São Tomé e Príncipe As crianças bebem mais “álcool do que leite”

Janeiro 9, 2020 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 2 de janeiro de 2020.

Avaliação psicológica de crianças com dificuldades de aprendizagem – Formação Contínua no ISPA

Janeiro 7, 2020 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Objectivos 

Promover o desenvolvimento de competências relacionadas, para identificar dificuldades de aprendizagens mais comuns nas crianças, desde o pré-escolar até ao 1º,2º e 3º ciclos do ensino básico

Conhecer, seleccionar e aplicar os principais instrumentos destinados a avaliar as dificuldades de aprendizagem

Identificar, com base nos resultados da avaliação, a(s) dificuldade(s) de aprendizagem

Competências

Conhecer e identificar precocemente as dificuldades de aprendizagem
Diferenciar os principais tipos de dificuldades de aprendizagem
Aprender a seleccionar os instrumentos adequados para a avaliação de cada tipo de dificuldade de aprendizagem
Aprender a avaliar crianças com dificuldades de aprendizagem, a retirar dos resultados dos instrumentos, os dados necessários para emitir conclusões em forma de relatório

Calendarização

Sábado, Janeiro 18, 2020 – 09:00 – 13:30

Sábado, Janeiro 25, 2020 – 09:00 – 13:30

Sábado, Fevereiro 1, 2020 – 09:00 – 13:30

Sábado, Fevereiro 8, 2020 – 09:00 – 13:30

Sábado, Fevereiro 15, 2020 – 09:00 – 13:30

Sábado, Fevereiro 15, 2020 – 14:30 – 16:30

Mais informações no link:

http://fa.ispa.pt/formacao/avaliacao-psicologica-de-criancas-com-dificuldades-de-aprendizagem

Madrid proíbe uso de telemóvel nas salas de aulas já no próximo ano letivo

Janeiro 3, 2020 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Diário de Notícias de 26 de dezembro de 2019.

A medida vai afetar cerca de 800 mil estudantes do ensino não universitário de 1700 escolas da Comunidade de Madrid, que segue o exemplo dos governos regionais de Galiza e Castela-Mancha.

A partir do próximo ano letivo é proibido o uso de telemóveis nas salas de aula de 1700 escolas públicas da Comunidade de Madrid. Cerca de 800 mil estudantes do ensino não universitário vão ser afetados, escreve o El Mundo. A medida vai ser obrigatória nos “períodos escolares”, exceto quando os telemóveis são utilizados com fins educativos ou em casos de alunos que precisam do aparelho “por razões de saúde ou incapacidade”.

“Esta é uma medida que visa melhorar os resultados académicos dos estudantes, especialmente aqueles que têm grandes problemas com o estudo, e está também focada no combate ao cyberbullying e bullying, justifica um porta-voz do Ministério da Educação, citado pelo jornal.Se os alunos não cumprirem com a medida estipulada pelo governo regional de Madrid, cabe ao professor ou à direção decidir qual a ação corretiva a aplicar, que pode contemplar a apreensão temporária do telemóvel.

Até agora, as escolas publicas em Madrid tinham autonomia para decidir sobre o uso de telemóveis nas salas de aula.

Depois de Galiza e Castela-Mancha, Madrid passa a ser o terceiro governo regional espanhol a proibir o uso de telemóvel nas salas de aulas.

As escolas, acrescenta o El Mundo, podem limitar adicionalmente o uso dos aparelhos em outros espaços da escola, como no recreio.

França já proíbe

Em França, a medida já está a ser colocada em prática desde o ano passado. A “interdição efetiva” foi aprovada a 7 de junho de 2018 na Assembleia Nacional e abrange o ensino básico e secundário. De acordo com o Ministério da Educação francês, trata-se de “medida de desintoxicação” para combater a distração nas salas de aulas e o bullying.

A lei que entrou em vigor no ano letivo 2018-2019 permite que as escolas públicas francesas tomem a decisão sobre como querem aplicar a proibição, podendo numa versão mais simples implicar que os telemóveis são colocados em bolsas específicas dentro das mochilas para permitir o acesso em caso de emergência ou para uso pedagógico, nas aulas. Mas há também a versão mais extrema, de os proibir totalmente na escola, sob pena de sanções.

E em Portugal? “A escola não o pode proibir”

E se as crianças portugueses fossem proibidas de levar telemóveis para as salas de aulas? Professores, pais e psicólogos, ouvidos pelo DN, consideram completamente desajustado proibir o uso dos aparelhos nas escolas.

“As escolas não podem viver de costas voltadas para a sociedade. Se a sociedade permite o uso do telemóvel, a escola não o pode proibir, pode, sim, limitá-lo”, afirma Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas. “Se os alunos usam o telemóvel na rua e a escola vai proibi-lo, a escola vai ser ainda mais desmotivadora ou então não tão motivadora.”

Eduarda Ferreira, investigadora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas e psicóloga educacional também se mostrou contra a medida. “Temos de pôr a escola dentro do telemóvel e não tirar o telemóvel da escola”, afirmou. “Banir é que não. O uso do telemóvel na sala de aula, por exemplo, pode motivar os jovens para aprender”, defendeu.

Já Jorge Ascensão, presidente da Confederação de Pais (Confap) entende que há um trabalho a fazer, mas ao contrário: “É preciso trabalhar o sistema educativo e as relações sociais, incutir valores, ensinar os jovens que têm que respeitar os outros. E essa é uma responsabilidade partilhada dos pais e da escola.”

Um país sentado no sofá – Crianças obesas

Janeiro 2, 2020 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Fronteiras XXI

A falta de actividade física entre as crianças portuguesas é uma bomba-relógio. Porque lhes limita o desenvolvimento motor em idades em que muitas capacidades podem ser maximizadas e porque crianças que não se mexem serão no futuro adolescentes e adultos sedentários. Há alunos do 2º ano que não são capazes de saltar bem à corda e estudantes do 5º que não sabem correr. “Em vez de os ensinarmos a praticar desporto temos de os ensinar a mexer-se”, lamenta o professor de educação física Avelino Azevedo.”

