“O meu agressor anda comigo no bolso”

Março 20, 2017 às 2:20 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Texto do http://observador.pt/ de 18 de março de 2017.

Ana França

As ofensas, o gozo, os e-mails difamatórios, as fotografias tiradas no balneário. Na era da internet, o bullying é uma nódoa negra permanente. Nada se esquece e tudo se partilha.

Já não é só das nove às cinco. É todo o dia e toda a noite, e acontece dentro de um objeto que transportamos para todo o lado. “O meu agressor anda comigo no bolso”, ouviu Rosário Carmona, psicóloga que acompanha crianças e jovens vítimas de abuso, um dia, no seu gabinete. O bullying é um fenómeno que existe em todas as escolas do mundo e desdobrou-se, com a chegada da internet , no cyberbullying. O gozo, a ofensa, a violência psicológica, as críticas, as ameaças e a chantagem acontecem 24 horas por dia, sete dias por semana, no ecrã de um telemóvel do qual os jovens estão cada vez mais dependentes. O cordão que os liga ao mundo onde estão os seus agressores serve também como principal escape a essa agressão.

As marcas não desaparecem nunca, porque da internet nada desaparece nunca. O direito ao esquecimento é fundamental para quem sofre de cyberbullying, já foi aprovado por todos os países da Europa, mas é preciso que o caso chegue a tribunal. A lei, em Portugal, já considera o bullying e o cyberbullying como crimes, puníveis com pena de prisão até cinco anos quando o agressor é maior de 16 anos.

O principal risco para as crianças é que os pais e os educadores por vezes relativizam este tipo de violência como uma coisa banal, como só mais uma parte de se ser adolescente. Só que o bullying acontece nas idades que nos definem, naquela altura em que ter muitos amigos, ser convidado para festas de aniversário, ou ser escolhido em primeiro lugar para as equipas na aula de Educação Física são as batalhas mais importantes do mundo. O bullying não é apenas gozar com miúdo que é mais baixo que os colegas de turma. É um ataque sistemático e premeditado a alguém que vai deixando de acreditar, à medida que lhe espezinham a auto-estima, que é digno de amor e respeito no futuro.

O bullying é um problema sério, com uma influência direta e documentada nas tendências suicidas dos jovens de todo o mundo. Em Portugal este fenómeno ainda não está bem estudado, até porque os pais e os educadores precisam de mais formação para identificarem os alertas nas crianças e para estarem atentos ao que se passa dentro dos computadores e dos telemóveis. “É essencial que os professores e os pais entendam que aquele miúdo mais calado ao fundo da sala, que chega a casa com dores de cabeça e dores de barriga pode não ser apenas uma criança tímida mas sim uma criança que já não comunica com medo de ser gozada”, defende, numa entrevista ao Observador, Rosário Carmona. A psicóloga será uma das oradoras no debate “Novas tecnologias: Uso ou abuso?” que acontece este sábado, em Aveiro, organizado pelo SIPE – Sindicato Independente de Professores e Educadores.

Na semana passada, o caso da adolescente de Ponte de Lima que fugiu de casa cinco dias para se ir encontrar com um rapaz de 24 anos que já tinham sido identificado pela Polícia Judiciária como alguém “com perfil de predador online”, voltou a colocar a questão da segurança dos jovens no meio digital em primeiro plano. Infelizmente, já nem é possível contar os casos de homens — e algumas mulheres — que fingem serem outras pessoas na internet para aliciar jovens a enviar fotografias e vídeos em situações comprometedoras. Alguns chegam mesmo a convencer as vítimas a marcar um encontro, e não é preciso dizer o perigo que isso acarreta — ou é? “É sim. Parece óbvio para um migrante digital, que tem noção do que é a interação social antes da internet, mas nas redes sociais as coisas parecem sempre relativamente inofensivas. É só uma mensagem, qual é o problema? Se um homem nos abordar na rua começamos a correr ou chamamos a polícia, mas na internet expomo-nos mais, baixamos as defesas, somos desconhecidos, até podemos ser anónimos. Esta é a realidade de muitos adultos, e de muito mais crianças”, explica Rosário Carmona.

