Namorar não é ser dono, Namorar é tratar bem

Fevereiro 26, 2020 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Agressões psicológicas são os atos de violência mais frequentes no namoro

Fevereiro 14, 2020 às 3:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da TSF de 14 de fevereiro de 2020.

Mais de metade dos estudantes universitários dizem já ter sido sujeitos a pelo menos um ato de violência no namoro.

Um estudo nacional sobre violência no namoro em contexto universitário revelou que as agressões psicológicas são as mais frequentes, seguidas de atos de violência social, física e sexual.

Os dados recolhidos entre abril de 2017 e janeiro de 2020 contaram com 3.256 participantes e deram a conhecer não só a percentagem de situações de violência como questões relacionadas com crenças sobre as relações sociais de género.

As respostas aos inquiridos deram, por exemplo, a indicação de que 3,6% das mulheres e 15,4% dos homens concordam que o ciúme é uma prova de amor enquanto 2,3% das mulheres e 3,1% dos homens discordam que homens e mulheres devem ter direitos e deveres iguais.

Do total de participantes do estudo que visa caracterizar este flagelo social a partir da ótica dos estudantes universitários, 53,9% relataram que já tinham sido sujeitos a pelo menos um ato de violência no namoro e 35% já o praticaram.

Embora a violência no namoro seja sofrida e praticada por ambos os sexos, são os homens quem mais pratica a violência.

Relativamente ao tipo de violência é destacada a psicológica como a mais prevalente nas relações de namoro, seguida da violência social, da violência física e, por fim, da violência sexual.

Do total de inquiridos, 23,4% das mulheres e 19,6% dos homens já foram criticados, insultados, difamados e acusados sem razão e 20,7% das mulheres e 11,1% dos homens já foram controlados na forma de vestir, no penteado ou na imagem, nos locais frequentados, nas amizades ou companhias.

O estudo revela ainda que 16,4% das mulheres e 9,4% dos homens já foram ameaçados verbalmente ou através de comportamentos que causem medo, como por exemplo gritos, partir objetos ou rasgar a roupa.

Ainda segundo os dados recolhidos, 14,1% das mulheres e 9,7% dos homens já foram impedidos de contactar com a família, amigos e ou vizinhos e 13,9% das mulheres e 10,3% dos homens já foram impedidos de trabalhar, estudar ou de sair sozinhos.

Outro aspeto revelado pelo estudo é de que 10% das mulheres e 7,9% dos homens já foram magoados fisicamente, empurrados, pontapeados ou esbofeteados e 9,5% das mulheres e 5,2% dos homens já foram obrigados a ter comportamentos sexuais não desejados.

Do total de inquiridos, 6,9% das mulheres e 5,5% dos homens já sofreram ameaças de morte, atentados contra a vida ou ferimentos que obrigaram a receber tratamento médico.

Quem praticou e quem sofreu violência no namoro apresenta crenças sobre as relações sociais de género mais conservadoras do que quem não praticou nem sofreu violência.

Os homens são aqueles que apresentam crenças mais conservadoras sobre as relações sociais de género.

O trabalho revela que 12,2% das mulheres e 27,4% dos homens concordam que algumas situações de violência doméstica são provocadas pelas mulheres e 5,9% das mulheres e 11,8% dos homens concordam que as mulheres que se mantêm em relações amorosas violentas são masoquistas.

O Estudo Nacional da Violência no Namoro em Contexto Universitário: Crenças e Práticas é uma iniciativa da Associação Plano i no âmbito do Programa UNi+, financiada pela Secretaria de Estado para a Cidadania e Igualdade (1ª e 2ª edições) e pelo Fundo Social Europeu no âmbito do Programa Operacional Inclusão Social e Emprego (POISE) do Portugal 2020 (3ª edição).

Mais informações no link:

Estudo Nacional – Violência no Namoro

 

Observatório da Violência no Namoro recebeu 74 denuncias em 2019

Fevereiro 14, 2020 às 11:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Diário de Notícias de 14 de fevereiro de 2020.

O Observatório da Violência no Namoro (ObVN) recebeu em 2019 um total de 74 denuncias de situações de violência no namoro vividas diretamente ou testemunhadas por terceiros, o que corresponde a uma média mensal de cerca de 6,2 casos.

