Agarrados ao YouTube

Setembro 9, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Gonçalo Delgado

Notícia do Notícias Magazine de 14 de agosto de 2019.

Estudos, psicólogos e pais constatam tendência crescente. Influenciadores seduzem com o discurso simples, muitas vezes “proibido”, e com a ilusão da fama e de uma vida faustosa. Mas o que tem de divertido e didático também pode ter de pernicioso – e o caso da “Team Strada” é só o mais recente exemplo disso. Um manual de instruções para lidar com o projeto de estrela que tem lá em casa.

Por Ana Tulha

Beijos na boca a menores, toques ostensivos no peito e nas pernas de jovens raparigas e até uma entrada repentina e prolongada pela casa de banho onde uma adolescente clama por privacidade. Tudo registado em vídeo e amplamente exposto na Internet. Estas e outras imagens arrastaram, no final da semana passada, o canal do YouTube “Team Strada” (gerido por Hugo Strada, youtuber de 36 anos) para o olho do furacão.

Depois de várias denúncias no Twitter e de uma queixa do grupo VOST Portugal – Voluntários Digitais para Situações de Emergência – à Comissão Nacional de Proteção de Crianças e Jovens, foi o próprio YouTube a fechar o canal “Team Strada”. O caso está agora nas mãos do Ministério Público, a quem competirá decidir da legalidade das práticas seguidas pelo projeto. Mas a polémica teve já o condão de despertar a atenção e a preocupação de muitos pais em relação a esta rede social.

Afinal, o que andam os nossos filhos a ver e que impacto é que isso pode ter na postura e no desenvolvimento deles? Há riscos? O que fazer quando não largam os tablets (ou os computadores ou os telemóveis) para não perderem pitada dos conteúdos divulgados pelos youtubers que gostavam de ser? Estas e outras questões andam, por estes dias, na mente de muitos pais, zelosos pelo bem-estar e são crescimento dos filhos.

E essa necessidade de saber mais só pode ser uma boa notícia. É Tito de Morais, responsável pela associação “Miúdos Seguros Na .Net”, quem o garante: “Isto serve-nos de alerta, porque andávamos todos distraídos. Para mim, o interessante [neste caso] é o alerta que fica sobre a forma como este tipo de youtubers e personalidades podem fazer grooming [aliciamento] sexual através da Internet. A ideia de que uma figura externa poder ser aquela que vai realizar os nossos sonhos é perigosa, pelo ascendente que exerce. Os miúdos têm de ter noção de que aquilo que mais desejam pode ser a maior vulnerabilidade.”

O totó, o gay, a jovem abonada

Com conta aberta desde abril de 2018, o projeto “Team Strada” foi criado por Hugo Strada, youtuber de 36 anos (também autointitulado gestor de artistas e produtor de eventos), com o objetivo de juntar jovens youtubers e criar conteúdo colaborativo. O projeto incluía uma casa partilhada, cenário de muitos dos vídeos divulgados no canal que, antes de ser encerrado, andava já perto dos 200 mil seguidores. Entre o conteúdo dos vídeos, havia partidas, desafios e atividades radicais.

E à boleia da fama cibernética, a “Team Strada” tinha já dado o salto para outros palcos, com a participação em vários eventos públicos e até parcerias com artistas e marcas. João Leal, professor de 38 anos, natural de Montemor-o-Velho, pai de duas crianças, de 11 e 6 anos, esteve recentemente num desses eventos, que decorreu no princípio de julho, na Figueira da Foz.

“Arrastado” pela filha mais velha, seguidora do grupo, João assegura ter saído de lá profundamente dececionado – e preocupado – com o que tinha acabado de ver. “Foi um espetáculo deprimente. Andavam para lá aos saltos, a tentar cantar em play-back algumas covers, e notava-se que muitos deles não estavam no seu estado normal. Pelos movimentos que faziam, pelas caras com que estavam, dava todo o ar de estarem alcoolizados ou sob o efeito de estupefacientes”, relata à Notícias Magazine, dando conta de um grupo pensado na fidelização de um público o mais abrangente possível.

“Era evidente que havia ali vários miúdos, de todos os estratos e grupos sociais. Desde o betinho ao miúdo que é mais totó, passando pelo gay, pela menina afro, pela miúda com um peito enorme, exposto de forma quase gratuita. Percebia-se que aquela organização foi pensada para que houvesse o máximo de população possível a segui-los.” João lamenta ainda que, além de apelarem aos fãs para lhes levarem uma variedade de produtos (“Coca-Colas, bolachas e outras coisas”), os elementos da “Team Strada” tenham decidido à última que não iam ficar para autógrafos, desiludindo os fãs presentes. “Tudo aquilo levou-me logo a alertar a minha filha para os comportamentos daquele grupo”, recorda João.

Pouco tempo depois, estalava a polémica: primeiro foi o humorista Pedro Teixeira da Mota a partilhar no Twitter o vídeo de um excerto da participação do grupo no programa Curto Circuito de 22 de julho, em que é possível ver Hugo Strada a beijar na boca um dos elementos do grupo (menor de idade), depois foi o youtuber João Sousa a publicar, também no Twitter, uma compilação de imagens duvidosas dos vídeos da “Team Strada” – entre as quais, as tais cenas envolvendo toques ostensivos e entradas inapropriadas em casas de banho ocupadas.

Pelo meio, até ex-elementos do grupo recorreram às redes para lançar queixas e acusações. Daí até o caso ganhar dimensão generalizada, com intervenções do Ministério Público e do próprio YouTube, foi um pequeno passo. A tudo isto, Hugo Strada respondeu com uma curta mensagem divulgada no Instagram, em que garante estar a ser alvo de comentários difamatórios e de manipulação de imagens, prometendo “encaminhar o assunto para que sejam tomadas medidas legais para repor a verdade”. A NM tentou, através do contacto telefónico que está disponível na página da “Team Strada” no Facebook, obter mais algum comentário ao caso, mas não recebeu qualquer resposta.

