A Educação e as relações do mundo virtual

Abril 21, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , ,

Texto do site http://uptokids.pt/ de 10 de abril de 2017.

A Educação e as relações do mundo virtual

É frequente ouvirmos o quanto as crianças de hoje são diferentes das crianças de há uma ou duas décadas atrás e como tem sido difícil adaptar relações, educações e o próprio sistema de ensino, que se mostra cada vez mais desadequado aos interesses e vontades desta nova geração. Na verdade, se educar já era por si só um grande desafio, com todas as alterações desta geração que nasce de olhos abertos e pronta para a vida, tornou-se uma tarefa especialmente delicada.

São realmente muitas as mudanças que esta geração do novo século apresenta. Embora por vezes seja difícil para as famílias compreenderem esta nova forma de se ser criança e jovem, diria que em muitas coisas mudaram para melhor. Maior consciência de si próprios, maior liberdade de ação e menos preconceitos! Que bom, que esta geração nos trouxe essa maravilhosa capacidade de aceitação da diferença, que reflete sempre uma maior possibilidade de aceitação de nós próprios. Este seria um passo gigante para a felicidade do ser-humano, se não tivesse sido acompanhada pelo desenvolvimento de um novo tipo de relacionamentos, infelizmente bem menos saudável e por uma compreensão distorcida do que realmente é liberdade.

O mundo virtual alterou por completo a forma como as pessoas se relacionam e atualmente estamos a assistir a uma espécie de “solidão acompanhada”. Os pais estão pouco em casa, as famílias alargadas são cada vez mais uma raridade, as crianças já não brincam na rua e acabam fechadas em quatro paredes à espera que alguém chegue a casa e lhes dê alguma atenção. Sem tempo, cansadas e sem paciência as famílias acabam por incentivar os ipads, as playstations e as redes sociais porque assim também têm algum sossego. Na verdade não há tempo nem disponibilidade para estar em relação.

O que são as “Relações líquidas”?

Nesta conjuntura assistimos cada vez mais ao desenvolvimento de “relações líquidas”, nas quais a confiança, a intimidade, a presença e o olho no olho, escorrem por entre os dedos das mãos e não permitem que se solidifiquem as relações.

Comprometemos o vínculo na união entre as pessoas e sem vínculo desenvolvemos relações frias, distantes, mais robotizadas e bem menos sentidas. Estamos mais permeáveis à imagem e aos “likes”, numa superficialização das relações que não pode ser reconfortante para ninguém. Vivem na ilusão de estarem acompanhados, sempre no burburinho e corre corre das redes sociais, mas na verdade sentem-se muito sozinhos.

Nesta solidão social e familiar, facilmente percebemos a razão da tristeza, abatimento, falta de energia, falta de motivação e depressão que avassala a vida de muitas crianças e jovens.

Esta semana numa consulta de acompanhamento familiar uma jovem dizia exatamente isso à sua mãe: “Não percebes porque é que eu estou sempre no telemóvel? Eu sinto-me sozinha, muito sozinha! Não compreendes a minha agressividade?! Nós nem conseguimos jantar em família a horas decentes, mas consegues ter tempo para me chatear constantemente com a arrumação do quarto e com as notas dos testes. Imagina então que eu sou como uma mesa. Quanto mais forte lhe bates mais te dói a tua própria mão… Se lhe bateres devagar a tua mão não te vai doer!

A verdade é que as redes sociais, a internet e os jogos de computador têm sido os verdadeiros refúgios desta geração, que se sente acima de tudo sozinha… As redes sociais permitem-lhes manter algum contacto com o mundo e com as pessoas, ainda que virtual, mas distorcem a noção de relacionamento interpessoal e aumentam o medo e a ansiedade das relações próximas, intimas, verdadeiras…

Como dizia Fernando Pessoa no seu poema Solidão – “sinto-me livre mas triste, vou livre para onde vou, mas onde vou nada existe”!

Não, não vamos voltar atrás no tempo, mas por favor vamos cuidar das nossas relações!

 

 

 

Tribunal obriga mãe vegan a vacinar os filhos

Abril 20, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , ,

Notícia do https://www.publico.pt/ de 7 de abril de 2017.

As crianças, de quatro e dois anos, vão receber vacinas contra difteria, poliomielite, meningite, sarampo, papeira e rubéola. Reuters/KAROLY ARVAI

 

Diogo Magalhães

A mãe não vacinava os filhos porque acredita que as vacinas não são “vegan” e que as suas crianças têm “fortes sistemas imunitários”.

Uma mãe vegan que afirma que “nenhuma vacina é vegan” foi forçada pelo Tribunal Superior de Justiça, em Inglaterra, a vacinar as crianças, uma de quatro e outra de dois anos, escreveram vários meios de comunicação ingleses. O pai das crianças foi quem fez o pedido ao tribunal.

“Lamento muito que a mãe considere a decisão errada, mas o meu dever é claro” afirmou o juiz Mark Rodgers. As duas crianças vão receber vacinação contra doenças como difteria, poliomielite, meningite, sarampo, papeira e rubéola.

A mãe, cuja identidade não foi revelada, era contra a decisão do Tribunal Superior de Justiça, porque “nenhuma vacina é vegan”. “Não é natural ser-se injectado com elementos metálicos e, como vegan, vai contra as minhas crenças os meus filhos serem injectados com algo que cresce em células animais ou algo que foi testado em animais”, disse, citada pelo The Telegraph.

A mãe não vacinava os seus filhos porque também acredita que ambos têm “fortes sistemas imunitários que as ajuda a protegerem-se de doenças”.

O filho mais velho chegou a ser vacinado a certa altura, mas a mãe disse que, como resultado, ele teve imensa tosse, eczema e dermatite seborreica, escreveu o Daily Mail. “O que me apercebi é que, sim, as vacinas funcionam às vezes, mas existe um risco com a vacinação”, disse a mãe ao tribunal.

Foi o pai das crianças quem fez o pedido ao tribunal para que os filhos fossem vacinados e diz que a mãe é “obsessiva, super protectora e com o pensamento limitado”. O pai disse também que a mãe desconfiava dos “métodos da medicina convencional”, citou o The Telegraph.

Num julgamento que não correu a seu favor, a mãe ainda tentou, mas sem sucesso, que um médico fosse depor a favor das suas crenças.

 

 

Mais de 95 mil crianças e jovens não estarão vacinados contra o sarampo

Abril 18, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , ,

Notícia do https://www.publico.pt de 17 de abril de 2017.

Profissionais de saúde também estão em grupo vulnerável de uma doença que pode matar Rui Gaudêncio

Pais que se esqueceram de vacinar filhos, pessoas em situação económica vulnerável ou imigrantes em situação irregular preocupam especialistas. Há 21 casos confirmados.

Joana Gorjão Henriques

Pais que perderam a percepção do risco e se esqueceram de vacinar os filhos. Pais que têm difícil acesso à saúde por razões económicas ou estão em situação irregular em Portugal. Estrangeiros e portugueses que são contra as vacinas. Embora não se saiba o número exacto, cerca de 5% das crianças e jovens até aos 18 anos não estão vacinados contra o sarampo, estima a Direcção-Geral de Saúde (DGS).

Tendo em conta que, de acordo com as estimativas do Instituto Nacional de Estatística (INE), residiam em Portugal, em 2015, cerca de 1 milhão e 900 mil crianças e jovens até aos 18 anos, cerca de 95.600 indivíduos nessa faixa etária (os tais 5%) não estarão vacinados.

Ana Jorge: poderá ser necessário antecipar vacinação de bebés

Este é o perfil de quem compõe as “bolsas de não-vacinados” que estão a preocupar os especialistas, numa altura em que os casos de sarampo confirmados pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge já chegam aos 21, informou a DGS em comunicado esta segunda-feira à noite, e um ano depois de a doença ter sido declarada eliminada em Portugal. Vários outros doentes estão em investigação.

