Crianças de hoje são pequenos adultos antes do tempo. Os avisos dos especialistas

Março 26, 2020 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Sapolifestyle de 3 de março de 2020.

A infância dos nossos dias vive-se de forma muito mais acelerada do que antes. Cabe aos progenitores travar essa tendência. “Há muita informação danosa que lhes chega e os pais têm de estar atentos”, adverte a psicóloga Cristina Valente.

As crianças de hoje têm cada vez menos tempo para viver a sua infância. Entre as mil e uma atividades em que estão inscritas e as horas que perdem a saltar de uma para a outra, o tempo que passam agarradas à tecnologia, a roupa que os faz parecer adultos antes do tempo e o contacto precoce com a sexualidade, esquecem-se de ser crianças, alertam os analistas. Cristina Valente, psicóloga e especialista em aconselhamento parental, não podia estar mais de acordo.

“Se, em algumas áreas, os pais têm tendência para infantilizar os filhos durante muito tempo, como é o caso da alimentação, em que há miúdos com três anos que nunca comeram sopa sem ser passada, noutras adultizam-nos excessivamente”, critica. E a culpa deste desequilíbrio é a existência de “um desalinhamento entre as nossas expetativas enquanto pais e a capacidade dos bebés ou crianças responderem com os recursos internos que têm em cada etapa”, sublinha.

“Isto acontece porque ainda há atualmente uma ignorância muito grande em relação às etapas de desenvolvimento infantil e adolescente e quais os desafios de cada uma, bem como das potencialidades e fragilidades de cada ser humano”, explica ainda a psicóloga. Mas será esta tendência incutida apenas pelos pais? “Não, eu diria pelos pais, pelas escolas, pelos media, pela internet, pela sociedade inteira… Mas parte desse processo é inconsciente”, refere, contudo.

Claro que os pais podem fazer toda a diferença. “Tirando a escola, que é obrigatória, tudo o resto é da responsabilidade dos pais”, realça a especialista. “Os miúdos vêm televisão em casa, têm acesso a telemóveis em casa, jogam videojogos em casa e têm de ser acompanhados pelos progenitores nessas atividades”, realça a psicóloga. Esqueça aquela ideia pré-concebida de que as crianças se sentem excluídas se não tiverem acesso ao que os colegas têm. Isso é um mito!

“Os pais têm de ter autoridade para lhes dizer que não e explicar porquê”, recorda a especialista em aconselhamento parental portuguesa, que revela um episódio da sua experiência. “O meu filho, aos 11 anos, queria ter Facebook e o primeiro argumento que me apresentou foi que todos os seus colegas já tinham. Mas isso não me demoveu! Expliquei-lhe que se o fizesse estava a infringir uma lei e, na altura, eu fui perentória no não”, acrescenta ainda Cristina Valente.

“Se eu tivesse cedido, corria o risco de ele, antes dos 18 anos, me dizer que queria conduzir um carro e, se eu lhe falasse nos limites da legislação, ele não teria problemas em lembrar-me que já tínhamos infringido uma lei anteriormente”, argumenta a especialista em aconselhamento parental portuguesa. “Os miúdos são autênticos polícias do nosso comportamento”, alerta. “Temos de estar sempre seguros do que estamos a dizer”, acrescenta ainda Cristina Valente.

As consequências nefastas da falta de tempo dos pais

A fase inicial da infância é decisiva. “É nos primeiros sete anos de vida que os adultos que rodeiam a criança, como é o caso dos pais, dos avós e dos professores, conseguem descarregar programas mentais nos mais pequenos”. Utilizando a linguagem de programação, “a criança nasce com o disco rígido limpinho e, depois, vai absorvendo tudo o que a rodeia e há muita informação danosa que lhes chega e os pais têm de estar atentos”, compara Cristina Valente.

Mas é aí que entra a tão falada falta de tempo, um dos maiores dramas sociais dos tempos atuais. “Uma relação entre pais e filhos só cresce se houver disponibilidade e a vida da maior parte dos pais no século XXI é de total escravatura do tempo e do trabalho. Essa ausência é colmatada, preenchendo os mais pequenos com atividades. Por um lado, para os distrair, e, por outro, para os armadilhar com todas as ferramentas externas para que consigam singrar, segundo os pais, num mundo extremamente competitivo. Por isso, acham que se os filhos forem aprender mandarim e tecnologias da informação aos três anos, se tiverem um telemóvel aos cinco e se conseguirem fazer três desportos ao mesmo tempo, vão ser adultos de sucesso”, relata ainda a psicóloga.

Tudo isto leva obrigatoriamente a criança a adultizar-se e a crescer rápido, o mesmo acontece quando são instigadas a ser as melhores em tudo. “Hoje em dia, as crianças não podem ter preferências e têm de ser boas a todas as disciplinas e isso leva a uma baixa autoestima, porque a criança não se sente valorizada por ser quem é, mas pelas notas que tem”, refere a especialista em aconselhamento parental. Mas este não é o único senão do crescimento demasiado rápido.

Cristina Valente aponta a privação de sono atual como uma das mais relevantes, também já criticada por uma das mais reputadas neurologistas nacionais, Teresa Paiva. “As crianças não têm tempo para dormir suficiente, o que tem consequências nefastas a nível do sistema imunológico, influencia o desempenho escolar e estimula problemas comportamentais, sintomas de hiperatividade e défice de atenção e aumenta a obesidade infantil”, adverte ainda.

O vestuário de adulto que muitas crianças já usam

A roupa é outro fator que tende a adultizar as crianças. Há pais e filhos que se vestem da mesma maneira e há já marcas que fazem linhas duplas. Cristina Valente vê isto como “uma ferida narcísica dos pais”. Nota-se, na sua opinião, “uma vontade inconsciente de adultizarem os filhos e de se infantilizarem a eles próprios. Na verdade, querem parecer amigos dos filhos em vez de pais”, acrescenta. Se olharmos só para as meninas, há ainda outra tendência que se destaca.

