Depressão na adolescência: quando o fundo do poço começa cedo

Maio 16, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Texto e imagem do DN Life de 6 de maio de 2019.

Está associada a dificuldades nas relações interpessoais, comportamentos agressivos, quebras no desempenho académico e aumento do consumo de álcool e drogas. A depressão na adolescência é um problema grave, que provoca elevada mortalidade. Geralmente por suicídio.

Texto de Joana Capucho

Não se lembra quando surgiram os primeiros sintomas de ansiedade, mas terá sido ainda na escola primária, quando começou a ser vítima de bullying por ser considerada “betinha”. “Era muito certinha, tímida e tinha poucos amigos”. Embora não fosse “muito agressivo”, era o suficiente para lhe “causar desequilíbrios psicológicos”. Com a morte do pai, no final de 2016, Luísa (nome fictício) entrou num estado de “tristeza constante”. “Havia sempre qualquer coisa que me puxava para baixo. Faltava sempre alguma coisa. Sentia que ninguém me percebia. A ira também não ajudava. E tudo isso levou ao isolamento”, conta a adolescente de 16 anos.

Luísa tinha “ataques de ansiedade e de pânico com frequência, insónias constantes, mais baixos do que altos”. Sentia um vazio enorme, embora “a cabeça estivesse cheia de coisas”. Desenhava e escrevia, porque as folhas a “percebiam melhor do que os seres humanos”. Tornou-se mais distraída, o que se refletiu nos resultados escolares. Com o desânimo, pensava desistir de viver. “Tinha pensamentos suicidas. Sentia e pensava tudo, mas nunca cheguei a fazer nada.” Há um ano e meio, foi diagnosticada com depressão e ansiedade e está neste momento a receber acompanhamento psicológico e psiquiátrico. “Continuo bastante ansiosa. A depressão está mais fraca, mas continua aqui. Há dias em que vou mesmo ao fundo do poço e tenho pensamentos muito maus, mas já não são tão frequentes.”

Não são conhecidos dados nacionais, mas várias investigações indicam que a depressão afeta um número considerável de adolescentes e que tem vindo a aumentar nesta faixa etária. De acordo com um estudo da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra, realizado no ano letivo 2017/2018, um em cada quatro alunos do 7.º ao 12.º ano apresenta sintomas de depressão. José Carlos Santos, enfermeiro especialista em saúde mental, diz que 26% dos 6.100 alunos que responderam aos questionários manifestaram sintomatologia depressiva de moderada a grave.

O estudo foi realizado no âmbito do programa +Contigo, que desde 2009 se dedica à promoção da saúde mental e à prevenção de comportamentos suicidários nas escolas de todo o país, com maior incidência na região Centro. Segundo o coordenador da investigação, a percentagem de adolescentes com sintomas depressivos situava-se entre os 15 e os 20% quando o projeto começou. Não tem uma explicação objetiva para o aumento registado nos últimos anos, mas aponta algumas hipóteses. “As equipas dizem que são sobretudo questões de índole familiar: problemas de comunicação e desorganização do sistema familiar”.

Nos últimos anos, a pedopsiquiatra Ana Vasconcelos tem vindo a aperceber-se de “um aumento dos estados depressivos na adolescência”, muitas vezes diagnosticados “erradamente como hiperatividade, pois, no início da adolescência, podem mostrar a capa de hiperatividade ou agitação psicomotora e não se manifestar com os sinais” típicos da depressão, nomeadamente “tristeza, apatia, falta de motivação, ideias pessimistas”. Segundo a especialista, as depressões juvenis “aparecem com tentativas de suicídio, jovens que se cortam, com dificuldades de aprendizagem, desmotivação para a escola”.

São também cada vez mais frequentes “os casos de adolescentes da linha depressiva”, ou seja, oriundos de famílias com baixos níveis de serotonina – o neurotransmissor responsável por regular o humor e os estados mentais.

Diana Quintas, 25 anos, sabe o que é fazer parte dessa linha. “Há um grande estigma, ainda, relativamente à depressão, à necessidade de acompanhamento psicológico. É uma doença. É um desequilíbrio de químicos no cérebro e é para tal que precisamos de medicação. E é também uma doença hereditária. O meu pai sofre de depressão e é medicado há bastante tempo. Da mesma forma que há diabéticos que precisam de tomar insulina, eu e o meu pai precisamos, por agora, de tomar antidepressivos.”

Diana teve os primeiros sintomas depressivos aos 19 anos, depois de ter trocado de área no ensino secundário, o que a obrigou a ficar mais dois anos na mesma escola. “Há um sentimento de revolta, de tristeza, de desespero. Há um buraco, uma nuvem escura e parece não haver forma de sair de lá”. Aos 20, começou a estudar Direito. Estava no curso que queria, mas começou a “adquirir comportamentos obsessivos como forma de lidar com a ansiedade e com todo o trabalho” que o curso exigia.

Com a morte do avô, tudo se agravou. Surgiram os problemas para dormir e a falta de apetite. “Tomava café e comia chocolates para me manter acordada e para ingerir calorias.” Começou a afastar-se dos que a rodeavam, ao ponto de se isolar “de tudo e de todos”. No verão do ano passado, “chorava todos os dias, estava constantemente cansada, continuava sem conseguir comer”. Quando recebeu o diagnóstico de depressão, sentiu-se aliviada. “Finalmente, há explicação” para o que a atormenta há anos.

A perda é uma das situações que pode causar depressão na adolescência. “Pode ser de um familiar, mas também de um animal de estimação”, diz o enfermeiro José Carlos Santos, destacando que as roturas afetivas também são muito relevantes. Definida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como o período entre os 10 e os 19 anos de idade, a adolescência é “a fase das sensações, muito da componente afetiva e pouco da cognitiva. O desenvolvimento neuronal – no córtex transfrontal– atinge maturidade por volta dos 24 anos de idade”. Desta forma, “não podemos exigir que os adolescentes tenham um pensamento de um adulto, se não têm estrutura a nível cerebral para o poder fazer”.

Os sentimentos de tristeza fazem parte da adolescência – tal como da idade adulta. Mário Cordeiro diz que “é difícil definir o que é ‘depressão’, ou onde acaba a sensação de ‘estar na fossa’ e começa a verdadeira crise depressiva”. Provavelmente, refere o pediatra, “não há limites e uma será a continuação da outra”. Mas enquanto a tristeza é passageira, a depressão instala-se e afeta a forma como a pessoa se relaciona consigo e com os outros.

