Um país sentado no sofá – Crianças obesas

Janeiro 2, 2020 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Fronteiras XXI

A falta de actividade física entre as crianças portuguesas é uma bomba-relógio. Porque lhes limita o desenvolvimento motor em idades em que muitas capacidades podem ser maximizadas e porque crianças que não se mexem serão no futuro adolescentes e adultos sedentários. Há alunos do 2º ano que não são capazes de saltar bem à corda e estudantes do 5º que não sabem correr. “Em vez de os ensinarmos a praticar desporto temos de os ensinar a mexer-se”, lamenta o professor de educação física Avelino Azevedo.”

Portugal é dos países europeus com menores taxas de actividade física e mais crianças obesas. Uma aposta sólida na promoção do exercício físico poderia trazer melhorias significativas na saúde pública e pouparia muito dinheiro. Mas as escolas continuam com dificuldades, os clubes oscilam entre a responsabilidade social e a necessidade de formar “activos”, os decisores políticos parecem pouco empenhados no tema e há muitos miúdos que passam a vida no sofá ou em frente ao computador. Estamos a formar gerações com rotinas sedentárias. E vamos todos pagar por isso.

A falta de actividade física entre as crianças portuguesas é uma bomba-relógio. Porque lhes limita o desenvolvimento motor em idades em que muitas capacidades podem ser maximizadas e porque crianças que não se mexem serão no futuro adolescentes e adultos sedentários. Doenças físicas e problemas de auto-estima ficam à espreita e a saúde pública fragiliza-se.

Os dados da Direcção-Geral da Saúde revelam que 77 por cento dos portugueses não praticam exercício suficiente. E a Organização Mundial de Saúde calcula que mesmo que a taxa de inactividade fosse de 50 por cento, o sedentarismo custaria ao país mais de 900 milhões de euros por ano em cuidados médicos, medicamentos ou absentismo no trabalho. Foi quanto pagámos pela ponte Vasco da Gama…

O problema é sério e o cenário entre os mais novos não prognostica nada de bom. Numa sociedade cada vez mais urbana e “electrónica”, os miúdos saem menos de casa, andam menos a pé, já quase não brincam na rua. Em cima disso, comem e bebem alimentos hiper-calóricos.

Os estudos mostram bem a degradação daquilo a que Olímpio Coelho, professor convidado da Universidade Lusófona, chama “literacia motora” entre os mais pequenos: as provas de aferição do ensino básico em 2016/2017 concluíram que quase metade dos alunos (46%) não conseguia dar seis saltos consecutivos à corda, que 40% não sabia dar uma cambalhota e quase um terço (31%) sentia dificuldades em jogos de grupo.

Se o ponto de partida é francamente mau, o que se segue também não são boas notícias. É que o sistema escolar não tem capacidade de resposta para o problema, aponta Avelino Azevedo, presidente do Conselho Nacional de Associações de Profissionais de Educação Física e Desporto (CNAPEF): “Estamos muito preocupados com o processo educativo no 1º ciclo, que é deficiente, até pela falta de instalações e profissionais”, alerta.

“Às vezes no 5º ano temos de ensinar miúdos a correr, como pôr o pé, etc… São questões básicas, que tinham de ser trabalhadas antes. Depois os miúdos não têm destreza física, se caem magoam-se logo, em vez de os ensinarmos a praticar desporto temos de os ensinar a mexer-se.”

Como é que isto acontece, se como diz, Olímpio Coelho, “as crianças são naturalmente activas”? Porque, levam uma vida muito sedentária. “Todas as solicitações fortes vão no sentido de estarem parados, com a popularização dos jogos electrónicos, da Internet, da vida em frente ao teclado. É preciso limitar o tempo que as crianças dedicam ao computador.”

Já não se brinca na rua

O meio urbano também está a bloquear essa tendência dos mais novos para a actividade, porque “reduz as possibilidades de exercício natural”.

“As práticas de rua estão em desuso, são vistas como inseguras e há uma protecção excessiva, que não permite aos miúdos crescerem perante a adversidade, ao ar livre”, analisa Tomaz Morais, treinador de rugby, assessor para o alto rendimento da Federação Portuguesa de Rugby e consultor do Sporting. “Desta forma, as crianças não são capazes de ganhar hábitos motores, como saltar, correr, cair ou subir escadas, fundamentais para conseguirem praticar desporto com qualidade”, explica. “Uma área onde se nota claramente a influência das ‘facilidades’ modernas é a da resistência. Os transportes públicos chegam a todo o lado e a generalidade dos jovens anda pouco a pé.”

Ainda assim, Tomaz Morais vê algumas mudanças positivas: “Há um entendimento muito mais claro da importância do desporto na formação dos jovens. Pais, médicos, meio escolar, comunicação social; toda a gente está mais alerta para as vantagens da actividade física, seja ela formal ou informal. Há uma maior consciencialização social e vemos jovens a participar em actividades físicas sem carácter competitivo, procurando apenas o bem-estar.”

Para muitos, no entanto, só o meio escolar fornece o enquadramento para a prática de algum exercício físico.

“A principal preocupação prende-se com o número de horas de actividade física que os alunos cumprem sob supervisão especializada”, explica Avelino Azevedo. “Queremos cumprir as normas europeias e da Organização Mundial de Saúde: uma hora de exercício diário por dia. Se não for na escola, para muitos não será em lado nenhum… E como o Desporto Escolar só abrange cerca de 20 por cento dos alunos, perto de 180.000, o nosso foco centra-se nas aulas de Educação Física.”

O impacto na vida dos alunos é enorme, até em questões muito prosaicas. “Para alguns, que vivem com dificuldades económicas e em lares desestruturados, o banho que tomam na escola depois das aulas pode até ser o único nessa semana…”, lembra Avelino Azevedo.

Há todo um mundo de dificuldades que passariam despercebidas aos mais desatentos, mas não a quem trabalha directamente com os jovens. “A refeição na cantina é muitas vezes a única de jeito para alguns miúdos”, diz Marco Cerveira, coordenador técnico da formação de futebol no Grupo Desportivo de Peniche (GDP) e também professor de Educação Física.

Desinvestimento na Educação Física

As hesitações políticas ao longo dos anos não têm contribuído para reforçar o estatuto da Educação Física, antes pelo contrário.

Em 2012, a disciplina deixou de contar para a média dos alunos do secundário. Agora, as notas voltaram a ser contabilizadas. Mas durante esses anos houve um claro desinvestimento na Educação Física, relata Avelino Azevedo.

“Dos alunos que, em alturas mais complicadas, apontavam para as outras disciplinas, as que contavam para a média de acesso ao ensino superior; dos directores das escolas, no momento de tomar decisões; e do Ministério da Educação, que negligenciou a formação de professores”, defende.

Acontece que esta fase coincidiu ainda com a vaga de obras nas escolas a cargo da Parque Escolar e o estatuto “menor” da Educação Física levou a que muitas remodelações adoptassem intervenções minimais ou deixassem mesmo de lado as instalações desportivas.

“Há escolas com zonas cobertas, mas não fechadas… Ora, em algumas regiões do país isso até pode servir, mas no Norte e no Interior é impossível dar aulas ao ar livre durante o Inverno! E mais: essas instalações das escolas acabam também por ser utilizadas pela comunidade em horários pós-escolares, pelo que se perdeu uma oportunidade que vai muito para além do universo escolar”, diz o presidente do CNAPEF.

Contudo, era inevitável que a Educação Física recuperasse o seu estatuto, adianta. “A questão foi ultrapassada. O aluno é um todo, a Educação Física não trabalha apenas o corpo, potencia tudo o que ajuda na aprendizagem: trabalhar em grupo, saber ganhar e perder, questões de saúde, de auto-estima, de integração.” Porque o papel principal do desporto na escola é “reforçar a literacia motora dos seus alunos”, criar “bons candidatos a praticantes que depois os treinadores trabalham”, reforça Olímpio Coelho.

Por esse motivo, o trabalho com as crianças deveria começar mais cedo, no 1.º ciclo, onde a tradição e os métodos de ensino não parecem jogar a favor de uma maior preocupação com a actividade física.

As salas têm um professor generalista e muitas nem dispõem de instalações adequadas. Para Avelino Azevedo, a solução passaria por “colocar um professor de Educação Física a coadjuvar o docente generalista e generalizar a boa prática de aproveitamento racional das instalações municipais, como os pavilhões e as piscinas”.

