Brincadeiras e linguagem

Agosto 16, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Cenkerdem/Getty Images

Artigo de opinião de Ana Rita Gonzalez publicado no Público de 28 de julho de 2019.

Cada criança é diferente e irá despertar para o poder da comunicação ao seu ritmo. No entanto, há sinais de alerta aos quais deve estar atento.

Brincadeiras?!… Sim! Brincadeiras porque o brincar é uma ferramenta de aprendizagem essencial no desenvolvimento global e de competências cognitivas que estão diretamente ligadas com a comunicação e a relação com os outros. Brincar cria um contexto relaxado e securizante, permitindo aos pais orientar, modelar e ensinar.

Desde que nasce, o bebé vai descobrir várias formas de comunicar com os pais e com quem o rodeia, desde o choro ao sorriso, chegando por fim às palavras.

Ao longo dos primeiros meses, os momentos de interação com os pais vão aumentando e vão para além dos até então estabelecidos e regulados pelo choro. O bebé já descobriu que quando chora recebe atenção, ou seja, se faz barulho, os pais aproximam-se. E é aqui que reside a descoberta do poder da comunicação. Vão então aprimorando as diferentes formas a utilizar para modificar o ambiente à sua volta, sempre com base neste princípio de ação-reação. Surgem as primeiras conversas, horas de filme gasto pelos pais para registar estas preciosidades! Pais e bebé num diálogo que só eles entendem. O bebé palra, os pais respondem, o bebé palra de novo, os pais imitam. O bebé sorri, os pais, derretidos, sorriem também.

Estes momentos são fundamentais para o estabelecer de uma relação que se quer segura e para a aquisição de uma regra básica de comunicação, o pegar a vez. Aquilo que, mais tarde, vai permitir à criança participar em conversas, sabendo como iniciar, manter e terminar diálogos, dando espaço aos outros participantes para comunicarem também.

Antes de conseguir falar, a criança tem então de adquirir uma série de requisitos cognitivos para ser capaz de aprender conceitos linguísticos — por exemplo, aprender que palavras não são coisas, não são os objetos, são, sim, representações dos objetos.

Inicialmente, entre os nove e os 12 meses, as crianças utilizam uma determinada palavra numa determinada situação e não em todas as situações em que esse conceito aparece. Isto acontece porque ainda não têm a noção de que a mesma palavra tem o mesmo significado em diferentes contextos. Por exemplo: a criança diz “cão” quando, na sua varanda, vê o cão do vizinho do lado, mas não o diz quando vê um cão junto a si, na rua. Nesta fase, observando a criança a brincar e o progressivo aumento da complexidade das suas brincadeiras, vamos vendo o desenvolvimento da linguagem a acontecer. A criança vai explorando os brinquedos típicos de causa-efeito, em que carrega e acendem luzes, puxa e faz um som, roda e aparece um boneco. Mantendo as palavras soltas ainda muito dependentes do contexto, dirigindo-as sempre com o olhar para os outros que estão por perto. A comunicação verbal vai-se desenvolvendo e tornando-se mais intencional e consistente.

Entre os 17 e os 19 meses, a criança faz um jogo simbólico centrado em si. Faz de conta que está a comer com um prato e uma colher, pega numa maçã de brincar e finge que a come. Nesta fase, a linguagem verbal está a desenvolver-se, aumenta o vocabulário, e as palavras são usadas para vários contextos, para fazer referência ao aqui e agora. A criança pode utilizar a palavra “papa” para sopa, carne, iogurte, etc.

Antes dos 20 meses, a criança já dirige o seu jogo simbólico a um brinquedo ou mesmo a outra pessoa, dá com a colher a sopa à boneca, ou até penteia com um pente de brincar os cabelos da sua mãe. Começamos a ouvir a combinação de palavras e a criança começa a fazer referência a objetos ou pessoas que não estão presentes naquele instante.

Perto dos dois anos, com as brincadeiras de faz de conta, brincar às casinhas, aos pais e às mães, ouvimos frases curtas e simples, que descrevem o que estão a fazer. Mais tarde, vêm as representações de situações vividas ou observadas noutros contextos. Nesta fase, a criança tende essencialmente a brincar junto às outras crianças, mas desenvolvendo as suas próprias ideias com os seus brinquedos (jogo paralelo). No entanto, começa pontualmente a surgir um jogo mais interativo, pode estar num grupo de crianças em que desenvolve atividades semelhantes, mas não necessariamente seguindo as mesmas instruções. Começamos, assim, a ouvir a utilização da linguagem para analisar e descrever situações.

