Adolescentes com menos relações sociais: neurocientistas falam em “risco”, mas admitem benefícios das tecnologias

Julho 9, 2020 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 15 de junho de 2020

O confinamento nos adolescentes pode representar danos a longo prazo em termos de saúde mental, sugere um estudo publicado na revista The Lancet Child & Adolescent Health.

Não existem estudos em humanos que possam comprovar aquilo que com animais se identificou: que o isolamento social em determinados períodos da vida, nomeadamente na adolescência, tem “efeitos substanciais” no “desenvolvimento estrutural do cérebro e nos comportamentos associados a problemas de saúde mental”. Porém, uma equipa de neurocientistas alerta para a necessidade de se estar atento: “Os adolescentes encontram-se num período único das suas vidas em que o ambiente social é importante para funções cruciais no desenvolvimento do cérebro, na construção do autoconceito e na saúde mental”.

“A adolescência”, explicam num estudo publicado na revista The Lancet Child & Adolescent Health, “pode ser considerada um período sensível para o desenvolvimento social, parcialmente dependente do desenvolvimento do cérebro social: a rede de áreas cerebrais (…) que nos permite compreender os outros”. Além disso, é nesta fase da vida que o ser humano revela maior “vulnerabilidade a problemas de saúde mental”.

A temática tem ocupado vários especialistas e meros observadores: há os que alertam para os perigos do confinamento, que em Portugal obrigou a grande maioria dos adolescentes a abandonarem as escolas, trocando-as pelo ensino à distância (e sem retorno, até ao 11.º, pelo menos até ao próximo ano lectivo, que deverá arrancar entre Setembro e Outubro), e a manterem-se longe de quaisquer contactos sociais até dia 1 de Junho, quando foi decretado o fim do dever cívico de recolhimento. Mas também os que defendem que neste modelo os adolescentes ganharam tempo e perderam ansiedade.

Sobre este último aspecto, as investigadoras ressalvam que “o distanciamento físico pode não afectar todos os adolescentes da mesma forma”. “Os adolescentes que vivem com famílias funcionais e com relações positivas com os pais ou cuidadores e irmãos podem ser menos afectados do que aqueles que não têm relações familiares positivas ou que vivem sozinhos.”

No entanto, no que ao desenvolvimento do cérebro diz respeito e independentemente do contexto social, a adolescência é percepcionada pelas neurociências como um momento em que são necessários “estímulos sociais” e uma “maior interacção entre pares”, explicam as autoras — Amy Orben, que estuda como as tecnologias digitais afectam o bem-estar psicológico e a saúde mental dos adolescentes; Livia Tomova, investigadora no MIT; e Sarah-Jayne Blakemore, professora de neurociência cognitiva e co-directora do programa de doutoramento em neurociência da University College de Londres.

“Estudos em humanos”, lê-se no documento, “têm demonstrado a importância da aceitação e da influência dos pares na adolescência”. Já “a investigação animal mostrou que a privação social e o isolamento têm efeitos únicos no cérebro e no comportamento na adolescência, em comparação com outras fases da vida”.

E, ainda que admitam que “a diminuição do contacto pessoal entre adolescentes pode ser menos prejudicial devido ao acesso generalizado a formas digitais de interacção social”, a equipa exorta “os responsáveis políticos” para que pensem “urgentemente o distanciamento físico dos adolescentes”. “A abertura das escolas e outros ambientes sociais deveria ser uma prioridade logo que as medidas de distanciamento físico possam ser atenuadas.”

Além disso, referem, “é necessário fornecer mais informações sobre os potenciais méritos (e danos) da ligação digital e os governos devem abordar a fractura digital apoiando o acesso à ligação digital nas famílias, independentemente do rendimento ou da localização”.

Crianças do pré-escolar passam mais de hora e meia por dia em frente a ecrãs

Julho 2, 2020 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Expresso de 19 de junho de 2020.

Foram avaliados os hábitos de 8.430 crianças, com idades compreendidas entre os três e os 10 anos, a residir nas cidades de Coimbra, de Lisboa e do Porto

Um estudo concluiu que as crianças do ensino pré-escolar (até aos cinco anos) passam, em média, mais de uma hora e meia (154 minutos) por dia em frente à televisão e outros dispositivos, anunciou esta sexta-feira a Universidade de Coimbra (UC).

