Em Lousada, os alunos também governam a escola e os professores agradecem

Dezembro 26, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia e fotografia do Observador de 9 de dezembro de 2018.

Ana Kotowicz

O projeto chama-se República dos Jovens e faz com que esta escola funcione de forma semelhante à Assembleia da República. Todos têm voz e a opinião dos alunos influencia as decisões da direção.

O Código de Conduta dos Alunos, tal como estava redigido, não convencia os estudantes da Escola Básica e Secundária de Lousada Oeste. Noutro estabelecimento de ensino, os descontentes teriam de encolher os ombros, pois poucas ou nenhumas ferramentas teriam para convencer a direção a fazer mudanças. Aqui, porém, não foi o caso. Os cerca de 700 alunos da escola não só foram ouvidos, como conseguiram levar a sua avante e mudar o Código de Conduta para uma versão mais próxima do que defendiam.

Como? Graças a um projeto chamado República dos Jovens, que faz com que esta escola funcione de forma semelhante à Assembleia da República. Todos têm voz, todos estão representados, todos têm direito a voto e a opinião dos alunos influencia a tomada de decisões de Luísa Lopes, diretora do agrupamento.

Essa iniciativa valeu-lhes o primeiro prémio do concurso Escola Amiga da Criança, uma parceria entre os pais da Confap e a editora Leya, que distingue estabelecimentos de ensino com projetos educativos inovadores. A cerimónia decorreu no final de novembro.

As diferenças na organização começam logo dentro das salas de aula: não há delegados de turma, ao contrário do habitual — há antes guias e guias dos guias. O primeiro passo para construir esta pirâmide democrática é reunir a Assembleia de Turma, o seu órgão máximo, onde o diretor de turma é o presidente. O único adulto presente tem poder de veto sobre todas as decisões, tal e qual como o verdadeiro Presidente da República sobre as leis que saem do Parlamento.

“A Assembleia de Turma é um momento formal, estão todos os alunos, há um secretário e um moderador, que são estudantes, e onde se podem colocar todas as questões”, explica o professor Alexandre Reis, coordenador do grupo de projetos do agrupamento e responsável pela República dos Jovens em Lousada Oeste.

Nesse momento alto, a turma é dividida — consoante as escolhas dos alunos — em vários grupos, cada um com 5 a 8 estudantes. A seguir, dentro de cada uma dessas equipas, é eleito um guia, que é o líder daquele pequeno grupo. No final da eleição, cada turma terá vários guias e, entre esses, é escolhido o guia dos guias.

É esse o cargo de Sofia, no 9.ºA, depois de dois anos a ser guia. “O que é ser guia dos guias? É tentar manter a turma unida, conseguir pôr todos a trabalhar em grupo, conseguirmos fazer coisas que sejam para o bem de toda a gente. A diferença em relação a ser guia é que temos muito mais responsabilidade. Em vez de controlar e gerir um grupo, temos de controlar e gerir a turma toda.”

Se as diferenças ficassem por aqui, a República dos Jovens não seria uma verdadeira república. Mas a pirâmide tem mais degraus.

“Neste movimento vertical, o órgão que aparece a seguir é o Conselho de Guias, que serve para o diretor de turma se reunir com todos os guias daquele grupo de alunos. Estas reuniões têm caráter confidencial e o que se fala lá dentro não vem cá para fora. Os guias tornam-se os braços direitos do diretor de turma: podem fazer todo o tipo de propostas, discutir o comportamento dos alunos ou propor colegas para o quadro de valor”, explica Alexandre Reis, que é professor de música e está no agrupamento desde 2001, dizendo que nestes momentos se criam relações de proximidade entre docentes e alunos.

Depois de estar assegurado que a opinião de cada estudante chega ao diretor de turma através dos guias, falta garantir que a voz dos alunos chega à direção.

“Periodicamente, reúne-se a Assembleia Geral dos Guias, um dos órgãos mais importantes que temos aqui na escola, e onde está presente a diretora. Foi num desses momentos que foi alterado o Código de Conduta”, explica Alexandre Reis. Nesses encontros, há 30 guias que representam as 30 turmas da escola de Nevogilde. Se, ao início, quando tudo era novidade, os alunos nem sempre estavam à vontade por estarem frente à direção, Alexandre Reis diz que agora tudo é diferente.

“Os alunos já discutem entre eles e estão mais responsáveis pelas decisões que tomam. Aconteceu, por exemplo, um guia estar a pedir para a sala de informática estar aberta para além do horário que já existe e outro alertou logo para o risco de o material informático poder ser roubado. Com tudo isto, eles sentem que são ouvidos. A grande diferença em relação ao tempo em que tínhamos delegados de turma é que eles limitavam-se a aparecer nas reuniões com uma lista de queixas. Agora, a postura é diferente, é construtiva, os alunos sentem que têm de ajudar a resolver os problemas da escola”, sublinha o coordenador do projeto.