Com o desenvolver das brincadeiras vamos ouvindo as primeiras perguntas: “O quê?”, “quem?”, “onde?”. Aos três anos, as brincadeiras de faz de conta continuam, agora mais complexas, com vários acontecimentos encadeados. Já brincam entre si, de forma mais organizada para atingir um fim comum (numa cozinha, a preparar uma refeição para servir aos amigos ou aos pais). A criança já percebe uma sequência de acontecimentos, começa a ter noção de acontecimentos presentes e passados.

Mais tarde, vêm brincadeiras mais elaboradas, em que a criança percebe que pode brincar com objetos cada vez menos realistas porque a sua capacidade de representação simbólica está cada vez mais desenvolvida (com peças de Lego representa copos, pratos, etc.)

Ao ler esta descrição do desenvolvimento da linguagem, deve estar a reconhecer o seu filho, o seu neto e outras crianças com quem convive. Cada criança é diferente e irá despertar para o poder da comunicação ao seu ritmo. No entanto, há sinais de alerta aos quais deve estar atento.

Se o seu filho de três ou quatro meses não emite sons, não palra, não sorri, ou não olha para si, ou se está perto dos dois anos e não diz palavras nem parece ter interesse em brincar e/ou comunicar, deve expor essa preocupação ao médico pediatra, que o poderá orientar e encaminhar para um terapeuta da fala ou outro especialista, caso verifique essa necessidade.

Terapeuta da Fala do CADIn – Neurodesenvolvimento e Inclusão

Há mais mundo quando as histórias são contadas em voz alta

Março 16, 2019 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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snews

Texto e imagem do site Educare de 1 de março de 2019.

As crianças entram no texto e viajam pelo mundo. Aprendem e questionam. E a imaginação, a curiosidade, o vocabulário, e a aprendizagem saem reforçados. Ler em voz alta aos mais pequenos estará em vias de extinção?

Sara R. Oliveira

Há novidades do outro lado do Atlântico que revelam que a leitura em voz alta para os mais novos está a aumentar desde 2014. Nos Estados Unidos da América, há cada vez mais crianças, entre os seis e os oito anos, que escutam histórias em voz alta pelo menos cinco dias por semana. É um momento especial em família e as boas notícias estão no estudo da Scholastic “Kids & Family Reading Report – The Rise of Read-Aloud”. Mais de 80% dos pais e filhos inquiridos confessaram apreciar bastante essa experiência e esta partilha em família.

Susana Almeida é mãe de dois filhos e blogger (sersupermaeeumatreta). Os seus filhos têm cinco e três anos e todas as noites há histórias para contar lá em casa. Muito cedo, habituaram-se a olhar para um livro como um brinquedo. Ler em voz alta tem várias virtudes e benefícios para as crianças. “Além de fomentar o contacto com os livros, estimula a imaginação, aumenta e diversifica o vocabulário e desperta a curiosidade para mais leituras”, refere a blogger ao EDUCARE.PT.

“A leitura deve ser incentivada”, defende. Susana Almeida não tem dúvidas. Ler em voz alta para os seus filhos “é um momento único de partilha, de conversa e de descoberta de mundos novos”. “A imaginação de uma criança é um terreno fértil, mas precisa de ser regado. Em famílias em que não existem hábitos de leitura enraizados, a escola tem um papel muito importante de levar os livros até às crianças e de fazer esse intercâmbio entre a escola e a casa. Nem todas as crianças vão ser futuros leitores, mas o papel dos pais e da escola é tentar que o sejam”, sublinha.

Em seu entender, não será apenas a leitura em voz alta que está em vias de extinção, a leitura no geral também não respira saúde. “Lemos cada vez menos, seja jornais, revistas ou livros em papel, que têm vindo a ser substituídos pelo que vamos lendo superficialmente na Internet. E acredito que os pais que não têm hábitos de leitura dificilmente vão criar esse hábito nos filhos”.

