Escolas perderam mais de 400.000 alunos e de 30.000 professores em menos de 10 anos

Setembro 17, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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thumbs.web.sapo.io

Notícia e imagem do Sapo24 de 1 de agosto de 2019.

As escolas portuguesas perderam em menos de 10 anos mais de 400.000 alunos e mais de 30.000 professores, quase metade dos quais do 3.º ciclo e ensino secundário, segundo dados oficiais hoje divulgados.

O relatório “Educação em Números – Portugal 2019”, da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), mostra que entre os anos letivos 2008/09 e 2017/18 as escolas perderam 427.163 alunos, passando de 2.056.148 para 1.628.985 estudantes.

A quebra de educadores de infância e professores dos 1.º, 2.º, 3.º ciclos e do ensino secundário foi de 31.147, com o valor mais exuberante a registar-se nos professores do 3.ºciclo e ensino secundário, que no ano letivo 2008/09 eram 91.325 e em 2017/18 se fixavam em 76.722.

Nos restantes níveis de ensino, os dados do relatório indicam que em 2008/09 havia 18.242 docentes no pré-escolar, 34.361 no 1.ºciclo de ensino (do 1.º ao 4.º ano), 34.069 no 2.ºciclo (5.º e 6.º ano) e 91.325 no 3.ºciclo (7.º, 8.º e 9.º ano) e ensino secundário (10.º, 11.º e 12.º).

Quanto aos estabelecimentos de ensino, o documento mostra que em 2017/18 havia menos 3.878 escolas públicas e privadas em Portugal do que em 2007/08 (eram 12.347), porque o número de escolas públicas caiu de 9.764 para 5.836, enquanto as privadas aumentaram de 2.583 para 2.633.

SO // SB

Lusa/fim

Educação em Números : Portugal 2019

Como pode uma geração ser saudável?

Setembro 15, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto e imagem do Notícias Magazine de 18 de agosto de 2019.

Geração Saudável é um projeto que anda pelas escolas e que, no ano letivo passado, chegou a mais de 16 mil jovens. A missão é educar e estimular a adoção de estilos de vida saudáveis com informações preciosas. E lembrar que as escolhas de hoje têm impacto no futuro.

Texto de Sara Dias Oliveira

É um projeto de proximidade e de intervenção comunitária e a escola surge como parceiro por ser um espaço de intervenção preferencial para ações de promoção da saúde e prevenção da doença em crianças e jovens, mas também pela sua capacidade de envolver as comunidades locais. “Nos jovens, existe uma dificuldade em compreender que os seus comportamentos e escolhas têm consequências na sua vida futura. Deste pressuposto, advém a extrema importância da compreensão do conceito de prevenção de doença e promoção de saúde e a consciencialização de que todos os hábitos que temos, sejam eles bons ou maus, terão um reflexo na nossa vida futura”, refere Luís Lourenço, presidente da direção da Secção Regional do Sul e Regiões Autónomas da Ordem dos Farmacêuticos.

O Projeto Geração Saudável terminou o ano letivo com mais de 16 mil jovens, 850 professores e encarregados de educação, mais de 600 sessões de formação e consciencialização, em cerca de uma centena de escolas do país. Os objetivos deste projeto focam-se na educação e promoção da saúde junto das faixas etárias mais novas, estimulando a adoção de hábitos mais saudáveis e alertando para as patologias associadas a estilos de vida mais sedentários. As problemáticas das dependências e comportamentos aditivos e do uso responsável do medicamento também fazem parte da iniciativa desenvolvida pela Secção Regional do Sul e Regiões Autónomas da Ordem dos Farmacêuticos, desde 2012.

“O papel do farmacêutico na sociedade também foi um tema abordado nestas sessões, pois é necessário olhar para estes profissionais de saúde como intervenientes ativos na saúde pública, próximos das comunidades, e alguém a quem se pode recorrer”, realça luís Lourenço

As informações transmitidas aos mais novos são importantes. “O conhecimento é o início para a mudança de comportamentos. A envolvência da comunidade em torno destas problemáticas garante que serão trabalhadas nas diferentes fases do percurso de vida, desde a conceção ao envelhecimento e em diversos contextos de intervenção – como, por exemplo, a escola”, acrescenta o responsável.

As atividades são pensadas para transmitir conhecimentos e reter a atenção. Jovens farmacêuticos e estudantes do mestrado integrado em Ciências Farmacêuticas dão as formações às crianças e jovens, com o apoio, sempre que possível, de um autocarro interativo e de uma mascote, o GS. O público-alvo são os alunos do 2.º ciclo, dos nove aos 13 anos, com integração pontual de alunos do 1.º e 3.º ciclos. Professores, familiares e a população são um público-alvo secundário.

“Os formadores recebem formação prévia constituída por uma componente técnico-científica e uma parte prática de competências pessoais”

Luís Lourenço explica que a preparação prévia de todos os envolvidos é importante para que estejam habilitados a responder a todas as questões, mas também para dinamizar sessões interativas e dinâmicas. “Na abordagem às diferentes temáticas são explicados todos os conceitos essenciais para a compreensão global das mesmas. Por exemplo, o que é a insulina, a definição de glicemia, como são constituídos os medicamentos, a diferença dos medicamentos genéricos dos medicamentos de referência e o que são substâncias aditivas. São ainda abordadas informações úteis para o seu dia-a-dia e para a vida adulta, tais como os sinais e sintomas de uma hipoglicemia, como podem auxiliar uma pessoa que desmaie ou como devem armazenar os seus medicamentos”, especifica.

“O fundamental a ser retido pelos jovens, além de todos os conceitos básicos das diversas temáticas implementadas, é a ideia de que as suas ações e comportamentos têm impacto e consequências na sua saúde e também na saúde daqueles que os rodeiam”, reforça.

