Pai, mãe, ensinem as crianças a mexerem-se

Julho 18, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Daniel Rocha

Artigo de opinião de Cíntia França publicado no Público de 5 de julho de 2019.

São vários os estudos que concluem que a inactividade durante a infância e a adolescência raramente é contrariada na vida adulta. Logo, é forte a probabilidade de existirem cada vez mais adultos sedentários.

A evolução para uma sociedade totalmente capitalista e dependente da tecnologia produziu um impacto (quase) incalculável nas nossas crianças. Enclausurámo-nos em apartamentos, rodeados de estradas ou de outros apartamentos, e o espaço tornou-se contado ao pormenor, definido pelos limites do que é considerado seguro aos nossos olhos. Ganhámos o urbanismo e perdemos a independência.

Será, portanto, impensável — e inconcebível, por vezes — deixar uma criança ir a pé para a escola. Não fará sentido não a deixar à porta das suas actividades diárias, evitando a necessidade de se ter que atravessar uma passadeira. Estamos demasiado cansados, depois de um dia de trabalho, para nos deslocarmos até onde exista um verdadeiro espaço. Estamos, definitivamente, cegos por não nos apercebemos da forma como impactamos o desenvolvimento das nossas crianças.

As provas de aferição realizadas na área da Educação Física, realizadas, pela primeira vez, no passado ano lectivo, sumarizaram dados extremamente preocupantes. Ora vejamos:

  • 33% dos alunos apresentou dificuldades em participar num jogo colectivo;
  • 46% não conseguiu dar seis saltos consecutivos à corda;
  • 40% não conseguem dar uma cambalhota para a frente.

Estes foram os dados escandalosamente repetidos na comunicação social. Estes são os dados que expressam as capacidades dos nossos alunos do 2.º ano de escolaridade. Crianças cuja motricidade foi seriamente afectada pelo nosso estilo de vida. Crianças que dominam a tecnologia do telemóvel e do tablet, privilegiando a activação dos “dados móveis” em detrimento da participação activa no recreio da escola. Crianças que se deparam com a instabilidade que ronda a importância da Educação Física no contexto escolar: ora pela distribuição dos tempos lectivos, ora pelo facto de a disciplina pesar, ou não, nas médias finais. Crianças essas que dificilmente terão a oportunidade de assistir a um evento desportivo que não esteja centrado no futebol.

Pai, mãe, ensinem as crianças a mexerem-se! O desporto é algo demasiado importante para ser ignorado. Capaz de ensinar a vencer e a ser vencido; de incentivar o respeito pelo outro; de perceber a relação entre o corpo e o espaço; de elevar os limites para aquelas que julgamos ser as barreiras das nossas capacidades; de relacionar com o outro, permitindo-nos ganhar amigos para a vida.

Pai, mãe, o desporto é algo demasiado importante para privarem as crianças de o praticarem. São vários os estudos que concluem que a inactividade durante a infância e a adolescência raramente é contrariada na vida adulta. Logo, é forte a probabilidade de existirem cada vez mais adultos sedentários e que serão, precocemente, afectados pela doença.

Pai, mãe, provavelmente nada será mais libertador do que o movimento. Para tal, é necessário que os vossos filhos aprendam como fazê-lo: no recreio da escola, no parque, na actividade extracurricular, no clube, no quintal de vossa casa. Sem esquecer que a aprendizagem envolve prática e não resulta de uma actividade esporádica.

Pai, mãe, ensinem as crianças a mexerem-se e elas ficar-vos-ão gratas para o resto da vida.

Cíntia França

Professora de Educação Física e doutoranda em Ciências do Desporto pela Universidade de Coimbra.

Antes “da idade da vergonha” alunos do pré-escolar aprendem a pedalar em Alvalade

Julho 8, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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thumbs.web.sapo.io

Notícia e imagem do Sapo24 de 21 de junho de 2019.

Os alunos do pré-escolar da freguesia de Alvalade (Lisboa) tiveram este ano letivo pela primeira vez ciclismo nos seus planos curriculares, um projeto pioneiro que quer pôr as crianças a pedalar antes da “idade da vergonha” e “sem rodinhas”.

“Chegávamos a escolas e turmas do primeiro, segundo, terceiro e quarto ano, e havia cerca de 90% das crianças que não sabia andar de bicicleta, o que é uma enormidade. Estamos a falar, em muitos casos, de crianças de 09 anos, que daí a um, dois anos, três anos, estão na idade da vergonha e já não vão querer aprender”, contou à Lusa Paulo Vaz, presidente dos “Coelhinhos”, Escola Clube de Ciclismo de Lisboa.

