Crianças do pré-escolar passam mais de hora e meia por dia em frente a ecrãs

Julho 2, 2020 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Expresso de 19 de junho de 2020.

Foram avaliados os hábitos de 8.430 crianças, com idades compreendidas entre os três e os 10 anos, a residir nas cidades de Coimbra, de Lisboa e do Porto

Um estudo concluiu que as crianças do ensino pré-escolar (até aos cinco anos) passam, em média, mais de uma hora e meia (154 minutos) por dia em frente à televisão e outros dispositivos, anunciou esta sexta-feira a Universidade de Coimbra (UC).

Publicado na revista científica BMC Public Health, o estudo, intitulado “Social inequalities in traditional and emerging screen devices among Portuguese children: a cross-sectional study”, foi realizado por uma equipa de investigadores do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde (CIAS), da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC (FCTUC).

O estudo, refere a UC, teve como objetivo avaliar o tempo de ecrã das crianças portuguesas em diferentes equipamentos eletrónicos — os tradicionais (como a televisão, o computador e as consolas de jogos) e os modernos, incluindo os ‘tablets’ e os ‘smartphones’ –, bem como “determinar as diferenças no uso de acordo com o sexo e a idade das crianças e a posição socioeconómica das famílias”.

Foram avaliados os hábitos de 8.430 crianças, com idades compreendidas entre os três e os 10 anos, a residir nas cidades de Coimbra, de Lisboa e do Porto.

Os dados foram recolhidos em 118 escolas públicas e privadas, e as taxas de participação foram de 58% em Coimbra, 67% em Lisboa e 60% no Porto.

De acordo com os resultados do estudo, nas crianças mais velhas o tempo em frente ao ecrã é maior, sobretudo devido ao maior tempo gasto em dispositivos eletrónicos, como computadores, videojogos e ‘tablets’: aproximadamente 201 minutos por dia.

“Concluímos que a maior parte das crianças, principalmente entre os meninos, excede as recomendações de tempo de ecrã indicadas pela Organização Mundial da Saúde e pela Associação Americana de Pediatria, em que o tempo de ecrã deve ser limitado a uma hora (em crianças até aos cinco anos) ou a duas horas por dia (em crianças acima dos seis anos)”, afirma, citada pela UC, Daniela Rodrigues, primeira autora do artigo agora publicado.

Embora a televisão continue a ser o equipamento mais utilizado, “o uso de ‘tablets’ está generalizado e o tempo gasto neste equipamento é elevado, incluindo em crianças com três anos de idade”, nota a investigadora.

O tempo de ecrã “é sempre mais elevado em crianças de famílias de menor posição socioeconómica, independentemente da idade, sexo, ou do tipo de equipamento”, sublinha ainda Daniela Rodrigues.

De acordo com a investigadora, tendo em conta que o tempo de ecrã está associado a um impacto negativo na saúde das crianças, por exemplo, menor tempo e qualidade do sono, maior atraso no desenvolvimento cognitivo e da linguagem, excesso de peso, etc., estes resultados “indicam que é necessário um maior controlo por parte dos pais no acesso que as crianças têm aos equipamentos eletrónicos”.

Este panorama é “ainda mais preocupante numa altura em que, devido à pandemia de covid-19, as crianças estão obrigadas a passar mais tempo em casa, e precisam de recorrer a alguns destes equipamentos para aceder à telescola”, adverte.

“É fundamental identificar os subgrupos de risco e identificar como cada dispositivo é usado de acordo com a idade, para permitir futuras intervenções apropriadas”, sustenta a investigadora da FCTUC.

Os pais, conclui Daniela Rodrigues, “devem ter em mente que as crianças passam a maior parte do tempo a ver televisão, mas os dispositivos móveis estão a tornar-se extremamente populares a partir de tenra idade”.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Social inequalities in traditional and emerging screen devices among Portuguese children: a cross-sectional study

O treino do sono em bebés e crianças ou a panaceia dos tempos modernos: o que precisa de saber?

Junho 17, 2020 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de Joana Martins publicado no Sapo Lifestyle de 15 de junho de 2020.

A maioria dos métodos de treino de sono assenta na extinção súbita ou gradual do efeito do choro e nenhum método deveria ser utilizado antes dos 4 a 6 meses de idade.

Neste artigo a pediatra Joana Martins explica que o problema do sono dos bebés e crianças tem um limiar muito variável e dependente de cada contexto familiar.

Quem assiste às preocupações das famílias atuais, percebe que existe uma preocupação crescente com o sono. E se há tema controverso, é este. Mas quando é que começam habitualmente as preocupações com o sono dos bebés? Sabemos que os bebés pequeninos, pela necessidade de se alimentarem em ritmo contínuo, independentemente de ser dia ou noite, têm um sono entrecortado. Claro que desencadeiam uma forte privação de sono nos pais, no entanto, tudo isto é percecionado com uma certa naturalidade.

No entanto, a partir das 8 semanas de vida começa a expectativa de que os bebés durmam toda a noite seguida. O impacto desta expectativa parece aumentar à medida que o bebé cresce, atingindo o seu apogeu em torno dos 6 meses de idade. É justamente o momento de transição para o sono autónomo num quarto independente dos pais. A maioria dos livros de puericultura e saúde infantil salienta a importância do condicionamento da aprendizagem, de se ser firme durante esta etapa.

Os pediatras, neste momento, têm igualmente a sua palavra, ao sugerir que uma falência de transição nesta etapa desencadeará uma hecatombe aos 9 meses de idade. Os livros sobre métodos de treino de sono existem, proliferam como cogumelos e têm um incrível sucesso. Na mesma medida, a existência crescente de terapeutas do sono (cujas credenciais são difíceis, se não impossíveis, de validar) sublinha exatamente esta necessidade: queremos os nossos bebés a adormecer autonomamente, no seu quarto e queremos que este comportamento seja adquirido rápida e eficazmente, idealmente em torno dos 6 meses de idade. Para que fique claro, não sou apologista dos métodos de treino do sono. Cada vez mais a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda plasticidade na idade de saída do quarto dos pais, estendendo esta recomendação até aos 12 meses de idade. Por isso, não há formalmente pressa nenhuma em pôr uma criança a dormir sozinha e mal, quando dorme acompanhada e bem.

A maioria dos métodos de treino de sono assenta na extinção súbita ou gradual do efeito do choro e nenhum método deveria ser utilizado antes dos 4 a 6 meses de idade. O que devemos compreender é que as crianças choram porque procuram efetivamente uma resposta. Esta resposta poderá ser manipulativa, exigente e difícil para os pais. Claro que compreendemos isto. Mas será que os pais estarão preparados para deixar chorar? Estarão preparados para o peso desta decisão?