Publicado na revista científica BMC Public Health, o estudo, intitulado “Social inequalities in traditional and emerging screen devices among Portuguese children: a cross-sectional study”, foi realizado por uma equipa de investigadores do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde (CIAS), da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC (FCTUC).

O estudo, refere a UC, teve como objetivo avaliar o tempo de ecrã das crianças portuguesas em diferentes equipamentos eletrónicos — os tradicionais (como a televisão, o computador e as consolas de jogos) e os modernos, incluindo os ‘tablets’ e os ‘smartphones’ –, bem como “determinar as diferenças no uso de acordo com o sexo e a idade das crianças e a posição socioeconómica das famílias”.

Foram avaliados os hábitos de 8.430 crianças, com idades compreendidas entre os três e os 10 anos, a residir nas cidades de Coimbra, de Lisboa e do Porto.

Os dados foram recolhidos em 118 escolas públicas e privadas, e as taxas de participação foram de 58% em Coimbra, 67% em Lisboa e 60% no Porto.

De acordo com os resultados do estudo, nas crianças mais velhas o tempo em frente ao ecrã é maior, sobretudo devido ao maior tempo gasto em dispositivos eletrónicos, como computadores, videojogos e ‘tablets’: aproximadamente 201 minutos por dia.

“Concluímos que a maior parte das crianças, principalmente entre os meninos, excede as recomendações de tempo de ecrã indicadas pela Organização Mundial da Saúde e pela Associação Americana de Pediatria, em que o tempo de ecrã deve ser limitado a uma hora (em crianças até aos cinco anos) ou a duas horas por dia (em crianças acima dos seis anos)”, afirma, citada pela UC, Daniela Rodrigues, primeira autora do artigo agora publicado.

Embora a televisão continue a ser o equipamento mais utilizado, “o uso de ‘tablets’ está generalizado e o tempo gasto neste equipamento é elevado, incluindo em crianças com três anos de idade”, nota a investigadora.

O tempo de ecrã “é sempre mais elevado em crianças de famílias de menor posição socioeconómica, independentemente da idade, sexo, ou do tipo de equipamento”, sublinha ainda Daniela Rodrigues.

De acordo com a investigadora, tendo em conta que o tempo de ecrã está associado a um impacto negativo na saúde das crianças, por exemplo, menor tempo e qualidade do sono, maior atraso no desenvolvimento cognitivo e da linguagem, excesso de peso, etc., estes resultados “indicam que é necessário um maior controlo por parte dos pais no acesso que as crianças têm aos equipamentos eletrónicos”.

Este panorama é “ainda mais preocupante numa altura em que, devido à pandemia de covid-19, as crianças estão obrigadas a passar mais tempo em casa, e precisam de recorrer a alguns destes equipamentos para aceder à telescola”, adverte.

“É fundamental identificar os subgrupos de risco e identificar como cada dispositivo é usado de acordo com a idade, para permitir futuras intervenções apropriadas”, sustenta a investigadora da FCTUC.

Os pais, conclui Daniela Rodrigues, “devem ter em mente que as crianças passam a maior parte do tempo a ver televisão, mas os dispositivos móveis estão a tornar-se extremamente populares a partir de tenra idade”.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Social inequalities in traditional and emerging screen devices among Portuguese children: a cross-sectional study

Instituto de Apoio à Criança – Artigo de Melanie Tavares do IAC na revista Desenvolvescer – Reflexões sobre a infância e a família

Junho 19, 2020 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Desenvolvescer – Reflexões sobre a infância e a família.- n. 3 (jun. 2020), p. 27-28

Texto da APDJ

Já está disponível a 3.ª edição da revista DESENVOLVESCER – Reflexões sobre a infância e a família! Este mês contamos com a participação do Juiz Desembargador Dr. Paulo Guerra, da Dra. Melanie Tavares do IAC, da Dra. Celina Cláudio da Associação Mundos de Vida, do Dr. Nuno Colaço e muitos mais! Peça já o seu exemplar gratuito para o e-mail: uidcriancafamilia.apdj@gmail.com
Estamos ligados!

Privacidade das Crianças no Ambiente Digital – novo número da revista “Forum de Proteção de Dados”

Maio 30, 2020 às 2:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Visualizar a revista no link:

https://www.cnpd.pt/home/revistaforum/forum2019_6/

Ligação à natureza torna as crianças mais felizes – estudo

Março 5, 2020 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da LUSA de 26 de fevereiro de 2020.

