Mais de um terço dos jovens portugueses já se sentiu desconfortável na Internet

Outubro 15, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , ,

A utilização intensiva das redes sociais intensifica a sensação de solidão, mesmo entre os jovens que tenham, à partida, uma boa rede de relações sociais e familiares GettyImages

Notícia e imagem do Expresso de 17 de setembro de 2019.

Estudo nacional revela que 14% dos jovens também já foram ofensivos ou agiram incorretamente com alguém.

Um em cada três jovens portugueses já se sentiu desconfortável enquanto navegava na Internet e 14% já foram ofensivos ou agiram incorretamente com alguém, segundo um estudo nacional divulgado esta terça-feira

O estudo, conduzido pela Netsonda e promovido pelo Faceboook, hoje divulgado, revela que 38% dos jovens já se sentiram desconfortáveis enquanto navegavam na internet, em oposição com os restantes 62% que dizem nunca terem sentido qualquer incómodo.

Dos jovens inquiridos, 14% admitiram mesmo já terem dito algo ofensivo ou terem agido incorretamente com alguém através da ‘web’, sendo que “chamar nomes” foi o ato mais apontado.

Comparando rapazes com raparigas, eles são mais agressivos também na Internet (17% contra 10% das raparigas).

Perante a hipótese de alguém ser desagradável com eles ou com alguém seu conhecido, a maioria optaria por enviar mensagem privada ao “agressor” ou pedir ajuda aos pais, professores ou algum adulto de confiança.

No entanto, 29% ignorariam o ato, enquanto outros 22% optariam por falar diretamente com a pessoa. Os amigos surgem como a quinta opção: 19% dizem que recorreriam aos seus amigos para tentar resolver o problema.

É através das redes sociais que os jovens se mantêm em contacto com os amigos, mas é também em frente a um ecrã que se divertem, acompanham as novidades e tendências, segundo um inquérito online realizado durante o mês de agosto a mil jovens portugueses, entre 14 e 19 anos

O estudo tentou perceber o que fazem os mais novos quando estão nas redes sociais, de que forma acedem à Internet, como reagem perante uma “agressão” virtual ou que experiências já vivenciaram.

Hoje em dia, são raros os jovens que não têm um ‘smarphone’ e é através dele que acedem à Internet: 69% usam o telemóvel, seguindo-se o computador (17%).

As consolas de vídeo jogos e o computador de família são as opções menos recorrentes (2%).

É precisamente para estar em contacto com os amigos que os jovens mais usam as redes sociais (79%), mas também como forma de entretenimento (61%).

Já 49% dizem que lhes permite acompanhar as novidades das marcas e os “influencers”. Numa comparação entre rapazes e raparigas, elas estão muito mais interessadas em acompanhar as tendências (60% contra 39% de rapazes) enquanto eles usam muito mais as redes para entretenimento (74% contra 47%).

“Ler notícias” também é um dos principais motivos para usar as redes sociais, principalmente entre os mais velhos: os jovens entre os 17 e os 19 anos colocam esta função em terceiro lugar, enquanto entre os mais novos o desejo de se manter informado surge em quinto.

Apenas um em cada três jovens diz usar as redes sociais para manter o contacto e ver as publicações da família.

O estudo hoje divulgado revela ainda a atitude que os jovens imaginam que teriam perante um eventual abuso, sendo apresentada a hipótese de ser publicada uma fotografia sua sem consentimento: oito em cada dez (79%) dizem que pediriam que a foto fosse retirada, 76% acreditam que reportariam a situação à rede social e 61% retiravam a sua identificação da imagem.

No universo de inquiridos, 60% já comunicaram situações nas redes sociais.

Bloquear ou deixar de seguir alguém já faz parte dos hábitos dos jovens, com mais de 60% dos inquiridos a admitirem que já utilizaram estas ferramentas para gerir o contacto ‘online’ com outros.

Apenas 3% desconheciam que tal era possível e 12% disseram conhecer essa opção, mas nunca a utilizaram.

O estudo tentou ainda perceber se seriam capazes de partilhar as suas ‘passwords’ com alguém. A maioria disse que não, mas 35% responderam afirmativamente, colocando a família, os namorados e os melhores amigos como as pessoas a quem estavam dispostos a entregar as palavras passe de acesso às redes sociais, e-mails ou ‘smartphones’.

Um em cada 100 jovens disse mesmo que partilharia a ‘password’ com os professores ou diretores da escola.

Mais de metade das crianças até aos três anos utiliza em excesso as novas tecnologias

Outubro 9, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , ,

Shutterstock

Notícia e foto do DN Life de 2 de outubro de 2019.

67% das crianças em idade pré-escolar usa um ecrã para ver vídeos, ouvir música, jogar. Em geral, passam mais tempo do que o recomendado em contacto com as novas tecnologias, muitas vezes criando dependência antes ainda dos três anos, o que contribui para um atraso na linguagem e no desenvolvimento emocional das crianças.