Os clubes: valores e performance

Apesar de tudo, mantêm-se algumas resistências, a começar pelas colocadas pelos miúdos que não se sentem à vontade com o exercício físico. Não estão habituados, custa-lhes, é um sacrifício, fala-se cada vez mais em performance e quem não é bom no desporto mais vale nem tentar…

Para os que aprenderam a gostar de exercício e têm apetência, praticar desporto significa cada vez mais inscrever-se num clube. Há hoje mais de 410 mil crianças e jovens a praticar desporto federado.

Mas os pais pagam a formação desportiva ou pagam a busca pela excelência? “Os pais vêem nos clubes uma forma de praticar desporto com mais segurança, o que não quer forçosamente dizer melhor desporto”, diz Tomaz Morais. “O lado bom é que os clubes investem cada vez mais em profissionais qualificados, que abrem o treino às áreas que estão mal trabalhadas de base. Quando antes se ensinava a jogar, agora trabalha-se toda a motricidade, que devia ser algo desenvolvido a nível pessoal. Mas é o cenário que temos.”

A preponderância dos clubes traz consigo uma diferença de enquadramento, de mentalidades. “Está a passar-se cada vez mais carga sobre os miúdos que praticam desporto. Há uma exigência de competir bem e ganhar. Não está errado; o que não se pode é passar por cima de princípios éticos. A expectativa da vitória é cada vez mais premente. Antes havia mais ‘alegria’, agora é o ‘rendimento’. Os clubes formam e querem performance”, adianta.

Já para Olímpio Coelho, hoje o desporto de alto rendimento está absorvido pelo economicismo e funciona numa lógica empresarial de criação de valor de mercado, não dando tanta atenção às questões da valorização do indivíduo e da sociedade.

E por isso, “exceptuando algumas pessoas e instituições, não se respeita o longo prazo, acelerando-se o processo para tentar formar ‘activos’…” Ou seja: “o indivíduo deixa de estar no centro do processo, passa a ser a instituição.”

E, sim, depois há também os pais. Alguns confundem a formação desportiva dos filhos com o investimento num futuro financeiramente desafogado… E é vê-los por aí, ao fim-de-semana, gritando “instruções” para o campo, destratando árbitros e adversários, às vezes até os próprios filhos, por falharem um passe ou estarem distraídos…

“Temos de domesticar os pais”, desabafa o professor de educação física Marco Cerveira. Em Peniche, onde coordena a formação de futebol, há procedimentos estabelecidos para evitar choques entre os progenitores ansiosos e os técnicos, que acabam, inevitavelmente, por prejudicar sobretudo os jovens praticantes.

“Aqui os treinadores têm instruções para não debaterem questões técnicas com os pais. Quando menos conversa houver sobre esse tema, melhor”, explica. “Mas não deixamos de os ouvir quando estamos no campo. E os miúdos também…”, desabafa.

Uma “lição” de futebol em Peniche

Nem sempre é assim, claro. “Noutros clubes, já tive pais a dizerem-me que pagavam e que o filho tinha de jogar. Respondi-lhes que estavam errados: eles pagam pelos treinos, pela formação; o jogo é responsabilidade do clube”, vai contando Marco Cerveira, à margem do jogo no estádio do Grupo Desportivo de Peniche (GDP), entre a sua equipa de sub-13 e a do Bombarralense.

Desde que o professor de educação física chegou ao clube, “há quatro ou cinco anos”, e com o apoio do então presidente João Manuel Viola, a formação do GDP levou uma volta. “Apostámos na qualidade dos treinadores, o presidente aceitou que era necessário subir um bocadinho o nível de remuneração dos técnicos, até para haver outra exigência. Trabalhamos em conjunto, não há ‘quintais’ estanques, funcionamos como um todo.”

Os resultados estão à vista, garantem no clube. De 70 miúdos passaram para cerca de 200, pela primeira vez o GDP tem uma equipa dos escalões de formação (iniciados) no campeonato nacional e há toda uma nova dinâmica à volta do futebol jovem.

Neste sábado de manhã, alguns deles estão aqui, correndo atrás da bola com entusiasmo pelo campo sintético. Uns mais dotados tecnicamente, outros menos; uns mais franzinos, outros mais espigadotes; alguns com peso a mais. E na equipa adversária do Bombarralense até há uma menina – a Mariana – que joga com os rapazes.

Cada jogo é uma lição. Quando o guarda-redes do Peniche comete um erro e o adversário marca golo, o rapaz da baliza fica inconsolável no chão. “Repare agora”, avisa Marco Cerveira. E vários companheiros correm para o confortar. Levantam-no do chão e o jogo prossegue.

E mais à frente na partida, quando um jogador do Peniche amua, por um companheiro se perder em fintas e não lhe passar a bola, virando as costas ao lance, é logo substituído. No final da partida, apesar de vencerem por 5-1, a voz do treinador do GDP é dura: “Isto não volta a acontecer! Nem contigo, nem com mais ninguém!”. Nestas idades aprende-se muito mais do que apenas a chutar bem a bola.

O Martim, capitão de equipa do Peniche, é um dos que sabe bem o que fazer com a bola. Percebe-se pela forma como se mexe no campo sintético. Mas, garante, o futebol “é mais pela alegria, nem importa ganhar ou perder”. A sério?! Hoje foi uma vitória valente. Marcaste um ou dois golos? “Não, hoje não marquei nenhum. Mas fiz duas assistências, também é bom…”

Martim, Martins de apelido, fã de Cristiano Ronaldo, está no Peniche desde os 9 anos e já foi referenciado e chamado para testes pelo Benfica e pelo Sporting. Gostavas de ser jogador de futebol? “Até podia ser, não pensei ainda muito nisso.” Já fez ginástica, mas agora, “com a escola, os treinos e os jogos”, faltava-lhe tempo. Outros desportos? “Gosto de futsal”, admite, sempre com alguma timidez, “e também de ir à pesca.” Conhece vários miúdos da sua idade que não praticam qualquer desporto, uns porque não têm “possibilidade”, outros por lhes faltar “capacidade”. Outros ainda, explica com ar muito sério, “porque os pais estão separados”.

Parece ingenuidade, mas não é. Com as distâncias que é preciso percorrer para participar, há pais cujo fim-de-semana é balizado pelos treinos e competições dos filhos atletas.

Se falha este apoio, muitas vezes os miúdos não têm como juntar-se às suas equipas – se há mais do que um filho, com horários coincidentes, ninguém consegue estar em dois lados ao mesmo tempo….

Há também quem não tenha capacidade financeira de pagar os desportos dos filhos. Uma realidade que não passa ao lado do GDP. “Os miúdos pagam apenas 12,5 euros por mês para praticarem futebol e para os que precisam de transporte – porque alguns vêm de longe – são apenas mais cinco euros”, frisa Marco Cerveira. Mas no GDP os mais carenciados não pagam nada. “O presidente dizia-me sempre: ‘Não há-de ser por causa do dinheiro que os miúdos vão deixar de praticar desporto!’”

Ameaça para a saúde

Um pouco por todo o país, há “Martins” que mostram potencialidades e muitos outros que praticam desporto porque é bom e saudável, à espera que a vida lhes abra outros caminhos. Há pais mais ou menos capazes de perceber a pedagogia do trabalho de equipa, clubes com maior ou menor grau de exigência no trabalho dos técnicos, realidades sociais que se cruzam com o cenário da prática desportiva. Há um país que se mexe, outro que fica no sofá.

Em Portugal 30 em cada 100 crianças é obesa. Entre a obesidade e a falta de exercício físico é fácil estabelecer uma ligação. E também, também não é complicado encontrar nesta conjugação de factores negativos a génese de muitas doenças. Há pelo menos duas dezenas de doenças e condições físicas para as quais o exercício pode ser factor preventivo, alerta a Direcção-Geral da Saúde. Das doenças coronárias, à diabetes, do cancro da mama à depressão.

O problema está identificado e uma opinião pública mais alertada. Mas parece que há sempre alguma coisa no caminho, a encravar a máquina das boas intenções… Olímpio Coelho destaca alguma tibieza da acção política nesta área, dando como exemplo a falta de divulgação pública do programa do Ministério da Saúde para o desenvolvimento da actividade física. “Ele existe, mas, tirando em alguns meios mais restritos, a verdade é que não vejo nada sobre isso nos ‘media’ e não chega ao grande público.”

