Imigrantes de segunda geração saem-se melhor na leitura do que portugueses

Abril 24, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança, Relatório | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 27 de março de 2018.

Diferença de 12 pontos no PISA não é significativa, mas não deixa de reflectir o empenho dos pais destes jovens na aprendizagem da língua, defende investigador.

JOANA GORJÃO HENRIQUES

Os filhos de pais estrangeiros não estão condenados a ter maus resultados. Já ter nascido em Portugal e falar português em casa pode fazer a diferença. Um estudo divulgado há dias, pela Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Económico (OCDE), mostra que nos últimos testes do Programme for International Student Assessment (PISA), que avaliam as competências de leitura dos jovens aos 15 anos, os chamados imigrantes de segunda geração em Portugal até se saíram melhor do que os portugueses.

Estes alunos obtiveram mais 12 pontos na Leitura do que os portugueses, analisa o especialista em estatística João Marôco. Em 2015, pela primeira vez, Portugal ficou acima da média da OCDE com 498 pontos (a média foi de 493).

A análise foi feita a partir de um relatório da OCDE, que saiu a 19 de Março, The Resilience of Students with an Immigrant Background. O especialista do ISPA — Instituto Universitário e coordenador do PISA de 2015 em Portugal lembra que o peso dos imigrantes na amostra nacional é reduzido: 3% no caso de segunda geração e de 4% na primeira.

Embora a diferença de 12 pontos não seja especialmente significativa, o facto de ela existir pode explicar-se pelo empenho dos pais na aprendizagem da língua como factor de integração, refere. Na literacia em Ciências e Matemática os números são aproximados entre portugueses e imigrantes de segunda geração.

As maiores distâncias de performance verificam-se entre portugueses e imigrantes de primeira geração, algo que é explicado pelo menor estatuto socioeconómico e cultural destes últimos, refere.

Outro dado: em geral, os alunos que falam português em casa têm desempenhos significativamente superiores a de quem não fala.

Na base de dados da OCDE não é possível diferenciar o país de origem dos alunos. O investigador admite que imigrantes de diferentes países apresentariam resultados diferentes.

No relatório, a OCDE diz que em Portugal as diferenças de performance no PISA entre alunos nativos e imigrantes não são explicados por diferenças socioeconómicas e culturais dos dois grupos. Mas o analista discorda: em Portugal os imigrantes de segunda geração têm um estatuto socioeconómico e cultural que é duas vezes superior ao dos portugueses. Já os imigrantes de primeira geração são mais desfavorecidos. Isto significa que “é evidente a inclusão bem-sucedida” dos imigrantes da segunda geração na sociedade portuguesa.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

The Resilience of Students with an Immigrant Background

 

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Crescendo entre ecrãs: competências digitais de crianças de três a oito anos

Abril 22, 2018 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Artigo publicado na Revista do Centro de Estudos de  Comunicação e Sociedade (CECS) Universidade do Minho

As crianças portuguesas de três-oito anos estão a crescer em lares apetre­chados com dispositivos móveis, individualizados, de pequeno porte e ecrãs tácteis, com aplicações diversificadas. Apesar desta ecologia digital, o pri­meiro inquérito nacional sobre como as crianças estão a crescer entre ecrãs (N= 656), realizado para a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), em 2016, contraria pressuposições de um boom tecnológico. Apenas 38% dos pais reportam que as crianças usam a internet e prevalece uma mediação centrada no controlo e na restrição. Este texto apresenta e discu­te resultados desse inquérito e do estudo qualitativo em 20 famílias cujas crianças acedem a meios digitais, centrando-se nas competências digitais. Estas incluem competências tradicionais (ler, escrever e contar), e outras re­lacionadas com acesso e uso das tecnologias digitais (Sefton-Green, Marsh, Erstad & Flewitt, 2016)

Castro, T. S.; Ponte, C.; Jorge, A. & Batista, S. (2017). Crescendo entre ecrãs: competências digitais de crianças de três a oito anos. In S. Pereira & M. Pinto (Eds.), Literacia, Media e Cidadania – Livro de Atas do 4.º Congresso (pp. 144-157). Braga: CECS.

visualizar / descarregar o artigo no link:

http://www.lasics.uminho.pt/ojs/index.php/cecs_ebooks/article/view/2671/2579

42% dos jovens portugueses não se identificam com nenhuma religião

Abril 20, 2018 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança, Relatório | Deixe um comentário
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Notícia e foto da http://visao.sapo.pt/ de 21 de março de 2018.

Estudo europeu divulgado esta quarta-feira caiu como uma bomba, mas a verdade é que apenas veio confirmar a tendência observada em inquéritos anteriores. E mostrar que não somos os únicos a afastarmo-nos da Igreja.

Quando se olha para percentagens quase sempre vem à cabeça a imagem do copo meio cheio e do copo meio vazio. Podíamos pegar no relatório Os Jovens Adultos e a Religião na Europa e escrever que a maioria dos jovens portugueses entre os 16 e os 29 anos identifica-se com uma religião, mas neste caso é o próprio autor principal do estudo que conclui: “A percentagem elevada de jovens adultos afirmando não ter nenhuma religião em muitos países é, sem nenhuma dúvida, o facto mais significativo deste relatório.”

É verdade que, segundo este relatório publicado pelo Centro de Religião e Sociedade Bento XVI, divulgado esta quarta-feira (atempadamente antes do Sínodo dos Bispos dedicado à juventude que o Vaticano agendou para outubro), 57% dos jovens portugueses se identificam com alguma religião. E que, entre estes, 53% dizem-se católicos. No entanto, é para os 42% de jovens que afirmaram não ter nenhuma religião que todos olham – aparentemente sem dramas.

“O cristianismo era originalmente muito estranho, e é provavelmente bom para nós sentirmo-nos um pouco estranhos”, já disse Stephen Bullivant, professor de Teologia e de Sociologia das Religiões na Universidade de St. Mary, no Reino Unido (onde também dirige o Centro Bento XVI), que encabeçou o estudo realizado em colaboração com o Institut Catholique de Paris, em França.

Bullivant e a sua equipa pegaram em dados recolhidos no European Social Survey (ESS), nas edições de 2014 e 2016, relativos a 22 países europeus, para fazerem um retrato da dimensão e prática religiosa dos jovens católicos. Os dados de Portugal são apenas de 2014, e a Itália ficou de fora porque em nenhum destes anos conseguiu financiar a realização de um inquérito.

Entre as conclusões a que chegaram, os investigadores destacam que, em 12 dos 22 países, mais de metade dos jovens adultos declararam não se identificar com nenhuma religião. À cabeça encontraram a República Checa, com uns esmagadores 91 por cento, e na cauda Israel, com 1 por cento. Logo em segunda posição no gráfico, com 80 por cento, ficou a Estónia. E acima de Israel encontra-se a Polónia, com 17 por cento, e a Lituânia, com 25 por cento. “É interessante constatar que os dois primeiros países e os dois últimos são países pós-comunistas”, escreve Bullivant.

É igualmente interessante ver quem são os nossos vizinhos na tabela do “não”: os irlandeses, com 39 por cento, e os alemães, com 46 por cento. Os espanhóis, nossos vizinhos no mapa mundi, ainda estão mais desligados da fé do que nós, com 55 por cento, mas mesmo assim bastante menos do que os seus vizinhos franceses, com 64 por cento.

