo, porque não têm jeito, porque são gordinhas, etc. E isso é muito mau, porque é o reflexo de uma contradição que está a acontecer no desporto e na escola em Portugal, que é por um lado haver uma super proteção dos pais e ao mesmo tempo quererem que eles sejam génios. Esta super proteção é uma das maiores pragas que temos hoje na formação de crianças e jovens no mundo escolar e desportivo.

Quando os pais não os podem levar de carro, há jovens que dizem que não podem ir ao treino.

Que vão a pé. Neste momento o sucesso comanda o processo – e não pode ser. Tem de se respeitar outras coisas, como já disse. Uma formação correta e bem fundamentada do ponto de vista pedagógico, científico e técnico, daí ter de haver formação de treinadores, havendo também formação sistemática nas federações, associações e clubes, com estratégias bem delineadas do que deve ser o perfil de formação em todos os escalões e em todas as fases de desenvolvimento da criança. Ter muito atenção ao abandono desportivo, estudar as razões do abandono, se as crianças quiserem desistir têm esse direito, mas não se podem expulsar a qualquer preço as crianças que não têm jeito. A questão que se coloca da dispensa deixa algumas crianças traumatizadas para toda a vida pelo facto de terem criado uma expectativa que depois não se realiza e ninguém se preocupa com isso, só se preocupam em formar os talentos. Então e aqueles que desistem? É preciso repartir o tempo passado no clube e o tempo passado na família, porque as crianças têm direito a estar com os pais e a ter tempo livre. Em Portugal não houve coragem política até agora de fazer esta harmonização do tempo. Porque se você for a qualquer país nórdico vê que às 16h30 sai toda a gente e vão todos buscar os filhos à escola, todos têm tempo. Aqui, um indivíduo que trabalhe mais do que 12 horas se calhar é considerado um indivíduo altamente competente – e é tudo ao contrário. Não estão a ser respeitados os tempos de sono e de lazer, e está a sacrificar o tempo em benefício do trabalho. E quem paga isto são as crianças e os jovens, porque os pais não têm tempo para eles e eles não têm tempo para brincar. Nós fizemos aqui um estudo recente na FMH sobre a formação desportiva e o bullying, a violentação que acontece entre pares no clube. É uma amostra gigantesca de todas as partes do país, do sexo masculino, em várias modalidades, e verificámos que no contexto desportivo há de facto bullying e isso é muito preocupante. Isto acontece principalmente no balneário, onde não está ninguém e aí os treinadores e pais não têm acesso. Encontrámos 11,5% de agressores e 10% de vítimas, o que é elevadíssimo. E essas crianças dificilmente comunicam o bullying aos adultos. Estas crianças que sofrem bullying no clube mais cedo ou mais tarde abandonam. Fizemos também uma retrospetiva com atletas de alto nível para identificarem situações de bullying no seu processo desportivo. Temos neste momento um projeto com o IPDJ que é o cartão vermelho ao bullying e estamos a criar um projeto dirigido à formação desportiva com linhas condutoras para os treinadores, pais e dirigentes.

Se os clubes identificarem que a criança não está a ter sucesso escolar devem falar com os pais e castigá-la no âmbito desportivo?

Não tem de haver castigos. Acho que tem de haver coerência e diálogo entre os treinadores e os pais, na regulação e no acompanhamento que as crianças devem ter no ponto de vista do treino e no ponto de vista da escola. Não estou a falar das academias onde as crianças já ficam a dormir, com uma grande estrutura que dá apoio. Estou a falar de uma forma mais genérica. Os estudos internacionais mais recentes têm vindo a demonstrar que a tendência é desvalorizar a escola a favor do sucesso desportivo. E nós temos de resolver este assunto, porque a criança tem direito de ser um cidadão bem formado e não se pode dimunuir a a importância da sua formação escolar. Tal como comecei a dizer-lhe no início, o desporto é um fenómeno de grande envergadura atualmente, mas tem depois aspetos muito negativos.

Como por exemplo?

Não lhe posso contar casos concretos que conheço, mas há pais que sacrificaram toda a sua vida para que os filhos tivessem êxito. Mudaram de residência, mudaram de país, endividaram a sua própria vida e depois acabou tudo mal. Há também a situação absolutamente chocante de africanos que vêm para a Europa para fazer desporto de alto nível e que ficam abandonados nas ruas, esquecidos, porque não tiveram êxito. É uma verdadeira vergonha europeia. Até com crianças de sete, oito, nove anos já se fazem contratos porque se pensa que vão ser grandes talentos. E isso acontece um pouco por todo o mundo. O fenómeno tem um lado sagrado, mas também tem um lado perverso. Por exemplo, qual é o nível de participação das crianças na sua formação desportiva? É tudo imposto. Tal e qual como nas escolas, onde têm de estar sentadas, quietas e a ouvir professores cansados, velhos e chatos. O que é que elas gostariam de fazer no treino? Algumas vez os treinadores ouvem as crianças? Os pais ouvem os próprios filhos? A formação de crianças e jovens em Portugal é de uma visão autocrática e isto é mau, porque as crianças do século XXI mereciam outro respeito e um processo mais democrático. Haveria mais participação, um melhor ambiente, mais entreajuda… como acontece nos países que já o fazem de forma mais adequada, como o Canadá e alguns países nórdicos. As crianças não são atletas em miniatura. Eu posso fazer um campeão à martelada. Se repetir exaustivamente, eu chego lá. Só que ele não vai ser criativo, não se vai adaptar, vai morrer cedo. Se eu fizer um atleta inteligente, dinâmico, com capacidade adaptativa, esse é que vai ser um bom atleta, e quero na formação um modelo que forme estes atletas. O Cristiano Ronaldo é um caso exemplar. Vem de uma família pobre, vivenciou muito a sua infância na rua, foi para um clube, teve a sorte de ter uma boa condução no desporto, tem uma boa capacidade pessoal de trabalho parar ter sucesso. Não há milagres no desporto, é preciso muito trabalho. E para uma criança ter muita resiliência é preciso ter uma grande capacidade de autoregulação emocional, autoconfiança e autoestima. Hoje há muitos fatores a jogar contra as crianças, como já dissemos. Elas não têm tempo para ser selvagens. Para se ser um atleta de alto nível tem de se ser selvagem no decorrer da infância e da adolescência. Isto é um bocadinho agressivo, sei que é perigoso o que estou a dizer, mas eu não quero crianças totós no desporto. Quero crianças com uma grande vivência física e emocional, que sejam impertinentes e resolvam problemas. Crianças com energia. Não quero crianças obedientes. É como os meus alunos. Em 40 anos de aulas aprendi isso. Aquela criança que está quieta e em silêncio, à espera que eu a comande… isso não tem sentido. E no desporto começa a passar-se isso.

Mas é muito isso que se valoriza hoje em dia, a obediência e a quietude.

Está a acontecer uma espécie de fabricação de campeões em laboratório, o que é uma ilusão. Tem de haver um trabalho correto ao nível do clube, da escola, do desporto escolar, da educação física… Porque o trabalho no clube e no desporto escolar é para os que têm mais jeito, mas a educação física é para todos. Mas em todos estes casos há que respeitar as tais etapas de desenvolvimento das crianças e dar-lhes autonomia e liberdade de participação. Creio que o desporto em Portugal tem de ser repensado nesta perspetiva, tal e qual como a escola tem de ser repensada e até os clubes – ou seja, todos os locais onde se pratique desporto organizado e intencional. Não é só a escola que precisa de reforma, é necessária também uma reforma na formação desportiva em Portugal. Digo isto com toda a convicção. Dou aulas aqui na universidade e vejo como é que os meus alunos vêm dos clubes. Na formação desportiva o objetivo não é focarmo-nos no produto, marca, resultado, medalha. Temos de nos centrar na qualidade do processo de treino e de formação. Se não o que acontece é que as crianças sofrem e desistem, porque temos um modelo centrado na cabeça dos adultos, centrado em atingir o sucesso a qualquer preço. Mas, como disse, não se fazem campeões à pressa. Qual é a criança que não gosta de brincar? Qual é a criança que não gosta de explorar a sua envolvente? Qual é a criança que não gosta de ter amigos? Qual é a criança que não gosta de ter autonomia? Qual é a criança que não gosta de sair de lá feliz? Qual é a criança que não gosta de correr riscos? É que às vezes nos clubes está tudo sistematizado, tudo organizadinho, e não há nenhum risco a correr. Assim não se faz formação. Como é que vamos resolver isto? Tem de haver uma grande intervenção por parte da tutela, com políticas desportivas bem sistematizadas, no sentido de produzir documentos e informação. Temos de repensar a formação desportiva em Portugal e eu sei que o que estou a dizer vai ser muito criticado e vou levar muita pancada, mas eu digo: a formação desportiva em Portugal precisa de ser remodelada. Ainda ninguém em Portugal pensou como se faz a formação de pais. Os clubes devem ter regulamentos em relação aos comportamentos dos atletas mas também em relação aos pais. Há clubes no estrangeiro em que se os pais têm um comportamento inapropriado, a criança é expulsa do clube. Tal e qual como precisamos de uma reforma do sistema educativo para uma visão mais humanista, nós precisamos de uma revisão do sistema de formação desportiva numa perspetiva mais respeitadora dos direitos das crianças e dos jovens. Esta agora foi bem dita, não foi? [risos]

 

 

 

Crianças sozinhos em casa talvez a partir dos 12

Março 10, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do http://www.jn.pt/ de 6 de março de 2017.