A ligação à natureza torna as crianças mais felizes e com comportamentos mais sustentáveis e ecológicos, indica um estudo hoje divulgado na revista “Fronteiras em Psicologia”.

O estudo, liderado por Laura Berrera-Hernández, do Instituto Tecnológico de Sonora, México, mostrou pela primeira vez que a ligação com a natureza deixa as crianças mais felizes, pela tendência para comportamentos virados para a ecologia.

Com as alterações climáticas a levarem a um aumento da temperatura média, destruição de habitats e extinção de espécies, investigadores estão a trabalhar na promoção de comportamentos sustentáveis e no desenvolvimento de cuidados ambientais nas crianças, os futuros “guardiões” do planeta.

Os investigadores dizem que o afastamento da natureza, chamado de “transtorno de défice de natureza”, pode contribuir para a destruição do planeta, já que é improvável que a falta de ligação com o mundo natural resulte no desejo de proteger esse mundo.

Berrera-Hernández explica que a ligação com a natureza não é apenas apreciar a beleza mas é também entender a inter-relação entre o ser humano e a natureza.

O estudo juntou 296 crianças entre os nove e os 12 anos, de uma cidade do noroeste do México. Todas as crianças se definiram em relação à ligação com a natureza e a comportamentos sustentáveis, e responderam a um questionário.

Os investigadores descobriram que, nas crianças, sentir-se ligado à natureza tinha associações positivas com práticas sustentáveis, e também levou as crianças a falar de níveis mais altos de felicidade.

Investigações anteriores com adultos também sugeriram uma relação entre a ligação com a natureza e o desenvolvimento de comportamentos pró-ambientais e a felicidade derivada desses comportamentos.

Apesar das limitações do estudo, que apenas testou crianças da mesma cidade, os resultados dão informações sobre o poder da psicologia positiva de sustentabilidade em crianças.

FP // ZO

Lusa/fim

O artigo citado na notícia é o seguinte:

Connectedness to Nature: Its Impact on Sustainable Behaviors and Happiness in Children

Consumo de álcool na gravidez tem efeitos negativos nos rins das crianças

Fevereiro 20, 2020 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 12 de fevereiro de 2020.

Mais informações no link:

https://ispup.up.pt/news/internal-news/consumo-de-alcool-na-gravidez-afeta-o-funcionamento-do-rim-da-crianca-anos-mais-tarde/892.html/

Um terço dos pais interpreta mal o peso dos filhos

Fevereiro 18, 2020 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da TSF de 17 de fevereiro de 2020.

Estudo da Universidade de Coimbra avalia se a perceção que os pais têm sobre o peso dos filhos é influenciada por características socioeconómicas.

Cerca de um terço dos pais interpretam mal o peso dos seus filhos, de acordo com um estudo desenvolvido na Universidade de Coimbra (UC) e já publicado no American Journal of Human Biology.

De acordo com a investigação, conduzida por Daniela Rodrigues, Aristides Machado-Rodrigues e Cristina Padez, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), “32,9% dos pais interpretam mal o peso dos seus filhos (30,6% subestimam e 2,3% sobrestimam)”, afirma a UC, numa nota enviada hoje à agência Lusa.

O estudo visou essencialmente “analisar a concordância entre o estatuto nutricional das crianças e a perceção que os pais têm do peso delas”, e “observar se a subestimação do peso estava de algum modo associada ao risco da criança ter excesso de peso/obesidade”.

Envolvendo 793 pais e respetivos filhos (com idades compreendidas entre seis e os dez anos), a pesquisa pretendeu ainda “avaliar se a perceção que os pais têm sobre o peso dos seus filhos era influenciada por características das crianças e socioeconómicas”, refere a UC.

“Verificámos que mais de 30% dos pais não identificou corretamente o estatuto nutricional dos filhos, sendo que a maior parte subestimou”, sublinha, citada pela UC, Daniela Rodrigues, primeira autora do artigo científico e investigadora do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde da FCTUC.

“A subestimação foi substancialmente maior consoante o peso dos filhos, ou seja, vários pais com filhos com excesso de peso classificaram o peso dos filhos como normal e, principalmente, pais com crianças obesas reportaram que as crianças tinham apenas um pouco de peso acima do recomendado”, explicita Daniela Rodrigues.

É nas classes sociais mais baixas que os pais mais subestimam o peso das suas crianças, especialmente das meninas: “Ter pais com menor estatuto socioeconómico e mães com excesso de peso aumenta a probabilidade de subestimar o peso dos filhos, principalmente entre as raparigas”, nota a investigadora.