Quanto à prática religiosa, depois de aplaudirem o facto de o ESS colocar igualmente esta questão a todos os inquiridos, religiosos ou não, Bullivant et al. analisam as respostas à pergunta “Fora de ocasiões como os casamentos e os funerais, quantas vezes assiste a um serviço religioso?”. Aqui, temos 35% de portugueses a confessarem nunca ir, e 20% a afirmar fazê-lo pelo menos uma vez por semana ou mais. “Em apenas quatro países, mais de um jovem adulto em dez declara ir a serviços religiosos pelo menos uma vez por semana: na Polónia, em Israel, em Portugal e na Irlanda”, notam os investigadores. Fora de missas e afins, é interessante verificar que a percentagem de quem assiste a serviços religiosos uma vez por semana ou mais aumenta ligeiramente (23 por cento); a resposta “nunca” desce, por isso, para 41 por cento.

Entre os que se disseram católicos, 27% dos jovens portugueses entre os 16 e os 29 anos afirmaram ir à missa pelo menos uma vez por semana e 17% assumiram-se como “não praticantes” (nunca vão à missa). Ter fé não é o mesmo que acreditar na Igreja – e aqui, sim, percebe-se por que razão Stephen Bullivant lamenta ter-se perdido toda uma geração.

 

Morte de bebés pode estar associada a músculos respiratórios

Abril 19, 2018 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Sábado

Notícia e foto da http://www.sabado.pt/ de 3 de abril de 2018.

por Diogo Camilo com Leonor Riso

Estudo do University College de Londres com quase 300 bebés vítimas de morte súbita, mostrou mutações nocivas em músculos respiratórios.

A medicina e a ciência têm um papel fulcral na prevenção de doenças e, a cada dia, há novas descobertas que tornam o mundo mais seguro. Agora, um estudo feito por cientistas e médicos britânicos poderá explicar a morte súbita de bebés com menos de um ano.

investigação conduzida pelo Centro de Doenças Neuromusculares do University College London colocou o seu foco no seu falecimento de lactentes – bebés entre os períodos de recém-nascido e pré-escolar – com anomalias genéticas nos músculos respiratórios.

Até à data, a maior parte do esforço científico estava fixada nos problemas cardíacos, mas as respostas deste estudo convidam agora a ciência a debruçarar-se sobre os genes que intervêm na respiração – um caminho que até agora ainda não tinha sido feito.

Nos países mais desenvolvidos, a síndrome da morte súbita do lactente (SMSL) é a principal causa de morte em menores de um ano. Apesar de serem conhecidos factores de risco como a posição de dormir, o tabagismo dos pais ou o calor, desconhecem-se as causas específicas destas mortes.

Os investigadores britânicos decidiram estudar os músculos respiratórios, assim como o diafragma e os músculos intercostais, que facilitam o trabalho dos pulmões. Foram identificados milhares de variantes genéticas presentes nos mortos por SMSL, após observados os genes que intervêm no desenvolvimento cardíaco.

A análise, publicada no jornal científico The Lancet, mostra que entre os bebés falecidos por morte súbita há uma grande proporção de variantes nos genes que codificam o desenvolvimento e funcionamento destes músculos.

O professor do University College London e co-autor deste artigo, Michael Hanna assegurou em entrevista ao El País que o estudo “é o primeiro a relacionar uma causa genética da debilitação dos músculos respiratórios com o SMSL” e sugere que “os genes que controlam o seu funcionamento podem ter um papel importante nesta doença.”

Num duplo estudo clínico, com observações primeiro no Reino Unido e, posteriormente, nos EUA, Hanna e os seus colegas examinaram, no total, o exoma – a parte codificante do genoma- de 278 bebés lactentes que morreram de SMSL. Aí, fixaram-se em concreto no gene SCN4A, que tem um papel importante no desenvolvimento das células musculares, em particular dos pulmões.

Na população em geral, perturbações associadas a este gene incluem vários transtornos de carácter genético como paragens temporárias da respiração ou miopatias. Por sorte, patologias como esta são bastante raras, tendo envolvido apenas 1,4% dos casos estudados.

Para Hanna, o trabalho futuro passa por estudar outros genes e canais de iões causadores de SMSL. Segundo o cientista, haverá “pelo menos 100 genes relacionados com os canais de iões musculares”.

 

 

A reputação importa desde o jardim-de-infância

Abril 15, 2018 às 3:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Texto do https://www.publico.pt/ de 29 de março de 2018.

As crianças começam a preocupar-se com a sua imagem pública e a cuidar da sua reputação logo no jardim-de-infância, por volta dos cinco anos, concluem dois investigadores norte-americanos. Mais cedo do que se pensava, portanto.

ANDREA CUNHA FREITAS

As crianças de cinco anos demonstram ser mais generosas e, de uma forma consistente, quando sabem que estão a ser observadas. Esta será uma das várias pistas que levou dois psicólogos norte-americanos a antecipar os primeiros sinais de preocupação com a reputação em crianças para a fase do jardim-de-infância. Até agora, a maioria dos estudos sugeria que os comportamentos que denunciam um cuidado deliberado com a imagem pública surgiam por volta dos nove anos, já durante a etapa do ensino básico.

O artigo com o título “Pequenas [a versão original é pint-sized, sem tradução para português mas que remete para um tamanho reduzido de algo] relações públicas: O desenvolvimento da gestão da reputação” foi publicado na revista Trends in Cognitive Sciences, do grupo Cell.

Ike Silver e Alex Shaw, investigadores na área da psicologia da Universidade de Pensilvânia e de Chicago, respectivamente, começam por constatar que até há pouco tempo existia muito cepticismo sobre o desenvolvimento de um comportamento complexo associado à reputação antes dos nove anos. Porém, notam os autores, os resultados de investigações recentes “sugerem que por volta dos cinco anos as crianças começam a perceber a ampla importância da reputação e envolvem-se numa gestão das impressões surpreendentemente sofisticada”. Tal como os adultos ou as crianças mais velhas, os miúdos que frequentam o jardim-de-infância revelam que querem ser aceites por aquelas pessoas que admiram. Os investigadores fizeram uma revisão de estudos publicados recentemente e encontraram sinais da percepção de crianças pequenas sobre a reputação, nomeadamente quando mostram agir propositadamente para ter uma imagem positiva.

Parece demasiado cedo mas o marco dos cinco anos para o início de um “sofisticado sistema de gestão da reputação” não é sequer definitivo. Pode até ser que esta preocupação com a imagem pública surja antes disso, adiantam os investigadores que constatam a necessidade de mais investigação nesta área. “Há muito tempo que os psicólogos se interessam pela forma como construímos as nossas identidades e pela diversidade de estratégias que usamos para estar na sociedade”, refere Alex Shaw, num comunicado de imprensa da Cell sobre o estudo.

Além da questão da idade, de acordo com estes investigadores, a gestão da reputação acontece em várias culturas, apesar das diferentes normas e expectativas sociais. Exemplo: “Num estudo recente com crianças da China e do Canadá, entre os sete e os 11 anos, os investigadores perceberam que os dois grupos se mostravam motivados em causar uma impressão positiva depois de praticar uma boa acção em privado, mas apresentavam estratégias diferentes: no caso das crianças chinesas havia mais probabilidades de esconderem esse bom comportamento (sinal de modéstia), enquanto nas crianças canadianas a probabilidade de divulgarem esse comportamento era maior.”

No artigo, os psicólogos apresentam o resultado de algumas experiências que usaram a partilha de brinquedos para explorar a questão da reputação e da preocupação com a imagem no seu ambiente social nas crianças. Além de revelaram mais generosidade quando estão a ser observadas, o que indicia uma preocupação com a imagem, também adoptam mais este tipo de bons comportamentos perante “pessoas-chave”, como o professor ou educador, por exemplo.

Numa experiência de um outro estudo, as crianças revelaram mais generosidade quando estavam a ser observadas por alguém que interagia com elas do que com uma pessoa sobre a qual não tinham expectativas de interagir mais tarde. Noutra experiência com crianças de seis anos relatada no artigo, os pequenos comportaram-se de forma justa na presença de um observador, mas já não o fizeram quando foram levadas a acreditar que podiam ser injustas e, mesmo assim, parecer justas.

