Como educar contra a obesidade — à mesa e não só

Julho 31, 2020 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Público de 23 de maio de 2020.

Carla B. Ribeiro

A obesidade é um doença que atinge, estima-se, uma em cada três crianças portuguesas. “É imperativo começar a prevenir em vez de agir no fim da linha”, diz a investigadora em nutrição Rosário Monteiro. E deixa dicas.

A Organização Mundial da Saúde define a obesidade como uma doença, mas, para Rosário Monteiro, investigadora do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto e co-autora, com Maria João Martins, do livro recém-lançado Understanding Obesity: From its Causes to Impact on Life, é necessário ainda que os médicos a tratem como tal.

“A obesidade é muitas vezes olhada apenas como um risco acrescido para o surgimento de outras doenças”, explica. Porém, defende, ao tratar a obesidade como doença evita-se o surgimento e consequente tratamento a outras doenças de maior relevância, como a diabetes ou mesmo o cancro. Além de esta diferente abordagem, explica a investigadora, acabar por ser benéfica até ao nível socioeconómico.

No entanto, antes ainda de se chegar ao ponto de se ter de tratar a obesidade, há que evitar esse quadro. “É imperativo começar a prevenir em vez de agir no fim da linha.”

No livro, Rosário Monteiro e Maria João Martins dissertam sobre o comportamento do tecido adiposo, o seu grau de disfunção ou a Síndrome Metabólica. Mas sobretudo explicam as causas e apontam caminhos para fugir a um suposto quadro de obesidade como se se tratasse de um fado. Algo que começa ainda antes de se nascer: afinal, o excesso de peso na gravidez ou uma má alimentação da gestante pode influenciar o organismo do pequeno ser ainda em ambiente intra-uterino. Também a forma como se nasce é relevante: “Num parto vaginal, por exemplo, o recém-nascido é exposto aos lactobacilos”, bactérias que vão apoiar a maturação do intestino, cujo funcionamento vai influenciar o metabolismo.

No entanto, além deste factor, assim como da predisposição genética ou mesmo dos que são influenciados pela exposição a mais ou menos poluição, é no comportamento que se pode alterar um futuro quadro de obesidade, sendo de enorme importância os primeiros anos de vida.

Para que seja fomentado um comportamento correcto, porém, alerta a professora, há que sensibilizar os pais. A começar pela promoção do aleitamento materno, explica, que “reforça a presença de bactérias adequadas”, passando por uma introdução alimentar adequada — neste campo, Rosário Monteiro considera que bastará seguir os guiões dos pediatras, profissionais muito conscientes da dieta a seguir.

Amor à comida

A obesidade infantil registou, entre 2008 e 2019, um decréscimo em quase dez pontos percentuais, de 37,9% para 29,6%, segundo dados da COSI (Childhood Obesity Surveillance Initiative). No entanto, os números mantêm-se suficientemente graves para que o assunto permaneça em cima da mesa. E, no actual cenário de confinamento, é expectável que haja um aumento da obesidade infantil, com a redução da actividade física.

“É aconselhável reservar pelo menos uma hora por dia para a actividade física das crianças.” Essa maior mobilidade vai influenciar a forma como o organismo trata a comida ao longo de todo o processo digestivo, além de que, explica, vai contribuir para “regular o metabolismo basal”. Este depende de vários factores, como o género, mas “uma maior massa muscular vai desencadear um melhor metabolismo”.

Porém, os estados de ansiedade associados ao contexto de pandemia podem ter contribuído para um aumento de consumo de alimentos de conforto. O que pode não ser necessariamente mau: “Num caso de depressão, por exemplo, estes alimentos podem ter uma função reguladora.” Afinal, “a comum ideia de recompensa associada a alimentos com açúcares e gorduras” não é descabida, uma vez que “provocam o aumento de dopamina e serotonina”, os neurotransmissores que nos fazem sentir prazer, influenciando o humor, mas também ajudam a regulação do sono e do apetite. Logo, o impacte destes alimentos não é linear, defende Rosário Monteiro.

Certo é que, explica a investigadora, temos uma “relação muito afectuosa com certo tipo de alimentos”.

Também o tempo de sono acaba por se reflectir no metabolismo. E, neste ponto, a investigadora alerta para a necessidade de se “regular os ritmos biológicos”, a começar por “respeitar as horas que devemos dormir: entre sete e oito, no caso de um adulto; pelo menos dez para uma criança em idade escolar”. Afinal, há vários impedimentos para que este processo seja natural, a começar pelo facto de a “exposição à luz estar à distância de um clique”.

Cinco passos contra a obesidade

“A maior dificuldade surge ao fim do primeiro ano, quando a criança é integrada na alimentação familiar”, avalia a professora Rosário Monteiro. Afinal, de pouco serve dar vegetais quando os pais não os comem, deixando cinco dicas para que se consiga levar os miúdos (e toda a família) a cumprir um plano com a saúde em mente.

  1. Ler os rótulos” — a maioria dos consumidores não faz uma leitura exaustiva dos rótulos nas embalagens dos alimentos; ao fazê-lo ir-se-á saber que um alimento, mesmo que apresentado como saudável, “tem uma quantidade considerável de açúcares e de gorduras”
  2. Fugir aos processados” — é sempre melhor preparar as próprias refeições, “além de ficar mais barato”
  3. “Promover ingestão de fruta e de vegetais” — segundo a investigadora, o consumo destes dois ainda é muito deficiente
  4. “Oferecer um grande leque de sabores” — explica Rosário Monteiro que “temos uma apetência natural para o doce”; já o amargo, característico de alguns vegetais, requer mais tempo de habituação e precisa de ser experimentando mais de uma dezena de vezes até que o palato o aceite. Truque: “não desistir”
  5. “Ter hora das refeições” — criar uma rotina, com horários estipulados para as refeições, vai ajudar a regular o relógio biológico

Pós-Graduação em Atividade Física e Brincar na Infância

Julho 16, 2020 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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1ª fase até 21 de julho

Mais informações no link:

https://www.esec.pt/estudar/cursos/atividade-fisica-e-brincar-na-infancia?fbclid=IwAR35uAzZdB6-qglC0hyKfUQkQIuGRWmm48FmDz_Ws6ObMMsiQInQZUyahrs

Obesidade em idade pediátrica: prevenção é a palavra chave

Junho 14, 2020 às 2:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de Cláudia Cristóvão publicado no Sapolifestyle de 20 de maio de 2020.

A obesidade é a pandemia do século e para conter o seu avanço é preciso que todos tomemos consciência deste problema e que estejamos preparados para o enfrentar. Estima-se que em 2025, 20% das nossas crianças sofram de obesidade. Um artigo da médica pediatra Cláudia Cristóvão.

Não existe um grupo de risco, mas sim comportamentos de risco. Desta forma, o esforço para combatê-la não pode ser dirigido apenas aos obesos mas a todos aqueles que apresentam comportamentos de risco, que os colocam numa situação de fortes candidatos a ter excesso de peso e obesidade.

Vivemos numa sociedade em que todos somos potenciais portadores de comportamentos de alto risco: sedentarismo, consumo de alimentos industrializados, consumo de “fast-foods”, falta de horário para realizar 5-6 refeições diárias, uso abusivo de refrigerantes, salgadinhos, entre tantos outros. As nossas crianças já não brincam na rua como antigamente e ocupam os seus tempos livres com dispositivos eletrónicos como videojogos, tablets, televisões e telemóveis. Também o poder de compra das famílias contribui para o aumento deste problema.

Potenciais problemas de saúde

Quando falamos em excesso de peso e obesidade referimo-nos a excesso de gordura corporal e, consequentemente, de sérios riscos para a saúde futura das nossas crianças e adolescentes. Falamos das “doenças crónicas do adulto”, nomeadamente hipertensão arterial (HTA), diabetes, dislipidemias (colesterol elevado e gorduras elevadas no sangue), esteatose hepática não – alcoólica (“fígado gordo), entre outras. Estes riscos são tanto maiores quanto mais precoce for a instalação do excesso de gordura corporal.

Emergência de prevenir

É fundamental que a prevenção se inicie nos primeiros 1000 dias, ou seja, desde o período pré-natal (após conceção) até aos 2 anos de idade.

Os primeiros 1.000 dias de vida constituem um período de maior crescimento e maturação do organismo, em que existe maior suscetibilidade ao meio ambiente e, em particular, à nutrição. Os alimentos que ingerimos podem atuar sobre os nossos genes e influenciar a forma como se expressam. É nesta altura que ocorre a programação metabólica que irá influenciar toda a nossa vida futura.

Situações de carência, excesso ou desequilíbrio nutricional na grávida, lactente ou criança funcionam como agressores que induzem respostas adataptivas do organismo (programação metabólica) visando a sobrevivência, respostas essas que a médio/longo prazo poderão ser desadaptativas – resultando em doença ao longo da vida.