Foi a constatação de que havia um “número gritante” de crianças que não sabia andar de bicicleta que levou a Junta de Freguesia de Alvalade a desafiar a associação de pais que tinha criado um projeto de ciclismo na escola São João de Brito, de forma a abranger mais alunos.

Assim nascia “um clube do bairro, que tem uma implementação na freguesia, embora se estenda a outras freguesias”, dando às crianças a possibilidade de continuarem a modalidade fora da escola, assinalou à Lusa o vogal da Junta de Alvalade Ricardo Varela, eleito da CDU, que tem o pelouro do Desporto e Educação no executivo liderado pelo PS.

Foi em 2014, antes de o Governo incluir na Estratégia Nacional para a Mobilidade Ativa a obrigatoriedade de aprender a andar de bicicleta no ensino básico (a partir do próximo ano letivo); antes de muitas juntas da capital criarem projetos semelhantes e de a Câmara lançar o programa “Lisboa sem rodinhas”.

A satisfação pelo pioneirismo do projeto é redobrada: “Ficámos satisfeitos ao saber que, de certa forma, estávamos um passo à frente, porque já tínhamos iniciado este projeto no contexto das escolas, porque estamos mais uma vez um passo à frente porque alargamos ao pré-escolar”, disse Ricardo Varela sobre a forma como receberam a notícia de que o Governo queria que os alunos do básico passassem a saber andar de bicicleta.

Na Escola Básica Dom Luís da Cunha, crianças entre os 03 e os 05 anos têm a última das quatro aulas de 40 minutos que lhes permitem ter um primeiro contacto com as bicicletas, aprender regras de segurança e, finalmente, a andar de bicicleta.

Com as bicicletas e os capacetes fornecidos pelos “Coelhinhos”, as crianças mais velhas já serpenteiam o campo de jogos, enquanto as mais pequenas ainda estão muito atentas às indicações do treinador, que recorda o primeiro exercício: aprender a montar a bicicleta com um movimento de avião.

São alunos da educadora de infância Cristina Torcato, entre os 800 a quem o projeto chegou este ano em toda a freguesia.

“No ciclismo há uma particularidade muito importante, que é o facto de muitos não saberem andar e estarem num grupo que está habituado a ver todos os seus fracassos e todos os seus sucessos. Sentem-se mais à vontade, sem pressão”, afirmou Cristina Torcato à Lusa.

A educadora vê os seus meninos “superarem-se a si próprios, a serem solidários, a brincarem”, e destaca a “igualdade de oportunidades” de todos aprenderem em bicicletas adequadas ao seu tamanho, todas iguais, ao contrário das que possam herdar dos irmãos.

Cristina Torcato recordou que, recentemente, uma menina de 05 anos “soube que ia haver aulas de ciclismo e pediu para tirar as rodinhas de trás, e foi assim que aprendeu a andar de bicicleta sem rodinhas”.

As rodinhas, aliás, estão excluídas da aprendizagem e são mesmo desaconselhadas.

“As rodinhas são um contrassenso, primeiro, porque não permitem ganhar equilíbrio, e porque obrigam a que as crianças desenvolvam mais força ainda, numa idade em que não é objetivo do desenvolvimento físico da criança trabalhar a parte muscular nas pernas”, explicou Paulo Vaz.

O presidente da Escola Clube de Ciclismo de Lisboa aconselha, assim, a começar pelas chamadas ‘balance bikes’, sem pedais, e depois a passagem para uma bicicleta que permita ir “puxando o selim para cima, para que a criança não ande sentada”.

Como na natação, Paulo Vaz aconselha também os pais e encarregados de educação a “procurar quem sabe, para ajudar”.

Paulo Vaz sublinha a vantagem da aprendizagem do ciclismo para a mobilidade nas cidades, mas também como uma medida de “saúde pública”, ilustrando que “um adulto que demore meia hora de manhã a chegar ao trabalho e meia hora à tarde fez uma hora de exercício físico” diária.

O dirigente associativo ressalva, contudo, que há um caminho a trilhar, apontando que o seguro escolar exclui as deslocações para a escola em bicicleta, apesar de incluir outros meios de transporte, e que o limite legal de 12 anos para andar em cima do passeio também é uma condicionante.

“Acho estranho que essa idade não seja alargada, até porque pais que não se importavam que os filhos fossem para a escola preferiam que eles andassem nos passeios, quando não há ciclovia”, observou.