Ao final do dia desta segunda-feira, o director-geral da Saúde, Francisco George, questionou os “direitos e deveres” dos pais que não fazem vacinação dos filhos pois “essa decisão não põe em risco apenas as próprias crianças”, tem “um reflexo na comunidade”. Também disse que estava a ser estudada a hipótese de baixar a idade da primeira vacina para antes dos 12 meses.

Actualmente, a vacina do sarampo é administrada em duas doses: uma aos 12 meses e uma segunda aos cinco anos. O grupo mais vulnerável é o das crianças entre os 6 e os 12 meses, “pois já não têm os anticorpos maternos e ainda não fizeram a primeira dose”, afirmou ao PÚBLICO Maria do Ceú Machado, que foi Alta Comissária da Saúde e directora do departamento de Pediatria do Hospital Amadora-Sintra e foi nomeada no mês passado para a presidência do Infarmed.

95% vacinados

Teresa Fernandes, da equipa de coordenação do Programa Nacional de Vacinação (PNV) da DGS, referiu ao PÚBLICO que a percentagem de 95% de pessoas vacinadas corresponde a uma média nacional, mas sublinhou que há pequenas comunidades, a nível local, com taxas mais altas de não-vacinados onde o risco aumenta.

Estas comunidades estão em bairros ou são famílias, são “pequenas populações”, afirmou. A DGS sabe onde estão as crianças que não cumpriram o PNV, mas ao PÚBLICO a especialista preferiu não especificar a sua dispersão geográfica para não lançar o pânico. “A nível local e regional estão a ser desenvolvidas acções” de sensibilização para conseguir a sua vacinação, acrescentou.

As “bolsas de não-vacinação” preocupam os especialistas, já que, como explicou Ricardo Mexia, da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública, a existência de um grupo que não esteja vacinado aumenta a probabilidade de contágio e de propagação da doença.

Em 2001, a taxa de vacinação era de 98% e em 2007 tinha baixado para 95%, lembra Ricardo Mexia. A vacina do sarampo tem “imunidade de grupo”, ou seja, têm de estar mais de 95% das crianças vacinadas para a população estar protegida, explica, por seu lado, Maria do Céu Machado, actualmente directora do departamento de Pediatria do Hospital Santa Maria.

Teresa Fernandes revelou ainda que as taxas mais baixas da cobertura da vacina foram detectadas sobretudo em crianças que tinham sete anos em 2016 e que não receberam a segunda dose.

Para esta especialista, apesar de, a nível europeu e mundial, existirem pais que não vacinam os filhos por serem contra, em Portugal esse fenómeno ainda não gera preocupação. Também Luís Varandas, da Comissão de Vacinas da Sociedade de Infecciologia Pediátrica e da Sociedade Portuguesa de Pediatria, não o considera problemático. “Podemos especular sobre as razões do reaparecimento [do sarampo] mas uma delas prende-se com a própria doença que é altamente contagiosa e não precisamos de muitos casos para se propagar”, comenta. “O outro aspecto são as bolsas de não-vacinação em termos europeus, porque há muito sarampo na Europa. E outro é a mobilidade: alguém que está em período de incubação e se desloque, facilmente transmite a doença. Se todos os anos temos 1% da população que não está vacinada, ao fim de cinco anos temos uma pool de pessoas não imune relativamente alto.”

Clusters de estrangeiros”

Já Maria do Ceú Machado diz que há “clusters de estrangeiros (sobretudo belgas e alemães) e alguns portugueses que se dizem esclarecidos”, nomeadamente um grupo nos arredores de Lisboa, que opta pela não-vacinação.

Segundo o Centro Europeu de Controlo de Doenças, o sarampo cresceu na Europa e quase todos as situações terão ligação ao surto que começou na Roménia em Fevereiro de 2016, país que lidera o número de surtos com mais de quatro mil casos, diz a Lusa. A agência refere que nos primeiros quatro meses do ano houve mais casos de sarampo em Portugal do que na última década.

As razões do reaparecimento do sarampo em Portugal ainda estão a ser analisadas. Francisco George lembrou que é necessária uma pesquisa grande já que o período em que pode haver contágio antes de aparecerem as erupções na pele é de até quatro dias e a incubação pode chegar às três semanas.

Só a partir de 1990 é que a vacina do sarampo foi generalizada em Portugal – por isso quem nasceu entre 1974 e 1990, em princípio, só recebeu uma dose. Até 1974, quando foi introduzida a vacina do sarampo no PNV, a maioria dos adultos contraía sarampo, pelo que nessa faixa etária há mais pessoas imunes. Neste momento, as recomendações são uma dose para os adultos. Em caso de dúvida sobre se se está ou não vacinado, deve-se vacinar, aconselha Teresa Fernandes.

Grupos vulneráveis

Além das pessoas que não estão vacinadas e das crianças até aos 12 meses, os profissionais de saúde e pessoas que não tiveram segunda dose estão entre os grupos vulneráveis, afirma Luís Varandas. “E quanto maior o tempo de contacto, maior a probabilidade de contrair a doença.”

A equipa do PNV está a chamar as crianças que não estão vacinadas. A vacinação não é 100% eficaz, mas a probabilidade de alguém vacinado apanhar sarampo baixa significativamente – além de se tornarem menos graves os sintomas, como febre, erupções cutâneas, tosse ou conjuntivite. O sarampo é uma das principais causas de morte de crianças no mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). As encefalites, pneumonia e otites que degeneram em surdez são algumas das consequências mais perigosas.

A Teresa Fernandes, da DGS, rejeita a ideia de epidemia. Como a doença foi declarada eliminada pela OMS, “há um número de casos acima do esperado”. Também Luís Varandas não acredita num surto, mas diz que ” vai haver mais casos”.

Notícia corrigida: é encefalites e não encefalias

 

 

 

Vacinar ou não vacinar as crianças? Vale a pena perguntar?

Abril 17, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , ,

Texto do http://observador.pt/ de 22 de março de 2015.

Ana Cristina Marques

Vera Novais

Andreia Reisinho Costa

23 casos de sarampo levam o diretor-geral de Saúde a admitir uma epidemia. DGS alerta para a necessidade de se vacinar as crianças. Neste artigo ouvimos os argumentos de quem vacina e não vacina.

(Este artigo foi inicialmente publicado a 22 de março de 2015 na sequência da moda anti-vacinação na Europa e nos EUA e foi atualizado esta segunda-feira, 17 de abril, depois de o diretor-geral de Saúde ter admitido a existência uma epidemia de sarampo em Portugal)

“Assim que nascem, as crianças recebem logo vacinas. É dar doenças para que os corpos consigam reagir e ganhar imunidade. Isto é uma aberração”. Ágata Mandillo não se arrepende da escolha que fez. É mãe de duas meninas de 12 e nove anos que não são vacinadas, de todo. “Para mim, não é óbvio dar vacinas só porque sim”, explica ao Observador, defendendo o “mínimo de interferências artificiais possíveis” nos corpos das filhas. Esta mãe, de 31 anos, recebeu apenas algumas vacinas na infância. A escolha, ponderada pelos pais, era muito mal vista na época, especialmente pelos avós, ambos médicos. “Era uma atitude ainda mais marginal na altura”.

As filhas de Ágata Mandillo fazem parte de uma minoria em Portugal, que tem uma das maiores taxas de vacinação do mundo. Mas os movimentos de antivacinação na Europa e nos Estados Unidos têm mostrado que consequências podem ter a recusa vacinal. Nos Estados Unidos, há pelo menos sete surtos distintos de sarampo espalhados por diversos Estados e, no final do mês de fevereiro, morreu uma criança na Alemanha vítima desta doença. A Alemanha é um dos países em que a taxa de vacinação contra o sarampo está abaixo da recomendada pela Organização Mundial de Saúde.