O uso de roupas sexualizadas é uma realidade atual. “A autoimagem das meninas é incutida desde cedo por séries da Disney para adolescentes que as crianças de cinco e seis anos também veem”, condena. Este aspeto remete para o sexo precoce. “As crianças despertam para a sexualidade muito antes de estarem preparadas. É por isso que vemos miúdas de 13 anos a saírem à noite de minissaia e maquilhadas e miúdos de 15 anos a levarem as namoradas para casa”, refere. Mais uma vez, têm de ser os pais a desconstruir imagens perversas associadas à sexualidade, que lhes é mostrada como uma coisa física e violenta.

Cristina Valente alerta ainda para o facto do contacto com realidades para as quais ainda não estão preparadas também estar a afetar muitas crianças. “Aos seis, sete anos, é comum uma criança já ter contactado com imagens de pornografia na internet sem querer. Como não podemos controlar tudo, temos de prepará-los para isso e de conversar desde sempre sobre este tema. É importante, por exemplo, sublinhar que a sexualidade implica amor e respeito”, afirma.

Conselhos para pais conscientes

As recomendações que Cristina Valente, psicóloga, gosta de fazer aos que a procuram:

– Aprenda a confiar na sabedoria inata das crianças.

– Lide com a sua própria ansiedade de forma a não criar ansiedade nos mais pequenos.

– Fazer meditação, várias vezes por dia, é algo que muda a nossa vida. Para meditar, apenas tem de estar imobilizado e concentrado apenas na respiração.

– Saber quais são os desafios e as fragilidades de cada fase de desenvolvimento e respeitar o ritmo das crianças é outra das recomendações.

– Ame incondicionalmente os seus filhos e não deixe que este amor dependa daquilo que as suas crianças lhe dão.

– Criar um clima de literacia de emoções em casa é outra das estratégias. Se as emoções são aquilo que nos mantém vivos, temos de saber lidar com elas de forma natural, tal como respiramos, comemos ou bebemos água.

– Pense nos valores que quer transmitir aos seus filho e aja de forma a ser congruente com eles. Tenha noção que somente cerca de 7% do que comunicamos é processado via verbal.

Construir a resiliência desde a infância: qual o papel do adulto?

Março 13, 2020 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Público de 10 de março de 2020.

Sofia Garcia da Silva

A resiliência não é uma qualidade inata que se detém ou não ao nascer. É algo que se desenvolve através de um processo dinâmico entre fatores individuais e do ambiente e da interação entre estes dois.

A física refere-se ao termo “resiliência” como “propriedade de um corpo de recuperar a sua forma original após sofrer choque ou deformação” (in Priberam). Nas ciências sociais, apesar de encontrarmos múltiplas aceções, a mais comum é aquela que define a resiliência como a capacidade ou o conjunto de capacidades que permitem ao ser humano lidar e adaptar-se de forma positiva às circunstâncias adversas. Porém, ao contrário dos corpos a que a física se dedica, sabemos que no ser humano as experiências, sobretudo na infância, permanecem connosco e modificam a forma como pensamos e sentimos.

Apesar de vivermos uma era em que a adversidade é frequentemente abafada pelo aparente estado contínuo de felicidade que as redes sociais promovem, a verdade é que, em determinados momentos, todas as famílias vivem situações difíceis e stressantes. Divórcios, problemas de saúde física e mental e experiências escolares negativas estão talvez entre as mais frequentes, mas não nos esqueçamos de uma parte significativa da nossa população (e das nossas crianças) que vive em grande desvantagem social, na pobreza e/ou exposta à violência. Neste sentido, a ciência tem demonstrado que exposição sistemática e prolongada a experiências adversas na infância está associada a um maior risco de desenvolvimento de doença mental, abuso de substâncias, abandono escolar e perturbações de ansiedade.

Perante isto, devemos questionar-nos: porque é que há crianças que superam melhor a adversidade do que outras? Como podemos ajudá-las a desenvolver o seu sentido de resiliência e prepará-las para as dificuldades que poderão enfrentar durante a adolescência e a vida adulta?

Para tal, importa entender que a resiliência não é uma qualidade inata que se detém ou não ao nascer. É algo que se desenvolve através de um processo dinâmico entre fatores individuais e do ambiente e da interação entre estes dois (Beyond Blue Ltd., 2017). Imagine uma balança com dois pratos: a resiliência manifesta-se quando a saúde mental e o desenvolvimento de uma criança se encontram numa direção positiva, apesar do peso que os fatores negativos exercem no outro lado (Center on the Developing Child, 2015). E, ainda que o acompanhamento adicional e especializado não deva ser descurado em crianças que passam por eventos traumáticos ou por experiências negativas continuadas, a literatura aponta para várias estratégias e abordagens consideradas universais e ajustáveis a todas as crianças. Vejamos algumas delas.

Fale sobre resiliência 
Leia livros e conte histórias que abordem a superação de situações difíceis. Incentive a criança a falar sobre casos que conheça. Explique-lhe onde e a quem pode recorrer quando necessitar de ajuda.

Construa e fomente relações de suporte
Crie uma relação próxima e afetiva. Faça com que a criança ganhe um sentido de pertença. Dê atenção e afeto, brinque, conforte, ouça os seus interesses e mostre empatia, o que não significa que concorde sempre com ela, mas que é capaz de se pôr no seu lugar e entender os seus sentimentos.

Promova o autocontrolo e a autorregulação
A criança aprende a autorregular o seu comportamento através das interações diárias com os cuidadores. Por isso, garanta bons hábitos de sono e de alimentação. Ajude-a a acalmar-se, através da respiração ou a imaginar algo que lhe dê prazer. Ensine-a a saber esperar desde cedo: recorra a rimas e lengalengas enquanto espera por algo; defina rotinas e momentos próprios para determinadas ações; elogie sempre que se mostra paciente. Encoraje a perseverança perante os desafios e a frustração.

Fomente a autonomia e a responsabilidade 
Dê oportunidade para que a criança tome decisões relevantes sobre os contextos em que está envolvida e que possa ser ela própria, e não o adulto, a encontrar formas de resolver os seus problemas. Permita-lhe correr riscos saudáveis, adequados à sua idade e fase de desenvolvimento.

Ajude a gerir emoções 
Nem todas as adversidades são traumáticas e muitas delas podem ser positivas. Ao experienciar dificuldades, criam-se oportunidades de crescimento. Ser resiliente não é estar sempre bem ou ter menores reações emocionais. É saber lidar e gerir essas emoções de forma saudável e positiva. Por isso, valide os sentimentos da criança, incentive-a a nomear o que sente, fale com ela sobre situações que a deixam ansiosa e ajude-a a encontrar formas de se sentir mais segura.