O sonho de ser famoso

Entretanto, as reações, dos psicólogos aos académicos, multiplicaram-se. “Acho que [o que se vê nos vídeos] é perigoso e faz com que as pessoas fiquem desconfiadas de todos os conteúdos”, admite Bárbara Romão, especialista em pedopsiquiatria desde 2008 e coordenadora de um estudo sobre o uso das redes sociais pela comunidade juvenil em São Miguel, nos Açores.

Entre as conclusões do estudo, baseado numa amostra de 547 estudantes, destaque para o facto de 51% dos inquiridos ter começado a utilizar a Internet a partir dos três anos de idade e de o YouTube ser já a rede social mais utilizada pelos jovens ouvidos neste inquérito – no seguimento de outros estudos internacionais recentes, que também têm apontado essa tendência. Habituada a ter no consultório muitas crianças e jovens que não passam sem esta rede social, Bárbara Romão, também ela mãe de um jovem de 12 anos, ajuda a explicar o fascínio exercido pelos youtubers junto dos seguidores, sobretudo entre os mais novos.

“O facto de estes youtubers serem, regra geral, jovens adultos que por um lado têm uma vida aparentemente independente, sem adultos a controlar, e por outro já aparentam ter uma vida que muitos desejam, até exibindo casas com boas condições, é algo que atrai muito os jovens”, justifica a pedopsiquiatra, que arrisca traçar um perfil-tipo dos youtubers mais conhecidos: “São carismáticos, bons comunicadores, têm o poder de conseguir que as pessoas lhes prestem atenção e utilizam muito o humor.” Como? Através de vídeos que vão desde os relatos do quotidiano às paródias, passando por críticas e dicas das mais diversas áreas.

Tito de Morais acrescenta outras explicações para o encantamento. “O facto de comungarem do mesmo tipo de interesses também é relevante. Até porque muitas vezes estes youtubers também são gamers, que jogam os mesmos jogos que eles. E depois também é o efeito manada. O desejo de pertença a um grupo que partilha do mesmo tipo de interesses faz com que os miúdos não se sintam excluídos.” E ainda há o chamariz de parte destes influenciadores exibirem vidas faustosas, que despertam em muitas crianças e jovens o sonho de se tornarem, eles próprios, youtubers.

Tito de Morais, habituado a receber contactos das mais variadas proveniências, através da página “Miúdos Seguros Na .Net”, conta que, recentemente, teve duas professoras do primeiro ciclo a partilharem a estupefação por perguntarem aos alunos o que queriam ser e três em cada quatro responderem que querem ser youtubers. E um estudo recente da Harris Poll, a mais antiga empresa de estudos de mercado dos Estados Unidos, aponta no mesmo sentido. De um inquérito preenchido por pais e crianças entre os oito e os 12 anos, dos EUA, China e Reino Unido, resultou que 29% destes jovens sonhavam, antes de mais nada, ser youtubers.

Os riscos começam aí, na ilusão de que esse “estatuto” garante uma vida desafogada – e de que é fácil chegar lá. “Há dez anos, para se ser famoso, regra geral, tinha de se passar pela televisão. Hoje em dia não. Está-se a criar o mito da fama. Há a sensação de que ao ser youtuber se pode conseguir ter uma boa vida, que dificilmente se consegue com um part-time, por exemplo. E isto do querer ser famoso pode tornar-se uma grande vulnerabilidade, possivelmente aproveitada por pessoas com más intenções”, alerta Ana Jorge, professora de Comunicação na Universidade Católica de Lisboa e autora de uma tese de doutoramento relacionada com a cultura das celebridades e os adolescentes.

A investigadora ajuda a compreender os primórdios do fenómeno. “Inicialmente, o YouTube surgiu muito como um repositório de vídeos, que já tinham circulado noutros meios. Aos poucos, foi-se tornando mais um lugar propício para alojar este lado dos produtores de conteúdo original, até pela possibilidade de monetização.” É neste contexto que, no início da década, surgem em Portugal os primeiros vloggers – bloggers que produzem conteúdos vídeo. De vloggers passaram a youtubers (e a influenciadores), associaram-se a populares campanhas de telemóveis e até se juntaram em mansões luxuosas. Tudo sementes de um fenómeno de popularidade hoje incontestável, capaz de fazer sonhar os mais jovens com o estrelato.

Sónia Sousa, mãe do youtuber João Sousa, de 18 anos (e de uma menina de nove anos que já é vidrada no YouTube), reconhece que as coisas nem sempre são assim tão simples. “Confesso que no início achei mais piada do que o que acho agora. Quando eles começam, há menos responsabilidade. Não há agentes, não há nada. É só uma distração. Depois, quando são agenciados, têm de cumprir contratos, torna-se quase uma profissão”, admite.

Sónia conta que com 10, 11 anos, o filho (que tem um canal no YouTube desde os oito) andava convencido que ia ganhar muito dinheiro à conta desta rede social, mas que agora, também com a ajuda dos pais, que sempre lhe tentaram incutir isso, “já tem outra consciência”, tanto que está a pensar avançar para uma licenciatura na área da Comunicação Social. Ainda em relação ao YouTube, o melhor para Sónia Sousa, 45 anos, é mesmo “ver o carinho dos miúdos – e mesmo dos adultos – pelo filho”.

Tomar banho para quê?

Para os mais novos, os influenciadores depressa se tornam “role-models”. Nalguns casos, a influência exercida pelos youtubers junto dos seguidores é de tal ordem que estes chegam a imitar posturas, comportamentos e expressões dos ídolos. Por vezes, até a própria língua. Quem acompanha de perto o fenómeno garante que há cada vez mais crianças e adolescentes a falarem frequentemente com sotaque brasileiro, por influência dos youtubers daquele país (bem mais populares e numerosos do que os portugueses).