O arranque de mais um ano letivo já está a ser preparado em todo o país. O uso responsável do medicamento, a diabetes e as dependências e comportamentos aditivos mantêm-se no programa das atividades. “Conseguimos compreender que existe uma grande vontade dos diferentes agrupamentos escolares de ver abordadas estas temáticas.” No ano 2019-2010, pretende-se alcançar o marco dos 100 mil alunos. “Além disso, compreendemos que o crescimento do projeto implica que possa ser dinamizado pelas comunidades, nas comunidades. Os farmacêuticos são um agente ativo preponderante para esta ação. No futuro, temos a certeza de que a Geração Saudável continuará a integrar mais pessoas e a impactar diferentes gerações”, adianta Luís Lourenço.

Desde o seu início, há sete anos, o Projeto Geração Saudável já realizou mais de 450 visitas a escolas, envolveu cerca de 92 mil alunos e mais de 4 200 professores em todo o território continental e Regiões Autónomas. “O sucesso alcançado durante este período apenas foi possível graças à dedicação e esforço de mais de 300 jovens farmacêuticos e estudantes de ciências farmacêuticas, como formadores do projeto”, conclui o presidente da Direção da Secção Regional do Sul e Regiões Autónomas da Ordem dos Farmacêuticos.

https://www.geracaosaudavel.org/

Escolas perderam mais de 400 mil alunos em menos de 10 anos

Setembro 13, 2019 às 6:00 am | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
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Nuno Veiga / LUSA

Notícia da Rádio Renascença de 1 de agosto de 2019.

Relatório “Educação em Números” mostra que também se registou uma quebra de 30 mil professores.

As escolas portuguesas perderam em menos de 10 anos mais de 400 mil alunos e mais de 30 mil professores, quase metade dos quais do 3.º ciclo e ensino secundário, segundo dados oficiais.

O relatório “Educação em Números – Portugal 2019”, da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), mostra que entre os anos letivos 2008/09 e 2017/18 as escolas perderam 427.163 alunos, passando de 2.056.148 para 1.628.985 estudantes.

A quebra de educadores de infância e professores dos 1.º, 2.º, 3.º ciclos e do ensino secundário foi de 31.147, com o valor mais exuberante a registar-se nos professores do 3.ºciclo e ensino secundário, que no ano letivo 2008/09 eram 91.325 e em 2017/18 se fixavam em 76.722.

Nos restantes níveis de ensino, os dados do relatório indicam que em 2008/09 havia 18.242 docentes no pré-escolar, 34.361 no 1.ºciclo de ensino (do 1.º ao 4.º ano), 34.069 no 2.ºciclo (5.º e 6.º ano) e 91.325 no 3.ºciclo (7.º, 8.º e 9.º ano) e ensino secundário (10.º, 11.º e 12.º).

Quanto aos estabelecimentos de ensino, o documento mostra que em 2017/18 havia menos 3.878 escolas públicas e privadas em Portugal do que em 2007/08 (eram 12.347), porque o número de escolas públicas caiu de 9.764 para 5.836, enquanto as privadas aumentaram de 2.583 para 2.633.

O relatório citado na notícia é o seguinte:

Educação em números : Portugal 2019

O mais importante num professor é a relação com os alunos

Setembro 10, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de opinião de João André Costa publicado no Público de 2 de julho de 2019. Imagem do Público.

João André Costa

É professor e criou o blogue Dar aulas em Inglaterra, onde vive há 11 anos.

Eu lembro-me dos professores que se lembravam de mim. Eu lembro-me da professora Margarida. A professora Margarida deixou uma marca.

De que professores se lembram? Que professores deixaram uma marca? Eu lembro-me dos professores que se lembravam de mim. Eu lembro-me da professora Margarida. A professora Margarida deixou uma marca.

A professora Margarida foi a nossa professora de Matemática do 7.º ao 9.º ano, três anos por inteiro, e se nunca fui um ás a Matemática (não sou, a minha mãe é professora de matemática e em casa de ferreiro…), passei a ver a Matemática como um desafio onde quem tivesse a nota mais alta do teste recebia um chocolate da professora, estando outro chocolate reservado para quem resolvesse o problema-mistério no fim de cada prova.

Se me perguntarem que imagem tenho da professora Margarida, vem-me logo à memória o seu sorriso, grande, aberto, feliz, um sorriso que ria com os olhos apenas por rir, um sorriso de quem está em paz com o mundo, sem expectativas, numa alegria simples de viver.

E talvez tenha sido isso, o sorriso, a conquistar-nos logo de início, ainda no 7.º ano, verdes e ao vento, ainda receosos do chão pisado agora na escola secundária. A professora Margarida acolheu-nos, e nós encolhemo-nos no seu regaço, no seu cuidado. E o tempo, a professora Margarida tinha sempre tempo, tinha a porta sempre aberta e a vontade e o carinho, escutando os nossos anseios, confortando-nos e dando conselhos, de igual modo ajudando os que, por medo ou inocência, não sabiam pedir ajuda.

Em cada Natal e no fim do ano, a professora Margarida escrevia um cartão para cada um dos seus alunos, ainda guardo os meus, principalmente o do 8.º ano, quando os meus pais se separaram e as suas palavras disseram tudo. Não sei onde está a professora Margarida. Já não está na escola, a última vez que a vi passou por mim a sorrir na Faculdade de Ciências, por acaso e de repente, e entretanto já passaram 20 anos.

No final do 9.º ano despedimo-nos da professora Margarida, ainda em choque, incrédulos, dependentes e, outra vez, receosos dos nossos passos, prestes a entrar para o 10.º ano onde cada um seguiria a sua estrada, uns para Desporto, eu para Ciências mais meia dúzia de colegas, outros para Humanidades. Acho que não nos despedimos como deveria ser, não nos queríamos despedir, eu não queria, e a euforia do fim do ano e das férias esbarrou na tristeza de uma turma inteira.

Nunca mais nos esquecemos de si. E aqui ficou o verdadeiro legado da professora, da nossa professora, a relação, a marca, a saudade que nos faz voltar, que nos torna melhores, a querer vencer e andar em frente, todos os dias, porque um dia recebemos amor e hoje queremos dar de volta todo o amor, mas a dobrar.

Gostava de lhe poder agradecer, por tudo, pela ajuda, pelo tempo, as conversas, as palavras amigas, o apoio sempre que precisámos, pela amizade.