Pode ser difícil perceber quando começa a depressão, pelo que há alguns sinais aos quais os pais devem estar atentos, como “a sensação de desespero e abandono, de que o futuro só traz coisas desagradáveis, de não conseguir fazer nada com sucesso”. Não raras vezes, a doença está também associada a uma sensação “de cansaço seguido, durante dias e dias”, a problemas de sono, dores de cabeça ou abdominais sem causa aparente, perda de apetite e de peso ou o contrário.

Além da morte e da separação, Mário Cordeiro refere outros fatores que podem estar por detrás dos quadros depressivos, nomeadamente “a sensação de insegurança quanto a si próprio, separação ou divórcio dos pais, os conflitos familiares, a incapacidade de responder às solicitações do dia-a-dia, a depressão num dos pais, as doenças graves, o alcoolismo ou o consumo de drogas, os problemas com os amigos ou na escola”.

Quando ocorrem vários destes fatores ao mesmo tempo, “pode ser impossível aguentá-los: a depressão aparece e avoluma-se e o jovem debate-se, inclusivamente, com a questão de saber se vale a pena continuar a viver”. Por isso, alerta, “num adolescente, um estado depressivo franco nunca deve ser considerado uma ‘coisa natural’”.

À escala global, o suicídio é a terceira causa de morte na faixa etária entre os 15 e os 24 anos. José Carlos Santos fala numa taxa de suicídio de quatro em cada cem mil habitantes. Não existem dados sobre os comportamentos autolesivos – cortes ou toma de medicamentos sem ideação suicida ativa – mas estima-se que “por cada suicídio haja 100 a 120” ações deste tipo. “É um problema com uma dimensão grande”.

Luísa sofreu em silêncio até ao dia em que um artista que admirava se suicidou. “Os pensamentos maus que tinha triplicaram”. Quando a mãe lhe perguntou o que se passava, teve “um ataque de choro” e contou-lhe o que a atormentava há meses. E foi depois disso que procurou ajuda médica. Diana também contou com o apoio da família: “Dizem que é uma doença silenciosa. Até certo ponto, é, mas os meus pais viram, a minha irmã e o meu cunhado viram, o meu namorado viu. E foram eles que me deram a mão e me ajudaram”.

Mas nem sempre é assim. Ana Vasconcelos diz que “a depressão passa muitas vezes despercebida, sobretudo porque, neste momento, os adultos julgam mais do que tentam compreender”. Segundo a pedopsiquiatra, “muitas vezes, os sintomas da depressão incomodam os adultos, porque os adolescentes são mal educados, impulsivos, muito argumentativos e, por vezes, falta-lhes a capacidade de empatia”. Comportamentos disruptivos e desajustados que podem ser mal julgados.

Os estudos sobre a depressão revelam que quem sofre mais com a doença é o sexo feminino. De acordo com uma investigação recente da Faculdade de Medicina do Porto, a prevalência de sintomas depressivos nas raparigas aos 13 anos é duas vezes mais elevada do que nos rapazes da mesma idade. Segundo o estudo, 18,8% das raparigas sofrem de sintomas depressivos aos 13 anos, enquanto nos rapazes a percentagem é de 7,6%.

“Todos os estudos apontam para uma maior vulnerabilidade nas raparigas e para mais comportamentos de risco nos rapazes”, indica José Carlos Santos. O especialista em saúde mental diz que, perante um problema, os rapazes “tendem a uma maior externalização” e a manifestar mais consumos, nomeadamente de álcool e drogas, enquanto nas raparigas “há mais uma ruminação e uma maior internalização do problema”.

No Reino Unido, as redes sociais têm vindo a ser acusadas de instigar a depressão e o suicídio. Em janeiro, o secretário de Estado para a Saúde britânico, Matt Hancock, alertou os responsáveis por estas plataformas para a necessidade de apertar a malha aos conteúdos que induzem estes comportamentos. Uma chamada de atenção que surgiu depois o pai de uma jovem de 14 anos que se suicidou em 2017 ter afirmado publicamente que as redes sociais contribuíram para a morte da filha.

A questão é antiga e tem vindo a ser alvo de alguns estudos: será que os adolescentes que usam mais as redes sociais e os videojogos ficam mais deprimidos? “O grande risco nas investigações é o facto de as duas coisas acontecerem ao mesmo tempo, o que não quer dizer que as duas tenham que estar associadas ou que uma é causadora da outra”, diz o psicólogo clínico João Faria.

Na opinião do coordenador do Núcleo de Intervenção no Uso da Internet e das Telecomunicações do Pin [Centro de Desenvolvimento Multidisciplinar], as redes são “meios que podem potenciar” sentimentos negativos, mas não será correto relacionar “experiências menos positivas nestas plataformas ou nos videojogos com o aparecimento de sintomas depressivos”. Para o psicólogo, estes estão associados sobretudo aos “desafios que se colocam às novas gerações”, que muitas vezes “não sabem o que desejam em relação ao futuro e sentem-se perdidas”.

Em alguns casos de depressão, as redes sociais servem até para os jovens conversarem com outros, o que pode proporcionar algum alívio do sofrimento. Tal como as artes. Segundo a pedopsiquiatra Ana Vasconcelos, para muitos jovens “a criatividade é uma saída para estados depressivos”. “Há adolescentes com depressões graves que escrevem livros, poemas, pintam”.

Oito sinais aos quais os pais devem estar atentos:

  • Tristeza permanente e choro fácil
  • Irritabilidade e frustração
  • Isolamento social
  • Sentimentos de culpa e de incompreensão por parte dos outros
  • Não conseguir dormir bem durante muitas noites seguidas
  • Sensação de cansaço seguido, durante dias e dias
  • Dores de cabeça ou no corpo sem razões aparentes
  • Ideias ou comportamentos suicidas, bem como autolesivos

O estudo mencionado no texto é o seguinte:

Prevenção de comportamentos suicidários: contributos da investigação

 

Alemanha prepara-se para penalizar pais que não vacinem

Maio 15, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 5 de maio de 2019.