Exemplificando: um embrião/feto que na vida intra-uterina se encontra num ambiente em que existe privação de nutrientes/ energia, ou morre ou o seu organismo vai adaptar-se e sobreviver neste ambiente deficitário. O seu organismo vai sofrer uma série de alterações anatómicas, hormonais e fisiológicas que lhe garantem a sobrevivência no momento de restrição energética, na vida intra-uterina. Estas mesmas adaptações, no futuro acarretam um risco acrescido de doença crónica nomeadamente obesidade e doença cardiometabólica.

Sabemos que existe, uma forte estabilidade da obesidade pediátrica, particularmente na dependência de fatores comportamentais (quer individuais quer familiares), uma grande dificuldade em reverter a obesidade, e uma ocorrência cada vez mais precoce das suas comorbilidades, por isso importa prevenir precocemente.

A orientação para a prevenção e promoção de bons hábitos deve ser feita durante a fase pré-natal, primeira infância e nos ambientes em que a criança vai conviver no futuro.

O peso antes e durante a gestação

Uma mulher obesa ou uma mulher que, independentemente do seu peso antes de engravidar, teve um aumento de peso superior ao desejado, tem maior probabilidade de ter um recém-nascido grande para idade gestacional com risco de complicações imediatas (ao nascimento) e futuras nomeadamente obesidade, diabetes, doença cardiovascular e cancro.

Deste modo, é importante o controlo de peso da mulher antes de engravidar e durante a gestação devendo ser orientada para uma alimentação equilibrada e diversificada.

Influência do padrão de crescimento

O padrão de crescimento até aos 2 anos de idade influencia o índice de massa corporal (IMC) na idade adulta, a composição corporal, a função cerebral e cognitiva e o perfil cardiometabólico.

O crescimento linear (comprimento) está associado à estatura e melhor rendimento escolar na idade adulta.

O aumento de peso, por seu lado, está relacionado com maior IMC na idade adulta e a maior percentagem de gordura corporal com maior risco de obesidade, diabetes e pressão arterial elevada. O aumento de peso exagerado após os 2 anos de idade é um fator de risco mais forte para doença crónica do que o ganho nos 2 primeiros anos de vida.

Alertas

  • Os pais devem ser educados para reconhecer os sinais de fome e saciedade, sem forçar e exigir a ingestão total ou excessiva de alimentos. A criança tem a capacidade de autorregular a sua ingestão. Em caso de dúvidas não hesite em falar do tema com o pediatra. As unidades hospitalares têm circuitos e procedimento implementados para a segurança de todos os doentes e profissionais de saúde, pelo que ir a uma consulta de pediatria em tempos de COVID-19, é seguro e não deve ser adiado.
  • Deve promover-se o aleitamento materno nos primeiros 6 meses de vida e a diversificação alimentar deve ser corretamente implementada de acordo com as necessidades nutricionais e desenvolvimento da criança. Salienta-se a importância da boa qualidade do alimento, estimulando o consumo regular de fruta, legumes, verduras e estar atento ao tipo de gordura consumida.
  • Os pais devem levar estilos de vida saudáveis, alimentação saudável, exercício/atividade física. Restringir o uso de tecnologia para menos de 2 horas diárias. Sabemos que as crianças aprendem com o exemplo.
  • As escolas devem proporcionar a oferta de alimentos saudáveis nas cantinas escolares bem como contemplar actividade física mais frequente durante o período em que as crianças/ adolescentes estão na mesma.
  • As instituições competentes para o efeito deveriam oferecer espaços públicos com áreas de lazer e desporto nas zonas residenciais.

Só com esforço conjunto de profissionais de saúde, família, escolas e comunidade poderemos conseguir prevenir esta terrível doença que é a obesidade e que vai marcando de forma silenciosa o nosso organismo e quando dá sinal poderá ser mais difícil de reverter.

Um artigo da médica Cláudia Cristóvão, pediatra no Centro da Criança e do Adolescente do Hospital CUF Descobertas.

Adolescentes portugueses são mais sedentários do que os europeus, gostam menos da escola mas estão felizes com a família

Maio 27, 2020 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Expresso de 19 de maio de 2020.

CHRISTIANA MARTINS

Um estudo em 45 países com crianças de 11, 13 e 15 anos revelou que os adolescentes portugueses continuam sedentários e felizes com as famílias que têm. Se fosse feita agora, a investigação poderia ter resultados surpreendentes e a próxima vaga deverá incluir os efeitos da pandemia, que “parece ter melhorado a dinâmica da relação dos adolescentes com as escolas”. Mas, para já, de acordo com a última edição da investigação, antes o mundo ter parado, pioraram as queixas de tristeza, dificuldade em adormecer e irritação

Uma investigação internacional que analisa os comportamentos e a saúde dos adolescentes nos seus vários espaços de experiência, com amostras representativas de alunos de 11, 13 e 15 anos, faz o retrato possível dos jovens europeus. A última edição do Health Behaviour in School-aged Children (HBSC/OMS) ouviu um total de 227 441 adolescentes, dos quais 5839 jovens portugueses, a maioria (52,5%) do género feminino, e concluiu que continuam a ser mais sedentários do que os europeus, gostam menos da escola e sentem-se excessivamente pressionados pelos trabalhos escolares.

Há más notícias que se repetem ao longo das várias edições do estudo, como a “fraca a prática da atividade física, fraca em si (poucos adolescentes cumprem o recomendado), e fraca em comparação à média europeia”. O comunicado é muito claro: “Os resultados são maus desde 1998, a pedir ação urgente na escola, na comunidade e na família.” Também é “fraco o gosto pela escola, fraco em si e fraco na comparação com os restantes países”: só 9,5% dos alunos responderam que gostam muito da instituição. Em 45 países avaliados, isso corresponde em 38.º lugar.

Para além disso, “é elevada a pressão com os trabalhos da escola, sobretudo nos mais velhos e nas raparigas, que também põe Portugal nos piores lugares, desde 1998”.

AS BOAS NOTÍCIAS

Como nem tudo é negativo, há também boas notícias, como o comportamento alimentar que continua em geral a ser melhor que a média europeia, tendo melhorado, inclusive, a nível nacional. Os investigadores aproveitam para, no comunicado, pedir que se aproveite a tendência – “Urge associar a alimentação na escola a uma alimentação com apresentação e sabor aceitáveis”. Porque, segundo os adolescentes ouvidos pelo estudo, “a qualidade está garantida, mas não a apresentação e o sabor”. A investigação revela ainda que o consumo de canábis diminuiu, sendo atualmente menor que a média europeia.

O estudo demonstra que 80,3% dos alunos sente-se “sempre ou quase sempre seguros na escola”. Os acidentes e lesões são menos frequentes que a média europeia nas raparigas mais novas, situação que se inverte nos rapazes: são mais frequentes que a média europeia nos rapazes mais novos. Quer os rapazes quer as raparigas mais velhos têm mais acidentes em Portugal do que a média da UE. Os coordenadores do estudo sublinham que “isto sugere um padrão de desenvolvimento diferente nos acidentes e lesões em rapazes e raparigas em Portugal em comparação com os outros países, a merecer atenção”. Afirmam ainda que as lesões e os acidentes têm vindo a aumentar sobretudo nas raparigas no escalão etário intermédio (13 anos) e nos rapazes mais novos.

ciberbullying é inferior em Portugal à média europeia, com tendência a subir dos 11 para os 13 anos e descer dos 13 para os 15 anos. As lutas diminuíram nos mais velhos e nas raparigas, sendo menos frequentes face à média europeia, mas aumentaram nos mais novos, sendo nesta idade mais frequentes do que na média europeia.

Regista-se um elevado uso de comunicação online, sobretudo nas raparigas mais velhas, e o consumo de álcool apresenta uma tendência de subida, mas a embriaguez está a descer. Os adolescentes portugueses referem sentir um apoio social por parte dos colegas da escola superior à média europeia, principalmente os rapazes, e um apoio social menor por parte dos professores, sobretudo as raparigas. Com os rapazes a parecerem duplamente beneficiados e em comparação com a Europa: sentem maior apoio social dos colegas e dos professores. Também dizem sentir um maior suporte da família e dos amigos, ultrapassando a média europeia.

Piorou a percepção de boa saúde nos adolescentes de 11 anos em Portugal, comportamento distinto da média dos outros países. Mas a satisfação com a vida subiu desde 2014 e mantém-se de acordo com a média europeia. Apresentar dois ou mais sintomas físicos ou psicológicos é mais frequente em 2018 do que era em 2014, mas permanece inferior à média europeia. Em 2018 de um modo geral, são mais frequentes as dificuldades em adormecer, tristeza, nervosismo, irritação e dores de costas, mas mesmo assim inferiores à média europeia.

Jovens pós-covid

E se a pesquisa tivesse ouvido os adolescentes depois do confinamento causado pela pandemia de covid-19? Segundo Tânia Gaspar, psicóloga e uma das investigadoras que participou no estudo, “embora não se possa ainda tirar conclusões, a pandemia parece ter melhorado a dinâmica da relação dos adolescentes com as escolas”. “Estão mais responsáveis e mais próximos dos professores, que tiveram de reinventar métodos de trabalho e aproximar-se de realidades que eram já familiares aos jovens, como as tecnologias”, explica.

