Piscinas de bolas são um ninho de bactérias para as crianças

Abril 11, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do MAGG de 29 de março de 2019.

Por Rita Espassandim

Restos de vómito, fezes e urina foram encontrados por investigadores norte-americanos em seis parques distintos.

Não há criança que resista a uma piscina de bolas, mas a verdade é que podem ser perigosas no que diz respeito à higiene. Segundo investigadores dos EUA, estes brinquedos são um ninho de bactérias para as crianças.

A notícia, avançada pelo jornal espanhol “La Vanguardia“, explica que a equipa de investigadores da Universidade da Geórgia lançou um alerta para os riscos que se correm nestes espaços, muitas vezes escolhidos pelos pais para uma festa de aniversário, ou uma tarde divertida em família.

O estudo, publicado na revista “American Journal of Infection Control“, foi feito com base na análise de seis parques de bolas, no estado da Geórgia. Escolhendo entre 9 a 15 bolas de diferentes profundidades, foi possível encontrar, entre elas, restos de vómito, fezes e urina. 

Os resultados deixaram os investigadores em alerta, uma vez que, durante a investigação, encontraram 31 tipos diferentes de bactérias nas bolas coloridas, incluindo uma que pode causar doenças. O perigo de apanhar uma infeção nestes parques é muito grande, uma vez que as crianças costumam pôr as bolas na boca e brincar com elas.

O estudo detalha todas as bactérias perigosas encontradas, que podem causar infeções urinárias, meningites, pneumonia e infeções cutâneas. Para combater esses perigos, a Universidade da Geórgia recomenda que seja estabelecido um protocolo de limpeza para os parques de bolas, a fim de melhor proteger as crianças que brincam no interior, bem como os trabalhadores desses espaços.

 

 

 

Sozinhos entre milhares de “amigos”. Estudo associa redes sociais a solidão nos jovens

Março 29, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 13 de março de 2019.

Investigação em Portugal indica que passar muito tempo online faz os jovens sentirem-se sozinhos, mesmo quando não deixam de falar com os amigos frente a frente. É a natureza da comunicação online que provoca a solidão? Investigadores dizem que há uma conexão.

Karla Pequenino

Num mundo em que é cada vez mais normal usar o Facebook, o Twitter, o Instagram, ou o YouTube para comunicar com outras pessoas – a qualquer hora, em qualquer lugar –, são vários os trabalhos que começam a encontrar uma relação entre usar Internet e sentir mais solidão. Particularmente, nos jovens.

Um estudo do Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida (ISPA), em Lisboa, mostra que os jovens portugueses que passam muito tempo nas redes sociais se sentem mais sozinhos. É uma conclusão comum na área da solidão digital: em 2016, um inquérito a utilizadores portugueses do Facebook, feito na Universidade Lusófona do Porto, mostrou que quem passa mais tempo na rede social se sente mais só. Em 2017, outro estudo, desta vez focado nos EUA, mostrou que passar mais de duas horas por dia em redes como Facebook, Snapchat e Twitter duplicava a probabilidade de alguém se sentir isolado.

Só que os investigadores do ISPA descobriram que o sentimento de solidão entre os jovens portugueses mantém-se, mesmo quando o tempo que passam online não interfere com o tempo que passam a falar com amigos fora da Internet, frente a frente. Em causa pode estar a falta de riqueza sensorial das conversas online.

“O nosso estudo sustenta que há qualquer coisa na comunicação online que causa a solidão, que é a forma como a comunicação acontece online que cria esse sentimento”, resume ao PÚBLICO o investigador do ISPA Rui Costa. “Nas raparigas, em particular, o sentimento de solidão não se explicava por passarem menos tempo com os amigos. Foi uma das questões que nos chamou a atenção.”

As conclusões foram publicadas na revista académica International Journal of Psychiatry in Clinical Practice. O estudo, em que foram inquiridos 548 jovens em Portugal (dos 16 aos 26 anos) entre 2015 e 2016, mostra que as redes sociais eram de longe a actividade preferida dos jovens quando estão na Internet. Os participantes foram avaliados quanto à percepção de solidão, ao ambiente familiar, e se têm um “uso problemático da Internet”. Foi questionado o grau de identificação com afirmações como “A interacção social online é mais confortável do que frente-a-frente”, e “Faltei a compromissos sociais devido ao meu uso da Internet”.

Inicialmente, o objectivo do estudo era avaliar a relação entre o uso problemático, ou vício, da Internet e o grau de interacção social. “A Internet começa a ser um problema quando há problemas de privação”, explica Costa. “Quando não dormimos, quando deixamos de fazer o trabalho, ou quando usamos o telemóvel para resolver problemas como a ansiedade ou a depressão. Se nos sentimos ansiosos e agarramos o telemóvel, estamos a ignorar o problema subjacente.”

No caso dos rapazes que participaram, como já se tem visto noutros estudos sobre o tema, um uso problemático da Internet estava associado a menos tempo para os amigos ou parceiros fora da Internet. Mas com as raparigas, embora o tempo online interferisse com algumas relações familiares, não interferia com o tempo que passavam a falar com os amigos em pessoa. Só que, mesmo assim, elas reportavam sentimentos de solidão.

“E mesmo com os rapazes, que passavam menos tempo com os amigos, não havia uma conexão directa ao maior sentimento de solidão”, diz Costa. “E isto foi muito interessante. Até agora pensava-se que a Internet levava as pessoas a passar menos tempo a falar com amigos e que isso levava à solidão. Mas agora podemos ver que é a própria Internet que causa a solidão.”