Por último, os investigadores referem ainda que as crianças reagem quando lhes é dito que têm uma boa reputação aos olhos dos seus colegas e que, neste contexto, é muito menos provável que cedam a fazer uma aldrabice que lhes é proposta. Ou seja, conclui-se que fazem uma gestão da sua imagem e reputação. “Na sociedade estamos muito focados na construção de imagens e na autoapresentação, e os nossos filhos são antecipadamente expostos às ideias de imagem e estatuto social”, refere Ike Silver. “As crianças são sensíveis à forma como as pessoas que estão à sua volta se comportam, incluindo os adultos que valorizam muito a sua reputação.”

Mais do que constatar que o comportamento das crianças à volta dos cinco anos já denuncia uma preocupação com a reputação e a imagem, há muita coisa que ainda não se sabe. “Sabemos que os adultos usam uma grande variedade de situações para gerir e criar impressões, mas ainda não sabemos se as crianças entendem a importância de diferentes características (coragem, riqueza inconformismo) em diferentes momentos para diferentes públicos. Assim, é importante perceber onde, neste processo, as crianças conseguem controlar a sua reputação e onde têm dificuldade em fazer isso”, refere o comunicado. Os investigadores notam que é interessante, por exemplo, constatar que as crianças não reagem de forma negativa a algumas manifestações de “auto-promoção” – o chamado pôr-se em bicos de pés no mundo dos adultos.

E há também diferenças entre os cinco e os nove anos, ou seja, entre as crianças do jardim-de-infância e as da escola primária. Segundo os autores do artigo, a “generosidade privada” é aceite de melhor forma do que a pública para os miúdos à volta dos nove anos, enquanto para os mais pequenos passa-se exactamente o contrário. Talvez, admitem os investigadores, isso aconteça porque os mais novos são mais hábeis na gestão das suas próprias reputações do que na identificação deste comportamento nos outros. Os investigadores admitem que é necessário mais investigação com crianças mais novas para chegar a conclusões mais claras sobre este tema, e deixam mais uma intrigante questão em aberto: O que será que acontece antes dos cinco anos?

O artigo citado na notícia é o seguinte:

Pint-Sized Public Relations: The Development of Reputation Management

 

 

 

 

 

A adolescência pode ir até aos 24 anos? Os cientistas dizem que sim

Março 24, 2018 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Maria Gralheiro

texto do http://observador.pt/ de 5 de março de 2018.

Rita Porto

Marcar o início e o fim da adolescência tem sido um desafio, mas há quem aponte para uma fase que vai dos 10 aos 24 anos. Alimentação, desenvolvimento cerebral e mudanças sociais são as causas.

“Não consigo imaginar um período do desenvolvimento mais desafiante. Sempre que dou uma palestra e pergunto ao público se alguém quer voltar a passar pela adolescência, ninguém quer.”

J. Casey, neurocientista da Universidade de Yale (“Self, Drugs and Self-Control”, Revista Nature)

É a época do crescimento em altura, mas também do aparecimento das borbulhas. Das emoções assolapadas e das desilusões desmedidas. Dos BFF (Best Friends Forever, ou Melhores Amigos Para Sempre) e da zanga constante com os pais. É o tempo do só se vive uma vez e da constante procura de respostas. Da vontade de explorar o mundo, tendo como pano de fundo a insegurança e as dúvidas.

A adolescência está a anos luz de ser uma época fácil na vida dos seres humanos, mas todos, feliz ou infelizmente, passam por ela. É inevitável, mas não dura para sempre. Eventualmente chega ao fim. É capaz é de demorar mais tempo do que o desejado. 14 anos parece-lhe muito? Não é o que pensam os investigadores australianos que defendem que a adolescência é um período compreendido entre os 10 e os 24 anos.

Há várias décadas que se tenta balizar esta fase marcada pelo fim da infância e pela entrada na vida adulta, mas não tem sido tarefa fácil. Este foi o tema de um dos artigos publicado numa edição da revista Nature totalmente dedicada à complexidade da adolescência.

“É muito difícil delimitar-se algo que, no fundo, é uma transformação. Pôr limites é tornar redutora a complexidade humana e a complexidade do desenvolvimento”, diz a psicóloga Patrícia Câmara ao Observador. “Pode servir como baliza para a organização do pensamento, mas não para limitá-lo.”

Definir uma idade para quê?

A verdade é que impôr uma idade-limite na adolescência não é uma ciência exata. Para Bernardo Barahona, psiquiatra e investigador na área da neuropsiquiatria na Fundação Champalimaud, a definição dos limites de idade “depende do objetivo da definição”. Pode ter-se em conta a “maturação do aparelho reprodutor” e o fim desta maturação. Ou usar “um critério baseado em fenómenos fisiológicos” e de “maturação do sistema nervoso central”, que tem por base os desenvolvimentos a nível cerebral.

Pode ainda definir-se do ponto de vista social: um “período” em que se permite ao adolescente ter “comportamentos diferentes”, mas em que também “se exige mais” do jovem até se chegar a um ponto de “total autonomia” em que ele “sai de casa para construir a sua própria família”. A adolescência é também um período da vida em que há “uma janela de oportunidade para aparecerem problemas de saúde mental” como a ansiedade e a depressão.

Stanley Hall, psicólogo norte-americano e autor da obra “Adolescence: Its Psychology and Its Relation to Physiology, Anthropology, Sociology, Sex, Crime, Religion, and Education”, definiu, em 1904, que a adolescência começava aos 14 anos e terminava aos 24. Uma época de turbulência por culpa dos “mass media” e das “atividades imorais” como a dança e o alcoolismo. Mais tarde, no início dos anos 70, um detalhado estudo elaborado pelo pediatra James Tanner sobre o desenvolvimento físico das crianças até à idade adulta definiu que a puberdade começava aos 11 anospara as raparigas, nos rapazes cerca de seis meses mais tarde, e terminava para ambos os sexos pelos 15 anos.

A Organização Mundial da Saúde (OMS), por sua vez, considerou que a adolescência começava aos 10 e terminava aos 19 anos. Já no mês passado, foi publicado na revista Lancet Child & Adolescent um estudo de uma equipa de investigadores da Austrália que considera que, tendo em conta o desenvolvimento dos adolescentes nos dias que correm, esta fase deve ser considerada dos 10 anos aos 24 anos.

Alimentação influencia início da puberdade

De acordo com o artigo da Nature, os dados mais recentes dão conta de que o início da puberdade — que define a entrada na adolescência — se regista mais cedo, em particular em países como os Estados Unidos e a China. E aquilo que se definia como a entrada na idade adulta — e o fim da adolescência — é feito já na casa dos 20, devido às recentes descobertas ligadas ao desenvolvimento cerebral e às mudanças a nível social.

O facto de a puberdade começar cada vez mais cedo — em particular nas raparigas — está, em alguns países, ligado ao excesso de peso e à obesidade nas crianças. Quando Tanner fez o seu estudo numa casa de acolhimento de crianças em Londres, entre 1949 e 1971, a alimentação era escassa e à base de batata e pouca carne. O próprio investigador considerou que uma melhoria na nutrição podia levar a um aparecimento mais precoce da menstruação, por exemplo.

Sara Monteiro, especialista em psicologia clínica e da saúde e em psicologia da educação, sublinha ao Observador o “papel importante da nutrição” e do “acesso à alimentação” na “forma como o corpo se desenvolve” na fase inicial da adolescência.

O que acontece é que tem havido um decréscimo na idade em que a puberdade se inicia. Há meninas com 8, 9 e 10 anos que estão de forma notória na puberdade, com o desenvolvimento mamário e a menstruação em alguns casos”, afirma a investigadora do CINTESIS – Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde.