Multas de até 2500 euros e expulsão de infantários para quem não cumpra as vacinas obrigatórias. Ministro diz que quer erradicar o sarampo.

O Governo alemão quer penalizar pais que não vacinem os filhos contra o sarampo com multas de até 2500 euros.

A proposta do ministro da Saúde, Jens Spahn, explicada ao semanário Bild am Sonntag, implica a expulsão de quaisquer crianças não vacinadas de infantários e, no caso de crianças mais velhas que não podem ser expulsas da escola primária (porque a frequência é obrigatória), multas aos pais até 2500 euros.

A importância da vacinação das crianças nos infantários deve-se ao facto de muitas vezes estes terem “bebés com menos de dez meses que não têm idade para ser vacinados e por isso correm maior risco”, disse Spahn.

A taxa de vacinação estimada na Alemanha é de 93%, segundo o instituto Robert Koch, quando a recomendada é de 95%.

Também está prevista a vacinação obrigatória para profissionais de saúde.

“Quero erradicar o sarampo”, declarou simplesmente Spahn.

Espera-se que a proposta seja aprovada e entre em vigor em Março de 2020, diz a emissora alemã Deutsche Welle.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) tem alertado para um ressurgimento de surtos de sarampo em todo o mundo. No ano passado, morreram 136 mil pessoas em todo o mundo, e o número de infectados subiu 50% comparado com o ano anterior.

 

 

Como posso eu apoiar a escolaridade dos meus filhos?

Maio 6, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Lourdes Mata publicado no Público de dia 29 de abril de 2019.

Todos os pais* desejam que os seus filhos gostem da escola, trabalhem, se esforcem, aprendam, passem de ano e ganhem competências que lhes permitam ser bem-sucedidos nas suas vidas pessoais e profissionais. Todos querem o melhor para os seus filhos e também conseguir contribuir da melhor forma para esse sucesso. No entanto, os múltiplos constrangimentos diários que sobrecarregam o quotidiano não são sempre fáceis de ultrapassar. Tudo isto pode levar a um maior distanciamento e até a assumirem que a responsabilidade de ensinar é da escola e dos professores e que eles pouco podem fazer.

Sabe-se hoje em dia que a participação e envolvimento das famílias na educação e no apoio à escolaridade é altamente benéfico para as crianças e jovens e pode mesmo fazer a diferença no seu desenvolvimento ao nível académico e profissional. A educação é uma responsabilidade partilhada entre profissionais e famílias, em que cada um tem um papel específico, não sendo os pais ‘ajudantes’ dos professores, nem estando estes sozinhos na responsabilidade de ensinar e promover o sucesso dos alunos. É nesta especificidade de papéis que se baseiam as parcerias entre profissionais e famílias, onde não têm todos que fazer o mesmo nem assumir as mesmas responsabilidades.

Assim, a participação dos pais vai muito além do apoio às tarefas escolares, do estudarem com os filhos, de ensinarem uma matéria que não foi percebida ou de estarem presentes nas reuniões. Esta vertente da participação, direcionada para a monitorização da escolaridade, passa pelo criar condições para o estudo, organizar rotinas ajustadas com equilíbrio entre momentos de trabalho e de lazer, pela comunicação com a escola, manterem-se informados e colaborarem no que for necessário. Contudo, o papel dos pais vai além em aspetos e momentos mais informais, onde se assumem como centrais tanto a comunicação com os filhos, como a valorização do saber numa perspetiva social e cultural.

No que se refere à comunicação com os filhos, é essencial o interesse que os pais demonstram pelo trabalho, esforço, aprendizagens e saberes destes. As conversas informais sobre as conquistas, as dificuldades, as novidades e as vitórias devem fazer parte das vivências quotidianas sem serem sentidas como rotineiras. Estes momentos podem permitir identificar não só problemas que de outro modo não seriam visíveis, mas também apoiar e monitorizar o processo de aprendizagem e criar relações mais sólidas. Não podem ser momentos conflituosos nem sentidos pelos filhos como de controlo — devem ser momentos de partilha e, para isso, é necessário haver confiança, não se sentir julgado nem que se está a defraudar expetativas. Tem assim de existir uma disponibilidade pessoal e um interesse genuíno que, com a pressão e ritmo do dia-a-dia, muitas vezes nos esquecemos de mostrar, mas que felizmente não precisa de horário ou formalismo e que pode ocorrer tanto à hora da refeição como ao deitar, num percurso casa-escola ou simplesmente num momento em que estamos ali, juntos. Só temos de o descobrir e aproveitar!

Importante também é a valorização do saber: isto envolve a participação em eventos culturais e sociais, aproveitando as infraestruturas, recursos e oportunidades existentes à nossa volta. Muitas estruturas comunitárias, como as bibliotecas municipais, associações recreativas e/ou culturais, museus ou associações desportivas, desenvolvem ações disponibilizando ocasiões não só de convívio, mas para um tempo de lazer de qualidade e que podem ter um impacto positivo na educação das crianças e dos jovens. Muitas vezes focamo-nos demasiado nas aprendizagens e conteúdos escolares, esquecendo-nos de que eles só fazem sentido se estiverem ligados à vida, se fizerem sentido para quem os aprende. Neste aspeto, a família desempenha um papel crucial, devendo aproveitar sempre que possível para partilhar e diversificar saberes.

Assim, da próxima vez que for com os seus filhos a um espetáculo, a um concerto, a uma exposição ou a outra iniciativa cultural, não se esqueça o quão importante ela pode ser e de que modo pode ser uma mais-valia, um elemento importante para o seu crescimento. Sinta-se bem, partilhem esse momento e esteja certo de que esteve a apoiá-los na sua escolaridade.

O termo “pais” será usado em sentido lato, referindo-se ao responsável legal ou a um familiar ou outra pessoa que acompanhe a criança/jovem e tenha um papel significativo na sua vida.

Professora auxiliar do ISPA – Instituto Universitário

 

 

Eu parti o telemóvel

Maio 2, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Carmo machado  publicado na Visão de 15 de abril de 2019.

Muitos dos nossos alunos estão na escola porque é obrigatório. Não têm escapatória. Podem tirar-lhes tudo, dentro da escola, e eles não reagirão. Tentem tirar-lhes o telemóvel e virá a mãe e o pai e a tia a exigir a sua devolução imediata. Preparem-se até para ser agredidos, se necessário for. Por favor, mas não lhe tirem o telemóvel! Se têm dúvidas, tentem!