Mikaela Öven, especialista em parentalidade positiva, vê imensos benefícios na leitura em voz alta aos mais pequenos, seja na aprendizagem, seja no desenvolvimento da linguagem, no raciocínio, entre outras capacidades e competências. “É um excelente momento de conexão e de possibilidade de aprendizagens”, afirma ao EDUCARE.PT. Mas tudo depende dos livros que se escolhem. Uma coisa é ler “A Bela Adormecida”, outra coisa é ler “O Monstro das Cores”. “Depende também se nos limitarmos apenas ao ler, ou se também conversamos sobre o que estamos a ler”, diz.

“Dependendo dos livros que escolhemos é um excelente momento para elaborar e refletir sobre questões emocionais, sobre medos, sobre relações, sobre consentimento, sobre igualdade de género, sobre imensas coisas”. Os benefícios, na sua opinião, dependem muito do género de livro que se escolhe para ler e acredita que uma escolha consciente de livros é muito importante.

Para a especialista em parentalidade positiva, contar as histórias dos livros em voz alta para os mais pequenos não é uma prática em extinção. “Não tenho essa ideia. Acho que as pessoas são muito mais conscientes em relação às suas escolhas de livros infantis. Pelo menos quem se interessa pela parentalidade consciente”. Pais e escolas não devem esquecer que essa prática estimula a aprendizagem. “Certamente! Nas escolas acho que se deveria principalmente estimular a reflexão e a crítica em relação àquilo que estamos a ler. Sejam livros ou coisas online”, refere.

Imaginar, comentar, duvidar
Os benefícios de ler em voz alta para quem está a crescer e a aprender são variados. A criança entra no texto e viaja pelo mundo. Aprende e questiona. “O momento da leitura de uma história, em família ou na escola, é um momento muito especial, uma oportunidade de conexão e de comunicação entre o adulto e a criança”, afirma Tânia Reis, terapeuta da fala. “A literatura infantil desenvolve a imaginação, promove a criatividade, facilita o entendimento do mundo e constitui uma excelente forma de potenciar o desenvolvimento linguístico, e não só, da criança”, realça.

Explorar uma história é conhecer mais mundo. Conhecer animais, plantas, flores, números, letras. “A exploração de histórias permite ampliar o conhecimento do mundo! A leitura de histórias permite à criança imaginar, iniciar um pensamento crítico e reflexivo, fazer relações com os diferentes conhecimentos, comentar, indagar, duvidar, criar uma opinião”.

Na linguagem oral, a leitura em voz alta e a exploração de histórias facilitam o contacto, a aquisição e a exploração de um maior número de palavras e, frequentemente, de palavras que são menos usuais no dia-a-dia da criança. Ouvir livros em voz alta também aumenta o vocabulário. Para Tânia Reis, “a leitura de histórias por um adulto possibilita o contacto com estruturas sintáticas mais complexas e menos frequentes (construção de frases), contribuindo para o aumento compreensão e expressão oral”.

A melodia da leitura produz efeitos. “Ouvir um adulto a ler permite à criança observar os padrões prosódicos (entoação) que terão uma importância extrema, futuramente, na compreensão leitora e na pontuação. Explorar em conjunto a leitura permite à criança fazer inferências, previsões, gerar conhecimento, atribuir significado, fulcrais para a literacia. Porque ler é muito mais do que transformar as letras em sons”, repara.

Ver como um adulto explora um livro permite à criança aceder a pré-competências de leitura. A terapeuta da fala exemplifica. Não é apenas o folhear de um livro, é igualmente “perceber que existem símbolos visuais que são transformados em palavras (descodificação), entender a ordem da leitura e da escrita (esquerda para a direita)”. “Com os livros contribuímos para a pré-história leitora da criança”, realça, lembrando o psicólogo russo Leo Vigotsky que, no século passado, escreveu: “A aprendizagem escolar nunca parte do zero. Toda a aprendizagem da criança na escola tem uma pré-história”.

O estudo mencionado no texto é o seguinte:

Kids & Family Reading Report – The Rise of Read-Aloud

O que separa as crianças ricas das pobres? 35 milhões de palavras

Abril 26, 2018 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do https://observador.pt/ de 10 de abril de 2018.

Crianças com maior nível socioeconómico ouvem 48 milhões de palavras, em média, enquanto as que vivem em famílias mais humildes ouvem apenas 13 milhões.

A diferença entre as classes sociais influencia a capacidade intelectual de cada um. De acordo com o estudo “Diferenças significativas na experiência diária das crianças”, as crianças cujas famílias têm mais possibilidades económicas ouvem, em média 35 milhões de palavras a mais do que as crianças que crescem no seio de famílias humildes.