Ah, e graças à Matemática, desenvolvi uma memória para números e uma capacidade de análise estatística preponderantes no emprego que hoje tenho. Não, nunca fui um ás a Matemática, mas agora sei para que é que serve.

Detesto matemática! – Sinais de alerta de discalculia

Setembro 5, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site Up to Kids

By Centro Sei

Detesto matemática! – Sinais de alerta de discalculia

“Odeio matemática!” – É frequente ouvirmos os nossos filhos/alunos fazerem este tipo de desabafo. Com igual frequência podemos cair no erro de achar que se trata de simples preguiça ou desmotivação para aprender a disciplina. Contudo, a frustração associada a esta frase tão frequentemente pronunciada pode, por vezes, refletir uma verdadeira dificuldade em aprender e desenvolver o cálculo matemático. À dificuldade de aprendizagem associada ao raciocínio lógico-matemático dá-se o nome de Discalculia ou Perturbação da Aprendizagem Específica, com défice no Cálculo.

Podemos generalizar que todas as crianças que não gostam de matemática têm discalculia?

Claro que não. Mas existe um conjunto de sinais de alerta relacionados com esta dificuldade de aprendizagem a que pais e professores devem estar atentos. Quanto mais cedo for feito o despiste da discalculia, mais cedo se implementará uma estratégia de reeducação para a criança. Isto poderá evitar o desgaste de repetidas situações de stress relacionadas com problemas escolares, os quais resultam muitas vezes numa crescente desmotivação em prosseguir os estudos.

Os sinais de alerta associados à discalculia dependem da idade/fase escolar da criança

Pré-escolar:

– Dificuldade em compreender o sentido do número;

– Dificuldade em aprender a contar;

– Dificuldades na identificação de número. Quer a nível visual (por ex. trocas entre o 2/5, o 3/8 ou o 6/9) quer a nível auditivo;

– Dificuldade em memorizar números;

– Dificuldade em organizar objetos de uma forma lógica: por formas, cores ou tamanhos;

– Dificuldade em reconhecer grupos e padrões;

– Dificuldade em usar conceitos comparativos tais como: maior/menor; mais alto/mais baixo;

– Dificuldades na lateralidade: distinguir entre a esquerda e a direita;

Idade Escolar:

– Dificuldade em compreender a linguagem e os símbolos matemáticos: “diferença”, “soma”, “igual”, “+”, “-“, “=”, etc.;

– Dificuldade em compreender o valor obtido pela modificação de um número: limitações em perceber que os números 560, 605 e 506 são diferentes, apesar de constituídos pelos mesmos três números (“5”, “6” e “0”);

– Dificuldade em resolver problemas matemáticos básicos através da soma, subtração, multiplicação e divisão;

– Dificuldade em compreender que 5 é o mesmo que 3+2 ou o mesmo que 4+1. Que 5+4 é igual a 4+5, ou que 8×2 é igual a 2×8;

– Dificuldade em desenvolver competências para a resolução de problemas matemáticos mais complexos;

– Fraca memória de longo prazo para funções matemáticas;

– Pouca familiaridade com o vocabulário da matemática;

– Dificuldade em resolver problemas matemáticos de forma oral, nomeadamente no caso de problemas muito extensos, e na presença de informação desnecessária e demasiadas abreviaturas;

– Dificuldades na compreensão do conceito de medida;

– Relutância em participar em jogos que requeiram o uso de estratégia;

– Dificuldades visuo-espaciais na leitura e escrita de números;

– Dificuldade em identificar as horas, por não conseguir distinguir o ponteiro das horas e dos minutos;

– Dificuldade em compreender o valor das moedas. Ex. A criança não compreende que uma moeda de 1 euro é igual a 2 moedas de 50 cêntimos ou 5 moedas de 20 cêntimos.

Se o seu filho ou aluno apresenta alguns destes sinais, poderá ser sinal de uma discalculia. Nesse caso, deverá recorrer a ajuda técnica especializada para fazer uma avaliação psicopedagógica da criança e despistar eventuais dificuldades de apredizagem. Só assim poderá implementar-se um plano de intervenção adequado que ajude a criança a colmatar as dificuldades sentidas e promover o seu sucesso escolar.

Principais sinais de alerta para a PHDA de acordo com diferentes idades

Setembro 5, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto e imagem do site Up to Kids

By Centro Sei

Principais sinais de alerta para a PHDA de acordo com diferentes idades

É difícil de detetar e fácil de confundir.

Sim, é uma alteração neurológica cada vez mais comum mas, ao contrário do que possa parecer, nem sempre é simples identificar os sintomas da Hiperatividade com Défice de Atenção (PHDA).

Não pense que esta perturbação é provocada por falta de empenho ou de dedicação e até de uma eventual má educação dada pelos pais em casa. Não! Se o seu filho tem este problema é porque se verificam fragilidades nas ligações neuronais em determinadas áreas cerebrais, normalmente mais pequenas se comparadas com as de outras crianças.

O que é a PHDA

A PHDA é uma condição física crónica que se caracteriza pelo subdesenvolvimento e disfunção de algumas partes do sistema nervoso central.  Manifesta-se, regra geral, por volta dos 3 anos e, quase sempre, antes de atingir os 7.

Consiste numa perturbação do desenvolvimento neurológico que provoca um excesso de atividade motora, baixo controlo da impulsividade e/ou dificuldades de concentração. Estas crianças têm dificuldade em selecionar informação e em prestar atenção a dois estímulos em simultâneo.

Surge, geralmente na primeira infância, com diversos sinais de alerta, que variam consoante o género e a idade. Podem prejudicar ou ter impacto na aprendizagem e no desenvolvimento social.  Estima-se que afete entre 5 a 7 por cento das crianças em idade escolar e cerca de 4 por cento dos adultos.

Os especialistas não têm dúvidas, as crianças com hiperatividade não tratadas a tempo terão mais dificuldades na adolescência, tanto ao nível do aproveitamento escolar, como, também, da socialização. A falta de intervenção adequada pode ter um efeito devastador ao longo da vida.

Para que não persistam dúvidas: regra geral, as crianças e os adultos com hiperatividade têm uma inteligência acima da média e podem vir a aproveitar o seu potencial, caso sejam bem acompanhadas à medida que vão crescendo.