Apesar de o número de denúncias ter decrescido relativamente a 2018, o observatório considera que os casos reportados apresentaram maior gravidade. Em 2018 foram recebidas 128 denúncias de vítimas e de testemunhas de violência.

De acordo com a esta plataforma de denuncia informal, 38 denuncias foram efetuadas por ex-vítimas, 28 por testemunhas e oito por atuais vítimas.

Em 77% dos casos os agressores são namorados atuais das vítimas, em 12,2% dos casos as vítimas foram alvo de ameaças de morte, 13,5% das vítimas necessitaram de receber tratamento médico e 1,4% foram hospitalizadas em consequência da vitimação sofrida.

O ciúme (70,3%) foi a principal causa da violência seguida de problemas mentais do agressor (40,5%).

Mas, os dados revelam que os casos de violência surgiram também na sequência de problemas familiares do agressor (25,7%), da conduta da vítima (23%), da influência dos amigos (18,9%), do consumo de álcool ou de outras substâncias por parte do agressor (14,9%) e de dificuldades económicas de quem agrediu (13,5%).

O observatório revela ainda que 71 denúncias foram efetuadas por mulheres e três por homens.

Os crimes ocorreram em 51,4% dos casos no Porto e em 10% das situações nos distritos de Lisboa e Aveiro.

Segundo o estudo, 95,9% das vítimas são do sexo feminino e 91,9% dos agressores são do sexo masculino.

A média de idades das vítimas é de 21 anos e a dos agressores é de 23 anos.

Ainda segundo o observatório, 94,6% das vítimas são de nacionalidade portuguesa, 87,8% são heterossexuais e 66,2% são estudantes.

O local de maior incidência da violência é a casa (62,2%), seguido da rua (48,6%), da escola/faculdade (36,5%) e em 29,7% dos casos a violência foi praticada online.

“São Valentim que nos perdoe”: violência no namoro está em exposição

Fevereiro 14, 2020 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Galeria da exposição

Notícia do Público de 7 de fevereiro de 2020.

São lenços dos ex-namorados e querem alertar para o problema da violência no namoro. Ainda que visibilidade deste problema tenha aumentado, Daniel Cotrim considera que continua a haver por parte das vítimas “uma desvalorização”.

Inês Duarte de Freitas

Esta é uma notícia sobre namoro, mas de amor tem pouco. “Onde há violência, não há romance” diz o cartaz da exposição “São Valentim que nos perdoe”, que quer chamar a atenção para a violência no namoro. Até 16 de Fevereiro, os lenços dos ex-namorados podem ser vistos na loja Fnac do Centro Comercial Colombo, em Lisboa.

Um estudo da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR) publicado em 2019 conclui que 58% dos jovens que estiveram numa relação de intimidade reportaram situação de violência. Há ainda outro número alarmante: 67% aceita como natural pelo menos uma forma de violência na intimidade.

Para assinalar a inauguração da exposição, a Fox Life convidou um painel de oradores para debater a violência no namoro. Nas paredes da sala, os lenços dos ex-namorados captam a atenção de todos. “Se para ti amor rima com dor, andor”, pode ler-se num dos quadros. As 20 peças, inspiradas nos lenços dos namorados típicos do Minho, foram bordados pelo projecto de inclusão social “A Avó veio trabalhar”.

O jornalista Paulo Farinha modera o debate. Ao seu lado estão o psicólogo Daniel Cotrim, responsável pela violência doméstica e de género na APAV; o humorista Diogo Faro, fundador do movimento #nãoénormal; a apresentadora Inês Lopes Gonçalves, a ilustradora Clara Silva (autora de um dos lenços dos ex-namorados) e o psicólogo Eduardo Sá, especialista em família.

“Um atentado à vida de forma tentada”

Daniel Cotrim começa por alertar que o namoro “é bom e recomenda-se”. No entanto, desde 2013, as queixas de violência no namoro aumentaram 25%. “Não se trata de um aumento de criminalidade, mas da visibilidade”, explica o psicólogo da APAV.

Ainda que a visibilidade tenha aumentado, Daniel Cotrim considera que continua a haver, por parte das vítimas, “uma desvalorização”. Clara Silva, ilustradora que assina como Clara Não, confidencia que viveu uma relação abusiva e garante que as vítimas “desculpam o próprio agressor”. Em Agosto de 2019, publicou o seu primeiro livro Miga, esquece lá isso com ilustrações sobre o amor-próprio.