“Já tive uma menina numa consulta que simplesmente se recusava a falar português sem sotaque brasileiro”, partilha a pedopsiquiatra Bárbara Romão. A replicação de comportamentos, que dependerá sempre da idade e da personalidade do jovem em causa, pode ser tanto mais preocupante quanto mais duvidosas forem a postura e a mensagem passadas por estes influenciadores. Luísa Agante, investigadora na área do marketing infantil e autora da página Agante & Kids, aponta um exemplo concreto.

“A quantidade de tempo que os miúdos passam no YouTube e a quantidade de coisas a que têm acesso é enorme e condiciona-os completamente. Por exemplo, há um youtuber brasileiro, o Lucas Neto, que costuma dizer: ‘Eu quero ser rico e ter uma casa de oiro.’ Os miúdos replicam isso. Há uns tempos, fez um vídeo em que dizia que só precisava de tomar banho uma vez por semana.

Entre os youtubers portugueses também já houve polémicas deste género. Wuant, por exemplo, foi alvo de duras críticas quando, num vídeo intitulado “soluções para os problemas”, aconselhou os jovens a mandarem as mães “para o cara…” quando os acordassem para ir para a escola. De resto, nos vídeos partilhados por este youtuber, é comum ouvirem-se palavrões aqui e ali. O registo não agrada aos pais, mas, por vezes, funciona como chamariz para os mais novos.

“Eu costumo ir às escolas fazer ações de sensibilização e já tive miúdos que me estão a falar dos youtubers que veem e depois acrescentam: ‘Mas não vá ver, que ele diz muitas asneiras.’ Ou: ‘Mas não vai contar nada disto ao meu pai, pois não?’ É uma espécie de segredo que fica entre a criança e o youtuber”, frisa Tito de Morais.

Os riscos não se esgotam na replicação de postura e palavreado menos corretos. “O maior perigo é o isolamento que se cria. O YouTube pode tornar-se algo aditivo, viciante. E há outras coisas associadas a isso. Com a exposição a um ecrã que, por vezes, em termos de conhecimento é muito pobre, os jovens acabam por perder espírito crítico e a possibilidade de ver coisas construtivas. Pode haver também um bloqueio da criatividade e um baixo tempo de permanência em tarefa. Aborrecem-se facilmente. Além de que é um elemento perturbador das dinâmicas familiares. Às vezes, só o facto de terem de ir para a mesa é uma seca porque têm de desligar as máquinas. Então, vão aborrecidos e mortinhos para voltar para o computador”, destaca a pedopsiquiatra Bárbara Romão, que refere ainda uma “crise de autoridade dos pais, que têm dificuldade em traçar limites e acham que tudo tem de ser decidido pelos filhos”.

O que fazer. E as boas notícias

Um sinal dos tempos? “O principal risco é olhar para isto como algo inócuo. Na verdade, tem tudo a ver com o tipo de vida que temos. Numa altura em que vivemos com muita pressa e com muito stress, quando os pais chegam a casa é confortável ter os miúdos distraídos com o YouTube. E, depois, os vídeos têm que ser todos tão estimulantes que acho que os nossos filhos estão a perder a capacidade de ficarem aborrecidos”, acrescenta Luís Pereira, que estuda a área da literacia digital.

O investigador, que pertence ao departamento de desenvolvimento académico da Coventry University, no Reino Unido, deixa por isso um alerta: “É importante que os pais percebam quanto tempo os filhos passam a ver estes programas. E que deem uma vista de olhos no histórico, para perceber, por exemplo, se andam a ver algum vídeo que não deviam. Há que impor limites, em termos de tempos e o dos vídeos que são vistos. E há que promover uma certa diversidade de conteúdos.”

Acompanhar é, por isso, a regra de ouro. Saber de que vídeos os filhos gostam, que canais seguem, quem são os ídolos. Sob pena de se criar uma barreira intransponível entre pais e filhos. No caso dos mais novos, cingir o acesso ao “YouTube Kids”, com conteúdos muito mais restritos, ou mesmo recorrer a software de controlo parental (ver caixa) são também soluções a ter em conta.

A investigadora Luísa Agante chama ainda a atenção para a necessidade de haver outros intervenientes no processo: “É preciso muita intermediação parental, mas professores e educadores também deviam intervir mais neste processo. Para isso, é preciso instruí-los para falarem sobre estes temas.”

Até porque também há que ter em conta o elevado potencial didático e construtivo do YouTube. “É uma fonte de conhecimento como nunca existiu na vida. Pode ser uma atividade altamente enriquecedora”, enfatiza o investigador Luís Pereira. Tito de Morais acrescenta que “uma criança que comece a produzir os seus vídeos vai ganhar conhecimentos de edição e desenvolver a criatividade, ao pensar conteúdos”.

“É preciso transformar isso num projeto familiar, para que se possa tornar educativo e para que permita desenvolver interesses pela música ou pelo desporto, por exemplo.” SirKazzio, youtuber português com mais de cinco milhões de subscritores, garante que tenta “ao máximo passar uma imagem alegre, divertida, mas respeitosa”, tentando também fazer ver aos mais jovens que, além dos vídeos, “há mais coisas que os podem entreter, como os livros ou a música”.

“Embora nem todos o façam, acho que a maioria dos youtubers tenta fazer entender às crianças que primeiro devem estudar, que não devem ser agressivos, que não devem tentar imitar alguns vídeos, entre muitas outras coisas.” Sobre o caso “Team Strada”, não teceu comentários.