O estudo encontrou uma realidade preocupante: as crianças com mais posses a nível monetário ouviram, aos quatro anos, uma média de 48 milhões de palavras enquanto que os outros meninos da mesma idade ouviram apenas 13 milhões.

Os autores daquele que ficou conhecido como “A Catástrofe Precoce”, Betty Hart e Todd Riesly, analisaram 126 famílias durante quatro anos. Com a ajuda de vários alunos, que passaram uma hora a cada 15 dias com as famílias, conseguiram fazer a contagem do número de palavras que os pais diziam aos filhos pequenos.

Segundo Hart e Riesley, todos os pais agiram de forma correta. Contudo apresentaram algumas diferenças. Durante estas observações, os investigadores conseguiram perceber que os pais com mais posses incitavam as crianças a desenvolver as suas capacidades, utilizando uma maior variedade de palavras. Por sua vez, os pais com mais dificuldades a nível financeiro utilizavam um conjunto de palavras que faziam parte de um campo mais limitado.

A pedagoga Ana Roa disse ao jornal El Mundo que “a aprendizagem da linguagem é constantemente influenciada pela capacidade e pela experiência dos que nos rodeiam”. Contudo, o ambiente não é apenas crucial no desenvolvimento da linguagem. O estudo revela que também o QI (Quoficiente de Inteligência) das crianças é substancialmente diferente entre estratos sociais. Em média, crianças de famílias com menos posses apresentaram um QI de 75, enquanto as outras tinham um QI de 119.

Estas conclusões levam os investigadores a falar sobre um “círculo contínuo de desigualdade económica”.

 

Estudo relaciona atrasos na linguagem a brinquedos eletrónicos

Abril 5, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Os impactos do contato com a tecnologia na primeira infância são diversos e variam de criança para criança e, principalmente, de contexto para contexto. A recomendação da Sociedade Brasileira é que nenhum contato seja permitido até os dois anos, principalmente durante as refeições ou antes de dormir.

Um novo estudo, realizado pela pesquisa Anna V. Sosa e publicado em 2016 no periódico JAMA Pediatrics, associa a relação direta entre a hiperexposição aos brinquedos eletrônicos, como tablets, jogos de celular e computadores, a atrasos de aprendizado e linguagem.

A partir da observação das formas de brincar da criança e dos níveis de interação com os pais, a pesquisa investiga como a relação entre esses dois elementos influenciam a aquisição de linguagem da criança. O estudo aponta que o ambiente de linguagem em que a criança está inserida na Primeira Infância pode influenciar a aquisição da sua fala, além de afetar a leitura e o futuro sucesso acadêmico.

A pesquisa foi realizada em 2016, com 26 famílias e bebês de 10 a 18 meses. Os pesquisadores concluem que a interação com brinquedos eletrônicos esteve associada a redução na qualidade e quantidade de linguagem recebida pela criança, quando comparados com livros e brinquedos tradicionais. Por esse motivo, o estudo conclui que não recomendável incentivar o contato com jogos eletrônicos no momento em que a criança está desenvolvendo a linguagem.

O texto ressalta também a importância do incentivo à leitura nesta fase do desenvolvimento da criança. “Os pais devem ser encorajados a ler para seus filhos e engajá-los em atividades que proporcionem interações reais entre pais e filhos”. A pesquisa chama a atenção ainda para o bombardeio excessivo de publicidade dirigida não só às crianças mas também aos pais, que podem ser facilmente iludidos por brinquedos autointitulados educativos que prometem incrementar o desenvolvimento”.

Confira um resumo dos principais resultados alcançados:

  • Para promover o desenvolvimento da linguagem, os pais podem investir tempo para ler para os filhos e brincar junto, olho no olho.
  • Brincar com livros ou brinquedos tradicionais é melhor do que brincar com eletrônicos, no sentido de promover um nível qualitativo de comunicação entre pais e filhos.
  • Quando estão brincado com brinquedos eletrônicos, as crianças vocalizam menos, quando comparado ao modo que elas verbalizam e interagem quando estão em contato com brinquedos tradicionais.

