Preocupado com o tempo que o seu filho passa à frente do telemóvel? Tenha calma…

Janeiro 16, 2019 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Ecrãs devem ser evitados antes da hora de dormir | Reuters

Notícia da RTP Notícias de 4 de janeiro de 2019.

Alexandre Brito – RTP

O Royal College of Paediatrics and Child Health, organismo britânico que reúne pediatras do país, publicou um guia para os pais relacionado com o tempo que as crianças devem passar à frente de um ecrã (tablets, telemóveis, etc). Com conselhos algo inesperados. Não há qualquer recomendação de tempo limite. Apenas bom senso e acompanhamento próximo pelos adultos.

Os pediatras dizem que não há evidências suficientes que confirmem que o tempo que as crianças passam à frente de ecrãs seja por si mesmo prejudicial à saúde em qualquer idade. Por essa razão, os pediatras indicam que é impossível recomendar um tempo limite relacionado com a idade.

Isso significa que as crianças podem usar, por exemplo, tablets e telefones o tempo que quiserem? Não. De acordo com as recomendações do Royal College of Paediatrics and Child Health, os pais devem permitir o uso desses aparelhos de acordo com a idade de desenvolvimento da criança – que varia -, com as necessidades individuais relacionadas com o exercício físico, socialização, entre outras. Quando o tempo que se passa à frente do ecrã afeta essas atividades, então torna-se prejudicial para a saúde do menor.

Nesse sentido, diz o Dr. Max Davie do Royal College of Paediatrics and Child Health, “temos que deixar os pais serem pais” e ajustarem o tempo de utilização destes ecrãs de acordo com o que é importante para a família e a criança. “A tecnologia é uma parte integrante da vida das crianças e dos jovens. Eles usam-na para comunicar, entretenimento e cada vez mais na educação”.

Apesar destas indicações, os pediatras avisam que para melhor compreender o que está a acontecer é preciso “mais e melhores estudos, particularmente relacionados com novos usos dos media digitais, como as redes sociais”.

No guia agora publicado, os pediatras lançam uma série de perguntas para ajudar os pais a avaliarem e a tomarem decisões relacionadas com o uso destes equipamentos:

  • O tempo da sua família à frente dos ecrãs está controlado?
  • O uso desses ecrãs tem influência no que a sua família quer fazer?
  • O uso dos ecrãs tem influência no sono?
  • Consegue controlar o que come durante o uso desses ecrãs?

Ainda de acordo com o Dr. Max Davie, “é importante encorajar os pais a fazerem aquilo que consideram certo para a sua família”. Sugere, no entanto, “que sejam estabelecidas fronteiras de acordo com a idade, negociadas entre os pais e as crianças, de forma a que todos na família as compreendam”.

E acrescenta: “Quando essa fronteiras não são cumpridas, tem que haver consequências”.

Tão importante como os conselhos anteriores é que os próprios pais façam uma reflexão “sobre o seu tempo à frente desses ecrãs de forma a terem uma influência positiva nos mais novos”.

Um alerta. Evitar o uso de ecrãs uma hora antes de dormir

Apesar de todas estas recomendações, de certa forma inesperadas, há uma que vai no sentido do que outros estudos já indicavam.

As crianças não devem usar esses ecrãs – telemóveis, tablets, etc – uma hora antes da hora de dormir. A luz estimula o cérebro com efeitos nocivos para o sono.

Apesar de existirem “modos noturnos” nesses aparelhos, dizem os pediatras que não há qualquer evidência de que sejam eficazes.

 

 

O tablet não é uma ama digital no mundo das crianças

Dezembro 7, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site dn_insider de 21 de novembro de 2018.

Cátia Rocha

A partir de que idade é que as crianças devem ter acesso a telemóveis, tablets e computadores? Os especialistas respondem à pergunta, numa era em que a tecnologia já é usada para acalmar birras ou apenas para distrair os mais pequenos.

Nativos digitais e imigrantes digitais são dois conceitos sociológicos nos quais não se pensa no dia-a-dia. No primeiro grupo estão as pessoas que já cresceram com tecnologia – normalmente está associado a quem nasceu depois de 1980, os millennials; já os imigrantes digitais são pessoas que tiveram de fazer a transição e o processo de habituação a um admirável mundo novo – o da tecnologia.

Um dado relevante: os nativos digitais são, na sua maioria, os pais das crianças de hoje. E por que razão é que isto é importante? Porque estas crianças vão bem além do conceito dos nativos digitais, vivendo uma experiência ainda mais imersiva do que a dos pais.

E é precisamente a consciência tecnológica destes últimos que os leva a questionar: a partir de que idade é recomendável uma presença tech na vida dos mais pequenos?

A verdade é que a tecnologia está cada vez mais presente na vida das crianças, com acesso a smartphones, dispositivos de realidade virtual e tablets – talvez o gadget que mais vezes é citado como um motivo de birras ou simplesmente de distração.

“Não deve haver pressa no uso do ecrã”, adverte o especialista, defendendo que a recomendação passa por evitar os meios digitais nos primeiros anos de vida. “Até aos 2 anos, o pensamento simbólico é muito imaturo, aquilo que a criança vê no tablet não consegue aplicar na sua vida normal, no dia-a-dia, exceto se for complementado por um adulto.” E, mesmo a partir dessa idade, há limites: “Um tablet não consegue perceber se uma criança está a ficar frustrada com a brincadeira, não há ainda uma inteligência artificial para conseguir lidar com a frustração.”