É difícil passar esta mensagem? O trabalho das empresas de material desportivo e de algumas federações mostra que é tudo uma questão de se apostar a sério na comunicação e de saber fazer as coisas bem feitas. “Nota-se que há, entre os jovens, uma apetência natural por modalidades ditas radicais, que têm um marketing mais agressivo. As federações dos desportos tradicionais precisam de agir de forma mais assertiva para cativar os miúdos”, analisa Tomaz Morais.

É um desafio, mas nunca como agora as pessoas estiveram tão sensíveis à mensagem: “O desporto era muito visto como competitivo; está agora a ser percepcionado sob o prisma da saúde mental e física”, salienta o homem que conduziu os “Lobos” à presença no Mundial de Rugby de 2007. Proeza que elevou a modalidade a um nível inédito de popularidade interna:  se em 2006, a Federação Portuguesa de Rugby tinha 2.745 atletas federados, um ano depois já eram 3.410 e no ano passado atingiram os 6.460 jogadores.

A força dos campeões

Nesses mesmos onze anos, entre 2006 e 2017, o número de atletas federados também disparou. O futebol continuou a ser a modalidade mais popular e subiu de forma significativa o número de praticantes (de 133.360 para 176.349). Mas este crescimento, em termos relativos, é ofuscado pelas subidas imparáveis da ginástica (de 9. 473 para 18.312) e do basquetebol (18.690 / 41.807), que duplicaram o número de federados, tal como o rugby; do ciclismo (4.566 / 15.739), que mais do que triplicou; do triatlo (713 / 2831), que praticamente quadruplicou; e, acima de todos, da natação (7.938 / 65.499), que numa década multiplicou por mais de oito vezes os praticantes inscritos na federação e foi, em termos absolutos, quem cativou mais novos atletas.

O padel também se destaca, apesar de apenas 2016 a federação registar atletas. Se no primeiro ano eram 1.805 os praticantes federados, em 2017 esse total já tinha subido para 3.123.

Há muitos factores que influenciam a popularidade de um desporto, mas é evidente que os campeões, os heróis, têm uma importância enorme. Os golos de Cristiano Ronaldo, os “passing shots” de João Sousa no ténis, as manobras vertiginosas de Miguel Oliveira no Mundial de motociclismo, os afundanços das estrelas da NBA. E as medalhas olímpicas, claro.

Em 2020 vai fechar-se mais um ciclo, com os Jogos de Tóquio. E não é difícil prever que voltarão à ribalta as questões relacionadas com a pouca atenção dada a algumas modalidades, os apoios que os atletas têm ou não têm, as deficiências na formação, a falta de meios, a falta de atitude… Enfim, o costume. “Expectativas elevadas, confronto com a realidade, procura de culpados”, sintetiza Olímpio Coelho.

“Não consigo ver que o desporto português funcione como um todo, está a funcionar solto. Há directivas, há políticas, regulamentos, intenções. Mas depois faltam a congregação e as sinergias práticas de quem está no terreno”, salienta Tomaz Morais.

Nesses meses que aí vêm falar-se-à menos de saúde pública e mais de desempenho desportivo, mas o problema de base será o mesmo: não se formam campeões com crianças sentadas ao computador. Queremos um país de desportistas ou de espectadores; de gente activa ou de sedentários? É preciso definir um rumo e trabalhar no terreno para o concretizar. A bomba-relógio não pára. Tic-tac, tic-tac.

Gravidez: o que contribui para o aparecimento da obesidade na criança?

Dezembro 30, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Sapo Lifestyle

Alguns fatores presentes na gravidez estão relacionados com o aparecimento do excesso de peso e da obesidade durante a infância:

  • Obesidade da mãe
  • Ganho de peso excessivo da mãe
  • Fumo do tabaco
  • Diabetes não controlada

Quais são as principais medidas a tomar durante a gravidez para prevenir a obesidade infantil?

Não se sabe ao certo como agem alguns fatores, como o fumo do tabaco, o ganho de peso excessivo da mãe, a obesidade da mãe e a diabetes não controlada durante a gravidez, para aumentar a tendência do bebé para ter excesso de peso na infância.

Mas existe uma série de explicações possíveis para isso. Com base nestes fatores, podemos sugerir algumas medidas que certamente contribuem para uma gravidez mais saudável e que são capazes de contribuir para a prevenção da obesidade no bebé:

  • Engravidar com um peso saudável
  • Ter bons hábitos de alimentação e atividade física durante a gravidez
  • Ter um ganho de peso adequado durante a gravidez
  • Não fumar
  • Diagnosticar e controlar a diabetes

É importante ter em conta que o aparecimento ou não da obesidade na criança não depende somente daquilo que acontece durante a gravidez. Após o nascimento e durante a vida da criança, os seus hábitos alimentares, de atividade física e de sono vão ser determinantes para o aparecimento ou não da obesidade. Ainda neste sentido a gravidez pode contribuir de forma significativa para a prevenção da obesidade na criança. Em primeiro lugar, dentro da barriga da mãe o bebé começa a ter contacto com os paladares da alimentação da mãe. Estudos indicam que a alimentação da mãe durante a gravidez pode influenciar as preferências alimentares do bebé. Assim, ter uma alimentação saudável durante a gravidez pode contribuir para a formação de bons hábitos de alimentação na criança.

Por outro lado, os hábitos alimentares e de atividade física dos próprios pais estão entre as mais fortes influências nos hábitos das crianças. A criança copia tudo aquilo que vê nas pessoas mais importantes que estão a sua volta.

A gravidez pode ser o motivo que falta para que a família siga hábitos mais saudáveis de alimentação, atividade física e descanso. Assim, será muito mais fácil e natural conseguir que a criança tenha também hábitos saudáveis de alimentação, atividade física e sono. Sabia que os hábitos de pequenino vão influenciar os hábitos e a saúde do seu filho para o resto da vida?

Como posso colocar em prática estas medidas de prevenção da obesidade infantil?

Se está a pensar em engravidar, comece por marcar uma consulta de planeamento familiar. Nesta consulta poderá esclarecer as suas dúvidas e vai receber as orientações necessárias para que a gravidez inicie da melhor forma para si e para o bebé.

Se já está grávida e ainda não marcou uma consulta de Saúde Materna, faça-o o quanto antes. Mantenha o acompanhamento durante toda a gravidez pois isso é fundamental para levar uma gravidez saudável e tranquila.

Como também pode verificar nesta secção, o melhor que pode fazer para si e para o seu bebé é procurar ter uma vida cada vez mais saudável, com bons hábitos de alimentação, atividade física e descanso. Para além dos benefícios que terão durante a gravidez, estará a construir um ambiente familiar mais saudável para a chegada do bebé. Se é fumadora, deve procurar ajuda para deixar de fumar, de preferência ainda antes de engravidar.

O pai e outros membros da família podem e devem aderir às mudanças no sentido de uma vida mais saudável. Assim estarão a ajudar a si próprios, à mãe e ao bebé. Será um início de vida promissor para o vosso filho e uma excelente oportunidade para toda família.

Muitas dúvidas vão surgir e o Papa Bem está aqui para ajudá-los neste sentido. Queremos alertá-los acerca da importância de uma “família saudável” para o bom desenvolvimento e para a saúde do vosso bebé e orientá-los para o alcance deste objetivo. Para isso, preparámos uma série de materiais com informações e sugestões para tornar as escolhas saudáveis mais atraentes e fáceis de se colocar em prática.

Para mais informações consulte www.papabem.pt

Inimigos da atividade física na infância: sugestões e conselhos

Dezembro 28, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Sapo Lifestyle de 28 de outubro de 2019.

A atividade física é essencial para o crescimento saudável e para o desenvolvimento da criança. Durante a infância, brincar é a melhor forma de fazer atividade física.

As crianças são naturalmente ativas logo desde a barriga da mãe. Contudo, nas sociedades atuais, a atividade física tem de disputar o seu espaço nos dias das crianças.