Não existe, todavia, uma intervenção que suprima esta condição neurológica, mas quanto mais cedo o diagnóstico melhor.

A equipa do SEI tem vasta experiência em lidar com esta perturbação, nomeadamente ao nível da deteção precoce e da implementação de estratégias psico-educacionais capazes de minimizar o problema, melhorando o desempenho escolar ou profissional e as relações interpessoais.

Dentro da PHDA há diferentes níveis de intensidade, ou seja, os sintomas vão variando de pessoa para pessoa, do mais ligeiro ao mais grave.

Neste artigo pretendemos assinalar os principais sinais de alerta de acordo com a idade da criança. Consulte a lista e observe o seu filho por um período de tempo, nos diversos contextos do seu dia-a-dia, e verifique se apresenta alguns dos sinais de alerta.

Lembre-se que, ocasionalmente, todas as crianças manifestam comportamentos mais impulsivos, agitados ou desatentos. É necessário saber distinguir os diferentes comportamentos de acordo com os contextos.

Se suspeitar que o seu filho possa ter uma PHDA consulte um profissional e solicite uma avaliação especializada.

Principais sinais de alerta para a PHDA

Idades compreendidas entre os 3 anos e os 7 anos

  • Apresenta dificuldades em iniciar tarefas e/ou rotinas diárias, como vestir ou arrumar os brinquedos;
  • Frequentemente, ignora ou cumpre tardiamente as instruções/indicações/pedidos que lhe são dados;
  • Apresenta/Manifesta dificuldade em manter-se sentada durante as refeições ou na realização de atividades de grupo comparativamente com as crianças da mesma idade;
  • Levanta-se, mexe-se ou conversa em situações onde é pedido/suposto ficar sossegada ou em silêncio;
  • Apresenta dificuldades em terminar uma atividade para iniciar outra;
  • Esforça-se para fazer as atividades/tarefas com cuidado;
  • Necessita de ser relembrada, frequentemente, para parar ou ouvir;
  • Tem dificuldade em prestar/manter a atenção comparativamente com as crianças da sua idade;
  • Vai buscar coisas/materiais sem permissão;
  • É incapaz de esperar pelas instruções/indicações da tarefa antes de a iniciar;
  • Demora bastante tempo e/ou necessita de encorajamento para realizar as suas rotinas diárias;
  • Apresenta dificuldade em relembrar-se das indicações/pedidos;
  • Apresenta dificuldade em lembrar-se/recordar-se de factos que aprendeu recentemente;
  • Tende a ficar aborrecida ou irritada (frustrada) em situações de menor importância;

Idades compreendidas entre os 8 anos e os 12 anos

  • Apresenta dificuldades em iniciar tarefas/atividades, principalmente/especialmente quando a tarefa/atividade apresenta mais do que um passo;
  • Frequentemente, é inquieta/irrequieta;
  • Frequentemente, é irrequieta, conversadora em situações onde é pedido/suposto ficar sossegada ou em silêncio;
  • Tende a esquecer-se do que acabou de ouvir ou ler, a não ser que seja algo do seu interesse;
  • Frequentemente, realiza as tarefas/atividades de forma apressada e/ou descuidada;
  • No quotidiano não é capaz de demonstrar todas as suas capacidades/competências, na escola ou na realização dos trabalhos de casa;
  • Desconcentra-se, e/ou fica “no mundo da lua”, frequentemente;
  • Frequentemente, muda de tarefa/atividade sem terminar as anteriores;
  • Apresenta dificuldades em lembrar-se do que fez no seu dia-a-dia;
  • Tende a esquecer-se de entregar/fazer recados e/ou os trabalhos de casa;
  • Esforça-se para não perder as suas coisas;
  • Apresenta dificuldades em esperar pela sua vez, para se juntar numa conversa ou atividade;
  • Preocupa-se, que se vá esquecer do que quer dizer, a menos que o diga imediatamente;
  • Apresenta dificuldades em pensar nas consequências das suas ações;
  • Frequentemente, fala ou faz coisas sem pensar nas consequências;
  • Trabalha devagar;
  • Apresenta dificuldade em terminar tarefas/atividades dentro de um período de tempo razoável;

Adolescência

  • Apresenta dificuldades em organizar-se ou estabelecer prioridades;
  • Apresenta dificuldades em iniciar os trabalhos de casa e/ou uma tarefa/atividade proposta/atribuída;
  • “Desliga”/Desconcentra-se quando está a ouvir alguém ou a ler;
  • Frequentemente, necessita de reler as informações dadas ou de pedir às pessoas que repitam o que disseram porque não se lembra;
  • Apresenta dificuldade em manter-se focada;
  • Frequentemente, se desconcentra da tarefa/atividade, a menos que a mesma seja do seu interesse;
  • Frequentemente, realiza as tarefas/atividades de forma rápida e desconcentrada/desorganizada, originando erros;
  • No quotidiano, não é capaz de demonstrar todas as suas capacidades/competências, na escola ou na realização dos trabalhos de casa;
  • Apresenta dificuldade em recordar-se/lembrar-se das informações quando necessário;
  • Esforça-se, na realização dos testes, para se recordar/relembrar o que estudou e/ou sabia na véspera;
  • Apresenta dificuldades em lembrar-se do que fez no seu dia-a-dia;
  • Frequentemente, esquece-se de escrever o que tem de fazer e de as fazer;
  • Frequentemente, age de maneira impulsiva;
  • Fala ou faz coisas sem pensar no que pode resultar;
  • Frequentemente, trabalha devagar;
  • Apresenta dificuldade em cumprir prazos e/ou em finalizar os testes dentro do tempo atribuído;
  • É inquieto/irrequieto frequentemente;
  • Frequentemente, não consegue parar de falar ou de mexer nos objetos com a mão.

Redação : O que eu fiz nas minhas férias de verão…!!

Setembro 4, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Imagem retirada daqui

“As crianças que não sabiam ler nem escrever eram postas na chamada ‘fila dos burros'”

Setembro 3, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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© Sara Matos/Global Imagens

Entrevista de Raul da Silva Mendes ao Diário de Notícias de 13 de agosto de 2019.