“É um voto de confiança que nos dão”

Sofia, Pedro, Rafael, Viviana, António, Lana, Rita, Tatiana e, de novo, Rafael. Todos os nove alunos, com idades compreendidas entre os 13 e os 14 anos, são guias ou guias dos guias das respetivas turmas.

Qual é a diferença? “Quando se é guia dos guias, temos mais responsabilidade porque temos de ajudar a turma toda, temos de resolver todos os problemas e manter toda a gente unida”, explica Pedro, guia dos guias do 8.ºA, e que foi guia durante 3 anos consecutivos, desde que entrou para a escola no 5.º ano.

Quando a pergunta é o que é que a República dos Jovens fez de mais significativo na escola, todos apontam o Código de Conduta e o facto de terem conseguido avançar com algumas das suas reivindicações. “Há coisas que os professores, e até mesmo a direção, não conseguem perceber que estão mal. Nós, alunos, porque convivemos mais com os espaços, notamos quando as coisas estão erradas. Com a República dos Jovens, deu-se mais voz aos alunos para apontar essas coisas”, defende Lana, guia do 8.º A.

António, guia do 9.ºA, concorda. “Com a República dos Jovens sinto-me mais parte da escola e, nós, alunos, podemos ajudá-la a melhorar e a fazer a diferença. Este projeto ajuda os alunos a sentirem-se valorizados e a valorizarem as ideias que têm para a escola.”

Entre algumas das coisas que conseguiram através da República dos Jovens, há questões tão diferentes como serem autorizados a comer nos pisos superiores da escola — era proibido porque isso gerava muito lixo nos corredores –, terem conseguido ter o cartão eletrónico dos alunos e a recolha seletiva do lixo.

“O cartão eletrónico era uma coisa que queríamos muito porque nos permite não trazer dinheiro para a escola. O cartão é carregado e depois usamos na cantina e no refeitório sem termos de nos preocupar mais”, explica Pedro.

O lixo também era há muito um problema grave na escola e a iniciativa para resolver a questão partiu dos alunos. “Há muito tempo que queríamos resolver este problema”, diz Lana. Agora, os estudantes estão envolvidos na recolha e na separação do lixo da escola. “É um voto de confiança em nós”, acrescenta a jovem.

Acima de tudo, todos concordam que ganharam voz na governação da escola. Serem ouvidos pelos professores e pela direção faz toda a diferença: “Quando há coisas que achamos que estão erradas na escola, nós propomos soluções na turma; se a turma aprovar, levamos o assunto à República de Jovens onde vai ser discutido e exposto à direção. Isso faz com que seja mais fácil sermos ouvidos quando nos estamos a bater por melhores condições da escola”, diz António.

Alunos mais bem preparados e com espírito democrático

“Os nossos alunos saem desta escola com uma preparação que, provavelmente, os de outras escolas não têm.” A frase parece tirada da boca de um professor, orgulhoso do caminho académico que os seus estudantes seguiram. Mas não. Francisco Torres tem 17 anos, estuda Direito na Faculdade de Coimbra, mas é da sua antiga escola secundária, em Nevogilde, que fala com entusiasmo.

O que faz com que os alunos saiam da escola de Lousada Oeste mais bem preparados do que outros jovens é exatamente o projeto que começou em 2015. Através da República dos Jovens, explica Francisco Torres, os alunos conseguem influenciar a forma como a escola é governada e perceber como funciona a democracia.

“Ter participado neste programa foi bastante benéfico para aquilo em que estou agora a focar as minhas atenções. Estou a estudar Direito e posso dizer que a República de Jovens deu-me alguns instrumentos que estou a utilizar”, conta o jovem. Um deles foi conseguido através do projeto Justiça para Todos, que permite que os finalistas da escola conheçam melhor o mundo dos tribunais, através de simulações in loco.

Mas esse não foi o único ponto positivo. No último ano que passou na escola de Lousada Oeste, Francisco Torres foi moderador de várias assembleias, o que o ajudou a desenvolver competências sociais, que considera fundamentais para ultrapassar obstáculos que vão surgindo no seu caminho.

“Nas assembleias era necessário interagir com o público, puxar pelos alunos mais novos — eles são a base e são eles quem vai dar continuidade a este projeto. Eu, como aluno mais velho, tinha a obrigação de transmitir os valores e a dinâmica do projeto. Foi a partir desta dinâmica que consegui desenvolver diversos métodos de comunicação, de que neste momento preciso na faculdade”, explica o estudante de Direito.