O problema está também no que os jovens entendem por violência: “Controlo de redes sociais, das amizades, da forma de vestir, não é entendido como violência”, sublinha Daniel Cotrim. A apresentadora Inês Lopes Gonçalves aponta que “a comunicação social não trata a violência no namoro” e sugere os espaços de opinião como uma ferramenta importante para dizer que estes comportamentos “não são normais”.

“Quem violenta faz um atentado à vida de forma tentada”, analisa Eduardo Sá. O professor da Universidade de Coimbra alerta que “todas as pessoas que não sabem o que fazer à agressividade são muito mais doentes do que podem parecer e precisam de ajuda”.

Os pais e as escolas

A educação das crianças pode ter um papel fundamental na prevenção da violência no namoro. “A agressividade é um património da humanidade, tão natural como a sede. As crianças precisam de andar à bulha”, defende Eduardo Sá.

Inês Lopes Gonçalves tem dois gémeos com quatro anos e acredita que “mais do que possa dizer, o melhor é dar o exemplo”. Eduardo Sá acredita que a educação dada às crianças hoje “cria panelas de pressão” e incita os pais a deixarem as crianças brincarem na rua e “andarem à bulha”. “A agressividade é património da humanidade, ‘é tão natural como a sede’”, diz.

Na violência no namoro, os pais desempenham um papel fundamental. “Os pais andam mais distraídos do que deviam”, alerta Eduardo Sá, acrescentando que “quando os pais percebem que há uma mudança no comportamento, devem tornar esse assunto urgente”.

O psicólogo da APAV, Daniel Cotrim, lamenta que não existam “procedimentos claros de como tratar a violência na escola”. Diogo Faro, que fundou movimento #nãoénormal, relata que recebe muitas mensagens de raparigas, nas redes sociais, que são vítimas de violência dentro da escola, e relatam que os professores não acreditam nelas. “Há um julgamento constante da vítima”, lamenta o humorista.

“A escola é um espaço de aprendizagem da violência” quando devia “ser um espaço seguro”, sublinha Daniel Cotrim. O psicólogo da APAV conta que “ninguém quer ter a responsabilidade” pela violência no namoro.

O jornalista Paulo Farinha assinala que se as mensagens dos lenços dos ex-namorados “influenciarem alguém, já terá valido a pena”. Com o Dia dos Namorados à porta, já na próxima sexta-feira dia 14, a exposição “São Valentim que nos perdoe” quer deixar bem claro que “o amor não pode rimar com dor”.

Texto editado por Bárbara Wong

Seminário Violência no namoro: e se a escola do namoro formasse profissionais em violência? – 14 de fevereiro em Coimbra

Janeiro 27, 2020 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações no link:

https://www.inmlcf.mj.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=414:violencia-namoro-2020&catid=84&Itemid=324

Seminário Banda Larga: Igualdade e Direitos Sexuais, 12 de junho no Porto

Junho 6, 2019 às 8:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Adolescência : Risco social e saúde mental – 2º Encontro do NHACJR do Hospital Fernando da Fonseca – 24 de maio

Maio 9, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Para mais informações contactar: ufe@hff.min-saude.pt

 

“Eu sei onde estás e quero explicações” — para alguns jovens, a violência no namoro é vivida online

Abril 6, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 25 de março de 2019.

Nuno Rafael Gomes (texto) e Miguel Cabral (ilustração)

Os jovens denunciam mais, mas ainda lhes é difícil sair de relações abusivas. Quando os telemóveis e as redes sociais entram nas relações, descodificam-se as desconfianças através de partilhas de passwords. É preciso “falar destes assuntos na escola”, avisam especialistas.

Bárbara (nome fictício) chegou a Portugal há pouco mais de meio ano. Saiu do Brasil para estudar e trabalhar no Porto, onde o seu namorado de há quatro anos — também ele brasileiro — se tinha estabelecido “poucos meses antes” da sua chegada. Ela tem 23 anos; ele, 40. Descreve-o como “uma pessoa descontrolada”. Já Maria terminou uma relação depois de o então namorado lhe esconder o telemóvel “para ler as mensagens”. “Também queria controlar o que eu vestia e isolou-me dos meus amigos.” Para Carla (nome fictício), alguns dias do Verão de 2017 foram “bastante complicados”. Depois de “acabar” com o namorado, recebeu a mensagem: “Não te esqueças que sei onde trabalhas.” Deixou de colocar a localização nos seus posts.