“O papel dos professores é essencial e a formação de professores e auxiliares tem que ser uma prioridade nas escolas”, defende, na mesma sala, Júlia Azevedo, presidente do SIPE. “A tecnologia é ensinada em aulas específicas, mas como estamos sempre a correr para dar o programa resta pouco tempo para incluir nas aulas essas advertências essenciais em relação aos perigos que se escondem em algo que os alunos utilizam todos os dias”. Na opinião da professora, falta “flexibilidade de horários e conteúdos”. Rosário Carmona e Júlia Azevedo já têm ideias. Por exemplo, nas aulas de Português ou Psicologia um dos trabalhos podia ser conduzir uma entrevista com um especialista em cyberbullying, e, em Matemática, construir um gráfico com a evolução da prevalência deste problema nos vários países da Europa”, dizem à vez.

“As formas de subjugação e violência possíveis na internet são inúmeras. Por exemplo, um agressor pode criar uma página na internet e colocar insultos ou fotos da vítima, ou então pode fazer circulá-las pelo Whatsapp ou outro chat, ou criar grupos fechados por exemplo no Facebook onde circulam comentários ofensivos à pessoa alvo do cyberbullying”.

Rosário Carmona, psicóloga clínica especializada em problemas da juventude

Alguns dos casos mais conhecidos chegam-nos pela imprensa estrangeira. Amanda Todd tinha 15 anos quando se suicidou, em 2012, em sua casa, depois de uma fotografia do seu peito ter sido partilhada por um homem que a chantageou por mais de dois anos. Aydin Coban, o agressor de Amanda, foi preso na quinta-feira e vai passar 11 anos na prisão. Também Jessica Logan, uma jovem de 18 anos de Cincinnati, escolheu acabar com a própria vida depois uma imagem do seu corpo nu ter sido partilhada centenas de vezes pelo namorado na rede social pré-Facebook, o MySpace, depois de ela ter terminado a relação. A chantagem está quase sempre subjacente a esta forma de violência e os golpes chegam de várias direções.

“As formas de subjugação e violência possíveis na internet são inúmeras. Por exemplo, um agressor pode criar uma página na internet e colocar insultos ou fotos da vítima, ou então pode fazer circulá-las pelo Whatsapp ou outro chat, ou criar grupos fechados por exemplo no Facebook onde circulam comentários ofensivos à pessoa alvo do cyberbullying“, diz Rosário Carmona.

Os jovens que chegam ao seu consultório trazem histórias que a ficção não conseguiria conjurar. Rosário Carmona conta a história de um jovem que é vítima de cyberbullying e que sabe perfeitamente que existe um grupo no Facebook criado para dizer mal dele. “Às vezes, os seus agressores concedem-lhe acesso, outras vezes bloqueiam-no. Numa das consultas ele disse-me que não sabia se era pior estar lá dentro e ler o que diziam dele, ou se era quando não podia ver, porque ficava horas a imaginar as coisas horríveis que estariam a circular”, exemplifica a psicóloga que além de um jogo de tabuleiro para tentar que as crianças e os pais se reúnam à volta destas questões tem um livro de perguntas e respostas para educadores e pais — “iAgora?” — que deve sair no início de abril.

“Para um migrante digital é óbvio que a internet representa um outro mundo, porque existe a noção do que é ou foi a interação social antes da internet mas nas redes sociais as coisas parecem sempre relativamente inofensivas. É só uma mensagem, qual é o problema? Se um homem nos abordar na rua começamos a correr ou chamamos a polícia mas na internet expomo-nos mais, baixamos as defesas, somos desconhecidos, até podemos ser anónimos”.

Rosário Carmona, Rosário Carmona, psicóloga clínica especializada em problemas da juventude

 

Apesar de não existirem estudos exaustivos realizados recentemente no nosso país, existe um publicado em 2014 (comparando dados de 2010 e 2014) pelo EU Kids Online, uma plataforma financiada pela União Europeia e sediada na London School of Economics que estuda os hábitos de utilização da internet dos jovens europeus, em parceria com um outro projeto com o mesmo objetivo, o Net Children Go Mobile. Os investigadores entrevistaram 28 mil jovens e a conclusão é que o fenómeno está a crescer. Em Portugal, Dinamarca, Itália, Irlanda, Roménia, Bélgica e Reino Unido, os sete países analisados, os dados mostram um aumento dos oito para os 12 por cento.