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Maturidade e autonomia é que contam no ato da decisão

Afinal, a partir de que idade é aconselhável deixar uma criança sozinha em casa? A questão, dizem os especialistas, não se pode definir do ponto de vista etário. Maturidade e autonomia é que contam no ato da decisão.

“Não há propriamente um manual que especifique uma idade. Tudo depende da capacidade autonómica da criança, do seu grau de maturidade”, defende a pediatra Andreia Teixeira.

“Uma coisa é deixar uma criança sozinha enquanto se vai colocar o lixo na rua, e mesmo assim esse tempo pode revelar-se perigoso, outra é deixá-la sozinha várias horas”, adianta a pediatra. “Eu diria que a partir dos 12 anos, se a criança revela alguma autonomia e maturidade, pode ser deixada sozinha. Mas sempre por curtos períodos de tempo”, acrescenta.

Conhecer os perigos

Para Andreia Teixeira é importante que, ao ficar entregue a si própria, a criança saiba, por exemplo, como contactar os familiares em caso de emergência, que não deve abrir a porta a estranhos e o que fazer se o telefone tocar. Depois há uma outra série de fatores a ter em conta, “como se a criança em causa vive numa grande cidade ou num meio pequeno, se pode ou não recorrer à ajuda de vizinhos em caso de necessidade”.

Também o pediatra Mário Cordeiro, que tem escrito bastante sobre o assunto, defende que “idealmente, nenhuma criança ou adolescente com menos de 12-14 anos deveria ficar sozinho em casa”. Mas, a ser necessário, há que minimizar os riscos que a situação pode acarretar. “É fundamental considerar a preparação da criança e a sua personalidade, para além da idade”, sustenta.

“Esta é uma questão muito complicada, porque depende da criança, da sua experiência e maturidade, da família, do sítio onde vive”, sublinha de igual modo Sandra Nascimento, presidente da Associação para a Promoção da Segurança Infantil (APSI), instituição que domingo completou 25 anos de existência.

Para esta técnica, o que é importante é “garantir que, antes de ficarem sozinhas em casa, as crianças comecem a ser preparadas para isso, a ser ensinadas a reconhecer os perigos, e a saber como reagir.

Dialogar é preciso

É fundamental considerar a preparação da criança e a sua personalidade, para além da idade. É também necessário dialogar com a criança e negociar as regras, quer quanto à utilização da casa e dos bens, quer quanto a regras mínimas referentes a várias coisas.

Telefones e segurança

Os telefones e contactos dos pais e de pessoas conhecidas devem estar bem evidentes, para que a criança possa utilizá-los, se necessitar. Devem ficar bem claras as regras de segurança, designadamente instruções relativas a abrir portas e telefones.

Cuidado com acidentes

Um aspeto a ter em conta diz respeito a recapitular quais os acidentes mais frequentes que podem acontecer. Debruçar-se nas janelas, acender fósforos, ligar aquecedores ou utilizar facas, por exemplo, pode ser uma tentação.

“Admissão” de amigos

O pediatra Mário Cordeiro lembra igualmente que uma política de “admissão” de amigos e colegas de escola também tem de ficar muito bem definida desde o princípio. Os pais devem negociar este aspeto.

Simulações prévias

Podem fazer-se pequenas simulações de ausência permanecendo uns minutos fora de casa, antes de deixá-la sozinha. Deste modo pode perceber-se até que ponto a criança é responsável e reage a essa situação.

 

 

 

 

Há quem ensine os pais e os filhos a brincarem para terem sucesso no futuro

Março 2, 2017 às 10:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 23 de fevereiro de 2017.

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Consórcio entre ministérios, fundações e universidades levam as brincadeiras a cinco distritos do pais. Os resultados são positivos, agora só falta saber como vai continuar.

Bárbara Wong

Durante dez meses, duas vezes por semana, em sessões de duas horas, os bebés e as suas mães (ou pais, avós, amas… houve mesmo uma bisavó) saíam de casa e iam aprender a brincar, a socializar, a estar com outros bebés (até aos quatro anos e que não tivessem tido experiência de creche ou de pré-escolar). A experiência foi feita ao longo de dois anos e os resultados não podiam ser mais positivos. Por isso, o objectivo é dar continuidade a este projecto, embora ainda não se saiba como.

Brincar, explorar o espaço – interior e exterior –, descobrir, interagir, conversar. O projecto chama-se Grupos Aprender, Brincar, Crescer (GABC) e não é uma novidade no mundo – são os chamados playgroups –, nem sequer em Portugal – a Associação A Par promove esta relação entre os pais e os bebés, em Lisboa, desde 2008. A novidade está no facto de estes grupos terem nascido de uma parceria dos ministérios da Educação e da Segurança Social, com as fundações Gulbenkian (FCG) e Bissaya Barreto (FBB), a Universidade de Coimbra e o ISCTE, assim como com o Alto Comissariado para as Migrações, num projecto financiado pela Comissão Europeia.

Os GABC foram testados no terreno, monitorizados, avaliados e, nesta quinta-feira, elogiados pelo secretário de Estado da Educação, João Costa, na Gulbenkian, em Lisboa, durante a abertura do encontro sobre Políticas públicas para a infância: o papel da família e das comunidades. Estes grupos permitem preparar os mais novos para, no futuro, terem sucesso.

“A vida começa aos zero”

João Costa lembrou que, embora o Ministério da Educação, tenha a seu cargo a educação de infância a partir dos três anos, há uma “aposta forte” nos anos que antecedem essa idade. “Entendemos que a vida começa aos zero, quando falamos de infância, falamos dos 0 aos 6 anos e tem de ser contínua a aposta”, declarou. Também Pedro Cunha, da Direcção-Geral da Educação (DGE), elogia esta iniciativa que se trata de uma “forma inovadora de responder às necessidades das famílias”, sobretudo das mais frágeis – uma vez que os GABC chegaram a bairros e a famílias desfavorecidas, com a ajuda do programa Escolhas.

Apesar de ter chegado a famílias com pais desempregados ou que recebem subsídios, estas foram as que tiveram mais dificuldade em aderir e em manter-se no projecto, notou Joana Alexandre, do ISCTE, responsável pela monitorização. “As famílias que vão mais são as que têm mais rendimento, foram essas que se auto-propuseram para participar. As que têm menos rendimento, que são referenciadas, que têm mais apoio, são as que se interessam menos. Mas é nessas que devemos apostar em termos de estratégias”, explica a investigadora, acrescentando que as monitoras do GABC tiveram formação especifica para captação dessas famílias.

O projecto revela que, no final, as crianças e os seus cuidadores (83% das participantes eram mães) têm mais competências para escolher as brincadeiras, que a qualidade do ambiente familiar aumenta, acrescenta Clara Barata, da Universidade de Coimbra, responsável pela avaliação do projecto.

A aposta agora é na continuidade. Quando o projecto terminou, as famílias nem queriam acreditar, conta Joana Freitas Luis, coordenadora nacional dos Gabc. A educadora de infância da FBB conta que na Gafanha da Nazaré – o projecto decorreu em cinco distritos (Aveiro, Coimbra, Lisboa, Porto e Setúbal) e abrangeu 228 famílias – uma mãe decidiu abrir a sua casa para dar continuidade ao grupo. A ideia sensibilizou de tal maneira o presidente da junta de freguesia que este disponibilizou um espaço para as famílias se encontrarem.

Para Pedro Cunha, a continuidade do projecto passa pela sociedade civil, por instituições particulares de solidariedade social, associações, juntas de freguesias. O desafio é as pessoas “inspirarem-se nesta resposta para romper com a ideia fatalista de que não há nada a fazer”, defende o dirigente da DGE. E chegar a grupos e etnias “mais vulneráveis”, defende o secretário de Estado. “Esta é uma meta fundamental: ver quais são os grupos a que ainda não chegámos”, acrescenta, lembrando a importância da inclusão até para, no futuro, apostar no sucesso escolar. “As crianças mais pequenas são as que estão mais abertas à inclusão, elas oferecem-nos instrumentos para aprender com elas”, concluiu o governante na cerimónia de abertura do encontro.

 

 

 

Educação parental severa pode levar a maus resultados escolares

Fevereiro 23, 2017 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do http://www.dn.pt de 8 de fevereiro de 2017.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Gender Differences in the Developmental Cascade From Harsh Parenting to Educational Attainment: An Evolutionary Perspective

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Estudo definiu como parentalidade severa gritar, bater ou outro tipo de comportamento coercivo, além de ameaças físicas e verbais como forma de punição

As crianças sujeitas a uma educação parental rígida correm maior risco de ter fraco aproveitamento escolar, revela um estudo, segundo o qual a educação parental tem um papel importante na formação do comportamento ou nas relações com os colegas.

O estudo, publicado hoje na revista ‘Child Development’, foi realizado por investigadores da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, e procurou determinar a relação entre o tipo de educação por parte dos pais e os efeitos nas crianças e jovens ao nível escolar ou comportamental.

De acordo com os investigadores, tanto os efeitos diretos como indiretos do tipo de educação que os pais dão aos filhos têm um papel importante no momento de moldar o comportamento das crianças e jovens, bem como a sua relação com os colegas.