Carlos Ferro

Deu aulas durante 52 anos, sempre no ensino básico. Ajudou agricultores e pescadores a aprender a ler e a escrever e desenvolveu um método com que conseguiu “ganhar” para a escola crianças com dificuldades de aprendizagem. Combateu, assim, a “fila dos burros”.

Raul da Silva Mendes tem uma vida dedicada ao ensino, com especial atenção às crianças com dificuldades de aprendizagem. Estudioso, desenvolveu um método para ensinar os miúdos mais “complicados” a ler e a escrever, aqueles que há muitos anos eram colocados na “fila dos burros” na escola primária. E ainda hoje anda com um bloco onde aponta as suas investigações que gostava de ver aplicadas principalmente no ensino dos imigrantes que chegam a Portugal.

Durante a conversa, que por vezes interrompia dizendo que se calhar estava a falar demasiado – “já se sabe, um velho tem muitas história” -, falou do seu método de ensino Do Número à Palavra (cada letra está associada a um número, A=1 etc., o que permite aos alunos associarem letras até formarem palavras), das dificuldades que enfrentou e dos projetos que abraçou.

E das aulas dadas aos pescadores do Montijo, em que um deles um dia lhe disse: “A minha filha faz lá em casa uns desenhos…” E quem era essa filha que desenhava essas coisas? A artista plástica Fernanda Fragateiro.

Raul Mendes nasceu em Évora a 24 de agosto de 1940, ali tirou o curso na Escola de Magistério Primário – “era a solução para quem não podia ir para as três universidades que havia, Lisboa, Porto e Coimbra” -, mas foi no Montijo que cumpriu praticamente toda a sua carreira. É nesta cidade do distrito de Setúbal que já reconheceu o mérito do seu trabalho que vive.

Sentado numa esplanada num dos jardins da cidade, Raul Mendes desfia memórias – das aulas de Marcelo Caetano na Faculdade de Direito, das exigências de Salazar – que vão sempre dar aos alunos que ajudou. “Tive dois alunos chineses que eram muito bons. Só fizeram até ao nono ano. Hoje são dois grandes amigos. Tiveram um restaurante onde deixei de ir almoçar porque não pagava.”

Com tantos anos de carreira, ainda hoje tem uma mágoa: o não ser aproveitado como devia ser o livro de Vergílio Ferreira Vagão J, que chegou a ser censurado em 1971 e no qual as diferenças entre estratos sociais é o tema central.

Se lhe pedir para se definir, o que diria?
Sou um antigo professor do ensino primário, que agora se chama básico, natural de Évora, ali estudei e frequentei a Escola de Magistério Primário, que designei como a universidade do povo. E universidade do povo porquê? Porque a classe pobre ou mesmo média não podiam ir para as três universidades: Lisboa, Porto, Coimbra.

Portanto, o objetivo foi sempre ser professor?
A estratégia era fazer um curso médio de professor. Antigamente para se ser professor do ensino básico bastava a quinta classe, o nono atual. Fiz logo a seguir o antigo sétimo ano, que agora é o 12.º, na alínea D, Direito, fui frequentar esse curso. Só que vi que o programa jurídico não tinha nada que ver com o programa pedagógico. Pus de lado o Direito, ainda frequentei um ano – como curiosidade, era professor de Introdução ao Estudo de Direito e Direito Administrativo o professor Marcelo Caetano-, a partir daí comecei a dedicar-me aos meus alunos e sobretudo a observar melhor o que era uma sala de aula e o que era o meio familiar e as influências que tinha na escola.

E onde começou a dar aulas?
Fui morar para Carcavelos, dei aulas em Manique do Estoril.

Falou-me num livro de Vergílio Ferreira…
Há um livro dele, Vagão J, que me serviu de guia. É pouco conhecido, foi editado em 1944 e focava precisamente a ação do professor na escola e na aldeia, a influência social e política do professor e na melhoria das condições sociais dessa população. Claro que entra em contradição com Carneiro Pacheco, o ministro da Educação Nacional [entre 1936 e 1940], porque ele entendia que as crianças aos 7 anos tinham um cérebro tão plasticável, que todas as ideias que lhes incutissem lá ficavam, sobretudo as de pátria, amor a Portugal, amor ao Estado, dentro da trilogia Deus, pátria, família.

O que Vergílio Ferreira contestou?
Nesse seu livro ele diz que as crianças têm um cérebro que faz lembrar a cera, simplesmente têm outros sulcos que lhes tinham sido transmitidos ao nascer. Essa contradição custou que esse livro que eu digo tão importante e tão pouco conhecido fosse censurado. Depois é reeditado pela Livraria Bertrand numa pequena abertura do Estado Novo, em 1971, já com Marcelo Caetano.

Como foi o seu início no ensino?
Comecei a trabalhar e fiquei alarmado com a quantidade de crianças que não conseguiam fazer a primeira classe – na altura, havia avaliações na primeira classe – porque não sabiam ler nem escrever. Esses eram sistematicamente postos numa fila a que os colegas chamavam a “fila dos burros”. Logo no primeiro ano em que comecei a ensinar crianças da primeira classe reparei que eles afinal na matemática, nas operações e no cálculo eram absolutamente normais e na disciplina de Educação Visual até tinham ideias interessantes.

O problema era o português…
E então surgiu a questão: porque é que eles ao entrarem no domínio da língua portuguesa, na iniciação da leitura, se desinteressavam, mas depois nos domínios da matemática eram paralelos aos outros. Pensei: será que uma criança com dificuldades na aprendizagem da leitura prefere o número? A matemática? Será que eles na sua vida prática, ao contarem as caricas, ao contarem as pedrinhas, adquirem essas noções? E gostam de ligar a vida, a brincadeira, ao estudo, à prática? E então pensei: se fizer a simbiose do número à palavra, será que vou interessá-los? E então, no ano de 1985-86, introduzi na minha classe, a par da turma “normal”, cinco alunos que já tinham vários anos de repetentes e eram totalmente analfabetos.