A conquista de uma maior autonomia é a principal consequência, segundo Tânia Gaspar. “Esta é uma oportunidade que não deve ser desperdiçada. Eu gostava que a escola se adaptasse à realidade dos jovens, que se sentiram mais responsabilizados, o que aconteceu porque lhes deram este espaço”, sublinha a psicóloga. De tal forma a experiência foi internacional e marcantes que a investigadora antecipa uma inclusão de questões relacionadas à pandemia na próxima vaga do estudo, à semelhança do que aconteceu após a crise económico-financeira de 2008.

Quanto ao medo que sondagens recentes revelaram estar a ser sentido pelos jovens portugueses, Tânia Gaspar refere que eles dizem ser um medo de perder os familiares, mais do que se exporem os próprios adolescentes à doença. “Revela uma grande valorização da família, também porque assistiram ao medo sentido pelos pais e pelos avós e às imagens que chegaram de Itália e da Espanha. Tem sido tudo muito rápido: primeiro o não se pode sair, agora o se deve sair. É preciso dar tempo à adaptação”, conclui a investigadora. Mas fica um recado: “O comportamento dos jovens tem sido fascinante e revelado grande sentido de responsabilidade. Esta é uma oportunidade para os adultos confiarem mais nos jovens, respeitando-os e dando-lhes voz.”

O ESTUDO

Realizado em colaboração com a Organização Mundial da Saúde, o estudo conta com a participação de 45 países e tem vagas de investigação a cada quatro anos, que se iniciaram em 1983, com Portugal a participar desde 1998. Coordenado pela psicóloga Margarida Gaspar de Matos, o projeto incluiu em Portugal alunos do 6.º, 8.º, 10.º e 12.º anos e, “analisando o nível médio de riqueza das famílias portuguesas” dos quase seis mil inquiridos, o país encontra-se na 22ª posição entre os 45 participantes. Ou seja, a maioria dos pais estão empregados (94,6%), embora existam 1,5% dos pais e 3,5% das mães que não têm um emprego, e 0,4% de jovens têm ambos os pais desempregados. O nível de desemprego das mães (3,5%) é superior à média dos países incluídos (2,9%), mas a frequência de pais e mães empregados (94,6%) é, mesmo assim, inferior à média europeia (95,3%).

A maioria dos jovens disse ter origem portuguesa (74,8%) e 19,5% referiram que “pelo menos um dos pais” nasceu fora de Portugal. Relativamente à estrutura familiar, 69,8% viviam com os pais na mesma casa e, dos que não residiam com ambos os pais, 17,8% faziam parte numa família monoparental e 12,4% disseram ter outro tipo de estruturas familiares.

Mais informações no link:

http://www.euro.who.int/en/media-centre/sections/press-releases/2020/who-report-on-health-behaviours-of-1115-year-olds-in-europe-reveals-more-adolescents-are-reporting-mental-health-concerns

Mais adolescentes europeus têm problemas de saúde mental

Maio 26, 2020 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da ONU News de 19 de maio de 2020.

Novo relatório mostra que um em cada quatro adolescentes sente-se nervoso, irritado ou com dificuldades em dormir pelo menos uma vez por semana; tecnologia pode ter benefícios, mas também aumentar vulnerabilidades; consumo de álcool e tabaco continua caindo, mas permanece alto.

O bem-estar mental de adolescentes entre os 11 e os 15 anos caiu entre 2014 e 2018 em 45 países da Europa e Canadá. A conclusão é de um novo relatório publicado esta terça-feira pelo Escritório Regional da Organização Mundial da Saúde, OMS.

A situação piora à medida que as crianças crescem, com as meninas em maior risco. Um em cada quatro adolescentes disse sentir-se nervoso, irritado ou com dificuldades em dormir pelo menos uma vez por semana.

Preocupação

 O diretor regional da OMS para a Europa, Hans Henri P. Kluge, afirmou que o crescimento “é uma preocupação para todos.” Segundo o especialista, a resposta dos governos “terá efeitos por várias gerações.”

Kluge diz “que investir nos jovens, garantindo que tenham acesso a serviços de saúde mental, trará ganhos de saúde, sociais e econômicos aos adolescentes de hoje, aos adultos de amanhã e às gerações futuras.”

Diferenças

Existe uma variação substancial entre países, mostrando que fatores culturais, políticos e econômicos podem ter um papel.

Em cerca de um terço dos países, aumentou o número de adolescentes que se sentem pressionados pelos trabalhos escolares. O número de jovens que gostam da escola caiu. Na maioria dos países, a experiência escolar piora com a idade. O apoio de professores e colegas também diminui à medida que a pressão escolar aumenta.

O estudo examina a relação com o aumento do uso da tecnologia. A tecnologia pode ter benefícios, mas também aumentar vulnerabilidades e ameaças, como assédio na internet, que afeta meninas de forma desproporcional. Mais de 10% dos adolescentes foram vítimas deste tipo de assédio pelo menos uma vez nos últimos dois meses.

Desafios

A pesquisa destaca comportamentos de risco, nutrição e falta de atividade física como desafios centrais
O comportamento sexual arriscado continua sendo uma preocupação, com um em cada quatro adolescentes que são ativos sexualmente não usando proteção. Aos 15 anos, 24% dos meninos e 14% das meninas dizem já ter tido relações sexuais.

Atividades como beber e fumar continuaram a cair, mas o número de usuários permanece alto, sendo o álcool a substância mais usada. Cerca de 20% dos jovens de 15 anos já se embebedaram duas vezes ou mais na vida. Além disso, 15% se embriagou nos últimos 30 dias.

Em relação à atividade física, menos de 20% dos adolescentes cumpre as recomendações da OMS. Desde 2014, os níveis caíram em cerca de um terço dos países, principalmente entre os meninos. Entre meninas e adolescentes mais velhos, a pesquisa diz que os níveis de atividade “continuam particularmente baixos.”

Alimentação e pandemia 

A alimentação também é uma preocupação, com a maioria dos jovens não cumprindo as recomendações nutricionais. Cerca de dois em cada três não comem alimentos ricos em nutrientes e um em cada seis consome bebidas açucaradas todos os dias.

Os níveis de sobrepeso e obesidade aumentaram desde 2014 e agora afetam um em cada cinco jovens. Cerca de 20% dos adolescentes se consideram muito gordos, principalmente as meninas.

Segundo o diretor do Programa de Saúde da Criança e do Adolescente da OMS Europa, Martin Weber, o relatório permitirá perceber quais as consequências da pandemia de covid-19. Weber diz que, no próximo estudo, “será possível medir até que ponto o fechamento prolongado da escola e o isolamento social afetaram as interações sociais dos jovens e o seu bem-estar físico e mental”.

O relatório compila extensos dados sobre saúde física, relações sociais e bem-estar mental de mais de 227 mil crianças em idade escolar de 11, 13 e 15 anos de 45 países.

Crianças e jovens. Uma “vacina real” contra o isolamento

Maio 14, 2020 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da RTP de 19 de abril de 2020.

Quando se é criança e jovem acredita-se que tudo é possível. Mas será esta energia suficiente para ultrapassar a barreira invisível do confinamento motivado pela pandemia? E serão eles, mais do que os adultos amadurecidos pelas vivências, a ensinar-nos como ultrapassar as dificuldades atuais?

por Nuno Patrício

Viver em comunhão e partilha é para crianças e jovens um estado natural. Num mundo cada vez mais sem fronteiras, criar laços de amizade onde a movimentação não se restringe já às fronteiras internas e onde as tecnologias aproximaram ideias e credos, as gerações mais novas adaptaram-se a viver em rotinas dinâmicas de movimentação e de fácil comunicação.

Um mundo que de um dia para outro mudou e pode mudar também a forma de como estas gerações se adaptam e relacionam com ele.

Carlos Céu e Silva, psicólogo clínico formado pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada e Mestre em Aconselhamento Dinâmico, afirma que é natural que crianças e jovens sintam o atual momento como adverso. Contudo este momento em particular pode também ser interpretado como uma excelente oportunidade para uma reaproximação de laços familiares, que a sociedade tanto tem tirado.

“Esta ansiedade que nós criamos”, diz Carlos Céu e silva, “é por vezes mais vinda dos adultos e da nossa perceção de limitação. As crianças obviamente também se sentem limitadas, mas se olharmos para a janela e para a rua, hoje em dia vemos os pais a fazerem aquilo que faziam há 30 anos, que é andar de bicicleta e a fazer uma série de coisas de um modo descontraído e quase que pedagógico ou lúdico”.

A idade como forma de maleabilidade

Os amigos e as brincadeiras parecem agora presos neste passado recente, ainda muito presente. Crianças e jovens vão ter de construir um novo molde.

Sendo as camadas novas “mais plásticas”, existe a tendência para uma maior facilidade na adaptação, muito embora quando esta situação passar se envolvam rapidamente na dinâmica social e destes tempos permaneça apenas uma vaga recordação de dificuldade.