O pediatra Frank Biro, especialista em medicina da adolescência no Cincinnati Children’s Hospital (EUA), faz a mesma análise, mas deixa uma pergunta: “Será que elas já são adolescentes?”. Vários estudos demonstram que algumas jovens que entraram mais cedo na puberdade apresentam comportamentos de risco típicos dos adolescentes. Revelaram também, através de exames feitos aos cérebros dos jovens, que o desenvolvimento das amígdalas cerebelosas, zona do cérebro ligada ao processamento das emoções, é influenciado tanto pela idade como pelo início da puberdade, lê-se no artigo da Nature.

A psicóloga Patrícia Câmara propõe um olhar mais social para o início mais precoce da adolescência. “Parece-me que existe maior quantidade de informação e acesso a conteúdos que habitualmente não estavam acessíveis tão cedo — pelo menos não para a maioria dos miúdos — o que acelera, talvez, o início desta etapa de transição entre a infância e a vida adulta. Por outro lado, isso permite que a transição seja menos abrupta, que a entrada na adolescência seja mais progressiva e menos assustadora.”

Fim da adolescência: uma construção social?

Determinar o fim da adolescência, que é marcado pela entrada na idade adulta, é mais complexo, já que não há indicadores físicos como há para o início da adolescência. “Não temos uma definição física equivalente para o fim da adolescência. Não há uma definição clara, porque combina fatores de desenvolvimento físico e social”, refere John Coleman, psicólogo na Universidade de Oxford (Reino Unido), à Nature.

Sarah-Jayne Blakemore, neurocientista da University College London, vai mais longe, ao considerar que o fim da adolescência não passa de uma construção social, variável de cultura para cultura.

A verdade é que, atualmente, a entrada na vida adulta faz-se cada vez mais tarde devido a “alterações demográficas”: “Os marcadores sociais típicos da entrada na vida adulta não existem atualmente”, defende a psicóloga Sara Monteiro, sublinhando que o timing do casamento e da parentalidade se alterou, houve um alargamento da escolaridade obrigatória (além de os jovens ficarem a estudar até mais tarde), e há uma maior dificuldade no acesso ao mercado de trabalho e no acesso à habitação própria.

“Há algumas décadas, as pessoas tinham logo emprego quando terminavam os cursos — e as que não estudavam, também tinham os seus empregos. A partir daí, passavam para desafios como casamento e filhos. A vida de quase todos nós acontecia desta forma e hoje em dia não acontece. Existe uma enorme variabilidade demográfica”, afirma a docente da Universidade de Aveiro.

Atualmente, continua a investigadora do CINTESIS, as pessoas “com 30 e 40 anos não têm empregos estáveis”, não casaram ou não têm relacionamentos amorosos duradouros e “muito menos” têm filhos. “Mesmo as mulheres que quisessem ser mães aos 22 anos, não podem fazê-lo nas mesmas condições que as mães e as avós fizeram. Não têm estabilidade profissional, autonomia habitacional. Até podem ter estabilidade afetiva, mas têm uma maior dificuldade na estabilidade económica.”

Patrícia Câmara destaca ainda o facto de as pessoas, hoje em dia, viverem mais anos, o que permite aos adolescentes “consolidarem” questões identitárias, financeiras e profissionais. “O aumento da longevidade permite o prolongamento das etapas de vida. Não sei se é a barreira final da adolescência que se estendeu, se é a possibilidade de se adquirir mais ferramentas de vida ‘com as costas aquecidas’ que se expandiu.”

Ainda assim, acrescenta a especialista, pode servir para “perpetuar uma situação de autocentração e de dependência [dos pais]”, isto é, de o adolescente perpetuar de forma indefinida o salto para a vida adulta. “Aí estaremos a falar de uma adolescência ou início de vida adulta não com ‘as costas aquecidas’, mas sim ‘com as costas quentes’, o que é bem diferente e tem mais a ver com a dinâmica que se estabelece do que com as alterações do ‘novo mundo’”.

O apuramento da “máquina”

O avanço da ciência permitiu perceber que o cérebro continua a desenvolver-se até mais tarde do que se imaginava. Bernardo Barahona explica que a maturação do cérebro começa a partir dos 10/11 anos, altura em que se dá início a um processo através do qual “as ligações entre os neurónios vão sendo purificadas”, isto é, “são reforçadas as relevantes e aquelas associadas à aprendizagem, e são eliminadas as redundantes”.

A máquina vai ficando mais afinada de maneira a produzir sinais de informação mais limpos de ruído. Isto decorre durante a adolescência e fica concluído na idade adulta”, diz o psiquiatra.

“O desenvolvimento do cérebro vai dos 12/13 anos até aos 25/26 anos nas mulheres e 28/30 anos nos homens, mas não podemos considerar a adolescência esse período todo”, defende Teresa Summavielle, neurocientista e investigadora no Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto.

Para a neurocientista, a adolescência é a fase do desenvolvimento “em que há um desequilíbrio entre a maturação da parte racional [do cérebro] e a parte emocional”. O cortex pré-frontal, responsável pelo controlo dos impulsos, pelo controlo das emoções, pela capacidade de planear e pelo adiamento da gratificação, é a última fase do cérebro a ganhar maturidade.

“O lado emocional amadurece mais rapidamente que o racional e isso provoca, num período entre os 16 e os 18 anos, um desequilíbrio em que o comportamento é mais emocional do que racional. Por volta dos 19/20 anos, deve estar terminado e entramos no jovem adulto. Não quer dizer que o cérebro não continue a maturar até mais tarde, mas já não há este desequilíbrio”, adianta Teresa Summavielle.

“O adolescente acaba por ser adolescente biologicamente até mais tarde do que os 17, 18 anos”, acrescenta a psicóloga Sara Monteiro, professora auxiliar convidada da Universidade de Aveiro.

Sim, eles correm riscos. E ainda bem

Bernardo Barahona, docente na Nova Medical School, explica ainda que é o facto de a parte racional do cérebro amadurecer mais lentamente — atingindo um ponto de maturação já depois do 20 anos — do que a que está ligada às emoções que leva os adolescentes a ter comportamentos de maior risco.

Os circuitos neurais e a ligação às emoções amadurecem primeiro. Há um súbito desenvolvimento das emoções e da preocupação com as próprias emoções e com as dos outros. A zanga, o amor, a raiva são mais intensos, a autoestima é muito mais frágil, o impulso de prazer é muito mais difícil de controlar. O adolescente quer a coisa agora, não há travão.”

“Acaba por provocar uma dificuldade na avaliação do risco e como fazem essa avaliação menos cuidada, têm mais problemas”, acrescenta Teresa Summavielle.

Um artigo da Nature, intitulado “Sexo, Drogas e Auto-Controlo”, refere precisamente que os neurocientistas compararam o cérebro de um adolescente ao de um carro com um excelente acelerador, mas com travões defeituosos.

É um facto que os adolescentes correm mais riscos que os adultos. A mortalidade nos jovens entre os 15 e os 19 anos é 35% superior àqueles que têm entre 10 e 14 anos. A maior causa de morte nos adolescentes são os acidentes de viação, mas a automutilação e outras formas de violência também se destacam no ranking.

A influência dos pares no comportamento de risco é igualmente destacada neste artigo. Um estudo de 2009 pôs adolescentes a jogar um jogo, em que lhes era dito que tinham de conduzir um carro que tinha de passar por 20 semáforos em apenas seis minutos. Quando jogavam sozinhos, corriam os mesmo riscos que um adulto — passar um sinal vermelho, por exemplo, arriscando-se a chocar contra um outro carro. Contudo, quando eram informados de que os amigos estavam a assistir, corriam muitos mais riscos. E quando lhes era dito que estavam a ser observados pela mãe tinham o comportamento inverso: arriscavam menos.