O pedopsiquiatra Pedro Strecht, que publicou recentemente o livro Pais sem Pressa, concorda com a visão de que, até aos dois anos, a tecnologia não deve ser um ponto central da vida. “Nessas idades, as crianças estão em fase de desenvolvimento de outras formas de comunicação e de relação; não podemos esquecer que é a partir dos 12 meses que a maioria começa a andar e a correr, descobrindo assim o mundo em seu redor. É a partir dessa idade que a aquisição e a expansão da linguagem adquirem um aspeto verdadeiramente central no desenvolvimento cognitivo e emocional dos mais novos.”

Pedro Strecht reconhece naturalmente um “mundo tecnológico que está presente no dia-a-dia e que, de verdade, as crianças já nascem por dentro dele”. Critica, porém, pais que “usam as tecnologias como forma de preencher espaços ou lacunas na relação direta com os filhos, mesmo com os de baixa idade”. Exemplo disso é o uso de tablets durante a refeição “para que não existam birras ou o tempo da alimentação seja mais rápido”.

Para a especialista em sono infantil Filipa Sommerfeldt Fernandes “vedar o acesso das crianças à tecnologia é tolice”, embora acredite na lógica do “bom senso e no equilíbrio”, para que se possa “retirar o melhor da tecnologia”.

São três especialistas com uma opinião transversal a todos: a tecnologia não é superior ao contacto humano no processo de desenvolvimento infantil. Ter um adulto em interação com a criança continua a ser o melhor caminho – e há estudos que o comprovam.

Pequenos nas lojas de apps

Um estudo do departamento de pediatria da Universidade de Medicina de Nova Iorque mostrou a influência que os meios eletrónicos têm na vida de crianças com menos de 2 anos. Os resultados revelaram, em 2010, que crianças mais expostas a conteúdos como filmes, DVD, televisão ou vídeos eram menos desenvolvidas em comparação com crianças com menor tempo de exposição a estes meios.

Recentemente, o estudo “Happy Kids: Aplicações Seguras e Benéficas para Crianças”, do Católica Research Centre for Psychological, Family and Social Wellbeing (CRC-W), da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa, mostrou que as crianças mais novas – até aos 2 anos – são quem mais recorre às aplicações em dispositivos móveis.

O estudo foi feito através da plataforma Pumpkin e contou com as respostas de 1968 pais em Portugal, de filhos com idades até aos 8 anos. Além de mostrar que as crianças fazem um uso quase independente da tecnologia, o estudo coloca a questão: em que circunstância é que há maior permissão para os miúdos terem acesso à tecnologia?

No topo da lista surgem situações sociais: em restaurantes, 587 dos inquiridos dizem dar acesso a aplicações. Depois, os pais (490) cedem quando precisam de trabalhar ou de cumprir tarefas domésticas. Por fim, 99 apontaram para um uso em situações de stress – quando é preciso acalmar as birras dos filhos.

O processo de imitação

O número a que Pedro Strecht chegou dá que pensar: os pais passam 37 minutos por dia em interação exclusiva com os filhos.

Paulo Oom destaca o papel dos pais em todo o processo de educação, que deve ter em conta a moderação. “Entre os 2 e os 4 anos a criança pode ter ecrãs durante uma hora, mas com a presença de um adulto para orientar.” E não é apenas nesse ponto que pais e educadores têm importância. Muita da aprendizagem é feita através de imitação. “É fundamental os pais evitarem os ecrãs, porque às vezes dão um mau exemplo.”

Mas ainda há mais a ter em conta, principalmente nas ocasiões em que a palavra de ordem é brincar. “Não deve haver ecrãs nos momentos de brincadeira”, diz o pediatra. Filipa Sommerfeldt Fernandes aponta na mesma direção, referindo inclusive que a presença dos ecrãs na vida dos adultos também é excessiva.

“Os ecrãs em demasia impedem que haja momentos de conexão entre pais e filhos e são mais um fator para as birras dos pequenos – que passam a querer ver vídeos a toda a hora e que não gostam que estes lhes sejam retirados. Na hora de deitar podem ser mais um motivo de zanga. Além de que, embora estejam ‘quietos’ na cama, na realidade estão com o cérebro estimulado de uma forma que não ajuda ao sono”, garante a especialista.

Para dormir melhor

Quantas vezes é que não se ouve um pai ou uma mãe dizer que o filho não dorme bem? Cada criança tem uma rotina de sono muito particular, é certo, mas vale sempre a pena olhar para o ecrã do smartphone ou do tablet e perceber se não estará ali um contribuinte para o caso.

Os gadgets emitem luz azul. Embora os estudos nesta área sejam recentes, é referido sempre que esta tem influência no sono. “A forma como a luz é emitida pelos ecrãs afeta o relógio biológico, pois inibe a secreção de melatonina, a hormona do sono, desregulando os ritmos circadianos”, explica Filipa. E isto é válido tanto para adultos como para crianças. “Além de que a utilização de tablets antes de dormir atrasa a hora de deitar, e pode haver outros efeitos bem mais graves para a saúde física e mental” das crianças.
Paulo Oom refere que os pais devem aplicar a regra de não haver ecrãs uma hora antes de deitar. “A criança precisa de produzir melatonina antes de dormir.”

“Com a ativação e a excitação de certas zonas cerebrais, desencadeadas pelo uso excessivo de tecnologias (muitas delas mantêm-se ligadas durante a noite), é natural que as implicações negativas sejam diversas, como por exemplo no comportamento ou no aproveitamento escolar”, segundo o pedopsiquiatra. Mas também há que desdramatizar e perceber que a tecnologia no mundo infantil precisa de estar alicerçada no bom senso, no equilíbrio e numa forte orientação dos pais.

Paulo Oom acredita que o uso consciente da tecnologia nos momentos de interação “não se trata de uma cruzada contra os momentos de media – é sim uma cruzada contra não haver momentos de brincar na rua”.

*Este artigo foi originalmente publicado na Insider de outubro de 2018.

 

Vale a pena reduzir a amamentação materna para os bebés dormirem mais?