Texto de Rita Rato Nunes | Fotografia de Shutterstock

Tiago tem três anos e gosta de comboios e aviões. É isso que procura no YouTube quando os pais lhe emprestam o telemóvel, “ainda não sabe pesquisar, mas vai pelo histórico”, explica o pai, Miguel Gonçalves. “Já tem aquela sensibilidade para tocar no ecrã, sabe minimizar e maximizar as janelas, aumentar o som, carregar no YouTube e pouco mais do que isso”.

“As crianças hoje estão mais viradas para a tecnologia, dominam mais facilmente um telemóvel do que pessoas com 60 anos. É muito intuitivo. Mas uma criança de três anos não percebe muito, basicamente quer ver bonecos”, diz Miguel.

67% das crianças até aos três anos utilizam as novas tecnologias. A maioria em excesso, recorrendo aos aparelhos eletrónicos durante mais de uma hora e meia por dia com risco de dependência associado. Estes dados foram divulgados na revista Gazeta Médica, do Hospital CUF, num estudo sobre os Hábitos de Utilização das Novas Tecnologias em Crianças e Jovens, publicado no final do ano passado e apresentado esta terça-feira.

“Nós [pediatras] vemos os pais a utilizarem os seus telemóveis para porem um vídeo para os acalmar. É uma estratégia usual para quando vem ao médico, dão de comer ou há uma birra.”

“É muito frequente apercebermo-nos na consulta normal de pediatria, que a criança em idade precoce está demasiado exposta a ecrãs. Recentemente, tive na minha consulta um bebé com seis meses que a mãe só lhe conseguia dar comida com um tablet à frente com um vídeo do YouTube“, diz o pediatra Hugo Faria, um dos autores do estudo.

Segundo o médico, por volta dos dois anos, as crianças passam por uma fase em que os pais têm dificuldade em acalmá-las, principalmente em momentos de maior tensão, como podem ser as idas ao médico. “Nós [pediatras] vemos os pais a utilizarem os seus telemóveis para porem um vídeo para os acalmar. É uma estratégia usual para quando vem ao médico, para quando colocam a colher com a comida na boca dos filhos ou quando há uma birra. Os pais estão pressionados pela vida atual, que é uma vida atarefada, difícil, e isto é uma forma rápida e fácil de entreter e facilitar tarefas em casa. Eu compreendo isto, mas pode ter consequências”, indica Hugo Faria.

O Tiago “não é de muito boa boca e às vezes ao ver os bonecos no YouTube consigo distraí-lo para comer”, diz Miguel Gonçalves. O filho passa cerca de uma hora por dia com o telemóvel nas mãos: “Também gosta de ver um bocadinho antes de dormir ou quando está sentado no sofá, mas também brinca: gosta de jogar à bola, brincar com carrinhos”.

Há indícios claros de que o uso das novas tecnologias nos primeiros anos de vida pode contribuir para atrasar o início da linguagem e o desenvolvimento emocional das crianças.

Embora ainda não existam estudos suficientes sobre o impacto das novas tecnologias nos primeiros anos de vida, há indícios claros de que estas podem contribuir para atrasar o início da linguagem e o desenvolvimento emocional das crianças.

O estudo alerta ainda para “o aumento da probabilidade de excesso de peso e obesidade futura. O hábito de comer enquanto se utilizam estes meios de comunicação e a exposição regular à publicidade de produtos alimentares são fatores de maior risco”, pode ler-se no relatório.

Fica por clarificar o motivo exato pelo qual as novas tecnologias devem ser evitadas em idade pré-escolar: “Não sabemos ainda se isto acontece por efeito direto do estimulo que os ecrãs dão ou se acontece porque estamos a substituir tempo com os adultos, os pais, que são a principal fonte de estimulo para as crianças dessas idades”, refere o pediatra.

Vídeos, música e jogos é o que atrai mais as crianças

Ver vídeos, ouvir música e jogar: é assim que a maioria destas crianças passa mais de uma hora e meia com os aparelhos eletrónicos. Para a Academia Americana de Pediatria (APP), que tem emitido várias recomendações sobre o tema, os pais não devem permitir que crianças com menos de 18 meses tenham contacto com os meios digitais, com exceção feita para as videochamadas. Depois desta idade, devem escolher aplicações ou programas didáticos para assistir com os filhos, descodificando o seu conteúdo. Entre os dois e os cinco anos, a APP recomenda que o uso das novas tecnologias não ultrapasse os 60 minutos.

O estudo revela ainda que o aparelho tecnológico mais usado pelas crianças até ao três anos é o tablet, depois o telemóvel, o computador e a consola.

“Estes novos meios de comunicação são importantes, são o futuro, mas têm de ser limitados. É preciso deixar espaço para que haja outras atividades e é preciso deixar um espaço livre de estimulo para outras atividades, nomeadamente, o estudar, o dormir, o brincar, o convívio com a família. A internet deve abrir janelas de comunicação e não fechar outras”, diz Hugo Faria.