Portugal é dos países europeus com menores taxas de actividade física e mais crianças obesas. Uma aposta sólida na promoção do exercício físico poderia trazer melhorias significativas na saúde pública e pouparia muito dinheiro. Mas as escolas continuam com dificuldades, os clubes oscilam entre a responsabilidade social e a necessidade de formar “activos”, os decisores políticos parecem pouco empenhados no tema e há muitos miúdos que passam a vida no sofá ou em frente ao computador. Estamos a formar gerações com rotinas sedentárias. E vamos todos pagar por isso.

A falta de actividade física entre as crianças portuguesas é uma bomba-relógio. Porque lhes limita o desenvolvimento motor em idades em que muitas capacidades podem ser maximizadas e porque crianças que não se mexem serão no futuro adolescentes e adultos sedentários. Doenças físicas e problemas de auto-estima ficam à espreita e a saúde pública fragiliza-se.

Os dados da Direcção-Geral da Saúde revelam que 77 por cento dos portugueses não praticam exercício suficiente. E a Organização Mundial de Saúde calcula que mesmo que a taxa de inactividade fosse de 50 por cento, o sedentarismo custaria ao país mais de 900 milhões de euros por ano em cuidados médicos, medicamentos ou absentismo no trabalho. Foi quanto pagámos pela ponte Vasco da Gama…

O problema é sério e o cenário entre os mais novos não prognostica nada de bom. Numa sociedade cada vez mais urbana e “electrónica”, os miúdos saem menos de casa, andam menos a pé, já quase não brincam na rua. Em cima disso, comem e bebem alimentos hiper-calóricos.

Os estudos mostram bem a degradação daquilo a que Olímpio Coelho, professor convidado da Universidade Lusófona, chama “literacia motora” entre os mais pequenos: as provas de aferição do ensino básico em 2016/2017 concluíram que quase metade dos alunos (46%) não conseguia dar seis saltos consecutivos à corda, que 40% não sabia dar uma cambalhota e quase um terço (31%) sentia dificuldades em jogos de grupo.

Se o ponto de partida é francamente mau, o que se segue também não são boas notícias. É que o sistema escolar não tem capacidade de resposta para o problema, aponta Avelino Azevedo, presidente do Conselho Nacional de Associações de Profissionais de Educação Física e Desporto (CNAPEF): “Estamos muito preocupados com o processo educativo no 1º ciclo, que é deficiente, até pela falta de instalações e profissionais”, alerta.

“Às vezes no 5º ano temos de ensinar miúdos a correr, como pôr o pé, etc… São questões básicas, que tinham de ser trabalhadas antes. Depois os miúdos não têm destreza física, se caem magoam-se logo, em vez de os ensinarmos a praticar desporto temos de os ensinar a mexer-se.”

Como é que isto acontece, se como diz, Olímpio Coelho, “as crianças são naturalmente activas”? Porque, levam uma vida muito sedentária. “Todas as solicitações fortes vão no sentido de estarem parados, com a popularização dos jogos electrónicos, da Internet, da vida em frente ao teclado. É preciso limitar o tempo que as crianças dedicam ao computador.”

Já não se brinca na rua

O meio urbano também está a bloquear essa tendência dos mais novos para a actividade, porque “reduz as possibilidades de exercício natural”.

“As práticas de rua estão em desuso, são vistas como inseguras e há uma protecção excessiva, que não permite aos miúdos crescerem perante a adversidade, ao ar livre”, analisa Tomaz Morais, treinador de rugby, assessor para o alto rendimento da Federação Portuguesa de Rugby e consultor do Sporting. “Desta forma, as crianças não são capazes de ganhar hábitos motores, como saltar, correr, cair ou subir escadas, fundamentais para conseguirem praticar desporto com qualidade”, explica. “Uma área onde se nota claramente a influência das ‘facilidades’ modernas é a da resistência. Os transportes públicos chegam a todo o lado e a generalidade dos jovens anda pouco a pé.”

Ainda assim, Tomaz Morais vê algumas mudanças positivas: “Há um entendimento muito mais claro da importância do desporto na formação dos jovens. Pais, médicos, meio escolar, comunicação social; toda a gente está mais alerta para as vantagens da actividade física, seja ela formal ou informal. Há uma maior consciencialização social e vemos jovens a participar em actividades físicas sem carácter competitivo, procurando apenas o bem-estar.”

Para muitos, no entanto, só o meio escolar fornece o enquadramento para a prática de algum exercício físico.

“A principal preocupação prende-se com o número de horas de actividade física que os alunos cumprem sob supervisão especializada”, explica Avelino Azevedo. “Queremos cumprir as normas europeias e da Organização Mundial de Saúde: uma hora de exercício diário por dia. Se não for na escola, para muitos não será em lado nenhum… E como o Desporto Escolar só abrange cerca de 20 por cento dos alunos, perto de 180.000, o nosso foco centra-se nas aulas de Educação Física.”

O impacto na vida dos alunos é enorme, até em questões muito prosaicas. “Para alguns, que vivem com dificuldades económicas e em lares desestruturados, o banho que tomam na escola depois das aulas pode até ser o único nessa semana…”, lembra Avelino Azevedo.

Há todo um mundo de dificuldades que passariam despercebidas aos mais desatentos, mas não a quem trabalha directamente com os jovens. “A refeição na cantina é muitas vezes a única de jeito para alguns miúdos”, diz Marco Cerveira, coordenador técnico da formação de futebol no Grupo Desportivo de Peniche (GDP) e também professor de Educação Física.

Desinvestimento na Educação Física

As hesitações políticas ao longo dos anos não têm contribuído para reforçar o estatuto da Educação Física, antes pelo contrário.

Em 2012, a disciplina deixou de contar para a média dos alunos do secundário. Agora, as notas voltaram a ser contabilizadas. Mas durante esses anos houve um claro desinvestimento na Educação Física, relata Avelino Azevedo.

“Dos alunos que, em alturas mais complicadas, apontavam para as outras disciplinas, as que contavam para a média de acesso ao ensino superior; dos directores das escolas, no momento de tomar decisões; e do Ministério da Educação, que negligenciou a formação de professores”, defende.