Julho 21, 2018 às 5:05 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do MAGG de 12 de julho de 2018.

por Catarina da Eira Ballestero

Estudo diz que os bebés que ingerem sólidos antes dos 6 meses dormem mais. Um especialista discorda: o leite da mãe em exclusivo é o melhor.

e acordo com os resultados de um estudo divulgado recentemente no Jama Pediatrics, as crianças que começam a ingerir sólidos com menos de seis meses de idade dormem mais do que aquelas que são amamentadas. A investigação liderada pelo especialista Michael Perkin, do Instituto de Pesquisa de Saúde da População e do Hospital St. George, em Londres, sugere que a introdução dos sólidos pode resultar num sono melhor.

Michael Perkin e a sua equipa analisaram 1303 bebés: os do grupo de introdução precoce de alimentos começaram a ingerir sólidos com cerca de 16 semanas, em média, em comparação com os do grupo padrão que iniciaram às 23 semanas. Durante o período do estudo, que durou cinco meses, os bebés que começaram a comer sólidos mais cedo dormiam mais do que aqueles cujas mães continuaram a amamentar exclusivamente até aos seis meses de idade — uma média de quase 17 minutos a mais, para sermos precisos.

A diferença de minutos, que atingiu o seu pico máximo aos seis meses dos bebés, persistiu após o primeiro aniversário destes, sendo que as crianças que começaram a dormir mais cedo também acordavam com menos frequência (9%) do que os outros.

Os minutos a mais de sono não compensam o fim da amamentação exclusiva

Apesar do quão atrativa possa ser a ideia de que as crianças podem dormir mais com alterações na alimentação, José Aparício, médico pediatra e coordenador do atendimento pediátrico do Hospital Lusíadas Porto, realça que as vantagens da amamentação exclusiva estão muito acima dos 17 minutos a mais de sono.

“Prefiro que os bebés durmam menos 17 minutos e que se alimentem à mama”, diz à MAGG o especialista, que alerta que este tipo de estudos e trabalhos podem influenciar uma mãe a deixar de lado a amamentação exclusiva em prol de um sono mais extenso das crianças.

O médico pediatra afirma que “17 minutos não são nada” e recomenda que “se mantenha a mama”. José Aparício é “muito crítico em relação a tudo o que coloque em causa algo adquirido já há muitos anos, como os benefícios da amamentação exclusiva nos primeiros seis meses de vida das crianças”.

De acordo com as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), o aleitamento materno deve ser obrigatório no primeiro meio ano dos bebés e só depois é que os alimentos sólidos podem ser introduzidos.

“Respeitando o trabalho citado, estamos a comparar uma média de 17 minutos de sono contra uma vantagem imunológica, nutricional, psicológica e intelectual, basicamente tudo aquilo que a alimentação materna traz de positivo para um bebé. São também 17 minutos em que a mãe está a olhar para o bebé e este para a mãe”, afirma o especialista.

De acordo com José Aparício, a amamentação exclusiva é fundamental e traz inúmeras vantagens. “É claro que a população em geral pode ser seduzida pela ideia de conseguir mais tempo de descanso para os filhos, mas tenho mais que argumentos para desmontar esta ideia de 17 minutos a mais à custa de acabar com a mama em exclusivo, que vou defender sempre, devido aos seus variados benefícios em diversos campos”, conclui o pediatra.

Em Portugal, quase dois terços das mães amamentam em exclusivo até aos três meses.

 

 

 

Quando é que os bebés dormem melhor? Quando começam a comer sólidos

Julho 21, 2018 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 11 de julho de 2018.

É quando os bebés começam a comer alimentos sólidos que começam a dormir melhor. A comparação foi feita entre os que são amamentados até aos seis meses e aqueles a quem são introduzidos os sólidos a partir dos três meses.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Academia Americana de Pediatria, entre outros, o aleitamento materno deve ser obrigatório nos primeiros seis meses da criança e só depois é que os alimentos sólidos podem ser introduzidos. Contudo, um estudo de 2016 sobre tolerância alimentar – que envolveu 1303 bebés, aos quais os alimentos sólidos foram introduzidos mais cedo para observar se esta acção ajudava a prevenir alergias alimentares –, demonstrou que a introdução de pequenas quantidades de alimentos alergénicos em bebés mais novos ajudava a reduzir os riscos de alergia alimentar. Estes resultados levaram a Academia Americana de Pediatria, o governo australiano e outros a mudaram as suas directrizes de alimentação infantil.

Michael Perkin, do Instituto de Pesquisa de Saúde da População e do Hospital St. George, ambos em Londres, acrescenta que os resultados de uma nova análise aos dados sugerem que outro dos benefícios da introdução dos sólidos é um sono melhor.

Conforme relatado no Jama Pediatrics, Perkin e a sua equipa de investigadores compararam o sono infantil e a qualidade de vida das mães que participaram no estudo de 2016. As crianças no grupo de introdução precoce começaram a ingerir sólidos com cerca de 16 semanas, em média, em comparação com os do grupo padrão que iniciaram às 23 semanas.

Durante cinco meses, os bebés que começaram a comer sólidos mais cedo dormiam mais do que aqueles cujas mães continuaram a amamentar exclusivamente até aos seis meses. A diferença entre os dois grupos atingiu o pico aos seis meses de idade, com o grupo de introdução precoce a dormir uma média de quase 17 minutos a mais do que o dos que continuaram a ser amamentados. Esta diferença persistiu após o primeiro aniversário das crianças. Os bebés que começaram a dormir mais cedo também acordavam com menos frequência (9%) do que os outros.