A televisão, os computadores e os videojogos estão entre as atividades que mais competem pela atenção das crianças e acabam por torná-las mais inativas. Mas a atividade física enfrenta também outros inimigos durante a infância. Saiba quais são os mais comuns e como combatê-los para que o seu filho tenha uma vida mais ativa e

As atividades que envolvem ecrãs são, regra geral, inimigas da atividade física. Ver televisão, usar o computador, jogar videojogos ou até mesmo usar um telemóvel são atividades que afastam as crianças de outros tipos de brincadeiras e mantêm a criança sentada ou parada durante longos períodos de tempo. Isto significa que a criança reduz a quantidade de tempo que passa em atividades mais movimentadas e, por isso, reduz também o seu gasto de energia, o que pode contribuir para a obesidade.

Além disso, as atividades que envolvem ecrãs podem ter outras consequências negativas para o desenvolvimento e a saúde da criança. Por exemplo, tem sido demonstrado que ver televisão antes dos 2 anos de idade pode afetar o desenvolvimento da linguagem e também reduzir a capacidade de atenção da criança no futuro.

Sugestões para combater o inimigo número 1:o ecrã

O tempo que a criança passa em atividades que envolvem ecrãs é um hábito que se aprende desde muito cedo. Na correria do dia-a-dia, é fácil que os adultos caiam na tentação de utilizar a televisão para entreter as crianças enquanto estão ocupados com outras tarefas.

Para conseguir que a sua criança tenha uma vida mais ativa e saudável, procure seguir as últimas recomendações dos especialistas sobre atividades com ecrãs para crianças até aos 5 anos de idade:

– Crianças com menos de dois anos de idade não devem ver televisão ou participar em atividades que envolvam ecrãs.

– Crianças com dois a cinco anos de idade devem ter um limite de uma hora para o tempo passado em atividades que envolvam ecrãs, como ver televisão.

– Crianças não devem ter televisão no quarto de dormir.

Não é só o tempo que a criança passa em atividades com ecrãs que importa. É necessário ter em atenção os tipos de programas que a criança assiste e os jogos ou outras atividades às quais a criança tem acesso. São de evitar histórias ou jogos violentos ou muito agitados, que envolvam movimentos rápidos e muitas luzes. Os programas educativos são os mais indicados. Por outro lado, para manter a tendência natural da sua criança para ser ativa, não basta reduzir o tempo de ecrã, é preciso colocar à sua disposição atividades divertidas e dar condições para que ela se movimente.

O seu exemplo também é fundamental. Evite passar muito tempo em frente aos ecrãs e participe em algumas dessas atividades demonstrando o quanto é agradável e divertido.

Sabia que… Passar muito tempo a ver televisão antes dos dois anos de idade pode causar atrasos no desenvolvimento da fala no seu bebé? Além disso, alguns estudos indicam que crianças que vêm muita televisão até aos 3 anos de idade podem ter dificuldades de atenção mais tarde, ao entrar para escola.

Outros inimigos da atividade física e sugestões para combatê-los

Para além de competir com as atividades com ecrãs, a atividade física enfrenta outros inimigos, como a disponibilidade de tempo, de espaços, ou de segurança.

Disponibilidade de tempo: Os horários de trabalho preenchidos dos pais e as longas deslocações entre o trabalho e a casa reduzem o tempo que os pais têm disponível para levar a criança a espaços onde possa movimentar-se livremente.

Sugestões para combater este inimigo: Para enfrentar este desafio é necessário incluir a atividade física na rotina da família e garantir-lhe um tempo diariamente. Por exemplo, reserve um ou dois dias por semana para irem ao parque, envolva a criança em tarefas domésticas, usem as escadas, vão a pé para a escola ou à mercearia do bairro, ou proponha à criança atividades que podem ser realizadas dentro de casa, como dançar.

Disponibilidade de espaço: A falta de espaço em casa ou na vizinhança para a criança se movimentar livremente ou a falta de segurança dos espaços públicos são também dificuldades importantes que os pais podem encontrar para que a criança tenha uma vida ativa.

Sugestões para combater este inimigo: Mais uma vez o truque é ser criativo! Em casa, a solução é procurar espaços onde possa, por exemplo, afastar uma mesa de apoio por alguns minutos ou até por alguns dias. Jogar jogos tradicionais que não exijam espaços muito alargados, como o “Macaquinho do Chinês”, pode ser uma solução para conseguirem brincar ao ar livre. Por fim, reservar um tempo nos fins-de-semana para um passeio mais longo em família também é uma boa medida. Assim, podem encontrar lugares agradáveis e seguros para juntos fazerem atividades que envolvam movimento.

Tempo passado em espaços ou equipamentos que limitam os movimentos: Atualmente existe uma grande disponibilidade de equipamentos atraentes para transportar ou alimentar a criança ou apenas mantê-la entretida e em segurança. Os parques, carrinhos de passeio, cadeiras de comer ou espreguiçadeiras são alguns exemplos desse tipo de equipamentos. São um bom aliado dos pais porque garantem a segurança da criança mesmo quando os pais não têm a possibilidade de estar junto dela todo o tempo. Mas podem transformar-se num inimigo quando utilizados por longos períodos ou várias vezes durante o dia.

Sugestões para combater este inimigo: O truque é garantir que a criança não passa muito tempo seguido com os seus movimentos limitados. Procure alternar o tempo que a sua criança passa nesses equipamentos com o tempo que passa com os movimentos livres. Pode colocá-la sobre uma manta ou, simplesmente, deixá-la no chão a gatinhar, caminhar, brincar, enfim, a explorar o mundo a sua volta. Sempre debaixo dos seus olhos e em segurança, é claro!

Não se esqueça: as crianças são naturalmente ativas. Mas para usarem essa tendência natural têm de ter oportunidades e têm de aprender que é divertido. Reserve tempo, espaço e divertimento diariamente para a atividade física da sua criança.

Para mais informações consulte www.papabem.pt

“Nas escolas, a partir das 16:00, devia ser tempo para a criança. As AEC são uma praga”

Dezembro 12, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Vídeos | Deixe um comentário
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Notícia da TVI de 7 de dezembro de 2019.

A TVI alia-se à Missão Continente num apelo à solidariedade dos portugueses, que vai financiar projetos de prevenção da obesidade infantil. O professor Carlos Neto, investigador da Faculdade de Motricidade Humana, alerta que as crianças estão cada vez menos ativas, o que prejudica o desenvolvimento físico e mental.

Visualizar a notícia no link:

https://tvi24.iol.pt/videos/nas-escolas-a-partir-das-1600-devia-ser-tempo-para-a-crianca-as-aec-sao-uma-praga/5dec01a30cf2a6f042bdd8e2?fbclid=IwAR149y2nlqO1-S6Aj_9aJds4TDqjZYIklQ2MIAtyQjlnQiWND7eC_eZAiSE

Mais de 80% dos estudantes adolescentes não praticam atividades físicas suficientes, diz OMS

Novembro 30, 2019 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Banco Mundial/Charlotte Kesl
Estudo nota que se tendências apresentadas continuarem, a meta global de uma redução relativa de 15% na atividade física insuficiente até 2030, não será alcançada.

Notícia da ONU News de 21 de novembro de 2019.

Estudo da Organização Mundial da Saúde, OMS, recomenda pelo menos uma hora de exercícios físicos por dia; especialistas afirmam que tempo gasto com aparelhos eletrônicos como celular e computadores influencia no sedentarismo.

A Organização Mundial da Saúde realizou o primeiro estudo sobre a falta de atividades físicas entre adolescentes. O levantamento analisou a situação de crianças e adolescentes entre 11 a 17 anos.

A pesquisa publicada neste 21 de novembro conclui que mais de 80% dos adolescentes, que frequentam escolas em todo o mundo, não cumpriram as recomendações atuais de pelo menos uma hora de atividade física por dia.

Alerta

Os autores do estudo afirmam que os níveis de atividade física insuficiente em adolescentes continuam extremamente altos, comprometendo sua saúde atual e futura. Em conversa com a ONU News, de Moscou, o diretor do Escritório Europeu da OMS de Prevenção e Tratamento de Doenças Crônicas Não Transmissíveis disse que o fato de o problema afetar quatro em cada cinco adolescentes é “bastante assustador”.

João Rodrigues alerta que a falta de atividades físicas entre as crianças e os jovens geram problemas tanto físicos como mentais.