Hormonas, evolução, ou facilidade em apagar amigos?

Para os investigadores do ISPA, o motivo pode estar associado à evolução da espécie humana, durante a qual a vida em sociedade foi necessária para a sobrevivência. Como tal, os mecanismos cerebrais aprenderam a reconhecer a satisfação em interacções sociais apenas quando há informação sensorial suficiente a acompanhar.

“A hipótese que colocamos agora é que a comunicação online não tem a mesma riqueza sensorial que a comunicação offline”, explica Rui Costa. “Quando falamos da Internet, não há informação a nível do olfacto, por exemplo, e a forma das pessoas falam é diferente.”

É uma opinião partilhada pela psicóloga clínica Raquel Carvalho, que trabalha com adolescentes e crianças na Oficina da Psicologia, em Lisboa. Diz que é comum os jovens que acompanha (especialmente, a partir dos 13 anos) falarem em sentimentos de solidão, mesmo que não seja o motivo principal que os leva às consultas. Um dos motivos é que é nesta idade que se começam a afastar da família e a “tentar criar vínculos afectivos com os pares”.

“Nota-se que com o mundo digital os jovens se refugiam muito na tecnologia e, por isso, as interacções com os pares são mais pobres. É com relacionamentos cara a cara que se desenvolvem capacidades como a empatia e a cooperação”, diz Raquel Carvalho. “Depois ao nível das neurociências há hormonas que são produzidas como resposta à sensação de toque. É o caso da oxitocina.”

Conhecida como a “hormona do amor” ou a “hormona do abraço”, nos humanos a oxitocina é libertada durante o toque com outros humanos. No cérebro, o neurotransmissor está relacionado com fenómenos como a criação de laços afectivos, empatia, desenvolvimento de confiança com outras pessoas, e diminuição da agressividade.

“O refúgio na Internet da adolescência pode ser visto como normal, porque actualmente é uma forma de se criarem ligações aos pares”, ressalva Raquel Carvalho. “Mas é preciso garantir que não se estão a substituir encontros reais.”

O aumento da solidão entre os jovens é uma realidade observada também no Observatório da Solidão, do Instituto Superior de Ciências Empresariais e do Turismo (ISCET), no Porto. “A solidão digital é um facto”, diz ao PÚBLICO o coordenador do observatório, o investigador Adalberto Dias de Carvalho. “Muitas vezes tem-se a percepção de que a solidão surge principalmente na população mais idosa. Não é bem assim. As vivências de solidão surgem com mais frequência nos jovens. A diferença é que os mais jovens têm mais facilidade em sair do estado de solidão.”

Adalberto Dias diz que as redes sociais são vistas como um “veículo para superar a solidão”, tanto pelos mais jovens como por outras faixas etárias. Mas – tal como a psicóloga Raquel Carvalho o estudo do ISPA notam – “as relações mediadas pelas redes sociais têm uma natureza diferente”.

Um dos problemas refere Adalberto Dias, é que “as redes sociais criam um estado ilusório de conexão” que se nota, por exemplo, com a facilidade com que se elimina um amigo. “Na Internet basta carregar num botão e uma relação desaparece. A gestão de conflitos é diferente das relações interpessoais”, nota o investigador.

Travar o aumento da solidão

Para a psicóloga Raquel Carvalho é importante travar comportamentos que podem levar à solidão digital cedo. “É cada vez mais normal ver bebés agarrados aos tablets. Nos adolescentes são as redes sociais e também os jogos online. É bom começar a introduzir limites nos mais novos. A propor alternativas ao tempo online, por exemplo, com outros colegas, frente a frente.”

Os efeitos negativos da solidão na saúde estão bem documentados. Um estudo da Universidade de Harvard ao longo de 75 anos mostrou que a sensação pode ser tóxica: quanto mais isoladas as pessoas estão, mais rapidamente se deteriora a sua saúde física e mental.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) nota que boas redes de suporte social são um factor determinante para o bem-estar. Em Janeiro, o Reino Unido nomeou um ministro para a Solidão (o primeiro do mundo), que é um problema que afecta mais de nove milhões de britânicos. O objectivo é impedir a proliferação de um fenómeno que pode dar azo a demência, ansiedade, e aumentar a mortalidade precoce.

Em 2019, os mais jovens são entre aqueles que mais sozinhos se sentem em todo o mundo: numa investigação da estação britânica BBC sobre a solidão – em que foram inquiridas 55 mil pessoas em todo o mundo – 40% dos jovens entre os 16 e os 24 anos admitiram sentirem-se frequentemente sozinhos. A percentagem foi superior à de outras faixas etárias. Além disso, os inquiridos que mais reportaram sentimentos de solidão eram aqueles que tinham mais “amigos online” no Facebook.

A equipa do ISPA quer continuar a estudar o fenómeno da solidão digital em Portugal. “No futuro, queremos analisar o uso problemático do smartphone com o phubbing”, avança Costa. A expressão phubbing (uma amálgama das palavras inglesas phone e snubbing) designa o acto de ignorar alguém, numa ocasião social, ao olhar para o telemóvel em vez de prestar atenção a essa pessoa.

Um estudo recente das universidades de Oxford e Warwick, no Reino Unido, revelou que embora as crianças e jovens passem 30 minutos a mais em casa com os pais do que em 2000, esse tempo não é dedicado a mais interacções familiares. Os dispositivos móveis, como consolas portáteis e tablets, são particularmente usados nestes períodos.