A descoberta “mais clinicamente importante”, avalia Perkin, é que os pais das crianças que ingeriam alimentos sólidos há mais tempo eram menos propensos a relatar que os seus filhos tinham um sério problema de sono. “Havia uma relação extremamente forte entre a qualidade de vida da mãe e o sono infantil”, acrescenta. “Se o bebé dorme mal, a qualidade de vida da mãe é claramente afectada.”

Maus hábitos de sono aumentam risco de obesidade nos rapazes

Maio 2, 2018 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia e fotografia do https://ionline.sapo.pt/ de 16 de abril de 2018.

Estudo da Universidade de Coimbra conclui que crianças do sexo masculino com hábitos de sono irregulares têm 128% mais probabilidade de obesidade.

Investigadores da Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade de Coimbra chegaram à conclusão que os maus hábitos de sono representam “risco muito elevado de obesidade” nas crianças de sexo masculino.

O estudo contou com a participação de 8.273 crianças entre os seis e os nove anos (sendo 4.183 de sexo feminino) e, baseando-se nas recomendações da Academia Americana de Pediatria (2016) que estabelece que a duração indicada de sono para as crianças deve ser entre nove e 12 horas, teve como objetivo analisar “a relação entre os hábitos de sono irregulares” – quer por escassez ou excesso – e “o risco de excesso de peso e obesidade na população pediátrica”.

Na investigação foi também tido em conta a “atividade física e os comportamentos sedentários (por exemplo, o tempo passado a ver televisão ou a jogar no computador) através de questionários preenchidos pelos pais”, explica uma nota enviada pela Universidade de Coimbra à Lusa. O estudo foi publicado no American Journal of Humam Biology.

As conclusões ditam que “os rapazes que apresentavam hábitos de sono irregulares para a sua idade, isto é, quer abaixo das nove horas por noite, quer acima das 12 horas por noite, durante a semana têm 128% probabilidade de serem classificados como crianças com excesso de peso comparativamente com aqueles que dormiam as horas recomendadas”, explica o investigador Aristides Machado-Rodrigues.

Para as raparigas, cujos resultados foram analisados à parte, “não houve associações significativas entre a duração do sono e o risco de obesidade, nem nos dias da semana nem durante o fim de semana”, refere ainda o investigador que destaca “o cumprimento dos hábitos de sono recomendados na infância” como “um aspeto crucial da saúde cognitiva e do desenvolvimento harmonioso das crianças”.

“Os pais devem reforçar as regras familiares da ‘hora de deitar’ das crianças para que estas possam ter o tempo de sono diário recomendado para a saúde”, alerta Aristides Machado-Rodrigues e lembra que “a literatura sustenta, de forma inequívoca, que a privação do sono, especialmente em idades pediátricas, está associada a problemas de saúde aumentados, não só de índole cognitivo, mas especialmente relacionados com a diminuição da tolerância à glicose, o qual é um fator de risco para a obesidade”.

“Na atualidade, e de forma muito pragmática, não podemos deixar de manifestar a nossa preocupação para os comportamentos sedentários de ecrã, vulgo tablets, telemóveis e computadores, que as crianças e jovens perpetuam pela noite dentro, comprometendo as horas de sono recomendadas, muitas vezes fechados no quarto e sem conhecimento dos pais”, acrescenta.

Apesar das várias medidas que têm sido adotadas para o combate à obesidade, “os hábitos de sono são os que têm merecido menor atenção comparativamente a outros comportamentos do quotidiano, como a atividade física, os hábitos nutricionais ou ainda o sedentarismo”, pode ainda ler-se na nota enviada pela Universidade de Coimbra.

Este estudo está incluído numa investigação mais ampla sobre a Prevalência da obesidade na infância em Portugal, sob a coordenação de Cristina Padez e com financiamento da Fundação para a Ciência e Tecnologia.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

The association of irregular sleep habits with the risk of being overweight/obese in a sample of Portuguese children aged 6–9 years

 

 

 

Porque é que as crianças pedem sempre a mesma história na hora de dormir?

Abril 24, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da https://www.tsf.pt/ de 9 de abril de 2018.

A psicóloga Clementina Almeida acredita que esse pedido está relacionado com uma necessidade de rotina. “A rotina dá-lhes uma sensação de previsibilidade. Não é por acaso que eles pedem para ler aquela história outra vez e outra vez e é sempre a mesma – porque isso lhes dá segurança”, explica a psicóloga clínica.

Clementina Almeida explica que a previsibilidade, o saberem o que vem a seguir, ajuda as crianças a acalmarem-se e os momentos que antecedem a hora de dormir são muito importantes.

Para Clementina Almeida, não interessa qual é a rotina (porque cada família é uma família), o que importa é que ela exista.

Ouvir a psicóloga Clementina Almeida no link:

https://www.tsf.pt/sociedade/interior/porque-e-que-as-criancas-pedem-sempre-a-mesma-historia-na-hora-de-dormir-9244306.html

Deixem os adolescentes dormir!

Outubro 17, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da http://www.paisefilhos.pt/ de 15 de setembro de 2017.

Todos os pais de adolescentes sabem quão difícil pode ser tirá-los da cama, todas a manhãs, a tempo de irem para a escola. Mas o que parece ser pura preguiça a muita gente pode, afinal, dever-se a ciclos biológicos de sono e vigília que marcam esta fase do desenvolvimento humano.

De acordo com especialistas da Fundação Nacional do Sono dos Estados Unidos, entre os 13 e os 18 anos, os jovens necessitam de dormir, em média, dez horas por noite. No entanto, a maioria não descansa nem sete e tal deve-se “ao facto de 85 por cento das escolas secundárias do país iniciarem as aulas antes das oito e meia da manhã”. Uma solução aparentemente simples será a de ir para a cama mais cedo, mas aí é que os ritmos biológicos se impõem, já que neste estádio de desenvolvimento “um dos picos de vigília, catalisado pela melatonina, acontece precisamente à hora em que os adolescentes se deveriam deitar para completar as tais dez horas e acordar cerca das sete e meia da manhã, ou seja, entre as nove e as dez da noite”.