“A atividade física é muito importante porque realmente promove a saúde mental. Existem estudos que dizem que adolescentes que são mais ativos têm melhores resultados escolares, mas também têm, níveis de relação social e saúde mental naturalmente melhores. No fundo, a atividade física protege e promove a saúde mental. A atividade física também serve para lidar com e a prevenir o excesso de peso e obesidade. Os adolescentes e as crianças que são mais ativos têm menos risco de ter obviamente excesso de peso e obesidade.”

Rodrigues acrescentou que além da obesidade, atividades físicas também evitam problemas cardiovasculares, câncer e outros, e que é essencial que crianças e jovens pratiquem atividades físicas pelo menos uma hora por dia, para serem considerados ativos.

Gênero

Os resultados apresentados pela pesquisa são piores para meninas do que meninos, com 85% e 78%, respectivamente. O estudo, que é baseado em dados relatados por 1,6 milhão de estudantes da faixa etária, registrou essa tendência de diferença entre os gêneros em todos os 146 países analisados entre 2001 e 2016, exceto em Tonga, Samoa, Afeganistão e Zâmbia.

A maioria dos países, 107 de 146, viu essa diferença de gênero aumentar entre 2001 e 2016.

Em 2016, as Filipinas foram o país com maior prevalência de falta de atividade entre meninos, com 93%, enquanto a Coréia do Sul apresentou níveis mais altos entre meninas, com 97%, e ambos os sexos combinados, 94%. Bangladesh registrou a menor prevalência de atividade física entre meninos e meninas com 63% e 69%.

Lusófonos

O Brasil é um dos citados. No país, em 2001, a prevalência de falta de atividades físicas dos adolescentes era de 84,6%. E em 2016, o índice teve um pequeno progresso passando para 83,6%.

Em Moçambique, no mesmo período, os resultados desceram de 84,6% para 83,6% e no Timor-Leste, o índice subiu pouco: de 89% para 89,4%.

Sociabilização

O estudo também indica que existem sinais de que a atividade física tem um impacto positivo no desenvolvimento cognitivo e na sociabilização. Fora isso, muitos desses benefícios continuam na idade adulta.

Rodrigues enfatiza que é essencial que crianças e jovens, desde muito cedo, se envolvam em atividades esportivas e de caráter recreativo, como caminhadas e ciclismo. Ele também citou recomendações recentes da OMS de que crianças devem ter tempo limitado na frente das telas de aparelhos como computadores e telefones celulares.

“Nós sabemos que um dos elementos que podem contribuir aos níveis de sedentarismo são as horas que as crianças e os jovens passam em frente às telas e aos computadores. É muito importante reduzir ou limitar, não cortar, naturalmente, é importante que as crianças e jovens possam usar os benefícios da internet etc, dentro de determinados limites. Mas é importante reduzir o tempo porque os dados indicam que é muito visível que as crianças e jovens passam mais tempo do que o aceitável por dia nessas atividades sedentárias.”

Redução

A pesquisa nota que se as tendências apresentadas continuarem, a meta global de uma redução relativa de 15% na atividade física insuficiente, o que levaria a uma prevalência global de menos de 70% até 2030, não será alcançada. Esta meta foi acordada por todos os países na Assembleia Mundial da Saúde no ano passado.

Rodrigues diz que para mudar essas tendências, é importante trabalhar com um conjunto de fatores, onde a participação dos pais é essencial.

“O mais importante é que os pais também sejam ativos fisicamente. Crianças e jovens de pais ativos, seguramente, serão mais ativos também. Então, a primeira coisa é o exemplo, outra é não deixar as crianças ficarem tanto tempo nessas atividades sedentárias e realmente impor um limite diário de número de horas que podem fazer essas atividades, como o uso dos seus smartphones, e de computadores. Ao mesmo tempo, também, colaborar com a escola. Porque a escola é realmente um dos ambientes mais importantes para promover a atividade física. Envolvendo os pais com a escola, de uma forma interativa e compreensiva, é muito importante, porque naturalmente os pais sozinhos não podem fazer tudo.”

Outras recomendações do estudo incluem a promoção pelos líderes nacionais, regionais e locais da importância da atividade física para a saúde e o bem-estar de todas as pessoas, incluindo adolescentes.

Recomendações:

  • Ampliar, urgentemente, políticas e programas eficazes conhecidos para aumentar a atividade física em adolescentes;
  •  Promover ações multisetoriais para oferecer oportunidades aos jovens de serem ativos, envolvendo educação, planejamento urbano, segurança viária e outros.

 

Mais informações na notícia da World Health Organization:

New WHO-led study says majority of adolescents worldwide are not sufficiently physically active, putting their current and future health at risk

Artigo da The Lancet Child & Adolescent Health:

Global trends in insufficient physical activity among adolescents: a pooled analysis of 298 population-based surveys with 1·6 million participants

“A brincar também se educa”. Um guia para envolver os pais e afastar as crianças dos ecrãs

Setembro 10, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do Observador de 15 de agosto de 2019.

Ana Cristina Marques

90% das crianças entre 5 e 14 anos já têm telemóvel e preferem o smartphone aos jogos tradicionais. Os pais têm cada vez menos tempo. Mas os especialistas alertam: brincar sem ecrãs é fundamental.

Uma amostra de 1.200 crianças portuguesas, dos 5 aos 14 anos, concluiu que 90% tinha um telemóvel ou um Ipad próprio ou, então, partilhado com os irmãos. “São os dispositivos que os pais já não querem e que ficam para os filhos. Fiquei surpresa, os professores também não sabiam”, relata Ivone Patrão ao Observador, investigadora, psicóloga e terapeuta familiar do ISPA – Instituto Universitário. O estudo por ela coorientado teve por base alunos de escolas públicas e privadas e serviu para criar o jogo Missão 2050, lançado em junho último, que visa a promoção do uso saudável de tecnologia. “Enquanto investigadora foi uma surpresa”, insiste. “Tinha ideia que isto começava aos 10 anos, com a entrada para o 5.º ano. Mas não. E eles comunicam uns com os outros depois da escola, à noite.”

Enquanto se rendem aos ecrãs — assumam eles a forma de smartphones ou de tablets –, as crianças estão a tirar tempo aos estudos e à própria brincadeira. Ivone Patrão fala “na normalização de comportamentos”, isto é, de um comportamento online que substitui o ir brincar para a rua ou o jogar ao UNO, por exemplo. Não quer isto dizer que estas crianças sejam dependentes do uso do ecrã — isso é outra conversa — mas pode realmente existir um comportamento considerado excessivo.

Vários artigos que alertam para o facto de haver pais que usam os telemóveis e os tablets como babysitters: segundo o estudo “Happy Kids: Aplicações Seguras e Benéficas para Crianças”, do Católica Research Centre for Psychological, Family and Social Wellbeing (CRC-W), da Universidade Católica Portuguesa, as crianças que mais usam aplicações têm até 2 anos e são os pais os primeiros a dar aos filhos o acesso a dispositivos eletrónicos, além de 90% das casas portuguesas ter ligação à internet, “smartphones, computadores portáteis ou tablets”.

O debate em torno dos ecrãs é tanto que o insólito já aconteceu: nos EUA há famílias que contratam coaches para as ajudar a educar crianças longe dos ecrãs, porque é difícil recordar um tempo em que tal não existia. Também nos Estados Unidos, como já antes explicou o Observador, são cada vez mais os pais que atrasam de propósito a idade a que os filhos recebem smartphones para as mãos, existindo até movimentos organizados nesse sentido — por exemplo o “Wait Until 8th” (Espera até ao 8º).

O papel dos pais nas brincadeiras dos filhos

Brincar é essencial para o desenvolvimento dos mais novos, seja a nível sócio-emocional, psicomotor ou cognitivo. O ato de brincar deve seguir três etapas evolutivas: as atividades que geram ação (quando um bebé atira um brinquedo ao chão está a ter uma primeira noção da lei da gravidade), as simbólicas (pegar numa vassoura e transformá-la num cavalo é um exercício de imaginação) e as que exigem regras (os jogos de computador e os de tabuleiro ajudam a perceber que a vida se rege por um conjunto de normas).