“Queremos perceber o impacto que há nos sentimentos de solidão em Portugal quando se utiliza o telemóvel quando se está com os amigos ou com a família”, diz Rui Costa.

“Qualquer pessoa pode encontrar benefícios em usar redes sociais”, observa a psicóloga Raquel Carvalho. “Só que têm de manter relações reais. Não se podem limitar às relações virtuais. A tecnologia tem de ser um complemento, caso contrário há riscos de – nos jovens, em particular – não se desenvolverem competências fundamentais.”

 

Estudo diz que fumar durante a gravidez aumenta para o dobro o risco de morte súbita do bebé

Março 25, 2019 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da Visão de 12 de março de 2019.

Um estudo, resultante de uma colaboração entre o Instituto de Investigação Infantil de Seattle e cientistas de dados da Microsoft, chegou à conclusão que fumar antes ou durante a gravidez contribui para o aumento do risco da morte da criança antes do seu primeiro aniversário.

A investigação, publicada esta segunda feira na revista Pediatrics, analisou, com base em dados fornecidos pelo Centro para o Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA, mais de 20 milhões de nascimentos e mais de 19 mil mortes inesperadas de bebés, acontecidas durante 2007 e 2011, e descobriu que o risco de morte aumenta por cada cigarro fumado. O estudo concluiu que depois de fumar um maço de tabaco, o risco de morte inesperada triplica em relação aos recém-nascidos de mães não-fumadoras.

“Todos os cigarros contam”, resume Tatiana Anderson, líder do estudo, e neurocientista no Instituto de Investigação Infantil de Seattle. “Os médicos deviam ter estas conversas com os seus pacientes e avisá-los: “Devia parar [de fumar]. Essa é a melhor maneira de diminuir a probabilidade de morte súbita do recém-nascido. Se não conseguir [parar], cada cigarro que reduzir vai ajudar.”

“Um dos pontos mais importantes que eu retiraria deste estudo é que apenas fumar um ou dois cigarros aumenta o risco de morte súbita infantil”, salienta também o pneumologista Cedric Rutland, porta voz da Associação Americana de Pneumonologia.

A síndrome da morte súbita infantil, conhecido como SMSI, continuou a aterrorizar os pais, mesmo depois de se descobrir a ligação entre a posição de dormir do bebé e a sua ocorrência. Depois de uma campanha de sensibilização dos pais para a importância de deitar os bebés de costas, nos EUA, em 1994, esta taxa de óbitos diminuiu para cerca de 50 por cento.

Contudo, apesar da descida, os cientistas identificaram duas outras causas: a sufocação acidental e uma outra ainda mal definida. A resposta para esta terceira causa chegou num estudo publicado em 2006, que mostrava uma ligação direta entre as mortes dos recém-nascidos e as mães fumadoras.

Segundo um estudo do Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas, 23% a 34% dos casos de SMSI estão relacionadas com o tabagismo pré-natal. Os riscos das crianças que nascem de mães fumadoras são bastante altos, sendo que nesta mesma investigação está comprovada uma ligação entre as progenitoras que fumaram durante a gravidez e crianças que sofrem de asma, cólicas e obesidade. O próprio fumo passivo é perigoso para o desenvolvimento do feto e contribui até 20% para o risco da criança nascer abaixo do peso recomendado.

Muitos investigadores tem trabalhado para descobrir até que ponto é que fumar contribui para o SMSI, mas a teoria que prevalece é que fumar aumenta os níveis de serotonina, um neurotransmissor que é “conhecido pela sua influência na sensibilidade à dor, no comportamento exploratório, na atividade locomotora e nos comportamentosde agressivos e de ordem sexual”. Em algumas crianças, é possivel que a serotonina afete a capacidade do tronco cerebral regular o sistema respiratório durante o sono.

“Isto pode, provavelmente, levar as crianças a parar de respirar durante a noite”, explica Rutland, que também é professor clínico assistente da medicina interna da universidade californiana Escola de Medicina UC Riverside.

Apesar da descida significativa no números de fumadores nos EUA, nos últimos anos, Anderson afirma que estatísticas mostram que pelo menos 338 mil mulheres por ano continuam a fumar durante a gravidez. Contudo, a líder do estudo afirma que apesar de grande parte das grávidas saber que não devia fumar, muitas não mostram vontade ou não conseguem parar e “negam que fumam ou dizem que fumam menos do que aquilo que fumam na realidade.”

“Elas não reduzem ou param de fumar. Continuam a fumar ao mesmo ritmo durante toda a gravidez.” Se não fumassem, segundo o modelo computacional deste estudo, é estimado que pelo menos 800 mortes podiam ser evitadas durante a gravidez.

“A mensagem a reter”, recorda Anderson, “é que as mulheres fumadoras que estão a planear engravidar deviam parar de fumar muito antes de começar a tentar.”

Esta nova investigação foi a primeira a ser feita em conjunto com os cientistas de dados da Microsoft, depois de John Kahan, líder da análises de dados de clientes da Microsoft ter perdido o seu filho. Dias depois da morte, em 2003, criou o projeto Aaron Matthew SIDS Research Guild.

A sua equipa tem utilizado os dados disponíveis sobre a morte de recém-nascidos para descobrir uma maneira de salvar crianças como o filho de John Kahan.

Juan Lavista, ex-membro da equipa de Kahan e que agora é diretor sénior de dados científicos no laboratório de investigação AI for Humanitarian Action, criado pelo presidente da Microsoft, Brad Smith, tem como objetivo utilizar a inteligência artificial para ajudar a lidar com alguns dos problemas mais complexos da humanidade e tem permitido a Lavista trabalhar em projetos como o estudo da SMSI a tempo inteiro.