Os pais devem procurar informar-se sobre a vacinação, afirma ao Observador o presidente da Comissão de Vacinas da Sociedade de Infecciologia Pediátrica da Sociedade Portuguesa de Pediatria (SIP/SPP), Luís Varandas. “No entanto, é preciso ter algum cuidado com o que se lê e onde se lê”, alerta. “Existe muita informação falsa a circular que os pode deixar algo confusos.” O médico não conhece nenhum pediatra que desaconselhe o uso de vacinas, nem encontra justificação para que isso pudesse acontecer.

“As vacinas são dadas na altura mais conveniente para proteger as crianças”, explica ao Observador o presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública (ANMSP), Mário Jorge Santos. A seguir à melhoria da qualidade da água e do saneamento básico, a vacinação é o fator mais importante para a redução da mortalidade infantil, acrescenta o médico. “A vacina corresponde a uma prioridade preventiva e é a forma de evitar doenças que sem essa vacinação podem atingir uma criança ou um jovem”, diz ainda o pediatra João Gomes Pedro. “Vivemos cada vez mais uma medicina preventiva destinada a evitar males maiores.”

Etelvina Calé, consultora na Direção de Serviços de Promoção da Saúde e Prevenção da Doença, na Direção-Geral de Saúde (DGS), considera que, embora o Plano Nacional de Vacinação não seja obrigatório, é “fortemente recomendado”, porque é a medida que tem melhor relação custo-benefício em questões de saúde. A médica lembra que “as vacinas [do plano] são universais e gratuitas”. Isto quer dizer que todas as pessoas que residam em Portugal podem ser vacinadas, mesmo que não sejam cidadãos nacionais, sem precisarem de prescrição médica e sem pagarem nada pelas vacinas do Plano Nacional de Vacinação (PNV).

Apesar das recomendações oficiais, Ana (nome fictício), de 36 anos, também escolheu um caminho semelhante ao de Ágata Mandillo. A vida passada entre Portugal e a Holanda, país onde existem movimentos antivacinação fortes, ajudou a fomentar uma atitude crítica, pelo que a mãe de dois rapazes com 14 e oito anos optou por fazer um “percurso de vacinação próprio”, em vez de seguir o Plano Nacional de Vacinação. “Procurei entidades que não aconselham nem desaconselham a vacinação, mas que convidam os pais a tomar uma decisão responsável.” Por esse motivo, escolheu que vacinas dar e não dar aos filhos — recusou-se, por exemplo, a administrar a do sarampo.

O sarampo é uma doença altamente contagiosa e sem cura, mas pode ser prevenida pela imunização com as duas doses da vacina tríplice (contra sarampo, papeira e rubéola). Na Europa, os movimentos antivacinação têm reduzido a taxa de cobertura das vacinas e aumentado os casos de sarampo em alguns países. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2008-2009 houve surtos de sarampo na Alemanha, Áustria, Bósnia-Herzegovina, Bulgária, Espanha, França, Itália e Polónia.

A Alemanha vive agora o maior surto de sarampo dos últimos dez anos, com quase 600 casos. Este surto, que causou a morte de uma criança de 18 meses há menos de um mês, já provocou um aceso debate sobre a possibilidade de tornar a vacinação compulsiva num país onde ela não é obrigatória, tal como escreve a BBC. O perigo de contágio devido à não-vacinação levou a DGS a emitir um comunicado alertando todos aqueles que decidam viajar, mesmo que para a Europa, a terem a vacina do sarampo em dia.

Também nos Estados Unidos se vive o maior surto de sarampo dos últimos 15 anos. A situação que se iniciou num parque de diversões da Disney, na Califórnia, já atingiu mais de cem pessoas desde dezembro de 2014. Esta doença tinha sido considerada eliminada dos Estados Unidos no ano 2000, mas isso não quer dizer que a vacinação possa ser interrompida, porque a doença ainda não foi erradicada do planeta. O avanço rápido do surto deve-se a falta de vacinação ou à vacinação incompleta nos sete estados afetados, segundo um estudo divulgado pelos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) norte-americano. Só desde o início deste ano, ocorreram mais três surtos – Illinois, Nevada e Washington – não relacionados com o do parque temático da Califórnia. O país tem neste momento pelo menos sete surtos distintos.

O objetivo da OMS era erradicar o sarampo até 2015, mas a meta ficou longe de ser cumprida. Em Portugal, o sarampo foi considerado eliminado em 2004 e desde essa altura todos os casos (22) foram importados ou derivaram destes (casos secundários), diz Etelvina Calé (DGS). Também nos Estados Unidos o atual surto da Califórnia poderá ter tido origem em alguém que contraiu a doença fora do país, mas a fonte ainda não foi identificada. A falta de vacinação nos países ditos desenvolvidos deve-se sobretudo a movimentos antivacinação com motivações várias, mas há países onde as crenças religiosas têm impedido a vacinação das crianças, como a Nigéria, o Afeganistão ou o Paquistão – os únicos países endémicos de poliomielite.

“Não vacinar é um ato de negligência”

Embora não se conheçam, as razões que levam as duas mães a ser adeptas da não-vacinação são semelhantes. Ana alega falta de confiança nas vacinas e questiona a sua composição, com receio que sejam tóxicas. Lembra também um estudo que relacionou a vacina do sarampo com problemas intestinais nas crianças e com o aparecimento do autismo. Já Ágata Mandillo diz que, para ela, “a ciência ainda não conseguiu provar que as vacinas fazem bem nem que não fazem mal”.

A ideia de que os excipientes das vacinas são tóxicos não são mais do que uma “crendice”, diz o médico de saúde pública Mário Jorge Santos. Esses componentes têm pouca interação com o organismo. “São escolhidos porque são os mais seguros.” O pediatra João Gomes Pedro atribui esses receios a “várias fantasias e medos”, sobretudo quando se associa as vacinas ao autismo sem que haja “qualquer evidência científica que relacione as duas coisas”.

A ligação entre o autismo e a vacina tríplice, que inclui a vacina contra o sarampo, foi feita em 1998 por Andrew Wakefield num estudo publicado na conceituada revista médica Lancet. Muitos cientistas questionaram a opção de publicação de um estudo que incluía apenas 12 crianças e que, portanto, não poderia ser conclusivo. Ainda assim, várias equipas diferentes tentaram replicar o estudo sem nunca terem obtido o mesmo tipo de resultados. Mais tarde descobriu-se que os dados apresentados tinham sido manipulados e que o autor tinha recebido dinheiro de partes interessadas para publicar esta informação corrompida. O artigo científico foi considerado fraudulento e o autor completamente descredibilizado. Ainda assim, há quem continue a usar esta publicação para fazer valer os seus argumentos.

Na contestação das vacinas, Ana vai mais longe dizendo que acredita ser mais vantajoso para as crianças apanharem as próprias doenças do que receberem vacinas. Mas não ignora que há “doenças mais perigosas do que outras”, pelo que faz sentido que “a sociedade queira defender-se disso”. Em causa está a ideia de que o sistema imunitário deve travar uma batalha sozinho, sem a ajuda das vacinas: “Sinto que o sistema imunitário funciona bem se a pessoa se alimentar bem, fizer desporto e dormir as horas certas”. E reitera: “Prefiro que o meu filho tenha a doença do que a vacina”.

Uma pessoa que tenha uma alimentação equilibrada, faça exercício físico e mantenha um estilo de vida saudável terá um sistema imunitário melhor preparado para lidar com as infeções, concorda Mário Jorge Santos. Mas rejeita a afirmação de que ter a doença é melhor. Até porque muitas destas doenças podem matar ou provocar incapacidades permanentes. O médico diz que o efeito que uma vacina tem no sistema imunitário é equivalente ao efeito que teria uma doença, mas sem os riscos dessa doença. As reações adversas da vacinação, segundo a DGS, não vão normalmente além do inchaço, comichão e vermelhidão na zona da picada ou de uma febre passageira. Mais raramente reportam-se casos de cefaleias, choro prolongado, mal-estar ou reações anafiláticas.