O estudo mostrou que uma educação parental severa está relacionada com piores resultados na escola “através de um conjunto de complexos processos em cascata que enfatizam comportamentos atuais à custa de objetivos educacionais futuros”.

Os investigadores descobriram que os alunos do sétimo ano, cujos pais eram severos, tinham maior risco de no nono ano dizer que o seu grupo de amigos era mais importante do que outras responsabilidades, incluindo cumprir as regras dos pais.

Por outro lado, isto levou a que se envolvessem em comportamentos de maior risco no 11.º ano, incluindo relações sexuais precoces nas raparigas e aumento da delinquência (bater, roubar) nos rapazes.

Esses comportamentos, por sua vez, levaram a um baixo rendimento escolar (avaliado por anos de escolaridade cumpridos) três anos depois do fim do ensino secundário, o que mostra que os jovens cujos pais eram mais severos, eram mais propensos a abandonar a escola ou a faculdade.

“A educação parental influenciou os resultados educacionais mesmo depois de ter em conta a origem socioeconómica, os resultados dos testes, a média dos resultados escolares e os valores educacionais”, lê-se no estudo.

Acrescenta que os jovens cujas necessidades não são asseguradas pelas primeiras figuras de referência, os pais, vão procurar reconhecimento junto dos pares.

“Acreditamos que o nosso estudo é o primeiro a usar as histórias de vida das crianças como uma estrutura para analisar o modo como a parentalidade afeta os resultados educacionais das crianças através de relacionamentos com os colegas, comportamento sexual e delinquência”, defendeu o coordenador do estudo, Rochelle Hentges.

A investigação definiu como parentalidade severa gritar, bater ou outro tipo de comportamento coercivo, além de ameaças físicas e verbais como forma de punição.

No estudo participaram 1.482 alunos, seguidos ao longo de nove anos, começando no sétimo ano de escolaridade e terminando três anos depois da data prevista para o fim do secundário. No final do estudo, mantinham-se 1.060 alunos.

No global, o grupo incluía alunos de várias origens raciais, socioeconómicas e geográficas, tendo sido pedido aos participantes para darem conta do uso de agressões físicas e verbais por parte dos pais, bem como definirem de que forma interagiam com os colegas na escola ou falarem sobre delinquência ou comportamentos sexuais.

Marcadores de excesso de confiança com os colegas incluem, por exemplo, optar por passar tempo com os amigos em vez de fazer os trabalhos da escola ou acreditar que é correto quebrar regras para manter os amigos.

Os investigadores salientam que as conclusões do estudo têm implicações nos programas de prevenção e intervenção destinados a aumentar o envolvimento dos alunos na escola e aumentar as taxas de sucesso escolar, tendo em conta que, como as crianças expostas a uma educação parental mais severa são suscetíveis de terem resultados escolares piores, poderiam ser alvo de uma intervenção.

mais informações no link:

https://www.eurekalert.org/pub_releases/2017-02/sfri-hpp020117.php

Sabe porque chora o seu bebé? Arranjámos-lhe uma tradutora

Fevereiro 21, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Vídeos | Deixe um comentário
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Entrevista do http://observador.pt/ de 4 de fevereiro de 2017 a Joana Rombert.

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Ana Cristina Marques

Fome, cólicas ou sono. Interpretar o choro de um bebé consegue ser um quebra-cabeças, mas é também um desafio à altura de Joana Rombert, terapeuta da fala e autora de “A Linguagem Mágica dos Bebés”.

Talvez seja fome. Talvez a fralda esteja suja ou, então, o sono atacou de vez. Às vezes parece impossível adivinhar o que causa aquele choro desenfreado, aflitivo, que deixa um pai e uma mãe de cabelos em pé e com os nervos em franja. Saber interpretar um bebé não é tarefa fácil, mas é precisamente o trabalho de Joana Rombert, terapeuta da fala e autora do livro “A Linguagem Mágica dos Bebés” (Esfera dos Livros) que chegou às livrarias nacionais no final de janeiro.

No livro, a especialista que também já foi apelidada de tradutora dos bebés descreve as várias etapas de comunicação e linguagem de uma criança, desde o primeiro dia de vida até aos três anos. Entre explicações mais e menos técnicas há ilustrações divertidas e ainda muitas estratégias para ajudar a melhorar a comunicação entre pais e filhos — porque esta relação, que inclui diversos sons, gestos, expressões corporais e faciais, faz-se sempre entre mãe/pai e filho.

No livro descreve várias etapas comunicativas e linguísticas da criança, desde os zero meses até aos três anos. Há algum período fundamental para este desenvolvimento?

No livro tenho em conta o modelo Touchpoints, que diz que o desenvolvimento das crianças não é uma linha diagonal mas sim feito por etapas, por pontos de viragem em que acontecem regressões no desenvolvimento para haver evoluções. Por exemplo, os quatro meses são um touchpoint em que o bebé está mais virado para fora, olha mais para o mundo exterior, em que só quer comunicar e interagir com os outros. Então o que é que acontece à sua alimentação e ao sono? O bebé dorme menos porque mal acorda quer ir brincar. E quando está a mamar pára muitas vezes e olha para a mãe, como que a dizer: “Eu sei que estás aí, quero é brincar contigo”. Portanto, nos três primeiros meses ele está mais virado para dentro e aos quatro meses vira-se para fora — nessa altura há uma disrupção ou uma desorganização familiar, em que os pais começam a dizer: “Então, o meu bebé sempre comeu e dormiu tão bem e agora não… O que é que eu fiz?”. Isto faz parte do desenvolvimento normal. A regressão no sono e na alimentação dura semanas. Naturalmente isto vai acontecer porque o bebé está a aprender coisas novas, pelo que há outras áreas que ficam para trás, nomeadamente a do sono e da alimentação. Estes momentos são ponto-chave, são janelas de oportunidade durante o desenvolvimento, às quais nós, pais e profissionais, nos podemos aliar — é uma altura em que podemos promover ainda mais o desenvolvimento da criança.

Nesses momentos-chave, como nos quatro meses, o que é que os pais devem fazer? Como é que se devem comportar?

Primeiro, os pais não estimulam a comunicação nem a linguagem, porque a linguagem não se estimula. É antes promovida, facilitada, uma vez que todos nós nascemos com esta capacidade inata para desenvolver a linguagem e a comunicação de maneira a relacionarmos-nos com o mundo. O que acontece é que durante este tempo há vários ingredientes para os pais darem mais espaço à criança para comunicar. Um aspeto que acho muito importante é em relação ao tempo de espera e ao tempo de escuta — os pais devem observar e estar atentos às várias etapas da criança, estar atentos à sua comunicação e responder àquilo que ela manifesta, mesmo que às vezes não entendam o que ela quer. O mais importante são todas estas tentativas que eles, pais, fazem para comunicar com o seu bebé.

Diz que todo o comportamento é uma forma de comunicação. Como por exemplo?

Os pais devem estar atentos a todo o comportamento do bebé. Se o bebé se aperta muito e dá um grito é porque há uma dor. Ou se, por exemplo, estamos a falar com o bebé e ele está com vontade de dormir, então a indicação que ele está a dar é que agora não está disponível para brincar assim. Ou quando o bebé leva as mãos à boca e começa a chupar os dedos, dando o sinal que está com fome. Há vários sinais que ele nos pode dar e, de facto, ele manifesta muito através do sono e da alimentação que são, no início, as necessidades básicas dele.

A ideia passa pelos pais estarem simplesmente atentos às mensagens do bebé?

Exatamente, para perceber o seu significado, para saber porque é que ele está a manifestar aquilo e qual é a sua necessidade. O mais importante são estas tais tentativas de comunicação [entre pais e filho]. Há muitos pais que não sabem interpretar os choros do bebé — e não têm de o saber, isso não é obrigatório, não há regras nem padrões em termos de desenvolvimento. Há padrões normativos mas estes têm espaços de abertura muito grandes, nem tudo é sinal de alarme e nada é estanque. Tudo é flexível e tudo é evolutivo. Todas as dúvidas, inquietações e inseguranças fazem parte da maternidade e da paternidade e é um processo de tentativa-erro. O melhor que eles [pais] podem fazer é ir ter com o bebé e tentar tudo aquilo que conseguirem. É isso que faz com que o bebé sinta “olha, este é o meu pai, ele está aqui para mim”. Ao fazer isto está-se a dar significado ao que o bebé quer transmitir, mesmo que não haja sintonia entre pai e filho. Isso faz parte do desenvolvimento e ajuda os pais a tornarem-se mais confiantes.

Nesse sentido, o livro funciona apenas como uma orientação?

O livro dá-nos algumas pistas de sinais fisiológicos e naturais, como as expressões faciais e a história do “neh”. Porque é que um bebé diz “neh”? No choro da fome, o bebé faz o que parece ser um “neh” porque ele tem a língua lá em cima, que é quando faz sucção — no movimento da sucção, a língua está lá em cima e bate no céu da boca. Mas há bebés que fazem isto de forma muito competente e outros nem por isso. Há bebés em que é mais difícil diferenciar o tipo de choro e é preciso ter um ouvido bastante treinado — também não é obrigatório tê-lo. A mesma coisa acontece do bebé para os pais, porque a comunicação não é só dos pais para o bebé. Achamos que o bebé é mais passivo, mas o bebé comunica de uma forma muito forte. Ele chora e isso é o máximo da comunicação, de tal maneira que as pessoas até ficam com desconforto. O choro é, nesta fase, a única forma de linguagem do bebé, ele não conhece outra.