Ou seja, se estão bem acordados depois dessa hora, e se idealmente precisam de dormir mais horas do que o habitual, não admira que os adolescentes estejam sonolentos quando são arrancados da cama. Os mesmos especialistas defendem assim que o início do dia escolar deve começar um pouco mais tarde, para aproveitar melhor o potencial de vigília dos jovens, considerando mesmo o “atual défice de descanso como um problema de saúde pública”, ligado a um maior risco de consumo de álcool e estupefacientes e também a sinais de depressão e mais casos de acidentes de automóvel.

 

 

A importância do sono no desenvolvimento da memória

Setembro 14, 2017 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da http://www.paisefilhos.pt/ de 1 de agosto de 2017.

Os períodos de sono são essenciais para muitas funções cerebrais diferentes, tanto em crianças como nos adultos. Isso é ponto assente. Agora, um estudo realizado na Hungria vem mostrar de que forma os bebés até três meses beneficiam das sestas no desenvolvimento da memória, nomeadamente na retenção de informações aprendidas e em recordarem eventos passados.

O trabalho científico realizado na Universidade Semmelweis, em Budapeste, analisou 45 bebés até às 12 semanas. As crianças foram divididas em dois grupos: a um foram mostradas faces e depois iniciaram sestas que duraram entre uma e meia a duas horas. Depois, as mesmas imagens faciais foram visualizadas e rapidamente os bebés que tinham descansado as reconheceram e se fartaram delas.

Pelo contrário, os bebés que não dormiram a sesta, e aos quais foram mostradas as mesmas faces com algum intervalo de tempo, encararam-nas como se fossem novas. De acordo com os investigadores húngaros, isso mostra que o sono desfrutado pelo primeiro grupo levou à aquisição de informação e transformação em memórias permanentes.

Para a autora principal do estudo, Klara Horvath, defende que um curto período de sono é importante para que os bebés “possam processar e consolidar as lembranças que fizeram antes das sestas. Sem estes períodos de descanso, parece que as crianças mais pequenas simplesmente esquecem o que acabam de aprender”.

O estudo mencionado na notícia é o seguinte:

Memory in 3-month-old infants benefits from a short nap

 

Adormece o seu bebé na posição mais adequada?

Setembro 8, 2017 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do http://observador.pt/ de 25 de agosto de 2017.

Um estudo da American Academy of Pediatrics entrevistou mais de 3.000 mães de 32 hospitais dos EUA, para perceber como deitam as crianças. E descobriram que nem sempre o fazem bem.

Deitar um bebé na posição que pensa ser correta para dormir pode, na verdade, não ser a melhor ou a que melhor o protege durante o sono – e um estudo publicado esta semana na revista Pediatrics conclui isso mesmo: muitos pais não sabem ou não seguem as recomendações para deitar o bebé de forma adequada.

Colocar o bebé de barriga para cima antes de dormir é uma das posições aconselhadas, dado que reduz o risco de morte súbita infantil, bem como outras condições relacionadas com o sono, de acordo com o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças norte-americano.

Ainda assim, a percentagem de mães que tem este hábito é alta: mais de 77%. O problema é que muitos pais, mesmo sabendo da recomendação, nem sempre o fazem e acabam por adotar outras posições para o sono dos seus bebés. As razões para isso dividem-se entre a interferência de médicos e outros membros da família ou a sensação de que a criança poderá sufocar se adormecer naquela posição. Algo que, de acordo com os investigadores, é um equívoco.

O estudo da American Academy of Pediatrics, publicado esta semana, entrevistou 3.297 mães de 32 hospitais dos EUA, para saber como estas agiam no momento de deitar as crianças. Os autores do estudo garantem que falar sobre o sono infantil com os restantes familiares e amigos pode ajudar a começar a pôr em prática bons hábitos, reforçando a importância de comunicar com profissionais de saúde.

 

 

 

“Os bebés não têm manhas, isso são coisas dos adultos”

Julho 28, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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Texto do http://observador.pt/de 13 de julho de 2017.

Ana Cristina Marques

Um bebé que não dorme e chora precisa de colo e mimo. Fazer birra não é manha e não há “treinos do sono”. Quem o diz é a psicóloga Clementina Almeida, autora do livro “Socorro! O meu bebé não dorme”.

Não há treinos ou métodos milagrosos que ponham os bebés a dormir tranquilamente e durante toda a noite. Esta é, talvez, uma das principais premissas de Clementina Almeida, psicóloga clínica há 25 anos e especialista em bebés. Clementina é também a autora do livro “Socorro! O meu bebé não dorme” (Porto Editora), onde apresenta explicações científicas — escritas de uma forma acessível — que ajudam a compreender os hábitos de sono dos bebés.

Há mitos que Clementina Almeida faz cair por terra ao longo de 156 páginas e, também, ao longo desta entrevista. Ao Observador, a psicóloga que também está certificada em saúde mental infantil no Reino Unido e nos EUA, além de ser fundadora e investigadora do BabyLab da FPCE-UC, um dos laboratórios da Universidade de Coimbra, explica que existem fatores económicos e sociais que direta ou indiretamente pressionam os pais a “ensinar” os seus bebés a dormir.

E ao contrário do que se possa pensar, pegar ao colo e mimar um bebé é sinal de um desenvolvimento cerebral sustentável, até porque manhas é coisa que os adultos inventaram: “Os bebés não têm manhas, isso são coisas dos adultos. Os bebés precisam que lhe respondam e isso é a base de um desenvolvimento cerebral saudável. O mimo não estraga: os bebés não passam do prazo de validade. É preciso dar muito mimo para que sejam adultos seguros no futuro.”