Como foi a integração?
O meu estudo baseou-se no selecionar as palavras da língua portuguesa que se escrevem apenas com uma letra e, para meu espanto, são apenas seis: u, o, ã, a, é, i. Essas foram as primeiras letras que começaram a conhecer. A diferença é que, enquanto nos anos anteriores lhes davam logo de início palavras e sílabas que não lhes faziam sentido, eu só com palavras com uma letra fazia textos. Consegui pô-los a dialogar: “É o i? É o. É o u?.” Este diálogo motivou-os, diziam “já sabemos ler”.Isso dava a noção de que a leitura estava muito ligada ao número. Era a chapa 1, depois passava para a chapa 2 – palavras com duas letras -, etc., quando se chega às palavras com três letras já se podia fazer inúmeras variantes. O aluno, antes de iniciar a fase da leitura, tem de dominar o alfabeto, então construí tabelas com o alfabeto e numeradas por baixo: A -1; B – 2; C – 3 e por aí.

É uma lógica diferente do que se ensina.
Esta lógica do número e do fonema possibilitava iniciar jogos com dinâmica. Por exemplo: onde vou buscar letras que possam formar a palavra pai? E eles iam ver os números a que correspondia a letra. Esta ligação do número ao fonema ia ao encontro do problema de que a criança parece gostar mais das coisas concretas, do número. Essa é a raiz do meu trabalho. Obtive resultados sobretudo na resposta das crianças, que depois diziam “eu já não sou maluco”, “eu já sei ler”.

O suborno em bifes e os desenhos da futura artista Fragateiro

Depois das crianças, os adultos…
Fiz um curso de especialização no ensino de adultos. Para ter a carta de condução era obrigatório ter a quarta classe. Ora, havia imensas pessoas com negócios que precisavam das carrinhas e então surgiram muitos alunos a frequentar os cursos de adultos.

E as dificuldades?
Também foi uma longa aprendizagem, porque eles, ao escreverem – sobretudo os agricultores -, tinham tanta força na mão que entre a caneta e o papel rasgavam o papel. Então a estratégica foi esta: se eu fosse cavar a sua terra, não conseguia fazer um sulco. Agora aqui [na aula] estava com força a mais.

Como o professor “dá a volta” à questão?
O professor foi sempre um ator que em todas as circunstâncias tem de se adaptar e saber motivar. Porque com um aluno desmotivado não há aprendizagem.

E como conseguiu ter sucesso?
Apresentava palavras com uma letra, com duas e dizia: cá está um texto. A novidade que introduzi é que produzia um texto com significado juntando os três vetores que considero fundamentais e que são universais: o movimento, a música e o drama. Todo o texto nestas idades [ensino básico] que não for possível ser dramatizado não é texto.

Hoje ainda é assim?
O problema da formação de professores é que se diluiu a especialização. O ensino, sobretudo da escrita e da língua, leva muito tempo, o professor tem de observar, pois a escola é um laboratório. Mas hoje eles estudam imensas disciplinas e ficam preparados de maneira igual. Não há especialização e perde-se o que é fundamental: o aluno sair do ensino primário a saber ler, escrever e contar e, sobretudo, saber descodificar mensagens. Hoje a vida é uma descodificação de mensagens. Um aluno que saia iletrado da escola terá sempre dificuldades enormes em sobreviver.

O que o seu método conseguia evitar…
Sempre tive um ensino muito dinâmico. Por exemplo, quando me chegaram à sala dois chineses, o problema foi que todos os alunos diziam “eles têm os olhos em bico” e eu tive um trabalho árduo para os integrar na sala de aula, dizendo que eram meninos com outras valências, outros costumes. Que até nos iam contar quando soubessem ler e escrever histórias do seu país, sobretudo dos jogos. Eles foram sempre excelentes no cálculo, na matemática. Eram ótimos alunos, todos os dias falava com eles, mesmo no ensino secundário, queria que continuassem a estudar, mas chegaram ao nono e pararam. Até aos pais disse que eles deviam ir para um curso de Gestão, ainda por cima dominando o chinês e o português. Mas não, estão por aí, tiveram um restaurante onde eu ia almoçar e deixei de lá ir porque nunca pagava nada. São dois grandes amigos que ficaram.

Regressando ao ensino de adultos. Foram momentos difíceis?
O Salazar exigiu que para se tirar a carta de condução era necessário ter a quarta classe. E então surgiram problemas curiosos. Como, por exemplo, o gerente de um balcão do Banque Franco-Portugaise, que tinha o curso de Economia tirado no estrangeiro e teve de ir tirar a quarta classe. Os frades capuchinhos tiveram de o fazer para poderem guiar os tratores e só falavam espanhol. Depois surgiram problemas dramáticos: na Base Aérea do Montijo, os soldados só podiam sair da base se fossem o braço-direito dos pais, por exemplo, na agricultura, quando fizessem a quarta classe. Agora veja o dilema do professor primário se reprovasse um aluno – ele não saía.

E exigentes…
Tinha de ser um diálogo muito estimulante, senão eles desistiam. Por exemplo, tive um pequeno grupo de pescadores do Montijo – seis – em que a sala de aulas era a sala da casa de um deles. Um era o pai da artista que fez as ondas do mar nos relvados, a Fernanda Fragateiro – e ele dizia: “A minha filha faz para lá uns desenhos.” Ia a casa deles, falava com eles sobre a pesca, as suas dificuldades. Acabei por me integrar no meio piscatório do Montijo. Era sempre muito difícil estimulá-los, queriam o fácil, o desistir. Um dia um talhante aqui do Montijo diz-me assim: “Eu pago-lhe [para o aprovar]. Quer que lhe pague em costeletas ou em bifes?.” E eu dizia-lhe “não, quero é que você vá à sala de aula. Ele desistiu, não sei como é que fez depois”.