“O mundo tem muitos problemas e acreditamos que podemos fazer a diferença com a inteligência artificial”, afirma Juan Lavista.

Os cientistas que trabalharam juntos neste estudo não pretendem ficar por aqui, sendo que tem como intenção investigar outros problemas relacionados com a síndrome, desde o impacto dos cuidados pré-natais, à relação que a idade de recém-nascido tem com a sua morte súbita e examinar como é que a SMSI acontece nos 50 estados norte-americanos.

 

 

 

Pais podem sofrer de privação do sono até seis anos após nascimento do primeiro filho

Março 12, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Expresso de 26 de fevereiro de 2019.

Efeitos são piores nas mulheres. Mesmo quando os filhos crescem, há novos fatores de stress e preocupação

Primeiro, há as preocupações básicas. O bebé acaba de nascer, acorda muitas vezes de noite, precisa de ser alimentado e de atenção redobrada. Depois vai crescendo, mas surgem novos motivos de stress: os pesadelos, o medo do escuro, as noites mal dormidas. Um conjunto de fatores que se prolonga ao longo dos anos pode perturbar o sono dos pais até seis anos depois do nascimento do primeiro filho, aponta um novo estudo.

A investigação, da universidade britânica de Warwick e publicada pela revista científica “Sleep”, foi elaborada na Alemanha, com base em entrevistas a 2541 mulheres e 2118 homens. Os participantes no estudo foram questionados anualmente, entre 2015 e 2018, sobre a qualidade e quantidade do seu sono após o nascimento do primeiro, segundo ou terceiro filho. Mas, se era de esperar que os inquiridos indicassem problemas relativos ao sono sobretudo depois de serem pais pela primeira vez, a verdade é que os resultados que indicam uma degradação da qualidade e quantidade de sono a maior prazo surpreenderam os próprios investigadores.

“Não esperávamos este resultado, mas acreditamos que há muitas mudanças nas responsabilidades que se tem [quando se é pai ou mãe]”, diz ao jornal “The Guardian” Sakari Lemola, um dos cinco co-autores do estudo. Ou seja, quando se tem um filho as preocupações não deixam de surgir, mesmo que este seja menos dependente, e é preciso contar com noites mal dormidas bem além dos primeiros meses de vida – seja graças a doenças, pesadelos, noites interrompidas ou simplesmente o stress de se ser pai.

A investigação conclui que, no caso do primeiro filho, estes efeitos negativos poderão durar, sobretudo no caso das mulheres, até depois de quatro a seis anos após o nascimento. Mas a privação de sono também se prolonga depois dos segundos e terceiros filhos, embora por menos tempo.

No caso das mulheres, as mais afetadas por esta privação, a perda de sono é de mais de uma hora por noite nos meses depois do nascimento do primeiro filho, reduzindo-se esse tempo para quarenta minutos quando passa o primeiro ano. Mas podem passar-se anos até que se restabeleça o padrão normal de sono e se recuperem as horas (bem) dormidas.

 

 

Prefere ler em papel ou no ecrã? A ciência responde: há uma “superioridade do papel”

Março 11, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Adriano Miranda

Notícia do Público de 26 de fevereiro de 2019.

Ler em papel é mais eficaz do que ler em formato digital, sobretudo quando se tem o tempo contado. Estudo em que foram analisadas as respostas de mais de 170 mil pessoas alerta que é preciso pensar este problema no contexto de sala de aulas. Nos livros de ficção, a diferença é quase nula.

Claudia Carvalho Silva

Há quem prefira ler em papel, mesmo não sabendo bem porquê. Agora, um estudo da Universidade de Valência, em Espanha, pode ajudar a justificar: os investigadores chegaram à conclusão de que existe uma “superioridade do papel” – quando se lê em papel, a compreensão do que é lido é maior, ao contrário do que acontece quando o mesmo conteúdo informativo é lido em ecrãs. E, para surpresa dos cientistas, isto é sobretudo flagrante em crianças, o que exige uma reflexão política sobre os métodos de ensino que devem ser utilizados nas salas de aulas.

O resultado nestas camadas jovens surpreendeu os cientistas: “Não é por as crianças e jovens estarem mais habituadas aos ecrãs que a compreensão é maior — é precisamente o contrário”, alerta o investigador Ladislao Salmerón, um dos autores do estudo. Ao PÚBLICO, ​Salmerón explica que uma das hipóteses para justificar que a compreensão digital seja menor em crianças é a “associação destes dispositivos a interacções curtas e recompensas imediatas”. Isto, por sua vez, torna difícil que os jovens se consigam concentrar na leitura, por não se “desligarem” daquilo que esperam quando estão diante de um ecrã. “Precisamos de estar calmos, concentrados. É altamente incompatível com o uso actual que fazemos da tecnologia”, diz.

Para chegar a estes resultados, foram analisadas as respostas de mais de 171 mil participantes, “uma amostra generalizada e com uma grande variedade de idades, das crianças aos idosos”. Cada participante leu individualmente, em silêncio, na língua que usa no dia-a-dia. Na análise foram só usados estudos que tinham por base textos simples e lineares, tanto no papel como na parte digital (evitando links ou animações que privilegiariam este formato).

Como a amostra não incluiu estudos em Portugal – “pode haver, mas restringimos a nossa pesquisa a estudos publicados em inglês” –, o investigador ressalva que os resultados podem variar no caso português. Para Espanha, foi somente analisado um estudo feito com alunos em que se analisava a compreensão textual em artigos lidos em papel ou em tablets – os investigadores aperceberam-se de que havia um “ligeiro efeito negativo associado ao uso de tablets”.