Acontece que esta fase coincidiu ainda com a vaga de obras nas escolas a cargo da Parque Escolar e o estatuto “menor” da Educação Física levou a que muitas remodelações adoptassem intervenções minimais ou deixassem mesmo de lado as instalações desportivas.

“Há escolas com zonas cobertas, mas não fechadas… Ora, em algumas regiões do país isso até pode servir, mas no Norte e no Interior é impossível dar aulas ao ar livre durante o Inverno! E mais: essas instalações das escolas acabam também por ser utilizadas pela comunidade em horários pós-escolares, pelo que se perdeu uma oportunidade que vai muito para além do universo escolar”, diz o presidente do CNAPEF.

Contudo, era inevitável que a Educação Física recuperasse o seu estatuto, adianta. “A questão foi ultrapassada. O aluno é um todo, a Educação Física não trabalha apenas o corpo, potencia tudo o que ajuda na aprendizagem: trabalhar em grupo, saber ganhar e perder, questões de saúde, de auto-estima, de integração.” Porque o papel principal do desporto na escola é “reforçar a literacia motora dos seus alunos”, criar “bons candidatos a praticantes que depois os treinadores trabalham”, reforça Olímpio Coelho.

Por esse motivo, o trabalho com as crianças deveria começar mais cedo, no 1.º ciclo, onde a tradição e os métodos de ensino não parecem jogar a favor de uma maior preocupação com a actividade física.

As salas têm um professor generalista e muitas nem dispõem de instalações adequadas. Para Avelino Azevedo, a solução passaria por “colocar um professor de Educação Física a coadjuvar o docente generalista e generalizar a boa prática de aproveitamento racional das instalações municipais, como os pavilhões e as piscinas”.

Os clubes: valores e performance

Apesar de tudo, mantêm-se algumas resistências, a começar pelas colocadas pelos miúdos que não se sentem à vontade com o exercício físico. Não estão habituados, custa-lhes, é um sacrifício, fala-se cada vez mais em performance e quem não é bom no desporto mais vale nem tentar…

Para os que aprenderam a gostar de exercício e têm apetência, praticar desporto significa cada vez mais inscrever-se num clube. Há hoje mais de 410 mil crianças e jovens a praticar desporto federado.

Mas os pais pagam a formação desportiva ou pagam a busca pela excelência? “Os pais vêem nos clubes uma forma de praticar desporto com mais segurança, o que não quer forçosamente dizer melhor desporto”, diz Tomaz Morais. “O lado bom é que os clubes investem cada vez mais em profissionais qualificados, que abrem o treino às áreas que estão mal trabalhadas de base. Quando antes se ensinava a jogar, agora trabalha-se toda a motricidade, que devia ser algo desenvolvido a nível pessoal. Mas é o cenário que temos.”

A preponderância dos clubes traz consigo uma diferença de enquadramento, de mentalidades. “Está a passar-se cada vez mais carga sobre os miúdos que praticam desporto. Há uma exigência de competir bem e ganhar. Não está errado; o que não se pode é passar por cima de princípios éticos. A expectativa da vitória é cada vez mais premente. Antes havia mais ‘alegria’, agora é o ‘rendimento’. Os clubes formam e querem performance”, adianta.

Já para Olímpio Coelho, hoje o desporto de alto rendimento está absorvido pelo economicismo e funciona numa lógica empresarial de criação de valor de mercado, não dando tanta atenção às questões da valorização do indivíduo e da sociedade.

E por isso, “exceptuando algumas pessoas e instituições, não se respeita o longo prazo, acelerando-se o processo para tentar formar ‘activos’…” Ou seja: “o indivíduo deixa de estar no centro do processo, passa a ser a instituição.”

E, sim, depois há também os pais. Alguns confundem a formação desportiva dos filhos com o investimento num futuro financeiramente desafogado… E é vê-los por aí, ao fim-de-semana, gritando “instruções” para o campo, destratando árbitros e adversários, às vezes até os próprios filhos, por falharem um passe ou estarem distraídos…

“Temos de domesticar os pais”, desabafa o professor de educação física Marco Cerveira. Em Peniche, onde coordena a formação de futebol, há procedimentos estabelecidos para evitar choques entre os progenitores ansiosos e os técnicos, que acabam, inevitavelmente, por prejudicar sobretudo os jovens praticantes.

“Aqui os treinadores têm instruções para não debaterem questões técnicas com os pais. Quando menos conversa houver sobre esse tema, melhor”, explica. “Mas não deixamos de os ouvir quando estamos no campo. E os miúdos também…”, desabafa.

Uma “lição” de futebol em Peniche

Nem sempre é assim, claro. “Noutros clubes, já tive pais a dizerem-me que pagavam e que o filho tinha de jogar. Respondi-lhes que estavam errados: eles pagam pelos treinos, pela formação; o jogo é responsabilidade do clube”, vai contando Marco Cerveira, à margem do jogo no estádio do Grupo Desportivo de Peniche (GDP), entre a sua equipa de sub-13 e a do Bombarralense.

Desde que o professor de educação física chegou ao clube, “há quatro ou cinco anos”, e com o apoio do então presidente João Manuel Viola, a formação do GDP levou uma volta. “Apostámos na qualidade dos treinadores, o presidente aceitou que era necessário subir um bocadinho o nível de remuneração dos técnicos, até para haver outra exigência. Trabalhamos em conjunto, não há ‘quintais’ estanques, funcionamos como um todo.”

Os resultados estão à vista, garantem no clube. De 70 miúdos passaram para cerca de 200, pela primeira vez o GDP tem uma equipa dos escalões de formação (iniciados) no campeonato nacional e há toda uma nova dinâmica à volta do futebol jovem.

Neste sábado de manhã, alguns deles estão aqui, correndo atrás da bola com entusiasmo pelo campo sintético. Uns mais dotados tecnicamente, outros menos; uns mais franzinos, outros mais espigadotes; alguns com peso a mais. E na equipa adversária do Bombarralense até há uma menina – a Mariana – que joga com os rapazes.

Cada jogo é uma lição. Quando o guarda-redes do Peniche comete um erro e o adversário marca golo, o rapaz da baliza fica inconsolável no chão. “Repare agora”, avisa Marco Cerveira. E vários companheiros correm para o confortar. Levantam-no do chão e o jogo prossegue.