Sobre a subestimação do peso, se esta estava, de algum modo, associada ao risco da criança ter excesso de peso/obesidade, os investigadores verificaram que “pais que subestimam o peso dos filhos têm 10 a 20 vezes mais probabilidade de terem filhos com excesso de peso ou obesidade, o que tem sido associado a um conjunto de problemas de saúde física e mental, não só na infância, mas que permanecem na idade adulta”.

Ponderando as conclusões do estudo, que foi financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, Daniela Rodrigues defende que “é urgente ajudar os pais a identificar corretamente o excesso de peso e a obesidade” dos filhos para que possam “recorrer à ajuda dos profissionais de saúde” para melhorarem a qualidade de vida da criança.

“O primeiro passo para alterar comportamentos de risco associados à obesidade (dietas ricas em gorduras saturadas e açucares, inatividade física, comportamentos sedentários, etc.) é perceber a necessidade de alterar esses mesmos comportamentos, identificando corretamente o estatuto nutricional da criança”, acrescenta.

No artigo, os investigadores apresentam ainda algumas explicações para os resultados do estudo. “Os pais podem não saber identificar o que é excesso de peso ou obesidade, principalmente porque os media tendem a apresentar a obesidade no seu extremo”.

Por outro lado, “numa altura em que a prevalência de excesso de peso e obesidade afeta cerca de um terço das crianças, os pais podem ‘normalizar’ o excesso de peso, porque é o formato que mais encontram nas crianças que os rodeiam”, afirma ainda Daniela Rodrigues.

“Acreditamos ainda que a maior parte dos pais prefere não identificar a criança como tendo peso acima do recomendado por uma questão de enviesamento social, evitando os estereótipos associados ao excesso de peso e obesidade”, conclui.

Mais informações na notícia da Universidade de Coimbra:

Estudo conclui que um em cada três pais interpreta mal o peso dos seus filhos

Privações extremas na infância encolhem o cérebro para toda a vida

Fevereiro 13, 2020 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Diário de Notícias de 4 de fevereiro de 2020.

Estudo comprova que algumas zonas do cérebro são mais pequenas em pessoas que sofreram privações extremas na infância. Os órfãos da Roménia, que o mundo descobriu com horror em 1990, ajudaram agora a demonstrá-lo.

Na altura, as imagens chocaram o mundo. Em quartos insalubres, por toda a Roménia, dezenas, centenas, de crianças de várias idades amontoavam-se sem espaço nem condições, privadas de tudo. De amor, de uma família e do resto, que vai de uma alimentação saudável ao convívio normal e aos estímulos cognitivos e emocionais que são essenciais ao desenvolvimento equilibrado.

Aqueles meninos e meninas abandonados eram os órfãos de Ceausescu, o ditador romeno que criminalizou o aborto e obrigou as famílias do seu país a ter muitos filhos – e elas, não podendo a certa altura sustentá-los, acabavam por abandoná-los nas insalubres instituições do estado.

Seriam pelo menos 160 mil as crianças de todas as idades institucionalizadas na Roménia, no início dos anos de 1990, e foi a solidariedade internacional e a ação de várias ONG que contribuíram em grande parte para as resgatar à situação indigna em que viviam. Muitas foram adotadas por famílias de outros países, incluindo do Reino Unido. Jovens adultos, estes jovens contribuíram agora para a investigação que demonstrou que as marcas dessas privações em idade precoce ficam, indeléveis, no cérebro.

Para chegar a esta conclusão, o estudo, que foi coordenado por investigadores do King’s College de Londres e publicado em janeiro na revista científica Proceedings of the Mational Academy of Sciences (PNAS), avaliou 67 jovens romenos com idades compreendidas entre 23 e os 28 anos, que estiveram institucionalizados no seu país, na infância, e que foram depois adotados por famílias britânicas. E comparou-os depois com um grupo de 22 britânicos sensivelmente das mesmas idades, também adotados, mas sem experiência de privação na infância. O resultado, diz a equipa coordenada por Edmund Sonuga-Barke, é claro: o volume do cérebro dos jovens adultos provenientes da Roménia é em média 8,6% inferior ao do outro grupo.

Os dados mostram, além disso, que quanto maior foi o período de privação a que estiveram sujeitos em crianças, menor era o volume cerebral, e que cada mês a mais de vivência daquela situação estava associado a 0,27% de redução no volume global do cérebro.