Lá porque a criança é pequena e não tem memória para o evento, não quer dizer que o treino de sono não deixe a sua marca. E sobretudo, tenhamos algum bom senso, ninguém, nem mesmo um adulto, deveria adormecer a chorar (esta frase é de uma autora que admiro muito, Constança Cordeiro Ferreira).

Há muita coisa que se pode e deve tentar fazer para ajudar uma criança e a sua família a procurar as suas soluções, sem necessariamente passar pelo condicionamento. Há rotinas de família que podem e devem ajustar-se, há estratégias para impedir que os pais tenham que tomar decisões drásticas às 3 da madrugada. Se ainda assim estiver disposto a iniciar um processo de treino formal do sono, gostaria de explicar os diferentes grupos de métodos existentes, qual o seu fundamento e o que é que, na prática, acontece.

Vamos deixar chorar?

Se o método contempla apenas e só deixar a criança no berço e sair do quarto, deixando-a chorar pelo tempo necessário para que ela se acalme sozinha e adormeça, então estamos a falar de um método de condicionamento por extinção. A criança não tornará a chorar porque desistiu na vinda de alguém. Este método de condicionamento por extinção não é recomendado. Nunca.

Se o método permite ir periodicamente junto da criança para confirmar se está tudo bem e tentar acalmá-la pela presença do adulto, sendo que os intervalos entre as visitas e os tempos das visitas vão sendo respetivamente maiores e mais pequenos, falamos de um método de extinção gradual, que caracteriza os métodos de Ferber e Estivill.

Os relatos de utilização dos métodos de extinção gradual apontam para cerca de dois ou três dias até a criança se habituar a adormecer sozinha e deixar de chorar, no entanto, o que vem descrito do ponto de vista da eficácia destes métodos é que levam entre 3 a 4 semanas até ter resultados.

O método da cadeira ou “camping out” é outra possibilidade: o bebé é colocado no berço e o cuidador fica na proximidade, presencialmente, sentado numa cadeira. Quando o bebé chora, pode consolá-lo com a voz, com uma cantiga, até com o toque, mas não deve retirá-lo do berço. À medida que o tempo passa, a criança acaba por se habituar à presença simples do cuidador, tornando possível o afastamento progressivo da cadeira onde o cuidador se encontra, até conseguir sair do quarto. Este método é considerado bastante difícil, já que o cuidador tem que presenciar o choro da criança, o tempo todo, sem ser possível recuar. Porque cada vez que ceder ao choro da criança, só vai reforçar a ansiedade de separação.

Quer os métodos de extinção gradual, quer o método da cadeira, são frequentemente citados e estudados de forma a perceber se terão, ou não, algum impacto no desenvolvimento da criança no futuro.

Os estudos realizados (que são poucos e com metodologias pouco sérias) parecem não mostrar nenhuma alteração cognitiva, emocional ou de vinculação passados seis anos da ocorrência do treino do sono (levantando a questão: e depois dos seis anos?).

O maior benefício destas abordagens parece ser a melhoria imediata do bem-estar dos cuidadores, com redução da privação de sono e melhoria dos sintomas depressivos. Este efeito benéfico nos cuidadores parece manter-se até dois anos depois da ocorrência do treino de sono (o que permite ter uma ideia do peso da privação de sono na função familiar). A Academia Americana de Pediatria não emitiu nenhum parecer desfavorável à utilização destes métodos para o treino de sono dos bebés.

Tendo em conta o atual conhecimento científico sobre o assunto, o problema do sono dos bebés e crianças tem um limiar muito variável e dependente de cada contexto familiar. Não podemos ignorar nem a pressão social para ter as crianças a dormirem sozinhas no quarto, nem o impacto da privação de sono nos pais e como tal, a ansiedade que este assunto desencadeia. Talvez a forma mais ponderada seja desaconselhar formalmente o treino de sono abaixo dos 4-6 meses de idade, tentar implementar no seio familiar as medidas comportamentais de reajustamento de rotinas e reservar a utilização de um método formal de treino de sono após discussão com o médico assistente.

Um artigo da médica Joana Martins, pediatra na Unidade de Cuidados Intensivos de Pediatria no Hospital D. Estefânia, Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central.

Como evitar os transtornos de sono e falta de vitamina D no seu filho durante a quarentena

Abril 1, 2020 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Observador de 25 de março de 2020.

O isolamento social exigido para fazer frente à pandemia de COVID-19 pode levar as crianças a desenvolver problemas de sono, alimentares ou por falta de vitamina D. Médico espanhol ensina a evitá-los.

Cada vez mais países da Europa estão a decretar a quarentena obrigatória para fazer frente à pandemia de COVID-19. Espanha está há mais de uma semana em suspenso na esperança de travar o avanço da infeção. Mas o isolamento social pode provocar outras problemas de saúde a que se deve estar atento, afirma o médico espanhol Manuel Antonio Fernández em entrevista ao ABC. E as crianças também podem sofrer com a medida.

Problemas de sono. De acordo com o neuropediatra espanhol, o isolamento social por longos períodos de tempo pode provocar transtornos do sono, nomeadamente insónias — um problema que, segundo o especialista, afeta uma em cada três crianças. Manuel Antonio Fernández argumenta que, se dormirem pouco, mal ou em horários diferentes dos habituais, as crianças podem também desenvolver mudanças de personalidade ou irritabilidade.

O melhor, acrescenta o médico, é não alterar os horários e hábitos de sono: “Isso não significa que precisa de acordar o seu filho todos os dias à mesma hora, mas tem de ser constante na hora aproximada de acordar e dormir, desde que durma as horas necessárias e não acabe com o sono completamente revertido”, acrescentou ao ABC.

Enquanto dormia – o Miguel Pinheiro ou a Filomena Martins preparam para si um guia resumido do que se passa, logo de manhã pelas 9h00, todos os dias úteis.

Cada vez mais países da Europa estão a decretar a quarentena obrigatória para fazer frente à pandemia de COVID-19. Espanha está há mais de uma semana em suspenso na esperança de travar o avanço da infeção. Mas o isolamento social pode provocar outras problemas de saúde a que se deve estar atento, afirma o médico espanhol Manuel Antonio Fernández em entrevista ao ABC. E as crianças também podem sofrer com a medida.