No livro escreve que eles, os bebés, conseguem perceber o que nós dizemos e que quando ainda estão na barriga da mãe conseguem memorizar a voz desta. Será que subestimamos os bebés?

Acho que sim, claro. Acho que subestimamos completamente, porque mal o bebé nasce é altamente competente. Não é que ele perceba as palavras, até porque ainda não tem esse entendimento, mas ele consegue discriminar diferenças de línguas. É uma coisa de facto altamente competente, em termos de discriminação auditiva: um bebé com muito poucos dias consegue diferenciar. Sabemos que quando o bebé está dentro da barriga, na vida intrauterina, ele vai ouvindo os sons de quando o pai ou a mãe falam com ele, os sons que ouviu durante nove meses. Quando nasce, se o pai ou a mãe falarem, ele vai imediatamente virar a cara para eles. Se eu falar, ele não vai virar a cara para mim. Ele sabe que aqueles são os seus pais, que estiveram sempre com ele.

O bebé também responde de forma diferente a sons mais agudos ou mais graves. Uma vez que o bebé esteve dentro da barriga e ouviu durante mais tempo a mãe, ele prefere as vozes semelhantes à dela. Portanto, ele está mais habituado a discriminar esses sons. O mesmo acontece com a entoação. Imaginemos uma mãe que durante toda a gravidez fala baixinho: se quando o bebé nasce falamos com muita entoação, ele vai responder menos. Ele também é capaz de discriminar diferentes línguas porque discrimina as partes da prosódia, da entoação, da melodia… Hoje em dia sabe-se isto através dos movimentos da chucha — quando o som é diferente eles alteram o movimento da chucha e vice-versa. Há muitos estudos neste sentido. Uma coisa engraçada é que os pais, homens, quando falam com os bebés falam em falsete — é este a tipo de fala que o bebé está mais atento.

Se a fase dentro da barriga é tão importante para a comunicação posterior, o que é que as mães não devem ou não podem fazer durante a gestação?

Não sei o que é se deve ou não fazer. Agora, de facto, isso vai ter impacto na vida do bebé. Se for uma mãe com vários tipos de emoções, o bebé também vai estar preparado para diferentes tipos de emoções. Acho que não há um padrão para isso. O importante é a mãe comunicar de volta quando o bebé dá um pontapé — de certa forma o bebé está a dizer alguma coisa à mãe. É tudo um processo muito natural. Quando um bebé nasce os pais passaram horas a admirá-lo. Os pais estabelecem uma relação com o bebé através do seu comportamento e comunicação (a forma como tocam no bebé, como olham para ele…). O nosso comportamento também é comunicação. Este livro não é para ensinar pais e mães, é para nos ajudar a descobrir melhor quem é o nosso bebé e como é que podemos interagir com ele.

Também é necessário que o bebé esteja inserido num ambiente comunicativo. O que se entende por isso?

Um ambiente comunicativo é um ambiente em que há linguagem, em que o bebé desenvolve a comunicação e a linguagem de duas formas diferentes. Primeiro, todos nós temos um dispositivo que é inato, temos alguma coisa cá dentro que nos permite desenvolver. É como aprender a andar: o bebé quando começa a andar precisa de um espaço para o fazer, ele pratica, cai e levanta-se, e há uma altura em que começa a andar. Ninguém ensina o bebé a andar, porque isso vem de dentro de nós. A mesma coisa acontece com a comunicação e a linguagem: assim que eles nascem a primeira coisa que precisam é de ter um interlocutor, alguém que comunique com eles e que dê significado àquilo que eles estão a transmitir (quando o bebé chora e o pai responde, começa a comunicação). Esse dispositivo está lá. Mais à frente, quando pensamos em linguagem, o que a criança tem de ter é alguém que fale com ela, que a oiça falar de uma forma ativa e passiva. Ou seja, que converse com o bebé, comunique, interaja, faça frases, mas também que o oiça falar. Um ambiente comunicativo é isto, não é estar sempre a dizer “diz lá o que é isto!”. As coisas acontecem de forma natural e não é obrigatório estar numa creche. Numa avó também se desenvolve a linguagem. Mas há muitas vezes a ideia de que o bebé vai começar a falar assim que entra na creche — isto é um mito que eu gosto de esclarecer porque a linguagem é inata e, se alguma coisa não acontece, é porque há qualquer coisa ali que não está a correr bem e precisa de ser avaliada.

Ainda na lógica do ambiente comunicativo, qual é o risco da televisão nesta fase? E quais as suas vantagens?

Há o perigo de o bebé ficar entregue à televisão, aos iPads ou aos iPhones — este é o único perigo. Entregue é estar lá o dia inteiro. Isto é um risco, de facto, porque aí apenas temos uma aprendizagem passiva. O ser humano desenvolve-se muito mais através de uma aprendizagem ativa. Atualmente é só carregar num botão, é muito fácil: desde muito pequenos que os bebés são competentes e, com o dedo, viram páginas. Estes aparelhos têm muitas coisas atrativas para eles, inclusive a luz. Acho que não podemos eliminar estas coisas porque fazem parte da nossa vida, podemos é arranjar alternativas: o pai, por exemplo, pode ver televisão com o filho e ir falando com ele sobre isso. Há aliás alguns programas muito interessantes e muito interativos, mas se não houver alguém para os traduzir… muitas vezes podem haver programas que são desadequados ou que não são para a idade do bebé. Temos de aproveitar o que de bom temos.

Ao ler o livro fica-se com a ideia de que há diferenças de género no desenvolvimento da linguagem. É verdade?

Não digo que há diferenças, digo que é diferente a forma como os pais — mãe e pai — falam com as raparigas ou com os rapazes. Nós não falamos da mesma forma com os rapazes do que com as raparigas. Costumo dar este exemplo: quando um filho rapaz cai, ele começa a chorar e muitas vezes oiço os pais dizer: “Vá, está bem, já passou”. Quando é a menina e ela chora, perguntam: “Estás bem? Dói muito? Queres mimos?”. Claro que não há padrões, há pais que fazem isto e outros que não fazem, mas naturalmente quando conversamos com um homem ou quando conversamos com uma mulher, o nosso discurso modifica-se. Por esse motivo, também vai ser diferente a forma como eles [rapazes e raparigas] falam e comunicam. O que acontece é que ambos passam pelas mesmas etapas, só que fazem-no de forma diferente. Muitas vezes ouvimos dizer — e isso agora já está um pouco de parte — que as raparigas falam mais cedo do que os rapazes. Durante muito tempo se disse isso e agora já se sabe que não é bem assim. Ambos passam pelas mesmas etapas e alguns permanecem mais tempo numas do que noutras, não é propriamente um atraso. Nós naturalmente explicamos mais as coisas às raparigas e desenvolvemos mais a nossa conversação, pelo que elas são capazes de fazer frases mais cedo, enquanto os rapazes podem demorar mais tempo a dizer, por exemplo, palavras soltas.

Então, um conselho passaria por falar da mesma forma com ambos os sexos?

Acho que o importante é respeitar as diferenças: nós somos diferentes e temos uma forma diferente de dialogar. Se pensarmos em termos de atividade, os rapazes são mais motores, gostam mais de jogar à bola e com carrinhos, enquanto as raparigas brincam com as bonecas a dar a papa — aí têm mais linguagem. Isto tem que ver com as nossas diferenças de género.

Diz que existe uma relação entre a alimentação e fala. Como assim?

Os momentos em que são introduzidos alimentos diferentes, são momentos em termos de salto na linguagem. Vou dar um exemplo: até aos três meses o choro é essencialmente a forma de o bebé comunicar, o que vai diminuindo ao longo do tempo. Entre os quatro e os seis meses, o bebé começa a comer as papas porque já tem mais espaço dentro da boca e, se tem mais espaço, já pode fazer mais sons. Isso é a fase do balbuciar. Entre os seis e os nove meses deve ser introduzido um sólido na boca da criança — isto é que é muito importante. Se entre os seis e os nove meses não introduzirmos qualquer tipo de sólido, por exemplo pão ou bolacha, mais tarde pode ser mais difícil o bebé aceitar os sólidos. Esta é precisamente a altura em que o bebé faz um balbucio não repetitivo ou este jargon [de jargão], em que parece que está a conversar. Com um ano de idade, na primeira palavra, a criança já mastiga. Ou seja, estas etapas de desenvolvimento e de viragem na linguagem e na comunicação têm que ver também com estas etapas na alimentação. Porque a nossa boca tem várias funções e isto é tudo muscular. Os pontos de desenvolvimento da linguagem têm que ver com isso. Se uma criança, por exemplo, fala à sopinha de massa é porque pode engolir com a língua para a frente. São dois subsistemas que se interligam mas que não dependem um do outro.

Muito resumidamente, qual é a evolução da comunicação da criança entre os zero e os três anos?