Nunca imaginei fazer esta afirmação. Hoje, porém, após muita reflexão e em plena interrupção letiva de Páscoa, assumo que sonho com uma escola sem internet e com alunos sem telemóveis. Pronto, já disse. Hesitei várias vezes antes de escrever isto mas, por vezes, as decisões são como os precipícios. A gente atira-se por ali a baixo e deixa de haver lugar para arrependimento…

Ando há vários meses a observar os alunos dentro e fora das aulas, sobretudo nos intervalos. Sofrem, quase todos, de nomofobia (fobia causada pelo desconforto ou angústia resultante da incapacidade de acesso à comunicação através de aparelhos celulares ou computadores). De facto, assim que dá o toque de saída, os alunos na sua maioria limitam-se a ligar o telemóvel e ali ficam, presos ao ecrã. Antes, saíam para os pátios, iam à sala de convívio, jogavam, cantavam, namoravam, sei lá… Agora, limitam-se simplesmente a olhar para o ecrã do telemóvel, que para eles parece ser tão importante como os seus próprios pulmões. Passei há dias por um corredor onde estavam, sem exagero absolutamente nenhum, mais de quinze alunos solitários – como se de ilhas se tratassem – agarrados ao ecrã. Falo de uma escola. De um espaço de socialização por excelência. De descoberta. De partilha. De confronto. Mas não! Aquilo que observo diariamente (e garanto-vos que estou atenta) é preocupante. Os alunos passeiam pela escola de telemóvel na mão e auscultadores nos ouvidos. Julgo mesmo que nada do que ali se passa lhes interessa. Muitos dos nossos alunos, especialmente nos cursos profissionais (experiência própria), estão na escola porque é obrigatório. Não têm escapatória. Podem tirar-lhes tudo, dentro da escola, e eles não reagirão. Tentem tirar-lhes o telemóvel e virá a mãe e o pai e a tia a exigir a sua devolução imediata. Preparem-se até para ser agredidos, se necessário for. Por favor, mas não lhe tirem o telemóvel! Se têm dúvidas, tentem!

A internet veio para ficar e eu própria, tanto na minha vida pessoal como profissional, já não saberia viver sem ela. Porém, analiso as horas que literalmente perco, agarrada aos motores de pesquisa, e tenho dias em que quase me esqueço de abrir um livro. Quando isto acontece, sinto-me culpada e prometo a mim própria controlar o tempo gasto com o uso da tecnologia. Chego a ter vontade de partir o telemóvel… Mas até que ponto isto acontece com as nossas crianças e os nossos jovens, que dele fazem uma utilização livre na maior parte das vezes, sem qualquer controlo parental?

Dentro da sala, utilizo cada vez menos a internet. Infelizmente, quando esta me é necessária, ou não está disponível ou os equipamentos (quase obsoletos) não funcionam. Já me preocupei mais, confesso! Quando isto acontece (quase sempre), a alternativa encontrada para colmatar a falta da ligação à rede acaba por revelar-se muito mais criativa e interativa. É nestas situações que a verdadeira comunicação acontece, a partilha de ideias ocorre e a aprendizagem se desenvolve. Talvez por isto tenha andado a pesquisar o fenómeno Waldorf.

O colégio Waldorf, localizado na Califórnia, foi criado em 1984 por pais e encarregados de educação preocupados com a necessidade de a escola ensinar numa perspetiva global, holística, ajudando os alunos no seu desenvolvimento como indivíduos totais, em termos cognitivos mas também emocionais e motivacionais. Aspeto importante: nesta escola não há computadores. E, interessante analisar porquê, é exatamente para esta escola privada que muitos cérebros de Silicon Valley (funcionários da Google, da Apple e de outras empresas de ponta) enviam os seus filhos. Esta nova tendência – a desconexão – pode ser o futuro do ensino. Voltar às raízes, à essência, à valorização dos sentidos, das emoções, dos espaços, dos afetos…

As escolas estão equipadas com computadores mas o uso que deles se faz nem sempre é produtivo. O computador é apenas uma ferramenta, como muitas outras. E, de facto, como afirma um pai de um aluno a frequentar Waldorf, aquele que só tem um martelo acha que todos os problemas são pregos. Por outro lado, o uso permanente do telemóvel com ligação à internet (entrando os alunos em absoluto estado de nervos quando não têm ligação à rede ou quando esgotam o seu pacote de dados) é a forma mais consistente de distração, de ocupação dos tempos livres e de socialização destas novas gerações.

Sonho com uma escola desconetada. Com alunos sem telemóvel. Com professores capazes de dar uma boa aula sem a bengala da tecnologia. Lembram-se? O luxo, numa escola de futuro, passará por cada aluno possuir uma árvore e estar desligado da internet.

 

Unicef: 175 milhões de crianças não estão matriculadas no ensino pré-escolar

Abril 24, 2019 às 6:00 am | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
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Notícia da ONU News de 9 de abril de 2019.

Relatório destaca falta de investimento pela maioria dos governos; nos países de baixo rendimento apenas uma em cada cinco crianças frequenta o infantário; nível de pobreza e de educação de progenitores são alguns dos fatores.

O Fundo das Nações Unidas para a Infância, Unicef, informou que cerca de metade das crianças em idade pré-escolar, em todo o mundo, não frequentam a escola. O número equivale a mais de 175 milhões de meninos e meninas.

O primeiro relatório global da agência dedicado à educação pré-escolar destaca a falta de investimento pela maioria dos governos em todo o mundo neste ciclo de ensino.

Disparidades

Para o Unicef, esta realidade representa uma perda de oportunidade agravando as desigualdades desde o início da vida.

De acordo com a nova publicação, a situação é mais grave nos países de baixo rendimento onde apenas uma em cada cinco crianças está matriculada no ensino pré-escolar.

Em comunicado, a diretora executiva do Unicef, Henrietta Fore, destaca que o ensino pré-escolar é a base educacional das crianças e que “cada etapa da educação que se segue depende do seu sucesso”. A representante adianta que “essa oportunidade é negada a muitas crianças”, aumentando o risco de abandono escolar.