ACL // ROC

Lusa/Fim

mais informações na notícia:

Crianças do pré-escolar aprendem a andar de bicicleta

“Uma criança que vai a pé para a escola tem muito mais ganhos”

Outubro 28, 2018 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da TSF de 16 de outubro de 2018.

Carlos Neto, professor e investigador da Faculdade de Motricidade Humana, defende que as crianças precisam de fazer o caminho para a escola de forma mais autónoma.

“Temos de acabar com esta dependência, automóvel!”, exclama Carlos Neto. “Uma criança que vai a pé, de bicicleta, ou mesmo de transportes públicos, tem muito mais ganhos”, assegura o investigador da Faculdade de Motricidade Humana.

O professor acredita que, ao descobrir o caminho, vivenciar o território, brincar e conviver com os amigos, a criança fica mais disposta a aprender. “As crianças não estão a viver o território, não estão a viver estas experiências e quando entram numa sala de aula, quando vão de carro, não estão preparadas para aprender”, defende.

E a partir de que idade é recomendável irem sozinhas? “Na Dinamarca, com 4 ou 5 anos vão de bicicleta de forma tranquila”, responde Carlos Neto. “Se vão de carro, colocadas à porta da escola, muitas delas transportadas ao colo para dentro da sala de aula numa forma absolutamente patológica do que é a super proteção, isso é negar aquilo que é o direito da criança ser autónoma, o direito dela brincar livremente e o direito de ser pessoa”.

Ouvir as declarações de Carlos Neto no link:

https://www.tsf.pt/sociedade/interior/uma-crianca-que-vai-a-pe-para-a-escola-tem-muito-mais-ganhos-10007728.html

Crianças pedalam de casa até à escola num “comboio” conduzido por alguns pais

Outubro 27, 2018 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Adriano Miranda

Notícia e fotografia do Público de 16 de outubro de 2018.

Projecto nascido em Lisboa, na zona do Parque das Nações, está a ser replicado, com grande sucesso, em Aveiro. E a ideia passa por fazê-lo chegar a outros pontos do país.

Maria José Santana

O ritual tem vindo a repetir-se todas as manhãs, desde o início do ano lectivo. Às 8h35, César Rodrigues e o seu filho Sebastião saem para a rua, cada um na sua bicicleta. Fazem a primeira paragem um minuto depois, escassos metros à frente, para apanhar Martinho e os seus três filhos: Mafalda, Gaspar e Baltazar. Ao longo do caminho que os conduz até à Escola Básica das Barrocas, em Aveiro, ainda efectuam mais duas paragens. Inês Domingues e Inês Brito, com os respectivos filhos, Tomás e Rodrigo, juntam-se ao grupo no segundo ponto de encontro. Mais à frente, é a vez de Ricardo Nunes, e os filhos Bárbara e João, engrossarem a caravana. Na verdade, é um “comboio” de bicicletas e até já tem nome próprio: Ciclo Expresso das Barrocas.

Inspirada no projecto Ciclo Expresso do Oriente, que arrancou há cerca de três anos na zona do Parque das Nações, em Lisboa, por iniciativa de um pai (João Bernardino), a acção parece estar a querer ganhar cada vez mais adeptos. A começar, desde logo, pelo mais novos, que começam as suas manhãs cheios de energia. Riem, gritam, cantam. Tudo isto, curiosamente, às primeiras horas da manhã e enquanto fazem o percurso de casa para a escola. Mesmo aqueles que, por serem ainda demasiado pequenos ainda não vão a pedalar. “Os de três anos de idade ainda vão nas cadeiras das bicicletas dos pais, mas já começam a ficar entusiasmados”, relata Joana Ivónia, uma das promotoras do Ciclo Expresso das Barrocas. Daí até começarem a andar “nas bicicletas de equilíbrio, com os pais a acompanharem a pé” é um saltinho, acrescenta aquela responsável com base na experiência já vivida ao longo do último ano lectivo.

Em Aveiro, o projecto arrancou a 13 de Outubro de 2017, com uma periodicidade semanal (sexta-feira) e compreendeu, até ao final do ano lectivo, a realização de cerca de 30 comboios. “Este ano, como o início do ano lectivo coincidiu com a Semana Europeia da Mobilidade, começámos por ir todos os dias de bicicleta e como tem resultado tem havido comboio sempre”, justifica Joana Ivónia. O sinal de partida ou os cancelamentos da viagem (quando chove, por exemplo) são comunicados através da aplicação whatsapp, num grupo criado para o projecto.