O grande número de participantes foi conseguido porque este estudo, intitulado “Não se livrem dos livros impressos”, é uma meta-análise (ou seja, combina os dados e conclusões de outros 54 estudos, feitos entre 2000 e 2017). “É mais poderoso do que um só estudo”, esclarece o investigador espanhol, reconhecendo que só não é vantajoso por estarem restringidos por aquilo que os outros investigadores fizeram. Além de Salmerón, o estudo foi levado a cabo por três outros cientistas da Universidade de Valência e uma investigadora do Technion — Instituto de Tecnologia de Israel.

Como se lê no estudo, as pessoas adoptam um “estilo de processamento mais superficial” quando estão a ler num formato digital, podendo também estar envolvida uma falha na qualidade e na capacidade de atenção. Seguindo esta hipótese, “quanto mais as pessoas utilizarem os meios digitais para estas interacções superficiais, mais difícil será usá-los para tarefas desafiantes”, daí que os cientistas recomendem cautela com a utilização de dispositivos electrónicos para leitura na sala de aulas.

Outro dos factores a ter em conta para uma compreensão eficaz é o tempo disponível para a leitura – o que é um “condicionamento clássico”, em salas de aulas. Quanto menos tempo for dado, mais eficaz é a leitura em papel. O investigador espanhol esclarece que isto está relacionado com “a forma como o nosso cérebro gere recursos no processo de leitura”: “Podemos pensar nisto como se fosse uma corrida. Se tivermos de correr 100 metros sem que o tempo conte, podemos ir ao ritmo que quisermos e consegue-se fazê-lo; se só tivermos um minuto, é diferente.” E acautela: “É por isso verdadeiramente importante que os estudantes estejam a gerir recursos de forma eficaz. É por isso que nestas situações se torna crítico que o dispositivo não nos perturbe, ou que nos faça pensar que estamos a ler e a interpretar quando na verdade não estamos.”

O investigador admite que também ele prefere ler em papel, mas por questões profissionais acaba por ler muitos textos no ecrã. “De outra forma, não conseguiria conciliar todos os pequenos relatórios e textos que tenho para ler”, diz.

Quando se trata de textos narrativos (romances, poesia), pouco importa se se lê em papel ou em suporte digital, porque a linguagem é menos técnica e mais próxima daquela que é utilizada no dia-a-dia, com mais diálogos, explica Ladisla​ ​Salmerón. “Trata-se mais de quão desafiante é o texto, e as narrativas tendem a ser menos. Os textos informativos são mais desafiantes para a nossa estrutura mental, precisamos de analisar vocabulário mais complexo, mais técnico”, adianta. No estudo, os cientistas alertam que há terrenos incertos e que ainda é precisa mais investigação para aprimorar técnicas.

A equipa também considerou importante investigar a diferença que existe entre a leitura digital feita em computadores e aquela que é feita em telemóveis, em e-readers (leitores de texto, como o Kindle) ou em tablets. “Na maior parte dos estudos, o digital refere-se a ecrãs de computador. Os tablets e ebooks são muito mais recentes, talvez daqui a cinco anos tenhamos algo diferente”, diz. Os investigadores reiteram que há poucos estudos e meta-análises sobre a influência da natureza do meio nos resultados de leitura.

E soluções?

Voltando à forma como a leitura em formatos digitais afecta a interpretação, sobretudo nos mais novos, Ladisla​ ​Salmerón diz que não é preciso vilipendiar a tecnologia, mas encontrar soluções. “Não quero acreditar nem defender que é a tecnologia em si a causadora disto – mas é o uso que fazemos dela. As redes sociais, as conversas superficiais, as recompensas imediatas… não está a fazer nada de bom”, lamenta.

O estudo, publicado em Novembro de 2018 e feito no âmbito de um projecto europeu, mostra “de forma inequívoca que há uma inferioridade dos ecrãs, com resultados de menor eficácia de compreensão de leitura nos textos digitais quando comparados com os textos em papel”. Essa desvantagem é ainda maior em textos em que é preciso fazer scroll.

A leitura digital acaba por ser uma parte inevitável nas escolas. “O facto de não podermos impedir a tecnologia de chegar às escolas não significa que não possamos ser mais selectivos”, observa Ladislao Salmerón. “Isto é real. Não é um problema científico, é um verdadeiro problema que as crianças estão a enfrentar. Precisamos de mais intervenção do lado pedagógico, é preciso perguntar ‘o que podemos fazer para melhorar a interpretação textual através da tecnologia?’

 

 

Tempo que as crianças passam em frente ao ecrã está relacionado com desenvolvimento mais fraco anos depois

Fevereiro 27, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Sol de 28 de janeiro de 2019.

O estudo, publicado na revista JAMA Pediatrics esta segunda-feira, encontrou uma associação direta entre o tempo que as crianças despendem em frente ao ecrã aos 2 e 3 anos e o desenvolvimento aos 4 e 5 anos.

De acordo com um novo estudo, o tempo que as crianças passam em frente aos ecrãs está diretamente ligado com um desenvolvimento mais fraco. Isto é, quanto mais tempo as crianças passam a olhar para os ecrãs pior será o seu desempenho em testes de triagem de desenvolvimento durante a infância.