Há duas grandes etapas, que é a etapa pré-linguística e a etapa linguística. Até ao primeiro ano, até à primeira palavra, é a etapa pré-linguística. A partir do momento em que diz uma palavra, a criança entra na fase da linguística ou da linguagem e isso já é considerado comunicação, apesar de já existir alguma compreensão da linguagem. Todas as etapas são universais, todos passamos por etapas comuns ao longo do desenvolvimento. Começamos por comunicar através do choro para depois, mais à frente, irmos para esta linguagem mais concreta. Primeiro é choro, depois a expressão facial, a mímica, o gesto, o sorriso, o tomar a vez, o palrar, em que a criança diz vogais, o balbucio (sílabas repetidas e não repetidas) e o tal jargon, que parece uma conversa de verdade, na qual não se percebe nada. A partir daí, entre os nove meses e os 18 meses, pode surgir a primeira palavra, sendo que a média é aos 12 meses. Mas há crianças que dizem aos nove meses, outras que dizem aos 15. Mas a partir dos 18 meses já é considerado um sinal de alarme.

No meio disto tudo, quais são os principais sinais de alarme?

Há sinais de alarme em todas as etapas do desenvolvimento. O que é importante é pensar em sinal de alarme em termos de intensidade — ou seja, se a criança faz alguma coisa que é muito exuberante; se com 18 meses não emite uma palavra, se não balbucia, isso é uma coisa muito exuberante — e caso a situação perdure no tempo. Nessas circunstâncias o ideal será falar com o pediatra da criança.

Já foi apelidada de tradutora de bebés. Pode também ser uma encantadora de bebés?

Eu é que fico encantada com os bebés, eles é que me encantam. Apesar de ser terapeuta da fala trabalho com recém-nascidos. É uma coisa que ninguém imagina, mas nós, seres humanos, começamos a falar e a comunicar desde pequeninos. É apaixonante trabalhar com bebés.

visualizar o vídeo no link:

http://observador.pt/especiais/sabe-porque-chora-o-seu-bebe-arranjamos-lhe-uma-tradutora/

 

 

Educar sem magoar

Fevereiro 3, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do http://www.noticiasmagazine.pt/ de 23 de janeiro de 2017.

A criança precisa de pais que sabem o que fazem. Não é por gritar mais alto que o seu filho vai fazer o que lhe pede – atitude gera atitude. Defina regras familiares e aplique-as, sem confundir firmeza com autoritarismo, humilhação ou agressividade.

A criança precisa de pais que sabem o que fazem. Não é por gritar mais alto que o seu filho vai fazer o que lhe pede – atitude gera atitude. Defina regras familiares e aplique-as, sem confundir firmeza com autoritarismo, humilhação ou agressividade.

 

Por: Ana Pago Ilustração: Filipa Viana/Who

Crianças: bater ou não bater? Para muitos, uma palmada pode ser pedagógica, para outros é inaceitável. A discussão sobre os limites da autoridade parental está acesa.

EM TODO O MUNDO, 80% DOS PAIS BATEM NOS FILHOS, GARANTE A UNICEF, EMBORA 49 PAÍSES PROÍBAM O CASTIGO CORPORAL SOBRE CRIANÇAS. EM PORTUGAL, É ILEGAL DESDE 2007. PARA MUITOS, UMA PALMADA NO RABO FAZ MILAGRES, MOSTRA QUEM MANDA. PARA OUTROS, UMA SÓ JÁ É DE MAIS. A DISCUSSÃO SOBRE OS LIMITES DA AUTORIDADE PARENTAL É ANTIGA, MAS CONTINUA ACESA.

O AMOR DE ISABEL SANTOS pelo único filho deixa-a perplexa. Só desejava tê-lo sempre sob a asa. Vê-lo crescer feliz até se fazer um bom homem, o melhor dos pais quando chegar a vez dele. Se possível, com menos dúvidas do que ela. «Uma coisa que me pesa na alma foi ter usado piripíri há uns dois anos, tinha o Filipe 4, para acabar com aquela mania de ele dizer asneiras», conta, pesarosa. Começou de repente e era em todo o lado. Pai e mãe tentaram tudo: ignorar, dialogar, explicar, castigar, suplicar. Perceber de onde vinham os palavrões e a razão de dize-los (nunca souberam). Um dia, o desespero falou. «Chamou-me pe-u-te-a e pus-lhe uma gota de picante na língua. Chorámos os dois! Senti-me um monstro ao magoar a pessoa que mais amo no mundo.» Certo é que resolveu quando tudo o resto falhou e uma pergunta ficou-lhe desde então: será a autoridade parental uma forma de bullying?

«Define-se bullying como a prática continuada de uma agressão física, verbal e/ou escrita que tenha como objetivo rebaixar o outro. Se há casos destes nas relações familiares? Claro que há», alerta Magda Gomes Dias, formadora nas áreas comportamentais e comunicacionais, conhecida entre os pais pelo blogue Mum’s the boss e o site Parentalidade Positiva. Existem educadores que humilham os miúdos por acharem que eles mudam assim, e aí o objetivo final não é a criança sentir-se aviltada, mas mal ao ponto de querer modificar-se – por exemplo, dizer a uma gordinha «Tu já te viste bem? Tens de emagrecer, se não o fizeres vais ser a gorda da sala». Acontece que esta forma de comunicar com os filhos, e que muitas vezes tem a tal intenção positiva de provocar mudança pela dor, fica marcada na memória da criança, garante.

Ficou na de Patrícia Ribeiro, que aos 37 anos continua a ouvir a voz do pai a chamar-lhe desajeitada. «Fui sempre boa aluna, responsável, educada, mas isso era dado adquirido e, portanto, não elogiado. Por outro lado, repisava o facto de eu ser tímida e trapalhona como se quisesse arrancar essa parte de mim à força», recorda com amargura. Se partia algo (e acontece-lhe muito, parece sina), ouvia um «És mesmo desastrada, não fazes nada de jeito». Se se refugiava no quarto a ler, lá vinha a ripada: «Não vais a lado nenhum a ser bicho-do-mato.» Eram umas atrás das outras, atrás das outras. «Aquelas palavras feriam-me tanto como as tareias que nunca apanhei. Adoro o meu pai, a sério que sim. Teve uma infância difícil, sei que só quer o meu bem.» Apesar disso, desconfia que as crises de angústia e falta de autoestima vêm todas dali.

«A criança acredita no que lhe diz o adulto, que supostamente é aquele que zela pela sua segurança. Acredita porque ele é mais poderoso, maior, sabe mais, conhece-a bem. E se diz que ela é tudo aquilo… se calhar até é», traduz Magda Gomes Dias. Ao mesmo tempo, percebe que muitos pais não sabem fazer diferente nem se dão conta do impacto negativo destes métodos, supondo ser isso que vai tornar os filhos mais fortes. «Se o castigo funciona? Claro que funciona. Se a palmada funciona? Então não? E os berros? Parece que sim. Porém, a médio prazo, não resultam, e aqui está o problema.» É tudo uma questão de comunicação e vínculo familiar. «Com a palmada e o castigo agimos em cima da situação mas, ora bolas, nós somos os pais! Precisamos de orientar, liderar, acompanhar. Se a criança fez mal, vamos mostrar-lhe como se faz de outra maneira.»

EDUCAR DÁ MESMO MUITO TRABALHO, acentua o neuropsicólogo Luís Maia, autor do livro Educar Sem Bater. «É o maior desafio na vida de um pai: como levar uma criança desde o berço à idade adulta, promovendo a sua adequação? Como ajudá-la a ser feliz e solidária? Não é de certeza com palmadinhas, insultos e castigos.» Melhor seria se os pais adotassem um estilo relacional em que o despotismo fosse substituído por respeito. «Não aceitamos que ninguém nos trate de modo autoritário, mas depois esquecemos que as crianças também não aceitam a autoridade por si só. Tornamo-nos tiranos a exigir submissão», diz, sublinhando que é muito mais eficaz ser-se assertivo, sem esperar que o funcionamento familiar entre em colapso, do que passivo ou agressivo.

Maria Silva, de 60 anos, concorda com esta postura positiva. Sempre procurou alternativas a bater na filha Alexandra, hoje com 34 e mãe de dois filhos. Nunca achou que um abanão pudesse mais que o diálogo, ou que humilhar a criança a chamasse à razão. Ainda assim, admite ter aplicado «duas ou três palmetas» em desespero de causa. «Não me orgulho, mas houve alturas em que ela nem me ouvia, tal era a birra. Bati-lhe quando já nada surtia efeito e eu estava passada.» Lembra-se como se fosse hoje de uma dessas zangas, teria Alexa uns 4 ou 5 anos: Maria foi buscá-la a casa da tia que cuidava dela após a escola e a filha teimou em levar a boneca da prima sem deixar a sua. «Disse-lhe que tinha de emprestar também, não podia ser egoísta, e ela atirou-se para o chão a espernear, aos berros. Parecia um touro enraivecido.»

Esgotada a diplomacia, de cabeça perdida, a mãe deu-lhe duas palmadas no rabo, tirou-lhe ambas as bonecas e enfiou-a no elevador. «Nunca mais fez outra cena daquelas. Mais tarde abraçámo-nos, pedimos desculpas. Mas na hora saltou-me a tampa.» Alexandra ri-se a ouvir a mãe contar a história: «Lembro-me muito vagamente, para ver como fiquei traumatizada.» Ela própria distribuiu algumas palmadas pelos filhos de 11 e 5 anos, das que não pesam mas indicam estarem a passar dos limites. «Ao mais velho já não bato, prefiro negociar com as coisas de que gosta consoante a gravidade das faltas. A ela dei-lhe uma nalgada o mês passado. Apanhei-a a mergulhar do móvel da sala para o sofá, depois de a avisar não sei quantas vezes que era perigoso. Reagi por medo.»