O artigo citado na notícia é o seguinte:

Efeitos da Exposição a Dispositivos Digitais no Desenvolvimento da Linguagem em Idade Pré-Escolar

As Crianças e o uso da Internet, Redes Sociais, Videojogos, Smartphones, Tablets, etc no Reino Unido

Outubro 8, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , , , , ,

Imagem retirada daqui

Bibliotecário escolar e fake news

Setembro 26, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , ,

Visualizar o artigo no link:

https://app.box.com/s/wt45quv35obl1o5nmepss4bzzm2f5id0

Benefícios da leitura: muito além de aumento de vocabulário

Setembro 16, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , ,

Texto e imagem do site Quindim

Que a leitura desenvolve o vocabulário, todos sabem, mas poucos conhecem pesquisas empíricas que comprovem seu potencial no desenvolvimento da memória e na melhora do comportamento.

A memória precisa de exercício, e hoje está comprovado que a melhor forma de exercitá-la não são os “apps de desenvolvimento neuronal” das plataformas mobile, mas sim o velho hábito da leitura. É o que afirma o neurocientista Iván Izquierdo, pesquisador brasileiro que coordena as investigações do Centro de Memória, do Instituto do Cérebro da PUC: “A leitura é o melhor exercício para a memória. Quando o cérebro vê uma palavra, tem que formar um inventário de informações e termos que cada letra lhe traz”. Trata-se de um esforço gigantesco que muitas vezes passa despercebido:

“Se a primeira letra da palavra é R, por exemplo, podemos pensar em Raul, rato, revista… em questão de milissegundos o cérebro forma uma lista das palavras que conhecemos e que começam com essa letra – em todas as línguas que sabemos. É uma atividade intelectual poderosa. (…) Nenhum método se impôs sobre o outro no desenvolvimento da memória, só a leitura se destacou.”

Outro estudo, este realizado pela Universidade de Nova Iorque, em colaboração com o IDados e com o Instituto Alfa e Beto, demonstrou que ler para a criança regularmente aumenta em média 14% no vocabulário e 27% na memória de trabalho, além de 25% no índice de crianças sem problemas de comportamento. O resultado dessa pesquisa, realizada com 1250 responsáveis e 1250 crianças de Roraima, é bastante impressionante ao demonstrar que a leitura desenvolve não apenas aspectos cognitivos, como costumamos associá-la, mas também aspectos comportamentais.

Já dizia o grande professor Antônio Cândido que a literatura é, ou ao menos deveria ser, um direito básico do ser humano, pois a ficção atua no caráter e na formação dos sujeitos. Uma pesquisa demonstrando mudanças significativas em aspectos comportamentais através de uma metodologia empírica amplia essa constatação – tão conhecida pelos que trabalham pela leitura – para outros universos e áreas do conhecimento.

A importância da leitura compartilhada é outra constatação desses estudos. Trata-se de um momento de troca de afeto entre os responsáveis e as crianças, em que não apenas “o pequeno” se desenvolve mas também o adulto que lê para ele, que nessa troca passa a conversar mais com a criança, a conhecê-la (e a se mostrar mais para ela), discutindo questões que não seriam abordadas e refletidas se não fosse aquele livro e aquele momento. Esse hábito precioso oferece uma troca rara e importante que uma rotina diária sem ele dificilmente permitiria. E como consequência prática, aumenta o vocabulário, a memória, a empatia… e segue-se uma lista imensa. Não à toa a Sociedade Brasileira de Pediatria lançou a campanha “Receite um Livro”, com o objetivo de mobilizar os médicos pediatras a estimularem os pais a lerem para as crianças.

Não se engane, porém, ao acreditar que tal desenvolvimento aconteça com uma leitura irregular, uma vez ao mês. Para reverberar, é preciso o hábito, como a pesquisa empírica da Universidade de Nova Iorque considerou: a leitura compartilhada em pelo menos dois dias por semana.

Este desafio, de se criar o hábito, não é difícil de se construir. Ler à noite, antes de dormir, por exemplo, pode se tornar um ritual, um momento de relaxamento e convivência em que se constrói o afeto e todos os outros resultados práticos consequentes. Para isso, não é preciso muito: uma carteirinha de uma biblioteca e, se possível, um clube de assinatura de livros infantis, como o nosso, o Clube de Leitura Quindim, com curadoria de qualidade e livros selecionados por pessoas como Ziraldo, Walcyr Carrasco e Marisa Lajolo. Pois para se ter tantos benefícios, não basta também um livro de ficção banal. É o que diz outra pesquisa empírica, esta da Universidade de Cambridge, feita em uma parceria entre os departamentos de Neurociência, Pedagogia, Psicologia e Letras. Eles constataram o potencial que a literatura de qualidade tem de gerar empatia – a capacidade de se colocar no lugar do outro –, um potencial não encontrado em textos de ficção banais ou em textos de não ficção. Ou seja, para se desenvolver através da leitura, não basta ler: é preciso literatura de qualidade.