Uma análise estatística mostrou ainda que no grupo dos jovens provenientes da Roménia, aquelas alterações no volume cerebral estavam também associadas a um QI mais baixo e a sintomas mais frequentes de hiperatividade e défice de atenção, o que indica segundo os autores que as alterações observadas nas estruturas cerebrais poderão ter um papel mediador entre as experiências precoces de privação e os níveis de performance cognitiva e de saúde mental.

Para poderem determinar com rigor a ligação entre as privações na infância e as alterações observadas, os investigadores avaliaram igualmente outros parâmetros, como a nutrição, o desenvolvimento físico e a predisposição genética para um menor volume cerebral, o que permitiu descartar o seu contributo para os resultados do estudo.

A lei das compensações

“O nosso estudo debruça-se sobre as questões mais fundamentais no desenvolvimento psicológico, ou seja, sobre como as experiências precoces determinam o desenvolvimento individual, e é essencial reconhecer que quase todos estes jovens receberam grande atenção e carinho por parte de famílias acolhedoras que os adotaram depois de terem deixado as instituições onde se encontravam”, explicou Edmund Sonuga-Barke, citado num comunicado da sua universidade. No entanto, sublinhou o coordenador do estudo, “apesar de todas as experiências e conquistas positivas posteriores, permanecem neles efeitos profundos daquela experiência primordial de privação”.

Nuria Mackes, especialista em imagiologia cerebral e coautora da investigação, frisa por seu turno a importância dos resultados para o conhecimento neurobiológico e os estudos do cérebro e para o avanço que constitui, já que “até agora ainda não tinha sido possível determinar de forma direta a ligação entre as duas realidades: a da privação na infância e os seus efeitos no cérebro”.

Na análise das áreas cerebrais que nestes jovens apresenta menor volume, em relação ao grupo dos congéneres ingleses, a equipa verificou que isso acontece na região frontal direita inferior, ao passo que, numa parte desses mesmos jovens, que sãos os menos afetados por hiperatividade e défice de atenção, o lobo temporal direito inferior apresenta maior volume e densidade. Os cientistas pensam que isso poderá funcionar de alguma maneira para a redução daqueles sintomas nestes jovens.

“Encontrámos diferenças estruturais entre os dois grupos em áreas do cérebro que estão associadas a funções como a organização, motivação, integração da informação e memória”, adianta Mitul Mehta, que coordenou a parte da imagiologia cerebral do estudo.

“É interessante, por outro lado, ver que o lobo temporal direito inferior é maior nos jovens romenos e que isso está relacionado com menos sintomas de défice de atenção e hiperatividade, o que sugere que o cérebro pode adaptar-se para minimizar os efeitos negativos da experiência de privação”. Isso pode aliás explicar por que alguns indivíduos “parecem menos afetados do que outras por essa situação”, sublinha o investigador, notando que, a seu ver, “esta é a primeira vez que um estudo mostra de forma tão evidente os efeitos compensatórios [a nível cerebral] para uma situação de privação”

Portugal registou 129 casos de mutilação genital em 2019

Fevereiro 6, 2020 às 4:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Expresso de 6 de fevereiro de 2020.

Raquel Moleiro

O número duplicou em relação ao ano anterior (64), mas mais do que um aumento da prática terá havido uma maior capacidade de deteção de casos (novos e antigos) por profissionais de saúde, educação, forças de segurança e segurança social, que durante o último ano tiveram formação específica no âmbito do projeto “Práticas Saudáveis – Fim à Mutilação Genital Feminina”.

A mutilação genital feminina (MGT) nunca teve grande expressão em Portugal. A cada ano, a identificação em território nacional de mulheres ou crianças sujeitas a essa prática andou sempre por volta da meia centena, com altos e baixos pouco pronunciáveis, subindo e descendo sem uma tendência certa. Mas os números de 2019 vêm alterar as estatísticas: os 129 casos registados representam uma subida de 101% em relação aos 64 assinalados em 2018.

O que parece indicar uma viragem negativa, é na verdade o resultado de um ano do projeto-piloto “Práticas Saudáveis – Fim à Mutilação Genital Feminina” – coordenado pela Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CIG), o Alto Comissariado para as Migrações (ACM) e a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT) -, que visou desencobrir a dimensão do fenómeno com trabalho de proximidade nas zonas de maior prevalência e formação de profissionais de saúde, educação, forças de segurança e segurança social.