O professor é um ator e um fingidor

Já disse várias vezes que o professor é um ator. Quer explicar melhor?
O ato de ensinar, a sala de aula, exige muito do professor. Ele não pode ir para casa pousar a caneta. Exige todo um planeamento para o dia seguinte. São cinco horas que passa como um ator. Tive um professor que antes de entrar na sala de aula chegava ao pé do cabide e, apesar de não usar chapéu, fazia o gesto de o tirar e colocar lá. Os miúdos diziam-lhe “porque está a tirar o chapéu, enganou-se, não tem chapéu” e ele respondia “estou a pôr aqui as preocupações”. Ou seja, a sala de aula tem de ser de uma concentração absoluta do professor para os alunos. E tem de preparar a lição porque tem de saber que tem de fazer este jogo, a seguir tem de preparar a aula, a seguir eles já estão muito cansados, têm de ir um bocadinho ao recreio se o tempo o permitir. Quando fui trabalhar, a empregada dizia: “Julgava que o senhor não estava lá [na sala de aula] porque estava habituada a ouvir os professores a gritar. Comigo não era assim, pois cada aluno sabia o que tinha de fazer.”

É por isso que um professor é um fingidor?
A sala de aula é um palco e um palco muito importante. Sabe, também dialoguei muito com os pais e isso foi uma inovação perigosa. Antes do 25 de Abril, reuniões só as autorizadas e essas eram poucas.

Conseguia ter uma boa relação com os alunos?
A ligação da vida à escola foi sempre a minha preocupação. Nos 3.º e 4.º anos destinava os primeiros dez minutos de aula para que eles me fizessem uma pergunta. Um dia fiquei de boca aberta quando um me perguntou “professor, o que é investigar? Estão sempre a falar na televisão em investigar”. Obrigou-me a fazer a ligação à vida.

E como foi a ligação dessa vez?
Eu era muito amigo de um agricultor e aproveitava as histórias dele para a escola. Um dia disse-me “ó professor, este ano foi um desastre para as ervilhas. Veja lá se consegue acompanhar a minha ideia: eu costumava guardar as sementes das ervilhas em frascos de vidro e este ano coloquei em caixas de plástico. Será que isso está ligado?” Peguei neste problema e investiguei. Tínhamos de arranjar uma amostra com frascos e caixas, registar tudo e depois ver na produção. Isto é que é investigar. Investigar não é responder sim ou não. Não podia responder ao senhor, pois não tinha investigado.

Nem sempre é assim que funciona a escola…
Eu ria-me com os inspetores que iam à minha sala de aulas e diziam: “Agora a escola ativa é que é o paradigma.” Continuavam como inspetores, mudava o governo, voltavam a aparecer e diziam “agora é a pedagogia por objetivos”. Eu perguntava-lhes: “Mas qual é a diferença?” Não sabiam. Depois iam dar uma aula e qual era a letra que escolhiam? O “i”, que é a mais fácil: um risco para cima, para o lado e uma pintinha. Ou o “o”. Simplesmente, dizia-lhes que tinham de ouvir primeiro os problemas do professor e então fazer ou tentar dar resposta a essa dúvida. Não era a escolha feita por eles, era a escolha dos professores. Agora, quando apresentamos um projeto, a pergunta, que não se ouve cá fora, é “de que partido é ele?”. Tem interesse se for do partido.

Que trabalho acha que deveria ser feito na educação?
Uma análise às escolas que fecham. Não há alunos, fecham-se as escolas e estas passam a ser o quê? Um café, um restaurante, quando defendo que deveriam ser um polo cultural, um local de encontro. É curioso que esse problema surgiu já no tempo do Salazar. O pai do Marcelo Caetano, que foi governador-geral de Moçambique e subsecretário de Estado da Educação, queria o aproveitamento das escolas como um polo cultural da aldeia. Por exemplo, levar lá um rancho folclórico. Mas o Salazar discordou – “isso era na Casa do Povo”, defendia. Pois na Casa do Povo fazia-se política.

Nessa vontade de estudar e aprender, o Raul Mendes tirou um doutoramento.
Foi o primeiro doutoramento em Ciências da Educação na Lusófona. Quando me aproximei do final da carreira e comecei a ter mais tempo livre, matriculei-me aos 54 anos na Escola Superior de Educação João de Deus, que para mim era o polo por excelência da formação de professores. Estive lá dois anos. O Dr. António rodeou-se de personalidades muito importantes no mundo pedagógico. O meu método era mais virado para a recuperação de crianças – não batia no método deles -, mas vi pela reação dele, quis ser o meu orientador da tese, para ficar com o domínio do trabalho. De qualquer modo, servi-me dessa escola para apresentar este método, lá está na biblioteca das teses o método Do Número à Palavra, simplesmente nunca teve, nem poderá ter, divulgação porque poderá colidir com o método João de Deus.

Não se ficou por aí…
Depois fiz o mestrado e o doutoramento sobre “A formação de professores em Portugal antes e depois do 25 de Abril – que mudanças”. Ouvi 34 professores que tinham exercido antes e outros depois dessa data.

E que diferenças encontrou?
Mais na idade do que na formação profissional. Os mais recentes aderiram melhor, no modo geral, ao 25 de Abril, enquanto os mais antigos estavam muito afetos à trilogia Deus, pátria, família. Mas sempre houve quem furasse o sistema. Eu não admitia que numa classe houvesse a fila dos burros e a dos outros. A única divisão que fazia era os que viam melhor ou pior, que ouviam melhor ou pior.

O orgulho nos netos

Como é a sua vida atual?
Tem sido ótimo acompanhar o estudo dos meus netos. Tenho dois – um está no 8.º ano e o outro entrou no Técnico, no 1.º ano de Engenharia Industrial. Fiquei muito contente quando há tempos fui ao quarto dele e tinha lá colado na secretária meia dúzia de pensamentos meus. Um deles era “na vida devemos ser honestos, trabalhadores”. Nos aniversários dei-lhes sempre uma prenda diferente, um poema, qualquer coisa que mostrasse o que era a vida. Ainda hoje mantenho a ligação ao estudo. Pensando sobretudo nos imigrantes que têm dificuldades na língua portuguesa e procuro conciliar o que é este método com pessoas com estrato social normal.

Já pensou em editar esse seu método de ensino?
Enviei a uma editora que passados 15 dias me respondeu que a parte editorial estava esgotada. Eles não explicam, mas no ensino há um milhão de alunos e com problemas são 10%, por isso não é rentável uma edição. Ainda por cima, o livro seria caro porque é todo baseado em gravuras.