E mais à frente na partida, quando um jogador do Peniche amua, por um companheiro se perder em fintas e não lhe passar a bola, virando as costas ao lance, é logo substituído. No final da partida, apesar de vencerem por 5-1, a voz do treinador do GDP é dura: “Isto não volta a acontecer! Nem contigo, nem com mais ninguém!”. Nestas idades aprende-se muito mais do que apenas a chutar bem a bola.

O Martim, capitão de equipa do Peniche, é um dos que sabe bem o que fazer com a bola. Percebe-se pela forma como se mexe no campo sintético. Mas, garante, o futebol “é mais pela alegria, nem importa ganhar ou perder”. A sério?! Hoje foi uma vitória valente. Marcaste um ou dois golos? “Não, hoje não marquei nenhum. Mas fiz duas assistências, também é bom…”

Martim, Martins de apelido, fã de Cristiano Ronaldo, está no Peniche desde os 9 anos e já foi referenciado e chamado para testes pelo Benfica e pelo Sporting. Gostavas de ser jogador de futebol? “Até podia ser, não pensei ainda muito nisso.” Já fez ginástica, mas agora, “com a escola, os treinos e os jogos”, faltava-lhe tempo. Outros desportos? “Gosto de futsal”, admite, sempre com alguma timidez, “e também de ir à pesca.” Conhece vários miúdos da sua idade que não praticam qualquer desporto, uns porque não têm “possibilidade”, outros por lhes faltar “capacidade”. Outros ainda, explica com ar muito sério, “porque os pais estão separados”.

Parece ingenuidade, mas não é. Com as distâncias que é preciso percorrer para participar, há pais cujo fim-de-semana é balizado pelos treinos e competições dos filhos atletas.

Se falha este apoio, muitas vezes os miúdos não têm como juntar-se às suas equipas – se há mais do que um filho, com horários coincidentes, ninguém consegue estar em dois lados ao mesmo tempo….

Há também quem não tenha capacidade financeira de pagar os desportos dos filhos. Uma realidade que não passa ao lado do GDP. “Os miúdos pagam apenas 12,5 euros por mês para praticarem futebol e para os que precisam de transporte – porque alguns vêm de longe – são apenas mais cinco euros”, frisa Marco Cerveira. Mas no GDP os mais carenciados não pagam nada. “O presidente dizia-me sempre: ‘Não há-de ser por causa do dinheiro que os miúdos vão deixar de praticar desporto!’”

Ameaça para a saúde

Um pouco por todo o país, há “Martins” que mostram potencialidades e muitos outros que praticam desporto porque é bom e saudável, à espera que a vida lhes abra outros caminhos. Há pais mais ou menos capazes de perceber a pedagogia do trabalho de equipa, clubes com maior ou menor grau de exigência no trabalho dos técnicos, realidades sociais que se cruzam com o cenário da prática desportiva. Há um país que se mexe, outro que fica no sofá.

Em Portugal 30 em cada 100 crianças é obesa. Entre a obesidade e a falta de exercício físico é fácil estabelecer uma ligação. E também, também não é complicado encontrar nesta conjugação de factores negativos a génese de muitas doenças. Há pelo menos duas dezenas de doenças e condições físicas para as quais o exercício pode ser factor preventivo, alerta a Direcção-Geral da Saúde. Das doenças coronárias, à diabetes, do cancro da mama à depressão.

O problema está identificado e uma opinião pública mais alertada. Mas parece que há sempre alguma coisa no caminho, a encravar a máquina das boas intenções… Olímpio Coelho destaca alguma tibieza da acção política nesta área, dando como exemplo a falta de divulgação pública do programa do Ministério da Saúde para o desenvolvimento da actividade física. “Ele existe, mas, tirando em alguns meios mais restritos, a verdade é que não vejo nada sobre isso nos ‘media’ e não chega ao grande público.”

É difícil passar esta mensagem? O trabalho das empresas de material desportivo e de algumas federações mostra que é tudo uma questão de se apostar a sério na comunicação e de saber fazer as coisas bem feitas. “Nota-se que há, entre os jovens, uma apetência natural por modalidades ditas radicais, que têm um marketing mais agressivo. As federações dos desportos tradicionais precisam de agir de forma mais assertiva para cativar os miúdos”, analisa Tomaz Morais.

É um desafio, mas nunca como agora as pessoas estiveram tão sensíveis à mensagem: “O desporto era muito visto como competitivo; está agora a ser percepcionado sob o prisma da saúde mental e física”, salienta o homem que conduziu os “Lobos” à presença no Mundial de Rugby de 2007. Proeza que elevou a modalidade a um nível inédito de popularidade interna:  se em 2006, a Federação Portuguesa de Rugby tinha 2.745 atletas federados, um ano depois já eram 3.410 e no ano passado atingiram os 6.460 jogadores.

A força dos campeões

Nesses mesmos onze anos, entre 2006 e 2017, o número de atletas federados também disparou. O futebol continuou a ser a modalidade mais popular e subiu de forma significativa o número de praticantes (de 133.360 para 176.349). Mas este crescimento, em termos relativos, é ofuscado pelas subidas imparáveis da ginástica (de 9. 473 para 18.312) e do basquetebol (18.690 / 41.807), que duplicaram o número de federados, tal como o rugby; do ciclismo (4.566 / 15.739), que mais do que triplicou; do triatlo (713 / 2831), que praticamente quadruplicou; e, acima de todos, da natação (7.938 / 65.499), que numa década multiplicou por mais de oito vezes os praticantes inscritos na federação e foi, em termos absolutos, quem cativou mais novos atletas.

O padel também se destaca, apesar de apenas 2016 a federação registar atletas. Se no primeiro ano eram 1.805 os praticantes federados, em 2017 esse total já tinha subido para 3.123.

Há muitos factores que influenciam a popularidade de um desporto, mas é evidente que os campeões, os heróis, têm uma importância enorme. Os golos de Cristiano Ronaldo, os “passing shots” de João Sousa no ténis, as manobras vertiginosas de Miguel Oliveira no Mundial de motociclismo, os afundanços das estrelas da NBA. E as medalhas olímpicas, claro.