A brincadeira funciona como uma espécie de tubo de ensaio para a vida real. Permite explorar, conhecer, aprender e percecionar o mundo, perceber como este funciona. Brincar faz parte da vida de uma criança e é tão importante que a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda três horas diárias de atividade física, leia-se jogos e brincadeiras, a partir do primeiro ano. O gesto tão naturalmente associado à infância parece estar, por estes dias, em vias de extinção. Tanto que há sensivelmente um ano a Sociedade Norte-americana de Pediatria recomendava que os pediatras receitassem mais tempo para brincar. A escassez está, muito provavelmente, associada ao atual estilo de vida marcado por agendas cheias e acesso facilitado aos ecrãs, o que veio alterar a forma como as crianças olham o mundo à sua volta.

Para Inês Afonso Marques, psicóloga infantil e autora do livro “A brincar também se educa” (editora Manuscrito), quando os pais dão tempo aos filhos para brincar estão a educá-los, a ajudá-los a fazer escolhas e a usar a criatividade, entre outras vantagens. Mas o uso que fazemos da tecnologia pode estar a impedir as crianças de brincar, diz. E os pais são o modelo dessa realidade. Ao Observador, a psicóloga explica que brincar implica envolvimento e atividade, enquanto a tecnologia é passiva. “As crianças gostam de se sujar, de sentir, de envolver os cinco sentidos naquilo que estão a fazer. Tudo aquilo que possa suscitar a descoberta, tudo isso estimula uma criança.”

Foi Sílvia e o marido que aproximaram a tecnologia do filho de três anos para garantir aos pais momentos de descanso e para ajudar a criança nas refeições. Ao Observador, esta mãe admite que o filho sempre comeu mal, pelo que recorria ao ecrã para o distrair. “Talvez isto tenha sido um pouco mau porque ele hoje não come bem. Antes fazia as refeições sem saber o que estava a comer, hoje não tem uma relação boa com a comida.” Atualmente, o filho vê alguma televisão em casa — sempre sintonizada em canais infantis — e Sílvia congratula-se pelo facto de ele não ter ficado muito adepto dos ecrãs. “Sinto-me aliviada porque ele não os procura, não ficou dependente. Entretém-se sozinho, encarna personagens com acessórios.”

A psicóloga e investigadora Ivone Patrão é perentória quando argumenta que as crianças não deveriam ter ecrãs nas horas das refeições e no tempo de brincar porque “têm de estar concentradas no que estão a fazer, seja comer ou brincar”. O ecrã, continua, deve ser encarado como um complemento à brincadeira, mas não o pode substituir. “O ecrã é muito assumido como algo que os vai tranquilizar, mas é preciso fazer um uso adaptado, caso a caso, dependendo das necessidades da família. Acho que os pais devem perguntar-se porque usam a tecnologia. Muitas vezes dá-se a ferramenta, mas não o manual de instruções.”

Segundo a Sociedade Norte-americana de Pediatria, até aos 2 anos o uso de smartphones e de tablets não é recomendável, sendo que a introdução deve ser feita de forma gradual e com a supervisão dos adultos. Inês Afonso Marques insiste nesta tónica: é importante controlar o que é transmitido à criança, bem como limitar ao máximo todo o tipo de monitores. “Há crianças [em consultório] que verbalizam ‘Preciso do telefone porque não tenho nada com que me entreter’. Isso revela uma dependência associada à incapacidade de a criança encontrar outros estímulos.”

“Não gosto de culpar a tecnologia… Na minha infância tive consolas. Muitas vezes, no consultório, pergunto aos miúdos as brincadeiras preferidas e a maior parte responde o telemóvel, o tablet, o computador e a consola. Por outro lado, sinto que eles têm sede de brincadeiras, têm vontade de usar os jogos que estão nas prateleiras do consultório, jogos banais, mas o mais imediato é a tecnologia muito por observação e pelo modelo que têm à sua volta”, continua Inês Afonso Marques, que ressalva que cabe aos adultos quebrar o ciclo e encontrar ou reencontrar outras formas de brincar. A isso acrescenta-se a “falsa questão” da falta de tempo, até porque a psicóloga ouve em consultório como as crianças se queixam de que os pais não têm tempo para brincar e como os pais argumentam que já não sabem brincar. “Não é necessário muito tempo, desde que este seja de qualidade”, diz, aconselhando os adultos a seguir os interesses da criança e a seguir o ritmo desta.

O uso pouco saudável das tecnologias pode, entre outras coisas, impactar a criança do ponto de vista motor, no sentido em que pode prejudicar a sua destreza. Também por isso a OMS alertou recentemente para a necessidade de as crianças com menos de cinco anos terem de passar menos tempo sentadas diante dos ecrãs para passarem, ao invés, mais tempo a brincar de maneira a crescerem de forma saudável. Entre as recomendações da Organização Mundial de Saúde está, por exemplo, o facto de os bebés com menos de um ano de idade terem de ser “fisicamente ativos várias vezes ao dia e de formas diversas” e não ficarem “contidos” mais de uma hora de cada vez em cadeiras ou carrinhos. “Tempo de ecrã não é recomendável”, acrescenta a OMS.

Sobre isso, Carlos Neto, professor e investigador da Faculdade de Motricidade Humana (FMH), disse em 2015 ao Observador que o ecrã “alterou muito significativamente a vida das crianças e dos pais”. “Passou-se da trotinete ao tablet de uma forma rapidíssima e não há equilíbrio. E o que está em causa neste momento é que nem a atividade desportiva que as crianças fazem em clubes, nem a educação física escolar, nem o desporto escolar — que são muito importantes — são suficientes para acabar com o sedentarismo que existe.”

Aos 44 anos e com duas filhas, de 7 e 8 anos, Sofia não diaboliza a tecnologia, mas faz questão de impor regras que, espera, um dia, as miúdas levem consigo para a complicada fase da adolescência. O ecrã mais utilizado lá em casa é a televisão, sobretudo para ver desenhos animados e filmes familiares como a saga “Harry Potter”. “A regra, embora não seja sempre cumprida, é dois desenhos animados quando chegam da escola, o que dá no máximo uma hora de televisão”, conta ao Observador. Limitar o tempo de acesso à televisão deriva da preocupação de Sofia, que considera que os estímulos emitidos por este ecrã são muito rápidos para os cérebros das crianças. “Se passar o tempo, a mais nova, por ter alguns problemas, fica perturbada, começa a rodopiar em loop, sem parar, a mexer freneticamente as pernas, até o discurso dela fica mais confuso.”

Outra regra imposta por Sofia passa pelo uso de smartphones: o uso exclusivo dos telefones dos pais (elas não têm gadget próprio) serve para jogar jogos escolhidos a dedo e testados pela mãe, preferencialmente que estimulem o raciocínio matemático, embora também haja momentos para “maquilhar e vestir princesas”. As filhas só podem jogar duas a três vezes por semana, cinco jogos à vez. “Quanto mais cedo elas tiverem noção de que os ecrãs têm de ser usados com inteligência, melhor. Eu não uso o telemóvel à frente delas, caso contrário nada disto faria sentido. Faço questão de dar o exemplo.”

Também o pedopsiquiatra Pedro Strecht considera que as tecnologias — em particular as aplicações — podem interferir no desenvolvimento das crianças, sobretudo em relação a algumas áreas cognitivas e de relação social. “Se um menino de 8 anos brinca no tablet ou se um de 12 anos joga na playstation, diria que isso é normal e não vejo mal nisso — só aconselho os pais a darem os jogos apropriados à idade dos filhos; mas se ele só brincar com o tablet ou com a playstation… Há crianças que crescem quase só com experiências de relação e de estímulo centradas no ecrã. Há pessoas que acham que tenho uma visão muito crítica em relação às tecnologias… As tecnologias têm coisas ótimas que podem facilitar ganhos de tempo, simplesmente acho que, nos dias de hoje, elas próprias se tornam tão opressivas no chamado tempo tecnológico que também bloqueiam a nossa vivência, o nosso tempo biológico e emocional”, já antes disse ao Observador.

O que mais preocupa a psicóloga Ivone Patrão é precisamente o estado das relações sociais. A socialização, diz, deve ser mista, tanto presencial como online. “O que me preocupa é se for só online. Se as crianças começam assim já não vão ter relações”, afirma, referindo-se ao impacto nas respetivas competências sociais. “Elas deixam de estar treinadas para a resposta em direto.”