Em conclusão, a construção da resiliência na infância deve iniciar-se no seio de relações afetivas, através de modelos positivos em casa e na comunidade, em que pais, cuidadores e educadores assumem um papel de máxima importância na promoção da saúde mental.

Técnica Superior de Educação Especial no CADIn

Pais em guerra, quem precisa de psicólogo não é o vosso filho!

Março 3, 2020 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no DN Life de 23 de feverero de 2020.

Muitos pais entendem que os filhos precisam de apoio psicológico e, bem, procuram ajuda nesse sentido. E, com elevada frequência, chegam até nós crianças com sintomatologia diversa. Alterações nos padrões de sono ou de alimentação, medos, isolamento, ansiedade, regressão no desenvolvimento, dificuldades de atenção e concentração… e muitos outros indicadores de que algo não está bem. Inicia-se então um processo de avaliação que deve envolver a criança e os seus adultos significativos, permitindo compreender o seu modo de funcionamento nos vários contextos de vida, como a família e a escola, por exemplo.

Assim, não raras vezes, deparamo-nos com crianças que evidenciam um conjunto de sinais e sintomas que mais não são do que um reflexo da disfuncionalidade do seu meio envolvente.

Sabemos que as crianças são muito permeáveis ao seu ambiente e a tudo aquilo que se passa em seu redor. E reagem, de formas diversas, quando os contextos à sua volta apresentam algum tipo de perturbação. Assim, não raras vezes, deparamo-nos com crianças que evidenciam um conjunto de sinais e sintomas que mais não são do que um reflexo da disfuncionalidade do seu meio envolvente. E, muito frequentemente, um reflexo do conflito parental.

Os pais em guerra ficam cegos e surdos, mas não mudos. Centrados em si mesmos e no conflito, disparam em todas as direcções sem dó nem piedade, totalmente indiferentes ao impacto negativo que tal comportamento tem nos filhos. Ignoram os diversos sinais de alerta das crianças, permitindo que estes evoluam num processo de escalada que tende a agravar-se e a rigidificar-se. E usam as crianças como armas e escudos, coisificando quem deveria ser, acima de tudo, protegido e amado.

Para estes pais em guerra que procuram o psicólogo com a ânsia de um diagnóstico para a criança – e, já agora, que permita culpar o outro – é preciso dizer de forma clara que o problema não está centrado na criança. De nada adianta levarem a criança ao psicólogo para que seja “tratada”, quando o problema não é a criança. Não, o problema são eles, os pais. Os que gritam, insultam, batem e denigrem o outro progenitor perante a criança. Os que elaboram esquemas maquiavélicos para prejudicar o outro progenitor, impedem convívios e fazem a criança sentir-se rejeitada e abandonada. Os que dizem amar a criança e querer protegê-la e acabam, afinal, por ser os principais agentes maltratantes.

Sabemos que o divórcio é uma crise gigantesca e que nem todos os pais possuem os recursos (internos e externos) necessários para lidar com a mesma. Pois bem, peçam ajuda. Se possível, ainda na fase pré-divórcio para que, em conjunto, possa pensar-se na melhor forma de gerir esta alteração na estrutura familiar. A comunicação à criança, a definição dos contactos, a reorganização da vida quotidiana, dos papeis e dos limites. Peçam ajuda para resolver as divergências e os conflitos, procurando soluções que beneficiem, acima de tudo, a criança. Peçam também ajuda individual para cada um dos pais, se preciso for. Porque pedir ajuda não é sinal de fraqueza ou de doença mental, mas antes um sinal de que se coloca o bem estar de todos no centro da equação e pretende avançar-se de uma forma reparadora e constructiva.

Dez coisas que pode dizer às crianças em vez de “pára de chorar”

Março 2, 2020 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Notícias Magazine de 5 de dezembro de 2019.

“Não chores”, “Isso não é nada”, “Não sejas mariquinhas”, “Tu vê lá se queres chorar com razão.” Frases que até podem fazer as crianças engolir as lágrimas no momento, mas também lhes dão a ideia de que os seus sentimentos não são importantes. E nós, pais, não queremos de modo nenhum que deixem de confiar em nós.

CONTA-ME O QUE ACONTECEU

 Dê espaço à criança para explicar o que lhe aconteceu, com empatia e sem a julgar, permitindo-lhe extravasar a avalancha de emoções que a perturba. Os miúdos são como nós, qual é o espanto? Sentem-se seguros quando são tratados com compreensão e respeito ao exprimirem o que lhes vai na alma.

ESTOU A OUVIR-TE

 E isto significa saber escutar, de facto, o que quer que seja que o seu filho tenha para lhe dizer aqui, agora. Miúdos com pais incapazes de ouvirem com seriedade as pequenas coisas tornam-se, por sua vez, adultos incapazes de contarem aos pais as grandes coisas das suas vidas. Já para não falar no facto de as pequenas coisas, para uma criança, nunca serem irrisórias.

AMO-TE

Não é só dizer ao seu filho que gosta dele, como se gosta de gelado ou de bolo de chocolate. É dizer-lhe que o ama, com todas as letras, e mostrar-lhe na prática que o reconhece, confia nele e vai sempre ampará-lo e amá-lo independentemente das escolhas que fizer. Não há choro que resista ao amor.

PREFERES FICAR SOZINHO/A?

 E depois acrescentar as palavras mágicas: “Quero que saibas que estou aqui para ti. E vou ficar por perto para que possas chamar-me se precisares de mim.” Se a criança mostrar não querer a sua presença, é importante respeitar. Isto sem nunca dar a entender que se está a afastar por desaprovar o comportamento dela ou como castigo.

 EU PERCEBO

 Até pode parecer que o melhor é tentar resolver de imediato o problema ou a frustração por que a criança está a passar, contudo nem sempre é disso que ela precisa verdadeiramente: apenas sentir que o pai ou a mãe a compreendem, sem fazerem com que se sinta desadequada nem lhe dizerem que nada daquilo faz sentido.