O relatório revela também que as crianças que tenham frequentado, pelo menos, um ano da educação pré-escolar têm maior probabilidade de desenvolver as competências necessárias para terem sucesso escolar.

Para além disso, estes menores de idade são menos propensos perder o ano ou a abandonar a escola e, portanto, mais capazes de contribuir para sociedades e economias pacíficas e prósperas quando atingirem a idade adulta.

Fatores

Ainda segundo as conclusões deste relatório, o nível de rendimento familiar, o nível de educação dos pais e a localização geográfica estão entre os principais fatores para o acesso ao ensino pré-escolar. No entanto, segundo o Unicef, a pobreza é o fator determinante.

Em relação à pobreza, o relatório demonstra que em 64 países, as crianças mais pobres têm sete vezes menos probabilidades do que as crianças das famílias mais ricas de participar em programas de educação na primeira infância.

Em alguns países, a divisão entre ricos e pobres é ainda mais significativa. Por exemplo, as crianças dos agregados familiares mais ricos da República da Macedónia do Norte têm 50 vezes mais probabilidade de frequentar a educação pré-escolar do que as dos agregados mais pobres.

Os conflitos também são um fator preponderante. Mais de dois terços das crianças em idade pré-escolar que vivem em 33 países afetados por conflitos ou desastres não estão matriculados em programas de educação na primeira infância.

Benefícios

No entanto, estas são as crianças para as quais a educação pré-escolar pode ter grandes benefícios. A educação pré-escolar ajuda as crianças pequenas afetadas por crises a superar traumas vivenciados, dando-lhes uma estrutura, um lugar seguro para aprender e brincar e uma forma de expressar as suas emoções.

O nível de instrução dos pais também influencia em todos os países com dados disponíveis, crianças nascidas de mães que concluíram o ensino médio ou mais têm quase cinco vezes mais probabilidade de frequentar um programa de educação na primeira infância do que crianças cujas mães concluíram apenas o ensino de base ou não têm qualquer educação formal.

Investimento

Em 2017, uma média de 6,6% dos orçamentos nacionais para a educação eram globalmente dedicados à educação pré-escolar, com quase 40% dos países, com dados, alocando menos de 2% dos seus orçamentos para esse subsector.

Para o Unicef, esta falta de investimento mundial na educação pré-primária afeta negativamente a qualidade dos serviços. Por isso, Fiore alerta que “se os governos de hoje querem que a sua força de trabalho seja competitiva na economia de amanhã, precisam começar com a educação desde cedo.”

O Unicef apela aos governos que garantam o acesso universal a pelo menos um ano de educação pré-primária de qualidade e a transformem numa parte habitual da educação de todas as crianças, especialmente das mais vulneráveis e excluídas. Para tal, o Unicef estima que será necessário que os governos comprometam pelo menos 10% dos seus orçamentos nacionais de educação para a primeira infância.

O relatório citado na notícia é o seguinte:

A World Ready to Learn: Prioritizing quality early childhood education

 

O (novo) trabalho infantil – Eduardo Sá

Abril 23, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Eduardo Sá publicado no Observador de 1 de abril de 2019.

Será razoável que haja crianças que comecem a trabalhar às 8 e terminem de trabalhar às 8, todos os dias? Será sensato que não ponderemos as consequências deste novo trabalho infantil?

Foi a escola que fez com que o futuro das crianças fosse, para elas todas, mais justo. E foi porque a obrigatoriedade da escola retirou as crianças do trabalho e as devolveu ao seu direito de serem crianças, do qual não se afasta o direito a aprenderem, que todos aceitámos que o trabalho infantil é um atentado ao seu desenvolvimento e passámos a reprimir e a castigar quem com ele pretendia afastar crianças do seu direito à infância.

Deixámos — há muito, felizmente — a perspetiva das crianças como elementos contributivos para a economia da família e parecemos ter, agora por outros motivos, crianças a contribuírem para uma ideia de infância onde volta a não se ter tempo para se ser criança. Como se pouco importasse a forma como elas repartem o seu tempo entre o trabalho e os tempos livres. E fosse pouco relevante que os tempos das aulas parecessem expandir-se para cima dos recreios, engolindo-lhes tempo de convívio, de correria, de algazarra e de brincar. Ou que os ateliês de tempos livres se tenham transformado em locais onde elas realizam os “trabalhos de casa” (numa mesma perspetiva mecânica, como se ninguém se incomodasse pelo facto de eles serem mais escola fora da escola). E que os centros de explicações proliferassem intensamente (como se o facto de a escola não as ensinar a aprender nem as ensinar a estudar exigisse que as crianças tivessem mais escola a propósito da escola). E que — a pretexto duma actividade desportiva, da formação musical ou de atividades lúdicas — houvesse muitas mais a terem outras escolas a concorrerem, em grau de exigência e em ânsia de protagonismo, com a própria escola.

Porque a escola é demasiado séria e demasiado preciosa, em nome da salvaguarda do seu desenvolvimento saudável, as crianças foram protegidas do trabalho infantil com o auxílio da própria escola. Mas, entretanto, pelas consequências da forma como ela tem sido interpretada, a escola tem comprometido a infância. E tem transformado, através de atividades escolares em exagero, o direito à infância num novo tipo de trabalho infantil.

Começa, pois, a ser urgente que se acerte onde termina a escola, como direito inalienável das crianças a aprenderem, sem que comprometam o seu direito a serem crianças, e onde começa a escola como novo trabalho infantil. Deverão as crianças trabalhar mais do que cinco horas diárias, em função do seu desenvolvimento, sem que deixem de ter duas horas de tempo livre, todos os dias? Será razoável que haja crianças que comecem a trabalhar às 8 e terminem de trabalhar às 8, todos os dias? Será sensato que, em nome de um futuro melhor, não ponderemos as consequências que este novo trabalho infantil traz a tantas crianças que, do mesmo modo que muitas outras viram comprometido o seu futuro pelo trabalho que lhes roubou a infância, estarão, em nome do futuro, a fazer com que a escola possa comprometer o seu? Serão crianças mais informadas à custa do tempo que tiramos à infância — e sem espaço para “a escola da vida”, e para o brincarem, e para (pelo menos) terem direito aos aspetos felizes que os seus pais reconhecem nas suas próprias infâncias, sem que os procurem replicar nas dos seus filhos — as crianças que elas merecem ser?