No dia em que o PÚBLICO acompanhou o percurso do Ciclo Expresso das Barrocas, integraram o “comboio” cinco encarregados de educação e oito crianças (com idades entre os três e os oito anos). A ideia passa por desafiar outras crianças a juntarem-se a este comboio, uma vez que a vantagem destas viagens em “comboio” passa, precisamente, pela possibilidade de as crianças não terem de ir com os seus pais. “Sabemos que nem todos os pais têm horários ou locais de trabalho que permitem participar neste comboio, mas como já vão vários adultos no grupo podem levar as suas crianças aos pontos de paragem para elas integrarem o comboio”, nota César Rodrigues, marido de Joana Ivónia e outro dos mentores da iniciativa.

Automobilistas mais sensíveis às crianças

Ao longo deste primeiro ano de existência, o Ciclo Expresso das Barrocas tem merecido o reconhecimento de outros pais, mas nem todos passam das palavras aos actos. “Acham imensa piada mas dizem que não conseguem porque o percurso é feito em estrada e têm medo de andar no meio dos carros”, referem os promotores. E há razões para tal? “Noto que quando circulamos em grupo e quando há crianças no meio, os automobilistas têm muito mais cuidado. Sinto-me mais seguro a andar na estrada sempre que levo o meu filho”, testemunha César Rodrigues. Contudo, ainda há muito trabalho a fazer no que toca a motivar mais pessoas a optarem pela bicicleta, sendo certo que na escola das Barrocas o trabalho de casa está feito. A presidente da associação de pais, Susana Caixinha, dá também ela o exemplo no que concerne à mobilidade ciclável.

No ano passado, Susana Caixinha e o marido decidiram ter apenas um carro e começar a andar mais a pé e de bicicleta. Foi preciso alterar rotinas, nomeadamente a das deslocações diárias do casal e das suas duas filhas – uma de nove e outra de seis anos. “De manhã, o meu marido leva a mais velha à escola das Barrocas, eu levo a mais nova à escola de Santiago e sigo para o trabalho”, testemunha. À tarde, quando sai do emprego (Universidade de Aveiro), Susana Caixinha passa por Santiago para ir buscar a mais nova e segue com ela para as Barrocas. No fundo, acabam por cumprir um pequeno “comboio” familiar.

A opção pela bicicleta tem trazido inúmeras vantagens, garante Susana Caixinha, em especial para as miúdas. “A Mafalda costumava ir calada no carro e agora vai o caminho todo a falar. Como passamos nos jardins da cidade é muito engraçado para ela e para mim ouvir os barulhos dos animais”, argumenta. A recomendação passa, assim, para que muitas mais famílias comecem a optar pela bicicleta nas suas deslocações diárias. “Em especial em Aveiro, uma cidade plana” onde é simples andar de bicicleta repara Susana Caixinha, sem deixar de reconhecer que a situação fica mais facilitada quando, tal como ela e a família, se vive no centro da cidade.

 

 

Se pudessem escolher, as crianças iriam a pé para a escola

Janeiro 18, 2018 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 9 de janeiro de 2018.

 

“As cidades não estão pensadas para elas”, diz a autora de estudo da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.

Samuel Silva

O cenário poderia ser diferente se as crianças decidissem, concluiu Andreia Ramos. Foi perguntado aos participantes qual o meio de transporte que utilizariam na deslocação casa-escola-casa se pudessem escolher. Oito em cada dez disseram preferir fazer o percurso por meios não motorizados.

As crianças evidenciaram uma “grande vontade de terem uma determinada autonomia” nas deslocações de que actualmente não dispõem, diz Andreia Ramos, em declarações ao PÚBLICO.

Na resposta ao questionário que foi aplicado aos estudantes, estes explicam ainda que não se sentem seguros nas deslocações sem supervisão de adultos, apontando como principais motivos aspectos relacionados com o espaço físico como o trânsito excessivo ou o reduzido número de passeios e passadeiras. Só depois destes aparecem nas respostas dos alunos questões relacionadas com a segurança pessoal, como o medo de serem assaltados ou de se perderem.

“Prioridade ao peão”

Estes dados permitem a Andreia Ramos concluir que o escasso uso de meios de transporte não motorizados nas deslocações entre casa e escola tem esta explicação: as cidades “não são pensadas para as crianças”.

“As cidades são projectadas pensando no transporte motorizado. Têm poucas preocupações com os acessos pedonais e são muitas vezes demasiado dispersas”, explica a arquitecta paisagista.