ESTOU AQUI CONTIGO

 Mais uma vez, há certos momentos em que isto é tudo o que um filho necessita de saber: que os pais estão lá para ele, ligados às suas dores, a fazerem-no sentir que o amam e não vão a lado nenhum, aconteça o que acontecer. Muitas das vezes nem sequer têm de dizer ou fazer nada: só ficarem ali ao lado dele.

VI QUE FICASTE TRISTE

 “Ou assustado/a, ou furioso/a. E não faz mal, às vezes eu também fico assim.” Saber que os pais sentem o mesmo que elas deixa as crianças aliviadas: afinal é normal, que alívio. O facto de depois lhes darem aquela atenção amorosa não só as ajuda a libertarem-se da mágoa como reforça os laços familiares.

POSSO FAZER ALGUMA COISA?

 Como pais, é esta a melhor maneira de criarmos um filho para a empatia: sermos os primeiros a saber pôr-nos no lugar dele e mostrar-lhe que reconhecemos o seu sofrimento (emocional ou físico), respeitamos a pessoa que é e nos interessamos genuinamente pela sua vida.

QUERES UM ABRAÇO?

 É capaz de ser o antídoto mais poderoso para momentos de descontrolo emocional, em que a criança já está para lá de toda a lógica: um abraço apertado sossega, ameniza choros e birras, promove o desenvolvimento cognitivo e imunológico, fortalece o vínculo entre pais e filhos. Se os quer ter perto do coração, é abraçá-los.

SEI QUE ISSO É DIFÍCIL

 “A sério que sim, meu amor. Mas eu vou ajudar-te.” Muitas vezes, é quase só disto que o seu filho precisa: saber que reconhece os seus sentimentos e lhes dá importância, sejam eles quais forem. No fundo, saber que se importa com ele e o aceita exatamente como é

Por que têm os filhos de mentir?

Fevereiro 28, 2020 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Eva Delgado-Martins publicado no Público de 9 de fevereiro de 2020.

Os pais não gostam que os filhos mintam, o que está certo, mas devem lembrar-se que isso é uma defesa para a qual podem existir muitas razões.

As mentiras em excesso devem ser interpretadas como uma fuga de uma criança ou adolescente à resolução do problema com que é confrontado, nomeadamente quando sente que tem que agradar a adultos que têm expectativas demasiado altas sobre si e que a ameaçam com castigos severos no seu incumprimento.

Recebemos muitas vezes pedidos de ajuda dos pais, na tentativa de resolução de crises de desencontros na comunicação com os seus filhos. Isto sucede frequentemente em reação a situações de crise familiar, quando se tornam mais rígidas as regras do funcionamento do dia-a-dia, o que, quase sempre, leva também a tornar mais rígidos os comportamentos daqueles que afinal o pretendiam era a compreensão e disponibilidade dos pais.

Por exemplo, muitos pais concentram-se nos insucessos académicos em certas áreas, ignorando os sucessos noutras, ou em atividades extracurriculares, preocupando-se apenas com os atos e atitudes indesejáveis, e ignorando os comportamentos positivos.

Frequentemente, perante a mentira dos filhos, os pais, referem que “já tentei todos os castigos, tirei-lhe o telemóvel, proibi-o de jogar PlayStation, de usar o computador, de sair com os amigos, de ir aos treinos de futebol que ele adora, proibi… e ele, não deixa de mentir”.

Para possibilitar uma educação e relações familiares de sucesso, tem que se ter em atenção a forma como se realiza a comunicação entre pais e filhos, porque é que esta contribui para a construção de relações de confiança mútua.

Em vez de apontar ou atribuir culpas aos filhos, os pais devem fomentar estratégias preventivas e remediativas da mentira, promovendo um diálogo baseado numa comunicação constante e sincera, para que, nos momentos de crise, os filhos confiem neles e escolham partilhar a verdade. Se os pais conversarem sobre a honestidade e elogiarem os filhos por dizerem a verdade, especialmente quando a tentação de mentir é grande, torna-se muito mais fácil para os filhos serem verdadeiros e concentrarem-se em encontrar soluções objetivas para os seus problemas. Se os pais aceitarem os sentimentos que os filhos têm medo de revelar, eles considerá-los-ão como aliados e sentir-se-ão mais compreendidos e à vontade para contar a verdade.

Para isso é preciso promover a participação ativa das crianças e adolescentes, dando voz às suas opiniões e encorajá-los a exprimirem-nas e a proporem alternativas às nossas decisões. É necessário ouvir os pontos de vista dos filhos e dos pais e negociar, para encontrar soluções de compromisso. Se se sentirem escutadas e participarem na tomada de decisões, as crianças e jovens sentirão que são respeitadas e mostrar-se-ão, igualmente, mais respeitadoras connosco.

Os pais não gostam que os filhos mintam, o que está certo, mas devem lembrar-se que isso é uma defesa para a qual podem existir muitas razões.

Às vezes, os filhos mentem porque acham natural, por verem os seus pais mentir. O exemplo dos comportamentos dos pais vale mais do que qualquer coisa que digam. Cada mentira que os pais contam e, muitas vezes, incutem os seus filhos a contar, fica como modelo aceitável. (e.g. alguns pais pedem aos filhos para atenderem a porta ou o telefone e mentirem dizendo que não estão em casa, ou pedem que eles mintam sobre um qualquer fato que presenciaram).

Os filhos mentem por medo das consequências das suas ações, consoante o castigo ou a consequência a que serão sujeitos, para não ter que as enfrentar e escapar à responsabilidade de ter transgredido. Mentem, ou escolhem o silêncio (omitir) porque, em situações semelhantes anteriores, os pais reagiram mal, responderam de uma forma crítica e exagerada.

Mentem também para satisfazer as expectativas dos pais, professores ou amigos, para se sentirem aceites (e.g., é frequente os pais esperarem que os filhos tenham boas notas, o que os estimula a mentir quando isso não acontece). Podem mentir por insegurança ou baixa de autoestima, para serem o centro das atenções, se integrarem no grupo de pares, (e.g. dizendo que têm muitos de amigos nas redes sociais, que fizeram uma viagem inacreditável, ou que são amigos de pessoas famosas) exagerando as suas condições de relação com os amigos (até para os proteger) e da vida familiar. Mentem porque querem evitar ter que se envolver em atividades que não gostam de realizar.