Em 2020 vai fechar-se mais um ciclo, com os Jogos de Tóquio. E não é difícil prever que voltarão à ribalta as questões relacionadas com a pouca atenção dada a algumas modalidades, os apoios que os atletas têm ou não têm, as deficiências na formação, a falta de meios, a falta de atitude… Enfim, o costume. “Expectativas elevadas, confronto com a realidade, procura de culpados”, sintetiza Olímpio Coelho.

“Não consigo ver que o desporto português funcione como um todo, está a funcionar solto. Há directivas, há políticas, regulamentos, intenções. Mas depois faltam a congregação e as sinergias práticas de quem está no terreno”, salienta Tomaz Morais.

Nesses meses que aí vêm falar-se-à menos de saúde pública e mais de desempenho desportivo, mas o problema de base será o mesmo: não se formam campeões com crianças sentadas ao computador. Queremos um país de desportistas ou de espectadores; de gente activa ou de sedentários? É preciso definir um rumo e trabalhar no terreno para o concretizar. A bomba-relógio não pára. Tic-tac, tic-tac.

Duas dezenas de escolas suspeitas de subir notas

Dezembro 31, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Expresso de 21 de dezembro de 2019.

Inspeção-Geral da Educação abriu mais dois processos disciplinares no Externato Ribadouro e tem cerca de duas dezenas de averiguações em curso. Inflação de notas subverte acesso ao ensino superior.

O inquérito ao estranho caso das turmas de 10º ano do Externato Ribadouro, no Porto, em que 95% dos alunos tiveram 19 e 20 valores a Educação Física e a classificação mais baixa foi de 18, está concluído e aquele que é um dos maiores colégios do país vai enfrentar mais dois processos disciplinares: um sobre a administração e outro sobre a diretora pedagógica.

A responsável enfrenta um segundo processo, noticiado pelo Expresso em novembro, e que decorreu também da averiguação da Inspeção-Geral da Educação e Ciência (IGEC) sobre as classificações dadas pelos professores. Neste caso, foi a atribuição de um “número significativo de classificações elevadas em disciplinas do 12º ano não sujeitas a exame nacional” que gerou a suspeita. Além desta investigação, o Ministério da Educação (ME) indica que “estão cerca de duas dezenas de processos em curso”, relacionados com a mesma prática.

No caso das cadeiras sujeitas a exame, o controlo sobre a inflação de notas é mais fácil. De acordo com os dados do ME, o que se verifica é que há escolas em que sistematicamente as notas internas dos alunos afastam-se de forma significativa das dos restantes colegas do país que têm as mesmas avaliações nos exames nacionais. Ou seja, no mínimo pode dizer-se que estão a usar critérios de avaliação mais generosos. Há 18 secundárias que nos últimos cinco anos letivos estiveram sempre nesta lista. A maioria (15) são privadas e nenhuma fica a sul de Coimbra.

“Nenhuma das 30 escolas privadas de Lisboa entra nesta lista da inflação repetida e no distrito do Porto 10 em 28 estão lá. Era importante que houvesse uma intervenção do ME”, defende Cristina Santos, docente da Faculdade de Medicina do Porto e autora de um estudo sobre o desempenho dos alunos nesta escola e a secundária que frequentaram. Nele constatou que os jovens que vinham de estabelecimentos onde a inflação de notas era prática acabavam por se sair pior do que os outros. Ou seja, tendo tido notas mais generosas podem ter ultrapassado injustamente outros estudantes no acesso à universidade que, eventualmente, trabalharam tanto ou mais do que eles, mas não conseguiram as décimas adicionais para entrar em cursos tão disputados como Medicina, alerta.

Quanto à concentração a Norte, acredita tratar-se de uma questão de contágio e competição pelos alunos. A IGEC tem realizado várias ações junto destas escolas e está agora a olhar para as notas nas disciplinas não sujeitas a exame.

“Futoko”. Cada vez mais crianças japonesas abandonam a escola

Dezembro 31, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Diário de Notícias de 23 de dezembro de 2019.

Regras muito rígidas e dificuldades de socialização estão entre as razões apontadas para que mais de 160 mil crianças, só no ano passado, tenham desistido das aulas no Japão.

Dificuldades de comunicação, regras rígidas – como a obrigação de pintar o cabelo de preto -, problemas financeiros e familiares. Estas são algumas das razões que levam cada vez mais crianças japonesas a recusarem ir à escola. O ano passado foi batido um recorde no país, quando mais de 160 mil alunos faltaram às aulas por mais de um mês. A alternativa para estas crianças são as “escolas livres”, mas as habilitações conseguidas com este modelo escolar não é reconhecido.

O absentismo das crianças japonesas é um fenómeno que até já recebeu um nome: “futoko“. Mas a atitude japonesa em relação ao abandono escolar, escreve a BBC, foi sofrendo alterações ao longo dos anos.

Até 1992, a recusa em participar nas atividades escolares – então chamada tokokyoshi (resistência) – era considerada um tipo de doença mental. Em 1997 a terminologia mudou para “futoko”, um termo mais neutro e que significa “ausência”.

Em outubro, o governo japonês anunciou que o absentismo entre os alunos do primeiro e segundo ciclos atingiu um recorde, com 164.528 crianças ausentes por 30 dias ou mais em 2018, por comparação com as 144.031 em 2017.

A alternativa ao ensino regular para estas crianças são as chamadas “escolas alternativas” ou “escolas livres”, um movimento que teve início no Japão nos anos 80, em resposta ao número crescente de “futoko“.

Há escolas que impõe a cor da roupa interior dos alunos

São escolas que assentam em princípios de liberdade e individualidade, mas não dão às crianças uma qualificação reconhecida. O número de estudantes que frequenta escolas alternativas em vez de escolas regulares aumentou ao longo dos anos, de 7.424 em 1992 para 20.346 em 2017.

Além do abandono escolar, cresce ainda um outro fenómeno entre os alunos das escolas japonesas e muito mais perturbador: em 2018, o número de suicídios de estudantes foi o mais elevado em 30 anos, com 332 casos.