Renata Nakano é mestre em Literatura pela PUC-Rio e bacharel em Comunicação pela UAM. Como pesquisadora, foi premiada com bolsa da Biblioteca Internacional da Juventude, em Munique, e convidada a apresentar sua pesquisa sobre livro ilustrado em universidades como Cambridge e em eventos literários pelo Brasil. Como editora, desenvolveu catálogos de literatura infantil para diferentes casas editoriais, tendo conquistado prêmios como FNLIJ, BN e o Prêmio Jabuti.

“A brincar também se educa”. Um guia para envolver os pais e afastar as crianças dos ecrãs

Setembro 10, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , , , , ,

istock

Notícia e imagem do Observador de 15 de agosto de 2019.

Ana Cristina Marques

90% das crianças entre 5 e 14 anos já têm telemóvel e preferem o smartphone aos jogos tradicionais. Os pais têm cada vez menos tempo. Mas os especialistas alertam: brincar sem ecrãs é fundamental.

Uma amostra de 1.200 crianças portuguesas, dos 5 aos 14 anos, concluiu que 90% tinha um telemóvel ou um Ipad próprio ou, então, partilhado com os irmãos. “São os dispositivos que os pais já não querem e que ficam para os filhos. Fiquei surpresa, os professores também não sabiam”, relata Ivone Patrão ao Observador, investigadora, psicóloga e terapeuta familiar do ISPA – Instituto Universitário. O estudo por ela coorientado teve por base alunos de escolas públicas e privadas e serviu para criar o jogo Missão 2050, lançado em junho último, que visa a promoção do uso saudável de tecnologia. “Enquanto investigadora foi uma surpresa”, insiste. “Tinha ideia que isto começava aos 10 anos, com a entrada para o 5.º ano. Mas não. E eles comunicam uns com os outros depois da escola, à noite.”

Enquanto se rendem aos ecrãs — assumam eles a forma de smartphones ou de tablets –, as crianças estão a tirar tempo aos estudos e à própria brincadeira. Ivone Patrão fala “na normalização de comportamentos”, isto é, de um comportamento online que substitui o ir brincar para a rua ou o jogar ao UNO, por exemplo. Não quer isto dizer que estas crianças sejam dependentes do uso do ecrã — isso é outra conversa — mas pode realmente existir um comportamento considerado excessivo.

Vários artigos que alertam para o facto de haver pais que usam os telemóveis e os tablets como babysitters: segundo o estudo “Happy Kids: Aplicações Seguras e Benéficas para Crianças”, do Católica Research Centre for Psychological, Family and Social Wellbeing (CRC-W), da Universidade Católica Portuguesa, as crianças que mais usam aplicações têm até 2 anos e são os pais os primeiros a dar aos filhos o acesso a dispositivos eletrónicos, além de 90% das casas portuguesas ter ligação à internet, “smartphones, computadores portáteis ou tablets”.

O debate em torno dos ecrãs é tanto que o insólito já aconteceu: nos EUA há famílias que contratam coaches para as ajudar a educar crianças longe dos ecrãs, porque é difícil recordar um tempo em que tal não existia. Também nos Estados Unidos, como já antes explicou o Observador, são cada vez mais os pais que atrasam de propósito a idade a que os filhos recebem smartphones para as mãos, existindo até movimentos organizados nesse sentido — por exemplo o “Wait Until 8th” (Espera até ao 8º).

O papel dos pais nas brincadeiras dos filhos

Brincar é essencial para o desenvolvimento dos mais novos, seja a nível sócio-emocional, psicomotor ou cognitivo. O ato de brincar deve seguir três etapas evolutivas: as atividades que geram ação (quando um bebé atira um brinquedo ao chão está a ter uma primeira noção da lei da gravidade), as simbólicas (pegar numa vassoura e transformá-la num cavalo é um exercício de imaginação) e as que exigem regras (os jogos de computador e os de tabuleiro ajudam a perceber que a vida se rege por um conjunto de normas).

A brincadeira funciona como uma espécie de tubo de ensaio para a vida real. Permite explorar, conhecer, aprender e percecionar o mundo, perceber como este funciona. Brincar faz parte da vida de uma criança e é tão importante que a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda três horas diárias de atividade física, leia-se jogos e brincadeiras, a partir do primeiro ano. O gesto tão naturalmente associado à infância parece estar, por estes dias, em vias de extinção. Tanto que há sensivelmente um ano a Sociedade Norte-americana de Pediatria recomendava que os pediatras receitassem mais tempo para brincar. A escassez está, muito provavelmente, associada ao atual estilo de vida marcado por agendas cheias e acesso facilitado aos ecrãs, o que veio alterar a forma como as crianças olham o mundo à sua volta.

Para Inês Afonso Marques, psicóloga infantil e autora do livro “A brincar também se educa” (editora Manuscrito), quando os pais dão tempo aos filhos para brincar estão a educá-los, a ajudá-los a fazer escolhas e a usar a criatividade, entre outras vantagens. Mas o uso que fazemos da tecnologia pode estar a impedir as crianças de brincar, diz. E os pais são o modelo dessa realidade. Ao Observador, a psicóloga explica que brincar implica envolvimento e atividade, enquanto a tecnologia é passiva. “As crianças gostam de se sujar, de sentir, de envolver os cinco sentidos naquilo que estão a fazer. Tudo aquilo que possa suscitar a descoberta, tudo isso estimula uma criança.”