Por via duma ideia de escola que não distingue os limites do direito a aprender dos limites do dever de as proteger do trabalho infantil, será mais trabalho e menos infância melhor futuro? E não se passa tudo isto num mundo que considera o trabalho infantil um atentado ao desenvolvimento das crianças e reprime e castiga quem com ele pretendia afastar crianças do seu direito à infância? Afinal, o que é que é legítimo desejar? É simples: menos escola, melhor escola e mais infância!

*Eduardo Sá é psicólogo clínico e psicanalista. Este texto foi publicado originalmente em eduardosa.com

 

Crianças de escola de Famalicão estudam de manhã e brincam à tarde

Abril 23, 2019 às 6:00 am | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Notícia da Sábado de 14 de março de 2019.

Componente letiva inicia-se pelas 08:30 e termina pelas 13:30, “para deixar espaço para a brincadeira”, explica o município.

As crianças da escola do 1.º ciclo de Requião, em Vila Nova de Famalicão, trabalham de manhã e brincam à tarde, num projeto educativo implementado este ano letivo e cujo balanço “é positivo”, anunciou esta quinta-feira o município.

Em comunicado, o município refere que componente letiva se inicia pelas 08:30 e termina pelas 13:30, “para deixar espaço para a brincadeira”.

“A tarde fica reservada para as atividades de enriquecimento curricular (AEC) e para a sala de estudo ministrada pelas professoras, com salvaguarda do inglês para os 3.º e 4.º anos que, sendo de tarde, integra a componente letiva”, acrescenta.

Segundo o município, a alteração do horário foi implementada este ano letivo depois de comunidade educativa, direção da escola, junta de freguesia e associação de pais, com o apoio da Câmara, terem sentido a necessidade de criar um “projeto diferenciador” naquele contexto específico, proporcionando às crianças novos estímulos.

“Para já o balanço é positivo, com as crianças mais motivadas, professores e encarregados de educação satisfeitos e com a comunidade mais interligada com o processo educativo”, refere ainda o comunicado.

Assim, as manhãs na escola de Requião são de estudo e as tardes “de muita brincadeira”, com atividades geridas pelos pais.

As atividades selecionadas são a dança, o teatro, o andebol, as artes e o inglês para os 1.º e 2.º anos.

“Os parceiros e as atividades extracurriculares são escolhidos pela comunidade, procurando garantir variedade e qualidade no processo”, lê-se no comunicado.

O projeto educativo da Escola de Requião vai receber esta sexta-feira a visita do presidente da Câmara de Famalicão, Paulo Cunha, no âmbito do roteiro da inovação.

Como educar uma geração digital com tanta dificuldade para se concentrar?

Abril 20, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da G1globo de 3 de abril de 2019.

Se os celulares e novas mídias estão prejudicando a capacidade dos estudantes de prestar atenção, como os professores podem mudar seus métodos de ensino para ensinar as habilidades de que eles precisam?

Os estudantes de hoje têm de lidar com um problema – e ele não está escrito no quadro negro. Eles estão tão acostumados a constantes estímulos de aplicativos de smartphone e plataformas de streaming que não conseguem se concentrar na aula.

As gerações Z (idades entre 10 e 24 anos) e alpha (até 9 anos de idade) nasceram em um mundo onde os algoritmos os mantêm clicando e navegando em um ritmo frenético.

Agora, os professores também têm um problema. Como você adapta o currículo escolar para estudantes criados em meio à tecnologia? E isso pode comprometer a educação tradicional?

O desenvolvimento inicial do cérebro é um assunto complexo, mas, nos últimos anos, pesquisadores em todo o mundo manifestaram preocupações sobre o impacto que smartphones e o hábito de consumir diferentes mídias simultaneamente podem ter sobre a capacidade de concentração.

Os professores também já notaram isso. “É um problema. Para começar, o adolescente médio só consegue prestar atenção por cerca de 28 segundos”, diz Laura Schad, que dá aulas para alunos de 12 a 14 anos na Filadélfia, nos Estados Unidos.

Ela diz que, embora os smartphones tenham afetado claramente os cérebros em pleno desenvolvimento de seus alunos, falta treinamento para lidar com a questão: como a educação deve evoluir para atender alunos que são nativos digitais não foi algo tratado em sua formação profissional, por exemplo.

Os efeitos da tecnologia ficam mais claros em uma das atividades escolares mais tradicionais, a leitura, especialmente quando as crianças migram das mídias digitais baseadas em texto para aplicativos repletos de imagens como Instagram e Snapchat.

“Hoje, os alunos parecem achar especialmente exaustivo ler textos complexos ou longos sem fazer pausas constantes. No passado, os alunos pareciam estar acostumados a se dedicar a um texto por um longo período de tempo”, diz Erica Swift, professora do 6º ano de uma escola de Sacramento, nos Estados Unidos. “Você percebe a falta de resistência deles, ao pedir intervalos de descanso ou ao conversar com os colegas em vez de estudar. Alguns até mesmo desistem por completo de leituras mais longas.”

Simplesmente transferir o texto para um aparelho eletrônico não ajuda, o que indica que o problema é mais complexo do que uma simples preferência pelas telas em detrimento de algo impresso em papel.

Taylor explica que o ato de prestar atenção não só tem um valor inerente, mas funciona como porta de entrada para formas mais profundas de aprendizado – especialmente em termos de memória.

A sala de aula do futuro

Se os alunos não parecem prestar atenção por longos períodos, muitos professores simplesmente dividem as lições em partes menores. Gail Desler, especialista em integração tecnológica do distrito escolar de Elk Grove, onde fica a escola de Swift, diz: “Uma ideia comum entre os professores é que algo mais curto é melhor”.

Desler também dá como exemplo professores que iniciam as aulas com exercícios de atenção plena ou de meditação quando os alunos precisam se concentrar.

Uma professora do ensino médio em Salinas, nos Estados Unidos, usa o aplicativo Calm para ajudar os alunos a meditar, mas um estudo de 2013 indicou que qualquer tipo de “intervalo de descanso da tecnologia” pode combater a ansiedade por realizar múltiplas coisas ao mesmo tempo.