O crescimento aconteceu sobretudo entre as raparigas, e entre o grupo mais jovem do estudo (nove aos 16 anos). Outro dado preocupante é que o contacto com imagens ou informação de cariz sexual através das redes socais também aumentou (de 26 para 28%) na mesma faixa. Em quatro anos, as raparigas, que já eram o grupo mais vulnerável, ficaram ainda mais expostas (de 12 para 19 por cento).

Cristina Ponte, uma das investigadoras da equipa que tratou os dados dos jovens portugueses no estudo, destaca que, no nosso país, o dado mais interessante é que as crianças têm um acesso à internet quase universal, o que também acaba por os expor mais a mais riscos.

Já em 2016, Tito de Morais, autor do “Cyberbullying, Um Guia para Pais e Educadores” e fundador da página Miúdos Seguros na Net, disse que a violência propagada pelo espaço digital “atinge hoje entre 10 a 20% dos jovens portugueses mas “mas a sua verdadeira prevalência não se conhece”.

Repercussões perpétuas

Nos recreios dos idos anos 90, e nos de todas as décadas que lhe antecederam, as ofensas resolviam-se disferindo uma pior, ou, no máximo, um soco. A vergonha, fora nos casos mais graves, fazia mossa apenas até ao próximo miúdo ser gozado, ou pelo menos cessava quando a vítima se libertava das paredes das escola. Agora, o palco para este tipo de violência é, potencialmente, todo o mundo.

“Para que exista uma situação de bullying a violência tem que ser intencional, persistente e tem que haver um desequilíbrio de poder. Na internet tudo isto é mais fácil, mais rápido e mais abrangente”, explica Rosário Carmona, que completa com um exemplo.

“Uma das adolescentes que eu acompanho confessou que decidiu, com uma amiga, criar um email em nome de uma outra rapariga da escola e escrever, a partir daquele e-mail falso, e-mails para todos os rapazes da turma oferecendo-se para dormir com eles. Isto causa problemas complicados de perceção, e essa ‘fama’ é de uma grande violência para as raparigas nestas idades”.

Uma criança que seja vítima de cyberbullying não consegue ver um fim para o seu sofrimento e por isso “o risco de suicídio aumenta três vezes em relação ao bullying presencial”, diz Rosário Carmona.

O palco alarga-se e o controlo escorre-lhes das mãos. “Há duas características principais que distinguem os dois tipos de bullying. Uma é o palco e outra é o controlo. Uma fotografia comprometedora na internet pode ser partilhada centenas de vezes em poucos segundos, adquire uma exposição muito mais vasta, o palco é infinito. Por outro lado, o controlo deixa de existir como o conhecemos. Estou a ser agredida mas não o consigo evitar, não o consigo enfrentar. Não sei quem fez o site sobre mim, ou o print screen, quem publicou as ofensas ou as fotos, quantas pessoas viram, ou quando vai parar”, diz a psicóloga que há mais de uma década acompanha dezenas de jovens que todos os dias sofrem com este tipo de abuso cobarde e anónimo.

Terra de ninguém

Tal como na maioria dos casos de abuso fora dos meios digitais, as vítimas muitas vezes optam por não recorrer à ajuda dos pais, nem dos professores. Fecham-se, porque anteveem o pior caso denunciem os seus agressores: temem, em primeiro lugar, que a agressão se intensifique, depois têm vergonha de contar os abusos em si. Quando a vítima deixa de reagir ao abuso e depois volta a reagir, sem querer, está a ensinar ao agressor a partir de que ponto é que começa a obter uma reação “, diz Rosário Carmona.