Tem-se falado muito nos “treinos do sono”. O que é isso e quais são os seus principais perigos?

Tem que ver com a suposição de que o bebé pode ser treinado e que consegue aprender a adormecer sozinho ou a dormir a noite toda, coisas que em termos do desenvolvimento de um bebé são impensáveis. Estes métodos representam perigos para a saúde de um bebé, nomeadamente para o seu desenvolvimento cerebral e psicológico, uma vez que a maior parte deles criam sensações de abandono. Ou seja, os métodos exigem colocar os bebés nos berços para que estes se acalmem sozinhos; quando começam a chorar os pais vão lá e pegam neles, para depois voltarem a deixá-los e os bebés voltarem a chorar. Isto é contranatura, porque efetivamente os bebés não vêm preparados para dormir sozinhos, além de ser uma experiência, no mínimo, muito negativa, esta de ser deixado a chorar para adormecer.

E pode ter consequências a longo prazo?

Sim, porque na realidade os bebés não aprendem a adormecer sozinhos nem a acalmar-se sozinhos. O que aprendem é que não vem ninguém quando eles choram, a isto chama-se “desânimo aprendido”. É um pouco depressivo para um bebé aprender isso logo no início da sua vida. Em termos neurológicos, quando os bebés estão a chorar estão em stress, estão a pedir ajuda porque dependem do outro para sobreviver e, por isso, libertam cortisol — o cortisol em excesso e durante longos períodos (ou períodos repetidos) vai literalmente queimar neurónios. Atenção que este é o período de maior desenvolvimento e crescimento cerebral que nós temos na vida. Além disso, sabemos que quando o bebé se cala, mesmo passados dois ou três dias, os níveis de cortisol continuam elevados e a destruição de ligações também continua.

O treino que estava a descrever parece semelhante ao que é proposto por Estivill.

Exatamente, é o método Estivill ou o método Ferber. Baseiam-se todos na mesma prática, de tentar que os bebés se acalmem sozinhos e que adormeçam sozinhos por longos períodos. Note-se que o próprio Richard Ferber veio pedir desculpas aos adultos que foram treinados por este método. Estamos a falar de um pediatra muito conhecido, que trabalha em Boston, e que há 20 anos não tinha o conhecimento das neurociências que nós temos hoje em dia — eles não tinham como saber os danos que podiam causar.

Porque é que acha que estes métodos ficaram tão populares?

Primeiro, eles já foram propostos há muitos anos, há décadas. Depois, nós não tínhamos a noção do que é que se passava dentro do cérebro de um bebé quando estes métodos foram aplicados. Eles foram veiculados por muitos canais de informação e as pessoas tiveram acesso a eles e, portanto, tentaram de algum modo aplicá-los. Efetivamente os bebés deixavam de chorar por desânimo aprendido, não por estarem a dormir. Nos últimos 20-25 anos, mais no EUA, houve uma proliferação enorme de “conselheiros do sono” e de livros acerca do sono do bebé, porque nos últimos 50 anos o sono tornou-se uma das grandes preocupações para os pais, mais por imperativos sociais e económicos do que pelo desenvolvimento do próprio bebé. É fácil compreender o motivo por que estes métodos se tornaram extremamente populares.

Sendo que há muita oferta sobre este tipo de literatura, em que é que o seu livro se diferencia?

A diferença é que eu não sou “conselheira do sono”. Os “conselheiros do sono” são pessoas que nem sempre têm formação de base na área da saúde e que fazem um curso específico, superficial, sobre o sono do bebé. São cursos de uma semana e alguns deles incluem um módulo de marketing sobre o seu próprio negócio — dá para perceber o tipo de curso de que estamos a falar. Depois, são pessoas que utilizam sempre o mesmo método para todos os bebés (e todos os bebés são diferentes). Eu sou psicóloga clínica. Sou especialista na área dos bebés e tenho uma prática de 25 anos em psicologia clínica. Também sou investigadora e trabalho num laboratório de investigação acerca dos comportamentos dos bebés, em Coimbra. Todo este livro, apesar de ter tentado que fosse o mais simples possível em termos de leitura, de maneira a ser acessível a todos os pais, está apoiado nas mais recentes investigações científicas sobre o desenvolvimento do bebé, incluindo o sono.

Pode desenvolver a ideia dos imperativos sociais e económicos, que são colocados acima das necessidades do bebé?

Se repararmos, temos licenças de maternidade muito curtas, algo muito diferente do que acontecia há 100 anos, quando tínhamos as mamãs em casa a cuidar dos filhos. Hoje em dia, as mulheres trabalham, trabalham muito, e ao fim de seis meses têm de voltar ao trabalho. A única coisa que perturba o sono de uma mãe é o sono do bebé. Se um bebé não andar aos 14 meses, não se ouve ninguém dizer “tem de andar, tem de o forçar… ele tem de cair e chorar…”, porque isso não vai perturbar o sono da mamã que tem de trabalhar ao fim de seis meses. De facto, aos seis meses os bebés não estão capazes de dormir as noites todas ou o número de horas que uma mamã precisaria para ir trabalhar no dia seguinte. Estes treinos têm como objetivo pôr os bebés rapidamente a dormir e de forma independente, ou seja, vão contra o seu desenvolvimento porque efetivamente a economia da sociedade precisa que as mães estejam a trabalhar — a única coisa que está a perturbar isso é o sono do bebé.

Que mitos sobre o sono do bebé é que pretende fazer cair por terra?