Foi Sílvia e o marido que aproximaram a tecnologia do filho de três anos para garantir aos pais momentos de descanso e para ajudar a criança nas refeições. Ao Observador, esta mãe admite que o filho sempre comeu mal, pelo que recorria ao ecrã para o distrair. “Talvez isto tenha sido um pouco mau porque ele hoje não come bem. Antes fazia as refeições sem saber o que estava a comer, hoje não tem uma relação boa com a comida.” Atualmente, o filho vê alguma televisão em casa — sempre sintonizada em canais infantis — e Sílvia congratula-se pelo facto de ele não ter ficado muito adepto dos ecrãs. “Sinto-me aliviada porque ele não os procura, não ficou dependente. Entretém-se sozinho, encarna personagens com acessórios.”

A psicóloga e investigadora Ivone Patrão é perentória quando argumenta que as crianças não deveriam ter ecrãs nas horas das refeições e no tempo de brincar porque “têm de estar concentradas no que estão a fazer, seja comer ou brincar”. O ecrã, continua, deve ser encarado como um complemento à brincadeira, mas não o pode substituir. “O ecrã é muito assumido como algo que os vai tranquilizar, mas é preciso fazer um uso adaptado, caso a caso, dependendo das necessidades da família. Acho que os pais devem perguntar-se porque usam a tecnologia. Muitas vezes dá-se a ferramenta, mas não o manual de instruções.”

Segundo a Sociedade Norte-americana de Pediatria, até aos 2 anos o uso de smartphones e de tablets não é recomendável, sendo que a introdução deve ser feita de forma gradual e com a supervisão dos adultos. Inês Afonso Marques insiste nesta tónica: é importante controlar o que é transmitido à criança, bem como limitar ao máximo todo o tipo de monitores. “Há crianças [em consultório] que verbalizam ‘Preciso do telefone porque não tenho nada com que me entreter’. Isso revela uma dependência associada à incapacidade de a criança encontrar outros estímulos.”

“Não gosto de culpar a tecnologia… Na minha infância tive consolas. Muitas vezes, no consultório, pergunto aos miúdos as brincadeiras preferidas e a maior parte responde o telemóvel, o tablet, o computador e a consola. Por outro lado, sinto que eles têm sede de brincadeiras, têm vontade de usar os jogos que estão nas prateleiras do consultório, jogos banais, mas o mais imediato é a tecnologia muito por observação e pelo modelo que têm à sua volta”, continua Inês Afonso Marques, que ressalva que cabe aos adultos quebrar o ciclo e encontrar ou reencontrar outras formas de brincar. A isso acrescenta-se a “falsa questão” da falta de tempo, até porque a psicóloga ouve em consultório como as crianças se queixam de que os pais não têm tempo para brincar e como os pais argumentam que já não sabem brincar. “Não é necessário muito tempo, desde que este seja de qualidade”, diz, aconselhando os adultos a seguir os interesses da criança e a seguir o ritmo desta.

O uso pouco saudável das tecnologias pode, entre outras coisas, impactar a criança do ponto de vista motor, no sentido em que pode prejudicar a sua destreza. Também por isso a OMS alertou recentemente para a necessidade de as crianças com menos de cinco anos terem de passar menos tempo sentadas diante dos ecrãs para passarem, ao invés, mais tempo a brincar de maneira a crescerem de forma saudável. Entre as recomendações da Organização Mundial de Saúde está, por exemplo, o facto de os bebés com menos de um ano de idade terem de ser “fisicamente ativos várias vezes ao dia e de formas diversas” e não ficarem “contidos” mais de uma hora de cada vez em cadeiras ou carrinhos. “Tempo de ecrã não é recomendável”, acrescenta a OMS.

Sobre isso, Carlos Neto, professor e investigador da Faculdade de Motricidade Humana (FMH), disse em 2015 ao Observador que o ecrã “alterou muito significativamente a vida das crianças e dos pais”. “Passou-se da trotinete ao tablet de uma forma rapidíssima e não há equilíbrio. E o que está em causa neste momento é que nem a atividade desportiva que as crianças fazem em clubes, nem a educação física escolar, nem o desporto escolar — que são muito importantes — são suficientes para acabar com o sedentarismo que existe.”

Aos 44 anos e com duas filhas, de 7 e 8 anos, Sofia não diaboliza a tecnologia, mas faz questão de impor regras que, espera, um dia, as miúdas levem consigo para a complicada fase da adolescência. O ecrã mais utilizado lá em casa é a televisão, sobretudo para ver desenhos animados e filmes familiares como a saga “Harry Potter”. “A regra, embora não seja sempre cumprida, é dois desenhos animados quando chegam da escola, o que dá no máximo uma hora de televisão”, conta ao Observador. Limitar o tempo de acesso à televisão deriva da preocupação de Sofia, que considera que os estímulos emitidos por este ecrã são muito rápidos para os cérebros das crianças. “Se passar o tempo, a mais nova, por ter alguns problemas, fica perturbada, começa a rodopiar em loop, sem parar, a mexer freneticamente as pernas, até o discurso dela fica mais confuso.”