No estabelecimento dos limites e das regras em relação às mentiras, os pais devem ter uma atitude firme, consistente e coerente, numa relação de diálogo. Por vezes, pensa-se que quem mais influencia as crianças e os jovens são os amigos, os professores, a Internet e as redes sociais, mas a grande influência e modelo vem dos pais.

Muitas vezes, os pais dizem que não tem tempo para os filhos. No entanto, o problema não é o tempo, mas a qualidade do tempo que têm, dos momentos que passam juntos com os seus filhos, no dia-a-dia. É preciso que cultivem uma relação de proximidade, se preocupem em conhecer os filhos, os seus amigos, e os acompanhem nas suas rotinas.

Psicóloga e terapeuta familiar

Dia da Internet Mais Segura : Como proteger os mais jovens de um mundo que os adultos não conhecem?

Fevereiro 18, 2020 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 11 de fevereiro de 2020.

A Internet veio para revolucionar o mundo e, desde o fim do século passado, instalou-se nas vidas de todos, crianças e jovens incluídos — como proteger os mais novos dos perigos?

Carla B. Ribeiro

Não deixamos os nossos filhos de 12 anos sair à rua à noite, mas, a maioria das vezes, ficamos despreocupados quando os mesmos se fecham no quarto com um smartphone na mão. É essa “falsa sensação de segurança” que constitui um dos maiores entraves na luta por tornar o mundo virtual um espaço seguro para os mais novos, explica ao PÚBLICO o especialista em cibersegurança Bruno Castro.

Ou seja, segundo este profissional, o estar ligado à Internet pode revelar-se ainda mais perigoso do que atravessar a rua sozinho em tenra idade — isto porque, na rua, a criança, de forma natural, tem tendência a autoproteger-se e a prestar atenção aos perigos, enquanto no conforto do lar poderá baixar a guarda e tornar-se mais receptivo aos diferentes perigos. Isto, num mundo onde “tudo é mais viral, onde não há portas, nem fronteiras”.

Segundo Bruno Castro, cuja carreira passou por integrar comunidades, nacionais e internacionais, de Segurança Informática e também pela gestão de projectos de segurança na Internet junta da NATO, “o mundo mudou” e, mais importante, “continua a mudar todos os dias”. Por isso, por mais que se conheça o mundo virtual, “o que se diz hoje, amanhã pode não se aplicar”. Esta volatilidade torna mais difícil proteger os mais novos, sobretudo quando os adultos parecem desconhecer o mundo por onde aqueles navegam. “O fosso geracional é evidente.”

“A criança hoje tem acesso às tecnologias, é mais permeável à aprendizagem e tem acesso a sites, apps, pessoas que não conhece”, relata. Neste mundo, conta, os perigos para os mais novos vão desde o ciberbullying até à facilitação de um encontro com um agressor sexual. No entanto, a protecção não é fácil e passa por conhecer bem o mundo — os sites, as redes, as apps — por onde estes se movem.

“Não existem ferramentas ideais para proteger as crianças”, considera. Mas falar muito com os mais jovens sobre a forma mais correcta de viver o mundo virtual — “é importante explicar a toda a gente que no ciberespaço não há limites de espaço, mas também não há limites de tempo” — e conhecer esse mundo pode ajudar. No entanto, considera, não vem mal ao mundo controlar o computador e verificar o histórico de forma regular.

Uma solução fácil, deixa a dica, passa por colocar o computador numa zona comum da casa ou mesmo limitar o uso da Internet a uma área familiar.

Telemóveis à mesa? O alerta “oportuno” do Papa

Fevereiro 17, 2020 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Snews

Notícia e imagem do Educare de 5 de fevereiro de 2020.

Sara R. Oliveira

O mundo já não vive sem tecnologia e os dispositivos móveis fazem parte do cérebro dos nativos digitais. Há, porém, momentos de convívio que não merecem ser perturbados. As refeições em família são tempos de comunicação por excelência. O que fazer? Como usar esse objeto que tanto aproxima como afasta?

No último domingo de 2019, dia da Sagrada Família, o Papa Francisco saiu ligeiramente do seu discurso durante a habitual missa no Vaticano, em Roma, Itália, para lançar uma pergunta incómoda na era da globalização e do mundo tecnológico e digital. “Na tua família, sabes comunicar ou és como aqueles jovens que estão à mesa com o telemóvel, a conversar no chat?”, perguntou para avisar que a comunicação em família é fundamental e não pode ser negligenciada. Este alerta do Papa volta a centrar as atenções num tema pertinente e atual. Os telemóveis não devem fazer parte das refeições. “Devemos reanimar a comunicação na família”, pediu.

“Do Telemóvel para o Mundo. Pais e Adolescentes no Tempo da Internet” é o título do mais recente livro de Daniel Sampaio, psiquiatra e professor catedrático. “O apelo do Papa é oportuno, mas não se deve criticar o uso dos telemóveis, que são muito importantes para comunicar com o mundo”, refere ao EDUCARE.PT. E, como sustenta no seu livro, “ninguém deve ter telemóveis à mesa (filhos e pais)”. “Os telemóveis devem ser desligados antes da hora de dormir”, acrescenta.

Nesse livro, Daniel Sampaio recupera a expressão “galáxia internet”, termo do sociólogo espanhol Manuel Castells, para sublinhar e reafirmar que hoje é impossível viver sem internet e que o número de utilizadores aumenta todos os dias. “Os jovens são os habitantes mais ativos desta nova galáxia e por vezes até a glorificam em excesso. A realidade é que os adolescentes não são capazes de viver sem internet e é bom que pais e professores se convençam disso”.

O telemóvel já faz parte do cérebro e do corpo dos jovens. Não há volta a dar, não adianta afirmar o contrário. Esta é uma das mensagens principais do livro de Daniel Sampaio que explica que a constatação não tem necessariamente de ser uma coisa má. Esse objeto permite contactar muita gente, marcar uma viagem, um jantar, um encontro, uma festa. Um pequeno objeto que cabe na palma de uma mão e que é uma porta aberta para o mundo. Não há distâncias, não há barreiras. “Tudo isto deve ser aproveitado. Estamos num mundo novo e é fundamental que pais e filhos se encontrem nesse mundo e que o telemóvel não seja apenas um motivo de conflito”, escreve Daniel Sampaio.