O estudo, publicado na revista JAMA Pediatrics esta segunda-feira, encontrou uma associação direta entre o tempo que as crianças despendem em frente ao ecrã aos 2 e 3 anos e o desenvolvimento aos 4 e 5 anos.

Em causa está o desenvolvimento na comunicação, habilidades motoras, resolução de problemas e socialização. Os investigadores basearam esta análise na ferramenta de triagem chamada ‘Ages and Stages Questionnaire’, onde os sinais de desenvolvimento são avaliados em comportamentos como, por exemplo, ser capaz de empilhar blocos ou colocar um brinquedo em cima de outro.

Desta forma, a Academia Americana de Pediatra recomenda que as crianças entre os 2 e os 5 anos passem em frente ao ecrã apenas uma hora por dia.

“Este estudo mostra que, quando usado em excesso, o tempo em frente aos ecrãs pode ter consequências para o desenvolvimento das crianças. Os pais podem pensar em ecrãs como dar comida aos seus filhos: em pequenas doses, tudo bem, mas em excesso, tem consequências”, disse Sheri Madigan, autora do estudo, professora e investigadora na área do desenvolvimento infantil na Univeridade de Calgary, citada pela CNN.

O estudo analisou dados de 1.441 mães e crianças no Canadá. O recrutamento das mães foi feito quando estas estavam grávidas, entre 2008 e 2010, e os dados foram recolhidos entre 2011 e 2016.

As mães completaram questionários relacionados com o desempenho dos filhos em testes de desenvolvimento aos 24, 36 e 60 meses de idade e relataram quanto tempo os filhos passaram em frente a dispositivos com ecrã durante o dia.

Embora a investigação não tenha analisado de forma numérica a relação entre o tempo despendido em frente ao ecrã e o desenvolvimento, os investigadores encontraram um “associação estável” entre o tempo e a pontuação nos testes de triagem do desenvolvimento infantil que não foram explicados por outros fatores.

“Pelo que sabemos, o presente estudo é o primeiro a fornecer evidências de uma associação direcional entre tempo de ecrã e mau desempenho em testes de triagem de desenvolvimento entre crianças muito jovens”, refere o estudo.

O estudo mencionado na notícia é o seguinte:

Association Between Screen Time and Children’s Performance on a Developmental Screening Test

 

Ler histórias às crianças pode torná-las mais felizes e menos agressivas

Fevereiro 25, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Texto do MAGG de 30 de abril de 2018.

Costuma ler histórias em voz alta aos seus filhos? Se não o faz, saiba que este é um hábito que lhes pode trazer vantagens psicológicas.

por Catarina da Eira Ballestero

Basta ligar a televisão na Baby TV ou num canal do mesmo género para encontrarmos cenas de desenhos animados em que uma mãe ou um pai conta uma história ao filho para o adormecer (se tiverem filhos com um ano ou menos, é provável que estejam a ter na vossa cabeça a imagem do programa Boa Noite Ursinho).

Mas para além de momentos de qualidade entre pais e filhos e uma ótima estratégia para conseguir adormecer os miúdos, a verdade é que este hábito pode ter benefícios no desenvolvimento psicológico das crianças — e a conclusão é de uma investigação norte-americana.

O estudo intitulado “Reading Aloud, Play, and Social-Emotional Development” estabeleceu que ler em voz alta às crianças lhes pode trazer diversos benefícios comportamentais. Para além de melhorar as suas capacidades literárias, este hábito pode influenciar positivamente fatores como tristeza, agressividade e até o tempo que os seus filhos conseguem permanecer sentados e tranquilos.

Os momentos entre pais e filhos podem ajudar as crianças a controlar o seu comportamento

A investigação, que teve uma amostra de 675 famílias com crianças até aos cinco anos de idade, funcionou da seguinte forma: os pais eram gravados enquanto liam histórias em voz alta e brincavam com os seus filhos e, de seguida, essas gravações eram vistas pelos pais.

Em declarações ao “The New York Times”, Adriana Weisleder, uma das co-autoras do estudo, afirmou que “ver as reações das crianças às diferentes interações com os pais pode ser uma verdadeira chamada de atenção, um ‘abre-olhos’. Tentámos que os pais vissem o lado positivo destes momentos. É claro que os adultos podem-se sentir um pouco tontos ao verem-se a fazer vozes estranhas, mas depois também conseguiram ver o quanto os filhos adoraram esses momentos e o divertidos que foram — e isso pode ser muito motivador”.

Os resultados demonstraram que, após um ano e meio, as crianças que participaram no estudo tinham menos probabilidades de exibir problemas comportamentais como agressividade e hiperatividade.

“Na minha opinião, a mensagem-chave do estudo é percebermos que quando os pais leem e brincam com seus filhos numa tenra idade (estamos a falar de uma faixa etária entre o nascimento e os três anos), este é um hábito que tem um grande impacto no comportamento das crianças”, realçou também ao “The New York Times” Alan Mendelsohn, um dos investigadores do estudo, que acrescentou que “todas as famílias precisam de saber que quando leem, quando brincam com os filhos, ajudam-nos a aprender a controlar seu próprio comportamento”.

 

Estudo. Consumo de cafeína em chá ou café na gravidez pode ser uma atitude de risco para o seu bebé

Fevereiro 25, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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©Dreamstime

Notícia do i de 9 de janeiro de 2019.