No estudo de Andreia Ramos foram inquiridos 191 estudantes do Agrupamento de Escolas de Rio Tinto, no concelho de Gondomar, dos 1.º e 2.º ciclos — ou seja, crianças entre os 6 e os 11 anos. De modo a evitar que o cansaço ou a falta de atenção afectassem as respostas dos participantes, a investigadora aplicou o questionário por meio de jogos didácticos e visitas de estudo.

“Quando andávamos com eles na rua, eles ficavam maravilhados. Tinham liberdade e não estavam acostumados”, conta a arquitecta paisagista, que trabalha agora no Instituto A Criança na Cidade, com sede em Vila Nova de Gaia. “As crianças parecem conceber a rua como o espaço do automóvel, e, por isso, considera-se urgente recentrar a rua nos peões e especificamente nas crianças, para os casos dos percursos casa-escola.”

Andreia Ramos recomenda, assim, uma maior atenção ao conceito de zonas de coexistência, o que pressupõe a partilha dos espaços urbanos por diferentes utilizadores e tipos de meios de transporte, passando a ser dada “prioridade ao peão” e a outros modos de deslocação não motorizados nos percursos casa-escola.

O estudo mencionado na notícia é o seguinte:

Mobilidade e interação social da criança na cidade

 

 

A aparente descontração dos pais alemães

Janeiro 13, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://www.goethe.de/ins/pt/lp/prj/toa/ptindex.htm

celia-mateus

A minha vida mudou e muito no ano 2012. Vim viver para a Alemanha com o meu filho de 5 anos e o meu marido por motivos profissionais. Sabia a língua? Não, nem uma palavra, mas também não interessava nada. É preciso ter abertura de espiríto e encarar as diferentes fases da vida com optimismo, acreditando que tudo irá correr pelo melhor. Eis as minhas aventuras.

Na Alemanha é muito comum ver crianças sozinhas na rua, duas a duas ou em grupo a caminho da escola. Umas a passear de bicicleta e outras a passar nos semáforos das estradas movimentadas. Crianças pequenas que saem das suas casas para irem para a casa dos amigos, que fica na rua ao lado.

Tudo isto são cenas que me relembram a minha própria infância nos anos oitenta em Portugal, que era exatamente assim. Uma época que se perdeu. Mas porquê? Pelo medo muito fomentado pelas constantes notícias na televisão sobre o que vai mal no mundo? E, afinal, o que fazem os pais alemães de diferente? Certamente, eles amam tanto os seus filhos como quaisquer outros pais. Como conseguem eles ter a calma e a descontração para dar esta liberdade aos filhos, liberdade essa mais contida no panorama português? Em primeiro lugar, esta “descontração” no controlo parental é apenas aparente e, em segundo lugar, as crianças são incentivadas a serem independentes e, para que tal aconteça, devem sentir-se responsáveis pelos seus atos.

No jardim de infância, por exemplo, katharina-hankequando os vão levar ou buscar, não os ajudam a despir e a vestir ou a descalçar e a calçar. Ficam à sua frente, a dizer o que devem fazer, tipo: “Agora despe o casaco e pendura no cacifo com o teu nome. Agora descalça-te e guarda os sapatos no lugar deles. Tira as luvas e o gorro e coloca-os dentro das mangas do casaco”, e por aí fora. Assisti muitas vezes a isto e pensava para comigo, que pais eram estes que não ajudavam os seus filhos pequenos? Os pais alemães esperavam o tempo que fosse necessário até todas as tarefas estarem concluídas. E o que acontecia? Os meses passavam e as crianças alemãs, gradualmente, começavam a ser mais “desenrascadas” e já se despiam e vestiam cada vez mais depressa e sem ser necessário que lhes dissessem qual a ordem correta.

Quando o meu filho foi para escola primária alemã, explicaram-nos que os pais só devem acompanhar os filhos no primeiro dia de escola. A partir daí, as crianças devem ir a pé ou de autocarro.
O meu filho de seis anos, sozinho no autocarro da escola?
Não consegui fazê-lo, pelo que ocasionalmente recebia uns olhares espantados dos próprios miúdos, que não compreendiam a minha presença na escola.