O primeiro balanço é apresentado esta quinta-feira, e a data não foi escolhida ao acaso. Comemora-se o Dia Internacional de Tolerância Zero à Mutilação Genital Feminina.

“O trabalho de prevenção da MGF em Portugal ganhou muita força nos últimos anos. O nosso Código Penal reconhece esta prática como crime desde 2015, mas sabemos que a criminalização não basta e por isso temos envolvido todos os sectores da sociedade no trabalho de terreno – hospitais, escolas, autarquias, líderes religiosos, entre outros”, explica ao Expresso a secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade, que garante “existirem cada vez mais pessoas conscientes e empenhadas neste desígnio coletivo”.

Rosa Monteiro vai estar na Escola Nacional de Saúde Pública na apresentação dos primeiros resultados do projeto, que ela própria lançou em 2018. E além do balanço, é já certo o anúncio do seu alargamento.

“Com o Práticas Saudáveis, criámos uma equipa estruturada de profissionais de saúde que todos os dias partilham recursos, atuam em rede e aliam esforços com associações locais para salvar meninas e mulheres desta prática nefasta. Estamos também a apoiar oito organizações não governamentais que fazem um trabalho imprescindível em conjunto com os serviços públicos nos territórios do projeto, e contamos com um número crescente de profissionais com qualificação específica nesta matéria. Estas são as palavras-chave: criminalizar, qualificar, envolver”, esclarece.

Centros de saúde em ‘alerta’

No terreno, o projeto-piloto centrou-se em cinco agrupamentos de centros de saúde, selecionados por corresponderem aos territórios de maior prevalência da prática: Almada-Seixal, Amadora, Arco Ribeirinho (Alcochete, Barreiro, Moita e Montijo), Loures-Odivelas e Sintra. São estas as unidades que servem mais população em risco, ou seja, imigrantes de países onde a MGF é prática cultural enraizada, ainda que em muitos já seja proibida.

Em cada agrupamento foram designados dois médicos ou enfermeiros como pontos focais do projeto e 29 profissionais a trabalhar nas unidades referenciadas (9 médicos, 15 enfermeiros, 4 assistentes sociais e uma psicóloga) concluíram o curso de pós-graduação em MGF no Instituto Politécnico de Setúbal em 2019. Outros 1176 realizaram ações de formação de curta duração.

Não é por isso de estranhar, que no balanço do “Práticas Saudáveis” se leia que “entre os efeitos positivos, destaca-se a maior capacidade de profissionais de saúde para registarem casos de mutilação genital feminina que antes não eram detetados”. É com base neste resultado, que foi já decidido o alargamento do projeto a cinco novos agrupamentos de Centros de Saúde da área da Grande Lisboa: Cascais, Estuário do Tejo, Lisboa Central, Lisboa Ocidental-Oeiras e Lisboa Norte.

A formação e sensibilização para MGF estendeu-se ainda a professores, técnicas da Segurança Social, elementos das forças de segurança, funcionários das autarquias visadas ou lideranças religiosas, num total de mais de 5600 pessoas abrangidas em 2019.

Para reforçar essa vertente formativa, esta quinta-feira vai também ser apresentada mais uma pós-graduação em MGT, esta na Escola Nacional de Saúde Pública, da Universidade Nova de Lisboa.

Um estudo da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, realizado em 2015, estimou que em Portugal cerca de 6500 mulheres com mais de 15 anos possam ter sido sujeitas a MGF e que aproximadamente 2 mil meninas com menos de 15 anos foram ou serão sujeitas a esta prática – fora do país – até atingir esta idade. A maioria é da Guiné-Bissau.

Na União Europeia, 500 mil mulheres já terão sido excisadas e 180 mil estão em risco a cada ano que passa. No mundo, estima-se que 200 milhões de mulheres, raparigas e meninas tenham sido submetidas a esta prática.

O estudo mencionado na notícia é o seguinte:

Estimating the prevalence of female genital mutilation in Portugal

Privação na primeira infância altera estrutura cerebral do adulto

Janeiro 14, 2020 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 7 de janeiro de 2020.

A mesma elasticidade que nos permite adaptar e reagir a factores negativos e positivos pode deixar o cérebro humano vulnerável quando exposto a experiências psicossociais adversas.