Se está grávida e é uma consumidora assídua de cafeína então este artigo
De acordo com um novo estudo, levado a cabo por investigadores da University College Dublin, na Irlanda, as grávidas que consomem caféina, seja no café ou no chá (verde ou preto) apresentam um maior risco de ter bebés de baixo peso ou prematuros, compativamente às mulheres que se abstêm do estimulante durante a gravidez.
Em causa está o facto da cafeína restringir a circulação do sangue direcionado para a placenta, o que acaba por atrasar o crescimento do bebé.
Para o estudo, foram examinadas 941 mães e bebés. Destas, 48% tinham como principal fonte de cafeína o chá, enquanto 38% consumia café.
“Com base nas associações consistentes que observamos e porque muitas gravidezes não são planeadas, recomendamos mulheres que estão grávidas ou que desejam engravidar para pelo menos limitar o consumo de café e chá com cafeína”, disse Ling-Wei Chen, autor do estudo, citado pela Reuters.
De acordo com a investigação por cada 100 miligramas adicionais de cafeína diária durante o primeiro trimestre, o que equivale a cerca de metade de uma chávena de café, o bebé pode diminuir cerca de 700 gramas antes do nascimento, ter uma idade gestacional menor, ter menor comprimento no nascimento e dimuir a circunferência do crânio.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) já havia recomendado que as mulheres consumissem menos de 300 miligramas de cafeína por dia durante a gravidez. Contudo, o estudo, publicado no The American Journal of Clinical Nutrition, mostra que esse valor é elevado.

O estudo mencionado na notícia é o seguinte:

Associations of maternal caffeine intake with birth outcomes: results from the Lifeways Cross Generation Cohort Study

Os ecrãs são ou não inofensivos para a saúde dos mais novos?

Fevereiro 20, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Texto do Público de 21 de janeiro de 2019.

Especialistas dizem que os dispositivos electrónicos podem não ser a causa de doenças como a obesidade e depressão. Alguns pais mostram preocupações em relação ao uso dos aparelhos.

Mariana e Silva Pereira

O tempo que as crianças e jovens passam à frente dos ecrãs pode não ser tão mau como se pensa, mas é preciso ter cuidado. Quem o diz é Russel M. Viner, director do Colégio dos Pediatras britânico (Royal College of Paedriatics and Child Health), e a investigadora Neza Stiglic, num estudo publicado no início do ano pelo BMJ Journals.

A pesquisa – feita a partir da revisão de 13 trabalhos já publicados sobre a relação entre os dispositivos electrónicos e a saúde (peso e doenças respiratórias e cardíacas), saúde mental, exercício físico, dieta alimentar e sono em crianças e jovens dos 0 aos 18 anos – revelou uma ligação “moderada” entre o uso dos ecrãs e as crianças obesas ou com depressão. Também foram encontradas provas “moderadas” na relação entre o “tempo passado com dispositivos móveis” e “um maior gasto de energia, dietas inadequadas e má qualidade de vida”. Por isso, os autores propõem que se façam novos estudos, uma vez que nos últimos anos houve uma evolução enorme na utilização destes dispositivos.

Por cá, Ivone Patrão, psicóloga e investigadora do ISPA – Instituto Universitário, revela que na sua pesquisa encontra uma “clara relação entre a dependência online – nos rapazes dos videojogos e nas raparigas das redes sociais –, e as alterações no humor, no ritmo do sono, nas forma como se relacionam com os pares e com a família; o que depois se traduz em comportamentos de menor atenção, concentração, de maior irrequietude, ou até de prostração, face ao cansaço”.

A pesquisa de Russel M. Viner e a Neza Stiglic não conseguiu determinar se o uso dos aparelhos é a fonte da obesidade e depressão ou se as pessoas que sofrem destes problemas estão mais expostas a passar mais tempo em frente a um ecrã. Ivone Patrão diz que pode tratar-se de uma “comorbidade”. “Por vezes a criança ou o jovem já estavam, por exemplo deprimidos, e o estar online surge como uma estratégia de escape. Noutras situações, um hobbie passa a ocupar o dia-a-dia do jovem, que desiste de outras actividades para estar cada vez mais tempo online e para sentir o prazer que isso lhe dá”, explica.

Para Tito de Morais, autor do blogue Miúdos Seguros na Net, “a utilização excessiva de dispositivos móveis por crianças e jovens não estará na origem de patologias como a obesidade e depressão, mas contribui para [as] agravar”. O especialista acrescenta ainda que o sedentarismo será o factor que mais influencia a reprodução destas doenças.

Pais devem negociar

Dora e Augusto Silva, pais de um menino de nove e uma menina de cinco anos, que frequentam o Agrupamento de Escolas do Parque das Nações, em Lisboa, confessam viver uma “luta diária” para incutir a máxima: primeiro os trabalhos de casa, segundo as actividades de lazer (e em quantidades limitadas). Como é que o fazem? Fixam um tempo para os filhos usarem o tablet, recorrendo a um temporizador do mesmo. Assim as crianças percebem que já o estão a usar há muito tempo, justificam.

Há quem restrinja mais afincadamente a utilização de aparelhos, como é o caso de Inês Rodrigues, mãe de duas meninas de seis e nove anos, da mesma escola, que não usam os dispositivos todos os dias e só tem autorização para o fazer quando “os deveres escolares estiverem cumpridos”. A mãe também proíbe o acesso aos aparelhos fora de casa.

Os pais dizem que os miúdos passam entre meia a uma hora diária frente aos dispositivos electrónicos, mas que no fim-de-semana a média aumenta. “Pode variar de uma a quatro horas, ou mesmo mais”, confessam Dora e Augusto Silva.