Estes são apenas três casos que reflectem algumas conclusões apontadas por dois estudos apresentados em Fevereiro: o da associação Plano i, Violência no Namoro em Contexto Universitário: Crenças e Práticas, e o da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), Violência no Namoro 2019. Há um aumento na taxa de violência psicológica entre os jovens, que cada vez mais adoptam “crenças conservadoras”. Também há uma maior sensibilização para o tema. A ameaça via telemóvel (com mensagens como “eu sei onde estás e quero explicações”) ou nas redes sociais preocupa não só as duas organizações, como também a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV).

Mas vamos por partes. Para Bárbara, “a violência verbal sempre existiu”. “Já existiu violência física e ele já me prendeu num ‘mata-leão’ [golpe de estrangulamento das artes marciais japonesas] até eu desmaiar”, conta. Isso foi no Brasil. Numa viagem a Paris, agrediu-a na rua. “Chutou-me e eu estava jogada no chão. Ninguém fez nada.” Prefere o anonimato porque tem medo que se descubra. Ainda vivem juntos. “Não tenho para onde ir. Não tenho como pagar renda sozinha, tenho de pagar propinas também.” Para Bárbara, a solução seria “morar noutra cidade ou arranjar um emprego longe” para fugir ao companheiro “controlador” que não gosta que ela tenha “uma educação, uma profissão, amigos”. “A situação está mais tranquila porque estou poucas vezes em casa, por causa do trabalho e da faculdade”, acrescenta. Ainda assim, já foi ameaçada pelo companheiro por recusar ter relações sexuais.

Situações como a de Bárbara não são desconhecidas de organizações portuguesas que lidam com a violência doméstica — e não só. “Estes processos são difíceis e não são imediatos, mas têm solução”, garante Daniel Cotrim. O assessor técnico da direcção da APAV, responsável pelas áreas da violência doméstica e de género e da igualdade, ressalva que é importante dizer que não se consegue interromper “o ciclo da violência” rapidamente.

“O essencial é pedir ajuda à APAV no sentido de podermos informar e apoiar as vítimas”, sublinha. O número de denúncias por jovens vítimas de violência no namoro “tem aumentado”. Não quer dizer “que tenha havido um aumento generalizado de situações ou que há um fenómeno”. Mas “as pessoas estão mais informadas e sensibilizadas, tendo um maior conhecimento sobre isto”.

Opinião semelhante tem Mafalda Ferreira, criminóloga e coordenadora executiva do programa UNi+, da associação Plano i, vocacionado para a prevenção da violência no namoro em contexto universitário: “Até os casos recentes podem dar a sensação de que há mais casos; o que se passa é que o problema é mais visível.” E o mesmo observa a ILGA — Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual, Trans e Intersexo: “Em termos proporcionais, é igual. Tem mais que ver com quem denuncia”, adianta Sara Malcato, coordenadora de serviços e psicóloga clínica da associação.

“Desligava a Internet só para não falar com ele”

Dos 2683 universitários auscultados na investigação da Plano i, mais de metade confessaram ter sofrido “pelo menos um acto de violência no namoro”: 54,5% das mulheres e 55,3% dos homens inquiridos disseram ter sido vítimas de algum tipo de violência — e 34,5% assumiram ter praticado pelo menos um acto de violência.

No estudo da UMAR deste ano lê-se que a “principal forma de violência no namoro” é a psicológica. Em quase cinco mil inquiridos, 34% apontam esta como a tipologia de violência mais presente nas suas relações — e isto representa um aumento de 19% face aos dados de 2018. No mesmo estudo lê-se que “58% dos jovens que namoram ou namoraram dizem já ter sofrido uma qualquer forma de violência por parte do companheiro e 67% acham isso natural”.

“Há formas de violência que são mais facilmente identificáveis do que outras. A violência verbal e emocional que é perpetrada online tende a ser minimizada e até desconhecida”, conta Mafalda Ferreira. Foi o que aconteceu com Carla, estudante de 21 anos de Viana do Castelo, numa relação que manteve durante quase dois anos. Conheceu o ex-namorado “no ano de caloira”, aos 18 anos. “Cheguei ao Porto e não conhecia ninguém do curso. Ele é de lá e também do meu curso. Foi um dos primeiros amigos que tive e fez-me sentir acolhida”, recorda. Rapidamente começaram a namorar. “Nos primeiros meses fui muito feliz. Depois, começou a ficar estranho.” Se Carla não lhe respondesse às mensagens, “é porque estava com outros”. E mais mensagens (e desconfianças) chegavam.