Já os adolescentes, com uma mentalidade mais amadurecida, vão olhar o mundo de uma forma diferente, explica o psicólogo Carlos Céu e Silva.

“Este lado de confinamento tem um lado negativo muito grande que afeta a saúde mental, quer dos adultos, adolescentes ou crianças. (…) Há uma saturação independentemente de toda a criatividade que possam criar”, com a realização de novas tarefas e inovadoras, “ mas também na descoberta de novas facetas que não imaginavam ter”.

Toda uma redescoberta em que a música, a leitura e a informação pode voltar a ser parte de um quotidiano perdido, muitas vezes para as redes sociais, que continuam muito presentes nesta nova sociedade enclausurada.

Mens sana in corpore sano

Estar e ser ativo é questão fundamental para manter uma “mente sã em corpo são”, principalmente neste período.

Precisamente neste campo e preocupados com a falta de oportunidade e espaços para o movimento das crianças, um grupo de investigadores da Faculdade de Motricidade Humana (UL), da Escola Superior de Educação de Lisboa (IPL), e da Escola Superior de Desporto e Lazer (IPVC) levou a cabo um primeiro estudo, no qual analisou rotinas das famílias portuguesas durante as primeiras três semanas de confinamento devido ao surto da Covid-19, criando o projeto C-Ativo em casa.

O encerramento de escolas, bem como muitos dos espaços laborais as rotinas diárias da família e dos filhos, deram origem a taxas de sedentarismo na ordem dos 80 por cento.

De acordo com os dados recolhidos através de um inquérito online, respondido até agora por 1973 famílias e 2167 crianças, os investigadores conseguiram apurar que durante as semanas de entre 10 de março e 1 de abril, a situação de confinamento das famílias originou um decréscimo no tempo de atividade física dos seus filhos em 69,4 por cento dos casos.

Tempo este deslocado para outras atividades que resultam num aumento do tempo dedicado aos ecrãs (68,4 por cento) e um aumento nas atividades em família (82,8 por cento).

Neste estudo foi também avaliado o comportamento das crianças até aos 12 anos.

Fonte: Projeto C-Ativo em casa/DR

Considerando a percentagem de tempo acordado reportado para cada criança (excluindo as horas de sono), o tempo de ecrã lúdico (não contando aulas e trabalhos online), aumenta ao longo das faixas etárias, atingindo valores de 24 por cento na faixa etária dos 0-2 anos, 27 por cento, dos 3 aos 9 anos e 33 por cento, na faixa dos dez aos 12 anos.

A questão do sedentarismo também não foi esquecida, apontando este estudo para um aumento com a idade, atingindo os 62 por cento na faixa etária até aos dois anos; 72 por cento dos três aos cinco anos; 78 por cento dos seis aos nove anos e 84 por cento na faixa etária dos dez aos 12 anos.

Um confinamento que preocupa, mas que aproxima

Ainda no quadro deste estudo, apurou-se que 95,2 por cento das famílias afirmam estar preocupadas ou muito preocupadas com a situação de pandemia actual, sendo que 33,4 por cento consideram que está a ser difícil o isolamento com as crianças, embora 47,9 consideram precisamente o contrário.

Já no que diz respeito à actividade física das crianças, 69,4 por cento das famílias considera que estas têm feito menos ou muito menos exercícios que o habitual. Mas 82,8 por cento do universo estudado indica que tem feito mais ou muito mais atividades em família que o habitual.

E se a preocupação com o tempo de descanso das crianças é fundamental, 48,5 por cento não notam diferença no tempo de sono em relação ao habitual, manifestando 45,2 por cento que as crianças até têm dormido mais.

Apesar da diferença de género, não foram verificadas diferenças acentuadas entre sexos, tendo rapazes e raparigas valores muito semelhantes em praticamente todas as atividades à exceção das categorias de ecrã lúdico (rapazes vs raparigas) e jogo sem movimento (raparigas vs raparigas).

Dados observados em Portugal e ainda com um universo muito restrito, mas claramente exemplificativo das implicações deste isolamento social obrigatório.

No contexto geral este inquérito vem confirmar a tendência decrescente do tempo de atividade física ao longo da infância, mas as crianças que vivem em condições de confinamento obrigatório apresentam um grande tempo de sedentarismo, especialmente derivado da grande percentagem de tempo de jogo sem movimento (até aos cinco anos de idade) e do aumento do tempo de ecrã lúdico após essa idade.

Este estudo da Faculdade de Motricidade Humana (UL), da Escola Superior de Educação de Lisboa (IPL), e da Escola Superior de Desporto e Lazer (IPVC), está também a decorrer e a ser replicado em vários países (Grécia, Espanha, Reino Unido, Bélgica, EUA, Austrália, Nova Zelândia).

Mais perto de uns, mais longe de outros

Se pensarmos mais abertamente nas relações sociais criadas já neste período de confinamento, tendemos a crer que vai haver uma maior aproximação de nós para com os mais próximos. Mas se isso é verdade o contrário também pode acontecer e ser perigoso.

Os jovens podem, na sua ingenuidade ou malícia, aproveitarem-se destas fragilidades.

Para o psicólogo Carlos Céu e Silva, este isolamento, bem como distanciamento, pode ser desestruturante, “por mais consciência que tenhamos que isto é provisório, ou transitório, evidentemente afeta sempre o estado mental.”

Uma sociedade só existe se, no conjunto, todos nos comportarmos como seres saudáveis, sempre com uma boa rede social e rodeados de figuras sólidas que possam ser reproduzidas internamente.

De outra forma a anarquia tomará conta de nós, originando conflitos e desorganização no eu em que vivemos. E será o medo que vai travar a impulsividade dos jovens ou torná-los mais resistentes? Certo é que neste campo os mais velhos têm um papel fundamental na gestão da ansiedade.

É preciso compreender os medos da forma mais eficaz para ajudar as crianças a lidar com eles. E uma das formas mais simples a fazer nestas situações é tranquilizá-las, explicando o que se passa em seu redor e desmistificando cenários não entendíveis para a mente infantil.

Mas se os medos causam emoções desagradáveis e desconforto, também podem demonstrar um outro lado de aprendizagem, que se forma através da “nocão, dentro da sua dimensão etária, dos perigos que a vida tem”.

Os medos comuns na infância e na adolescência

Após o nascimento só estamos predispostos a ter medo das quedas e de certos ruídos, mas a partir do primeiro ano de vida, surgem outros medos:

1.º ano de vida: Separação, ruídos, quedas;
2.º ano: Animais, treino do bacio, banho;
3.º ano: Hora de deitar, medo do escuro monstros, fantasmas;
5.º ano: Divórcio dos pais, de se perderem;
7.º ano: Perda/morte dos pais, rejeição social;
9.º ano: Guerra, situações novas, adoção;
12.º anos: Ladrões, injecções.

Sinais que devem preocupar os adultos, sendo estes agentes tranquilizadores e explicadores das situações que as envolvem. E devem respeitar o medo que a criança sente, sem lhe dar, porém, uma importância desmedida.

Crianças devem ser protegidas, avisa ONU

Em tempo de crise são as crianças as mais vulneráveis às adversidades, quer económicas, quer emocionais. E neste sentido, já prevendo em todo o mundo consequências graves, o secretário-geral da ONU, António Guterres, apelou às famílias e aos dirigentes de todos os quadrantes para que as crianças sejam elementos de proteção que, apesar de não serem as principais vítimas da pandemia da Covid-19, sofrem também elas significativamente com as consequências.

Segundo um relatório divulgado na passada sexta-feira, a ONU estimativa que esta crise anule os progressos obtidos na baixa da mortalidade infantil, mas não só nesta área.

Com o encerramento das escolas em todo o mundo, as crianças poderão sofrer ainda com a fome, uma vez que cerca de 310 milhões de estudantes dependem dos estabelecimentos de ensino para se alimentarem no dia-a-dia, afirmou.

António Guterres lembra que 188 dos 193 Estados-membros da ONU impuseram o encerramento das escolas, o que afeta cerca de 1500 milhões de jovens

Para o secretário-geral das Nações Unidas, o confinamento e a recessão mundial “alimentam as tensões nas famílias” e as crianças “são, por sua vez, vítimas e testemunhas de violência doméstica e de abusos”.

Tecnologias: “o reverso da medalha”
Até agora, muitos são os estudos que apontam as novas tecnologias, entre os mais novos, como um potencial fator de distração face à rotina social. A facilidade de comunicação e utilização das redes sociais, bem como os jogos online com uma forte obrigatoriedade de permanência em linha, são fontes de afastamento de uma maior socialização presencial.

Se todos estes elementos eram já disruptivos, com a imposição de um ainda maior confinamento, tudo isto pode ser ampliado.

Todavia, também existem aspetos positivos nas novas tecnologias e são estas que nos capacitam para a continuidade de uma relativa “normalidade”, como por exemplo o ensino à distância.