Estes dois factores de influência no comportamento dos adolescentes ativaram também áreas distintas no cérebro: quando lhes era dito que estavam os amigos a assistir, a área do cérebro ligada à recompensa era ativada, enquanto que a presença da mãe ativava a área do cortex pré-frontal (ligada ao controlo).

Mas nem todos se comportam desta maneira, sublinha Teresa Summavielle. “Os adolescentes correm mais riscos quando sabem que os amigos estão a ver, e alguns adolescentes, sobretudos os mais provocativos, escolhem fazer aquilo que vai contra o que os pais desejam, mas não todos.”

Estudar o funcionamento do cérebro de um adolescente, e de que forma isso influencia o seu comportamento de risco, pode ajudar na criação de normas e leis relacionadas com a condução nos jovens e as punições aplicadas àqueles que praticam crimes violentos — isso já está a acontecer nos Estados Unidos, com os investigadores a partilharem informações com o sistema de Justiça.

Para Teresa Summavielle, uma vez que é “claro que o período de reformatação cerebral se prolonga até bastante mais tarde que os 18 anos”, isto deveria ser tido em conta “nas políticas de apoio à adolescência”. “Continuamos a ter os adolescentes que estão ao cuidado do Estado a serem ‘expulsos’ do sistema quando completam 18 anos, o que é claramente demasiado cedo.

A Nova Zelândia, por exemplo, fez uma revisão na política de proteção das crianças no ano passado. Relatórios davam conta de que os adolescentes não estavam a lidar bem com o facto de deixarem de se tornar independentes a partir dos 18 anos, por isso o governo neo-zelandês decidiu prolongar o apoio estatal entre os 18 e os 25 anos.

Este desenvolvimento mais tardio do cortex pré-frontal também influencia a forma como “valorizam a recompensa” e o que estão “dispostos a fazer” para obtê-la, explica a neurocientista. “Aquilo que para um adulto não é atrativo, para eles é muito atrativo. O risco que estão dispostos a correr para ter determinada recompensa é muito mais elevado do que um adulto.” A forma como lidam com a decepção também é muito própria desta idade. “Quando têm expectativa de determinada recompensa, a decepção é muito mais intensa do que nos adultos. Têm reações mais violentas, menos pensadas. É uma coisa que se vê muito na sala de aula.”

A falta de noção dos riscos leva também os adolescentes a terem comportamentos que podem pôr em causa a sua saúde na vida adulta, como o consumo de álcool, tabaco, drogas e até um estilo de vida mais sedentário. Mas nem todos os riscos são negativos: os adolescentes consideram que defender um amigo ou convidar alguém para sair é um risco, mas positivo — um risco social. Aliás, o artigo refere que aquilo que, a nível cerebral, estimula o jovem a correr riscos mais negativos para a sua saúde também os impulsiona para os riscos positivos.

Ainda assim, os especialistas sublinham a importância destes comportamentos para o desenvolvimento dos adolescentes. “Eu não diria que queremos que as pessoas deixem de correr riscos. Muitos deles fazem com que eles se tornem adultos em situações seguras”, considera B. J. Casey, neurocientista da Universidade de Yale.  Teresa Summavielle faz a mesma ressalva. “Os adolescentes que não correm riscos provavelmente não vão ser adultos saudáveis. O importante está mesmo nas ferramentas de que estão munidos para poder fazer uma correcta avaliação do risco. Esse é um dos papéis dos adultos, dar-lhes essas ferramentas.”

“Terreno fértil” para conceitos como igualdade de género

A adolescência, em particular entre os 10 e os 14 anos, é também a altura ideal para começar a introduzir conceitos e normas ligados à igualdade de género, graças às várias mudanças pelas quais o cérebro passa durante esta fase da vida. Um outro artigo publicado pela Natureexplica que entre os 9 e os 12 anos, os jovens começam a ter um pensamento mais abstrato, algo que não acontecia quando eram crianças — o pensamento era mais concreto — além de se dar início ao desenvolvimento do cortex pré-frontal.

“É nesta idade que começa a reformatação na forma como os neurónios comunicam uns com os outros”, explica Teresa Summavielle, tal como já tinha dito Bernardo Barahona: fazem-se muitas ligações entre os neurónios, sendo que algumas são reforçadas e outras eliminadas.

Durante a adolescência, assiste-se a um fortalecimento do raciocínio e a um desenvolvimento da criatividade. Os jovens começam a pensar sozinhos e a ter opiniões e crenças próprias. É esse pensamento crítico que se forma nesta fase da vida que permite ao jovem pôr em causa normas de género desiguais, refere o artigo da Nature, que destaca a importância de os adolescentes participarem em discussões sobre a temática da igualdade de género.

Para Teresa Summavielle, os 12 anos são “seguramente” uma boa idade para “‘semear’ valores que permitam um desenvolvimento mais equilibrado, como os que estão associados à interiorização da igualdade entre géneros”. “Aos 10 anos depende muito de criança para criança”, afirma a investigadora do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto.

Este tipo de conceitos implicam um arcabouço intelectual que não existe numa criança de sete anos, por exemplo. Eles têm dificuldade em entender coisas abstratas, precisam de referências claras e um bocadinho estereotipadas”, afirma o psiquiatra Bernardo Barahona. “Só na entrada da adolescência é que há maturidade para entender. Além de que é uma fase que se caracteriza por uma enorme curiosidade, pelo pôr em causa as coisas. É um terreno fértil para mudar mentalidades.”

Patrícia Câmara, contudo, não acredita que “haja uma idade propícia para se falar sobre estes temas”. “Efectivamente a plasticidade neuronal da adolescência e as novas competências psiconeuroimunológicas da pré-puberdade e puberdade facilitam a desconstrução de conceitos e viabilizam a discussão reflexiva dos papéis de género. Faz sentido conversar de um ponto de vista crítico que permite pôr em causa estas temáticas, mas não poria a tónica nesta idade. A possibilidade está lá desde sempre, há um processamento inconsciente das coisas”, afirma a psicóloga.

A promoção da igualdade de género, contudo, deve ser promovida desde a infância. O que deve ocorrer na adolescência é uma intensificação destas ideias. A verdade é que esta diferenciação entre o género masculino e feminino começa desde cedo e não tem um fundamento apenas biológico. Prova disso são as causas de mortalidade infantil. Se, em 2016, as causas mais comuns para as crianças entre os cinco e os nove anos eram as mesmas — infeções respiratórias e doenças diarreicas –, isso começa a mudar a partir do início da adolescência. As causas de morte nas raparigas mantêm-se entre os 10 e os 14 anos, mas nos rapazes elas passam a ser acidentes de viação e afogamento. Ainda na adolescência, entre os 15 e os 19 anos, as patologias associadas à maternidade e o auto-flagelo passam as ser as maiores causas de morte nas raparigas e nos rapazes são, mais uma vez, os acidentes na estrada e a violência interpessoal.

A psicóloga Sara Monteiro também sublinha que “todos os estudos” indicam que a prevenção de comportamentos de risco em relação, por exemplo, ao álcool e à violência no namoro “deve ser feito muito precocemente”, mas antes da adolescência é “difícil” porque “não têm esses conceitos”. Ainda assim,  a professora da Universidade de Aveiro acredita que isto pode ser feito “de forma indireta”. “Ainda hoje há muito a separação de brincadeira: são os meninos que brincam com bolas e as meninas com bonecas”.