O médico de saúde pública afirma sem pudor que “não vacinar é um ato de negligência”. “Os pais têm o dever de zelar pelo superior interesse dos filhos, de garantir o bem-estar da criança.” Não vacinar os filhos não é uma opção que deva ser tomada pelos pais, “eles não são donos dos filhos”. Além de colocarem os próprios filhos em risco, os pais que optam pela não-vacinação colocam outras crianças em risco também, porque o sucesso da vacina não chega aos 100% (dependendo da vacina pode estar entre 95 e 97%). Nestes casos o que garante a proteção das crianças é a imunidade de grupo e isso só se consegue com taxas de vacinação superiores a 95% dos elementos de um grupo (por exemplo, crianças numa escola).

O pediatra Luís Varandas considera que não vacinar os filhos “é uma atitude egoísta”. Os pais que decidem não vacinar só continuam a ter os filhos em segurança porque as crianças vacinadas lhes garantem a imunidade de grupo. “Mas, a médio/longo prazo é uma atitude perigosa pois irão criar-se bolsas de crianças/adultos suscetíveis às doenças e que, se o agente infeccioso for introduzido na comunidade, poderá dar origem a surtos [da doença].”

As queixas das duas mães que escolheram não vacinar os filhos centram-se também no Plano Nacional de Vacinação. Para Ana o plano contempla muitas vacinas, razão pela qual “é uma violência muito grande” e tem interesses económicos e políticos à mistura. “Se o Estado dá as vacinas, não pode haver empresas a lucrarem com isso”, argumenta, salientando que é uma questão de ética (ou falta dela). Ágata Mandillo concorda com os mesmos argumentos e defende que o princípio das vacinas é bom. O mesmo não pode dizer do PNV.

Uma posição completamente oposta tem Catarina Oliveira, mãe de uma bebé com 19 meses. “Confio totalmente em quem decide as vacinas do plano.” A consultora de comunicação, de 31 anos, confessa que não seria capaz de deixar de proteger a filha através da imunização: “Sabemos que há vacinas que salvam vidas. Por alguma razão existe um plano nacional para os primeiros anos de vida.”

O presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública lamenta que algumas vacinas sejam tão caras, mas admite que os custos de desenvolvimento de uma vacina podem ser muito elevados. Porque estão incluídos não só o estudo da vacina que foi aprovada, mas de todas aquelas que durante o processo tiveram de ser descartadas por não cumprirem os objetivos a que se propunham. No entanto não tem dúvidas em afirmar que na relação custo-benefício as vacinas são muito mais vantajosas. É mais barato vacinar todas as crianças do que tratar as doenças que possam vir a ter. “Como o Plano Nacional de Vacinação se compra em larga escala, as vacinas ficam muito mais baratas.”

Além do PNV existem algumas vacinas facultativas que são recomendadas por alguns médicos pediatras. Sobre essas, Mário Jorge Santos considera que é preciso avaliar se as doenças constituem realmente um perigo para a saúde pública, o custo que têm, a eficácia e os estudos que existem sobre elas. Além disso, acha que quem deve decidir sobre a saúde pública são os médicos desta especialidade. “Não me atreveria a opinar sobre como um cirurgião deveria fazer uma cirurgia.”

Escolas ajudam à vacinação

Considerando que imunização de grupo funciona quando pelo menos 95% da comunidade está vacinada e que a maior parte destas doenças preveníveis por vacina afetam mais as crianças, o contexto escolar revela-se de particular importância. O Ministério da Educação e Ciência recomenda que seja verificado o boletim de vacinas da criança no ato da matrícula. Mas mesmo que as vacinas não estejam em dia, a criança não é impedida de ir à escola. O conselho é que os pais sejam alertados para a situação assim como as autoridades de saúde.

Ágata Mandillo e Ana acusam as escolas de “exigirem” que as crianças tenham as vacinas. “Não existe nenhuma lei que obrigue os pais a vacinar e nenhuma escola pode exigir isso”, diz Ana. “Não fazemos apenas aquilo a que somos obrigados. Temos valores mais elevados do que as obrigações”, contrapõe Mário Jorge Santos. Etelvina Calé, da Direção de Serviços de Promoção da Saúde e Prevenção da Doença, acrescenta que se trata de uma “parceria entre a educação e a saúde”, em que os pais são sensibilizados para a importância da vacinação. O médico de saúde pública refere que é importante fazer ações nas escolas onde há grupos de crianças cujos pais pertencem a comunidades que preferiam não vacinar. “Os pais que optam pela não-vacinação não estão bem informados, mas quando são elucidados preferem vacinar.”

Catarina Oliveira nunca colocou a hipótese de não vacinar a filha e também não imaginava que fosse possível inscrever crianças na escola se não tivessem as vacinas em dia. Lembra ainda que a única pessoa que conheceu que nunca tivesse vacinado os filhos foi uma enfermeira com quem um dia se cruzou. “Ela considerava que as vacinas não eram assim tão importantes e que o organismo das crianças tinha a capacidade de se defender”, conta a consultora de comunicação. O pediatra Luís Varandas considera que “as vacinas estão a ser vítimas do seu próprio sucesso”. Como as doenças já não matam tantas pessoas como no passado, as pessoas consideram que já precisam proteger-se. Lembre-se que a varíola, a doença contra a qual foi criada a primeira vacina, foi considera erradicada pela OMS em 1980. A erradicação desta doença só foi possível graças à vacinação.

O Observador contactou alguns agrupamentos escolares públicos e os responsáveis não se lembram de casos em que as famílias não quisessem vacinar as crianças, apenas algumas situações de vacinas em atraso por esquecimento. Tirando o encaminhando das famílias para o centro de saúde, não tem outros procedimentos previstos. E nos estabelecimentos de infância da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, ainda que a criança seja recomendada a fazer a vacinação completa, não é impedida de frequentar a escola. O único impedimento é a não-apresentação de “uma declaração médica comprovativa de como a criança pode frequentar o estabelecimento”.

Os casos de crianças que se tentam inscrever nas escolas públicas ou privadas são ainda tão raros que António Ponces de Carvalho, presidente da Associação de Jardins Escola João de Deus, nunca esteve perante uma situação destas. “Tentamos que as crianças não entrem sem ter as vacinas em dia, por uma questão de proteção da criança e dos outros.” Caso se visse numa situação em que uma família tentasse inscrever uma criança não vacinada admite que convocaria uma reunião com outros pais e pediria pareceres médicos.

O pedido de declarações médicas às crianças não vacinadas pode ser uma tentativa de salvaguarda da escola. Ágata Mandillo não gostou quando lhe pediram uma minuta “em que a pessoa se responsabilizava judicialmente pelos danos causados por aquela opção”. A jurista Paula Policarpo considera que esta atitude da escola pode ser excesso de zelo. A verdade é que, caso os pais tenham sido avisados sobre os riscos da não-vacinação, podem ser responsabilizados por um surto da doença na escola. Mas para isso é preciso provar que o surto teve origem na criança não vacinada. A jurista lembra ainda que assinar uma declaração não evita que as outras crianças da escola fiquem em risco.

Mas não é só no acesso à escola que é exigido o boletim de vacinas. Também os candidatos a funções públicas devem ter as vacinas em dia sob pena de serem excluídos do concurso. Ao médico de saúde pública, Mário Jorge Santos, não lhe parece estranho. “Ninguém é obrigado a ser funcionário público.” E acrescenta que conhece empresas privadas que exigem aos trabalhadores não só as vacinas do PNV, mas outras. É uma forma de reduzir o absentismo no trabalho.