Problemas de sono. De acordo com o neuropediatra espanhol, o isolamento social por longos períodos de tempo pode provocar transtornos do sono, nomeadamente insónias — um problema que, segundo o especialista, afeta uma em cada três crianças. Manuel Antonio Fernández argumenta que, se dormirem pouco, mal ou em horários diferentes dos habituais, as crianças podem também desenvolver mudanças de personalidade ou irritabilidade.

O melhor, acrescenta o médico, é não alterar os horários e hábitos de sono: “Isso não significa que precisa de acordar o seu filho todos os dias à mesma hora, mas tem de ser constante na hora aproximada de acordar e dormir, desde que durma as horas necessárias e não acabe com o sono completamente revertido”, acrescentou ao ABC.

Transtornos alimentares. É outro aspeto a que deve estar atento, segundo o especialista entrevistado pelo jornal espanhol. O aborrecimento que brota do isolamento social pode fazer com que as crianças procurem conforto na comida. O resultado? Come demais e, muitas vezes, de forma pouco saudável.

Por isso, Manuel Antonio Fernández recomenda que os pais evitem que os filhos consumam “hidratos de carbono e açúcares” em excesso. E que pratiquem desporto com ele: “Reserve um tempo para brincar com o seu filho à moda antiga. Sugira jogos nos quais precisem de correr e pular. E coloquem desafios a serem alcançados”, sugeriu.

Se estes conselhos não forem seguidos, o neuropediatra afirma que as crianças podem desenvolver problemas de obesidade e sedentarismo: “Comer muito e mal, ter um sono de má qualidade e exercitar pouco são os três pilares da obesidade infantil”, avisa o especialista espanhol. E tudo se agrava quando se está trancado em casa por haver pouco espaço para exercícios físicos mais intensos.

Falta de vitamina D. É um problema que, tal como os transtornos alimentares, também podem afetar adultos. O médico espanhol explicou ao ABC que a baixa exposição solar pode provocar falta de vitamina D, importante para a saúde dos ossos. “Não deixe o seu filho passar o dia todo no quarto trancado, sem ver o sol. Encorajo-vos a procurarem momentos para expo-lo à luz” numa janela ou varanda, aconselhou Manuel Antonio Fernández.

Não são pesadelos, são terrores noturnos

Fevereiro 10, 2020 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Joana Martins publicado no Sapolifestyle

Os terrores noturnos afetam entre 30 a 40% das crianças, podendo iniciar-se em torno de um ano de idade. As explicações são da médica Joana Martins, especialista em Pediatria.

Os distúrbios do sono afetam, no seu conjunto, até 50% das crianças. É uma percentagem elevada e tem custos diretos para a saúde dos mais pequenos: sobretudo a sonolência diurna, que como bem sabemos, vai manifestar-se como irritabilidade, problemas comportamentais, dificuldades de aprendizagem e, consequentemente, mau desempenho escolar.

No entanto, os distúrbios do sono dos mais pequenos também têm custos indiretos, sobretudo na extrema privação de sono que desencadeiam nos pais e como tal, maior irritabilidade e pior desempenho. Como sabem, a privação de sono é um motivo reconhecido como causa de acidentes rodoviários. O impacto real da saúde do sono das crianças é como tal, desconhecido. Mas não pode ser ignorado.

Os distúrbios do sono nas crianças são portanto frequentes:

– Desde o ressonar ou a apneia obstrutiva do sono – durante o sono, porque a criança está deitada e relaxada, verifica-se uma alteração da arquitetura dos tecidos da garganta que leva ao seu colapso parcial, fazendo com que a criança ronque ou total, gerando períodos de pausa respiratória, que levam a múltiplos despertares durante o sono

– Passando pelo clássico chichi na cama, que pode afetar uma parcela significadtiva das crianças até aos 5 anos sem contudo constituir um problema de saúde.

– Sem esquecer as parasónias (assim designadas em conjunto), que incluem sonambulismo, o falar durante a noite, o ranger os dentes e terrores noturnos.

– E por fim, não posso deixar de referir o grande grupo dos problemas comportamentais, como a insónia comportamental clássica, o atraso de fase do sono e a insónia motivada pela dependência de dispositivos eletrónicos.

Há, como podem verificar apenas pelos magros exemplos citados, todo um mundo de patologia de sono para desvendar: alguns problemas são mais frequentes, como os terrores noturnos, outros bastante mais raros, como o síndrome de pernas inquietas.

Por hoje, escolhi abordar um tema simples da primeira infância – os terrores noturnos. Para mais informações sobre outros distúrbios comuns do sono, pode consultar este link.

O que são os terrores noturnos?

Os terrores noturnos afetam entre 30 a 40% das crianças, podendo iniciar-se em torno de um ano de idade, embora classicamente ocorram entre os dois e cinco anos. Cada episódio tem uma série de características em comum: ocorre tipicamente na primeira metade da noite, precisamente quando as crianças se encontram em sono profundo (apesar de tudo, os terrores noturnos também poderão acontecer durante as sestas).

Trata-se de um despertar súbito: a criança acorda a gritar, os pais encontram-na sentada na cama, agitada, transpirada, com o coração a bater muito rápido, com um comportamento agitado, que parece combater que lhe toquem ou que a tentem consolar. Por vezes é difícil controlar o episódio em si, mas costuma ser benéfico que fiquem perto da criança, lhe falem com uma voz tranquila mas assertiva e se for necessário acendam as luzes! O que vai acontecer é simples: a criança, serenada, vai voltar a adormecer e na manhã seguinte – pasme-se (!) – não se lembra rigorosamente de nada. Para os pais é que é mais complicado, porque depois de uma sessão terrorífica de berros, quem é que volta a adormecer?

A príncipio, parece quase um pesadelo, mas há características diferentes: os pesadelos afetam crianças mais velhas, frequentemente acima dos 5 anos (idade escolar, ao invés da idade pré-escolar) e ocorrem na segunda metade da noite.

Os pesadelos ocorrem na fase de sono REM – Rapid Eye Movement – uma fase de sono ativo, em que a criança tem o corpo habitualmente todo relaxado, pálpebras fechadas, mas os globos oculares não páram; esta fase de sono tende a ocorrer a cada 60-90 minutos e é responsável pelos sonhos.

À medida que a noite avança, os períodos de sono REM são mais prolongados, daí que tendencialmente tenhamos mais sonhos durante a madrugada. Os pesadelos são sonhos angustiantes e as crianças despertam do pesadelo. No entanto, ao contrário dos terrores noturnos, as crianças conseguem recordar que despertaram assustadas, podendo, obviamente, não ter uma memória muito coerente da narrativa do sonho (até nós, os adultos, temos dificuldades em recordarmos-nos dos sonhos…). E na manhã seguinte, lembram-se que despertaram com um pesadelo.