Este trabalho na forma como se vê o género pode ser feito através da “formação parental” e ao nível das escolas e da comunicação social. “Estas questões de género são promovidas de forma muito subtil e, por vezes, são difíceis de alterar porque estão enraizadas nos pais, nos professores e na forma como atuam”, refere Sara Monteiro. “Para promover essa mudança, a intervenção terá de ser feita em vários níveis e em simultâneo. Queremos atuar nestes pré-adolescentes que ainda estão permeáveis à aprendizagem, que ainda não têm ideias pré-formadas.”

A formação dos pais é particularmente importante nesta questão, uma vez que transmitem estas ideias de género, seja através de uma comunicação explícita, seja através de comportamentos que os próprios pais adotam em casa, lê-se no artigo da Nature. “Se uma criança crescer num ambiente em que não há co-responsabilização das tarefas domésticas, na responsabilidade dos filhos e assistir a isto todos os dias, continua a haver uma perpetuação neste papel de género”, defende a psicóloga.

Os pares, por sua vez, também desempenham um papel essencial, já que é através destes relacionamentos que os adolescentes moldam a forma como vêem o mundo e reconhecem, não só os seus papéis enquanto rapaz e rapariga, mas também as expectativas da sociedade em relação a eles. A relação entre pares tem um lado negativo e positivo: pode exercer alguma pressão social, mas é também fonte de apoio social e emocional.

No que toca aos média e às escolas, ambos por norma dão mais destaque aos homens e tendem a caracterizá-los como mais prestigiados do que as mulheres, que costumam ficar relegadas para papéis secundários, dependentes dos homens e ligadas a tarefas domésticas. “Há uma sexualização do corpo feminino constante e de forma muito notória, o que contribui para que as crianças e as meninas cresçam muito julgadas pelas questões de aparência física, o que é uma questão fundamental quando se fala na questão de género.”

“A igualdade de género (respeito pela diferença entre aquilo que ainda é atribuído aos géneros), no fundo, a possibilidade de não se coarctar uma parte da experiência da vida apenas pela atribuição biológica do sexo, está na verdadeira paridade, na igualdade de possibilidades e não na anulação das diferenças individuais. O terreno biológico não deve ser impeditivo do acesso a qualquer tipo de desempenho”, conclui Patrícia Câmara.

ilustração de Maria Gralheiro.

 

 

 

Adolescentes: um carro sem travões com uma vida social online

Março 18, 2018 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 26 de fevereiro de 2018.

A revista Nature dedicou esta semana uma edição especial à ciência da adolescência. Em vários artigos e em várias revistas do grupo, fala-se desta fase crítica de um ser humano onde existem tantas oportunidades como vulnerabilidades.

ANDREA CUNHA FREITAS

Desde o smartphone que não largam da mão até às sinapses e outras mudanças que ocorrem no cérebro, passando pelos riscos que se atrevem a correr e ainda pelo debate actual sobre quando começa e quando acaba esta fase entre a infância e a idade adulta. A edição especial desta semana da revista Nature, que inclui vários artigos científicos e reportagens dispersos por diferentes revistas científicas do grupo editorial, é dedicada à ciência da adolescência. Só para início de conversa fica, desde já, um aviso: há uma mudança em curso e, ao que parece, agora a adolescência pode começar aos dez anos e só acabar aos 24 anos.

Um dos artigos desta edição alerta para um dado importante que pode ajudar a contextualizar os vários trabalhos sobre o mesmo tema: 90% dos adolescentes vivem em países pobres, mas os que são envolvidos nos estudos dos cientistas pertencem à minoritária fatia dos 10% dos países mais desenvolvidos, com acesso a saúde, educação, tecnologias, entre outras experiências que os separam e os afectam em todos os sentidos. E o retrato do adolescente que vive no nosso moderno mundo cheio de oportunidades e tentações pode ter muitas diferenças mas terá, pelo menos, uma coisa em comum: um smartphone na mão.

“Smartphones são maus para alguns adolescentes mas não para todos” é o título de um artigo de opinião que faz parte do “pacote” da ciência da adolescência da Nature. O texto nota que mais do que fazer parte das forças do bem ou do mal, as actividades online dos adolescentes podem é reflectir ou mesmo agravar vulnerabilidades que já existem.

O artigo reforça que a vida social dos adolescentes faz-se sobretudo online e apresenta uma série de dados sobre a saúde mental dos miúdos que se apoiam neste convívio à distância.Uma revisão de 36 estudos publicados entre 2002 e 2017 concluiu que os adolescentes usam a comunicação digital para fortalecer as suas relações, partilhar detalhes íntimos, manifestar afectos e combinar encontros. E isso é mau? Depende. “Os adolescentes que enfrentam mais adversidade offline parecem estar mais vulneráveis aos efeitos negativos do uso dos smartphones”, apontam os investigadores, especificando ainda que um historial de vitimização fora das redes sociais fará com que sejam alvo de bullying e outras agressões também online. Fica ainda um alerta para uma vigilância da actividade online que pode revelar pistas sobre saúde mental, acrescentando-se que cientistas da área da computação já demonstraram que é possível prever um cenário de depressão através da análise dos padrões de envolvimento e das publicações nas redes sociais.

“Sexo, drogas e autocontrolo”

Uma vida social online pode ter os seus perigos, mas há mais perigos na estrada da adolescência. “Sexo, drogas e autocontrolo” é outro dos artigos e, desta vez, o tema é a já muito investigada propensão dos adolescentes para correr riscos. Kerri Smith assina a reportagem na Nature com testemunhos de vários especialistas na matéria. A repórter lembra, por exemplo, que os neurocientistas associaram a imagem do cérebro de um adolescente a um carro com um motor acelerado e falhas nos travões. A propósito de carros, cérebros e riscos, Kerri Smith fala sobre os curiosos resultados de uma experiência em laboratório com adolescentes que relacionou os perigos com a influência dos pares. O teste era uma espécie de jogo de corrida com o objectivo de percorrer um trajecto com 20 semáforos em seis minutos.

Os resultados dispensam qualquer comentário. Quando jogaram sozinhos, os adolescentes correram tantos riscos (passar sinais vermelhos enfrentando o perigo de colidir com outro carro) como um adulto a jogar o mesmo jogo. Quando souberam que os seus amigos os estavam a observar “correram significativamente mais riscos”. E quando sabiam que as mães os estavam a observar “correram menos riscos”. Nas experiências, os cientistas observaram os padrões de actividade cerebral e detectaram, por exemplo, uma activação de áreas associadas à recompensa quando os amigos estavam a observar e uma activação da região do córtex pré-frontal (associada ao controlo cognitivo) quando os observadores eram as progenitoras.

Mas, se a influência dos pares foi negativa neste jogo de corrida, os cientistas também sabem que esta é uma rua com dois sentidos. Os amigos dos adolescentes também podem ser uma influência positiva nas suas vidas. Um aplauso ou simples incentivo para uma boa acção (também houve jogos em laboratórios com donativos e outros exercícios) funciona como um estímulo para mais coisas boas.

Depois há riscos e riscos. O artigo jornalístico lembra, por exemplo, que convidar alguém para sair à noite pode ser encarado como um acto arrojado (um risco social, portanto). Aliás, sublinhe-se, que os cientistas já perceberam também que os circuitos cerebrais usados para correr riscos “negativos”, que ponham em causa a sua integridade física, são os mesmos que ajudam os adolescentes a enfrentar “riscos positivos”. E os receptores de dopamina, um mensageiro químico no cérebro, aumentam em ambos os casos.

Porém, há uma importante ressalva a fazer. Tudo isto são conclusões retiradas de estudos em laboratório, ou seja, adolescentes num ambiente controlado. “Como é que conseguimos imitar num frio laboratório numa quinta-feira à tarde o que se passa num sábado à noite?””, questiona a neurocientista Adriana Galván, da Universidade de Califórnia em Los Angeles (EUA), citada na reportagem.