“Às vezes desligava a Internet só para não falar com ele. No dia a seguir, as minhas amigas lá lhe diziam que não lhe respondia porque tinha adormecido”, explica. “Ou então deixava de ‘postar’ fotos com a minha localização no Instagram para não receber perguntas dele.” Recebia-o em casa e discutiam, deixou de estar tanto com os amigos e, a certa altura, começou a acreditar no que ele lhe ia dizendo: “Ninguém gosta de ti para além de mim.” Quando Carla tentou acabar a relação, sentiu-se emocionalmente chantageada e repensou a decisão: “Dizia-me que, se acabasse com ele, desistia da universidade.” Mais tarde, terminaria “de vez”. “Aí ele disse: ‘Não te esqueças que eu sei onde trabalhas. Um dia apareço lá.’” Nunca apareceu no bar onde trabalha no Verão, “felizmente”. Mas Carla ainda receia represálias, daí não assumir a sua identidade real.

No caso de Maria Figueiredo, copywriter de 26 anos de Vila Nova de Gaia, o telemóvel também teve o seu peso no controlo por parte do ex-namorado. “Tinha 18 anos na altura. Lembro-me que acabei a relação depois do Paredes de Coura de 2012.” Durante o festival, o então namorado roubou-lhe o telemóvel “para ver as mensagens”. Foi a gota de água.

Mas havia muito que sentia que tudo o que fazia era “diminuído” e “desvalorizado”. Sentia-se “quase perseguida”. E chegou a dar-lhe a “password do Facebook”. “Insistiu que devia ter e eu dei”, conta.

Mafalda Ferreira, da Plano i, adverte: “A partilha das passwords, que surge como algo romantizado, não passa de uma prova de desconfiança.” O entendimento deste pedido como “acto de amor” dificulta, na sua opinião, “o facto de a vítima reconhecer a sua relação como violenta”. Daniel Cotrim acredita que há soluções — para adolescentes e pré-adolescentes. “É importante falar destes assuntos nas escolas sem os culpabilizar”, defende, apontando ainda que, “nos casais em que isto acontece, este controlo e falta de privacidade são vistos quase como naturais”.

Falando pela associação, realça: “A APAV defende que se deve reduzir [nas horas de ensino de] Matemática e Português para trabalhar a questão da igualdade de género, cidadania e inteligência emocional.” Isto porque os adolescentes “estão na fase de identificação de grupos de pares e há o medo de ficarem sozinhos”; assim, “estes rapazes e raparigas demoram muito tempo a denunciar porque não querem sair daquele grupo”. Quanto às redes sociais e aos telemóveis, Mafalda Ferreira esclarece que, de acordo com o estudo, “neste tipo de violência” é comum haver ao mesmo tempo “duas vítimas e dois agressores”: cada elemento do casal pode assumir ambos os papéis em momentos diferentes.

O problema da “masculinidade tóxica”

No estudo da Plano i, há percentagens significativas que apontam para crenças “bastante conservadoras”. “As respostas que obtivemos reflectem o que a pessoa pensa, sofre ou pratica, analisamos crenças e práticas”, começa por explicar Mafalda Ferreira. “Assim, 12,7% das mulheres e 27,9% dos homens concordam que algumas situações são provocadas pelas mulheres.” Mas há mais: a mesma percentagem de inquiridos acredita que “meninos e meninas devem ser educados de forma diferente” ou que “homens e mulheres devem ter deveres e direitos diferentes”. Muitas vezes, tanto o agressor como a vítima concordam com estas ideias. Daniel Cotrim corrobora: “Há uma herança transgeracional. Os pais já viviam questões de violência, por exemplo.”

A coordenadora executiva do UNi+ e o assessor técnico da APAV indicam que, quando o rapaz é o agressor, as tipologias dominantes de violência são “a sexual e a física”. No caso das raparigas, “é mais psicológica e verbal”. “Para os rapazes, não é normal serem vítimas de raparigas. Tem a ver com as raízes das questões da masculinidade”, diz Daniel Cotrim.