Para Ivone Patrão, os pais devem adoptar uma postura preventiva. A introdução das novas tecnologias pode ser feita desde a infância, “mas com uma bandeira bem levantada”, a da “negociação dos conteúdos e do tempo de acesso”. Os pais devem adoptar um modelo de negociação, estipulando regras: “Não é pelo conflito que vai haver mudança de comportamento, mas pelo parar, sentar e negociar o que cada uma das partes pretende e está disposta a ceder”, afirma a autora do livro #GeraçãoCordão, recomendando ajuda especializada para casos extremos.

Também Tito de Morais partilha da mesma perspectiva, acrescentando que os adultos devem propôr “alternativas em termos de actividades, criando tempos de utilização [dos ecrãs] adequados”. É o que já faz Inês Rodrigues, que procura actividades fora de casa para realizar com as filhas, já Dora e Augusto Silva incentivam os mais novos à prática do desporto ou de um instrumento.

Ainda assim, o casal reconhece pontos positivos aos aparelhos electrónicos, nomeadamente o auxílio ao estudo. Inês Rodrigues também orienta as filhas para a visualização de conteúdos “de alguma forma educativos” com o objectivo de evitar a pesquisa de assuntos “vazios”.

Texto editado por Bárbara Wong

 

 

 

“Falhámos-te”: artigo de opinião sobre o assassinato de menina pelo pai

Fevereiro 6, 2019 às 3:17 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Photo by Sydney Sims on Unsplash

 

Artigo de opinião de Rui Gustavo, publicado no Expresso Curto, em 6 de fevereiro de 2019.

Chamava-se Lara. É a décima vítima de violência doméstica deste ano que ainda só tem 37 dias. Tinha dois anos e morreu às mãos do pai, que se terá suicidado depois de a matar. Antes, o suspeito já tinha degolado a ex-sogra depois de uma discussão no momento em que entregava a criança. O homem estava divorciado da mãe de Lara há dois anos, no dia do crime ia a tribunal para discutir a tutela da filha e já tinha sido alvo de uma queixa em tribunal por violência doméstica em 2017.

Mas por alguma razão que não foi ainda esclarecida, caso foi tratado como um processo de coação e ameaças e a vítima acabou por desistir da queixa. Este facto é muito importante porque violência doméstica é crime público e dispensa queixa. E acima de tudo impede que a vítima desista, mesmo que seja alvo de pressões ou de qualquer tipo de coação ou que simplesmente se canse.

Apesar de esta história ter uma carga dramática única e muito pesada porque envolve a morte de uma criança pequena, a verdade é que já a ouvimos vezes demais: as vítimas fazem queixa, os agressores são identificados, mas o sistema falha na proteção ou é lento demais e leva, como terá sido o caso, as próprias vítimas a desistir.

Bem sei que agora é fácil falar, mas, por exemplo, a mãe de Lara só teve proteção policial depois de a própria mãe ter sido morta pelo ex-marido à facada. Ou seja, foi preciso chegar a uma situação extrema para o sistema mostrar alguma (a mínima) proatividade. Já antes a PSP tinha feito um plano de segurança para a vítima, que nunca foi posto em ação. Porquê? Porque é que as autoridades, na esmagadora maioria das vezes, nunca conseguem prevenir este tipo de casos mesmo que saibam que algo de mau pode acontecer?

Seria fácil apontar o dedo aos tribunais, ao Ministério Público ou à polícia, mas a verdade é que a culpa é de todos nós. É cultural. A violência doméstica pode não ser tolerada como era há vinte ou trinta anos, mas ainda é permitida. Porque o combate a este crime ainda não é uma prioridade. Porque faltam meios para tudo, e também para esta área específica. Ou porque as mentalidades não mudaram assim tanto. Como uma reportagem da SIC sobre casos de violação já tinha deixado bem evidente.

Pelas contas do Observatório de Mulheres Assassinadas, só no início deste ano já morreram nove mulheres em circunstâncias semelhantes. Lara é a décima. Em 2018, foram assassinadas 28 mulheres e, segundo dados do Observatório da UMAR (União de Mulheres Alternativa e Respostas), “503 mulheres foram mortas em contexto de violência doméstica ou de género” entre 2004 e o final de 2018. ”São números preocupantes”, constatou Rosa Monteiro, secretária de Estado da Igualdade à Renascença.

Depois de matar a ex-sogra, Pedro Henriques andou um dia inteiro fugido até telefonar para o 112 a dizer que tinha matado a filha e onde é que ela podia ser encontrada. O carro foi detetado em Corroios, a quatro quilómetros do local onde se deu o primeiro homicídio. A criança não tinha sinais de violência e terá sido asfixiada. De seguida e ainda sem saber como, o suspeito foi para Castanheira de Pera e matou-se. Como é que conseguiu escapar à policia durante um dia inteiro? Teve ajuda de alguém? E porque é que o caso não foi tratado como violência doméstica? E porque é que voltamos a falhar? Desculpa, Lara.

O caso está na primeira página de todos os jornais diários de hoje. O Público nota que “85 por cento dos casos de violência doméstica não resultam em acusação”; o Jornal de Notícias revela que “Só num ano Estado apoiou 18 órfãos de violência doméstica”; o Diário de Notícias, tal como Expresso Diário também já tinha noticiado, explica que “MP não responde a alerta da PSP sobre a violência do homicida da Amora”; O Correio da Manhã diz que “Monstro estrangula filha com as próprias mãos” e o I faz contas para dizer que “já morreram mais mulheres proporcionalmente em Portugal do que no Brasil”. O Observador reuniu “Quatro relatos que ajudam a perceber o crime no Seixal”.

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