Tito de Morais, fundador do projeto MiudosSegurosNa.Net, que ajuda famílias, escolas e comunidade a promover a segurança online, considera a declaração do Papa sobre os telemóveis “extremamente oportuna”. “A utilização de dispositivos móveis durante as horas das refeições está a destruir a comunicação familiar e o próprio tempo de refeição”, refere ao EDUCARE.PT. E, a propósito, lembra um episódio contado por uma amiga pediatra que ao explicar a uma mãe que às refeições não deveria haver intromissão de aparelhos tecnológicos, essa mãe perguntou o que era isso de refeições, contando que, em sua casa, cada um se servia do tacho na cozinha. Ela ia para a sala ver televisão enquanto comia e o filho para o quarto comer enquanto jogava.

Entrar num restaurante fundamenta a preocupação do Papa, segundo Tito de Morais. “Rara será a mesa com crianças em que estas não estejam hipnotizadas pelo telemóvel ou pelo tablet. Os pais estarão também provavelmente grudados à televisão”. O problema é os pais não terem noção de que se estão a retirar de um tempo único, cada vez mais raro, de convívio e diálogo com os filhos. “Quando se aperceberem do erro que cometeram e procurarem repor esse tempo, já irão tarde demais e dificilmente o conseguirão fazer, por duas razões: o tempo que se perdeu, está perdido, não volta para trás, e já desenvolveram nos filhos, ao longo de anos, um hábito e uma rotina e, como sabemos, hábitos e comportamentos são das coisas mais difíceis de alterar”.

Nem smartphones, tablets ou televisões ligadas nos momentos das refeições. Esses momentos devem ser espaços de interação pessoal, para falar, ouvir, conversar. Tito de Morais refere que o papel da escola e dos educadores deve centrar-se na educação parental, “mostrando, com exemplos, a importância da preservação do tempo da refeição como um tempo de diálogo familiar e dos benefícios que daí se tiram ao nível do acompanhamento parental da vida dos nossos filhos”. “Pais, famílias, escolas, professores e educadores devem promover o ensino da gestão do tempo e das prioridades como uma competência essencial para os dias de hoje e para o futuro”, defende o autor do MiudosSegurosNa.Net.

“Os filhos perdem-se em casa”
Os telemóveis e as novas tecnologias constituem um enorme desafio para as comunidades e um constrangimento para as famílias em todo o mundo. São realidades demasiado evidentes. Para Luís Fernandes, psicólogo, mestre em Observação e Análise da Relação Educativa, o alerta do Papa Francisco “faz todo o sentido” e, vindo de quem vem, alcança mais gente, em diversos contextos, e fá-lo com um grande impacto social. Em seu entender, é preciso analisar vários fatores e olhar para o mundo digital como um aliado, não como um inimigo.

A geração “always on”, sempre ligada, vive agarrada à tecnologia. Os nativos digitais não conhecem outro mundo, e os seus pais, mais velhos, tiveram de entrar nessa realidade, sentem também que têm e devem estar sempre ligados, onde estiverem, a que horas for, seja por motivos pessoais, seja por razões profissionais. “Damos a tecnologia muito cedo aos miúdos e isso acaba por afetar a comunicação”, comenta. E, muitas vezes, os telemóveis nas mãos dos mais novos tornam-se momentos de descanso para os mais velhos.

“Os filhos perdem-se em casa pelas navegações que fazem”, refere Luís Fernandes. A frase exemplifica o que acontece quando se vive constantemente ligado às novas tecnologias e o tempo de brincar na rua já se encontra em vias de extinção. “Na adolescência, os jovens afastam-se um bocadinho, não comunicam tanto com os pais, e as novas tecnologias amplificam a falta de comunicação”, comenta o psicólogo. É preciso impor algumas restrições e se não há telemóveis à mesa, não há para todos, filhos e pais, pais e filhos. “Os miúdos não podem ver isso como algo injusto, eles não podem, mas os pais podem. Tem de ser algo negociado. Para todas as partes, os mesmos deveres”. Há famílias que, sobretudo ao fim de semana, estabelecem um horário sem telemóveis para passear, fazer jogos, brincar. Pais e filhos, juntos, sem toques e interferências por perto.

A tecnologia também mudou a forma de ensinar, a forma de preparar e dar aulas. Há novas ferramentas que prendem a atenção dos alunos. “Temos de ver como usar essas ferramentas a nosso favor e isso passa muito por dialogar e envolver esses dispositivos na aprendizagem”, refere. Dar aulas de outras maneiras, explorar abordagens mais atrativas. “Não faz sentido querer que a tecnologia não faça parte da vida dos nativos digitais”, avisa Luís Fernandes. O melhor caminho é limitar e consciencializar os mais novos. Proibir não ajuda, nem resulta.

“Desencontros comunicacionais”
Sónia Seixas, psicóloga e professora universitária, licenciada em Antropologia Social e em Psicologia Educacional, doutorada em Psicologia Pedagógica, abre e fecha parênteses antes de abordar diretamente o assunto. O facto de alguém de uma geração anterior comentar ou avaliar comportamentos da geração seguinte, mais nova, nomeadamente quanto à introdução de elementos de inovação que interferem na vivência quotidiana das duas gerações (a anterior e a seguinte), é complexo, difícil, e possivelmente tendencioso. É com esta ressalva que fala do assunto e comenta a declaração do Papa Francisco, sobretudo enquanto mãe e membro de uma sociedade em acelerada transformação.

“É inevitável que esta nova geração se habitue, desde cedo, a contactar, interagir e comunicar à distância, através dos ecrãs, utilizando habilmente todos os dispositivos e aplicações que se encontram disponíveis e acessíveis à sua exploração e utilização”, afirma. Mas, sublinha, estas novas maneiras de comunicação “não se substituem às formas presenciais de interação que a geração dos seus pais avós não só prefere, como utiliza de sobremaneira”. Por causa destas preferências que não coincidem instalam-se, por vezes, “desencontros comunicacionais” que, em seu entender, “não deveriam ser obrigatoriamente entendidos nem como opostos nem como obstáculos”, apesar da tecnologia sempre presente, desde o acordar ao deitar, poder dificultar a partilha de alguns momentos em família, como a refeição quando é feita em conjunto.