Outra regra imposta por Sofia passa pelo uso de smartphones: o uso exclusivo dos telefones dos pais (elas não têm gadget próprio) serve para jogar jogos escolhidos a dedo e testados pela mãe, preferencialmente que estimulem o raciocínio matemático, embora também haja momentos para “maquilhar e vestir princesas”. As filhas só podem jogar duas a três vezes por semana, cinco jogos à vez. “Quanto mais cedo elas tiverem noção de que os ecrãs têm de ser usados com inteligência, melhor. Eu não uso o telemóvel à frente delas, caso contrário nada disto faria sentido. Faço questão de dar o exemplo.”

Também o pedopsiquiatra Pedro Strecht considera que as tecnologias — em particular as aplicações — podem interferir no desenvolvimento das crianças, sobretudo em relação a algumas áreas cognitivas e de relação social. “Se um menino de 8 anos brinca no tablet ou se um de 12 anos joga na playstation, diria que isso é normal e não vejo mal nisso — só aconselho os pais a darem os jogos apropriados à idade dos filhos; mas se ele só brincar com o tablet ou com a playstation… Há crianças que crescem quase só com experiências de relação e de estímulo centradas no ecrã. Há pessoas que acham que tenho uma visão muito crítica em relação às tecnologias… As tecnologias têm coisas ótimas que podem facilitar ganhos de tempo, simplesmente acho que, nos dias de hoje, elas próprias se tornam tão opressivas no chamado tempo tecnológico que também bloqueiam a nossa vivência, o nosso tempo biológico e emocional”, já antes disse ao Observador.

O que mais preocupa a psicóloga Ivone Patrão é precisamente o estado das relações sociais. A socialização, diz, deve ser mista, tanto presencial como online. “O que me preocupa é se for só online. Se as crianças começam assim já não vão ter relações”, afirma, referindo-se ao impacto nas respetivas competências sociais. “Elas deixam de estar treinadas para a resposta em direto.”

Afinal, o que dizem os estudos?

Indepentemente da idade, Ivone Patrão refere que o ecrã tem, de facto, afetado pela negativa o ato de brincar. “Vejo que isso os deixa sentados, inertes, parados do ponto de vista físico. E há outra questão: o ecrã dá-lhes um input… o output vai ter de sair. Quando deixam de estar ao ecrã podem ficar mais irrequietos. A energia natural da infância tem de sair de outra forma. Isso tem impacto ao nível do comportamento e do ponto de vista cerebral. A luz do ecrã, por exemplo, pode provocar alterações no sono”, assegura.

O problema não é necessariamente o ecrã, mas o uso que se faz deste. Porque também nos smartphones ou nos tablets há vantagens: como a facilidade de acesso à informação, a capacidade de aprender novas línguas ou o facto de ser uma ferramenta útil na sala de aula. Nem de propósito, segundo um estudo do ano passado, publicado no jornal semanal The Lancet Child & Adolescent Health, limitar o tempo que as crianças passam a olhar para um ecrã melhora a sua capacidade de aprendizagem — o ideal seria passarem menos de duas horas por dia nessa condição.

Em 2017, a Sociedade Norte-americana de Pediatria apresentava um estudo — feito entre 2011 e 2017 com 894 crianças entre os seis meses e os dois anos — que mostrava que as crianças menores de dois anos que usavam ecrãs táteis corriam o risco de começar a falar mais tarde. Sobre isso, Catherine L’Ecuyer, doutorada em Educação e Psicologia e autora do bestseller “Educar na Curiosidade”, já antes disse ao Observador que “o tipo de interação que o tablet promove não é como a interação humana, que requer um processo ativo. Diante do ecrã, a criança anda a reboque de estímulos frequentes e intermitentes. Transforma-se numa espécie de porta USB ou numa impressora.”

As recomendações já antes citadas pela Organização Mundial de Saúde, tendo em conta o uso do ecrã por parte das crianças, não foram bem aceites por todos, já que o The Guardian cita especialistas que argumentam que, na sua base, há falta de provas. Juana Willumsen, uma das autores das referidas recomendações, diz que não há como negar que os ecrãs fazem parte da vida moderna, ao mesmo tempo que argumenta que o grupo de trabalho em questão não encontrou vantagens em introduzi-las a crianças com menos de três anos. “Capacidades sociais e cognitivas são mais bem desenvolvidas com outra pessoa do que com um ecrã. Cuidadores que brincam interativamente são absolutamente vitais para o desenvolvimento das crianças, em particular nos primeiros anos.”

1 em cada 5 crianças sofre de ansiedade e de depressão

Setembro 9, 2019 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , , , ,

Lucas Metz unsplash

Notícia e imagem do MAGG de 8 de maio de 2019.

por Miguel Lopes

É importante detetar o problema cedo, mas não é fácil em crianças com menos de 8 anos. Um estudo criou um algoritmo que promete ajudar.