A esse propósito, Ana Jorge, investigadora na Universidade Católica de Lisboa, deixa uma questão, que vai além dos utilizadores: “Como é que estes conteúdos circulam tanto tempo sem que ninguém se aperceba? As pessoas que veem este tipo de coisas devem denunciar. E o YouTube deve verificar, até porque é quem mais beneficia economicamente”.

Tem a certeza que o seu filho não é vítima de “grooming”?

Julho 13, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto e imagem do Notícias Magazine de 28 de junho de 2019.

Texto de Ana Sofia Reis

É o termo usado quando um pedófilo tenta aliciar um menor, criar uma amizade através da internet e ganhar a confiança do jovem para fins sexuais.

Fazem-se passar por crianças ou adolescentes, de forma a criar uma relação de confiança maior, até chegarem à chantagem sexual. Para evitar que tal aconteça, o diálogo entre pais e filhos é fundamental. Saber como detetar os sinais é essencial. Por isso, a Notícias Magazine mostra-lhe como estar atento para que o seu filho não seja vítima de “grooming”.

  1. Torna-se introvertido. Tem medo de ser questionado ou que os pais notem que algo estranho está a acontecer.
  2. Fecha-se no quarto ou na casa de banho com frequência e durante bastante tempo.
  3. Usa o telemóvel ou computador quando o resto da família já está a dormir. É comum que seja sempre à mesma hora.
  4.  Tem roupa e objetos que não foram oferecidos pelos pais.
  5.  Tem dificuldade em adormecer.
  6.  Não tem apetite.
  7.  Mostra nervosismo.
  8. Chega a ficar doente: com dores de estômago, dores de cabeça ou diarreia.

 

 

Pornografia e abuso de menores nas redes sociais estão a aumentar

Maio 15, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Maria Miguel Cabo

Notícia e imagem da TSF de 3 de maio de 2019.

Só no último ano, a Unidade de Combate ao Cibercrime e à Criminalidade Tecnológica da Polícia Judiciária abriu 64 inquéritos sobre encontros sexuais com crianças através de plataformas eletrónicas.

“Ainda existe muito aquela ideia de que se os filhos estiverem fechados no quarto estão protegidos, e, muitas vezes, estão mais abandonados e expostos do que se estivessem na rua.” Carla Costa já viu e ouviu de tudo sobre abuso sexual de crianças e jovens na internet. Pelas mãos da Inspetora-Chefe da Unidade Nacional de Combate ao Cibercrime e à Criminalidade Tecnológica da Polícia Judiciária (PJ) passam milhares de casos com um denominador comum: os perigos do mundo virtual, que são mais reais do que se possa imaginar.

No gabinete da Inspetora-Chefe, na sede da PJ em Lisboa, a palavra que mais se ouve quando se fala de pornografia infantil, abuso sexual de menores ou aliciamento de crianças e jovens para encontros de cariz sexual (grooming) é “controlo” – neste caso, a falta dele. Só no último ano, a Unidade que dirige abriu 64 inquéritos devido a situações de aliciamento sexual de menores através das redes sociais.

Facebook e WhatsApp são as plataformas onde se registam mais casos, geralmente associados à chantagem prolongada das vítimas: “Muitas vezes há jovens que se enamoram por alguém que está do outro lado e não conhecem, que pensam tratar-se de um jovem da mesma idade e vai-se a perceber que é um adulto que está do outro lado. Depois caem numa situação em que são exigidas cada vez mais imagens e são inclusivamente instruídas a fazer vídeos de cariz sexual para satisfazer os interesses de outras pessoas”, explica Carla Costa.

Por vezes, as situações acabam por ser detetadas e denunciadas à PJ pelos pais, mas noutros casos os encontros e abusos sexuais acabam por acontecer.

A Inspetora-Chefe admite que a falta de acompanhamento quando os menores navegam na internet é preocupante e que muitas situações de abuso começam numa mentira, com a cumplicidade dos próprios progenitores. “Muitas vezes, temos crianças que mentem sobre a idade com o conhecimento dos pais. E isto não acontece só em famílias desestruturadas, mas também em famílias completamente estruturadas, com estabilidade.”

Para criar conta nas redes sociais, a idade mínima nem sempre é respeitada. Os jovens acabam por mentir para efetuar o registo e ficam sujeitos a perigos desvalorizados pelos pais e pela própria sociedade. A Inspetora-Chefe explica que “no Facebook [a idade mínima] são 13 anos, no WhatsApp são 16 anos “e que, muitas vezes, os pais permitem que os menores tenham acesso às aplicações (até para facilitar as comunicações com os filhos), mas esquecem-se de os controlar.

“Isso é uma obrigação dos pais, devem conversar e alertar para os perigos. Parece-me que, muitas vezes, a falha passa por aí”. Carla Costa lembra ainda a importância das aplicações de controlo parental que permitem acompanhar as pesquisas e acessos dos filhos nas redes sociais.

O aumento do número de casos de pornografia infantil e abuso sexual de crianças com base em interações nas redes sociais tem expressão um pouco por todo o mundo. Em Espanha e no Reino Unido, por exemplo, as autoridades estão a investigar vários casos de crimes contra menores com origem em aplicações de encontros para adultos. Também aí os jovens mentiram sobre a idade para se poderem registar em redes sociais como o Tinder ou o Grindr.

 

 

 

Parentalidade na Era Digital : Orientação parental para a proteção online de crianças contra a exploração sexual e o abuso sexual

Fevereiro 22, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Descarregar a publicação no link:

https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/parentalidadedigital_1.pdf?fbclid=IwAR2elZKqAvWbRfboMwGnyVsxm2R7pr2-AQgIvZknLTNLlx0IvUZEjcEfNgM

 

Grooming: a nova técnica dos abusadores para atrair miúdos

Fevereiro 14, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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thumbs.web.sapo.io

Notícia do Sapo LifeStyle de 8 de janeiro de 2019.