“Nos dias de hoje, em que vivemos o nosso dia a dia de forma acelerada, apressados para conseguirmos responder simultaneamente a todas as demandas profissionais, pessoais e familiares, torna-se difícil garantir momentos em família, onde a comunicação tenha um espaço devidamente assegurado. É por isso fundamental criar oportunidades em que todos os elementos da família possam comunicar presencialmente, olharem-se nos olhos, ler e interpretar emoções e estados de espírito através da linguagem não verbal (corporal e facial), escutar, expressar-se verbalmente, sem a mediação de ecrãs”, refere Sónia Seixas.

A utilização das tecnologias é muito atrativa e isso é inquestionável. Há, no entanto, outros fatores a ter em consideração. “Em momentos que temos a família reunida, nomeadamente à volta da mesa de refeição, deveríamos encontrar mecanismos para que a familiaridade, a intimidade, a cumplicidade, a partilha, o auto e hetero conhecimento, se pudessem desenvolver e aprofundar”. Pais e filhos distantes, por momentos, dos alertas de mensagens, do email, daquela necessidade de consultar, de mil informações que passam pelo ecrã.

A família em primeiro lugar. “Havendo um papel a atribuir, seria à família e não à escola, uma vez que esses momentos familiares, a serem ‘regulamentados’ ou negociados, devem sê-lo nesse contexto, com esses interlocutores e tendo como referência a sua própria rotina e dinâmica relacional”. Em seu entender, não é que a comunicação necessite de ser “reestabelecida ou retomada” na família, mas antes que “tenha de haver um esforço consciente e voluntário, para que se mantenha nos termos daquilo que possamos considerar como menos digital e mais presencial, menos online e mais offline”.

Privação do sono: Socorro, o meu filho não me deixa dormir, o que fazer?

Fevereiro 3, 2020 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Público de 24 de janeiro de 2020.

A chegada de um bebé é um momento de alegria na família, mas também de mudanças nas rotinas, incluindo a do sono.

Diana Vilas Boas

Exaustos. Desorganizados. Irritados. Frustrados. Desesperados. Perdidos. Assim são os pais quando privados do sono. A chegada de um bebé é um momento de alegria na família, mas também de mudanças nas rotinas, incluindo a do sono. Os bebés choram, têm o sono desregulado e, por consequência, os pais tentam acalmá-los, adormecê-los e também descansar. A privação do sono tem consequências? Sim, “pode desencadear depressões, divórcios, desemprego e, em alguns casos, pais arrependidos de serem pais”, enumera Carolina Vale Quaresma, coach familiar. A neurologista Teresa Paiva desdramatiza e declara que se não estiver doente, o bebé dorme bem. O problema pode estar nos pais, alerta.

É preciso educar os bebés para dormir? ​Teresa Paiva, neurologista e especialista do sono, defende que o acto de dormir não precisa de ser educado. “O grande problema é quando o bebé acorda e choraminga e os pais vão logo a correr, seja para lhe dar de mamar, dar a chupeta ou o levar para a cama deles e o bebé habitua-se”, diz, criticando também a ideia que todos os bebés têm, por natureza, problemas para adormecer.

Constança Cordeiro Ferreira, terapeuta no Centro do Bebé, em Lisboa, considera que na maior parte dos casos não existem problemas com o sono dos mais pequenos. O problema é que os pais estão exaustos. “É muito importante haver um trabalho de adaptabilidade com os pais para a realidade de que vão ter de mudar alguns hábitos, para garantirmos que não vão estar privados de sono. O sono tem de ser uma prioridade para todos”, defende.

Hábitos como adormecer o filho ao colo, embalado ou na “maminha” levam à criação de uma dependência que, mais cedo ou mais tarde, é difícil de combater. Por isso, é importante habituar a criança a adormecer sem ajudas externas, aconselha Carolina Vale Quaresma. Para Constança Cordeiro Ferreira não há problema que a criança adormeça a mamar. “O leite materno tem componentes como triptofano, melatonina, endorfinas e uma composição variável consoante o dia e a noite, que vai favorecer o sono, ao contrário do que é muitas vezes dito aos pais”, justifica. “O silêncio da casa e o sono dos pais criam a atmosfera para [o bebé] dormir”, recomenda, por seu lado, Marina Fuertes, docente na Escola Superior de Educação de Lisboa (ESEL). Além de se habituar a estar na cama, a calma e o silêncio também ajudam a criança a regular as suas emoções, acrescenta.

Pais sobrevivem

“Educar o sono” pressupõe que a maneira de adormecer ou de dormir está errada e que é necessário corrigi-la, começa por dizer Constança Cordeiro Ferreira. O que acontece é que essa é uma ideia errada, continua. “Parte do problema vem daí [desse pressuposto]. Um bebé nos primeiros meses procura as condições óptimas para descansar e os pais têm a cabeça cheia de medos, que lhes foram colocados, e, logo aí, têm medo de dar a mama, dar colo ou conforto”, aponta. Além disso, as mães mudam de hábitos, as “mulheres têm dificuldade em quererem arranjar-se, em estar com os amigos, em viver. E tudo se resume a isso: com a privação de sono os pais nem sempre vivem, sobrevivem ao dia-a-dia”, nota Carolina Vale Quaresma.

“Muitas vezes, os bebés não ficam tão mal como os pais. A privação de sono tem um impacto enorme nos adultos, mais ainda nos pais”, avisa Constança Cordeiro Ferreira. E não descansar pode levar a algumas complicações de saúde, alerta Teresa Paiva: os pais podem vir a ter problemas de saúde mental como depressão, ansiedade, dores de cabeça e insónias crónicas; mas também doenças físicas, como as cardíacas, cardiovasculares ou aumento de peso. Quanto aos filhos, dormir pouco ou com muitas pausas pelo meio pode afectar a memória, baixar a imunidade às bactérias e a regulação do apetite, tal como a capacidade dos bebés em gerir emoções, refere Carolina Vale Quaresma, acrescentando que, a longo prazo, as crianças podem vir a ter dificuldades de aprendizagem, falta de concentração e agitação elevada.

A agitação e o choro constante, a dependência da criança para ser alimentada e os “cuidados frequentes” são os grandes causadores da privação do sono dos pais. Então, como conseguir que toda a família descanse? De acordo com Carolina Vale Quaresma, para o bebé não sentir que estão “com truques para o enganar”, deve ir acordado para o berço e ter noção do que está a acontecer. “Nada melhor para um bebé ser seguro que sentir que pode confiar na mãe no pai”, defende.