E que problemas podem trazer os terrores nocturnos?

Na prática, aqueles que referi no início do texto: sonolência excessiva no período diurno, irritabilidade, problemas de comportamento… No entanto, há alguns sinais de alarme que devem ser tomados em conta: se episódios frequentes na mesma noite, se episódios de despertar associados a movimentos rítmicos da face ou dos membros, então será conveniente fazer uma avaliação mais detalhada. Precisamente na fase de sono profundo, em que as ondas elétricas cerebrais são mais lentas, podem ocorrer outros distúrbios que merecem uma avaliação cuidada.

Os terrores noturnos acabam por se extinguir naturalmente à medida que as crianças crescem, mas existe um estudo muito interessante que associa a prevalência de terrores noturnos na primeira infância com o desenvolvimento de sonambolismo em idade escolar, avaliando grupos familiares específicos.

Ambos os distúrbios ocorrem nos pequenos despertares durante o sono profundo, ou de ritmo lento, que é mais frequente no início da noite. Nas crianças mais velhas, o sonambolismo pode ser responsável por falar durante o sono (um fenómeno independente em si), o levantar-se da cama, o desempenho de atividades frequentemente estapafúrdias, mas por vezes arriscadas, como abrir portas e janelas, praticamente sem memória para o evento na manhã seguinte.

Globalmente, cerca de 30% das crianças com terrores noturnos podem vir a manifestar sonambolismo. Mas esta percentagem é maior quando um dos pais tem história pessoal de sonambolismo (47%) ou ambos os pais (60%).

Como é que se trata um problema que, no fundo, é fruto das características genéticas de uma família? Raramente os terrores noturnos carecem de medidas farmacológicas dirigidas. Como pediatra tento sobretudo tranquilizar os pais e contextualizar a situação de cada criança, face à história familiar. Por fim, não deixo nunca de recomendar as medidas comportamentais de higiene do sono, embora a sua eficácia possa ser limitada nestes casos. No entanto, para situações mais complicadas, que careçam de apoio mais especializado (múltiplos despertares na mesma noite, presença de movimentos anómalos), faz todo o sentido consultar um especialista do sono.

Um artigo da médica Joana Martins, especialista em Pediatria.

Privação do sono: Socorro, o meu filho não me deixa dormir, o que fazer?

Fevereiro 3, 2020 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Público de 24 de janeiro de 2020.

A chegada de um bebé é um momento de alegria na família, mas também de mudanças nas rotinas, incluindo a do sono.

Diana Vilas Boas

Exaustos. Desorganizados. Irritados. Frustrados. Desesperados. Perdidos. Assim são os pais quando privados do sono. A chegada de um bebé é um momento de alegria na família, mas também de mudanças nas rotinas, incluindo a do sono. Os bebés choram, têm o sono desregulado e, por consequência, os pais tentam acalmá-los, adormecê-los e também descansar. A privação do sono tem consequências? Sim, “pode desencadear depressões, divórcios, desemprego e, em alguns casos, pais arrependidos de serem pais”, enumera Carolina Vale Quaresma, coach familiar. A neurologista Teresa Paiva desdramatiza e declara que se não estiver doente, o bebé dorme bem. O problema pode estar nos pais, alerta.

É preciso educar os bebés para dormir? ​Teresa Paiva, neurologista e especialista do sono, defende que o acto de dormir não precisa de ser educado. “O grande problema é quando o bebé acorda e choraminga e os pais vão logo a correr, seja para lhe dar de mamar, dar a chupeta ou o levar para a cama deles e o bebé habitua-se”, diz, criticando também a ideia que todos os bebés têm, por natureza, problemas para adormecer.

Constança Cordeiro Ferreira, terapeuta no Centro do Bebé, em Lisboa, considera que na maior parte dos casos não existem problemas com o sono dos mais pequenos. O problema é que os pais estão exaustos. “É muito importante haver um trabalho de adaptabilidade com os pais para a realidade de que vão ter de mudar alguns hábitos, para garantirmos que não vão estar privados de sono. O sono tem de ser uma prioridade para todos”, defende.

Hábitos como adormecer o filho ao colo, embalado ou na “maminha” levam à criação de uma dependência que, mais cedo ou mais tarde, é difícil de combater. Por isso, é importante habituar a criança a adormecer sem ajudas externas, aconselha Carolina Vale Quaresma. Para Constança Cordeiro Ferreira não há problema que a criança adormeça a mamar. “O leite materno tem componentes como triptofano, melatonina, endorfinas e uma composição variável consoante o dia e a noite, que vai favorecer o sono, ao contrário do que é muitas vezes dito aos pais”, justifica. “O silêncio da casa e o sono dos pais criam a atmosfera para [o bebé] dormir”, recomenda, por seu lado, Marina Fuertes, docente na Escola Superior de Educação de Lisboa (ESEL). Além de se habituar a estar na cama, a calma e o silêncio também ajudam a criança a regular as suas emoções, acrescenta.

Pais sobrevivem

“Educar o sono” pressupõe que a maneira de adormecer ou de dormir está errada e que é necessário corrigi-la, começa por dizer Constança Cordeiro Ferreira. O que acontece é que essa é uma ideia errada, continua. “Parte do problema vem daí [desse pressuposto]. Um bebé nos primeiros meses procura as condições óptimas para descansar e os pais têm a cabeça cheia de medos, que lhes foram colocados, e, logo aí, têm medo de dar a mama, dar colo ou conforto”, aponta. Além disso, as mães mudam de hábitos, as “mulheres têm dificuldade em quererem arranjar-se, em estar com os amigos, em viver. E tudo se resume a isso: com a privação de sono os pais nem sempre vivem, sobrevivem ao dia-a-dia”, nota Carolina Vale Quaresma.

“Muitas vezes, os bebés não ficam tão mal como os pais. A privação de sono tem um impacto enorme nos adultos, mais ainda nos pais”, avisa Constança Cordeiro Ferreira. E não descansar pode levar a algumas complicações de saúde, alerta Teresa Paiva: os pais podem vir a ter problemas de saúde mental como depressão, ansiedade, dores de cabeça e insónias crónicas; mas também doenças físicas, como as cardíacas, cardiovasculares ou aumento de peso. Quanto aos filhos, dormir pouco ou com muitas pausas pelo meio pode afectar a memória, baixar a imunidade às bactérias e a regulação do apetite, tal como a capacidade dos bebés em gerir emoções, refere Carolina Vale Quaresma, acrescentando que, a longo prazo, as crianças podem vir a ter dificuldades de aprendizagem, falta de concentração e agitação elevada.