Esperam que passe. Os pais, mesmo os que sabem, esperam que passe. “Só que raramente passa e os pais tendem a ignorar”, diz a psicóloga. Às vezes, na tentativa de ajudar, ainda causam mais ansiedade. “Alguns pais optam por retirar o computador, ou o acesso às redes sociais, ou o telemóvel. Alguns miúdos dizem-me que não falam com os pais porque têm a certeza que eles lhe vão retirar o telefone. Só que impedir o uso do telefone muitas vezes ainda desestabiliza mais”.

Isto apesar de Rosário Carmona defender uma restrição ao uso da internet e aconselhar que os pais controlem o que os filhos consultam, incluindo pedindo-lhes as passwords para as redes sociais, prometendo respeitar a privacidade e intervindo apenas em situações suspeitas. Alguns pais também lhe dizem que “não se querem meter” porque “não sabem utilizar muito bem a internet” mas, na opinião da psicóloga, os pais não precisam de saber utilizar redes sociais, ou qualquer outra plataforma, para proibirem alguma coisa que está claramente a afetar o comportamento dos seus filhos, ou pode colocá-los em perigo, ou quando têm alguma suspeita de que estejam a ser sujeitos a algum tipo de violência”.

A internet são fios invisíveis. Fios que ligam toda a gente sem que ninguém perceba quem está ligado a quem. “É muito possível que uma situação de cyberbullying se passe durante muito tempo sem ninguém reparar, porque muitas vezes os agressores não ofendem publicamente. Uma das minhas pacientes estava sentava nas aulas na mesma carteira que a sua agressora e aquilo deixava-a tão angustiada que começou a baixar consideravelmente o seu aproveitamento escolar”. Só mais um exemplo.

O cyberbullying, diz Rosário Carmona, é uma “terra de ninguém” porque “a escola não quer assumir o problema e os pais não sabem o que se passa, por isso também não agem. É por isso que a formação e a educação das crianças é tão importante. É absolutamente essencial que os pais saibam ensinar aos jovens as competências para lutarem eles contra isto: assertividade, interação, tolerância à frustração, regulação do comportamento e adiamento da recompensa”, explica.

O que isto quer dizer, basicamente, é que há ferramentas que ajudam a lutar contra todas as adversidades da vida, e que os jovens estão a perder, porque hoje a regulação dos comportamentos é sempre feita através de um estímulo externo. Depende-se do iPad para uma criança comer, por exemplo, o que quer dizer que a paciência para esperar, a capacidade para esperar pela resolução de uma situação desagradável, a resiliência, tudo isto está em causa quando falamos não do uso mas do abuso da utilização da internet.

Rosário Carmona pergunta a Júlia Azevedo em que deve focar a apresentação que irá fazer em Aveiro. “Sinais de alerta, sinais de alerta, sinais de alerta”, responde a professora, que não se cansa de frisar que a formação é essencial para todos os membros da comunidade escolar que têm de estar preparados para identificar estes alunos. “Tanto as vítimas como os agressores”, diz a professora, “porque os agressores, muitas vezes já foram vítimas e as vítimas estão a um click de se tornarem agressores”.

 

 

Quando TV, tablet e telemóvel se transformam em babysitters

Fevereiro 24, 2017 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Reportagem do Expresso de 27 de janeiro de 2017.

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ler a reportagem no link:

http://www.internetsegura.pt/sites/default/files/Estudo%20Crescendo%20entre%20Ecras.pdf

 

 

Crianças portuguesas dominam televisão e tablet

Fevereiro 23, 2017 às 10:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do http://www.cmjornal.pt/ de 16 de fevereiro de 2017.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Crescendo entre Ecrãs. Usos de meios eletrónicos por crianças (3-8 anos)

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15% das crianças entre os três e os oito anos vê reality shows com os pais.

Por Hugo Real

As crianças portuguesas entre os “três e os oito anos são nativos digitais, vivem em lares digitais, têm pais digitais e 94 % vê televisão todos os dias. O televisor e o tablet funcionam muitas vezes como babysitter ou instrumento apaziguador”. Esta é uma das principais conclusões do estudo ‘Crescendo entre Ecrãs. Usos de meios eletrónicos por crianças (3-8 anos)’, um trabalho desenvolvido pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social em parceria a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, que já está disponível online.