O que sabemos do que salta da rua, longe dos laboratórios, é que os primeiros lugares na lista de causas de morte entre os dez e os 19 anos são ocupados por comportamentos de riscos. Os rapazes (sobretudo entre os 15 e 19) morrem em acidentes na estrada, por causa de episódios de violência e por ferimentos causados pelos próprios (suicídio). As raparigas entre os 15 e 19 anos morrem da sequência de complicações durante uma gravidez, ferimentos causados por si e acidentes na estrada. Por esta ordem.

Há, no entanto, algumas dicas para prevenir os prováveis desvios. Exemplo? Deixar os adolescentes dormir até mais tarde. “Os adolescentes que não dormem o suficiente são mais propensos a adoptar comportamentos de risco, como fumar e relacionados com a actividade sexual.” Foi baseada em dezenas de estudos publicados sobre este tópico que a Academia Americana de Pediatria divulgou recentemente uma recomendação para que nesta faixa etária as aulas comecem a partir das 8h30 ou mais tarde ainda, se possível.

Adolescência pode durar 14 anos?

A investigação sobre esta parte da viagem para a vida adulta num carro com falhas nos travões tem estado muito apoiada nas tecnologias de imagem que nos permitem ver o cérebro a funcionar. No entanto, e apesar dos muitos avanços nesta área, estas fotografias ou filmes da actividade cerebral ainda têm muito ruído e sinais difíceis de interpretar.

A adolescência é um momento único de sintonização e amadurecimento do cérebro. Hoje, ao contrário do que julgávamos há relativamente pouco tempo, sabemos que o cérebro continua a mudar e a moldar-se durante a adolescência. Neste período, assiste-se, por exemplo, à afinação das sinapses (as ligações entre os neurónios) que se reduzem entre a infância e a idade adulta.

Um comentário assinado por Matthew B. Johnson e Beth Stevens, investigadores no centro de neurobiologia do Hospital de Crianças de Boston e na Escola Médica de Harvard, no Massachusetts, nos EUA relaciona a quebra de sinapses (ou o momento da poda das ligações neuronais, como os neurocientistas lhe chamam) com a probabilidade de sofrer de esquizofrenia. O texto lembra que esta associação foi feita (pela primeira vez) em 1979, mas só foi explorada nos anos mais recentes. As novas tecnologias de imagem, por exemplo, levaram à conclusão de que uma poda excessiva das sinapses aumenta o risco de sofrer deste distúrbio mental. As ferramentas para estudos genéticos permitiram identificar um gene (C4) que não só interfere neste mecanismo cerebral como também apresenta alterações em doentes com esquizofrenia.

Sabia-se que a esquizofrenia tende a manifestar-se no final da adolescência. O que nos leva a outra importante questão: onde é que, afinal, começa e acaba a adolescência? Hoje, baseados na biologia como o aparecimento cada vez mais precoce da menarca e outros sinais de puberdade, muitos cientistas já consideram que a adolescência começa por volta dos dez anos. E se o fim dos teenagers se adivinhava pelos 18 e 19 anos como o próprio estrangeirismo sugere, agora isso está a mudar. Em Janeiro deste ano, foi publicado um estudo na revista Lancet Child & Adolescent que defende que os “teens” podem ir afinal até aos… 24 anos.

Dizem os cientistas que, por um lado, o cérebro continua a desenvolver-se no início dos 20 anos e, por outro lado, que as mudanças sociais mostram que a entrada na vida adulta acontece mais tarde do que no passado. Saem de casa mais tarde, entram no mercado de trabalho mais tarde, casam mais tarde, têm filhos mais tarde.

Na reportagem “Os limites em mudança da adolescência”, a repórter Heidi Ledford mostra que a discussão já chegou a um ponto em que se antevê a necessidade de adaptar a sociedade a estes novos marcos. “Cientistas, médicos e decisores políticos enfrentam um momento em que se debatem com estas fronteiras em mudança”, sublinha o artigo, acrescentando ainda que a comunidade médica e judicial terá de decidir urgentemente quando é que uma pessoa é considerada capaz de tomar decisões adultas. “Uma conceptualização clara da adolescência não é só uma picuinhice semântica”, diz Jay Giedd, neurocientista na Universidade de Califórnia em San Diego. “Tem implicações profundas para os sistemas clínicos, educativos e judiciais.”

Fixar limites é útil para todos, mas a especialista Sarah-Jayne Blakemore avisa, na reportagem, que dificilmente serão os neurocientistas a defini-los. A neurocientista da Universidade College de Londres estuda os adolescentes há vários anos e sabe do que fala. Nota que as diferentes culturas desenham diferentes limites e que a estrutura e funcionamento do cérebro variam tanto de pessoa para pessoa que a tarefa de colocar um ponto final biológico na adolescência parece impossível. “Não existe tal coisa como um adolescente típico.”

A edição especial da Nature explora várias frentes da ciência da adolescência. São uma dúzia de artigos que respondem a algumas questões sobre esta fase entre a infância e a idade adulta, cada vez menos enigmática. Uma altura crítica para prevenir comportamentos ilegais ou criminosos? A adolescência. O momento para “ensinar” as bases de uma sociedade apoiada na igualdade de género? A adolescência. Uma fase em que os media, as redes sociais e outros mecanismos digitais têm um “poder” que pode fazer a diferença entre o bem e o mal? A adolescência. Uma oportunidade para prevenir, tratar, criar problemas ou agravar a saúde mental? A adolescência. O grupo etário com menos acesso à saúde nos países pobres? Os adolescentes.

No pequeno texto que apresenta esta colectânea de trabalhos sobre a adolescência, a Nature fala da sua natureza paradoxal. Um tempo de riscos e vulnerabilidades que coincide com crescimento e oportunidades. E os cientistas parecem finalmente rendidos ao tema. “Não consigo encontrar um período de desenvolvimento mais desafiante”, conclui B.J. Casey, neurocientista da Universidade Yale em New Haven, Connecticut, num dos textos. Porém, acrescenta: “Sempre que dou uma palestra, peço às pessoas que levantem a mão se estivessem dispostos a passar pela adolescência outra vez. E ninguém o faz.”

mais informações no artigo:

Sex and drugs and self-control: how the teen brain navigates risk

 

 

 

 

Sexting é cada vez mais comum. Cerca de um quarto dos adolescentes fazem-no

Março 11, 2018 às 6:24 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 28 de fevereiro de 2018.

De acordo com um estudo publicado esta semana, 14,8% dos jovens assumem enviar sexts e 27,4% recebê-los.

CATARINA LAMELAS MOURA

De acordo com um estudo publicado esta semana pelo JAMA Pediatrics, cerca de um quarto dos adolescentes usam os telemóveis para partilhar imagens, vídeos ou mensagens sexualmente explícitas – uma prática geralmente conhecida em inglês como sexting.

Partindo da análise de 39 estudos (com 110.380 participantes, com menos de 18 anos), esta meta-análise aponta que actualmente cerca de 14,8% assumem enviar sexts e 27,4% recebê-los. A discrepância pode ser explicada por vários factores: “alguns inquiridos podem relatar a menos as suas interacções de sexting, alguns sexters podem enviar a mesma imagem a várias pessoas e aqueles que recebem um sext podem não retribuir”, aponta o estudo.

Os investigadores focaram também a análise na prática não consentida, concluindo que cerca de 12% dos jovens já enviaram uma mensagem deste tipo sem consentimento e 8,4% foram o sujeito de uma mensagem enviada sem o seu consentimento.