Intitulado “Association of the Type of Toy Used During Play With the Quantity and Quality of Parent-Infant Communication” (Em uma tradução livre, “Associação entre o tipo de brinquedo utilizado durante a brincadeira com a quantidade e qualidade da comunicação entre pais e filhos”), o estudo está disponível online e em inglês, para quem quiser se aprofundar na discussão, clique aqui para ler.

 

Catraquinha, de 13 de fevereiro de 2017

A leitura na primeira infância é fundamental – Entrevista com Evelio Cabrejo Parra

Setembro 8, 2015 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista publicada no site http://revistaescola.abril.com.br

revista escola abril

Elisa Meirelles (elisa.meirelles@fvc.org.br)

Pesquisador colombiano radicado na França diz que a leitura na primeira infância é fundamental para a construção do sujeito e explica o que e como ler para crianças desde os primeiros meses de vida.

A maior companheira do ser humano, quem sabe a única capaz de acompanhá-lo por toda a vida. Essa é a definição de linguagem elaborada por Evelio Cabrejo Parra, pesquisador colombiano radicado na França, doutor em Linguística e mestre em Filosofia e Psicologia.

Quando nascemos, a voz é uma velha conhecida: a partir do quarto mês de gestação, a audição do feto passa a ser desenvolvida e ele começa a distinguir vários aspectos acústicos.

Ao ler histórias para os pequenos, damos a eles a chance de encontrarem nelas ecos de sentimentos que ainda não conseguem explicar, embora os experimentem com frequência. E assim começa para cada um de nós um mergulho num universo particular.

O mundo em que crianças e livros se encontram é o campo de investigação a que Parra, vice-diretor do Departamento de Formação e Pesquisas Linguísticas da Universidade Paris Diderot, na França, se dedica há anos. Nesta entrevista, ele discorre sobre a revolução que a literatura é capaz de fazer na vida da meninada desde os primeiros meses de vida e explica como a linguagem e o pensamento estão intimamente conectados.

Suas pesquisas abordam a importância de os bebês escutarem para a construção da linguagem e da relação deles com as pessoas que os cercam. Como é essa relação?

EVELIO CABREJO PARRA

Quando estudamos os pequenos, é preciso entender as competências naturais que carregam consigo ao nascer, dentre elas, a faculdade da linguagem. O bebê vem ao mundo com uma sensibilidade muito grande à voz humana. Ao ouvir, tenta construir significados. A voz se forma assim. Eu falo, por exemplo, porque escutei os meus pais quando ainda estava no berço e comecei a roubar algumas coisas da voz deles para construir a minha própria.

Por que ler para as crianças contribui para o processo de aquisição da linguagem?

CABREJO PARRA

Se o adulto fala com elas usando unicamente a linguagem cotidiana, dando ênfase a expressões como “Venha aqui”, “Pegue isso” e “Não toque ali”, estará somente dando ordens, sem deixar espaço para o processo de escutar, que não acontece nessas situações. É durante a leitura que os bebês têm a oportunidade de ouvir e esse tempo é fundamental. Eles se colocam em posição de escuta e podem construir significados à sua maneira: observam o rosto do leitor e a direção do olhar dele e vão aprendendo o que é um livro. Ao mesmo tempo, já possuem um pequeno léxico usado no dia a dia – os verbos ser e estar, por exemplo – e conseguem identificá-lo no texto lido. Descobrem, então, que algo que está neles também está na obra. Assim, começam a compreender os textos de maneira prazerosa, tomam gosto pela leitura e entendem o espaço cultural dos livros no mundo. Na primeira infância, o hábito de ler deve ser integrado às competências naturais que as crianças têm. Assim, elas constroem significados para as coisas.

Por que é importante trabalhar com diversos tipos de leitura logo na primeira infância?

CABREJO PARRA

O falar cotidiano é pobre. Devemos dar aos bebês a chance de desfrutar ao máximo as possibilidades dos textos poéticos e literários. Nossa língua é uma fonte inesgotável de produção de frases e de encontro de palavras, coisas que só são descobertas pelos pequenos quando temos o hábito de ler muitas histórias para eles. A partir de então, a linguagem começa a se transformar em uma companheira para toda a vida, possivelmente a única que estará sempre à disposição para falar, escutar, sonhar, fantasiar. Por meio dela, é possível colocar dentro de si harmonias e significados diferentes, elaborando um capital psicológico que poderá ser acessado em muitos momentos. Temos dois nascimentos: um biológico e outro psíquico, e a linguagem é a matriz simbólica da construção do sujeito.