De acordo com o estudo, “as famílias de condição escolar mais baixa têm mais aparelhos digitais em casa e consomem mais conteúdos da televisão generalista”. Já as crianças de famílias de um “estrato socioeconómico mais elevado são as que mais usam a internet”. O inquérito mostra ainda que o televisor está presente em 99% dos lares, sendo seguido pelo telemóvel (92%), o computador portátil (70%) e o tablet (em 68%). “Estes equipamentos estão nos espaços comuns da casa, ao alcance das crianças e, em alguns casos, até lhes pertencem. As crianças apropriam-se dos dispositivos comuns e conseguem manuseá-los com facilidade”, refere a investigação coordenada pela professora Cristina Ponte.

De acordo com o estudo, 94% das crianças vê, diariamente, 1h41 minutos de televisão, sendo que este valor que sobe ao fim de semana. Desenhos animados e programas infantis são os conteúdos favoritos e para a família. Em termos de canais, o Panda é visto diariamente por 75% das crianças, enquanto que os canais Disney chegam a 56%. “O consumo de canais generalistas é superior em crianças integradas em famílias com menor escolaridade”, acrescenta o documento.

O trabalho indica ainda que 79% das crianças vê televisão com acompanhamento parental, “o que significa que 21% das crianças vê televisão sozinha”. “Os pais declaram ver frequentemente com a criança desenhos animados e programas infantis, mas também visionam com os filhos outros conteúdos, como telenovelas, descoberta de talentos, concursos, noticiários… e até reality shows (15%)”.

Segundo a investigação, os tablets são vistos pelos pais como “um dispositivo adequado para as crianças” e estas fazem uso destes equipamentos em “dois terços dos lares onde há este dispositivo, com ou sem a tutela dos pais e irmãos mais velhos”, sendo que 63% tem mesmo o seu próprio equipamento. De resto, os tablets e smartphones são mesmo “usados para acalmar ou distrair a criança durante as refeições ou para premiar o bom comportamento ou desempenho escolar”. É de registar ainda que “18% das crianças destas idades têm um telemóvel para uso pessoal (metade dos quais smartphones)”.

O inquérito revela também que 38% destas “crianças acedem à internet, sendo o tablet o dispositivo mais usado para este fim (63%)”.

 

 

 

 

Entre o encantamento e o pânico dos pais: crianças e jovens passam cada vez mais tempo “agarrados” a ecrãs

Fevereiro 16, 2017 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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texto do site http://tek.sapo.pt/ de 7 de fevereiro de 2017.

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Do televisor aos telemóveis, passando pelos tablets e computadores portáteis, as crianças e jovens portugueses passam cada vez mais tempo “agarrados” a ecrãs e meios eletrónicos. Estes são muitas vezes usados como baby-sitter ou para acalmar e distrair as crianças durante a refeição.

Em casa, mas também na escola e noutros espaços, é frequente vermos as crianças com a atenção dominada por um qualquer ecrã, que funciona quase como um íman que atrai a vista e capta o tempo dos mais novos. Encantamento de um lado, preocupação e até pânico do outro, ou seja, dos pais e educadores.

Entre televisão, internet e jogos, resta muitas vezes pouco tempo para outras atividades, principalmente o estudo e os desportos ou brincadeiras de socialização, um problema que já foi apontado múltiplas vezes por vários especialistas e pedopsiquiatras, e que se estende para a adolescência e a idade adulta. Mas nem tudo é negativo.

Um estudo realizado no ano passado pela Faculdade de Ciências Socias e Humanas para a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) traça um retrato fidedigno do ambiente de ecrãs em que vivem as crianças e jovens entre os 3 e os 8 anos de idade, o modo de acesso aos equipamentos e a forma como os pais orientam essa utilização.

O estudo “Crescendo entre Ecrãs: Usos de meios eletrónicos por crianças (3-8 anos)”, que deverá ser publicado em breve e ao qual o TeK teve acesso, partiu de um inquérito nacional realizado face a face em 656 lares, com questionários para pais e crianças, e ainda entrevistas e observação em casa de 20 famílias de diferentes perfis e com crianças utilizadoras da internet.