O certo é que, atualmente, Ágata Mandillo confessa que se sente bem com as decisões que tomou e está convencida que ambas as filhas têm um “ótimo sistema imunitário”. São duas crianças muito saudáveis, diz, que tiveram varicela e constipações. “Estou contente com as minhas escolhas, apesar do preço que tive de pagar.” A mãe refere-se ao estigma em torno da não-vacinação, contra o qual continua a debater-se hoje em dia. Porque o tema ainda é tabu.

“O que faz confusão é não haver discussão sobre isso, ser um dogma”, atira Ágata Mandillo, dizendo que é a falta de debate que faz com que algumas pessoas tomem decisões mais radicais. “A vacinação não é debatida. Faz-me confusão que ainda hoje não se consiga falar sobre isso”. A gerente do restaurante não tem pretensões de estar correta. “Fiz uma escolha e acho que devo ser respeitada por isso.”

Ana aborda o mesmo problema e fala criticamente na relação entre doutores e pacientes: “Hoje em dia pomos muito da nossa saúde na mão dos médicos e da indústria farmacêutica.” E refere que em Portugal, ao contrário da Holanda onde viveu muitos anos, existe uma cultura muito “enraizada” de tomar remédios para tudo. O pediatra João Pedro Gomes defende que a “intervenção dos profissionais de saúde não deve ser traumatizante, eles devem respeitar as opiniões e sensibilidades dos pais, mães e famílias”. Mas também considera que o papel dos profissionais de saúde, como médicos e enfermeiros, passa por explicar o que é a evidência científica.

O Observador tentou contactar outros profissionais que recomendam alternativas às vacinas, como pediatras homeopatas ou homeopatas que trabalham com crianças, mas estes recusaram-se a responder alegando falta de tempo ou receio de receberem represálias dos leitores. A Associação Portuguesa de Homeopatia e a Associação para a Medicina Antroposófica em Portugal também não se mostraram disponíveis.

Ainda esta semana morreu, na Austrália, um bebé de quatro semanas com tosse convulsa. Uma situação que começa a ser cada vez mais frequente também na Europa. A criança só recebe a primeira vacina contra a doença aos dois meses e os pais podem ser os principais transmissores da doença. Por isso, está em estudo a recomendação de vacinar jovens adultos para reduzir a possibilidade de passarem a doença aos filhos.

A vacinação pretende proteger ao longo da vida ou, pelo menos, durante os períodos em que as crianças e adultos estão mais sensíveis à doença. “Um mundo sem vacinas, é um mundo aterrorizador para crianças e jovens”, insiste Mário Jorge Santos.

 

 

 

Número de crianças usadas em ataques pelo Boko Haram triplicou

Abril 16, 2017 às 6:44 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , ,

Notícia do http://www.jn.pt/ de 12 de abril de 2017.

O número de crianças usadas em atentados suicidas no conflito na região do Lago Chade triplicou para 27 nos primeiros três meses deste ano em comparação com o mesmo período de 2016, segundo a ONU.

O aumento “reflete uma tática alarmante utilizada pelos revoltosos”, o grupo extremista nigeriano Boko Haram, refere um comunicado do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), a propósito de um relatório da organização divulgado hoje.

O relatório, com o titulo “Vergonha silenciosa: Dar voz às crianças atingidas pela crise do Lago Chade”, revela que 117 crianças, na maioria raparigas, foram usadas desde 2014 para realizar ataques bombistas em locais públicos na Nigéria, Chade, Níger e Camarões: quatro em 2014, 56 em 2015, 30 em 2016 e 27 no primeiro trimestre de 2017.

“Nos primeiros três meses deste ano, o número de crianças usadas em ataques bombistas é quase igual ao total do ano passado – trata-se da pior utilização possível de crianças em conflitos”, afirmou Marie-Pierre Poirier, diretora regional da UNICEF para a África Ocidental e Central, citada no comunicado.

“Estas crianças são vítimas, não criminosos. (…) Obrigar ou ludibriar estas crianças levando-as a cometer um ato tão aterrador é inaceitável”, adiantou.

O relatório é lançado três anos depois do Boko Haram ter raptado 276 estudantes de uma escola secundária de Chibok, no nordeste da Nigéria, na noite de 14 para 15 de abril de 2014.

O rapto provocou indignação e trouxe atenção mundial para a rebelião do grupo ‘jihadista’, que já causou pelo menos 20 mil mortos e mais de 2,6 milhões de deslocados desde 2009.

“O relatório dá conta de relatos perturbadores de crianças que foram mantidas em cativeiro às mãos do Boko Haram e mostra como estas crianças são encaradas com grande desconfiança quando regressam às suas comunidades”, refere o comunicado.

Segundo a UNICEF, “as raparigas, os rapazes e mesmo crianças pequenas são vistos, cada vez mais, como uma ameaça em mercados e postos de controlo, onde se desconfia que possam transportar explosivos”.

Crianças intercetadas em postos de controlo podem ficar sob custódia para interrogatório e investigação, indicando o relatório da agência da ONU que, “em 2016, quase 1.500 crianças estavam sob custódia administrativas nos quatro países e 592 crianças continuam a aguardar a libertação”.

A UNICEF apela a todas as partes envolvidas no conflito para que se comprometam a acabar com “as violações graves contra crianças cometidas pelo Boko Haram”, bem como a “retirar as crianças de ambientes militares para ambientes civis o mais rapidamente possível” e a “prestar cuidados e proteção às crianças separadas e não acompanhadas”.

Em 2016, o Fundo das Nações Unidas para a Infância permitiu que mais de 312 mil crianças tivessem apoio psicológico na Nigéria, Chade, Camarões e Níger, tendo juntado às suas famílias mais de 800 crianças.

A agência da ONU trabalha com as comunidades e famílias para “combater o estigma associado às vítimas de violência sexual” e apoia ainda as autoridades locais no fornecimento de água potável, de serviços de saúde básicos e no acesso à educação, prestando igualmente tratamento a crianças desnutridas.

A UNICEF lamenta, no entanto, que a resposta a esta crise continue “seriamente subfinanciada”, assinalando que no ano passado o seu apelo para a zona do Lago Chade, no valor de 154 milhões de dólares (145 milhões de euros), recebeu apenas 40% dos fundos.

mais informações no comunicado de imprensa da Unicef:

Conflito na região do Lago Chade: aumento alarmante do número de crianças usadas este ano pelo Boko Haram em ataques bombistas

 

 

Ivone Patrão, psicóloga: «As crianças aprendem a desbloquear as ferramentas de controlo parental em segundos»

Abril 14, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , ,

Entrevista do http://www.noticiasmagazine.pt/ a Ivone Patrão


Depois de vários anos a acompanhar crianças, jovens e famílias, sobretudo na área das dependências da Internet, Ivone Patrão defende a utilização da tecnologia com regras e limites para que sejamos nós a controlar o mundo online e não o contrário. Inspirada em alguns casos que acompanha em consultas faz ainda um convite de consciencialização para o modelo que os pais estão a passar aos filhos. Psicóloga clínica e terapeuta familiar e do casal, é também docente universitária e investigadora no Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida (ISPA) e acaba de lançar o seu primeiro livro para o público em geral «Geração Cordão».

Texto de Cláudia Pinto | Fotografia de Diana Quintela/Global Imagens

«Geração Cordão»? Que geração é esta?

É um termo da minha autoria e que já utilizo há algum tempo, mas é a primeira vez que aparece descrito. Caracteriza o que está a acontecer com as novas gerações: estão muito familiarizadas com a tecnologia e com a internet e têm este risco de não conseguir desligar. Prescindem de determinadas atividades de lazer e de equipa que implicam estar com pessoas e desenvolver competências pessoais, relacionais e sociais. Correm ainda o risco de, ao longo do tempo, serem jovens adultos e adultos que não socializaram, não desenvolveram um projeto de vida, não estudam nem trabalham, deixaram a escola, não conseguem arranjar um projeto de empregabilidade, não conseguindo cortar com o cordão umbilical no sentido da autonomia. Estes riscos de ficar dependente da tecnologia e de não desenvolver competências do ponto de vista da maturidade relacional e social e de não ter projeto de vida caracterizam esta geração cordão. Temos muitos jovens adultos, com mais de 20 anos, neste registo.