A inteligência artificial já não pertence apenas aos filmes de ficção científica e agora está a ser testada com o propósito de detetar sintomas de ansiedade e depressão em humanos — mais especificamente, em crianças com menos de 8 anos.

De acordo com um estudo publicado no “Journal of Biomedical and Health Informatics”, citado pela “EurekAlert”, uma em cada cinco crianças sofre de ansiedade e de depressão. Como as crianças com menos de 8 anos não conseguem dar conta do seu sofrimento emocional, é preciso que os adultos consigam reconhecer o problema e agir depressa. E é aí que este tipo de tecnologia pretende focar.

“A maioria das crianças com menos de 8 anos não é diagnosticada [com este tipo de distúrbios]”, quem o diz é a psicóloga e uma das responsáveis pelo estudo, Ellen McGinnis. “São precisos testes rápidos e objetivos para ajudar as crianças quando elas estão a sofrer”, continua.

Foi então criado um algoritmo capaz de detetar este tipo de sintomas em crianças, onde foram avaliadas 71 miúdos entre os três e os oito anos.

Foi-lhes pedido que inventassem uma história de três minutos que iria ser avaliada por um júri. Depois de 90 segundos, soava uma campainha para apressar e tentar destabilizá-las.

O que os miúdos não sabiam era que o membro do júri era um dos psicólogos a trabalhar no estudo e que tinha como objetivo fazer comentários negativos sobre o que estava a ver.

“A tarefa foi projetada para ser stressante e para levar as crianças a acharem que alguém as estava a julgar”, afirmou Ellen McGinnis.

Além disso, as crianças foram ainda avaliadas através de uma entrevista clínica estruturada que depois foi complementada com um questionário realizado aos pais.

Ao que parece, o algoritmo funcionou de forma rápida e quase perfeita. “O algoritmo foi capaz de identificar crianças com distúrbios com 80% de precisão. Na maioria dos casos, isso foi facilmente comparado com a precisão da lista de verificação dos pais”, revelou o psicólogo e autor do estudo, Ryan McGinnis.

Segundo a mesma investigação, o algoritmo também identificou três características diferentes na gravação das histórias contadas pelas crianças — e que podem estar associadas a vários distúrbios psicológicos. São elas a baixa frequência da voz, a repetição de conteúdo e as respostas agudas ao ouvir a campainha.

Para a psicóloga Ellen McGinnis, o próximo passo vai ser “desenvolver o algoritmo e criar uma aplicação para os smartphones de forma a gravar e analisar os resultados mais rapidamente.” A ideia é alertar os pais o quanto antes para possíveis problemas dos filhos.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Giving Voice to Vulnerable Children: Machine Learning Analysis of Speech Detects Anxiety and Depression in Early Childhood

Estudo. Facebook e Instagram estão a prejudicar a saúde mental das crianças

Setembro 9, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Notícia e imagem do MAGG de 14 de agosto de 2019.

por Mariana Leão Costa

O estudo conclui que 51% das raparigas e 43% dos rapazes afirmam ligar-se às redes sociais mais de três vezes por dia.

No imediato, as redes sociais servem propósitos nobres como manter as pessoas ligadas e em permanente contacto. Mas nem sempre estes propósitos são assim tão altruístas. Os exemplos são muitos mas recordamos, por exemplo, o caso da mulher espanhola que, em maio deste ano, se suicidou por ver um vídeo seu de cariz sexual a ser partilhado nas redes sociais.

Agora, um novo estudo britânico publicado a 13 de agosto vem lembrar quais os impactos que as redes sociais podem ter na saúde mental das crianças. Segundo a investigação, estas plataformas expõem os adolescentes ao cyberbullying, retira-lhes horas de sono e ainda os leva a não fazer exercício físico.

O estudo foi realizado com uma amostra de mais de 12 mil crianças com idades entre os 13 e os 16 anos. Foi-lhes perguntado quantas vezes abriam as redes sociais por dia, mas não quanto tempo ficavam em cada uma delas. 51% das raparigas e 43% dos rapazes afirmaram ligar-se às redes sociais três vezes por dia.

Os investigadores concluíram que abrir o Facebook, o Whatsapp ou o Instagram semanalmente, aumenta o risco em 20% de as crianças sofrerem de distúrbios psicológicos. Aqueles que se ligavam mais de três vezes por dia tinham uma saúde mental mais pobre do que os outros que registavam valores mais baixos.

O estudo sugere ainda que as raparigas estão mais sujeitas a estes problemas do que os rapazes. “Os danos da saúde mental relacionados com a frequente exposição às redes sociais nas raparigas podem relacionar-se com a exposição ao cyberbullying e à falta de sono e exercício físico”, pode ler-se no estudo.