Carla B. Ribeiro

A privação de estímulos, afectos, nutrição e higiene nos primeiros anos de vida tem consequências permanentes na formação do cérebro. E nem o facto de as vivências posteriores serem mais ricas é capaz de diminuir o impacte inicial.

A conclusão é de um estudo de uma equipa de investigadores das universidades King’s College de Londres, de Southampton, de Bath (Reino Unido) e de Bochum (Alemanha), publicado esta semana na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), a publicação oficial da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, que prosseguiu as descobertas de uma outra investigação, designada de Adoptados Ingleses e Romenos, do King’s College, publicada em 2017 na revista científica The Lancet, que acompanhou vários órfãos romenos acolhidos por famílias britânicas desde os anos 90 do século passado.

Cerca de 30 anos depois, os cientistas observaram que, entre aqueles, os que, até aos três anos, tinham passado mais de seis meses em instituições romenas apresentavam, já adultos, transtornos do espectro autista, uma diminuída capacidade de interacção social (transtorno de personalidade anti-social), desconcentração ou hiperactividade. Comparados aos órfãos que passaram menos de seis menos em instituições romenas e com aqueles que passaram pelo sistema britânico, o estudo concluiu que aqueles apresentavam cérebros mais pequenos, cerca de 8,6%.

Agora, um novo estudo vai mais longe e acrescenta que as privações (de estímulos, afectos, higiene, alimentação) nos primeiros anos de vida podem ser associados a alterações na estrutura do cérebro, que não são reversíveis mesmo depois de as crianças serem enquadradas em ambientes saudáveis.

De acordo com a publicação, o grupo mais exposto a instituições com más condições revelou uma menor área de superfície e de volume no lóbulo frontal do lado direito, mas maior espessura, área de superfície e volume do lóbulo temporal inferior do mesmo lado. O primeiro facto, explicam os cientistas, foi relacionado com o tempo de exposição a condições deficitárias na primeira infância. Já o segundo parece ser de compensação, sendo que os indivíduos que manifestaram esta alteração apresentavam níveis mais baixos de défice de atenção/hiperactividade.
Cérebro elástico

A neuroplasticidade é a capacidade do cérebro de se adaptar e mudar dinamicamente em resposta às influências ambientais, promovendo ainda a recuperação do mesmo após lesões físicas ou insultos verbais. Porém, a mesma elasticidade que nos permite adaptar e reagir a factores negativos e positivos pode deixar o cérebro humano vulnerável quando exposto a experiências psicossociais adversas, como maus-tratos.
Segundo os investigadores, o cenário “pode ser especialmente verdadeiro durante a primeira infância, [período] caracterizado por mudanças rápidas e dinâmicas na estrutura e função do cérebro”. Além do mais, apesar de os indivíduos observados terem vivido durante mais de duas décadas em ambiente familiar estável, com adultos que lhes proporcionaram afectos e atenção total, os provenientes dos orfanatos romenos apresentavam graves problemas de saúde mental nos primeiros anos da idade adulta, sugerindo que as alterações que a privação provocou ao cérebro terão sido irreversíveis.

Estas descobertas, concluem, “são consistentes com a hipótese de que dificuldades severas e limitadas no tempo, vivenciadas nos primeiros anos de vida, podem ter um efeito adverso duradouro no desenvolvimento do cérebro que ainda é observável na idade adulta”.
Os órfãos de Ceausescu

O estudo teve por base a amostra final do estudo de 67 órfãos romenos, adoptados por britânicos, e 21 órfãos nascidos e institucionalizados no Reino Unido, no início da década de 1990, quando, meses após a queda de Nicolae Ceauşescu (1918-1989), o mundo foi surpreendido pelos relatos da existência de dezenas de milhar de crianças romenas que viviam em orfanatos, isoladas do resto da sociedade, sem condições de higiene, vítimas de maus-tratos e a sofrer de malnutrição.

Houve, na época, adopções em massa de muitos países, como foi o caso do Reino Unido, onde começaram a ser estudadas as crianças provenientes de tais ambientes. De acordo com os investigadores, os indivíduos observados foram institucionalizados nos primeiros dias de vida — muitas destas crianças eram abandonadas ou entregues aos orfanatos por pais que não conseguiam sustentar tantos filhos num país onde os contraceptivos eram proibidos e a natalidade encorajada —, tendo permanecido nesses espaços entre três e 41 meses.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Early childhood deprivation is associated with alterations in adult brain structure despite subsequent environmental enrichment

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