Que tipo de casos recebe nas suas consultas?

Recebo crianças dos oito aos dez anos, e muitos jovens. No âmbito privado, recebemos também muitas famílias isoladamente, uma vez que os pais têm a preocupação de adquirir informação que os ajude na prevenção de eventuais dependências dos filhos. No Hospital de Santa Maria, recebo casos já considerados graves, com crianças ou jovens que deixaram de ir à escola e que contam com muitas horas de consumo de internet.

Foi isso que a levou escrever este livro?

Tenho desenvolvido uma linha de investigação sobre esta temática no ISPA e sou responsável pela primeira consulta privada de comportamento online e dependências. Estou também a trabalhar no Hospital de Santa Maria onde temos uma consulta com os mesmos moldes mas disponibilizada no serviço público. Já há muito que fazia todo o sentido escrever um livro sobre esta temática para o público em geral. Fomos amadurecendo a ideia e a editora Pactor, assim que começou a ler o meu anterior livro, mais técnico, em coautoria com Daniel Sampaio (Dependências online, editado pela Lidel), percebeu que havia muitos aspetos de orientação prática que poderiam ser traduzidos para uma linguagem mais acessível. Achei que fazia sentido avançar agora também porque recebo muitos pedidos de pais e professores que necessitavam de orientações a este nível. O livro vem preencher essa lacuna…

O livro alerta para várias perspetivas do mundo online e não apenas para a parte mais visível do problema…

Sim, há uma parte online em geral à qual não ligamos muito e para a qual não estamos tão alerta. Há jovens que consomem imensas séries e deixam de estar com as pessoas e de conviver. Passam horas, tardes e dias seguidos a consumir multimédia. O problema surge quando só se faz isto em detrimento de tudo o resto. Ainda há pouco tempo foi muito noticiada a fuga de uma jovem aliciada por um predador sexual. Isto deve alertar-nos para o facto de jovens estarem a falar com qualquer pessoa sem terem noção de eventuais perigos. O livro chama a atenção para todas estas questões que não se circunscrevem apenas aos jogos online, aos videojogos e às redes sociais. É uma primeira gota de água no oceano no que respeita à chamada de atenção e reflexão para estes temas. Arrisco a dizer que a maior parte dos pais não estão consciencializados para os perigos.

Os pais podem ficar descansados com as ferramentas de controlo parental?

Não. Não podem mesmo. As crianças aprendem a desbloquear as ferramentas de controlo parental em segundos. Aprendem-no em tutorais disponíveis online. Desenganem-se os pais que ficam descansados por acharem que os filhos estão entretidos e em segurança enquanto estão com os tablets ou no computador. É necessário redobrar a atenção para perceber o que é que eles andam a fazer… Alguns autores norte-americanos defendem que os pais devem ter as palavras passe do e-mail, do Facebook, e devem debater com os filhos o que vão postando e partilhando.

E os miúdos aceitam isso?

Se formos nós a explicar estas situações aos filhos, desde pequenos, eles habituam-se a partilhar connosco os convites que lhes fazem nas redes sociais ou outras situações ligadas ao mundo online. Se forem pequenos, é uma partilha, não é um controlo exagerado. Mais tarde, a partir da adolescência, se mostrarem que são responsáveis e autónomos, temos de respeitar a sua privacidade.

Esta geração é composta pelos chamados nativos digitais. De que forma é que os pais podem acompanhar esta realidade?

Os bebés já nascem a querer mexer nas coisas porque têm a necessidade do toque. Mas porque é que lhes damos apenas os smartphones e os tablets? Podemos dar-lhes também puzzles, brinquedos para mexer, lápis de cera para desenhar… Mas também não concordo com a exclusão do mundo digital. Ou seja, também não é benéfico ter uma criança que só brinca e socializa excluindo por completo a vida tecnológica.

Como é que se consegue o equilíbrio saudável da utilização da tecnologia?

É muito difícil. Os estudos que tenho feito com jovens e pais demonstram que, em média, o primeiro contacto com a tecnologia e o online, na geração dos pais, aconteceu aos 24 anos. A média nas crianças é de seis anos. Estamos a juntar gerações com níveis de experiência completamente diferentes. É mais fácil aos pais permitirem a utilização das novas tecnologias na totalidade, mas é errado. As crianças costumam ter uma zona de brinquedos à qual acedem quando querem. No caso das crianças e jovens, as consequências da utilização desmedida tem consequências físicas, ao nível da privação do sono, da alimentação, e no caso dos mais pequenos, no controlo dos esfíncteres pois inibem-se de ir à casa de banho para ficarem agarrados ao computador ou ao telemóvel. O livro vem neste sentido: começar a falar e alertar para o tema e fazer com que cada família pense nas suas regras e nos seus limites.

O pediatra Mário Cordeiro, autor do prefácio deste livro, chama a atenção para o facto de se se ensinar as crianças e jovens a «domar» a internet e os instrumentos de comunicação, talvez se consiga extrair das mesmas os seus benefícios e vantagens…

Sim, claramente. Não podia estar mais de acordo. O livro não é um guião fechado. Tem muitas dicas e orientações mas cada família deve ajustá-las ao seu contexto. Numa família com crianças pequenas, com alguns familiares que vivem no estrangeiro, naturalmente recorrem ao Skype e ao telemóvel, para manter uma relação mais próxima. Neste caso, a tecnologia é muito vantajosa. Para uma criança da mesma idade que passou o dia com colegas e amigos na escola, não há vantagem em fazer uma videochamada logo que chega a casa.

Não existe então uma regra genérica que se aplique a todas as famílias?

Há que fazer bem a leitura do contexto. Ou seja, há que fazer a contextualização da integração da tecnologia, uma necessidade que seja ajustada. Se houver, desde pequenos, a contextualização das vantagens e desvantagens da tecnologia, quando houver a necessidade de abrir uma exceção, facilmente os pais percebem que aquele dia é mesmo isso: uma exceção. Sugiro que se encontre um limite diferente da utilização da tecnologia durante a semana, o fim de semana e nas férias. Defendo a existência de uma conversa de negociação participada. Deve discutir-se qual o tempo que os pais acham que os filhos devem estar online ou jogar computador, quanto é que os filhos acham adequado, e chegar a um consenso. Se o filho sugere três horas e os pais defendem uma hora de utilização, pode estipular-se o limite de hora e meia, para que o filho perceba que a negociação é partilhada e participada. Se as crianças percebem que as regras vêm de cima e não tiveram opção de participar, vão tentar sempre testar os limites.

Dependendo das idades, as crianças e jovens precisam de utilizar tecnologia diariamente ou não necessitam de todo?

É preferível que as crianças desenvolvam todos os seus sentidos. Fazer experiências na rua, em contacto com a natureza, em grupo, uns com os outros, é a melhor forma de se desenvolverem. Considero que os ecrãs podem ser um complemento, mas não devem constituir a principal atividade dos seus dias. Haverá dias em que efetivamente não vão precisar de recorrer à tecnologia, de ver televisão ou de estar com ecrãs à frente.

Que mensagem daria às famílias?