O que leva uma criança a recusar ir à escola, no Japão, pode envolver problemas familiares, dificuldades de socialização, divergências com amigos ou bullying, apontou um estudo realizado pelo Ministério da Educação japonês.

Os alunos que desistiram da escola dizem que o fizeram porque não se davam bem com outros alunos ou, às vezes, com os professores. Há muitos jovens que não se sentem confortáveis com as regras rígidas impostas nas escolas do Japão que muitas vezes obrigam os alunos a pintar o cabelo de preto, ou que não permitem que os estudantes usem calças justas ou casacos, mesmo em dias frios. Há casos em que até a cor da roupa interior é imposta pela escola.

Programa Já Sei Ler

Dezembro 26, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Recursos educativos | Deixe um comentário
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O Programa Já Sei Ler, relançado em 2018 pelo Plano Nacional de Leitura: 2017-2027 (PNL2027), pretende consolidar e enriquecer práticas de leitura regular no 1.º ciclo do Ensino Básico, convidando professores e famílias a ler diariamente 10 minutos com as crianças.

Recursos educativos e mais informações no link:

http://pnl2027.gov.pt/np4/jaseiler.html

Jovens mostraram como pensam (e muito) no ambiente

Dezembro 24, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Sul Informação de 17 de dezembro de 2019.

Pedro Lemos

Organização lamenta que poucos políticos tenham marcado presença.

«Estes jovens, muitas vezes vistos como pessoas apáticas e apenas interessadas nas redes sociais, demonstraram que, nas questões do ambiente, que não são de somenos, contrariam essa ideia de inércia». A frase resume o que foi o Encontro pelo Planeta que juntou, esta segunda-feira, 16 de Dezembro, 600 alunos na Universidade do Algarve (UAlg). No final, foram escolhidas as três melhores propostas que, agora, serão levadas à Assembleia da República. 

Desde propostas para reduzir o uso de microplásticos, para controlar as plantas invasoras, em Albufeira, até à implementação de um Eco-copo, na Escola Secundária Júlio Dantas (Lagos), as ideias fervilharam. O denominador comum foi a importância de salvaguardar o planeta e o ambiente.

Houve ideias com apresentações mais arrojadas (como o EcoGenius que teve direito a uma sátira) e outras mais centradas em medidas concretas. Quatro jovens da Secundária de Albufeira, por exemplo, propuseram utilizar óleo usado para fazer sabonetes.

E, no final, não se inibiram de deixar uma mensagem mais geral: «há tantos com fome! Temos de reduzir o desperdício alimentar. Já pensaram nas pessoas que passam fome?».

Ao longo do dia, houve, no total, 27 projetos levados ao palco do Grande Auditório do Campus de Gambelas. Três foram escolhidos como os melhores.

A escolha dos professores foi para o 11º E da Escola Básica e Secundária de Albufeira e o seu projeto “A importância da ação individual para a preservação do ambiente”.

Já os alunos elegeram “A Terra, minha, tua, vossa, nossa – vamos reagir – Diatomáceas, a solução do futuro?”, do 12º CTA da Secundária de Silves.

Por fim, os convidados e equipa organizadora votaram, como projeto vencedor, na ideia do 10ºG da Secundária Gil Eanes, de Lagos, de criar uma parede de musgo, capaz de fazer o mesmo papel ambiental de 275 árvores.

Agora, estes três projetos serão levados à Comissão Parlamentar de Educação, Ciência, Juventude e Desporto, na Assembleia da República.

«Foi um compromisso do Centro Ciência Viva (CCV) de Lagos, como entidade coordenadora do projeto Ecoscience. É uma forma de mostrarmos aos políticos como há jovens a pensar nas questões das alterações climáticas», considerou Luís Azevedo Rodrigues, diretor executivo do CCV de Lagos, ao Sul Informação. 

Ao mesmo tempo, também há o objetivo de levar as três ideias aos Municípios de Lagos, Silves e Albufeira para que aí sejam implementadas.

Apesar do balanço «muito positivo», Luís Azevedo Rodrigues não deixa de lamentar uma questão: a ausência dos políticos numa iniciativa para a qual foram convidados governantes, como o primeiro-ministro, ministros, autarcas e deputados. Joaquina Matos, deputada do PS e antiga professora, foi a única parlamentar a ir ao “Encontro pelo Planeta”.

«Apenas tivemos a presença do presidente da Câmara de Faro e de representantes dos Municípios de Lagos e Portimão. A nível ministerial, por exemplo, não veio ninguém. Na sessão de encerramento estiveram presentes a delegada regional de Cultura e o delegado regional de Educação, mas é algo que podemos melhorar», disse.

É que, na opinião do mentor deste “Encontro pelo Planeta”, «estes alunos mereciam muito mais».

«Normalmente ouvimos queixas de que os cidadãos têm pouca participação cívica. Este foi um projeto que envolveu 600 jovens com ideias concretas para problemas concretos», defendeu.

No discurso de encerramento, foi precisamente essa a mensagem que deixou. «Não deixem que vos considerem apáticos. Demonstrem a vossa cidadania cívica».

Fotos: Pedro Lemos | Sul Informação

Remédios milagrosos para meninos ansiosos que choram na escola

Dezembro 19, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Armanda Zenhas publicado no site Educare de 28 de novembro de 2019.

D.ª Flávia trabalha na receção de uma escola básica. Conhece quase todas as muitas centenas de alunos que a frequentam, desde o 1.º ciclo ao 3.º ciclo. Conhece igualmente os pais deles. Com todos fala, a todos atende, com a paciência e disponibilidade que a caraterizam, cativando muitos de imediato, serenando exaltados, acalmando ansiosos, informando os que querem e, com muita subtileza, aqueles que pensam que tudo sabem.