A agitação e o choro constante, a dependência da criança para ser alimentada e os “cuidados frequentes” são os grandes causadores da privação do sono dos pais. Então, como conseguir que toda a família descanse? De acordo com Carolina Vale Quaresma, para o bebé não sentir que estão “com truques para o enganar”, deve ir acordado para o berço e ter noção do que está a acontecer. “Nada melhor para um bebé ser seguro que sentir que pode confiar na mãe no pai”, defende.

Para Marina Fuertes não se deve forçar a criança a dormir, com o risco de criar tensão, tensão que levará o bebé a resistir ao sono por o considerar algo “indesejável”, ficando assim mais rabugento e, consequentemente, com mais dificuldade para adormecer. Não interromper o descanso do bebé para o alimentar, ou simplesmente por medo de ele não dormir quando os pais desejam, são actos importantes que ajudam o bebé a desenvolver a “aprendizagem biológica do dormir”, fundamentaCriar uma rotina de sono, juntamente com uma rotina para alimentação e banhos, ajudará o bebé a “antecipar a hora do sono”, aconselha.

Dormir pouco ou muito?

Segundo Carolina Vale Quaresma, os bebés não dormem tempo suficiente. Por exemplo, até aos 6 meses de idade deveriam dormir cerca de 12 horas nocturnas e 4 horas diurnas. Constança Cordeiro Ferreira diz que existem fases em que o descanso infantil poderá ser mais afectado como, por exemplo, quando os bebés começam a gatinhar, iniciam a alimentação complementar ou quando a mãe ou o pai regressam ao trabalho. “Os pais devem saber isto e não ficarem aflitos”, lembra.

Com o intuito de ter uma “boa noite de sono” e também de evitar o uso de tecnologia, tablets ou smartphones, para adormecer, a professora Marina Fuertes aconselha a criar o “momento da leitura” após o primeiro ano de vida do bebé, inicialmente com livros apenas com imagens, depois com pequenas histórias e, após os 3 anos, uma história real ou imaginada pelos pais. A escolha não deve recair sobre histórias “com monstros ou excesso de estímulos”, pois podem despertar a criança.

“Os maiores inimigos do sono da criança são a ausência de rotina e a instabilidade nas regras”

Janeiro 22, 2020 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do DN Life de 15 de janeiro de 2020.

Por Catarina Pires

Dormir bem é fundamental para todos, mas sobretudo para crianças e adolescentes, que estão em pleno desenvolvimento. É nas idades mais precoces que o sono pode e deve ser educado. A pediatra Nádia Pereira, do Centro da Criança e do Adolescente do Hospital CUF Descobertas, que integra a equipa multidisciplinar da consulta do sono pediátrica, explica o que é importante para uma correta “higiene de sono”.

Texto de Catarina Pires

Qual a prevalência de perturbações de sono das crianças e adolescentes e quais os distúrbios mais comuns?

Dados recentes de publicações internacionais apontam para uma prevalência significativa de perturbações do sono na infância, nalgumas séries atingindo os 50% na idade pré-escolar e 40% na adolescência.

De acordo com o grupo etário o tipo de perturbação de sono varia. Na idade pré-escolar e escolar a insónia de causa comportamental assume maior relevância. São as crianças que os pais referem que nunca conseguiram adormecer sozinhas, resistem a dormir, e mantêm vários despertares noturnos necessitando dos pais para readormecer.

Na adolescência, são mais comuns as perturbações do ritmo circadiano, nomeadamente a perturbação por atraso de fase, em que o adolescente parece que só tem sono por volta das 3 – 4h da madrugada e, se for possível, dorme até às 12 – 13h, acordando bem-disposto e descansado. Nessa impossibilidade, pelo cumprimento dos horários escolares, são comuns os sintomas de privação de sono.

Algumas mudanças simples na rotina familiar podem trazer de volta as noites bem dormidas.

Os pais devem estar preparados para noites mal dormidas nos primeiros meses do bebé, porque faz parte da tarefa de ser pai e mãe?

Nos primeiros meses de vida, o bebé ainda não tem um ritmo de sono-vigília bem estabelecido, necessita ser alimentado frequentemente, mesmo no período noturno, o que vai dificultar o descanso dos pais.

Com o crescimento, essencialmente a partir dos 6 meses de vida, o bebé tem a capacidade de estabelecer um ritmo de sono-vigília mais semelhante ao do adulto, fazendo um período mais longo de sono noturno, e sestas diurnas de menor duração.

No entanto, muitas vezes, apesar de terem as ferramentas biológicas para fazerem um período mais longo de sono noturno, as crianças mantêm dificuldade em adormecer associada ou não a despertares noturnos frequentes, o que condiciona uma má qualidade de sono dos pais, que aceitam este facto como parte da normalidade.

Mas não precisa de ser assim! Algumas mudanças simples na rotina familiar podem trazer de volta as noites bem dormidas.

O que significa higiene de sono e o que fazer para uma correta higiene de sono?

Entendemos com higiene do sono um conjunto de medidas que quando aplicadas facilitam um sono de qualidade. Destaco como medidas de higiene do sono:

  • Manter horários regulares de refeições e sestas durante o dia
  • Não efectuar atividades físicas estimulantes nas 2 horas que antecedem o sono
  • Não usar ecrãs cerca de 2 horas antes de ir para a cama.
  • Evitar refeições pesadas ao jantar
  • Criar um ritual no período prévio ao deitar, que deverá repetir-se diariamente
  • Repetir horários de forma diária e consistente no adormecer e acordar
  • Adaptar o ambiente do quarto: conforto, luz, temperatura, etc.
  • Ensinar a criança a ser autónoma no momento de adormecer: usar elementos de conforto externos (chucha, fralda, boneco, etc.), independentes dos pais.
  • Não associar os momentos de alimentação com o sono, incentivando que a criança não adormeça a comer.

Há crianças com um número de horas de sono diárias inferior ao recomendado que não apresentam sintomas de privação e outras que necessitam mais horas de sono para se sentirem descansadas.

Quantas horas por dia (noite) deve uma criança dormir e que benefícios tem uma boa higiene de sono para a saúde física e desenvolvimento?

Recentemente a Academia Americana de Medicina do Sono publicou uma recomendação relativamente ao número de horas de sono na população pediátrica.