Em termos gerais, as conclusões não diferem da realidade com que nos deparamos habitualmente: todas as crianças veem televisão, metade joga jogos digitais e 38% usam a internet, uma contabilização que os autores do estudo usam para contrariar a imagem de ‘nativos digitais’ como condição atual de ser criança. “A utilização dos equipamentos é muitas vezes meramente instrumental e falta a componente social, com a gestão da comunicação e das frustrações”, explica ao TeK Cristina Ponte, uma das investigadoras da FCSH que liderou o estudo.

Novos cenários e enquadramento

Nos últimos dez anos muito mudou em termos de cenário tecnológico e de uso dos equipamentos e por isso a investigadora explica que era importante atualizar os números e a análise do uso de equipamentos eletrónicos por parte dos mais novos. “Mudou a paisagem de aparelhos eletrónicos que usamos. Hoje dominam os smartphones e os tablets, mas também mudaram as tecnologias e mercados, as redes sociais e todos os conteúdos que são mais visuais”, justifica.

Segundo o estudo, o telemóvel e o televisor são os ecrãs mais presentes nos lares, seguidos de tablets e portáteis, e cerca de metade das crianças que acede à internet tem o seu próprio tablet, concluindo-se que as que estão integradas em famílias com estatuto socioeconómico alto são as que acedem mais e usam mais a internet. Esta utilização é sobretudo lúdica, com domínio dos desenhos animados e filmes, jogos e músicas.

Os dados indicam que dois terços das crianças entre os 6 e 8 anos acedem à internet, o dobro do número registado no grupo dos 3 aos 5 anos.

Apesar da televisão ser mais dominante entre os ecrãs que captam a atenção dos mais novos, os pais mostram maiores preocupações em relação ao uso da internet, enquanto as questões com o consumo televisivo estão mais relacionadas com interdição de conteúdos violentes do que sobre o tempo gasto em frente ao televisor.

Das entrevistas e observação realizadas pela equipa em casa de 20 famílias, a ideia mantém-se: o contacto das crianças com a televisão é frequente e intenso, em espaços comuns e em televisores partilhados que muitas vezes monopolizam. A televisão está presente em ‘pano de fundo’ enquanto as crianças se ocupam com outras coisas e como baby-sitter. Este ecrã também é usado para distrair a criança, quando está a ser vestida ou alimentada, ou para ajudar a adormecer ou a acordar.

Também os tablets e smartphones são usados como “pacificadores” para acalmar ou distrair as crianças no momento da refeição, ou como moeda de troca por bom comportamento ou desempenho escolar. O estudo mostra que a maioria das crianças usa a internet numa base diária, sobretudo através de ecrãs portáteis e individualizados, com preferência pelo tablet.

E o que devem as famílias fazer? O estudo aponta ainda algumas recomendações dirigidas às famílias, mas também às escolas, empresas e comunidade, referindo que as famílias estão a aprender a lidar com uma tecnologia desafiante e que as estratégias devem ser sobretudo flexíveis, ajustando-se à idade, interesse e necessidade das crianças. “Estratégias restritivas resultam numa limitação do acesso a oportunidades, pelo que a mediação deve privilegiar a capacitação para a resolução de problemas e a resiliência”, refere-se.

 

 

“Interditar ou Capacitar?” – Artigo de Cristina Ponte

Janeiro 27, 2017 às 6:55 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Artigo publicado no site https://www.internetsegura.pt/ a 26 de janeiro de 2017.

O Estudo “Crescendo entre ecrãs. Os usos de ecrãs por crianças de 3-8 anos”, coordenado pela Professora Cristina Ponte e promovido pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social, vem apontar para os desafios da mediação parental da Internet em Portugal – “interditar ou capacitar?”.

No próximo dia 28 de Janeiro, o estudo será referenciado no Jornal Expresso.

Faça o download das notas de pesquisa em primeira mão.

Anexo

Curso: “Jovens, Media e Sexualização: Problemáticas e Direitos” 9 a 23 de julho na FCSH da Universidade Nova de Lisboa

Junho 29, 2016 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Estão abertas as inscrições, online, para o curso: “Jovens, Media e Sexualização: Problemáticas e Direitos”

A formação é promovida pela Escola de Verão da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, decorrerá entre os dias 9 e 23 de julho e é orientada pelos professores Cristina Ponte e Daniel Cardoso.