É um fenómeno que preocupa todos os pais. Saiba o que fazer para prevenir que o seu filho seja alvo de um predador através das redes sociais.

A Internet e as redes sociais facilitam a aproximação de predadores sexuais. Se antes montavam estratégias para se aproximar fisicamente e conquistar a confiança dos miúdos, hoje basta criarem um perfil falso e esperarem que as vítimas mordam o isco.

A esse processo de sedução e aliciamento chama-se hoje grooming e mereceu um extenso artigo no jornal espanhol La Vanguardia. Nele, é referido que a maioria desses casos ocorrem quando os miúdos têm entre os 12 e os 15 anos de idade. O grooming é uma forma de assédio a menores praticada por adultos, particularmente profícua na Internet e manifestada em redes e fóruns sociais.

A terapeuta clínica Patricia Santisteban explicou ao jornal La Razon que esses canais funcionam como “um trampolim para os pedófilos ganharem a confiança das vítimas e conseguirem depois obter algum benefício sexual.

Durante esse processo, o agressor passa a conhecer os pontos fracos da criança e utiliza-os para obter o que pretende. Pode conhecer a rotina dos pais, as horas em que o menor está sozinho em casa e até descobrir algum tipo de conflito familiar – ou problema na escola – que não hesitará em explorar a seu favor, fingindo apoiar a criança”, diz a terapeuta.

“A incidência de grooming é semelhante à que antes se verificava fora das redes”, afirma Santisteban, prosseguindo: “Mais do que aumentar, a atividade dos pedófilos mudou.” O que muda fundamentalmente é que decorre em espaços que os pais não conseguem controlar, já que lhes é impossível monitorizar as atividades on-line dos filhos a tempo inteiro ou proibir o uso de redes sociais e telefones. Essas medidas, aliás, e como sublinha a terapeuta clínica, podem ser contraproducentes. “A partir de certa idade, se os pais impedirem os filhos de ter as suas páginas nas redes sociais, eles vão acabar por mantê-las, mas de forma secreta, o que complica tudo”.

Santisteban diz que é preciso estar atento a possíveis comportamentos depressivos dos jovens, reforçando que esse tipo de problema torna-os mais vulneráveis ao assédio.

E há alguma coisa que os pais possam fazer para evitar que os miúdos caiam nessas terríveis armadilhas? O melhor mesmo, diz a especialista, é conversar. Mas deixa algumas estratégias que podem servir aos pais.

Tente ajudar os adolescentes a refletir com quem devem ou não estar em contacto. Lembre-lhes que é melhor não falarem com estranhos ou pessoas com as quais não se dão no mundo real.

Deve alertá-los para as consequências da partilha de fotografias ou vídeos, explicando que mesmo entre namorados é melhor manter alguma privacidade. Recorde-lhes que esses conteúdos, uma vez partilhados, entram no domínio público, ficando eles sem qualquer hipótese de os controlar (podem ser vendidos, manipulados, etc).

Não proíba os adolescentes de usarem redes sociais e smartphones, pois isso pode acicatá-los e levá-los a fazer pior – só que em segredo.

Explique-lhes que, protegidas atrás de um ecrã, as pessoas nem sempre são honestas: podem mentir sobre o nome, o sexo, a profissão, a idade, bem como sobre interesses e hobbies (algo muito comum nos agressores para agradarem e atraírem os adolescentes).

Fale sobre educação sexual. Se eles estão curiosos, vão procurar respostas seja aonde for. É melhor tratar o tema com calma e segurança, por mais desconfortáveis ​​que seja.

 

As crianças tornaram-se fornecedoras de imagens para pornografia infantil — sem saberem. A nova tendência preocupa a PJ – notícia do Observador com declarações de Manuel Coutinho do IAC

Janeiro 4, 2019 às 12:06 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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Mais de metade dos países membros da UE reportaram um aumento dos casos de coação e extorsão sexual de menores para obter conteúdos autoproduzidos (Foto: DIOGO VENTURA/OBSERVADOR)

Notícia com declarações do Dr. Manuel Coutinho (Secretário–Geral do Instituto de Apoio à Criança e Coordenador do Sector SOS-Criança do Instituto de Apoio à Criança).

Notícia do Observador de 3 de janeiro de 2019.

Carolina Branco

É uma realidade nova e a que mais preocupa a PJ. Sem consciência dos perigos e com fácil acesso às redes sociais, as crianças partilham cada vez mais imagens íntimas, que acabam na mão de criminosos.

Uma criança começa a chorar ao fundo da sala e o alarme soa para a Polícia Judiciária (PJ). Aconteceu já várias vezes — mais do que o desejável — durante as ações de prevenção que os inspetores da Unidade Nacional de Combate ao Cibercrime e a Criminalidade Tecnológica (UNC3T) têm vindo a realizar em escolas. O objetivo é alertar para os vários perigos da internet, mas acabam — também mais vezes do que o desejável — por encontrar vítimas entre as crianças que assistem às ações.

São facilmente detetadas. Não conseguem esconder o desespero, choram e, muitas vezes, abandonam as salas. Identificam-se com o que estão a ouvir e assustam-se com a realidade que os inspetores lhes expõem: que as imagens íntimas que partilham com amigos ou namorados, ainda que em mensagens privadas, podem acabar em circuitos de pornografia infantil; que os utilizadores com quem falam online podem ser criminosos a fazerem-se passar por crianças; que os podem levar a pensar que têm uma relação amorosa, manipulando-os e levando-os a partilhar imagens íntimas; que os podem ameaçar, usando os dados — escola, morada, familiares — que partilham nas redes sociais; que, já na posse das imagens, podem chantageá-los, pedindo-lhes dinheiro sob pena de as divulgarem. E não é coisa de filme, distante ou rara. “Muitas vezes, [as crianças] têm a noção que já o fizeram e questionam-se: ‘Será que esta imagem já foi parar à mão de alguém?’”, explica ao Observador Manuel Coutinho, secretário-geral do Instituto de Apoio à Criança — que também realiza ações de prevenção, muitas vezes em colaboração com a PJ.