Segundo o pediatra Mário Cordeiro, «tudo o que seja exagero e culpabilize pais que estão a tentar educar é absurdo». Se uma criança de 3 anos fica possessa, a atirar comida ao chão ou a usar toda a sua força para não ir para a cadeira do carro, duvida que falinhas mansas resultem. Uma coisa é a teoria, outra a prática, e o ótimo é inimigo do bom, diz. «Um enxota-moscas na mão ou na fralda, apenas para limitar aquela mão teimosa que parece surda a outros argumentos, não me parece nada de especial.» Muito diferente de humilhar, em que não se entende a visão da criança ou o exercício de poder perverso. «Tudo o que seja desproporcional, cause dor e seja na cara – bofetadas e puxões de cabelo ou orelhas – é altamente violento porque mexe com a identidade (o rosto), é sádico e dói, no corpo e na alma. É disso que os adultos se lembram como castigos traumáticos, tal como fechar num quarto escuro. São maus-tratos.»

A terapeuta infantil brasileira Denise Dias não só é a favor da palmada pedagógica, caso as demais abordagens falhem, como em 2011 escreveu o livro Tapa na Bunda (Editora Matrix), explicando como impor regras e estabelecer um relacionamento sadio com as crianças em tempos politicamente corretos. «Algumas testam incansavelmente os pais. Quando já as chamámos à atenção, já as pusemos de castigo e mesmo assim continuam, estão a pedir uma palmada como limite.» A polémica estalou, como sempre que se fala deste assunto, porém Denise não desarma: «Um tapinha na bunda não dói tanto como um tapa na cara que os pais podem levar do filho quando este for adolescente.» O próprio Papa Francisco declarou em 2015, na audiência geral no Vaticano sobre o papel do pai na família, que uma palmada de vez em quando não faz mal, desde que nunca no rosto para não humilhar.

«QUEIXAMO-NOS DOS NOSSOS FILHOS, mas fomos criados com base numa disciplina agressiva (física e não só) e agora, como pais, confundimos autoritarismo com respeito», discorda o psicoterapeuta Luís Maia. Castigar mostra à criança o que não pode fazer, não o que pode e como deve fazê-lo. Daí preferir a noção de consequência: se um filho nosso não estudou nesse dia, janta, vai para o quarto sem telemóvel, e no dia seguinte ajudamo-lo a fazer melhor. «Tem de ser imediata e justa, para ele entender que o responsabilizamos por aquela conduta e não por todas as frustrações acumuladas.» Como clínico, constata que na maioria dos casos de pais que se apresentam como agressores, denunciados às Comissões de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) ou diretamente às autoridades policiais e judiciais, estes «começaram com comportamentos “mais aceitáveis” – pequenas bofetadas, puxões de orelhas, etc. – que acabaram em fortes castigos físicos».

E quando os pais reagem em resposta a comportamentos de loucura dos filhos? «Deixaram de poder intervir na sua própria casa, mesmo se em legítima defesa?», questiona uma tia indignada, a pedir anonimato por aguardar que o irmão seja julgado por violência doméstica. A história, dramática, conta-se em poucas linhas: um pai deu um empurrão / ameaçou o filho de 14 anos / arremessou-lhe um objeto no calor do momento, nas circunstâncias em que ele deu socos à mãe / apertou o pescoço à irmã / correu atrás do pai com uma faca. O jovem pediu ao pai ténis de marca, telemóveis, que o deixasse ter uma mota – coisas que o pai recusou. E então o filho avisou-o de que se não fizesse o que ele queria, iria queixar-se de maus-tratos à psicóloga da escola para ele ser preso. Meu dito, meu feito.

«Aos miúdos é-lhes dada a possibilidade de se defenderem, acho ótimo. A lei está a ser cumprida e eu não sou contra a lei. Mas e quem ajuda estes pais?», clama a tia, cansada das mentiras com que o sobrinho manipula o quadro a seu favor, distorcendo os factos. «O meu irmão nunca fez queixa à polícia da violência do filho, por ser filho. Às tantas reagiu por defesa, não como ataque, e tomam-no por agressor.» A tia tem consciência da falta de meios das CPCJ, que dificultam o acompanhamento integrado de cada processo (só em 2015 foram 73 355). O próprio Armando Leandro, presidente da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens, aponta a «manifesta dificuldade em levar a bom termo as suas responsabilidades». Seja como for, há que contextualizar caso a caso, em vez de meter todas as denúncias no mesmo saco. «Se fosse com um filho meu, era eu quem lhe batia», acrescenta a tia. «Que me prendessem à vontade, desde que ele percebesse que não ia repetir.»

ÀS VEZES TEMOS A SENSAÇÃO de que apenas a palmada resolve o problema no imediato, mas nunca é solução, avisa Luís Maia. Mesmo os educadores que as levaram, e até consideram que mereceram, devem admitir outras formas de ensinar à luz do que demonstram estudos recentes – há vários a relacionar a punição corporal e psicológica com falhas no desenvolvimento intelectual, atitudes irascíveis, aceitação da violência como forma de lidar com os outros, falta de autoconfiança e de amor-próprio, insegurança. «Porque é que não se dá uma “boa palmada” de vez em quando a um idoso que está ao nosso cuidado e parece fazer de propósito ao sujar a casa de banho?», questiona o neuropsicólogo. «Ou a esposa não a dá ao marido para aprender a respeitar os compromissos maritais? Isso é violência doméstica! É crime, inaceitável.»

Dados da UNICEF revelam que 80 por cento dos pais batem nos filhos em todo o mundo, embora 49 países proíbam já o castigo corporal sobre crianças. Em Portugal, a prática é ilegal desde 2007 e punida pelo art.º 152 do Código Penal. Em França, pelo contrário, aceita-se o corretivo pedagógico (estaladas incluídas), apesar de em 2015 o Conselho da Europa a ter pressionado no sentido de criar uma lei que proteja os menores da punição física. «Em princípio, um adulto tem mais experiência, melhor controlo emocional e mais argumentos para explicar e convencer do que uma criança, pelo que não deve precisar de recorrer à agressão», sublinha a psicóloga educacional Eva Delgado-Martins, especialista em infância e resolução de conflitos. «Se a violência entre adultos não é aceitável na sociedade em que vivemos, não parece razoável admiti-la nas relações com os nossos filhos.»

Os pais devem sancionar só em último caso, se o diálogo foi tentado sem sucesso, e mostrar que o fazem com mágoa porque a criança não lhes deu alternativa. Tão ou mais importante que negociar são ainda os comportamentos espontâneos no dia-a-dia. «Muitas vezes eles nem se apercebem, mas funcionam como modelos para os filhos conforme são, ou não, coerentes com o que ensinam», salienta a psicóloga, para quem educar é um ato de amor firme. Mesmo aborrecidos, diz, os pais devem controlar a sua agressividade. «Devem traçar limites e enunciar regras. Dizer não é fundamental.»

Magda Gomes Dias concorda que a falta de princípios magoa tanto como a punição: «Uma criança a quem deixam fazer tudo não se sente amada. Cresce sem se saber orientar no mundo. Torna-se incapaz de olhar para o outro, e isso é uma tragédia tão grande como tudo o resto.» Já Abraham Lincoln, presidente dos EUA e humanista, dizia que a mão que embala o berço é a mão que governa o mundo. E essa é a nossa mão.

 

LEITURAS OBRIGATÓRIAS

Berra-me Baixo

Magda Gomes Dias

Manuscrito Editora

2016

Crianças Felizes

Magda Gomes Dias

A Esfera dos Livros.

2015

Family Coaching

Sandra Belo e Ângela Coelho

Texto Editora

2016

Pais à Maneira Dinamarquesa

Jessica Joelle Alexander e Iben Sandahl

Arena

2016

Disciplina sem Dramas

Daniel J. Siegel e Tina Payne Bryson

Lua de Papel

2015

Pais Conscientes – Educar para Crescer

Shefali Tsabary

Pergaminho

2015

Educar com Amor

Mário Cordeiro

A Esfera dos Livros

2014

E Tudo Começa no Berço!

Luís Maia

Pactor Editora

2012

Educar sem Bater

Luís Maia

Pactor Editora

2011

Conversas com Pais

Eva Delgado-Martins

Editorial Caminho

2013

Educar sem Gritar

Guillermo Ballenato

A Esfera dos Livros

2009

O Pequeno Ditador

Javier Urra

A Esfera dos Livros

2007

 

 

 

 

Crianças “mimadas” – Mário Cordeiro

Janeiro 30, 2017 às 10:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto de Mário Cordeiro publicado na http://www.paisefilhos.pt/ de 16 de janeiro de 2017.

mario

Um ser que se julga omnipotente e o umbigo do mundo não aceitará facilmente ser contrariado. Pelo pediatra Mário Cordeiro

Que fique claro que o mimo não faz mal a ninguém, pelo que “mimada” está entre aspas, referindo o que os ingleses designam por “spoiled” (estragada), porque o mimo sem aspas nunca é moeda de troca, de chantagem, nunca proporciona falta de regras ou comportamentos de exigência.