Afinal, o que dizem os estudos?

Indepentemente da idade, Ivone Patrão refere que o ecrã tem, de facto, afetado pela negativa o ato de brincar. “Vejo que isso os deixa sentados, inertes, parados do ponto de vista físico. E há outra questão: o ecrã dá-lhes um input… o output vai ter de sair. Quando deixam de estar ao ecrã podem ficar mais irrequietos. A energia natural da infância tem de sair de outra forma. Isso tem impacto ao nível do comportamento e do ponto de vista cerebral. A luz do ecrã, por exemplo, pode provocar alterações no sono”, assegura.

O problema não é necessariamente o ecrã, mas o uso que se faz deste. Porque também nos smartphones ou nos tablets há vantagens: como a facilidade de acesso à informação, a capacidade de aprender novas línguas ou o facto de ser uma ferramenta útil na sala de aula. Nem de propósito, segundo um estudo do ano passado, publicado no jornal semanal The Lancet Child & Adolescent Health, limitar o tempo que as crianças passam a olhar para um ecrã melhora a sua capacidade de aprendizagem — o ideal seria passarem menos de duas horas por dia nessa condição.

Em 2017, a Sociedade Norte-americana de Pediatria apresentava um estudo — feito entre 2011 e 2017 com 894 crianças entre os seis meses e os dois anos — que mostrava que as crianças menores de dois anos que usavam ecrãs táteis corriam o risco de começar a falar mais tarde. Sobre isso, Catherine L’Ecuyer, doutorada em Educação e Psicologia e autora do bestseller “Educar na Curiosidade”, já antes disse ao Observador que “o tipo de interação que o tablet promove não é como a interação humana, que requer um processo ativo. Diante do ecrã, a criança anda a reboque de estímulos frequentes e intermitentes. Transforma-se numa espécie de porta USB ou numa impressora.”

As recomendações já antes citadas pela Organização Mundial de Saúde, tendo em conta o uso do ecrã por parte das crianças, não foram bem aceites por todos, já que o The Guardian cita especialistas que argumentam que, na sua base, há falta de provas. Juana Willumsen, uma das autores das referidas recomendações, diz que não há como negar que os ecrãs fazem parte da vida moderna, ao mesmo tempo que argumenta que o grupo de trabalho em questão não encontrou vantagens em introduzi-las a crianças com menos de três anos. “Capacidades sociais e cognitivas são mais bem desenvolvidas com outra pessoa do que com um ecrã. Cuidadores que brincam interativamente são absolutamente vitais para o desenvolvimento das crianças, em particular nos primeiros anos.”

Crianças praticam menos desporto por falta de tempo e dinheiro

Agosto 20, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 17 de julho de 2019.

Investigação avança que as raparigas são as mais privadas da actividade desportiva por entraves associados à segurança.

Lusa

A falta de tempo e de dinheiro são dois dos principais obstáculos à prática desportiva pelas crianças, revela um estudo do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde (CIAS), Faculdade de Ciências e Tecnologia, da Universidade de Coimbra (FCTUC).

A investigação avança que “a falta de tempo e de dinheiro são duas grandes barreiras para a prática de desporto em crianças com idades entre os 6e os 10 anos”.

Mas a segurança também é um dos entraves à pratica desportiva por parte das crianças, “especialmente das raparigas”, segundo a mesma investigação, intitulada “Parental perception of barriers to children’s participation in sports: biological, social, and geographic correlates of Portuguese children”, destaca um comunicado da FCTUC.

Publicado no Journal of Physical Activity and Health, o estudo pretende identificar “as barreiras percebidas pelos pais que podem contribuir para estratégias de promoção da actividade física em crianças, e perceber até que ponto o estatuto socioeconómico, o local de residência e o sexo, a idade e a participação desportiva das crianças afectam essas barreiras percebidas”, explicita a instituição.

Dos 834 pais inquiridos, residentes nos concelhos vizinhos de Coimbra e da Lousã, “quase metade referiu a falta de tempo e a falta de dinheiro como as principais barreiras para a prática desportiva das crianças”.

Saúde, transporte, segurança, instalações, clima, cansaço e falta de interesse das crianças foram outras barreiras apontadas pelos pais.

“Como esperado, de modo geral, os pais com menor poder socioeconómico indicaram mais barreiras, principalmente a nível do custo e do transporte para a prática dessas actividades”, refere Daniela Rodrigues, primeira autora do artigo. “Curioso foi que os pais de raparigas reportaram mais barreiras relacionadas com o custo e a segurança do que os pais de rapazes”, salienta, citada pela FCTUC.

Ainda de acordo com a investigadora do CIAS, o facto de os pais das raparigas indicarem o custo e a segurança como barreiras pode, “até certo ponto e aliado a outros factores já conhecidos, ajudar a explicar porque é que os rapazes praticam mais desporto do que as raparigas”.

Em relação ao local de residência – locais com maior ou menor nível de urbanização –, a diferença mais significativa que os investigadores encontraram está na falta de tempo: “Os pais dos meios mais urbanizados referem significativamente mais vezes a falta de tempo como barreira do que os pais de meios menos urbanizados”, afirma Daniela Rodrigues.

“Comummente, a maioria das famílias, particularmente das comunidades urbanas, tem pai e mãe em empregos de tempo integral, o que pode contribuir para a falta de tempo dos pais nesses ambientes”, admite.

Os resultados deste estudo “devem ser considerados no planeamento e nas intervenções futuras para promover efectivamente a actividade física em crianças”, recomendam os seus autores. “As barreiras mencionadas pelos pais podem ser superadas em alguns casos com o envolvimento de governos locais, decisores políticos e escolas, disponibilizando sessões de desporto locais para crianças imediatamente após a escola ou durante o dia escolar”, sugerem.

O artigo citado na notícia é o seguinte:

Parental Perception of Barriers to Children’s Participation in Sports: Biological, Social, and Geographic Correlates of Portuguese Children

Actividade Física na infância (até aos 5 anos)

Agosto 7, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Actividade física: o mais importante entre o menos importante – crianças

Julho 25, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Cíntia França publicado no Público de 12 de julho de 2019.

Cíntia França

Professora de Educação Física e doutoranda em Ciências do Desporto pela Universidade de Coimbra.

Depois de uma criança estar inserida numa prática desportiva organizada, por exemplo, individual ou colectiva, dificilmente conseguirá deixar de a integrar por opção própria. O movimento é a paixão mais forte e benéfica que existe.

O aumento dos tempos lectivos veio acompanhado de mais trabalhos de casa. Esta equação de soma é subtraída do tempo, resultando no tempo livre. Isto, provavelmente, pelo facto de o sucesso escolar ser, na prática, o principal ditador do destino de uma criança. Afinal, só poderemos ser o que quisermos ser se a média o permitir, independentemente das tantas outras coisas que definem um ser humano.

O sistema é vicioso e tira mais do que oferece. O programa curricular é mais extenso e, quando aliado ao número de alunos por professor, percebemos que dificilmente será possível “acompanhar a matéria”. Por essa razão (e não só) surgiram as explicações, aumentando novamente a necessidade de enfiar a cabeça entre os livros. Este é mais um factor que afecta o tempo.

Em suma, é o tempo que está em jogo e, se considerarmos a quantidade de tarefas atribuídas às nossas crianças e jovens, ficamos quase com a sensação de que iremos viver para sempre. Afinal, onde está o tempo para estar na escola, fazer os trabalhos de casa, talvez ir até à explicação, estudar e, quem sabe, fazer algo que não esteja relacionado com a escola, como praticar desporto ou outra qualquer actividade? É preciso tempo para se ser saudável e para se crescer.

Curiosamente, talvez seja esta limitação do tempo que torna a actividade extra tão preciosa. Depois de uma criança estar inserida numa prática desportiva organizada, por exemplo, individual ou colectiva, dificilmente conseguirá deixar de a integrar por opção própria. O movimento é a paixão mais forte e benéfica que existe.

Assim, sobra-nos apenas uma opção: gerir o tempo. E como o tempo é, normalmente, gerido através das prioridades que são individualmente estabelecidas, adoptemos a noção de que o desporto é a “coisa” mais importante entre as “coisas” menos importantes. Continuemos a catalogar o sucesso escolar como o principal objectivo, mas, em detrimento dos tempos mortos em tecnologias, priorizemos o desporto. As crianças ficarão obrigatoriamente presas aos computadores, quer numa fase mais avançada do seu percurso escolar quer num emprego futuro. Portanto, resta-nos evitar que se dispersem na tecnologia enquanto realmente essa opção está disponível.