A grande mensagem deste livro é a importância do diálogo com os filhos desde pequenos: discutam o tema em família, estabeleçam regras e limites para todos (pais, tios, avós, filhos). Quando sugiro que toda a família promova um encontro entre todos e desligue a tecnologia, é uma enorme dificuldade. Costumo aconselhar uma atividade sem tecnologia; um dia sem tecnologia, a promover o descanso, as conversas e o tempo em família. Sinto que ainda estamos no começo de consciencialização para estes temas e há um longo caminho a percorrer… Gostaria que as pessoas partilhassem as suas formas de gerir as reais dificuldades e os desafios que as crianças e jovens vão colocando relativamente a este tema. Temos um endereço eletrónico para onde as pessoas podem escrever e partilhar os seus testemunhos: geracaocordao@gmail.com

 

Diabetes associada a muito tempo de frente a ecrãs

Abril 8, 2017 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , , , ,

Notícia da http://www.paisefilhos.pt/ de 21 de março de 2017.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Screen time is associated with adiposity and insulin resistance in children

Numa altura em que se regista um aumento cada vez maior na utilização por crianças de dispositivos electrónicos, como smartphones e tablets, um estudo publicado na revista Archives of Disease in Childhood defende que as crianças que passam muito tempo em frente à televisão, consolas de jogos e computador apresentam mais fatores de risco de diabetes de tipo 2.

Liderado por Claire Nightingale da Universidade St. George de Londres, o estudo demostrou que as crianças que passam mais de três horas diárias em frente a um ecrã têm mais possibilidade de ter gordura corporal e mais resistência à insulina, o que significa que o organismo passa a ter menos controlo sobre os níveis de açúcar no sangue.

O estudo analisou dados de cerca de 4500 crianças, entre os 9 e 10 anos, às quais os investigadores mediram gordura corporal, tensão arterial, colesterol, resistência à insulina e níveis de açúcar no sangue em jejum. Os participantes foram também questionados sobre os seus hábitos diários de utilização de computadores, tablets, e televisão e foi apurado que a gordura total das crianças aumentava, quanto maior o tempo passado em frente a um dispositivo electrónico. O nível de leptina, a hormona que está envolvida no controlo do apetite e na resistência à insulina, foi também associado ao tempo passado em frente a um ecrã.

Apesar de os achados não provarem uma relação de causa-efeito entre as duas variáveis, podem ter implicações importantes na saúde pública, considerando o tempo cada vez maior de uso de dispositivos electrónicos por crianças.

 

 

Arte Acessível – 22 de abril na Fundação Calouste Gulbenkian – Venham descobrir a arte em família de forma inclusiva!

Abril 7, 2017 às 11:30 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , ,

Segunda edição do dia de Arte Acessivel!
Ativiades inclusivas para todos os tipos de famílias!
Venham passar o dia connosco.
Ficamos à vossa espera
https://gulbenkian.pt/descobrir/arte-acessivel/
(Inscrições para mcrodrigues@gulbenkian.pt e mmendes@gulbenkian.pt)

A história de Mariana (ou como manter o seu filho seguro no mundo virtual)

Abril 6, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , ,

texto da http://visao.sapo.pt/ de 26 de março de 2017.

John Holcroft/ Getty Imagens

Luísa Oliveira

O rapto de uma criança no Norte do País lembra-nos aquilo que nunca devíamos esquecer: o mundo virtual esconde perigos bem reais. Mas há formas de os evitar.

Dia 3 de março, Mariana Leirinha, 13 anos, sai de casa em Beiral do Lima (Ponte de Lima) sozinha, para ir para a escola. Mas não chega ao destino. Ao final do dia, os pais alertam a Polícia Judiciária (PJ). A menina é encontrada uma semana depois, numa casa perto de Aveiro. Lá dentro está Manuel Fernandes, 24 anos, referenciado pela prática de crimes de natureza sexual envolvendo menores. Fica em prisão preventiva pela suspeita de rapto agravado. A menina, aparentemente bem, regressa a casa. Tudo indica que Mariana tenha sido aliciada através da internet por este homem, que tinha um perfil falso no Facebook, usando a fotografia de um modelo francês. A história não é original. No ano passado foram vários os casos que chegaram a público dando conta de homens que utilizam o mesmo meio para abusarem de menores. De pouco servem as recomendações: o estudo de 2013 Teens, Social Media and Privacy, do americano Pew Research Center, diz que 71% dos adolescentes que usam o Facebook revelam o nome da sua escola ou da cidade onde vivem, 53% o e-mail, e 20% o número de telemóvel.

Rute Agulhas, 43 anos, psicóloga clínica e forense, nota que os miúdos se inscrevem nas redes sociais com o consentimento dos pais. “Os adultos não têm a noção do perigo e supervisionam pouco”, nota a profissional, que há um ano criou o jogo de tabuleiro As Aventuras do Búzio e da Coral, para ajudar a educar crianças dos 6 aos 10 anos, com perguntas validadas pela PJ. “O tema sobre o qual eles revelam mais desconhecimento é a internet.” No verão sairá uma aplicação para adolescentes, para que aprendam a lidar com situações de risco. Pode ser uma ajuda, já que, como nota Tito de Morais, 54 anos, o mentor do projeto Miúdos Seguros na Net, “na adolescência, os filhos tendem a dizer que sim aos pais e depois comportam-se de maneira a agradar ao grupo”.

Vidas seguras dentro (e fora) do ecrã

É possível estar nas redes sociais sem medos – desde que se sigam algumas regras

Medidas elementares

– Evitar a impulsividade típica das redes. É tão fácil aceitar uma amizade como rejeitá-la.

– Ser desconfiado e cético em relação às amizades que se aceitam de pessoas que não se conhece – e o critério da manada, leia-se muitos amigos em comum, não basta. Pode significar apenas que muitos, antes de nós, já cometeram o mesmo erro.

– Averiguar o perfil de quem nos pede amizade. Começa-se por ver se é recente ou não, se está identificado em fotografias de outras pessoas ou se as suas imagens foram todas descarregadas no mesmo dia.

– No caso de se desconfiar da fotografia de perfil (se são de pessoas muito bonitas e elegantes, por exemplo), pode-se descarregá-la e pesquisá-la nas imagens do Google para verificar se ela existe noutro local na internet.

– Nunca publicar fotografias pessoais com localização em tempo real, com a farda ou o cartão da escola visível, ou em poses sexy, que possam dar a ideia errada.

– Tapar a câmara do computador com um autocolante, porque ela pode ser ativada à distância e esta é a única forma segura de não sermos filmados sem consentimento.

– Não marcar encontros presenciais com amizades que se fazem nas redes sociais. Caso se opte por quebrar esta regra, ir acompanhado, avisar outras pessoas do local (que deve sempre ser público) e garantir que o telemóvel está à mão para pedir ajuda.

Medidas intermédias

– Exigir a password aos filhos e espreitar os perfis deles em caso de desconfiança.

– Falar com eles sobre os perigos e deixá-los à vontade para contarem se alguém os abordar de forma estranha nas redes sociais.

– Criar a norma de que o computador só pode ser usado num sítio por onde todos passem.

Medidas drásticas

– Instalar software de controlo parental sem que os menores saibam. Mas é algo intrusivo, que regista todos os passos dados no computador – há o risco de eles descobrirem e passarem ao modo clandestino ou a usar outro dispositivo. Tito de Morais, do projeto Miúdos Seguros na Net, só o aconselha em caso de desconfiança grave. “O melhor software é ensinar-lhes a autodefesa, ajudá-los a descobrir as suas vulnerabilidades.”

 

 

 

Síndrome de Asperger na infância

Abril 4, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , ,

Texto do https://lifestyle.sapo.pt/

O psiquiatra austríaco que identificou o problema chamou-lhe a doença dos pequenos professores. Experimente ver o mundo através dos olhos de uma criança com esta patologia.

«Foi por volta dos dois anos que começámos a notar que o João manifestava comportamentos diferentes dos que a irmã tinha tido na mesma idade. A nossa principal preocupação foi a não evolução da fala. Poucas semanas após ter entrado para o colégio, a educadora de infância alertou-nos para o facto de ele demonstrar desinteresse pelas outras crianças e de se isolar», recorda a mãe desta criança.

«Após este alerta, consultámos a pediatra que estava a par da situação e que tinha encarado a ida do João para o colégio como um teste pois, fora do ambiente familiar, seria mais fácil identificar e concretizar as suspeitas que tinha. Então, encaminhou-o para uma consulta de pedopsiquiatria mas só mais tarde é que o pediatra do desenvolvimento falou em Síndrome de Asperger», explica ainda.