Não sou eu, é a ciência. Não digo nada de novo, o que eu faço é traduzir muito do que ainda está em artigos científicos, como acontece de resto em todas as áreas do saber — tudo aquilo que está nos artigos científicos demora algum tempo a passar para o conhecimento prático do dia a dia. Os mitos passam por esta questão de os bebés não serem independentes. Os bebés vêm milenarmente programados para serem seres dependentes, eles são o computador mais sofisticado em termos de aprendizagem que temos e, para isso, precisam de ter alguém que cuide deles, que lhes dê afeto, segurança, alimento e conforto. Não são capazes de ser independentes, muito menos de se auto-regularem. Nós em adultos também temos alguma dificuldade, nem sempre as nossas formas de auto-regulação funcionam e, às vezes, temos de fazer terapia. Imagine-se então um bebé de seis meses…

Idealmente, qualquer pai quer que um bebé durma a noite toda. Isso também é um mito, não é?

Sim. Alguns bebés conseguem dormir cinco horas por noite, mas nem todos conseguem chegar a isso. E essas cinco horas/noite são o que nós consideramos uma noite completa para um bebé e não uma noite completa para nós.

Imaginemos crianças dos zero aos seis meses. Quantas horas por dia é que devem dormir?

Em relação ao número de horas que os bebés dormem por dia… ele varia muito e, sobretudo, no primeiro ano de vida. Só no final do primeiro ano de vida é que temos algum tipo de médias. O facto de um bebé dormir mais cinco horas do que outro não significa que seja anormal. De facto, há uma grande variabilidade no número de horas que os bebés precisam de dormir. Só no final do primeiro ano é que as coisas começam a ficar um pouco mais estáveis, sendo que todos começam a precisar mais ou menos de um número de horas semelhantes. Há, portanto, uma grande variabilidade que pode ir até às cinco horas por noite. Os bebés não dormem só de noite. Nos primeiros seis meses temos bebés a dormir normalmente muitas horas, que podem ser 12 mas também 15. Dormem-nas de forma muito repartida ao longo de 24 horas, com vários despertares.

Qual a importância das sestas, isto é, do sono diurno?

O sono diurno regula o sono noturno. É um sono que ativa áreas diferentes do cérebro e que trabalha memórias que não são trabalhadas no sono da noite. A verdade é que quanto melhor for a qualidade do sono das sestas, melhor é a qualidade do sono da noite, o que significa menos despertares antecipados.

Quais são os perigos de um bebé dormir a noite toda, na aceção de um adulto?

Nos mais pequenos há o risco de os bebés poderem parar em termos respiratórios. Podem também não se alimentar o suficiente, uma vez que todos estes despertares estão programados não só em relação ao afeto que os bebés precisam e ao desenvolvimento cerebral, mas também tendo conta as suas necessidades de alimentação — no início, os estômagos dos bebés são muito pequeninos, pelo que precisam de ser amamentados regularmente. Progressivamente, os bebés vão desenvolvendo um padrão neurológico do sono, que se vai aproximar daquilo que é o padrão neurológico do adulto.

É possível explicar, de forma sucinta, as grandes diferença entre o sono do adulto e o sono do bebé?

As grandes diferenças têm que ver com a forma como os bebés adormecem, que é completamente diferente da nossa. Nós adormecemos em sono profundo e eles adormecem em sono leve, o equivalente ao nosso sono REM. Têm, portanto, um sono do qual podem despertar mais facilmente. Depois, entra a questão dos ciclos de sono. Nós fazemos ciclos de sono de hora e meia, com períodos em que estamos suscetíveis a despertar de quatro em quatro horas, enquanto os bebés fazem-no de hora a hora. Essas são as grandes diferenças.

O livro fala muito sobre a questão de os pais terem receio de acarinhar ou socorrer o bebé, com receio de que este ganhe manhas… Porque é que acha que os pais acreditam que os bebés se conseguem acalmar sozinhos?

Os bebés não têm manhas, isso são coisas dos adultos. Os bebés precisam que lhe respondam e isso é a base de um desenvolvimento cerebral saudável. O mimo não estraga: os bebés não passam do prazo de validade. É preciso dar muito mimo para que sejam adultos seguros no futuro — coisa que, no fundo, é o nosso instinto. Isso são projeções que fazemos, manhas têm os adultos e não os bebés. Os bebés não conseguem ter manhas, têm é necessidades e arranjam a melhor forma para as ajudar a fazer conhecer e para tentar satisfazê-las. Algumas dessas necessidades são de conforto e de colo, o que é uma necessidade básica.

O que acontece a um bebé cujo choro não é atendido pelos pais?

O choro é, na realidade, uma das primeira formas de expressão do bebé. O bebé exprime-se essencialmente através do corpo e vai-nos dando alguns sinais, o choro é um deles. Como as competências de comunicação não são as mais elaboradas, eles utilizam o choro para transmitir as suas necessidades. Pode ser fome, pode ser desconforto…

O choro não deveria ser, então, uma coisa que os pais devessem temer?

De maneira nenhuma, muito pelo contrário. O que nós sabemos, e que os estudos acabam por reforçar, é que os bebés precisam de colo. O afeto e o amor é a base para o desenvolvimento cerebral. Ou seja, não há estimulação neuronal sem a base afetiva pelo meio, não é possível uma coisa sem a outra. Chama-se, inclusive, o jogo de dar e receber — o bebé faz e o adulto responde e assim sucessivamente. Isso é a base para criarmos seres humanos seguros e felizes, pelo que não devemos ter medo de todo.

Dando um exemplo prático e real, o que aconselha à mãe de uma bebé de dois meses que não consegue pregar olho durante o dia, apesar do cansaço visível?