Como se dá a relação afetiva entre as crianças e as histórias?

CABREJO PARRA

Os bebês fazem projeções por meio do que escutam: é assim que as obras entram em diálogo com a psique. Elas permitem que, lentamente, eles comecem a entender o que sentem, enviam ecos de questões que ainda não entendem. Na infância, sofremos com conflitos horríveis e fortes, que não entendemos e os adultos ignoram: os ciúmes são imensuráveis, a cólera é tremenda e até perigosa, e a tristeza, terrível. Embora essas sensações estejam incorporadas quando temos pouca idade, elas ainda não estão centradas culturalmente. Então, não temos como pensar nelas.

Que características as obras devem ter para proporcionar esse laço de afetividade?

CABREJO PARRA

Os bons livros para bebês são aqueles que falam com eles, e não sobre eles. É importante, por exemplo, que haja consonância entre a obra e o que estão vivendo. No período de ambivalência, que vai dos 4 meses ao final do primeiro ano, os pequenos tendem a ter um comportamento nervoso. Nesses momentos, podem ser lidas histórias que falem da questão por meio de metáforas. Assim, eles encontrarão uma representação de sua própria vida interior. O texto vai ajudá-los a se sentir compreendidos. Outra recomendação é não trabalhar com obras muito simples. Melhor optar por aquelas bem construídas, que não se deixam interpretar definitivamente e podem ser retomadas sempre que se quiser viajar de um jeito diferente.

Na escola, como organizar uma seleção de obras para ler para a turma?

CABREJO PARRA

Não é interessante escolher os livros apenas se baseando em critérios adultos. O ideal é deixar que os pequenos também decidam. Por volta de 1 ano, eles mesmos já são capazes de eleger os livros que lhes interessam, primeiramente observando as cores da capa e outras características que mais chamam a atenção e, em segundo lugar, considerando a história em si. Sugiro ao professor a seguinte experiência: organizar uma seleção de bons títulos, colocar todos apoiados em uma parede, em frente ao grupo, e explicar que vai contar a história que cada um escolher. No fim de um programa de leitura estruturado, de três ou quatro semanas, é possível ver cada um segurando um livro, esperando que a história seja lida em sala.

Muitas crianças querem ouvir sempre a mesma história. Isso é um problema?

CABREJO PARRA

Não. Quando elas gostam de um texto, é comum pedirem que ele seja lido um número incontável de vezes. Saber por que essa identificação ocorre é difícil, mas o mais importante é compreender e considerar que os pequenos necessitam encontrar novamente algo que está dentro de si e imaginá-lo por uma vez mais. É um processo de internalização.

Que atitudes um adulto deve ter ao ler uma história?

CABREJO PARRA

A primeira coisa é ter disponibilidade para amar as obras destinadadas às crianças. Isso pode parecer um pouco romântico, no entanto, durante a leitura de um adulto para uma criança, é preciso haver cumplicidade. Se você não gostar da história lida, não adianta nada. As pessoas generosas são capazes de fazer uma espécie de regressão: permitem que o bebê que foram um dia no passado fale com o outro que está ali diante delas. Isso torna o contato mais profundo entre eles. Também é importante não atormentá-los fornecendo um resumo do texto logo no princípio ou explicar palavra por palavra lida. Se a criança comenta a leitura, é interessante que o leitor faça uma festa, comemore, para que ela se dê conta de que está sendo ouvida de verdade.

Por que é interessante os pequenos manusearem os livros mesmo havendo o risco de rasgá-los?

CABREJO PARRA

Os bebês buscam as obras para tentar lê-las, e não para destruí-las. Eles se interessam ao ver os adultos folheando-as e querem imitar. Os que têm pouca ou nenhuma experiência nessa tarefa rasgam alguns exemplares ou os colocam na boca por não saberem manuseá-los. Apesar disso, aos poucos, podem se transformar em pessoas que vão utilizar gestos compatíveis com o comportamento leitor. O livro é um objeto que necessita do contato com o ser humano para se transformar em um objeto de cultura. Ao mesmo tempo, uma das funções da leitura na primeira infância é permitir que o bebê ultrapasse o sujeito físico e alcance o cultural.

O que acontece quando as crianças chegam à escola sem antes terem tido algum contato com a leitura?