É uma nova tendência, que vem até indicada no Internet Organised Crime Threat Assessment (IOCTA) 2018 — um relatório da Europol que reporta as tendências atuais e futuras do cibercrime, com base na análise de informação dos vários países. O documento aponta mesmo a autoprodução de imagens como uma das razões para o aumento de conteúdos de pornografia infantil detetados. “Nove países membros da União Europeia (UE) sinalizaram um aumento na quantidade de conteúdos autoproduzidos na posse dos suspeitos, com algumas agências policiais a reportar a existência de uma grande quantidade desses conteúdos em sites de partilha de imagens”, lê-se no IOCTA deste ano.

É também a realidade que, neste momento, mais preocupa a PJ, no que diz respeito ao crime de pornografia infantil e que está na origem de várias investigações agora em curso: as crianças tornaram-se produtoras — e fornecedoras — deste tipo de imagens, sem se aperceberem. “A autoprodução de imagens é uma realidade que preocupa muito porque os menores, facilmente, seja entre pares, seja porque estão enganados em relação ao interlocutor, facilmente cedem. E há pouco controlo parental“, diz Pedro Vicente, coordenador da UNC3T da Polícia Judiciária, ao Observador. Mas como é que essas imagens acabam por ir parar a circuitos de pornografia de menores

Da pornografia de vingança ao grooming. Uma vez na internet, para sempre na internet

A grande mudança chegou não propriamente com as redes sociais, mas com os dispositivos móveis. “Quando surgiram as redes sociais — a primeira com grande dimensão em Portugal foi o hi5 –, as pessoas não punham fotografias porque também não tinham como as tirar facilmente. Hoje em dia, tiramos uma fotografia e, 30 segundos depois, ela está nas redes sociais”, explica ao Observador o inspetor da PJ Ricardo Vieira, que acredita que “os dispositivos [telemóveis] e a internet no bolso” foram os grandes impulsionadores desta nova tendência.

O fácil acesso às redes sociais e o facto de não haver um contacto direto com quem está do outro lado do ecrã desinibem os menores de transmitirem imagens suas. E fazem-no entre eles, cada vez mais — uma das formas como estas imagens chegam aos circuitos de pornografia de menores. Convencidos de que têm um relacionamento, ainda que muitas vezes virtual, partilham fotografias ou vídeos em que aparecem despidos. Mas quando esse relacionamento acaba — ou mesmo quando não acaba –, a troca de imagens entre menores pode culminar numa situação de pornografia de vingança — com um deles a partilhar a fotografia via redes sociais.

Depois, essa partilha torna-se uma bola de neve, que pode acabar em fóruns de pornografia infantil. Embora essas imagens sejam, na maioria das vezes, partilhadas voluntariamente, e embora possam ser distribuídas sem que o objetivo seja introduzi-las nesses fóruns, as mesmas podem acabar nas mãos de criminosos. A frase é um cliché, mas é realmente verdade: uma vez na internet, para sempre na internet. E, partilha atrás de partilha, a probabilidade de uma imagem atingir a um grande número de pessoas é grande.  “A partir do momento em que é divulgada, é praticamente impossível de recolhê-la“, explica o coordenador Pedro Vicente, acrescentando: “O que nos preocupa mais é a distribuição, porque tem esta capacidade de divulgar por um núcleo de pessoas desconhecidas, com capacidade de transformar as imagens em prémios.”

E há quem ande à caça desses prémios. Noutros casos, quem está do outro lado do chat pode não ser quem os menores julgam. “Muitas vezes, são criminosos que se fazem passar por pessoas da mesma idade, de sexo oposto ou do mesmo sexo, que usam a engenharia social — conhecem bem os assuntos de interesse dos menores — para convencer as crianças a partilharem imagens“, explica o coordenador Pedro Vicente.

Caso a manipulação não funcione, há outros métodos: ameaçar os menores com a informação que os próprios disponibilizam nas redes sociais. Não é preciso muito. A escola onde estudam, a cidade onde vivem ou quem são os seus familiares são elementos suficientes para intimidar uma criança. Por exemplo: “Sei onde estudas e onde vives. Se não enviares imagens, vou à tua procura e faço mal ao teu irmão mais novo“. Uma vez na posse de uma imagem que seja, os interlocutores usam-na como forma de obter mais conteúdos ou pedir dinheiro, sob pena de divulgarem a imagem que já têm consigo.

De acordo com o IOCTA 2018, mais de metade dos países membros da UE reportaram um aumento do número de casos de coação e extorsão sexual de menores para obter novos conteúdos de pornografia infantil autoproduzidos. Daí que, no verão de 2017, a Europol tenha lançado a campanha #SayNo, com diversos materiais e vídeos — disponibilizados em várias línguas — que expõem a forma de atuação dos atacantes e explicam às vítimas como podem pedir ajuda.

De uma forma ou de outra, as consequências para as vítimas são as mesmas. “Quando estes casos são conhecidos em meio escolar, geram-se graves consequências para os menores. Normalmente isolam-se, perdem o ano“, explica o coordenador da UNC3T, Pedro Vicente. Do ponto de vista do equilíbrio emocional e psicológico, estes casos têm um “efeito terrível” para os menores, nas palavras do secretário-geral do Instituto de Apoio à Criança, em declarações ao Observador. “A criança muitas vezes fecha-se, não sabe como reagir e fica na mão do criminoso”, diz Manuel Coutinho, apelando: “Estas crianças devem ganhar força para pedir ajuda. O grande perigo é quando as situações estão a acontecer e as pessoas não pedem ajuda.”