As crianças pequenas são também incentivadas a andar de bicicleta, para acompanhar a família nos passeios de fim de semana e, como consequência disso, muitas crianças de três anos já sabem andar numa bicicleta com pedais. Enquanto isso o meu filho aprendeu a andar de bicicleta sem pedais com três anos! Em Portugal não existem bicicletas destas para crianças de dois anos, ao contrário do que se vê na Alemanha.

celia-mateus2Outro bom exemplo são os parques infantis, que na Alemanha estão sempre apinhados de pais com os seus filhos. Os pais sentam-se, conversam, levam termos de café, bolachas e fruta, que trocam entre eles e vigiam os seus filhos sem se levantar. Se eles desaparecem da sua vista, não vão a correr para ver onde os miúdos andam, se foram para trás de algum arbusto, se para cima de uma árvore ou se estão empoleirados num baloiço mais alto onde não deviam estar. Todos os pais alemães que conheço achavam estranho eu andar sempre atrás do meu filho e, gradualmente, deixei de o fazer, não que não me preocupasse, mas a verdade é que ele estava sempre por ali.

Qual é, então, a diferença na educação alemã? Trata-se de incentivar a independência e a responsabilidade, através da confiança que depositam nos seus filhos. Ao estar fora da vista dos pais, a criança sente que precisa de se desenvencilhar sozinha e ao fazê-lo está também a ser mais independente. São maneiras diferentes de educar, cada uma com as suas vantagens e desvantagens.

Seja como for, pese embora eu não me consiga libertar do “controlo parental português”, agrada-me viver num país que me relembra a minha própria infância e sentir que o meu filho pode viver a sua infância na plenitude que ela merece.

celia-mateus3

 

Célia Mateus
licenciou-se em Ciências da Comunicação na Universidade Luís de Camões e especializou-se em Relações Públicas, área onde trabalhou mais de 10 anos, passando pela Câmara Municipal de Lisboa e pela NPF-Pesquisa e Formação. Nos últimos anos trabalhou na área do Turismo, como agente de Viagens na Best Travel.

Copyright: Tudo Alemão
Novembro de 2015

Língua original: Português

 

Brincar na rua. Os miúdos querem, os pais têm medo

Novembro 8, 2016 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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reportagem do Notícias Magazine de 9 de outubro de 2016.

pedro-correia

descarregar a reportagem no link:

https://ciecum.wordpress.com/2016/10/18/brincar-na-rua-os-miudos-querem-os-pais-tem-medo/

Crianças, educação e autonomia

Outubro 3, 2015 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Relatório | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de José Morgado publicado no Público de 19 de setembro de 2015.

Estamos a iniciar mais um ano lectivo, desejo que corra o melhor possível para alunos, professores e pais. Também por esta razão gostava de partilhar convosco algumas notas relativas a uma matéria que julgo importante: a autonomia das crianças.

De acordo com um estudo realizado pelo Policy Studies Institute que comparou os estilos de vida de crianças e adolescentes entre os 7 e os 15 anos verificou-se que em Portugal se encontra um dos mais baixos níveis de autonomia assumida por crianças e adolescentes no que respeita à mobilidade. O estudo foi desenvolvido em Portugal sob a coordenação do professor Carlos Neto.

De facto, a autonomia de crianças e adolescentes, em termos mais gerais não apenas no aspecto da mobilidade, é uma questão de enorme relevo que muitas vezes abordo com profissionais, pais e encarregados de educação e que envolve múltiplos aspectos da vida dos mais novos.

Ainda não há muito tempo me solicitaram colaboração para um trabalho na imprensa que questionava “Quando devem (ou podem) as crianças deslocar-se sós para a escola?”

Trata-se, evidentemente, de uma pergunta sem respostas definitivas pois envolve inúmeras variáveis, o contexto social e geográfico ou a maturidade da própria criança por exemplo, mas tem subjacente a mais vasta e importante ideia da autonomia das crianças e a forma como a promovemos … ou não.

De há muito que a propósito de educação me lembro de um texto de Almada Negreiros “… queria que me ajudassem para que fosse eu o dono de mim, para que os que me vissem dissessem: Que bem que aquele soube cuidar de si”. Este enunciado ilustra, do meu ponto de vista, a essência da educação, seja familiar ou escolar, em qualquer idade, “saber cuidar de si”.

Na verdade, o que se pretende num processo educativo, envolvendo quer os aspectos escolares quer outro tipo de actividades, será a construção de pessoas que sabem tomar conta de si próprias da forma adequada à idade e à função ou actividade que em cada momento se desempenha. Este entendimento traduz-se num esforço contínuo de promover a autonomia das crianças e jovens para que “saibam tomar conta de si próprios”, no fundo a conhecida ideia de “ensinar a pescar, em vez de dar o peixe”.