Grupo Etário | Horas de sono por dia
4-12 meses 12-16h (inclui sestas)
1-2 anos 11-14h (inclui sestas)
3-5 anos 10-13h (inclui sestas)
6-12 anos 9-12h
13-18 anos 8-10h

Estas variam naturalmente com a idade da criança e devemos ter em atenção que poderá haver alguma variabilidade interindividual. Apesar da recomendação, existem crianças com um número de horas de sono diárias inferior ao recomendado que não apresentam quaisquer sintomas de privação, e outras que necessitam mais horas de sono para se sentirem descansadas.

O sono reparador é essencial para uma vida saudável. Não se pode viver sem dormir, sendo que o sono não é de todo um processo passivo, constituindo um momento de reorganização de funções e de recuperação física e psíquica. Nas crianças, o sono desempenha um papel fundamental no desenvolvimento cerebral, na aprendizagem e consolidação da memória, tendo também um papel significativo no crescimento corporal.

Existem diversas perturbações de sono que justificam uma avaliação médica. Quando surgem sinais de privação de sono nas crianças ou nos cuidadores, é importante obter aconselhamento médico.

E que problemas trazem as insónias infantis?

Na criança, dependendo do seu grupo etário e grau de desenvolvimento as consequências de sono insuficiente vão ser distintas:

no lactente e criança em idade pré-escolar: irritabilidade, choro frequente, maior dependência do cuidador

na criança em idade escolar: sonolência diurna, cansaço, dificuldade de concentração e problemas na aprendizagem

no adolescente: sonolência diurna, diminuição da capacidade de atenção e concentração, baixa do rendimento escolar, problemas de auto-estima.

Quando é que há razão para preocupação e recurso a aconselhamento médico?

Existem diversas perturbações de sono que justificam uma avaliação médica. Dentro das insónias comportamentais, quando surgem sinais de privação de sono nas crianças ou nos cuidadores, é importante obter aconselhamento médico.

Importa desmistificar que só se recorre ao médico quando há doença e que o não dormir faz parte dos primeiros anos de vida. Dormir é fundamental, pais e crianças necessitam de dormir, e quando isso não acontece uma avaliação em Consulta de Sono pode ajudar.

Outras perturbações de sono mais frequentemente avaliadas em Consulta de Sono são as parassónias (terrores noturnos, sonambulismo…), o síndrome de apneia obstrutiva do sono e as perturbações do ritmo circadiano.

Porque é que há bebés que dormem a noite toda e outros que estão sempre a acordar?

De facto, não se sabe bem porquê, mas existem bebés que dormem toda a noite sem qualquer ajuda e outros que repetidamente solicitam os pais para conseguir adormecer.

Sabemos no entanto, que os bebés em que desde cedo é estimulada a autonomia no momento do adormecer, dormem melhor em idades mais precoces.

E sabemos também que os bebés que necessitam dos pais para adormecer, seja no colo, enquanto mamam ou bebem biberão, têm maior probabilidade de despertar várias vezes durante a noite para pedir ajuda para readormecer.

O método de chorar até adormecer, que tem como objetivo que a criança adquira a capacidade de adormecer sozinha, apresenta bons resultados, mas pode ser causador de grande ansiedade familiar.

Mas não é normal que as crianças acordem durante a noite?

Como já referido é normal que até aos 6 meses os bebés possam necessitar de ser alimentados no período noturno, por razões nutricionais e de imaturidade dos ciclos de sono.

A partir dos 6 meses a maioria das crianças tem as ferramentas biológicas para dormir por um maior período noturno. O que não significa que seja “anormal” se mantiverem alguns despertares noturnos. Mas se estes forem muitos frequentes e com interferência na vida familiar seria útil uma avaliação médica.

O método, defendido por alguns, de deixar chorar até adormecer, é uma tortura para os pais e para as crianças. Tem algum mérito?

Existem diversos métodos de “sleep training” aplicáveis as insónias comportamentais e que devem ser adequados ao grupo etário e ao contexto familiar. Todos estes métodos se baseiam no princípio da autonomia no momento do adormecer.

O método de chorar até adormecer, é um método de extinção simples, e que tem como objetivo que a criança adquira a capacidade de adormecer sozinha, sem ajuda dos pais. Quando aplicado apresenta bons resultados, mas pode ser causador de grande ansiedade familiar.

Não se poderá dizer que é prejudicial os pais adormecerem os seus filhos, mas é um hábito que mantido ao longo do tempo, aumenta a probabilidade de uma perturbação de sono.

Até que idade as crianças devem fazer a sesta?

A sesta é um assunto que tem levantado algumas questões, essencialmente porque o fazer ou não a sesta é atualmente decidido pelas regras dos estabelecimentos de ensino que a criança frequenta.

O princípio será sempre que a sesta complete a necessidade de horas de sono diárias. Mais uma vez aqui a questão deverá ser analisada com família e com cada criança individualmente.

Regra geral até aos 3 – 4 anos a criança ainda deverá apresentar um ciclo de sono bifásico, com um maior período de sono noturno, e um período curto de sono diurno. A partir dos 4 – 5 anos, algumas crianças começam a dar alguns sinais que não precisam de fazer a sesta. Por exemplo pode ser muito difícil adormecer na sesta, ou se quando faz sesta não tem sono para adormecer à hora habitual, ou consegue, não fazendo sesta, ficar desperta para as atividades habituais. Nesta altura pode ser ponderado suspender a sesta.

A decisão neste grupo etário dos 4 – 5 anos, de fazer ou não sesta, deve ser tomada entra família e estabelecimento de ensino, de acordo com as necessidades da criança.

A partir dos 6 anos, com a entrada no ensino básico, a sesta é naturalmente eliminada.

É prejudicial os pais adormecerem as suas crianças nos primeiros anos de vida?

Não se poderá dizer que é prejudicial os pais adormecerem os seus filhos, mas é um hábito que mantido ao longo do tempo, aumenta a probabilidade de uma perturbação de sono no futuro, nomeadamente de insónia comportamental.

Quais são os maiores inimigos do sono para uma criança?

Diria que os maiores inimigos do sono para uma criança será a ausência de rotina e a instabilidade nas regras.

A necessidade de horas de sono vai diminuindo com a idade? Qual diferença entre uma criança e um adolescente?

No primeiro ano de vida o desenvolvimento cerebral e as imensas aquisições cognitivas e motoras, exigem que o número de horas de sono diárias seja maior do que na criança em idade escolar ou adolescente.

As recomendações em relação ao número de horas de sono diárias variam com a idade, mas a título de exemplo um bebé pode precisar de 14 a 15h de sono diárias, uma criança de 5 anos será normal dormir 10 a 12h e um adolescente a partir dos 13 anos deverá dormir pelo menos 8h por dia.