Compreendendo muito do que se passa dentro da mente das crianças e dos jovens, Carlos Céu e Silva diz que este novo paradigma, entre o restringir e o facilitar o acesso aos jogos e tecnologias, tem de exigir, por parte dos adultos, um maior equilíbrio.

“A partir de agora vamos olhar para os jogos, para os vídeos e para estas coisas todas, de uma forma diferente. E vamos todos tentar compreender melhor este mundo (…) e se não tivéssemos acesso a esta tecnologia que temos hoje estaríamos a viver um período medieval”.

Se “estas ameaças apenas ajudam a evoluir mais na nossa condição humana”, refere o psicólogo, também podem despertar ações menos positivas como o caso de uma maior facilidade e risco de assédio sexual a menores, ou ao cyberbullying.

O psicólogo do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, habituado a lidar com os problemas dos mais novos, afirma que não é através do negativismo que se ultrapassa os problemas e que vão ser os mais novos que vão ensinar – e muito – os atuais adultos, na nova normalidade que virá depois desta crise.

“Eu acho que nos próximos anos não vai haver normalidade. Nós temos um registo interno de trauma que vai ficar com este vírus”, explica Carlos Céu e Silva. E vão ser os mais velhos a salvaguardar-se mais isolando-se.

Já o contrário será feito pelos mais novos, com uma mentalidade mais aberta, mais madura e mais responsável, sempre com a necessidade de voltar à escola, às rotinas e amizades suspensas no tempo por uma ameaça para a qual ninguém estava preparado.

Um terço dos pais interpreta mal o peso dos filhos

Fevereiro 18, 2020 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da TSF de 17 de fevereiro de 2020.

Estudo da Universidade de Coimbra avalia se a perceção que os pais têm sobre o peso dos filhos é influenciada por características socioeconómicas.

Cerca de um terço dos pais interpretam mal o peso dos seus filhos, de acordo com um estudo desenvolvido na Universidade de Coimbra (UC) e já publicado no American Journal of Human Biology.

De acordo com a investigação, conduzida por Daniela Rodrigues, Aristides Machado-Rodrigues e Cristina Padez, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), “32,9% dos pais interpretam mal o peso dos seus filhos (30,6% subestimam e 2,3% sobrestimam)”, afirma a UC, numa nota enviada hoje à agência Lusa.

O estudo visou essencialmente “analisar a concordância entre o estatuto nutricional das crianças e a perceção que os pais têm do peso delas”, e “observar se a subestimação do peso estava de algum modo associada ao risco da criança ter excesso de peso/obesidade”.

Envolvendo 793 pais e respetivos filhos (com idades compreendidas entre seis e os dez anos), a pesquisa pretendeu ainda “avaliar se a perceção que os pais têm sobre o peso dos seus filhos era influenciada por características das crianças e socioeconómicas”, refere a UC.

“Verificámos que mais de 30% dos pais não identificou corretamente o estatuto nutricional dos filhos, sendo que a maior parte subestimou”, sublinha, citada pela UC, Daniela Rodrigues, primeira autora do artigo científico e investigadora do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde da FCTUC.

“A subestimação foi substancialmente maior consoante o peso dos filhos, ou seja, vários pais com filhos com excesso de peso classificaram o peso dos filhos como normal e, principalmente, pais com crianças obesas reportaram que as crianças tinham apenas um pouco de peso acima do recomendado”, explicita Daniela Rodrigues.

É nas classes sociais mais baixas que os pais mais subestimam o peso das suas crianças, especialmente das meninas: “Ter pais com menor estatuto socioeconómico e mães com excesso de peso aumenta a probabilidade de subestimar o peso dos filhos, principalmente entre as raparigas”, nota a investigadora.

Sobre a subestimação do peso, se esta estava, de algum modo, associada ao risco da criança ter excesso de peso/obesidade, os investigadores verificaram que “pais que subestimam o peso dos filhos têm 10 a 20 vezes mais probabilidade de terem filhos com excesso de peso ou obesidade, o que tem sido associado a um conjunto de problemas de saúde física e mental, não só na infância, mas que permanecem na idade adulta”.

Ponderando as conclusões do estudo, que foi financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, Daniela Rodrigues defende que “é urgente ajudar os pais a identificar corretamente o excesso de peso e a obesidade” dos filhos para que possam “recorrer à ajuda dos profissionais de saúde” para melhorarem a qualidade de vida da criança.

“O primeiro passo para alterar comportamentos de risco associados à obesidade (dietas ricas em gorduras saturadas e açucares, inatividade física, comportamentos sedentários, etc.) é perceber a necessidade de alterar esses mesmos comportamentos, identificando corretamente o estatuto nutricional da criança”, acrescenta.

No artigo, os investigadores apresentam ainda algumas explicações para os resultados do estudo. “Os pais podem não saber identificar o que é excesso de peso ou obesidade, principalmente porque os media tendem a apresentar a obesidade no seu extremo”.

Por outro lado, “numa altura em que a prevalência de excesso de peso e obesidade afeta cerca de um terço das crianças, os pais podem ‘normalizar’ o excesso de peso, porque é o formato que mais encontram nas crianças que os rodeiam”, afirma ainda Daniela Rodrigues.

“Acreditamos ainda que a maior parte dos pais prefere não identificar a criança como tendo peso acima do recomendado por uma questão de enviesamento social, evitando os estereótipos associados ao excesso de peso e obesidade”, conclui.

Mais informações na notícia da Universidade de Coimbra:

Estudo conclui que um em cada três pais interpreta mal o peso dos seus filhos

Um país sentado no sofá – Crianças obesas

Janeiro 2, 2020 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Fronteiras XXI

A falta de actividade física entre as crianças portuguesas é uma bomba-relógio. Porque lhes limita o desenvolvimento motor em idades em que muitas capacidades podem ser maximizadas e porque crianças que não se mexem serão no futuro adolescentes e adultos sedentários. Há alunos do 2º ano que não são capazes de saltar bem à corda e estudantes do 5º que não sabem correr. “Em vez de os ensinarmos a praticar desporto temos de os ensinar a mexer-se”, lamenta o professor de educação física Avelino Azevedo.”

Portugal é dos países europeus com menores taxas de actividade física e mais crianças obesas. Uma aposta sólida na promoção do exercício físico poderia trazer melhorias significativas na saúde pública e pouparia muito dinheiro. Mas as escolas continuam com dificuldades, os clubes oscilam entre a responsabilidade social e a necessidade de formar “activos”, os decisores políticos parecem pouco empenhados no tema e há muitos miúdos que passam a vida no sofá ou em frente ao computador. Estamos a formar gerações com rotinas sedentárias. E vamos todos pagar por isso.

A falta de actividade física entre as crianças portuguesas é uma bomba-relógio. Porque lhes limita o desenvolvimento motor em idades em que muitas capacidades podem ser maximizadas e porque crianças que não se mexem serão no futuro adolescentes e adultos sedentários. Doenças físicas e problemas de auto-estima ficam à espreita e a saúde pública fragiliza-se.

Os dados da Direcção-Geral da Saúde revelam que 77 por cento dos portugueses não praticam exercício suficiente. E a Organização Mundial de Saúde calcula que mesmo que a taxa de inactividade fosse de 50 por cento, o sedentarismo custaria ao país mais de 900 milhões de euros por ano em cuidados médicos, medicamentos ou absentismo no trabalho. Foi quanto pagámos pela ponte Vasco da Gama…

O problema é sério e o cenário entre os mais novos não prognostica nada de bom. Numa sociedade cada vez mais urbana e “electrónica”, os miúdos saem menos de casa, andam menos a pé, já quase não brincam na rua. Em cima disso, comem e bebem alimentos hiper-calóricos.

Os estudos mostram bem a degradação daquilo a que Olímpio Coelho, professor convidado da Universidade Lusófona, chama “literacia motora” entre os mais pequenos: as provas de aferição do ensino básico em 2016/2017 concluíram que quase metade dos alunos (46%) não conseguia dar seis saltos consecutivos à corda, que 40% não sabia dar uma cambalhota e quase um terço (31%) sentia dificuldades em jogos de grupo.

Se o ponto de partida é francamente mau, o que se segue também não são boas notícias. É que o sistema escolar não tem capacidade de resposta para o problema, aponta Avelino Azevedo, presidente do Conselho Nacional de Associações de Profissionais de Educação Física e Desporto (CNAPEF): “Estamos muito preocupados com o processo educativo no 1º ciclo, que é deficiente, até pela falta de instalações e profissionais”, alerta.

“Às vezes no 5º ano temos de ensinar miúdos a correr, como pôr o pé, etc… São questões básicas, que tinham de ser trabalhadas antes. Depois os miúdos não têm destreza física, se caem magoam-se logo, em vez de os ensinarmos a praticar desporto temos de os ensinar a mexer-se.”

Como é que isto acontece, se como diz, Olímpio Coelho, “as crianças são naturalmente activas”? Porque, levam uma vida muito sedentária. “Todas as solicitações fortes vão no sentido de estarem parados, com a popularização dos jogos electrónicos, da Internet, da vida em frente ao teclado. É preciso limitar o tempo que as crianças dedicam ao computador.”