Esta é a história do João. Mas podia ser a do Pedro, do António, da Margarida ou da Ana. E, afinal, de que falamos quando falamos de Síndrome de Asperger? Trata-se de uma forma de autismo que interfere no modo como comunicamos e nos relacionamos com os outros. As suas causas não são ainda totalmente conhecidas, embora se acredite que esta síndrome seja provocada por um conjunto de factores neurobiológicos que afetam o desenvolvimento cerebral da criança.

Crianças com uma inteligência acima da média

Pensa-se que afete predominantemente o sexo masculino, embora alguns especialistas sejam da opinião que muitas mulheres com Síndrome de Asperger não são diagnosticadas por conseguirem ultrapassar melhor os obstáculos que surgem em termos de socialização. O quociente de inteligência das crianças com Síndrome de Asperger é, normalmente, médio ou acima da média e as dificuldades ao nível da aprendizagem e da linguagem não são tão pronunciadas como as das crianças com autismo.

Este facto, aliado ao desconhecimento que existe em relação a esta perturbação, leva a que, muitas vezes, as crianças sejam rotuladas como «estranhas» ou «excêntricas», não sendo diagnosticadas precocemente e, consequentemente, não beneficiando de um apoio e motivação adequados. As crianças com Asperger demonstram, habitualmente, uma excelente capacidade de memorização de números e  factos, mas revelam limitações ao nível do pensamento abstrato.

No campo da comunicação e interacção, existe alguma dificuldade na interpretação da linguagem não verbal (expressões faciais e postura corporal), metáforas, frases indirectas ou, por outro lado, que possam ser levadas à letra. Quando as crianças ou adultos com Síndrome de Asperger lidam com alguém que não está a par desta dificuldade podem gerar-se alguns mal-entendidos, pois as regras convencionais de uma conversação nem sempre são utilizadas.

O que pode ser feito para ajudar estas crianças

O contacto visual pode ser quase nulo ou, no extremo oposto, de tal forma persistente que se pode tornar incomodativo. Outra particularidade diz respeito a situações desconhecidas e quebras de rotina, que são encaradas com ansiedade e evitadas a todo o custo, o que implica um reajuste familiar nem sempre fácil. Mariana e Pedro, os pais de João, contam-nos que evitam «situações que lhe causem stresse».

«O João tem dificuldade em gerir emoções e muito medo do desconhecido. Por exemplo, só aos oito anos é que foi, pela primeira vez, ao cinema. E, só no último aniversário é que aceitou que se fizesse uma festa e se cantassem os parabéns», desabafam. Em Portugal, em 2009, estimava-se que o número de crianças com este problema rondasse os 40.000, apesar das entidades oficiais considerarem que muitos casos ainda estavam por diagnosticar.

Hobbies exclusivos

O desenvolvimento de interesses e padrões de comportamento circunscritos e repetitivos são outras das características mais comuns das crianças e adultos com Síndrome de Asperger. No caso de João, a família sentiu alguma dificuldade em «aprender a lidar com os interesses dele. Quer ver imensos desenhos animados e filmes da Disney, uns atrás dos outros a ponto de dizer palavras e expressões em inglês», diz.

A preocupação absorvente por um tema específico (que, geralmente, envolve a memorização e ordenação de factos) pode evoluir para uma espécie de obsessão que leva a pessoa a reunir toda a informação que conseguir obter sobre determinado assunto, não revelando interesse por outras actividades e não percebendo porque é que os outros não manifestam igual entusiasmo pelo assunto.

A doença dos pequenos professores

Hans Asperger, psiquiatra austríaco cujo apelido foi utilizado para baptizar esta síndrome, chamava às crianças com este problema «pequenos professores», devido ao carácter especializado dos seus conhecimentos em determinada área. Apesar do sistema de ensino, no geral, não estar devidamente dotado para apoiar as crianças com Síndrome de Asperger, os pais de João são da opinião que «existem profissionais com interesse pela diferença».

«O nosso filho está integrado no projecto TEACCH (Treatment and Education of Austistic and Related Communication Handicapped Children), trata-se de ensino estruturado e, como são crianças que gostam de rotinas, funciona muito bem», revelam. «Mas tem de haver um grande empenho por parte dos docentes tanto do ensino especial como do ensino regular», afirma o casal.

«Atualmente, estamos adaptados à situação, até porque o João tem evoluído sempre de forma positiva», revelavam em entrevista há uns anos. «Hoje em dia já constrói frases curtas e consegue fazer-se entender», regozijavam-se. Está medicado, o que o tem ajudado a superar os medos e a ansiedade», afirmavam ainda os progenitores da criança. «O nosso receio está no futuro», desabafavam.

A união que faz (mesmo) a força

A Síndrome de Asperger não tem cura, o que significa que uma criança com Asperger vai tornar-se um adulto com Asperger. No entanto, um apoio correto ao longo da infância e adolescência é  fundamental para que cada etapa da vida seja o mais harmoniosa possível. Para os pais e restante família manterem-se informados e esclarecerem todas as dúvidas é um passo fundamental.

«Mal soubemos que a Associação Portuguesa do Síndroma de Asperger tinha sido criada quisemos fazer parte dela. Constatámos que não estávamos sós, pois existiam outros pais com os mesmos problemas e interrogações. É uma grande ajuda poder trocar alegrias e frustrações com outros pais», explica a mãe de João. Quando lhe perguntamos que conselhos daria aos pais de uma criança com Síndrome de Asperger, a resposta não se faz esperar.

«Acreditem sempre e façam tudo o que estiver ao vosso alcance. As terapias precoces são um grande contributo para uma evolução positiva e a família é, sem dúvida, a base de um desenvolvimento favorável. Não escondam os vossos filhos por eles serem diferentes, pois dão as mesmas alegrias que as crianças ditas normais. Falando metaforicamente, enquanto a nossa filha corre a 100 à hora, o João vai apenas a 60, mas chega lá. E, se for do interesse dele, até chega primeiro», diz.

Como perceber o que vai dentro daquelas (pequenas) almas

Especialistas desvendam os pensamentos de uma criança com Síndrome de Asperger. Para que possamos percebê-la melhor:

– «Posso estar tão concentrado nos meus pensamentos que não ouço alguém chamar-me ou falar comigo e, por vezes, acho os ruídos tão ensurdecedores que tenho de tapar os ouvidos ou fugir».

– «Tenho um interesse especial, do qual falo constantemente. Por exemplo, se for por comboios, gosto de lhes tirar fotografias, desenhá-los e reproduzir os sons que fazem. Não entendo porque é que os outros não se interessam pelo tema».

– «Não consigo perceber o que os outros estão a sentir só de olhar para eles. Tenho dificuldade em perceber a linguagem corporal a não ser que estejam a chorar, a rir ou a gritar».

– «Tenho determinados rituais que sigo escrupulosamente para ficar calmo. Mas, às vezes, fico frustrado pois ocupam-me muito tempo».

– «Posso ficar assustado se vejo muitas pessoas à minha volta ou alguém que não conheço. Nessas alturas gostava de ser invisível».

– «Não entendo as palavras com duplo sentido e anedotas. Acredito em tudo o que me dizem. Se me disserem que as pessoas morrem se não beberem água posso levar isso tão a sério que beberei água a toda a hora».

– «Não tenho facilidade em ver as horas, atar os atacadores, descascar fruta, andar de bicicleta ou usar a régua».

– «Tenho consciência que sou diferente e que não consigo fazer, com facilidade, o que os outros fazem. Isso deixa-me nervoso e frustrado. Não consigo perceber a origem da minha diferença ou porque é que os outros fazem troça de mim».

Texto: Teresa D’Ornellas

 

 

Página seguinte »


Entries e comentários feeds.