Mais importante que o horário em si, é a regularidade do mesmo. O nosso sono é melhor se dormimos e acordamos a mesma hora.

Dormir de mais também pode ter consequências negativas ou dormir nunca é de mais?

Biologicamente o nosso corpo está preparado para dormir o número de horas que necessita. A questão que se põe atualmente é que geralmente dormimos menos do que precisamos e tentamos compensar esporadicamente quando podemos. Mas esta não é uma compensação real. A regularidade nos horários é fundamental para um sono de qualidade.

Importa só a quantidade de horas de sono ou também são importantes a hora a que se deita e acorda?

Mais importante que o horário em si, é a regularidade do mesmo. O nosso sono é melhor se dormimos e acordamos a mesma hora. No caso dos adolescentes, que biologicamente têm sono mais tarde e dormiriam também até mais tarde, há uma colisão entre o horário que lhes seria natural dormir e a atividade escolar. Neste caso, a regularidade dos horários é ainda mais importante, para permitir um bom desempenho escolar.

Problemas de sono nos adolescentes podem ser resolvidos com menos ecrãs à noite

Junho 3, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Observador de 20 de maio de 2019.

Os problemas de sono nos adolescentes podem ser revertidos em apenas uma semana limitando a utilização à noite de ecrãs emissores de luz como os dos telemóveis, ‘tablets’ e computadores.

Os problemas de sono nos adolescentes podem ser revertidos em apenas uma semana limitando a utilização à noite de ecrãs emissores de luz como os dos telemóveis, ‘tablets’ e computadores, defendeu esta segunda-feira a Sociedade Europeia de Endocrinologia.

A relação entre o uso destes equipamentos à noite e o sono dos adolescentes foi alvo de um estudo, que será divulgado em Lyon durante o encontro anual da Sociedade Europeia de Endocrinologia, e que conclui que demasiada exposição noturna à luz, especialmente a luz azul emitida pelos ecrãs de ‘smartphones’, ‘tablets’ e computadores pode afetar o relógio biológico do cérebro e a produção da hormona do sono, melatonina, resultando numa disrupção no tempo e qualidade do sono.

“A falta de sono não só causa sintomas imediatos de cansaço e perda de concentração, como pode aumentar o risco de problemas de saúde mais sérios a longo prazo, tais como diabetes, obesidade e doença cardíaca”, sustentou a instituição em comunicado.

Outros estudos sugeriram que a privação do sono relacionada com o tempo de exposição a ecrãs pode afetar mais as crianças e os adolescentes do que os adultos, mas não investigaram a fundo como a exposição na vida real está a afetar o sono dos adolescentes em casa e como pode ser revertido.

O estudo resulta de uma parceria entre o Instituto Holandês de Neurociência, a Universidade Médica de Amesterdão e o Instituto Alemão de Saúde Pública e Ambiente.

Os investigadores estudaram os efeitos da exposição dos adolescentes à luz azul dos ecrãs em casa. Aqueles que ficaram mais de quatro horas por dia à frente do ecrã adormeceram, em média, 30 minutos mais tarde e acordaram mais vezes do que os jovens que permaneceram menos de uma hora expostos àquela fonte de luz, além de outros sintomas de falta de sono.

Dirk Jan Stenvers, do Departamento de Endocrinologia e Metabolismo da universidade de Amesterdão, afirmou que os adolescentes passam cada vez mais tempo ocupados com os ecrãs e que as queixas relacionadas com o sono são frequentes nesta faixa etária.

“Aqui demonstramos muito simplesmente como essas queixas de sono podem ser facilmente resolvidas, minimizando o uso noturno de ecrãs emissores de luz azul”, conclui o investigador.

mais informações na notícia:

Sleep problems in teenagers reversed in just one week by limiting screen use

Resumo da investigação:

Restoring the sleep disruption by blue light emitting screen use in adolescents: a randomized controlled trial

 

Pais podem sofrer de privação do sono até seis anos após nascimento do primeiro filho

Março 12, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Expresso de 26 de fevereiro de 2019.

Efeitos são piores nas mulheres. Mesmo quando os filhos crescem, há novos fatores de stress e preocupação

Primeiro, há as preocupações básicas. O bebé acaba de nascer, acorda muitas vezes de noite, precisa de ser alimentado e de atenção redobrada. Depois vai crescendo, mas surgem novos motivos de stress: os pesadelos, o medo do escuro, as noites mal dormidas. Um conjunto de fatores que se prolonga ao longo dos anos pode perturbar o sono dos pais até seis anos depois do nascimento do primeiro filho, aponta um novo estudo.

A investigação, da universidade britânica de Warwick e publicada pela revista científica “Sleep”, foi elaborada na Alemanha, com base em entrevistas a 2541 mulheres e 2118 homens. Os participantes no estudo foram questionados anualmente, entre 2015 e 2018, sobre a qualidade e quantidade do seu sono após o nascimento do primeiro, segundo ou terceiro filho. Mas, se era de esperar que os inquiridos indicassem problemas relativos ao sono sobretudo depois de serem pais pela primeira vez, a verdade é que os resultados que indicam uma degradação da qualidade e quantidade de sono a maior prazo surpreenderam os próprios investigadores.

“Não esperávamos este resultado, mas acreditamos que há muitas mudanças nas responsabilidades que se tem [quando se é pai ou mãe]”, diz ao jornal “The Guardian” Sakari Lemola, um dos cinco co-autores do estudo. Ou seja, quando se tem um filho as preocupações não deixam de surgir, mesmo que este seja menos dependente, e é preciso contar com noites mal dormidas bem além dos primeiros meses de vida – seja graças a doenças, pesadelos, noites interrompidas ou simplesmente o stress de se ser pai.

A investigação conclui que, no caso do primeiro filho, estes efeitos negativos poderão durar, sobretudo no caso das mulheres, até depois de quatro a seis anos após o nascimento. Mas a privação de sono também se prolonga depois dos segundos e terceiros filhos, embora por menos tempo.

No caso das mulheres, as mais afetadas por esta privação, a perda de sono é de mais de uma hora por noite nos meses depois do nascimento do primeiro filho, reduzindo-se esse tempo para quarenta minutos quando passa o primeiro ano. Mas podem passar-se anos até que se restabeleça o padrão normal de sono e se recuperem as horas (bem) dormidas.