Já não se brinca na rua

O meio urbano também está a bloquear essa tendência dos mais novos para a actividade, porque “reduz as possibilidades de exercício natural”.

“As práticas de rua estão em desuso, são vistas como inseguras e há uma protecção excessiva, que não permite aos miúdos crescerem perante a adversidade, ao ar livre”, analisa Tomaz Morais, treinador de rugby, assessor para o alto rendimento da Federação Portuguesa de Rugby e consultor do Sporting. “Desta forma, as crianças não são capazes de ganhar hábitos motores, como saltar, correr, cair ou subir escadas, fundamentais para conseguirem praticar desporto com qualidade”, explica. “Uma área onde se nota claramente a influência das ‘facilidades’ modernas é a da resistência. Os transportes públicos chegam a todo o lado e a generalidade dos jovens anda pouco a pé.”

Ainda assim, Tomaz Morais vê algumas mudanças positivas: “Há um entendimento muito mais claro da importância do desporto na formação dos jovens. Pais, médicos, meio escolar, comunicação social; toda a gente está mais alerta para as vantagens da actividade física, seja ela formal ou informal. Há uma maior consciencialização social e vemos jovens a participar em actividades físicas sem carácter competitivo, procurando apenas o bem-estar.”

Para muitos, no entanto, só o meio escolar fornece o enquadramento para a prática de algum exercício físico.

“A principal preocupação prende-se com o número de horas de actividade física que os alunos cumprem sob supervisão especializada”, explica Avelino Azevedo. “Queremos cumprir as normas europeias e da Organização Mundial de Saúde: uma hora de exercício diário por dia. Se não for na escola, para muitos não será em lado nenhum… E como o Desporto Escolar só abrange cerca de 20 por cento dos alunos, perto de 180.000, o nosso foco centra-se nas aulas de Educação Física.”

O impacto na vida dos alunos é enorme, até em questões muito prosaicas. “Para alguns, que vivem com dificuldades económicas e em lares desestruturados, o banho que tomam na escola depois das aulas pode até ser o único nessa semana…”, lembra Avelino Azevedo.

Há todo um mundo de dificuldades que passariam despercebidas aos mais desatentos, mas não a quem trabalha directamente com os jovens. “A refeição na cantina é muitas vezes a única de jeito para alguns miúdos”, diz Marco Cerveira, coordenador técnico da formação de futebol no Grupo Desportivo de Peniche (GDP) e também professor de Educação Física.

Desinvestimento na Educação Física

As hesitações políticas ao longo dos anos não têm contribuído para reforçar o estatuto da Educação Física, antes pelo contrário.

Em 2012, a disciplina deixou de contar para a média dos alunos do secundário. Agora, as notas voltaram a ser contabilizadas. Mas durante esses anos houve um claro desinvestimento na Educação Física, relata Avelino Azevedo.

“Dos alunos que, em alturas mais complicadas, apontavam para as outras disciplinas, as que contavam para a média de acesso ao ensino superior; dos directores das escolas, no momento de tomar decisões; e do Ministério da Educação, que negligenciou a formação de professores”, defende.

Acontece que esta fase coincidiu ainda com a vaga de obras nas escolas a cargo da Parque Escolar e o estatuto “menor” da Educação Física levou a que muitas remodelações adoptassem intervenções minimais ou deixassem mesmo de lado as instalações desportivas.

“Há escolas com zonas cobertas, mas não fechadas… Ora, em algumas regiões do país isso até pode servir, mas no Norte e no Interior é impossível dar aulas ao ar livre durante o Inverno! E mais: essas instalações das escolas acabam também por ser utilizadas pela comunidade em horários pós-escolares, pelo que se perdeu uma oportunidade que vai muito para além do universo escolar”, diz o presidente do CNAPEF.

Contudo, era inevitável que a Educação Física recuperasse o seu estatuto, adianta. “A questão foi ultrapassada. O aluno é um todo, a Educação Física não trabalha apenas o corpo, potencia tudo o que ajuda na aprendizagem: trabalhar em grupo, saber ganhar e perder, questões de saúde, de auto-estima, de integração.” Porque o papel principal do desporto na escola é “reforçar a literacia motora dos seus alunos”, criar “bons candidatos a praticantes que depois os treinadores trabalham”, reforça Olímpio Coelho.

Por esse motivo, o trabalho com as crianças deveria começar mais cedo, no 1.º ciclo, onde a tradição e os métodos de ensino não parecem jogar a favor de uma maior preocupação com a actividade física.

As salas têm um professor generalista e muitas nem dispõem de instalações adequadas. Para Avelino Azevedo, a solução passaria por “colocar um professor de Educação Física a coadjuvar o docente generalista e generalizar a boa prática de aproveitamento racional das instalações municipais, como os pavilhões e as piscinas”.

Os clubes: valores e performance

Apesar de tudo, mantêm-se algumas resistências, a começar pelas colocadas pelos miúdos que não se sentem à vontade com o exercício físico. Não estão habituados, custa-lhes, é um sacrifício, fala-se cada vez mais em performance e quem não é bom no desporto mais vale nem tentar…

Para os que aprenderam a gostar de exercício e têm apetência, praticar desporto significa cada vez mais inscrever-se num clube. Há hoje mais de 410 mil crianças e jovens a praticar desporto federado.

Mas os pais pagam a formação desportiva ou pagam a busca pela excelência? “Os pais vêem nos clubes uma forma de praticar desporto com mais segurança, o que não quer forçosamente dizer melhor desporto”, diz Tomaz Morais. “O lado bom é que os clubes investem cada vez mais em profissionais qualificados, que abrem o treino às áreas que estão mal trabalhadas de base. Quando antes se ensinava a jogar, agora trabalha-se toda a motricidade, que devia ser algo desenvolvido a nível pessoal. Mas é o cenário que temos.”

A preponderância dos clubes traz consigo uma diferença de enquadramento, de mentalidades. “Está a passar-se cada vez mais carga sobre os miúdos que praticam desporto. Há uma exigência de competir bem e ganhar. Não está errado; o que não se pode é passar por cima de princípios éticos. A expectativa da vitória é cada vez mais premente. Antes havia mais ‘alegria’, agora é o ‘rendimento’. Os clubes formam e querem performance”, adianta.

Já para Olímpio Coelho, hoje o desporto de alto rendimento está absorvido pelo economicismo e funciona numa lógica empresarial de criação de valor de mercado, não dando tanta atenção às questões da valorização do indivíduo e da sociedade.

E por isso, “exceptuando algumas pessoas e instituições, não se respeita o longo prazo, acelerando-se o processo para tentar formar ‘activos’…” Ou seja: “o indivíduo deixa de estar no centro do processo, passa a ser a instituição.”

E, sim, depois há também os pais. Alguns confundem a formação desportiva dos filhos com o investimento num futuro financeiramente desafogado… E é vê-los por aí, ao fim-de-semana, gritando “instruções” para o campo, destratando árbitros e adversários, às vezes até os próprios filhos, por falharem um passe ou estarem distraídos…

“Temos de domesticar os pais”, desabafa o professor de educação física Marco Cerveira. Em Peniche, onde coordena a formação de futebol, há procedimentos estabelecidos para evitar choques entre os progenitores ansiosos e os técnicos, que acabam, inevitavelmente, por prejudicar sobretudo os jovens praticantes.

“Aqui os treinadores têm instruções para não debaterem questões técnicas com os pais. Quando menos conversa houver sobre esse tema, melhor”, explica. “Mas não deixamos de os ouvir quando estamos no campo. E os miúdos também…”, desabafa.

Uma “lição” de futebol em Peniche

Nem sempre é assim, claro. “Noutros clubes, já tive pais a dizerem-me que pagavam e que o filho tinha de jogar. Respondi-lhes que estavam errados: eles pagam pelos treinos, pela formação; o jogo é responsabilidade do clube”, vai contando Marco Cerveira, à margem do jogo no estádio do Grupo Desportivo de Peniche (GDP), entre a sua equipa de sub-13 e a do Bombarralense.

Desde que o professor de educação física chegou ao clube, “há quatro ou cinco anos”, e com o apoio do então presidente João Manuel Viola, a formação do GDP levou uma volta. “Apostámos na qualidade dos treinadores, o presidente aceitou que era necessário subir um bocadinho o nível de remuneração dos técnicos, até para haver outra exigência. Trabalhamos em conjunto, não há ‘quintais’ estanques, funcionamos como um todo.”

Os resultados estão à vista, garantem no clube. De 70 miúdos passaram para cerca de 200, pela primeira vez o GDP tem uma equipa dos escalões de formação (iniciados) no campeonato nacional e há toda uma nova dinâmica à volta do futebol jovem.

Neste sábado de manhã, alguns deles estão aqui, correndo atrás da bola com entusiasmo pelo campo sintético. Uns mais dotados tecnicamente, outros menos; uns mais franzinos, outros mais espigadotes; alguns com peso a mais. E na equipa adversária do Bombarralense até há uma menina – a Mariana – que joga com os rapazes.