O que lhe falta fazer ainda?
Falta fechar o ciclo, ou seja, ver esta obra continuada e aplicada pelo menos no sentido de experiência para ver se as crianças se desenvolvem e aprendem.

Sempre a pensar nas crianças…
Conto-lhe outra coisa curiosa: quando acabava a aula, dizia aos miúdos “hoje saímos mais ricos”. E alguém começava a mexer nos bolsos…

Torneio Consumir com Cabeça! – concurso para os alunos do 3º ciclo do ensino básico

Agosto 30, 2019 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações no link:

https://www.radiomiudos.pt/index.php?id=1950&cont=1&page=1

Não será a vontade dos alunos a determinar a que casas de banho vão, mas sim o sexo a que pertencem

Agosto 28, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia e foto do Público de 21 de agosto de 2019.

Novo diploma sobre identidade de género nas escolas está a motivar uma onda de protestos. Ministério da Educação esclarece que só alunos “em situações muito particulares” poderão escolher instalações independentemente do seu sexo de origem.

Clara Viana

O Ministério da Educação esclareceu nesta quarta-feira que o uso das casas de banho e balneários das escolas vai continuar a ser feito como até agora, respeitando a divisão por sexos. Em resposta ao PÚBLICO a propósito da polémica criada com um despacho que estipula as medidas de protecção da identidade de género nas escolas, o ministério frisa que “não está em causa, como é evidente, um uso livre de espaços [casas de banho e balneários], mas sim a salvaguarda da privacidade e intimidade de jovens em situações muito particulares”.

Num despacho, publicado no passado dia 16 de Agosto, que visa aplicar às escolas a lei da identidade de género aprovada no ano passado, são elencadas algumas medidas que visam “assegurar o respeito pela autonomia, privacidade e autodeterminação das crianças e jovens, que realizem transições sociais de identidade e expressão de género”. Entre elas figura a seguinte determinação: “As escolas devem garantir que a criança ou jovem, no exercício dos seus direitos, aceda às casas de banho e balneários, tendo sempre em consideração a sua vontade expressa e assegurando a sua intimidade e singularidade.”

Não foi preciso mais para motivar uma petição pública em prol da suspensão deste despacho, que nesta quarta-feira à noite, poucas horas depois de ter sido lançada, reunia já cerca de 17 mil assinaturas. “Uma das medidas mais polémicas deste despacho é que as escolas são obrigadas a deixarem a criança, de qualquer idade, escolher a casa de banho e o balneário de acordo com o seu ‘género’”, escreve-se na petição. Onde se refere que o novo diploma, assinado pela secretária de Estado da Igualdade e pelo secretário de Estado da Educação, mais não faz do que “oficializar a implementação da ideologia de género nas escolas”.

Nos comentários colocados pelos signatários da petição podem ler-se considerações como estas: “Não existe igualdade de género, Deus criou o homem e a mulher”; “não é o que os jovens necessitam, o que lhes pode trazer equilíbrio e felicidade é uma família estruturada. Tudo isto contribui para o oposto”; ou “o que vai acontecer nas escolas, é uma vergonha!”, entre muitas outras do mesmo estilo.

Ameaça de acção judicial

Também o líder da Juventude Popular não poupou críticas ao novo diploma, anunciando mesmo que se este não for suspenso, avançará com uma acção judicial contra a aplicação das normas ali previstas.  “A escola não é um acampamento de Verão do Bloco de Esquerda”, escreveu Francisco Rodrigues dos Santos, frisando que o despacho consubstancia “um ataque vil à liberdade de ensino e de educação”, que deve ser suspenso “com urgência e efeitos imediatos”, até que o Tribunal Constitucional se pronuncie sobre a lei da identidade do género, que está na origem do diploma de sexta-feira.

O pedido de fiscalização de constitucionalidade desta lei foi apresentado no final de Julho por iniciativa de 86 deputados do PSD e do CDS, a que juntou o socialista Miranda Calha, com base em argumentos similares aos que estão a ser utilizados contra o novo despacho. Em causa estão dois postulados do art.º 12 da lei n. º38/2018, que é orientado precisamente para o sector da educação.

“A ideologia de género tem tantos direitos como qualquer outra. Pode ser discutida e difundida, visto que vivemos num país que assegura a liberdade de expressão, mas as ideologias não podem ser ensinadas nas escolas”, justificou um dos subscritores do pedido de fiscalização.

Um dos pontos contestados neste pedido é o que estipula que “os membros do Governo responsáveis pelas áreas da Igualdade de Género e da Educação adoptam, no prazo máximo de 180 dias, as medidas administrativas necessárias para a implementação” do exercício do direito à autodeterminação da identidade de género à protecção das características sexuais das pessoas.

Como este prazo acabou por ser amplamente ultrapassado, o despacho dos secretários de Estado da Igualdade e da Educação acabou por ser publicado já depois de o pedido de fiscalização e constitucionalidade ter dado entrada no tribunal. A este respeito, o ministério esclarece que se “trata da regulamentação prevista na lei, já em curso antes do pedido de fiscalização”, acrescentando que este “não tem qualquer impacto suspensivo”.

O ME adianta ainda que este despacho “é sobre os direitos dos alunos, independentemente do nível de ensino”, que se “destina a proteger todos os jovens que, por algum motivo particular relacionado com questões de género, necessitem de ver a sua privacidade e segurança protegidas” e que as medidas previstas “contemplam questões como o direito do uso do nome auto-atribuído [escolhido pela criança ou jovem em transição de identidade]” e o seu acompanhamento “por adultos formados para o efeito”.

No diploma estabelece-se também que as escolas devem identificar um responsável “a quem pode ser comunicada a situação de crianças e jovens que manifestem uma identidade ou expressão de género que não corresponde à identidade de género à nascença”. Ainda em resposta ao PÚBLICO, o ministério refere a este respeito que todo o despacho aponta para “uma estreita articulação com as famílias, pelo que não se prevê qualquer obrigatoriedade de comunicação, mas sim a protecção dos alunos”.

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