Mais: há sempre a possibilidade de a vítima ser confrontada para sempre. “Se [o conteúdo] for distribuído, há possibilidade de a pessoa estar sempre a revisitar a situação porque é difícil apagar as imagens. A própria vítima, na sua vivência normal, fica sempre desconfiada: ‘Aquela pessoa está a olhar para mim porque já viu a imagem’”, exemplifica Pedro Vicente ao Observador.

Caso com interlocutor estrangeiro na mira da PJ. Homem tentou encontrar-se com a menor

A UNC3T da PJ está a investigar vários casos relacionados de coação e extorsão sexual de menores. O mais recente lançou um alerta extra às autoridades: um homem de um país estrangeiro comunicava através das redes sociais com uma menor portuguesa, chegando mesmo a tentar combinar um encontroA possibilidade de rapto ou de abuso sexual levou a PJ a intervir — o que foi feito a tempo. O alerta foi dado pelos pais. É assim que, aliás, chega a maior parte dos casos à PJ. Mas isso não significa que os pais estejam atentos a esta realidade.

“Quando me mandam uma mensagem estranha, eu vou à minha mãe, ela vê e apaga a mensagem”, diz um dos alunos que assistiam à mais recente ação de prevenção da PJ, à qual o Observador assistiu, numa escola de programação para crianças e jovens entre 6 e 17 anos. “Isto é o que deve acontecer sempre”, responde-lhe o inspetor Ricardo Vieira. Mas nem sempre é. Os pais, muitas vezes, também não sabem como agir. Ou não sentem essa necessidade. “Os filhos percebem mais do que os pais acerca da internet, mas sabem menos sobre os perigos dela do que os pais. Tecnicamente são superiores, mas são mais imprudentes”, resume o secretário-geral do Instituto de Apoio à Criança ao Observador.

Outro problema com que muitas vezes as autoridades se deparam prende-se com o facto de os pais não quererem acreditar que os filhos estão a passar por uma situação destas e dificultam a investigação, resistindo à realização de diligências tão normais como interrogar os filhos. “Não permitem que mais ninguém chegue ao pé dos filhos”, explica Manuel Coutinho ao Observador. E isto torna-se também um problema. Não querem acreditar e recusam lidar com a situação. “Os pais pensam que os filhos estão muito sossegados em casa porque estão no quarto, porque estão tranquilos, e ao exporem as suas imagens e a sua identificação na internet, acabam por estar a correr mais perigos do que se estivessem na praça mais movimentada do mundo“, compara o secretário-geral do Instituto de Apoio à Criança.

O IOCTA aponta mesmo a falta de consciencialização quer das crianças quer dos pais como uma das razões para o aumento dos conteúdos autoproduzidos. “Muitas vezes, são os pais que tiram fotografias das crianças e partilham”, lamenta o coordenador da UNC3T, Pedro Vicente.

As redes sociais também são um meio de distribuição, embora “as realidades mais graves” aconteçam na darknet

“As potencialidades das plataformas de conversação instantâneas passaram a ser aproveitadas”, alerta o coordenador Pedro Vicente. Um alerta que consta também no IOCTA: das apps de mensagens instantâneas — como o WhatsApp — aos tradicionais emails, foi detetado um aumento do uso destas plataformas para enviar e receber conteúdos de pornografia infantil autoproduzidos, com a criação de grupos mais reduzidos e específicos.

Com estas novas tendências, a PJ vê-se obrigada a adaptar as técnicas de investigação. E contam com a ajuda das próprias instituições, como o Facebook, que “têm alguns mecanismos de inteligência artificial para detetar as imagens“, explica ao Observador o coordenador da UNC3T, acrescentando: “Assim que detetam uma situação de pornografia de menores, são obrigados a comunicar às autoridades dos seus países”. Daí que haja um maior número de denúncias destes casos: porque as próprias operadoras têm instrumentos de monitorização. “Não quer isto dizer que os casos subjacentes sejam mais graves — o que não são“, garante ainda Pedro Vicente.

O crime de pornografia de menores não é um fenómeno de crime organizado. De acordo com o IOCTA 2018, existe “muito pouco ou nenhum envolvimentos dos tradicionais grupos de crime organizado”. Os criminosos atuam normalmente sozinhos, embora se organizem e se juntem em fóruns de partilha de imagens. É que, segundo explica o coordenador Pedro Vicente ao Observador, nesses fóruns, além de serem facultados conselhos sobre formas de manter o anonimato e de evitar a investigação policial, são também disponibilizados conselhos quase terapêuticos e incentivos a que os utilizadores procurem ajuda e tratamento. “É uma comunidade”, conclui.

As realidades mais graves são as que se passam na darknet. Ou melhor: apesar do papel das redes sociais neste crime e de algum conteúdo ainda ser encontrado na internet comum, as realidades mais graves continuam a passar-se na darknet. Ali existem fóruns dedicados a este tipo de conteúdo. “Muitas vezes para se fazer parte deles, os próprios administradores e moderadores obrigam as outras pessoas a contribuir, não financeiramente, mas com material. Além de eles próprios fazerem alguma produção para ganharem algum prestígio, acabam por ser instigadores de abusos de menores“.

Até novembro, foram detidos 38 suspeitos. “Eles não são melhores do que nós”

Em Portugal, casos de abusadores sexuais com o fim de produzir material para introduzir em fóruns de pornografia infantil não são comuns, embora as autoridades estejam atentas a todas as realidades. Mas o cenário deste tipo crime é a internet e, por isso, não há fronteiras. “A partir do momento em que deixou de ser feito com objetos físicos — a revista ou a fotografia — a pornografia infantil é, por natureza, um crime transnacional, que tem algumas ramificações cá em Portugal“, explica ao Observador. E os números traduzem isso. Até novembro de 2018, foram detidos 38 suspeitos por pornografia infantil — um número superior ao total de detidos no ano anterior.