Para Marina Fuertes não se deve forçar a criança a dormir, com o risco de criar tensão, tensão que levará o bebé a resistir ao sono por o considerar algo “indesejável”, ficando assim mais rabugento e, consequentemente, com mais dificuldade para adormecer. Não interromper o descanso do bebé para o alimentar, ou simplesmente por medo de ele não dormir quando os pais desejam, são actos importantes que ajudam o bebé a desenvolver a “aprendizagem biológica do dormir”, fundamentaCriar uma rotina de sono, juntamente com uma rotina para alimentação e banhos, ajudará o bebé a “antecipar a hora do sono”, aconselha.

Dormir pouco ou muito?

Segundo Carolina Vale Quaresma, os bebés não dormem tempo suficiente. Por exemplo, até aos 6 meses de idade deveriam dormir cerca de 12 horas nocturnas e 4 horas diurnas. Constança Cordeiro Ferreira diz que existem fases em que o descanso infantil poderá ser mais afectado como, por exemplo, quando os bebés começam a gatinhar, iniciam a alimentação complementar ou quando a mãe ou o pai regressam ao trabalho. “Os pais devem saber isto e não ficarem aflitos”, lembra.

Com o intuito de ter uma “boa noite de sono” e também de evitar o uso de tecnologia, tablets ou smartphones, para adormecer, a professora Marina Fuertes aconselha a criar o “momento da leitura” após o primeiro ano de vida do bebé, inicialmente com livros apenas com imagens, depois com pequenas histórias e, após os 3 anos, uma história real ou imaginada pelos pais. A escolha não deve recair sobre histórias “com monstros ou excesso de estímulos”, pois podem despertar a criança.

IV Congresso Internacional CADIn “Tecnologia e Inclusão: e-moção, e-ducação, e-volução” 19-21 março em Lisboa

Fevereiro 1, 2020 às 1:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Mais informações no link:

https://www.congressointernacional2020.cadin.net/pt

O que fazer quando um adolescente resiste à sua ajuda?

Janeiro 27, 2020 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Sapolifestyle

É uma etapa comum: quase todos os adolescentes querem mostrar independência, depois de tantos anos, teimosamente, agarrados à saia da mãe. Olham para a vida com outros olhos, sentem-se donos do mundo e tentam provar à família e, sobretudo aos amigos, que já não precisam de proteção, nem sequer de ajuda para tomar decisões sobre todos os assuntos que lhe dizem respeito. Em frente à escola chegam a evitar beijar os pais diante dos colegas – temem que a imagem de adolescente independente possa sair prejudicada.

Os mais inseguros sentem maior dificuldade em libertar-se. É normal. Precisam de apoio reforçado dos pais para dar os primeiros passos nessa tão ambicionada independência.  Nesta fase, é comum dizerem: “não preciso de ajuda de ninguém”.  E se é verdade que, à frente dos outros procuram mostrar-se capazes de fazer tudo sozinhos, no silêncio do próprio quarto sabem (bem!) que não é assim. Ainda precisam, e muito,  de uma rede protetora que ampare as quedas.

Crianças e jovens com dificuldades de aprendizagem e de atenção podem, todavia, resistir ainda mais a ser ajudadas, na medida em que se sentem frustadas por não conseguirem acompanhar a matéria na escola. E rejeitam partilhar essa angustia. Mais tarde, essa barreira costuma transformar-se em repulsa em relação às aulas. Dir-se-á que há um misto de sentimentos difíceis de gerir: por um lado, sentem-se divididos, tendo em conta que querem ser independentes, mas, por outro, sabem que só com ajuda conseguirão vencer as dificuldades.

O facto de, por exemplo, não conseguirem, por si só, realizar os trabalhos de casa, pode provocar uma sensação de incapacidade e de falta de confiança.  E por isso, no dia seguinte, em muitos casos, preferem voltar à escola sem os ter feito, em vez de pedir ajuda a quem sabe. Sentem que ao reagir assim, ganham controlo sobre a situação, ainda que esta atitude possa representar o isolamento social. O que fazer nestes casos?

Nunca esqueça: ao não recorrer à sua ajuda, o jovem estará motivado a resistir a si. Ou seja, dito isto, quanto mais for contrariado, mais forte tenderá a ser a sua resistência.  Sabemos que não é fácil assistir a este isolamento, mas procure não discutir. Mostre que o respeita. Se for preciso, dê um passo atrás para, depois, dar dois à frente. Tente estabelecer pontes de diálogo, começando por o ouvir sobre os planos de vida e as suas expectativas em relação à escola. Encoraje-o a agir. Transmita-lhe confiança.

Porque não definirem em conjunto um plano de metas e responsabilidades a alcançar durante os períodos letivos? Pode ser um primeiro passo importante. Tente, também, que perceba quais as consequências se falhar os compromissos que assumiu. O que acontecerá se não cumprir o acordo? Esta estratégia pode ser do agrado do adolescente, na medida em que lhe confere a tão desejada independência, motivando-o, também, em simultâneo, a alcançar os resultados desejados.

Trabalhe com ele o reforço das habilidades de autodefesa. Faça-o entender que pedir ajuda não é sinal de fraqueza, mas de maturidade. Se, ainda assim,  continuar a não querer ser ajudado, experimente oferecer-lhe apoio de uma forma que corresponda às suas expectativas.  Por exemplo, em vez de propor estudar com ele matemática, porque não encontrar uma aplicação que permita ao menor trabalhar sozinho com igual sucesso? A estratégia pode resultar e, ao mesmo tempo, reforçar o sentimento de independência que tanto deseja.

Caso esta opção não provoque o efeito pretendido e a criança continuar a resistir à sua ajuda, experimente recorrer ao apoio dos colegas de escola mais velhos. Há menores que aceitam mais facilmente receber ajuda de alguém próximo da sua idade. Caso a instituição de ensino não tenha alunos mais velhos disponíveis, contacte outras instituições de ensino e terapeutas educacionais especializados. Há várias formas de resolver estes problemas e contribuir para uma vida escolar e social mais feliz.

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