Inscrições e outras informações em:
http://goo.gl/gytpTv

 

Aumento “substancial” de crianças até aos 8 anos a usar a Internet

Agosto 30, 2013 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança, Relatório | Deixe um comentário
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Notícia do Jornal de Notícias de 29 de Agosto de 2013.

O relatório mencionado na notícia pode ser consultado na Press Release  do EU Kids Online III Portugal de 29 de Agosto de 2013:

Privacidade de crianças pode estar a ser posta em causa pelos pais

Nos últimos cinco anos houve um “aumento substancial” no uso da Internet por crianças até aos 8 anos, segundo um relatório internacional divulgado, esta quinta-feira, e que alerta para um aumento na exposição a riscos nesta faixa etária.

Os investigadores do projeto EU Kids Online, que conta com participação portuguesa, salientam que há cada vez mais crianças até aos seis anos a usarem aparelhos ligados à Internet, como “tablets” ou “smartphones”.

“Houve um aumento substancial do uso da internet por crianças até aos 8 anos. Mas ainda não estão estudados os seus aspetos positivos e negativos”, refere o relatório.

A coordenadora do projeto EU Kids Online em Portugal, a investigadora Cristina Ponte, lembra que tem sido investigada a utilização da Internet por crianças e jovens entre os 9 e 16 anos, mas que falta informação sobre os comportamentos das crianças com idades inferiores.

“As crianças começam a usar a internet cada vez mais cedo e a falta de competências técnicas, críticas e sociais das crianças mais novas pode fazer aumentar o risco”, refere a professora da Universidade Nova de Lisboa numa nota a propósito do estudo, divulgado esta quinta-feira.

Pegada digital

A pesquisa internacional não conseguiu concluir que as crianças com menos de 9 anos tenham capacidade para se envolver com a internet de uma forma segura e benéfica, sobretudo no que respeita à “socialização digital”.

Os investigadores alertam ainda para a exposição das crianças ao risco pela mão dos próprios pais, avisando que deve haver mais cuidado dos educadores com a imagem dos filhos na internet.

Uma das maiores preocupações está relacionada com fotografias e vídeos dos filhos, colocados pelos pais na internet e o possível efeito que essas publicações podem ter na pegada digital das crianças.

“Alguns pais estão a criar nos seus filhos pegadas digitais em sites de redes sociais que podem alterar políticas de privacidade sem autorização dos utilizadores individuais”, alertam os peritos.

Nas recomendações, o relatório internacional sugere que se criem orientações realistas para pais e encarregados de educação sobre o envolvimento de crianças mais novas com as tecnologias digitais e a internet, dirigidas para grupos etários específicos (dos 0 aos 2 anos, entre os 3-4 anos e dos 5-8 anos).

 

 

Quando é que a net se transforma em dependência?

Fevereiro 5, 2013 às 3:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Artigo do Jornal de Notícias de 28 de Janeiro de 2013.

Clicar no link

Quando é que a net se transforma em dependência

Novo relatório EU Kids Online – Nas suas próprias palavras: O que incomoda as crianças na internet?

Fevereiro 5, 2013 às 2:00 pm | Publicado em Divulgação, Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Descarregar o relatório:

In their own words: What bothers children online?

Summary

Nearly 10,000 children told us about what upsets them and their friends online. Their responses were diverse, revealing a long list of concerns. Pornography (named by 22% of children who told us of risks) and violent content (18%) top children’s online concerns. Overall, boys appear more bothered by violence than girls, while girls are more concerned with contact-related risks. Violence receives less public attention than sexual material, but many children are concerned about violent, aggressive or gory online content. They reveal shock and disgust on seeing cruelty, killings, abuse of animals and even the news – since much is real rather than fictional violence, this adds to the depth of children’s reactions. As children told us, video-sharing websites are often associated with violent and pornographic content, along with a range of other contentrelated risks. Among the children who linked risks to specific internet platforms, 32% mentioned video-sharing sites such as YouTube, followed by websites (29%), social networking sites (13%) and games (10%). Children’s mention of risks rises markedly from nine to 12 years old. Younger children are more concerned about content and other risks. As they get older they become more concerned about conduct and contact risks. These are linked in many children’s minds to the use of social networking sites such as Facebook. Concern about risks is higher among children from ‘high use, high risk’ countries. Policy implications are identified and discussed.