Alguns professores também escolhem “ir ao encontro dos alunos” em plataformas como o YouTube e o Instagram. Asha Choksi, vice-presidente de pesquisa global da editora educacional Pearson, dá o exemplo de um professor que filma a si mesmo realizando um experimento científico, publica no YouTube e usa o vídeo na aula para ilustrar o material no livro didático, que pode ser visto como algo chato para os alunos.

Da mesma forma, Schad busca manter os alunos dedicados às tarefas por meio de lembretes no Instagram sobre o dever de casa e as próximas atividades.

Estes recursos podem manter os alunos atentos quando refletem seus interesses. Desler elogia professores que fazem coisas como relacionar a história da propaganda nazista ao cyberbullying.

“Trata-se de introduzir informações relevantes em um currículo obrigatório, de maneira que os alunos se vejam refletidos no que é ensinado”, diz ela. “Ao fazer conexões com coisas que estão acontecendo aqui e agora, você entra no mundo deles e os envolve.”

Adaptação à nova realidade

Enquanto isso, plataformas especializadas de aprendizado como o Flipgrid, que permite aos alunos compartilhar vídeos de si mesmos fazendo apresentações, ajudam os professores a envolver os alunos usando as mídias que eles estão acostumados a usar.

Um estudo de 2018 da Pearson descobriu que os alunos da geração Z evitam livros e apontam vídeos como sua fonte preferida de informações, atrás apenas dos próprios professores. Ao se inserir nos meios dos quais as crianças já participam e com os quais criam, os professores podem captar melhor sua atenção.

Alguns distritos escolares já migraram digitalmente para plataformas como o Google Classroom, que permite que alunos e pais monitorem notas e tarefas futuras e acompanhem o desempenho dos estudantes para entender melhor no que eles estão deixando a desejar.

A tecnologia pode até mesmo ajudar a reparar danos causados ​​à habilidade de leitura. Schad diz que, em sua escola na Filadélfia, os professores usam computadores lidar com as dificuldades apresentadas pelos estudantes. A plataforma de leitura da escola, a Lexia, adota elementos de videogames para estimular a participação.

O programa também separa automaticamente os alunos com base no seu desempenho, oferecendo aos alunos mais bem sucedidos tarefas mais avançadas no mundo real e exercícios digitais extras para aqueles com mais dificuldades, até que aprendam totalmente a lição. Essa abordagem personalizada ajuda a lidar com as diferentes formas como estudantes são afetados pela tecnologia.

Os Estados Unidos são líderes globais em tecnologia educacional, com empresas de tecnologia de ponta recebendo US$ 1,45 bilhão (R$ 5,7 bilhões) em investimentos em 2018.

Mas empresas como a Flipgrid e a Lexia terão cada vez mais concorrência vinda do exterior. A indústria de tecnologias para educação no leste da Ásia está crescendo, conforme plataformas americanas como a Knewton se expandem internacionalmente e geram um crescente interesse global em adaptar as salas de aula para estudantes que são nativos digitais.

Uma forma de ‘aprendizado misto’

Ainda assim, enquanto alguns educadores estão adotando a tecnologia em sala de aula, vários estudos mostraram que salas de aula tradicionais podem ter mais sucesso.

Um estudo de 2015 da London School of Economics mostrou que os resultados do teste GCSE, que avalia estudantes do ensino médio no Reino Unido, melhoraram quando escolas de Birmingham, Londres, Leicester e Manchester proibiram os celulares em sala de aula.

O professor de neurociência William Klemm, autor de The Learning Skills Cycle (O Ciclo de Habilidades de Aprendizado, em tradução livre), destaca um estudo de 2014 que apontou que anotações à mão ajudam alunos a reter mais informações em comparação com o uso de um computador.

Klemm também aponta que dividir lições em partes menores pode ser prejudicial, porque isso pode impedir que os alunos tenham uma compreensão mais ampla do que é ensinado. Ele diz que os estudantes precisam de tempo para se envolver com um tema.

Até mesmo educadores que veem com bons olhos o uso da tecnologia acreditam que os métodos tradicionais têm seu valor e sugerem uma abordagem de “aprendizagem mista”.

“Tenho visto muita discussão entre acadêmicos nos últimos anos sobre se o formato de palestra é algo do passado e que deve ser extinto”, diz Katie Davis, professora da Escola de Informação da Universidade de Washington, nos Estados Unidos.

“Acho que isso se resume a se você acredita que existem habilidades valiosas envolvidas no processo de acompanhar um argumento complexo que é apresentado linearmente em tempo real.”

Enquanto Davis admite que as novas mídias poderiam ajudar a desenvolver habilidades importantes, ela ainda acredita que as palestras têm o seu valor.

Educadores com diferentes opiniões sobre o uso da tecnologia concordam que a autoridade do professor continua sendo de máxima importância.

Elizabeth Hoover, diretora de tecnologia para escolas públicas de Alexandria City, nos Estados Unidos, busca melhorar a educação em seu distrito por meio da tecnologia, mas diz que isso nunca substituirá o aprendizado diretamente com um professor.

“A interação pessoal ainda é o componente mais importante em uma sala de aula”, diz ela, para quem a tecnologia deve ser empregada apenas quando aprimora uma lição de maneiras que seriam impossíveis de outra forma.

Schad também diz que muitos professores confiam na tecnologia apenas porque não têm recursos analógicos suficientes. Programas como o Lexia não seriam necessários se as escolas fornecessem mais recursos para contratar mais profissionais que auxiliem no aprendizado, o que permitiria liberar professores para se concentrarem nos alunos que enfrentam dificuldades.

A professora Sophia Date, que ensina Ciências Sociais para o 12º ano de uma escola da Filadélfia, também questiona o investimento em tecnologia em detrimento de investimentos em mais professores.

“Há um enorme vontade de levar a tecnologia para a sala de aula, mas, às vezes, isso é feito no lugar de mudanças maiores e mais necessárias. As organizações que doam fundos para educação têm prazer em dar dinheiro para comprar tablets e computadores, mas não estão dispostas a custear um salário de um professor por um ano”, diz ela.

Date defende que ampliar o acesso à tecnologia continua a ser algo crucial para ajudar a diminuir a diferença entre as condições oferecidas a estudantes de baixa e alta renda, mas diz que isso não pode substituir mudanças no sistema educacional.