Provavelmente o que está a acontecer é que os pais não estão a conseguir captar os sinais de sono do bebé. Normalmente os sinais que vemos por aí espalhados na Internet, como o bebé começar a esfregar os olhos ou a coçar orelha, não estão corretos. São antes sinais de que o bebé está a dizer que já não vão conseguir pô-lo a dormir, porque ele já está inundado em cortisol e, por isso, vai ter muita dificuldade em relaxar o seu sistema nervoso. Provavelmente estamos a deixar passar algum sinal de que o bebé precisa de descansar, que por norma são sinais mais discretos. É por exemplo o facto de o bebé ficar com um olhar mais parado e não reagir de imediato ao nosso estímulo. Esses são os sinais de que o bebé precisa de dormir, a seguir vão vir os sinais de que ele já está em desalinho completo e já não vai conseguir adormecer com tanta facilidade.

Passando esses sinais, do olhar disperso e da lentidão a responder, o que é que os pais devem fazer para tentar adormecer a criança?

Pegar ao colo é importante, porque ajuda a fazer a integração de toda a informação sensorial e ajuda o sistema nervoso a relaxar. O próprio pressionar o corpo ajuda o bebé a relaxar, bem como o ato de embalar e a criação de um ambiente mais zen. Nada de deixar que o bebé durma de dia com luz e com a televisão acesa, e à noite com escuridão e sem estimulação nenhuma — qualquer dia também queremos que eles tirem café, já que eles fazem tudo. Tudo isto dá sinais ao cérebro e não podemos dar sinais que sejam contraditórios.

Porque é que os bebés resistem tanto ao sono?

Os bebés resistem ao sono porque deixamos passar os sinais e eles ficam cheios de cortisol — chama-se o ‘efeito vulcânico’ porque eles ficam muito irritados e não conseguem dormir; é como nós termos um dia cheio de trabalho e, chegada a noite, não conseguimos descansar, o cérebro não consegue desligar, vêm ideias à cabeça, apesar de sabermos que queremos descansar. Os bebés ficam exatamente nesse estado de exaustão e, por outro lado, eles estão a passar pela maior fase de desenvolvimento cerebral e, portanto, dormir é a coisa mais aborrecida à face da terra. Dormir e comer é algo que eles, mais tarde, vão dispensar. Eles querem é coletar dados acerca do mundo e das pessoas. Até ao primeiro ano o trabalho científico deles é coletar dados sobre os objetos, como é que eles se comportam. A partir daí o que lhes interessa são as pessoas. Por isso é que às vezes vemos pessoas a dizer que os bebés estão a desafiá-las… nada disso, eles estão só a reunir dados.

O não dormir não é uma manha, mas antes uma reação química do corpo?

Sim, é o desenvolvimento cerebral a dar-se, quer dizer que o bebé está a fazer o trabalho dele, que é ser um dos melhores cientistas à face da terra. Não dormir é problemático para nós, para eles não.

Que rotinas para adormecer é que aconselha?

O essencial é que a rotina seja o mais zen possível, ou seja, que consigamos diminuir toda a estimulação à volta para que o cérebro não continue a reter informação. É necessário um ambiente mais calmo, mais convidativo ao sono e escuro, bem como retirar o bebé de zonas onde há muita gente a falar ou há uma televisão ligada. Ouvimos dizer que os bebés ou a crianças pequenas têm de ir para a cama muito cedo, caso contrário não criam a rotina de ir para a cama às 21h. Mas sabemos que muitos pais chegam a casa depois das 21h. Se um bebé não tiver mãe e pai suficiente no seu dia, garanto que ele vai acordar de noite para ter mãe e pai. Agora, esse não é o melhor tempo de qualidade para o bebé ou para os pais. O ideal é a família adaptar-se a uma rotina, ou seja, ser consistente todos os dias, de maneira que haja uma certa previsibilidade para que o cérebro saiba que aquilo vai acontecer e para que se vá adaptando. Falo de uma rotina que seja confortável para cada arranjo familiar.

O que é que esta rotina poderá incluir?

Pode incluir o diminuir as luzes, diminuir a estimulação auditiva, o embalo, o cheiro de alfazema no quarto, que é calmante, e a rotina do banho — nos primeiros tempos os bebés são, por vezes, resistentes ao banho e mais para o fim começam a achar piada e o banho transforma-se numa brincadeira, o que pode ser bom em termos de rotina. Pode até ser um momento de qualidade para brincar e pode ajudar o bebé a acalmar antes de ir dormir. Já agora, não se deve confundir locais onde o bebé adormece com locais de grande brincadeira. Se o bebé brinca durante o dia no berço, depois vai ser difícil associar que ir para o berço é sinónimo de dormir.

O que fazer quando um bebé não dorme por nada? E o que é que pode estar aqui em causa?

Tem de ser avaliado, porque há várias situações, nomeadamente patologias que têm de ser avaliadas com mais cuidado e com mais rigor para, depois, saber que medidas tomar.

Quando é que um pai deve ficar preocupado?

Acho que deve seguir o seu instinto e ter em conta caso o bebé mostre grandes sinais de cansaço, nomeadamente muita irritabilidade durante o dia e dificuldades na alimentação. Se isso perturbar as outras áreas do desenvolvimento, então aí é sinal de preocupação.

Já deu a entender que sociedade anda obcecada com o sono do bebé. O que falta mudar?

É preciso aumentar as licença de parentalidade ou, pelo menos, propor que as mães e os pais regressem ao trabalho de uma forma mais adequada àquilo que seria saudável para todos. Até porque entramos noutras questões, que é o facto de as mães deixarem os bebés com seis meses em infantários, que em Portugal não têm a qualidade desejável por uma simples razão — não cumprem o rácio de 1 para 1 no primeiro ano de vida, ou de 3 bebés para 1 nos dois anos. Se conseguíssemos libertar um pouco os pais nesse primeiro ano, isso seria o ideal para termos bebés mais saudáveis e sociedades mais felizes e equilibradas.

 

 

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