“As intervenções que promovam a saúde mental devem incluir esforços para prevenir ou aumentar a resiliência ao cyberbullying e assegurar um sono e exercício físico adequado nos jovens”, aconselham os investigadores

Poluição do ar causa um terço dos casos de asma nas crianças

Setembro 2, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , , ,

Notícia do Euronews de 9 de agosto de 2019.

http://www.youtube.com/watch?v=n4uQiRETz_o

De  Elza GONCALVES 

A poluição do ar é responsável por um terço dos casos de asma nas crianças. É o resultado de um estudo realizado em dezoito países pelo Instituto de Saúde Global, sedeado em Barcelona.

“Estimámos que, cada ano, há seiscentos mil novos casos de asma infantil nesses países. Um terço desses casos de asma são causados pela poluição do ar, especialmente pelas partículas finas com menos de 2,5 micrómetros em diâmetro”, explicou Mark Nieuwenhuijsen, autor do estudo e investigador do Instituto de Saúde Global.

As partículas finas são produzidas pela circulação automóvel, sobretudo pelos veículos a gasóleo e pela indústria. Por serem muitos finas, estas partículas alojam-se nos pulmões.

O impacto da poluição na saúde humana tem sido alvo de vários estudos. Recentemente investigadores chineses concluíram que a poluição tem um impacto negativo no desempenho cognitivo dos humanos, sobretudo nos homens.

Mais informações na notícia:

El 33% de los casos nuevos de asma infantil en Europa son atribuibles a la contaminación atmosférica

Stress do pai durante a gravidez também influencia comportamento das crianças

Agosto 28, 2019 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , , , , , , , ,

Danielle Macinnes / Unsplash

Notícia e imagem do Público de 6 de agosto de 2019.

O estado emocional da gestante já tinha sido relacionado com o comportamento das crianças. Agora, um novo estudo indica que o stress do pai e as dinâmicas do casal também influenciam a forma como os filhos se comportam.

Carla B. Ribeiro

O stress emocional do pai durante a gravidez é uma das causas dos problemas emocionais e de comportamento em crianças de 2 anos, conclui um estudo de uma equipa de investigadores das universidades de Birmingham, Cambridge, Leiden (Holanda) e Nova Iorque, publicado na revista Development & Psychopathology, editada pela Universidade de Cambridge. Mais: o mesmo trabalho relaciona os conflitos no casal aos problemas emocionais de crianças muito pequenas.

A equipa responsável destaca o facto de esta investigação se tratar da primeira a examinar a influência do bem-estar de mães e pais — e não apenas da mãe ou apenas do pai — antes, ao longo do terceiro trimestre, e depois do nascimento das crianças, tendo incluído a observação destas entre os 4 e os 24 meses de idade.

“Há muito tempo que as experiências do pai são tratadas em paralelo ou totalmente isoladas das [experiências da] mãe. E isto precisa de mudar porque a dificuldade de relacionamento das crianças tanto com o pai como com a mãe poderá ter efeitos a longo prazo”, explica Claire Hughes, a professora do Centro de Investigação para Família de Cambridge, em comunicado.

De acordo com os dados apurados pelos investigadores, o bem-estar da mãe de primeira viagem durante o período de gestação influencia directamente o comportamento observado quando os pequenos atingem os 2 anos, registando “birras, inquietação e mal-estar” naqueles cujas mães revelaram stress durante a gravidez. Porém, de acordo com o mesmo estudo, tanto o stress do pai como a relação do casal acaba por determinar o comportamento da criança nos seus primeiros anos de vida. E não apenas durante a gravidez, mas também nos primeiros meses do recém-nascido.

As descobertas apontam para que os bebés que tenham tido, nos primeiros meses de vida, um ambiente familiar tenso, com pai e mãe em stress pós-parto, mais tarde mostram-se “mais propensas a apresentar problemas emocionais”, seja por se revelarem preocupadas, infelizes e chorosas; por se assustarem facilmente; ou por mostrarem resistência a enfrentar qualquer situação que se apresente como uma novidade.

Para Hughes, este estudo torna-se de importância vital por identificar um problema que pode ser trabalhado com acompanhamento no tempo certo: “As nossas descobertas destacam a necessidade de um apoio mais precoce e efectivo para os casais se prepararem melhor para a parentalidade.” A pensar nisso, a equipa começou por partilhar as suas conclusões com a National Childbirth Trust (NCT), instituição britânica que tem como missão apoiar física e emocionalmente quem se prepara para um primeiro filho, ao mesmo tempo que diz “incentivar o NHS”, serviço nacional de saúde do Reino Unido, e outras organizações a reconsiderarem o apoio que oferecem, não o limitando à mãe, mas incluindo também o pai de primeira viagem e, em simultâneo, o casal.

A investigação teve por base uma amostra de 438 mães e pais enquanto esperavam pelo seu primeiro filho, no terceiro trimestre de gravidez, e incluiu o acompanhamento posterior dos três quando a criança tinha 4, 14 e 24 meses. Geograficamente, a amostra dividiu-se entre o Leste de Inglaterra, o estado de Nova Iorque e a Holanda.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Parental well-being, couple relationship quality, and children’s behavioral problems in the first 2 years of life

Página seguinte »


Entries e comentários feeds.