Tendo em conta a crescente prevalência da prática de sexting – em linha com a ubiquidade dos telemóveis hoje em dia – os investigadores defendem que deve haver mais informação sobre sexting e as potenciais consequências e que este tema deve ser uma componente da educação sexual. Os estudos existentes mostram que “sexting é um indicador do comportamento sexual e pode estar associado a outras questões de saúde e de comportamentos de risco”, apontam.

“Fizemos este estudo porque o tópico é uma preocupação urgente para a maioria dos pais, que são confrontados com a dupla ameaça de tentar compreender o funcionamento do mundo digital, ao mesmo tempo tendo de navegar pelas conversas sobre o comportamento sexual com os seus adolescentes”, comenta Sheri Madigan, autora principal do estudo e professora na University of Calgary, no Canadá, ouvida pelo Culto.

A questão prende-se mais com a privacidade do que com a prática de sexting em si. “Quando se carrega no botão, a juventude confia que as imagens não serão partilhadas. Sexting não é um problema quando esta confiança não é violada”, indica Madigan. A tecnologia de eleição – o telemóvel – pode ser enganadora, dando uma ilusão errada de privacidade: “[os jovens] podem não ter um entendimento claro de que quando as imagens são enviadas, perdem o controlo de como os receptores lidam com as mesmas”. O sexting também se torna problemático quando os jovens são pressionados ou coagidos, seja por uma pessoa ou pelos pares, aponta ainda.

Também o tema pornografia de vingança (ou revenge porn, na expressão inglesa) – pessoas que publicam imagens ou vídeos com conteúdo sexual de parceiros – tem alarmado as autoridades. No ano passado, o Facebook anunciou que estava a testar na Austrália uma forma de prevenir a revenge porn, em colaboração com o organismo governamental de cibersegurança daquele país. A proposta passava por guardar imagens íntimas na forma de uma impressão digital, para impedir que qualquer pessoa fizesse upload dessa mesma imagem. No ano passado, dois casos chamaram a atenção dos media: o de uma rapariga filmada num autocarro, enquanto um rapaz tocava nas suas partes íntimas, durante a Queima das Fitas do Porto, e o de uma estudante da Universidade do Minho filmada seminua durante a semana académica, em Braga.

Madigan aconselha os pais a serem proactivos em relação à segurança digital, a “terem conversas abertas cedo e frequentemente, não apenas quando surge um problema”. Há alguns temas que merecem maior relevo: “Os riscos de sexting e as potenciais consequências legais; garantir que as crianças sabem que não está certo pressionarem ou serem pressionadas a enviar um sext e informá-las de que quando uma imagem é enviada, perdem o controlo da mesma”.

Há vários recursos que os pais podem consultar. A investigadora refere o Common Sense Media’s Sexting Handbook (em inglês).

 

 

“Sexting” cresce entre os adolescentes

Março 4, 2018 às 6:24 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.dn.pt/ de 27 de fevereiro de 2018.

Nos últimos dez anos, cresceu o número de crianças e jovens que enviam e recebem mensagens sexuais explícitas

A troca de mensagens sexuais – “sexting” – entre adolescentes e crianças mais novas aumentou ao longo da última década, indica um novo estudo publicado esta segunda-feira na revista JAMA Pediatrics. De acordo com a investigação, um em cada quatro jovens disse ter recebido mensagens de cariz sexual e um em cada sete revelou ter enviado.

O estudo, que pode ser consultado aqui, foi divulgado pela CNN e revela que a pesquisa incluiu dados de 39 projetos de inquéritos realizados entre janeiro de 1990 e junho de 2016, com um total de 110.380 participantes, todos com menos de 18 anos – incluindo alguns jovens de 11 anos.

Os investigadores concentraram-se nos dados desde 2008 e encontraram um aumento no “sexting” – (contração de sex e texting), um anglicismo que se refere à divulgação de conteúdos eróticos e sensuais através de telemóveis.

O aumento do número de jovens envolvidos no envio ou receção de fotografias ou mensagens sexualmente explícitas correspondeu ao acesso em cada vez maior a telemóveis. Conscientes dessa tendência, os autores do estudo sugerem que “informações específicas sobre o sexo e suas possíveis consequências devem ser regularmente fornecidas como uma componente da educação sexual”.

Na verdade, não está a acontecer nada de novo, a não ser a introdução da tecnologia na equação. Os investigadores descobriram que os adolescentes que se envolvem em “sexting” fazem-no como uma maneira de começar a explorar a atração que sentem por outras pessoas.

“À medida que os adolescentes envelhecem vamos ver estes números a crescer… Tal como acontece no comportamento sexual real”, disse o co-autor do estudo, Jeff Temple, professor de psiquiatria na Universidade do Texas.

 

 

 

 

Uso excessivo da internet pode causar depressão e comportamentos neuróticos

Março 2, 2018 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Notícia do https://lifestyle.sapo.pt/ de 14 de fevereiro de 2018.

Nuno Noronha

Estudo da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) alerta para perturbações patológicas decorrentes do uso da internet, como a ansiedade, depressão e sensibilidade interpessoal.

As dependências no uso da Internet, associadas a sintomatologias psicopatológicas, foram alvo de um estudo realizado pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), cujos resultados acentuam as preocupações, em especial ao nível dos jovens. O estudo, intitulado “Adição à Internet: Relação com a Sintomatologia Psicopatológica e a Personalidade”, foi desenvolvido pelo psicólogo Luís Afonso Ferreira, no âmbito do mestrado em Psicologia Clínica, com orientação de Otília Fernandes e Inês Relva, docentes e investigadoras desta área do conhecimento.

A investigação, que teve como amostra 418 indivíduos de todo o país, sendo 166 do sexo masculino e 252 do sexo feminino, realçou a adição à internet e o seu uso excessivo e desregrado como “fator precipitante para o desenvolvimento de sintomatologia patológica” ao nível da depressão, ansiedade, hostilidade e sensibilidade interpessoal.

Ao mesmo tempo, alertou para a necessidade de “maior atenção por parte dos profissionais de saúde quanto aos hábitos desenvolvidos online e da perceção que o próprio indivíduo tem do seu grau de adição”.

Neuroticismo elevado e baixa conscienciosidade

Acerca da personalidade demonstrou-se também que “o neuroticismo elevado, caracterizado pela instabilidade emocional, e a baixa conscienciosidade, caracterizada pela falta de organização, disciplina e regras, evidenciam-se como fortes preditores da adição à Internet”.

Mostrou ainda o estudo que determinadas atividades, nomeadamente os videojogos e as redes sociais, têm forte relação com a problemática, enquanto “atividades ligadas a recompensas imediatas e mecanismos de imersão, fantasia, socialização, competição e reconhecimento social, entre outros fatores que poderão servir como “isco” a indivíduos predispostos ao desenvolvimento de uma adição”.

Otília Fernandes, psicóloga clínica e uma das investigadoras responsáveis pelo estudo, encara os resultados como sinais de alerta em especial para os mais novos, que vivem colados aos smartphones e jogos. “O comportamento abusivo, qualquer que seja, e sobretudo na adolescência, que é um lugar de todos os perigos porque a identidade está ainda em busca de um caminho, deve ser considerado um sinal, um sintoma de que algo não está a correr bem”, justifica a investigadora.

“Basta muitas vezes – lembra também – um olhar atento e compreensivo e de disponibilidade para o jovem não se sentir só e poder falar do que o atormenta. Não é fácil, mas é possível, se tivermos em conta que qualquer dependência é sempre uma máscara, que, como tal, esconde e revela, bastando muitas vezes a nossa disponibilidade para estarmos com o jovem. Partilhar um problema já é meio problema resolvido. Só restringir o uso não basta. Há muitas pessoas que advogam políticas de restrição sem terem o cuidado de acompanhar isso com políticas de compreensão, o que é profundamente errado.”

 

 

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