O desporto é um meio privilegiado para o desenvolvimento da disciplina, do sentido de responsabilidade e de compromisso, do respeito pelo colega ou adversário, da capacidade de superação e, consequentemente, melhoria da auto-estima, do espírito de equipa, resultando, sumariamente, na promoção da felicidade. Se pensarmos no que consiste a vida, lembrar-nos-emos destes princípios. Queremos seres humanos bem-sucedidos e queremos igualmente bons seres humanos. Vamos dar-lhes a conhecer o desporto e a recompensa humana será, provavelmente, bem mais valiosa do que a média

“A nossa sociedade está amordaçada com pais que vivem o tempo a trabalhar”

Maio 28, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança, O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do i de 2 de maio de 2019.

Marta F. Reis

Carlos Neto, professor da Faculdade de Motricidade Humana, está preocupado com os hábitos de brincadeira das crianças portuguesas. Diz que são precisas medidas públicas que reforcem a autonomia dos mais novos e considera que “foi um crime ter-se posto um campo de futebol em cada escola do 1.º ciclo”.

Sem muita surpresa, mas com preocupação. Foi assim que Carlos Neto, professor da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa, viu os resultados do inquérito feito a 1466 famílias sobre o padrão de brincadeira das crianças portuguesas. O académico tem defendido a necessidade de aumentar a literacia física e motora dos mais novos. Perante os dados do estudo, insiste que esta é uma reflexão que está, em grande medida, por fazer no país. “É urgente dar mais mobilidade às crianças, viverem mais a cidade, terem mais autonomia e independência. Não o fazendo, estamos a criar condições para que haja mais obesidade, mais depressão, mais défice de atenção e hiperatividade. É uma questão crucial para a saúde mental e física da população no futuro”.

Neto foi um dos participantes na conferência onde, na última terça-feira, foram apresentados os resultados do relatório Portugal a brincar, que revela que os pais sentem que as crianças brincam pouco, a maioria do tempo lúdico está restrito ao espaço das escolas, é pouco o tempo para brincadeiras em casa e os jogos e atividades na rua passaram a ser algo residual. O estudo, uma iniciativa da Escola Superior de Educação de Coimbra e do Instituto de Apoio à Criança, passará a ser repetido a cada dois anos.

Para o investigador, um dos primeiros dados que chamam a atenção no relatório prende-se com a forma como os próprios pais valorizam os aspetos mais lúdicos da brincadeira e até de desenvolvimento afetivo e emocional, mas dão pouco relevo à componente física da brincadeira.

No estudo, o facto de a brincadeira “promover o desenvolvimento afetivo e emocional da criança” foi o benefício mais vezes elencado, tendo sido expresso por 31,3% dos inquiridos. Outros 19,6% salientaram que brincar “estimula a imaginação e criatividade da criança”, 16% que a brincadeira “desenvolve as competências cognitivas” e 15,8% que é um caminho para adquirir novos conhecimentos. Só 9,4% consideram que a criança “precisar de se divertir” é uma das mais–valias da brincadeira, sendo ainda menos (6%) os que destacam o papel no desenvolvimento físico e motor, na socialização (1,8%) ou no desenvolvimento de habilidades úteis na criança para a sua futura vida profissional (0,8%).

“Os pais dão sobretudo importância aos aspetos cognitivos e deixam para último os que estão relacionados com a atividade física”, diz Carlos Neto, que considera que este é um reflexo de uma cultura de “medo dos riscos, sobreproteção das crianças e desvalorização da literacia física” que importa contrariar.

O investigador sublinha que esta não é já uma preocupação apenas dos académicos. Na semana passada, a Organização Mundial da Saúde (OMS) emitiu novas orientações sobre atividade física e sono para crianças até aos cinco anos de idade. O painel de peritos respondeu ao apelo da comissão para a erradicação da obesidade infantil da OMS, que pedia orientações mais claras num momento em que estatísticas internacionais sugerem que 23% dos adultos e 80% dos adolescentes não são suficientemente ativos.

As orientações, que se dividem por várias faixas etárias (ver caixa), incluem, para as crianças entre os três e quatro anos, pelo menos três horas diárias de atividade física de qualquer intensidade, dos quais pelo menos 60 minutos de atividade moderada a vigorosa espalhados ao longo dia, a par de 10 a 13 horas de sono. Não devem estar “presas” (em carrinhos, por exemplo) mais de uma hora por dia ou permanecer sentadas por longos períodos. O tempo de ecrã “sedentário” deve ser no máximo de uma hora por dia. “Quanto menos, melhor”, lê-se no comunicado da OMS. “O que temos mesmo de fazer é trazer de volta o brincar às crianças”, disse Juana Willumsen. “É fazer a mudança do tempo de sedentarismo para o tempo de brincadeira e, ao mesmo tempo, proteger o sono”.

Na hora de apontar os entraves, Carlos Neto acredita que o inquérito reflete o principal: o tempo disponível foi o principal fator apontado pelos pais para a limitação das atividades lúdicas das crianças, que gostariam que fossem mais presentes no quotidiano. Durante a semana, o mais comum é conseguirem brincar com os filhos, no máximo, uma hora por dia. “A sociedade portuguesa está completamente amordaçada em pais que vivem o tempo a trabalhar e as crianças são vítimas disso, acabando por ficar sujeitas a atividades completamente padronizadas”.

Uma escola centrada no cérebro e não no corpo O inquérito conclui que é na escola que a maioria das crianças (53,8%) mais brincam, por ser também o local onde passam mais tempo. Para Carlos Neto, reconhecer esta tendência devia obrigar a repensar a organização do tempo escolar. “Hoje, o centro da escola é o cérebro, e não o corpo”, resume o investigador, que tem estado a trabalhar com algumas autarquias, entre elas Cascais, na requalificação dos espaços lúdicos dos recreios das escolas básicas, por exemplo para criar maior contacto com a natureza. O investigador refere as últimas conclusões sobre os recreios “futebolocêntricos” – um estudo que analisou a realidade na Áustria e um projeto de arquitetas espanholas que concluíram que os pátios organizados em campos de jogos empurraram as raparigas para atividades sedentárias na periferia – para alertar para a realidade nas escolas portuguesas. “Foi um crime, depois de 2004, ter-se posto um campo de futebol em cada escola do 1.o ciclo”, diz Carlos Neto, que considera que o impacto das iniciativas promovidas por autarquias na senda do Euro 2004 contribuirá para mudanças na qualidade dos recreios, que por cá estão ainda por estudar. “Discriminaram as crianças sem ter em conta as diferenças de género. No momento em que se instala um campo de futebol e de jogos está-se a pôr na escola um estereótipo adulto, com balizas e cestos que acabam por limitar as atividades livres das crianças. Discriminam-se as raparigas, as que jogam são ‘marias-rapazes’, os rapazes que não jogam não têm jeito. Há guerras intestinas pela vez de jogar”, diz o investigador. Substituir os campos de jogos de asfalto e relva sintética por espaços mais desafiantes, com estímulos naturais e diferentes atividades, será um desafio nos próximos anos, conclui.

Orientações da OMS

Até um ano de idade

  • Ter vários momentos de atividade física por dia, em particular em brincadeiras ativas no chão. Para as crianças que ainda não têm mobilidade, pelo menos 30 minutos de barriga para baixo espalhados ao longo do dia.
  • Não estar preso mais de uma hora por dia. O tempo de ecrã não é aconselhado.
  • Sono: 14h a 17h dos zero aos três meses, 12h a 16h dos quatro aos 11 meses, incluindo sestas.

1 a 2 anos

  • 180 minutos de vários tipos de atividade física ao longo do dia.
  • O tempo de ecrã não deve ultrapassar uma hora, mas só a partir dos dois anos.
  • Sono: 11 a 14 horas, incluindo sesta.

3 a 4 anos

  • 180 minutos de vários tipos de atividade física ao longo do dia, incluindo 60 minutos de atividade moderada a vigorosa. Sono: 10h a 13h.

 

 

 

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