Cada jogo é uma lição. Quando o guarda-redes do Peniche comete um erro e o adversário marca golo, o rapaz da baliza fica inconsolável no chão. “Repare agora”, avisa Marco Cerveira. E vários companheiros correm para o confortar. Levantam-no do chão e o jogo prossegue.

E mais à frente na partida, quando um jogador do Peniche amua, por um companheiro se perder em fintas e não lhe passar a bola, virando as costas ao lance, é logo substituído. No final da partida, apesar de vencerem por 5-1, a voz do treinador do GDP é dura: “Isto não volta a acontecer! Nem contigo, nem com mais ninguém!”. Nestas idades aprende-se muito mais do que apenas a chutar bem a bola.

O Martim, capitão de equipa do Peniche, é um dos que sabe bem o que fazer com a bola. Percebe-se pela forma como se mexe no campo sintético. Mas, garante, o futebol “é mais pela alegria, nem importa ganhar ou perder”. A sério?! Hoje foi uma vitória valente. Marcaste um ou dois golos? “Não, hoje não marquei nenhum. Mas fiz duas assistências, também é bom…”

Martim, Martins de apelido, fã de Cristiano Ronaldo, está no Peniche desde os 9 anos e já foi referenciado e chamado para testes pelo Benfica e pelo Sporting. Gostavas de ser jogador de futebol? “Até podia ser, não pensei ainda muito nisso.” Já fez ginástica, mas agora, “com a escola, os treinos e os jogos”, faltava-lhe tempo. Outros desportos? “Gosto de futsal”, admite, sempre com alguma timidez, “e também de ir à pesca.” Conhece vários miúdos da sua idade que não praticam qualquer desporto, uns porque não têm “possibilidade”, outros por lhes faltar “capacidade”. Outros ainda, explica com ar muito sério, “porque os pais estão separados”.

Parece ingenuidade, mas não é. Com as distâncias que é preciso percorrer para participar, há pais cujo fim-de-semana é balizado pelos treinos e competições dos filhos atletas.

Se falha este apoio, muitas vezes os miúdos não têm como juntar-se às suas equipas – se há mais do que um filho, com horários coincidentes, ninguém consegue estar em dois lados ao mesmo tempo….

Há também quem não tenha capacidade financeira de pagar os desportos dos filhos. Uma realidade que não passa ao lado do GDP. “Os miúdos pagam apenas 12,5 euros por mês para praticarem futebol e para os que precisam de transporte – porque alguns vêm de longe – são apenas mais cinco euros”, frisa Marco Cerveira. Mas no GDP os mais carenciados não pagam nada. “O presidente dizia-me sempre: ‘Não há-de ser por causa do dinheiro que os miúdos vão deixar de praticar desporto!’”

Ameaça para a saúde

Um pouco por todo o país, há “Martins” que mostram potencialidades e muitos outros que praticam desporto porque é bom e saudável, à espera que a vida lhes abra outros caminhos. Há pais mais ou menos capazes de perceber a pedagogia do trabalho de equipa, clubes com maior ou menor grau de exigência no trabalho dos técnicos, realidades sociais que se cruzam com o cenário da prática desportiva. Há um país que se mexe, outro que fica no sofá.

Em Portugal 30 em cada 100 crianças é obesa. Entre a obesidade e a falta de exercício físico é fácil estabelecer uma ligação. E também, também não é complicado encontrar nesta conjugação de factores negativos a génese de muitas doenças. Há pelo menos duas dezenas de doenças e condições físicas para as quais o exercício pode ser factor preventivo, alerta a Direcção-Geral da Saúde. Das doenças coronárias, à diabetes, do cancro da mama à depressão.

O problema está identificado e uma opinião pública mais alertada. Mas parece que há sempre alguma coisa no caminho, a encravar a máquina das boas intenções… Olímpio Coelho destaca alguma tibieza da acção política nesta área, dando como exemplo a falta de divulgação pública do programa do Ministério da Saúde para o desenvolvimento da actividade física. “Ele existe, mas, tirando em alguns meios mais restritos, a verdade é que não vejo nada sobre isso nos ‘media’ e não chega ao grande público.”

É difícil passar esta mensagem? O trabalho das empresas de material desportivo e de algumas federações mostra que é tudo uma questão de se apostar a sério na comunicação e de saber fazer as coisas bem feitas. “Nota-se que há, entre os jovens, uma apetência natural por modalidades ditas radicais, que têm um marketing mais agressivo. As federações dos desportos tradicionais precisam de agir de forma mais assertiva para cativar os miúdos”, analisa Tomaz Morais.

É um desafio, mas nunca como agora as pessoas estiveram tão sensíveis à mensagem: “O desporto era muito visto como competitivo; está agora a ser percepcionado sob o prisma da saúde mental e física”, salienta o homem que conduziu os “Lobos” à presença no Mundial de Rugby de 2007. Proeza que elevou a modalidade a um nível inédito de popularidade interna:  se em 2006, a Federação Portuguesa de Rugby tinha 2.745 atletas federados, um ano depois já eram 3.410 e no ano passado atingiram os 6.460 jogadores.

A força dos campeões

Nesses mesmos onze anos, entre 2006 e 2017, o número de atletas federados também disparou. O futebol continuou a ser a modalidade mais popular e subiu de forma significativa o número de praticantes (de 133.360 para 176.349). Mas este crescimento, em termos relativos, é ofuscado pelas subidas imparáveis da ginástica (de 9. 473 para 18.312) e do basquetebol (18.690 / 41.807), que duplicaram o número de federados, tal como o rugby; do ciclismo (4.566 / 15.739), que mais do que triplicou; do triatlo (713 / 2831), que praticamente quadruplicou; e, acima de todos, da natação (7.938 / 65.499), que numa década multiplicou por mais de oito vezes os praticantes inscritos na federação e foi, em termos absolutos, quem cativou mais novos atletas.

O padel também se destaca, apesar de apenas 2016 a federação registar atletas. Se no primeiro ano eram 1.805 os praticantes federados, em 2017 esse total já tinha subido para 3.123.

Há muitos factores que influenciam a popularidade de um desporto, mas é evidente que os campeões, os heróis, têm uma importância enorme. Os golos de Cristiano Ronaldo, os “passing shots” de João Sousa no ténis, as manobras vertiginosas de Miguel Oliveira no Mundial de motociclismo, os afundanços das estrelas da NBA. E as medalhas olímpicas, claro.

Em 2020 vai fechar-se mais um ciclo, com os Jogos de Tóquio. E não é difícil prever que voltarão à ribalta as questões relacionadas com a pouca atenção dada a algumas modalidades, os apoios que os atletas têm ou não têm, as deficiências na formação, a falta de meios, a falta de atitude… Enfim, o costume. “Expectativas elevadas, confronto com a realidade, procura de culpados”, sintetiza Olímpio Coelho.

“Não consigo ver que o desporto português funcione como um todo, está a funcionar solto. Há directivas, há políticas, regulamentos, intenções. Mas depois faltam a congregação e as sinergias práticas de quem está no terreno”, salienta Tomaz Morais.

Nesses meses que aí vêm falar-se-à menos de saúde pública e mais de desempenho desportivo, mas o problema de base será o mesmo: não se formam campeões com crianças sentadas ao computador. Queremos um país de desportistas ou de espectadores; de gente activa ou de sedentários? É preciso definir um rumo e trabalhar no terreno para o concretizar. A bomba-relógio não pára. Tic-tac, tic-tac.

Gravidez: o que contribui para o aparecimento da obesidade na criança?

Dezembro 30, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Sapo Lifestyle

Alguns fatores presentes na gravidez estão relacionados com o aparecimento do excesso de peso e da obesidade durante a infância:

  • Obesidade da mãe
  • Ganho de peso excessivo da mãe
  • Fumo do tabaco
  • Diabetes não controlada

Quais são as principais medidas a tomar durante a gravidez para prevenir a obesidade infantil?

Não se sabe ao certo como agem alguns fatores, como o fumo do tabaco, o ganho de peso excessivo da mãe, a obesidade da mãe e a diabetes não controlada durante a gravidez, para aumentar a tendência do bebé para ter excesso de peso na infância.

Mas existe uma série de explicações possíveis para isso. Com base nestes fatores, podemos sugerir algumas medidas que certamente contribuem para uma gravidez mais saudável e que são capazes de contribuir para a prevenção da obesidade no bebé:

  • Engravidar com um peso saudável
  • Ter bons hábitos de alimentação e atividade física durante a gravidez
  • Ter um ganho de peso adequado durante a gravidez
  • Não fumar
  • Diagnosticar e controlar a diabetes

É importante ter em conta que o aparecimento ou não da obesidade na criança não depende somente daquilo que acontece durante a gravidez. Após o nascimento e durante a vida da criança, os seus hábitos alimentares, de atividade física e de sono vão ser determinantes para o aparecimento ou não da obesidade. Ainda neste sentido a gravidez pode contribuir de forma significativa para a prevenção da obesidade na criança. Em primeiro lugar, dentro da barriga da mãe o bebé começa a ter contacto com os paladares da alimentação da mãe. Estudos indicam que a alimentação da mãe durante a gravidez pode influenciar as preferências alimentares do bebé. Assim, ter uma alimentação saudável durante a gravidez pode contribuir para a formação de bons hábitos de alimentação na criança.