Havia uma menina que, terminado um teste, recorria chorosa aos seus carinhos, porque achava que lhe tinha corrido mal. Normalmente, a nota acabava por ser boa, e a Susana (assim se chamava a menina) vinha mostrar-lha sorridente. Ia poder mostrar à mãe, que ia ficar satisfeita. Quando a nota era mais baixa, embora sempre positiva, a mãe ralhava-lhe e dizia que ela precisava de estudar mais. D.ª Flávia prometeu arranjar-lhe um remédio milagroso, que lhe ia tirar o medo de fazer testes. Era um remédio muito caro que ela mandava vir do estrangeiro e só dava a meninos especiais. E era um remédio mágico que não fazia mal a ninguém. Com esse remédio, a Susana deixaria de ter medo de fazer os testes. E assim foi. Antes de cada teste, a Susana ia ter com a D.ª Flávia, que lhe dava um comprimido branco, muito caro e especial, próprio para meninos especiais. O suposto comprimido não era mais do que uma bolinha de adoçante. Susana ia para o teste tranquila e confiante e, no fim, vinha contar à D.ª Flávia como lhe tinha corrido, sempre de sorriso nos lábios.

Artur era um menino que não conseguia habituar-se à nova escola. Tinha medo de ir para o recreio, porque tinha passado a ser um dos meninos mais pequenos e tinha medo dos grandes. Nos intervalos, procurava ficar a um canto e escapar das ordens de ir para o recreio. D.ª Flávia não deixou de reparar nele e abordou-o. Perante as confidências do menino, prometeu-lhe um chá milagroso. Era um chá muito caro que ela mandava vir do estrangeiro e que só dava a meninos especiais. Ia fazê-lo sentir-se mais calmo e confiante. Ela iria trazê-lo de casa e entregá-lo no bufete, dando instruções à sua colega para só o servir ao Artur. Artur passou a ir ao bufete tomar o tal chá milagroso, que D.ª Ilda, a assistente operacional aí em serviço, só lhe servia a ele. E resultava! Ficava mais contente, mais calmo e mais confiante. Não deixou de conversar e confidenciar com D.ª Flávia, que o aconselhava a juntar-se aos meninos da sua turma nos intervalos. Com o chá e os conselhos da D.ª Flávia, o Artur foi-se afoitando no recreio e na sua exploração. As lágrimas e os receios foram ficando para trás. O suposto chá estrangeiro era um comum chá de cidreira.

E as histórias que D.ª Flávia me conta sucedem-se. Pode ser um chá, pode ser um remédio. Mas é sempre caro, comprado no estrangeiro e dedicado por ela a meninos muito especiais. São estes os ingredientes que ela considera importantes para, em conjunto com as conversas entre ela e as crianças, estas ganharem confiança em si próprias. Já lhe aconteceu ser abordada por mães de algumas destas crianças a quererem saber como comprar o chá, pois notam as melhorias que provoca nos filhos. E D.ª Flávia conta-lhes a verdade e explica-lhes como é importante incutir confiança e curiosidade e evitar e eliminar fatores ansiogénicos. Esta assistente operacional só fez a escolaridade obrigatória, porque a família não tinha posses para mais. Sem estudos adicionais mas com competências pedagógicas advindas da sua experiência de vida e da sua enorme sensibilidade, tem, contudo, vindo a desempenhar um papel fundamental no desenvolvimento e na escolaridade de muitas crianças que passam pela sua escola. A sensibilidade, a atenção individualizada a cada criança, o carinho e a criatividade são alguns dos ingredientes que permitem aos educadores – pais ou profissionais da educação – encontrar formas eficazes de lidar com crianças em situações de stress e de as ajudar a desenvolver confiança em si próprias e a encontrar em si mesmas meios de ultrapassar as dificuldades com que se defrontam.

Armanda Zenhas Doutora em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. Mestre em Educação, área de especialização em Formação Psicológica de Professores, pela Universidade do Minho. É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, nas variantes de Estudos Portugueses e Ingleses e de Estudos Ingleses e Alemães, e concluiu o curso do Magistério Primário (Porto). É PQA do grupo 220 no agrupamento de Escolas Eng. Fernando Pinto de Oliveira e autora de livros na área da educação. É também mãe de dois filhos.

Para os alunos, a Matemática é a mais difícil das disciplinas. Porquê?

Dezembro 17, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Diário de Notícias de 15 de dezembro de 2019.

Catarina Reis

Aos 12 anos, o jovem Henrique Navas começava o seu percurso de participações nas Olimpíadas Portuguesas de Matemática. Com 19 anos, já somava 16 medalhas em provas de raciocínio matemático, mais do que o total de anos que se tinham passado desde então. Os números não o atormentam, são até uma paixão que o fez seguir a Matemática até ao ensino superior. Mas, para grande parte dos alunos portugueses, esta área é a mais temida. É também aquela que regista mais insucesso escolar, segundo o governo, que volta a propor um novo olhar sobre o tema no seu programa da atual legislatura. Mas, afinal, porque é que a Matemática é tão difícil?

De acordo com um documento da Direção-Geral da Educação sobre o ensino da Matemática, entre o conjunto de disciplinas do ensino secundário, este é considerado o mais difícil de todos. Relativamente ao ano letivo 2017/2018, quando os alunos foram questionados sobre aquelas em que tiveram mais dificuldades, a Matemática foi referida por 41,8% dos alunos dos cursos científico-humanísticos e por 31,4% daqueles que estavam em curso profissionais. “A Matemática é, sim, uma das disciplinas mais difíceis da escola. E por uma razão simples: há um lado cumulativo na Matemática que não existe nas outras. Mas tem de ser mesmo assim”, começa por explicar Filipe Oliveira, presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM).

A Matemática constrói-se em cima de Matemática e as equações não existem sem a multiplicação. Em disciplinas como História, por exemplo, “pode ser-se o maior especialista da Segunda Guerra Mundial, mas não saber muito sobre a civilização egípcia”. “Há sempre ligações, mas não é taxativo”, acrescenta Filipe Oliveira. Já no que toca à Matemática, “para se fazer o que se pede no 9.º ano ou no 12.º, tudo o que está para trás tem de estar muito bem sabido”. “Os conteúdos que são ensinados durante o ensino obrigatório acumulam conhecimento que a humanidade aprendeu a absorver por ela própria desde 500 anos a.C. São 2500 anos de conhecimentos em 12 anos”, lembra.