O que se designa muitas vezes por “criança mimada” é outra coisa: é aquela que cresce impondo a sua vontade, pelo medo e pressão (birras), e que não converte a omnipotência natural dos 9-18 meses em respeito, solidariedade e capacidade de enfrentar a frustração.

A culpabilização dos pais, por exigirem de si próprios um desempenho que não conseguem, ou por terem expectativas muito diferentes da realidade, leva a que tentem compensar o que consideram não estar a dar aos filhos. Este complexo de culpa raramente tem razão de existir, porque os filhos não precisam da presença física constante dos pais, mas sim de disponibilidade e entrega no tempo que existe, e de carinho, estímulos positivos e regras, mais do que brinquedos, chocolates ou qualquer outra coisa material.

A rentabilização do tempo é outra questão: muitos pais são incapazes de mudar de “fuso horário”, quando chegam a casa. As crianças fazem muito melhor essa separação – por isso é que comem tudo na escola, sozinhos, e em casa querem tudo passado e dado pelos pais: a escola é o espaço de crescimento, a casa o de regressão. Com os adultos deveria ser o mesmo. Se fizermos um esforço para definir claramente esses compartimentos, a casa e os filhos terão mais hipóteses de ser vistos como espaço de colo e de libertação, e não como mais um espaço de guerrilha e de exigência. Não é fácil mas compensa promover um ambiente caseiro que seja pacificador e relaxante para todos.

O terceiro conceito que urge desmistificar é o de que mimo e ternura se opõem a regras e educação. Ou que é por tudo ser permitido que as crianças gostam mais dos pais ou se sentem mais seguras. A imposição de limites vai criar, naturalmente, frustração e reações de negação. Um ser que se julga omnipotente e o umbigo do mundo não aceitará facilmente ser contrariado. Todavia, só assim estará a aprender as regras de convivência e a entender que os limites são necessários aos caminhos, e estes à definição e segurança do percurso de vida. Se estivermos no deserto sem qualquer indicação de rumo, será angustiante. Pensamos ser livres para irmos onde queremos mas ficamos perdidos.

O “estragar” pode vir de muitas atitudes, desde hiperproteger e não dar autonomia, até ceder perante as birras ou até antecipar o desagrado, oferecendo logo doces e presentes.

A frustração é necessária ao desenvolvimento de uma personalidade equilibrada. A criança também precisa de espaços próprios, de tempo para estar consigo mesma, de exercitar a autonomia, mesmo que revele algum receio. Muitos pais não conseguem dar essa liberdade aos filhos, o que conduz a criança a uma grande insegurança e dualidade, entre querer ser ela própria a ter certos desempenhos, mas a sentir que é mais fácil, cómodo e prático serem os pais a cuidar de tudo. Este comportamento reforça também a omnipotência e aumenta a dificuldade em socializar.

O reflexo natural dos pais é blindar a relação com os filhos e evitar que evoluam na sua responsabilidade e autonomia. Todavia, é nesse esforço e nessa dádiva que nos assumimos como pais; no fundo, respeitando os filhos e sabendo que o percurso de vida deles… terá mesmo de ser deles. Aproveitemos o Dia da Criança para refletir um pouco sobre o que desejamos para os nossos filhos.

 

O mais importante na vida de uma criança é ter com quem brincar, diz especialista

Janeiro 27, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do site http://www.psicologiasdobrasil.com.br/de 9 de outubro de 2016.

capturar

Por: Larissa Roso

Foto de capa Edu Oliveira / Arte ZH

Luciano Lutereau, psicanalista e pesquisador da Universidade de Buenos Aires, afirma que as atuais opções de brinquedos e lazer dos pequenos não ajudam a desenvolver a capacidade de elaborar conflitos.

Doutor em Filosofia e Psicologia, o psicanalista argentino Luciano Lutereau, pesquisador e professor da Universidade de Buenos Aires, afirma que a melancolia sempre esteve associada à infância, mas reconhece que hoje essa condição se faz mais presente. O autor do livro O idioma das crianças lamenta que a brincadeira perca espaço para passatempos que são simples entretenimento, como videogames e outros atrativos tecnológicos, o que acarreta um prejuízo à capacidade de elaborar conflitos.

– As crianças estão mais expostas à melancolia já que não têm como reparar aquilo que as faz sofrer – explica Lutereau.

Os adultos têm enfrentado dificuldades para lidar com alguns sentimentos das crianças, como a tristeza, a raiva, a frustração?

Sem dúvida. Hoje nos encontramos com uma particular intolerância a respeito das emoções das crianças. Uma ideia própria da psicanálise, a de que a criança cresce através dos conflitos, é abandonada diante da expectativa de que ela sempre deve estar alegre. O imperativo do bem-estar, estendido à infância, leva o adulto a se assustar e a não saber como agir em situações normais, como as que demonstram a presença, na criança, de um sentimento de culpa inconsciente: por exemplo, as crianças são tachadas de instáveis ou impulsivas, quando esses estados expõem um traço particular do desejo infantil, o desejo de ser castigado. Um grande problema do nosso tempo é a intensa vigilância da infância em função de padrões adaptativos, como rendimento escolar, hábitos de higiene e costumes, e não baseada em seus próprios critérios de crescimento.

Em um artigo sobre a melancolia infantil, você escreveu que “começamos a temer o tédio como o mais urgente de todos os males e, no caso das crianças, nos preocupa muito mais que tenham algo para fazer do que pensar na plenitude do que fazem”. Pode falar um pouco mais sobre isso?

Hoje em dia, parece muito mais importante ter uma vida exitosa do que uma vida autêntica. Dito de outra maneira, a sociedade contemporânea se baseia no efeito e não tanto no sentido. Desde muito cedo, as crianças são incluídas em práticas que ocupam o seu tempo, sem que isso implique uma “temporalização”. Quando o tempo não está “ocupado”, elas se sentem vazias e se aborrecem. Pedem para ser estimuladas. Inclusive os pais planejam suas viagens de férias considerando lugares que tenham recreação para seus filhos. Na tradição ocidental, o tédio e o aborrecimento não representaram apenas um tempo perdido, mas também uma passagem para a lucidez e a criação. A sociedade contemporânea, baseada na agilidade, esquece que o homem é a projeção no mundo da sua capacidade de invenção, e isso se reflete na infância como uma perda crescente da experiência lúdica. A brincadeira, antes de ser uma atividade, é uma ação que a criança inventa repetidas vezes. A brincadeira é o modo como a criança se inclui em um tempo próprio, e não uma temporalidade objetiva que prejudica o seu desenvolvimento.

Que tipo de mensagem o intenso consumismo de nossa época pode estar transmitindo às crianças?

O consumismo não tem mensagem, é uma ordem vazia de acumulação, de posse e descarte. O principal problema da atitude consumista é quando não se vincula apenas a objetos, mas também a pessoas. Desde pequena, a criança pode se acostumar a tratar os outros como descartáveis e as relações humanas como recicláveis e sem profundidade. O capitalismo atual é muito diferente daquele que se seguiu à Revolução Industrial. A sociedade pós-moderna não é utilitária, mas cínica, e este cinismo pode atingir as crianças se não levarmos em conta o importante papel da educação. Por exemplo, alguém poderia dizer a uma criança que ela não deve roubar porque pode ser presa, e isso não é mais do que um conselho prático. Na realidade, o fundamental é ensinar que ela não deve roubar porque assim prejudicará alguém. À moral de conveniência de nosso tempo, é preciso voltar a se opor uma ética da lei.

Por que a tristeza da criança é diferente da tristeza do adulto?

Porque nas crianças a possibilidade de perda é muito mais angustiante. Um adulto já está preparado para fazer uma relação entre o que se perde e o que permanece, através do luto, mas a criança costuma dramatizar essas perdas como absolutas. Além disso, a perda na infância pode acarretar um intenso sentimento de culpa – a criança acredita que fez algo errado ou foi má. A maneira como os adultos devem lidar com a tristeza das crianças é no sentido de reduzir o sentimento de culpa, permitindo que a brincadeira seja uma via de exploração das fantasias que as afligem. Esse território intermediário oferecido pela ficção, entre o interno e o objetivo, permite que a criança veja que seus temores não são tão intensos e que, além disso, são passageiros. E também que ela pode compartilhá-los com o outro sem ter medo de represálias. O mais importante na vida de uma criança é ter  com quem brincar.

FONTE Zero Hora

 

 

 

 

 

Como ajudar as crianças a desenvolverem ao máximo as suas capacidades?

Janeiro 16, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Álvaro Bilbao à http://activa.sapo.pt/ no dia 3 de janeiro de 2017.

activa

É mais simples do que parece. O neuropsicólogo Álvaro Bilbao falou-nos de avós, telemóveis, e da importância da generosidade.

Catarina Fonseca

O cérebro infantil tem um potencial enorme de desenvolvimento, mas basicamente… estamos a dar cabo dele. O neuropsicólogo Álvaro Bilbao é formado em Neuropsicologia pelo Hospital Johns Hopkins e pelo Kennedy Krieger Institute, nos Estados Unidos, e pelo Royal Hospital no Reino Unido, e tem passado os últimos anos a explicar aos pais como funciona a mente infantil (e o mundo em que estamos

De que precisa o cérebro de uma criança para se desenvolver?