A investigação e a experiência sugerem que crianças pouco autónomas são mais inseguras, menos tolerantes, menos empreendedoras com potenciais repercussões negativas no seu comportamento adulto.

Parece-me, pois, fundamental que adoptemos comportamentos que favoreçam a autonomia de crianças e jovens. No entanto, é minha convicção que por razões que se prendem com os estilos de vida, com os valores culturais e sociais actuais, com as alterações na vida das comunidades, questões de segurança por exemplo, estamos a educar as nossas crianças de uma forma que não me parece, em termos genéricos, promotora da sua autonomia. A rua, o espaço exterior, o risco (controlado obviamente), os desafios, os limites, as experiências, são ferramentas fortíssimas de desenvolvimento e promoção dessa autonomia e devem estar presentes, tanto quanto possível com regularidade, na vida de crianças e adolescentes.

É neste contexto que pode ser colocada e decidida a questão que referi como exemplo, a deslocação autónoma das crianças para a escola.

Por outro lado, muitas crianças são permanentemente bombardeadas com saberes e actividades a que se atribui importância, nem sempre comprovada, para o seu desenvolvimento e para o seu futuro. Ao mesmo tempo, apesar dessas actividades e das competências adquiridas, continuam pouco autónomas, pouco envolvidas nas decisões que lhes dizem respeito cumprindo agendas que não lhes dão margem de decisão sobre o quê e o porquê do que fazem ou não fazem. Acabam por se tornar menos capazes de decidir sobre o que lhes diz respeito, dependem da “decisão” de quem está à sua volta, companheiros ou adultos.

Mais um exemplo para clarificar. Um adolescente não habituado a tomar decisões com regularidade, a fazer escolhas, mais dificilmente dirá “não” a uma oferta de um qualquer produto ou a um convite de um colega para um comportamento menos desejável. É mais difícil dizer “não” do que dizer “sim” aos companheiros da mesma idade. Também numa sala de aula é bem mais provável que um adolescente tenha um comportamento adequado porque “decida” que é assim que deve ser, do que por “medo” das consequências.

Só crianças autónomas, autodeterminadas, auto-reguladas, serão mais capazes de dizer não ao que se espera que digam não e escolher de forma ajustada o que fazer ou pensar. Este entendimento sublinha a importância de que em todos os processos de educação, logo de muito pequeno, em casa, na escola ou noutra qualquer actividade, se estimule a autonomia das crianças.

Todos beneficiariam, os mais novos e os mais velhos.

No entanto, creio que esta visão está menos presente do seria desejável e possível em muito do que fazemos em matéria de educação familiar ou escolar.

 

 

 

Crianças portuguesas estão mais sedentárias e com menos liberdade para brincar

Setembro 29, 2015 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da TVI24 de 26 de setembro de 2015.

O estudo mencionado na notícia é o seguinte:

Children’s Independent Mobility: An International Comparison

sobre Portugal:

Children’s Independent Mobility in Portugal 2011/2012

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Estudo sobre mobilidade infantil em 16 países concluiu que Portugal está na cauda da tabela

Redação / DC

Um estudo sobre mobilidade infantil em 16 países concluiu que Portugal está na cauda da tabela, e isso tem consequências graves para o aproveitamento escolar e, sobretudo, para a saúde pública, alerta o coordenador do estudo português.

“Estamos numa situação caótica. As nossas crianças estão fechadas, amarradas, em casa, não têm liberdade de ação, não vão a pé para a escola, não brincam na rua. Estamos a viver uma situação insustentável, o que designo por sedentarismo infantil”, disse à Lusa o coordenador do estudo português, Carlos Neto, professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa.

O estudo português – Independência de Mobilidade das Crianças – data de 2012, mas só em agosto foi publicado, integrado num estudo internacional pelo instituto britânico Policy Studies Institute, denominado Independent Mobility: An International Comparison (Mobilidade Independente: Uma Comparação Internacional).

O estudo português concluiu que há alterações necessárias de políticas públicas “mais ousadas”, pensadas para as crianças para inverter a atual situação: políticas que permitam aos mais novos brincar e desfrutar do espaço exterior, que permitam uma maior harmonização entre a vida familiar, escolar e em comunidade, e políticas urbanas que incluam uma planificação “mais amiga” das crianças e as encare como parte integrante e participante da sociedade.

“[…] não temos cidades preparadas para as crianças. Não há qualquer convite à atividade física. […] Temos as crianças muito sentadas e pouco ativas. Precisamos de uma verdadeira revolução na forma como podemos tornar as crianças mais ativas e com mais saúde, física e mental”, disse à Lusa Carlos Neto.