Pedir que ser bom a Matemática não fosse uma tarefa cumulativa, “seria como pedir aos alunos para atravessarem o canal da Mancha a nado sem nunca os termos ensinado a nadar”, compara. O presidente da SPM entende que “aprender a nadar é chato, porque é uma técnica, é repetitivo, é preciso treinar todos os dias”, mas “se não se conseguir fazer isto, nunca se vai atingir as competências necessárias, como nadar rápido ou salvar uma pessoa que se esteja a afogar à sua frente na praia

O que mudou na Matemática?

Mais teoria ou mais prática? Como se combate o insucesso a esta disciplina? O tema é controverso: desde o início do século que a Matemática tem sido alvo de diferentes alterações de currículo. No atual programa governamental, volta a estar prevista “uma estratégia integrada de ação sobre a aprendizagem da Matemática, uma vez que se trata da disciplina com mais insucesso”. Ainda neste ano, o Grupo de Trabalho de Matemática [nomeado em 2018 pelo Ministério da Educação] apresentou 24 recomendações para alterar o currículo atual. O objetivo? Acabar com o que existe e criar do zero um novo plano para a disciplina nas escolas.

Uma medida “necessária”, na perspetiva da dirigente da Associação de Professores de Matemática (APM). “Só assim se garante três pontos fundamentais: articulação do 1.º ano ao 12.º ano; adequação aos níveis de ensino, necessidades de alunos e diferentes ofertas de percursos escolares; e coerência nos programas”, diz Lurdes Figueiral.

Mas “já toda a gente percebeu que, para ter um melhor sistema de ensino, é preciso não estar constantemente a mudar tudo”, contraria o presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM), que faz um raio X aos últimos anos da Matemática nas escolas. O problema, diz, passa por Portugal ter tentado seguir a mesma filosofia do que a Finlândia.

Até 2011, altura em que tomou posse o governo do antigo ministro da Educação Nuno Crato, “os currículos eram muito imprecisos relativamente aos objetivos que os alunos deveriam alcançar”. Incluíam até “falhas pedagógicas e científicas”, na medida em que, por vezes, “eram pedidos desempenhos sem se dar aos alunos os instrumentos necessários para compreenderem o que estavam a fazer”. Com o anterior governo, “tudo mudou”: não só os estudantes “passaram a trabalhar com currículos mais rigorosos e estruturados” como “passou a ser dada uma grande atenção à avaliação” – tão adorada quanto odiada -, com a substituição das provas de aferição por exames no 4.º e 6.º ano de escolaridade.

“Esta política permitiu que os alunos pudessem ser comparados da mesma forma [através de exames externos], mas também veio chamar a atenção das famílias – que ficam mais atentas se os filhos vão fazer uma prova de âmbito nacional.” O que Filipe Oliveira atribui como uma das causas da diminuição das taxas de retenção. Entre 2012 e 2018, a taxa de conclusão do ensino básico subiu 4,6%, de 90,3% para 94,9%. Já no ensino secundário, o aumento foi ainda mais drástico, de 79,9% para 86,1%, ou seja, cresceu 6,2%. De facto, “ainda há muitas retenções”, e há regiões que continuam acima da média nacional, mas “estão a cair”, lembra. Aliás, “nunca em Portugal foram tão baixas”. Porque “houve vários governos, de esquerda e de direita, mas houve sempre uma continuidade até 2015”. A partir daqui, “a história é outra”.

Quando o atual ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, tomou posse, “assistiu-se a uma revolução que nunca tinha sido vista nas escolas, que trouxe um tal desprezo do currículo, com esta ideia da flexibilidade curricular, que diz que cada escola pode desprezar 25% (ou mais, com o novo diploma) do currículo nacional“.

Já a presidente da APM acredita que uma das principais formas de combate ao insucesso escolar na Matemática poderá mesmo passar pela autonomia das escolas. Segundo dizia Lurdes Figueiral ao DN, “todos os alunos têm capacidade para aprender Matemática”, mas “a forma de chegar lá é que não é única”.

Muitas das políticas que vemos agora serem implementadas em Portugal “partem das políticas aplicadas neste país, onde não há exames e em que os alunos às 15.00 vão para casa”. “Mas o que estamos a ver, de PISA para PISA, é que esta mudança não foi boa para a Finlândia. O caso deste país já aconteceu há tanto tempo que agora podemos, de forma segura, correlacionar a queda sistemática no ranking com este tipo de reformas muito parecidas com as que o nosso governo está a fazer agora”, alerta Filipe Oliveira.

Já Portugal tem vindo a aumentar no mesmo ranking, tendo pela primeira vez alcançado uma posição acima da média da OCDE em 2015. De acordo com os testes internacionais, Portugal é o país que mais progrediu nos últimos 20 anos a Matemática. “Quando fizemos estes testes internacionais nos anos 1990, ficámos em último, a milhas da média internacional. Foi uma vergonha tão grande, que o governo até nos tirou dos testes, para não se ver a miséria que era. Mas entretanto houve uma progressão muito grande, até 2015”, conta Filipe Oliveira.

Contudo, ao nível da Matemática, Portugal estagnou. “Faz-nos perguntar se não será já um efeito desta abordagem”, adianta o professor. “Até porque, pela primeira vez na história da participação de Portugal em testes internacionais, os alunos faltaram à avaliação PISA numa percentagem maior do que era aceitável” – o mínimo de participação estipulado é de 80%, mas em Portugal foi de 76%. “Isto acontece, penso, porque há três anos que os alunos e as famílias ouvem que a avaliação não é importante. É normal que haja aqui alguma desmobilização por parte dos alunos”, mas “claro que só vamos tirar isto a limpo em 2021, porque aí vamos ter não três, mas seis anos de resultados desta nova filosofia”.

Para o presidente da SPM, o governo deve voltar a focar-se na avaliação “que, quando bem utilizada, pode ser um grande aliado da própria aprendizagem”. “Dou o exemplo do exame de código: se não fosse preciso os alunos estudarem para uma avaliação, tenho a certeza de que metade dos recém-encartados andaria na estrada sem saber os sinais de trânsito. Somos seres humanos e é assim que funcionamos.”

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