Precisa de carinho, de limites e de muita conversa entre pais e filhos. Hoje somos demasiado protetores e somos demasiado perfeccionistas. Queremos crianças perfeitas, queremos ser pais perfeitos, e estamos a passar-lhes muito stresse.

Porquê essa exigência da perfeição?

Por um lado queremos filhos-troféu, que mostrem ao mundo como somos bons pais. Por outro lado, estamos numa sociedade muitíssimo competitiva e superficial, em que a imagem se torna mais importante que o interior. A imagem substituiu o currículo. O Instagram apresenta-nos pessoas de plasticina, e é isso que queremos. O curioso é que não é nada disto que torna uma criança feliz. Uma criança feliz sabe partilhar, aprendeu a ser optimista, tem pouco stresse e é alegre nas suas imperfeições.

Mas depois na prática não é isso que os pais valorizam mais…

Tem toda a razão. Por exemplo, o que os pais me dizem é que querem imenso que a criança seja generosa, altruísta e criativa, mas aquilo em que verdadeiramente se empenham na prática, no dia a dia, é em que tenha boas notas. Funcionamos na nossa família como numa empresa: o que interessa são os resultados. Por exemplo, em todas as salas de aula de todas as escolas há uma criança calada e infeliz, sentada no fundo da sala. Algum pai ou mãe diz ao filho: ‘Sabes aquele menino lá no fundo da sala, falaste com ele hoje? Vamos convidá-lo cá para casa?’ É importante que todas as pessoas estejam bem integradas nesta sociedade, e que se envolvam as crianças neste esforço.

Acha que isso está a mudar?

No outro dia recebi uma mãe que vivia com os pais e os filhos. Este ano mudou-se e faz 40km de carro para que os filhos frequentem um colégio Waldorf e tenham uma educação mais em contacto com a natureza. E eu perguntei-lhe, ‘Mas há alguma coisa mais natural que um avô? Prefere portanto que os seus filhos estejam mais em contacto com uma árvore do que com um avô?’ (risos) Não vemos vantagem competitiva num avô. Com uma família, uma criança aprende infinitamente mais do que com um computador. Quando uma criança sai com uma tia, com os primos, ativa a zona direita do cérebro, responsável pelas emoções. E aprende não apenas a compreender melhor as outras pessoas como a ser menos neurótica e a perceber-se melhor a si própria.

O que é uma criança neurótica?

São crianças hiperexigentes, que têm medo do fracasso porque os pais estão constantemente a elogiá-lo ou a criticá-lo. Queremos crianças que tenham bons resultados, sim, mas que sejam alegres. Queremos uma criança que goste de jogar futebol porque é divertido, não porque os pais acham que lhe vai fazer bem. A sociedade não ajuda. Dantes tínhamos bons alunos e alunos não tão bons. Hoje temos bons alunos, e hiper-ativos que tomam medicação.

Há crianças que não gostam de estudar?

Claro que há. Não é um drama nem um defeito, mas isso torna-se um problema para os pais e para os professores. Pode ter a ver com pequenos problemas de aprendizagem, pode ser que a criança tenha um carácter mais extrovertido e não goste de ficar sentada a estudar. Se ela é feliz, nada disto tem de ser um problema, nem vai comprometer o seu futuro, mas nós não aceitamos que haja crianças diferentes.

Matamos a criatividade às crianças?

Sim, e fazêmo-lo desde muito cedo. Para muitos neuropsicólogos, a criatividade é a atividade mais importante do cérebro. É ela que permite encontrar soluções para problemas. ‘A lógica permite-nos chegar do ponto A ao ponto B, a imaginação permite-lhes chegar a todo o lado’, dizia Einstein. Claro que se calhar para uma empresa não é importante que os trabalhadores sejam criativos. Mas depois na nossa vida pessoal caímos num estado de apatia que nos leva à depressão. Pensamos, tenho tudo o que sempre quis, faço o que tenho de fazer, mas não sou feliz… Também nós, adultos, precisamos de brincar, de criar, de nos divertirmos.

As crianças também precisam de limites?

Claro. Os pais dizem-me coisas como ‘consegui que o meu filho não brincasse mais com o meu telemóvel’. ‘E como conseguiu?’ ‘Disse-lhe que estava estragado’. (risos) Ora isto não é resolver nada… Se lhe disser ‘Não quero que o uses’, claro que a criança faz uma birra. E depois? Temos muito medo de ser assertivos, que as crianças se zanguem e façam uma cena.

Como acalmar uma birra?

Usando a empatia. Se lhe dissermos ‘As outras pessoas estão a olhar para ti’, ele vai ficar envergonhado, se o tentarmos controlar não vai funcionar, mas se lhe dissermos ‘Olha: eu sei que gostavas de brincar com o telemóvel, mas não é para a tua idade, queres brincar comigo a outra coisa?’ a criança vai tranquilizar-se. Mas aos pais assusta-os imenso as emoções, porque saem fora do seu controlo. Temos de ensinar às crianças que não é preciso ter medo das emoções, que não faz mal ficar zangado.Não faz mal não sermos perfeitos, não faz mal pedir desculpa quando erramos, dizer que não sabemos quando não sabemos. As crianças respeitam mais os pais que assumem os seus erros e que põem limites sem medo da sua ira.

Diz que os castigos não funcionam…

Não é que não funcionem: mas são a técnica menos eficaz para ensinar uma criança. Se uma criança bate noutra criança, é melhor castigá-la do que não fazer nada. Mas um castigo faz com que a criança se sinta mal e desgasta muito a relação entre pais e filhos. A criança faz as coisas mal não porque quer, mas porque não sabe. Portanto, ensine-lhe a fazer as coisas bem. Há coisas que funcionam muito melhor: os limites, as regras, ensinar a pedir desculpa, e principalmente o reforço: premiar quando a criança faz alguma coisa bem, em vez de castigá-la quando erra. Imagine que há um irmão que se pega sempre com outro. E se um dia não se pegam, pode dizer-se – ‘Fiquei muito contente porque hoje não brigaram. Que recompensa querem?’ Se os podemos castigar de vez em quando? Sim, quando não nos ocorre nada melhor. Mas por norma funciona melhor o reforço.

Afinal, que papel devem ter as novas tecnologias na vida das crianças?

As emoções trabalham com a parte direita do cérebro, e quando estamos com um ecrã, trabalhamos com a parte esquerda. Nos primeiros 2 anos de vida, recomendo zero ecrãs. Sabemos que as crianças que passam mais tempo agarradas aos iPads têm mais problemas, quer de comportamento quer de défice de atenção. Perdem-se muitas etapas imprescindíveis: a brincadeira livre, o brincar com as mãos, o contacto com a natureza. Uma criança tem um tipo de atenção mais lenta, que é o que lhe permite aprender as coisas, fixar-se nos detalhes, e um ecrã não lhe dá este tipo de aprendizagem. Depois chegam aos 6 anos e queixamo-nos de que não se concentram.

Quais as desvantagens dos ecrãs?

Hoje, as crianças não gostam tanto de fruta como há 200 anos ou em certos países de África, porque têm sabores mais ‘imediatos’. Da mesma maneira, uma criança habi- tuada a videojogos, que dão estímulos imediatos, quando chega à escola tudo aquilo lhe parece pouco estimulante, porque nada apita e nada vem em 78 cores. Portanto, as crianças estão cada vez mais viciadas em estímulos cada vez mais intensos. Têm satisfação imediata, têm tudo imediatamente e perdem assim capacidade para desejar, que implica espera, elaboração e imaginação. Estamos a roubar-lhes a capacidade de sonhar. Sabe aquele dia em que vamos de viagem? Toda a semana antes desse dia é de sonho e de antecipação. É isso que estamos a tirar-lhes.

Porque é importante saber esperar?

A capacidade que uma criança tem para esperar é o que melhor prediz a sua entrada na universidade anos depois. Porquê? Porque para ter boas notas a criança tem de esperar: tem de esperar que a professora fale, quando lê um livro tem de ser paciente para terminá-lo, quando faz um exame tem de ler tudo para ver se não cometeu erros. Claro que há outras coisas importantes, como a relação com os pais, por exemplo. Quer treinar o cérebro do seu filho? Habitue-o a esperar: esperar até que todos estejam sentados à mesa, que todos tenham acabado de comer para sair da mesa, para ter um brinquedo que quer. Ou então não fazer nada disto: dar-lhe um telemóvel para as mãos no pediatra para que esteja entretido e não chateie, passar–lhe o iPad enquanto está no carro. Assim lhe ensinamos que tem de estar sempre entretido.

Como pai, o que achou mais difícil com os seus próprios filhos?

Não os proteger demais e dar-lhes tempo para eles. Não os sufocar com a minha presença. Também tive dificuldade enquanto casal, em equilibrar a atenção que dávamos um ao outro com a atenção de que os filhos precisavam. Eu e a minha mulher só nos conhecíamos há um ano e meio quando fomos pais. Crescemos todos ao mesmo tempo. Outra aprendizagem foi perceber que a minha mulher, como mãe, protegia as crianças, enquanto eu as empurrava para desafios e perigos, e que ambos estávamos certos, porque tínhamos papéis diferentes.

 

 

 

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