Por outro lado, os hábitos alimentares e de atividade física dos próprios pais estão entre as mais fortes influências nos hábitos das crianças. A criança copia tudo aquilo que vê nas pessoas mais importantes que estão a sua volta.

A gravidez pode ser o motivo que falta para que a família siga hábitos mais saudáveis de alimentação, atividade física e descanso. Assim, será muito mais fácil e natural conseguir que a criança tenha também hábitos saudáveis de alimentação, atividade física e sono. Sabia que os hábitos de pequenino vão influenciar os hábitos e a saúde do seu filho para o resto da vida?

Como posso colocar em prática estas medidas de prevenção da obesidade infantil?

Se está a pensar em engravidar, comece por marcar uma consulta de planeamento familiar. Nesta consulta poderá esclarecer as suas dúvidas e vai receber as orientações necessárias para que a gravidez inicie da melhor forma para si e para o bebé.

Se já está grávida e ainda não marcou uma consulta de Saúde Materna, faça-o o quanto antes. Mantenha o acompanhamento durante toda a gravidez pois isso é fundamental para levar uma gravidez saudável e tranquila.

Como também pode verificar nesta secção, o melhor que pode fazer para si e para o seu bebé é procurar ter uma vida cada vez mais saudável, com bons hábitos de alimentação, atividade física e descanso. Para além dos benefícios que terão durante a gravidez, estará a construir um ambiente familiar mais saudável para a chegada do bebé. Se é fumadora, deve procurar ajuda para deixar de fumar, de preferência ainda antes de engravidar.

O pai e outros membros da família podem e devem aderir às mudanças no sentido de uma vida mais saudável. Assim estarão a ajudar a si próprios, à mãe e ao bebé. Será um início de vida promissor para o vosso filho e uma excelente oportunidade para toda família.

Muitas dúvidas vão surgir e o Papa Bem está aqui para ajudá-los neste sentido. Queremos alertá-los acerca da importância de uma “família saudável” para o bom desenvolvimento e para a saúde do vosso bebé e orientá-los para o alcance deste objetivo. Para isso, preparámos uma série de materiais com informações e sugestões para tornar as escolhas saudáveis mais atraentes e fáceis de se colocar em prática.

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Inimigos da atividade física na infância: sugestões e conselhos

Dezembro 28, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Sapo Lifestyle de 28 de outubro de 2019.

A atividade física é essencial para o crescimento saudável e para o desenvolvimento da criança. Durante a infância, brincar é a melhor forma de fazer atividade física.

As crianças são naturalmente ativas logo desde a barriga da mãe. Contudo, nas sociedades atuais, a atividade física tem de disputar o seu espaço nos dias das crianças.

A televisão, os computadores e os videojogos estão entre as atividades que mais competem pela atenção das crianças e acabam por torná-las mais inativas. Mas a atividade física enfrenta também outros inimigos durante a infância. Saiba quais são os mais comuns e como combatê-los para que o seu filho tenha uma vida mais ativa e

As atividades que envolvem ecrãs são, regra geral, inimigas da atividade física. Ver televisão, usar o computador, jogar videojogos ou até mesmo usar um telemóvel são atividades que afastam as crianças de outros tipos de brincadeiras e mantêm a criança sentada ou parada durante longos períodos de tempo. Isto significa que a criança reduz a quantidade de tempo que passa em atividades mais movimentadas e, por isso, reduz também o seu gasto de energia, o que pode contribuir para a obesidade.

Além disso, as atividades que envolvem ecrãs podem ter outras consequências negativas para o desenvolvimento e a saúde da criança. Por exemplo, tem sido demonstrado que ver televisão antes dos 2 anos de idade pode afetar o desenvolvimento da linguagem e também reduzir a capacidade de atenção da criança no futuro.

Sugestões para combater o inimigo número 1:o ecrã

O tempo que a criança passa em atividades que envolvem ecrãs é um hábito que se aprende desde muito cedo. Na correria do dia-a-dia, é fácil que os adultos caiam na tentação de utilizar a televisão para entreter as crianças enquanto estão ocupados com outras tarefas.

Para conseguir que a sua criança tenha uma vida mais ativa e saudável, procure seguir as últimas recomendações dos especialistas sobre atividades com ecrãs para crianças até aos 5 anos de idade:

– Crianças com menos de dois anos de idade não devem ver televisão ou participar em atividades que envolvam ecrãs.

– Crianças com dois a cinco anos de idade devem ter um limite de uma hora para o tempo passado em atividades que envolvam ecrãs, como ver televisão.

– Crianças não devem ter televisão no quarto de dormir.

Não é só o tempo que a criança passa em atividades com ecrãs que importa. É necessário ter em atenção os tipos de programas que a criança assiste e os jogos ou outras atividades às quais a criança tem acesso. São de evitar histórias ou jogos violentos ou muito agitados, que envolvam movimentos rápidos e muitas luzes. Os programas educativos são os mais indicados. Por outro lado, para manter a tendência natural da sua criança para ser ativa, não basta reduzir o tempo de ecrã, é preciso colocar à sua disposição atividades divertidas e dar condições para que ela se movimente.

O seu exemplo também é fundamental. Evite passar muito tempo em frente aos ecrãs e participe em algumas dessas atividades demonstrando o quanto é agradável e divertido.

Sabia que… Passar muito tempo a ver televisão antes dos dois anos de idade pode causar atrasos no desenvolvimento da fala no seu bebé? Além disso, alguns estudos indicam que crianças que vêm muita televisão até aos 3 anos de idade podem ter dificuldades de atenção mais tarde, ao entrar para escola.

Outros inimigos da atividade física e sugestões para combatê-los

Para além de competir com as atividades com ecrãs, a atividade física enfrenta outros inimigos, como a disponibilidade de tempo, de espaços, ou de segurança.

Disponibilidade de tempo: Os horários de trabalho preenchidos dos pais e as longas deslocações entre o trabalho e a casa reduzem o tempo que os pais têm disponível para levar a criança a espaços onde possa movimentar-se livremente.

Sugestões para combater este inimigo: Para enfrentar este desafio é necessário incluir a atividade física na rotina da família e garantir-lhe um tempo diariamente. Por exemplo, reserve um ou dois dias por semana para irem ao parque, envolva a criança em tarefas domésticas, usem as escadas, vão a pé para a escola ou à mercearia do bairro, ou proponha à criança atividades que podem ser realizadas dentro de casa, como dançar.

Disponibilidade de espaço: A falta de espaço em casa ou na vizinhança para a criança se movimentar livremente ou a falta de segurança dos espaços públicos são também dificuldades importantes que os pais podem encontrar para que a criança tenha uma vida ativa.

Sugestões para combater este inimigo: Mais uma vez o truque é ser criativo! Em casa, a solução é procurar espaços onde possa, por exemplo, afastar uma mesa de apoio por alguns minutos ou até por alguns dias. Jogar jogos tradicionais que não exijam espaços muito alargados, como o “Macaquinho do Chinês”, pode ser uma solução para conseguirem brincar ao ar livre. Por fim, reservar um tempo nos fins-de-semana para um passeio mais longo em família também é uma boa medida. Assim, podem encontrar lugares agradáveis e seguros para juntos fazerem atividades que envolvam movimento.

Tempo passado em espaços ou equipamentos que limitam os movimentos: Atualmente existe uma grande disponibilidade de equipamentos atraentes para transportar ou alimentar a criança ou apenas mantê-la entretida e em segurança. Os parques, carrinhos de passeio, cadeiras de comer ou espreguiçadeiras são alguns exemplos desse tipo de equipamentos. São um bom aliado dos pais porque garantem a segurança da criança mesmo quando os pais não têm a possibilidade de estar junto dela todo o tempo. Mas podem transformar-se num inimigo quando utilizados por longos períodos ou várias vezes durante o dia.

Sugestões para combater este inimigo: O truque é garantir que a criança não passa muito tempo seguido com os seus movimentos limitados. Procure alternar o tempo que a sua criança passa nesses equipamentos com o tempo que passa com os movimentos livres. Pode colocá-la sobre uma manta ou, simplesmente, deixá-la no chão a gatinhar, caminhar, brincar, enfim, a explorar o mundo a sua volta. Sempre debaixo dos seus olhos e em segurança, é claro!

Não se esqueça: as crianças são naturalmente ativas. Mas para usarem essa tendência natural têm de ter oportunidades e têm de aprender que é divertido. Reserve tempo, espaço e divertimento diariamente para a atividade física da sua criança.

Para mais informações consulte www.papabem.pt

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