O coordenador do estudo defende que em Portugal as crianças têm cada vez menos liberdade para serem crianças e fazerem coisas necessárias ao seu crescimento como correr, nadar, dançar, subir às árvores. Afirma que se estão a criar crianças “imaturas e sedentárias” e que as consequências se vão pagar a médio e longo prazo.

“Não é só a obesidade, são também as doenças cardio-vasculares, as relacionadas com o foro emocional e afetivo, e, acima de tudo, com uma socialização difícil para as crianças do nosso país poderem fazer. Temos que mudar a escola, o estilo de vida das famílias. […] Estamos convencidos que isto tem consequências no sucesso escolar e no grau de felicidade das crianças, porque vão ter dificuldades de adaptação na vida adulta”, disse.

O professor da Faculdade de Motricidade Humana recordou que “estudos demonstram que crianças mais ativas e com maior socialização no recreio aprendem mais dentro da sala de aula, têm mais sucesso escolar”.

Um dos aspetos estudados neste trabalho, o trajeto casa-escola, mostra que apenas 35% das crianças com 8 ou 9 anos vão a pé para a escola e que nesta faixa etária nenhuma vai de bicicleta. As que são levadas de carro são a grande maioria (56%).

“Aqui vai tudo de carro para a escola. As crianças visualizam o espaço físico pelo vidro do automóvel. Estamos a criar uma situação desesperada. Valia a pena por isto em discussão em campanha eleitoral”, defendeu Carlos Neto.

Só por volta dos 12 anos a grande maioria das crianças portugueses inquiridas neste estudo (80%) teve permissão para ir sozinha para a escola, ou atravessar sozinha estradas municipais. Só aos 15 anos a maior tem autorização para andar sozinha de transportes públicas ou para circular de bicicleta sem supervisão em estradas principais.

O estudo demonstra também que as diferenças entre litoral e interior são cada vez mais esbatidas e que ao nível do sedentarismo os comportamentos são os mesmos.

Os 16 países que integraram este estudo foram, e por ordem de classificação em termos de mobilidade independente das suas crianças, a Finlândia, a Alemanha, a Noruega, a Suécia, o Japão, a Dinamarca, a Inglaterra, França, Israel, Sri Lanka, Brasil, Irlanda, Austrália, Portugal e Itália (empatados em 14.º lugar) e África do Sul.

“O estudo português realizou-se em seis áreas diferentes de Portugal que se consideram ser representativas de cinco tipologias territoriais distintas: centro da cidade (centro de Lisboa); urbano (Matosinhos e Linda-a-Velha); suburbano (Brandoa), pequena cidade (Silves) e rural (Redondo). Nesta investigação participaram 16 escolas e 1099 crianças e respetivos encarregados de educação. […] questionários foram aplicados a crianças e jovens do 3.º ao 10.º ano de escolaridade, com idades entre os 8 e os 15 anos”, explica a ficha técnica do estudo.

 

 

 

A Serpente Papa-Léguas – Jogo da Mobilidade

Outubro 7, 2014 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação, Vídeos | Deixe um comentário
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A Serpente Papa-Léguas – Jogo da Mobilidade é uma campanha criada para incentivar as viagens a pé ou de bicicleta nas idas para a escola, e que tem as crianças e os seus pais como o principal público-alvo. A campanha consiste num jogo de fácil implementação e, além de participar no jogo, cada escola aderente é encorajada a organizar outras actividades e a proporcionar acções educativas sobre segurança rodoviária e mobilidade, questões ambientais e de saúde.

Começando como um projecto relativamente pequeno na Flandres (Bélgica), a Serpente Papa-Léguas evoluiu para uma campanha de âmbito europeu ao longo dos anos, com cada vez mais escolas e países a aderir ao jogo. Evidências mostraram que a campanha aumenta com sucesso a utilização de modos de transporte sustentáveis e reduz a emissão de CO2. Veja este vídeo sobre como a campanha funciona.

Para disseminar esta boa experiência por toda a Europa, foi estabelecida uma rede europeia da Serpente Papa-Léguas, que actualmente consiste em pontos focais nacionais (PFN) em dezoito países europeus. O seu objectivo principal é implementar a campanha, estender o seu impacto e partilhar resultados e experiências entre os membros da rede.

mais informações:

http://www.trafficsnakegame.eu/portugal/

 

 

 


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