Eles [os criminosos] não são melhores do que nós [PJ]. Estão focados e são muito cuidadosos. Mas, tecnicamente, não são mais evoluídos do que nós. Têm tempo, vão continuando a cometer abusos e nós lutamos contra o tempo. Aliás, nós não temos tempo”, desabafa o inspetor Ricardo Vieira ao Observador. Na UNC3T, os inspetores são poucos para um tipo de crime que ameaça aumentar. “Somos muito poucos”, admite o coordenador da unidade, Pedro Vicente.

O que diz o código penal?

Em Portugal, é punido o crime de pornografia de menores — imagens de menores envolvidos em atividades sexuais ou de exposição sexual para fins sexuais.

Quem “produzir, distribuir, importar, exportar, divulgar, exibir ou ceder, a qualquer título ou por qualquer meio” ou “adquirir ou detiver” imagens com esses propósitos, é punido até cinco anos de prisão efetiva.

A pena pode atingir os oito anos de prisão efetiva, caso o suspeito pratique este crime “profissionalmente ou com intenção lucrativa” ou recorra a “violência ou ameaça grave“.

Código Penal

Para fazer face a essa dificuldade, a estratégia é o apetrechamento tecnológico e até a criação e o desenvolvimento, por inspetores da própria unidade, de mecanismos e ferramentas próprias de investigação. Outra estratégia, até porque se trata de um crime transnacional, é a cooperação internacional. Daí que Portugal tenha vindo a participar em iniciativas conjuntas, quer da Europol, quer da Interpol.

“É uma maneira de ultrapassarmos as nossas limitações”, explica Pedro Vicente, que lamenta que, na unidade que coordena, devido à falta de inspetores, não consigam fazer  aquilo a que chamam de investigação livre, ou seja, de navegar pela internet à procura de casos, sem que o façam apenas a propósito de uma suspeita específica: “Somos poucos e tentamos sempre abranger quer a investigação, quer uma fase anterior de prevenção”. Ainda assim, o envio de informações para a PJ está assegurado. A investigação livre é feita a nível europeu e mundial e a informação é toda analisada e canalizada e chega a Portugal. “Se tivéssemos mais gente, porque temos as capacidades técnicas, poderíamos nós contribuir mais“, explica o coordenador da UNC3T.

A PJ está alinhada estrategicamente com a Europol, mas também com organizações de apoio à vítima, com as operadoras de comunicações, com as plataformas de redes sociais e com as universidades, que vão desenvolvendo ferramentas de investigação. “Temos de envolver toda a gente”, explica Pedro Vicente. Até porque o lema da Europol é o lema da PJ: “É preciso uma rede para derrubar outra rede“.

 

 

Metade das vítimas de extorsão sexual na net são rapazes até aos 16 anos – Notícia do DN com declarações de Cláudia Manata do Outeiro do IAC

Fevereiro 15, 2018 às 12:00 pm | Publicado em Livros, O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Diário de Notícias de 24 de janeiro de 2018.

A notícia contém declarações da Dra. Cláudia Manata do Outeiro do IAC-CEDI (Centro de Documentação e Informação sobre a Criança).

Menina de 12 que enviou foto a pedófilo pode ficar com registo criminal

Setembro 26, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do http://www.jn.pt/de 17 de setembro de 2017.

Foto: Arquivo/Global Imagens

 

Uma menina de 12 anos, residente no sul de Inglaterra, pode enfrentar acusações depois de ter enviado uma fotografia do próprio corpo para um homem que a assediava na Internet.

Segundo o britânico “Independent”, especialistas da área da exploração infantil advertiram a mãe da jovem para a hipótese de a filha poder ficar com registo criminal, uma vez que é ilegal partilhar imagens explícitas de menores, ainda que a pessoa que as envie seja também menor.

O suspeito que coagiu a menina a enviar a fotografia ainda não foi detido. O homem tê-la-á contactado, através de um perfil falso, pelo serviço de mensagens privadas do Instagram, onde a abordou e revelou as intenções.

A jovem recusou os sucessivos pedidos feitos pelo alegado pedófilo, mas, algumas mensagens depois, acabou por enviar uma fotografia onde expunha o corpo.

Quando a mãe da jovem teve acesso às mensagens, entrou em contacto com o Centro de Exploração Infantil e Proteção na Internet (CEOP) – um braço da agência governamental “National Crime Agency” (NCA) – que reportou o caso à polícia.

Depois de as autoridades terem falado com a menina e revistado o iPad onde trocava mensagens com o sujeito, um oficial do CEOP alertou a mãe para a possibilidade de esta enfrentar uma acusação.

“Nem quis acreditar. Como é que a vítima pode acabar com cadastro? É uma miúda nova e inocente que cometeu um erro”, disse a mãe ao jornal “The Sunday Mirror”, acrescentando que já se questionou se fez bem em reportar o caso.

mais informações na notícia:

Schoolgirl groomed online by paedo could face CHARGES after she was pressured into sending topless snap

 

Cuidado com o que postas na internet – Vídeo

Abril 13, 2015 às 6:00 am | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Threat Assessment of Child Sexual Exploitation and Abuse – 2013

Julho 17, 2013 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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ceop

Descarregar o relatório Aqui

Recent research conducted by the NSPCC 1 indicates that around 5% of UK children suffer contact sexual abuse at some point during childhood. It is likely that around 190,000 of these will fall victim to contact sexual abuse by a stranger or an adult relative (other than a parent or guardian) before turning 18. This represents an average of more than 10,000 new victims in the UK every year.

In addition, CEOP receives reports from around 1,000 children each year concerning online victimisation by adults. A further unquantifiable number of children overseas suffer contact sexual abuse at the hands of UK nationals visiting or living and working abroad.

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