CABREJO PARRA

Se nunca pegaram um livro nas mãos nem viram um exemplar em casa, elas simplesmente não sabem do que se trata nem como aquilo deve ser usado, para que serve. Ao tentar abri-lo, é comum o educador dizer “Não é assim” e “Não faça isso” por várias vezes. O pequeno percebe, então, que vários colegas sabem o que fazer com o objeto, e ele não. Com esse cenário, o livro pode começar a se transformar em alvo de humilhação e angústia, e ele acaba preferindo fechá-lo. Isso é muito grave porque esses são os meninos e as meninas que muitas vezes acabam abandonando a escola sem aprender a ler e escrever.

Como evitar problemas como esse e fomentar a leitura desde cedo?

CABREJO PARRA

O caso da Colômbia, por exemplo, é muito interessante. O governo tem dado prioridade à primeira infância, o correspondente aos quatro primeiros anos da vida escolar, e dedica bastante foco à leitura. Acredito que deveria haver um movimento como esse em todos os países. Isso ajudaria a criar um espaço para os bebês nas bibliotecas públicas, algo muito importante, por exemplo, para as famílias que não dispõem de condições financeiras para comprar livros.

 

 

 

A importância do brincar na aquisição da linguagem – Workshop

Abril 4, 2015 às 1:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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brincar

Mais informações em: http://www.cadin.net/ws-brincar-linguagem/

Falar com o bebé ajuda-o a fazer amigos

Janeiro 21, 2015 às 10:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da Pais & Filhos de 14 de janeiro de 2015.

o estudo citado na notícia é o seguinte:

Listen up! Speech is for thinking during infancy

Mother and Baby kissing and hugging. Happy Family

A importância de falar com os bebés desde o nascimento foi recentemente confirmada por investigadores norte-americanos, os quais garantem que quanto mais habituadas as crianças estiverem a ouvir conversas – mesmo que inicialmente não consigam responder – melhores ferramentas sociais possuíram quando forem expostas ao mundo para além da família. Ou seja, farão amigos mais facilmente e também serão capazes de distinguir melhor quem realmente gosta delas.

Os cientistas das universidades de Illinois e de Nova Iorque acreditam que os bebés não só adquirem um vocabulário mais rico, como “ficam apetrechados com capacidades psicológicas, cognitivas e sociais que formam a base do seu processo de aprendizagem”, tal como afirma Athena Vouloumanos, autora principal do artigo publicado no jornal científico “Trends in Cognitive Sciences”. Isto porque a atenção dada a quem fala com elas é também, e em paralelo, usada para as crianças reconhecerem os pormenores e situações que formam o seu mundo.

 

 

 

 

Gestos ajudam a enriquecer vocabulário de crianças

Julho 15, 2013 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do site Ciência Hoje de 2 de Julho de 2013.

Um estudo norte-americano demonstrou que designar objectos facilita a aprendizagem

e a associação de palavras nas crianças, ciência Hojeindependentemente da categoria sócio-profissional dos pais.

O estudo, recentemente publicado na PNAS, por uma equipa de investigação da Universidade de Chicago avaliou 50 famílias norte-americanas e indica que apontar um objecto enquanto se fala dele, permite que as crianças retenham mais facilmente o seu nome.

A técnica permite que os mais pequenos retenham mais palavras antes de entrar para a escola – o que lhes confere alguma vantagem sobre outras crianças. Segundo a equipa, as capacidades individuais e o temperamento não são o único factor a ter em conta na aquisição do léxico.

Para a investigação, os cientistas filmaram a interacção quotidiana entre as mães e as suas crianças, a partir dos 14 meses. A qualidade das informações fornecidas pelas progenitoras aos seus filhos foi avaliada por um painel de 218 adultos que visualizaram os vídeos. A quantidade de palavras utilizada foi mensurada em número de palavras por minuto.

No entanto, a qualidade não esteve relacionada com a quantidade, já que o facto de pronunciarem várias palavras não significa que tivessem valor informativo para as crianças. O status social dos pais também não tem nada a ver com a clareza da interacção.

A aquisição de vocabulário produz-se por acumulação e selecção da informação – a criança aglutina o conjunto das situações, mas vai triando os sinais que percebe (sons, gestos ou olhares), de forma a conservar aquilo o que lhe interessa.

Os estudos em curso poderão oferecer ferramentas que facilitem a aprendizagem das crianças.

 


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