Aprendendo a raciocinar

Embora a tecnologia mine alguns aspectos da educação, também capacita estudantes de formas inesperadas.

“Existe essa visão de que os jovens ficam um pouco apáticos, preguiçosos, distraídos com a tecnologia”, diz Choksi, da Pearson. “Realmente, subestimamos o papel que a tecnologia está desempenhando na educação das crianças e o poder que isso dá a elas em seu aprendizado.”

Por exemplo, alunos que não tem paciência para esperar que os educadores respondam a suas perguntas estão cada vez mais dispostos a buscar as respostas por si mesmos. “Eles podem estar estudando álgebra e ir ao YouTube para descobrir como resolver um problema antes de consultar um professor ou um livro didático”, diz Choksi.

Swift diz que isso deve ser estimulado nos alunos. “Você quer que eles façam novas perguntas e busquem novas respostas.”

Taylor aponta que, conforme a informação se torna onipresente, o sucesso não se resume a saber mais, mas na capacidade de pensar de forma crítica e criativa, que são, ironicamente, as habilidades que a mídia digital prejudica ao reduzir a capacidade de prestar atenção dos estudantes.

“Se você pensar em Mark Zuckerberg, Bill Gates e em todas estas pessoas que obtiveram sucesso no mundo da tecnologia, elas não chegaram até aí porque sabiam programar, mas porque são capazes de raciocinar”, diz ele.

Os nativos digitais continuarão a adotar vorazmente as novas mídias. Os professores não têm escolha a não ser evoluir, não apenas para garantir que alunos possam acessar e tirar proveito das tecnologias, mas para fazer com que os alunos tenham sucesso em um mundo que está constantemente tentando distraí-los.

 

 

 

União Europeia : factos e números – Recurso educativo digital para professores e alunos

Abril 17, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Recursos educativos | Deixe um comentário
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Disortografia – O que é? O que fazer?

Abril 15, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto e imagem do site Up to Kids

Neste artigo iremos explorar em que consiste a Disortografia, respetivos sinais de alerta, como se realiza o diagnóstico e qual a intervenção mais adequada para crianças que manifestam esta perturbação da aprendizagem.

O que é a disortografia?

A Disortografia deriva das palavras “dis” (desvio) + “ortho” (correto) + “graphos” (escrita), isto é, a dificuldade em escrever corretamente. Assim sendo, a Disortografia é uma Perturbação da Aprendizagem Específica com Défice na Expressão Escrita que afeta a precisão ortográfica, a precisão gramatical e da pontuação e a clareza ou organização da expressão escrita.

Apesar de a Disortografia poder ser uma perturbação por si só, é frequente coexistir com a Dislexia, isto é, com a Perturbação da Aprendizagem Específica com Défice na Leitura.

Sinais de alerta de disortografia?

São vários os sinais indicadores de uma possível Disortografia. Num texto típico, escrito por uma criança com disortografia podemos observar:

1. Incorreções ortográficas diversas:

– Omissões de letras/sílabas (e.g. banco-baco);

– Adições de letras/sílabas (e.g. comer-comere);

– Inversões de letras/sílabas (e.g. barco-braco);

– Substituições de letras com sons semelhantes (e.g. verde-ferde);

– Substituições de letras com formas semelhantes (e.g. bola-pola);

– Aplicação incorreta das regras gramaticais (e.g. ajudam-ajudão);

2. Dificuldades ao nível da pontuação:

O mais habitual é os textos das crianças com Disortografia apresentarem pouca ou nenhuma pontuação. Em outros casos, pode ocorrer uma tentativa por parte da criança, nomeadamente quando são mais velhas, de utilizarem os diferentes sinais de pontuação, no entanto nem sempre os aplicam da forma mais adequada, tornando o texto confuso.

3. Dificuldades na precisão gramatical:

É frequente estas crianças saberem explicar com precisão as diferentes regras gramaticais de forma isolada. Contudo, no momento em que as têm de aplicar de forma autónoma (pois têm de escrever a um ritmo que não lhes permite refletir com calma nas diferentes regras), acabam por cometer esses mesmos erros de precisão gramatical.

4. Dificuldades no encadeamento/organização das ideias:

É crucial ensinar estas crianças a planear os textos antes de os escrever. Uma das características desta perturbação da aprendizagem é exatamente a dificuldade em produzir um texto escrito com uma sequência lógica e bem estruturada ao nível das ideias (mesmo quando bem estruturadas oralmente).

5. Ritmo lento na escrita:

Uma vez que estes alunos necessitam de recorrer a diferentes estratégias, para conseguirem escrever sem erros, para saberem qual a regra gramatical a ser aplicada, para saberem qual o sinal correto de pontuação adequado, isto ao mesmo tempo que tentam elaborar um texto com uma boa construção frásica, acabam por revelar um reduzido ritmo de produção textual.

Como diagnosticar a disortografia?

Tal como a Dislexia, também a Disortografia deverá ser avaliada por um técnico especializado em Dificuldades de Aprendizagem (Psicólogo, Psicopedagogo, Neuropsicólogo), em estreita colaboração com os pais e professores.

Como em qualquer Perturbação da Aprendizagem Específica, a criança só poderá ser formalmente diagnosticada após dois anos de estimulação formal da leitura e da escrita (o que não significa que não seja possível despistar sinais de alerta previamente) e se o seu desempenho nas competências de escrita for significativamente abaixo do esperado para o seu nível escolar (avaliado através de provas formais e informais) e não consequentes de uma deficiência auditiva/visual, de uma Perturbação Específica da Linguagem ou de uma fraca estimulação escolar.

Qual a intervenção mais adequada?

A intervenção ao nível da Disortografia consiste na reeducação e treino das competências fonológicas (características desta dificuldade de aprendizagem) e visuo-espaciais, tendo como foco principal o processamento fonológico. As sessões de intervenção ao nível da estimulação das referidas competências deverão, sempre que possível, privilegiar uma estimulação multissensorial.

É importante referir que o sucesso da intervenção será tanto maior quanto mais cedo estas dificuldades forem detetadas e intervencionadas. Tal como na avaliação, também a intervenção deverá ser realizada em colaboração com o contexto familiar e escolar.

Centro SEI

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