 

 

Fim da hora de inverno será preocupante para crianças e adolescentes

Setembro 13, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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O especialista em medicina do sono Joaquim Moita avisa que o fim da hora de inverno seria preocupante sobretudo para as crianças e adolescentes, que passariam a acordar e a ir para as aulas ainda de noite.

A Comissão Europeia vai propor o fim da mudança de hora, depois de essa ter sido a vontade expressa por uma grande maioria dos europeus na consulta pública lançada este verão, acabando com a distinção entre horário de verão e horário de inverno.
Em declarações à agência Lusa, o médico Joaquim Moita, que dirige o Centro de Medicina do Sono do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra e a Associação Portuguesa do Sono, lembra que o cérebro humano precisa de exposição à luz solar para acordar devidamente.

“Se acabar a hora de inverno, entre os meses de novembro e janeiro iremos estar às 08:15 ainda com noite escura”, avisa o especialista.

Ora, às 08:15 muitas das crianças e adolescentes portugueses já estão a ter aulas ou pelo menos a caminho da escola.

“O resultado não será benéfico e o desempenho cognitivo e físico podem ficar comprometidos. As crianças e os adolescentes já deviam ir bem acordados para a escola e, para acordar bem, o cérebro precisa de exposição ao sol, à luz solar”, explica Joaquim Moita.

O especialista frisa que uma das regras básicas da higiene do sono é precisamente levantar à mesma hora e procurar a exposição solar, o que pode ficar comprometido caso se acabe com a hora de inverno.

“Os mesmos problemas também se podem aplicar ao mundo do trabalho. É muito preocupante para as faixas etárias mais jovens, mas também para quem já trabalha”, indicou.

Joaquim Moita julga que haveria vantagens em manter a hora de inverno e considera que as alterações entre hora de verão e hora de inverno não constituem qualquer problema médico, até porque o organismo se adapta facilmente a estas mudanças de hora.

O perito lembra que os portugueses “já dormem pouco”, considerando que o fim da hora de inverno pode ainda prejudicar mais o descanso, o número de horas de sono e a forma como se desperta.

Uma maioria “muito clara” de 84% dos cidadãos europeus pronunciaram-se a favor do fim da mudança de hora na consulta pública realizada este verão, de acordo com resultados preliminares hoje divulgados pela Comissão Europeia.

Os resultados preliminares hoje publicados pelo executivo comunitário – os resultados finais serão divulgados “nas próximas semanas” – revelam que os portugueses que participaram no inquérito “online” estão em linha com a média europeia, já que 85% também defenderam que deixe de se mudar o relógio duas vezes por ano, o que Bruxelas pretende agora implementar, com a apresentação de uma proposta legislativa.

Naquela que foi, de forma destacada, a consulta pública mais participada de sempre, com mais de 4,6 milhões de contributos oriundos de todos os Estados-membros, a maior parte das respostas veio da Alemanha, onde o assunto foi particularmente mediatizado, apontando a Comissão que a taxa de participação em percentagem da população nacional variou entre os 3,79% na Alemanha e os 0,02% no Reino Unido, tendo em Portugal participado no inquérito 0,33% da população.

Os resultados preliminares, acrescenta Bruxelas, “indicam também que mais de três quartos (76%) dos participantes consideram que mudar de hora duas vezes por ano é uma experiência «muito negativa» ou «negativa»”, e “como justificação do desejo de pôr fim a esta regras alegam o impacto negativo na saúde, o aumento de acidentes de viação ou a falta de poupanças de energia”.

 

Notícia Lusa / EDUCARE de 31 de agosto de 2018

Mais de metade dos jovens sente tristeza, irritação ou medo pelo menos uma vez por semana

Maio 28, 2018 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Expresso de 15 de maio de 2018.

Mais de 54% dos jovens entre os 14 e os 24 anos apresentam sintomas psicológicos como tristeza, nervosismo, problemas de sono, irritação e medo pelo menos uma vez por semana, o que influi negativamente na perceção global do estado de saúde.

As conclusões são de um estudo observacional transversal realizado por investigadores do Cintesis – Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde, a que a Lusa teve esta terça-feira acesso.

Com uma amostra composta por 746 adolescentes e jovens, o estudo foi publicado na obra “Qualidade de vida e saúde em uma perspetiva interdisciplinar” e tinha por objetivo caracterizar as perceções juvenis acerca da sua própria saúde e as experiências de ocupação dos tempos livres, fora do contexto académico ou laboral.

De acordo com este trabalho, assinado por Paula Rocha, Carlos Franclim e Paulo Santos, a sintomatologia psicológica era “significativamente maior” no género feminino, que também é o que perceciona pior o seu estado de saúde.

Nas jovens, o nervosismo é um dos sintomas mais referidos, seguindo-se a irritação e os problemas de sono.

Os autores defendem que “a diferença de género na perceção do estado de saúde e nos sintomas reforça a necessidade de intervenções e abordagens distintas entre os géneros”.

O estudo aponta também para a existência de uma correlação positiva e significativa entre a satisfação com a ocupação dos tempos livres e a perceção favorável do seu estado de saúde, sendo que os jovens mais satisfeitos são os que aproveitam os tempos livres para conviver com familiares e com amigos.

Para os investigadores, esta associação “justifica a inclusão sistemática da avaliação da dimensão ‘atividades’ nas consultas de seguimento de saúde dos adolescentes e jovens”.

Entre as atividades de ocupação regular dos tempos livres (pelo menos uma vez por semana), a música e a internet ocupam os lugares cimeiros, enquanto atividades como o voluntariado ou a participação associativa são menos comuns, mostrando que esta é “uma juventude mais individual na sua forma de passar os tempos livres, o que implica atualizar a compreensão sobre as causas deste movimento e as suas consequências”, consideram.

Os autores salientam a necessidade de ajustar as respostas existentes, nomeadamente o formato dos tempos escolares e laborais, bem como as estratégias de promoção de saúde e de estilos de vida saudáveis às “especificidades dos contextos e das gerações”.

O Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde é uma Unidade de Investigação e Desenvolvimento (I&D) cuja missão é encontrar respostas e soluções, no curto prazo, para problemas de saúde concretos, sem nunca perder de vista a relação custo/eficácia.

Sediado na Universidade do Porto, o Cintesis beneficia da colaboração das Universidades Nova de Lisboa, Aveiro, Algarve e Madeira, bem como da Escola Superior de Enfermagem do Porto. No total, o centro agrega cerca de 500 investigadores e conta com sete spin-offs.

mais informações no link:

http://cintesis.eu/pt/sintomas-psicologicos-influenciam-percecao-do-estado-de-saude-nos-jovens-e-adolescentes/

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