Os rapazes têm dificuldade em assumir que são vítimas de violência no namoro — sejam eles hetero ou homossexuais. “Por um lado, tem que ver com a dita masculinidade, de existir um papel de género que levanta sentimentos de vergonha”, explica o psicólogo e técnico da APAV. “Depois, há a questão dos pares. O pânico de o grupo saber.” Para além disso, de acordo com um estudo de 2017 da Universidade do Minho, a maioria dos homens vítimas de violência doméstica acha que é inútil apresentar queixa. “Ainda há um pensamento associado à forma com que as instituições como a polícia, os tribunais e organizações como a APAV os vão ver”, explica. “É preciso dizer que as organizações estão preparadas para trabalhar com eles”, ressalva.

A questão da “masculinidade tóxica” também se observa quando se fala de violência no namoro em relações homossexuais, principalmente “em casais de homens”, afirma Sara Malcato. “A comunidade não está fechada numa redoma. Também há pessoas LGBTI transfóbicas e homofóbicas.” Isso tem que ver “com um grande dilema entre aquilo que a pessoa crê e o que sente”. E “há um aumento crescente” de crenças mais conservadoras devido “à própria internalização da homofobia”.

Em 2018, segundo dados enviados pela ILGA ao P3, foram atendidas 409 pessoas no serviço de apoio à vítima da associação — o grupo dos “homens cis gay” (pessoas cujo género é o mesmo que o designado no nascimento que têm sexo com outros homens) foi o que mais recorreu a esta ajuda (75 utentes). A maior parte das queixas refere-se a casos de violência familiar, mas 38 pessoas queixaram-se de terem sido vítimas de assédio ou de violência na intimidade.

Daniel Cotrim diz que não existem muitas campanhas em redor da violência em casais LGBTI. Contudo, há casos a chegar à APAV. Apesar de “não existirem grandes diferenças em relação à violência heteronormativa”, há situações concretas e específicas: “A questão da ameaça de outing”, de expor a orientação sexual ainda não publicamente assumida de alguém, é uma delas.

Maria diz faltarem “campanhas com maior impacto”, mas ressalva: “Já se faz alguma coisa.” Exemplo disso é a campanha #NamorarMemeASério, lançada pela secretaria de Estado para a Cidadania e a Igualdade que contou com a participação de algumas figuras públicas. Ou então a revista GQ que na capa da edição de Março ordenou: “Se agride uma mulher, não compre a GQ.” Já no Porto foi aprovado recentemente, tal como já existe noutros locais, o Plano Municipal de Prevenção e Combate à Violência Doméstica e de Género

“A violência isola” — e “com mais prevalência nos casais do mesmo sexo”, realça Sara Malcato. A rejeição pode vir “dos pais, da família e dos amigos”. Quando não isola, esconde-se atrás de publicações nas redes sociais, seja qual for a orientação sexual. “Para os meus amigos, estava tudo bem”, diz Carla. Hoje, tem uma “relação saudável” com um rapaz que lhe dá espaço. “Agora falo disto tranquilamente. Na altura, foi muito complicado. Só a minha mãe sabia de tudo”, recorda.

Do caso de Bárbara, pouca gente sabe: “Contei a uma colega e à minha psicóloga.” Continua a publicar piadas e selfies no Instagram — para quem a vê pelas redes sociais está tudo bem. Não apresentou queixa, tal como as restantes entrevistadas. “Pensei sempre: ‘Logo, logo me livro dessa situação.’”. Às vítimas de violência no namoro e/ou doméstica, aconselha o “amor-próprio” que tem vindo a reconquistar. E a procurarem ajuda — mas Bárbara ainda não o fez.

 

 

Campanha #NamorarMemeASério pela eliminação da violência no namoro

Março 3, 2019 às 1:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações no link:

https://www.cig.gov.pt/2019/02/campanha-pela-eliminacao-da-violencia-no-namoro-namorarmemeaserio/

 

Será que sou vítima de violência no namoro? Seminário em Coimbra – 14 de fevereiro

Janeiro 31, 2019 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Mais informações no link:

https://www.cnpdpcj.gov.pt/seminario-sobre-a-violencia-do-namoro.aspx?fbclid=IwAR2E6WdLPaWVyBDZle6RQgrXNAkrKC0txKMrrPEWs0WhdGm9-H64mk7ugS0

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