Jovens portugueses acima da média europeia na perceção dos riscos online

Fevereiro 5, 2013 às 1:30 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Jornal de Notícias de 5 de Fevereiro de 2013.

Os jovens portugueses entre os nove e os 16 anos têm uma perceção maior do que os seus pares europeus quanto aos riscos associados a conteúdos violentos e pornográficos na internet, revela um estudo.

“Quando analisámos as respostas das crianças portuguesas, o que notámos foi que Portugal apresentava valores acima da média europeia no que se refere aos conteúdos pornográficos e aos conteúdos violentos”, disse à Lusa Cristina Ponte, coordenadora em Portugal do projeto europeu “EU Kids Online”, responsável pelo estudo.

De acordo com a coordenadora, os jovens portugueses mostram preocupações com os riscos associados a conteúdos violentos e pornográficos numa percentagem de 27%, contra um valor médio europeu ligeiramente acima dos 20%.

Os portais de partilha de vídeos como o Youtube são a maior fonte de incómodo na internet para os jovens europeus dos nove aos 16 anos, que os associam ao risco de encontrar “online” imagens violentas ou pornográficas.

A conclusão consta de um estudo que congrega as respostas de quase dez mil jovens europeus para aferir o que incomoda as crianças e jovens dessa idade ao usarem a rede.

Conduzido em 25 países europeus, incluindo Portugal, e divulgado na data em que se assinala o Dia Europeu da Internet Mais Segura, este estudo aponta os portais de partilha e alojamento de vídeos, as páginas na internet na sua generalidade, as redes sociais e os jogos, como as principais fontes de incómodos e riscos para os mais novos.

Ainda sobre os resultados relativos aos 430 jovens e crianças portugueses inquiridos, num universo de 9904 respostas em toda a Europa, Cristina Ponte referiu que as respostas portuguesas têm que ser enquadradas “com a paisagem europeia”.

“A preocupação com os conteúdos pornográficos e violentos aparece mais nos países do sul da Europa, com uma certa cultura católica e em que o uso da internet não é tão intenso, como no norte da Europa”, explicou.

A coordenadora adiantou também que cerca de um terço das respostas portuguesas se assemelhavam mais a “uma recomendação do que realmente àquilo que as crianças acham que pode incomodar uma criança da idade delas”.

“A resposta ao questionário parecia reproduzir uma frase que eles ouvem muito: ‘Não falar com estranhos'”, precisou.

Cristina Ponte destacou a diversidade das respostas a este inquérito, que levou crianças a manifestar preocupações aparentemente tão elementares como entrar na conta da rede social Facebook e perceber que se tem um amigo a menos, a aspetos mais vastos e elaborados como a perceção de uma quase total ausência de privacidade pelo uso da rede.

“São problemas que mostram que as crianças e os jovens estão a viver uma experiência que os seus pais não viveram e que é uma experiência nova em termos de relações sociais”, sublinhou a coordenadora portuguesa.

Para Cristina Ponte os resultados indicam uma necessidade de envolver pais, professores, governos e entidades com poderes regulatórios num processo que previna o acesso a imagens violentas.

“Ressalta também a necessidade de uma educação para os direitos das crianças no digital e o direito à sua boa imagem não ser maltratado pelos colegas. Isto é uma questão de educação e respeito que o Dia Europeu da Internet Mais Segura deste ano coloca com muita tónica”, afirmou.

Quanto ao envolvimento dos pais, Cristina Ponte pede uma atenção permanente aos sinais dados pelos filhos, um diálogo constante e uma mudança de atitude, já que entre os pais portugueses se denota uma tendência para negar comportamentos reconhecidos até pelas próprias crianças, como o envio ou a receção de imagens sexuais.

 

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