Hoje, o antigo aluno da escola de Nevogilde acha que os objetivos da República dos Jovens foram alcançados. “No início, o projeto servia para dar voz aos alunos, para ser uma escola governada pelos alunos, dentro do seu campo de governação. Temos uma direção que vê nos estudantes um pilar que sustenta as vontades da comunidade escolar e isso trouxe melhorias estruturais, humanas e sociais. O grande ganho deste projeto é a forma como os alunos se entregaram. Temos um antes e depois nesta escola. Mais do que bons alunos, estamos a projetar grandes cidadãos capazes de enfrentar as questões do futuro. A responsabilidade que adquirem aqui vai ser fundamental para interagirem no mundo social e laboral que é muito agressivo. E percebem melhor a democracia porque ela é o ponto fulcral deste projeto.”

Objetivo: combater a indisciplina

“A República dos Jovens surgiu em 2015 como medida do Plano de Promoção para o Sucesso Escolar, e visava combater a indisciplina. A ideia base era que quanto mais o aluno se sentisse como elemento ativo da escola, quanto mais sentisse espaço para partilhar as suas ideias, mais este sentimento de pertença reduziria os comportamentos desviantes”, explica Alexandre Reis. E foi isso que aconteceu. Mas à medida que o projeto cresceu, tornou-se muito mais do que isso.

Se uma república define o modo de vida dos seus cidadãos, as regras e os princípios fundamentais da sociedade, “uma república na instituição escola define a forma como os seus alunos participam na vida da escola, nas decisões, na necessidade de desenvolverem projetos e de fazerem parcerias com os colegas, de mudarem algo que deve mudar”, sustenta o professor de música. E foi essa característica das democracias, em que todos contam e todos são ouvidos, que mudou a face da escola.

Alexandre Reis acredita que ouvir os alunos não é uma característica exclusiva de Lousada Oeste. “Em todas as escolas, os professores e os diretores ouvem os alunos, a diferença é que nós aqui fazemos isso de uma forma estruturada, de uma forma que nos permite incluir o contributo dos alunos nas nossas práticas educativas. O melhor exemplo é o Código de Conduta ter sido negociado com eles. Havia aspetos com os quais eles não concordavam, propuseram alterações e negociaram-nas com a direção da escola.”

Francisco Torres lembra que os alunos também contribuem para o orçamento participativo da escola, e que no seu tempo de estudante em Nevogilde se bateram, por exemplo, pela melhoria das casas de banho e conseguiram. “Os estudantes acabam por perceber que são a base desta escola e que sem eles não se conseguia pôr a escola no rumo certo. No fim, ficam perfeitamente à vontade para lidar com as questões democráticas do futuro. Os alunos sentem-se membros e parte ativa da escola e isso é fundamental para qualquer ambiente escolar de sucesso.”

Se alunos e professores aplaudem este projeto, a bandeira branca que desde 9 de novembro está içada na escola, com escritos vermelhos onde se lê que esta é uma Escola Amiga da Criança, mostra que fora de portas o mérito da República dos Jovens foi reconhecido. Na primeira edição daquele concurso, que teve mais de mil participantes, a Escola Básica e Secundária de Lousada Oeste recebeu o primeiro prémio.

Ao mesmo tempo, aquele estandarte a balouçar ao sabor do vento é também a realização do sonho de Jorge Ascenção. Quando arrancou a primeira edição da Escola Amiga da Criança, uma ideia do psicólogo Eduardo Sá posta em prática pela Confap, o presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais sonhava ter uma bandeira, à semelhança da azul que sinaliza as melhores praias, que as escolas premiadas pudessem içar.

A ideia do concurso era simples: fugir à cultura da nota e dos rankings que valorizam apenas as médias dos alunos. Procuravam-se ideias extraordinárias. E a escola de Nevogilde foi considerada a mais amiga do aluno de Portugal graças à República dos Jovens. Para além da bandeira, no dia da cerimónia da entrega do prémio, a escola recebeu também cinco mil euros em livros doados pela Leya, parceira da Confap no projeto, para a biblioteca da escola.

Depois da Escola Amiga, concurso distingue também os professores

Quando arrancou a primeira edição do concurso, tanto Jorge Ascenção como Eduardo Sá partilharam com o Observador o seu desejo de que o concurso fosse para continuar. No dia 20 de novembro, Dia Universal dos Direitos das Crianças, foi anunciado que assim seria e a segunda edição do concurso já arrancou oficialmente.

Até 5 de abril, decorrem as candidaturas à Escola Amiga da Criança que este ano terá o alto patrocínio do Presidente da República. O regresso é marcado por algumas novidades: é alargado a estabelecimentos de ensino profissional, haverá novas categorias — por exemplo, a dos projetos digitais — e os professores responsáveis pelos projetos poderão ser distinguidos com o selo “O meu professor”.

O primeiro prémio, atribuído pela Leya, continuará a ser um cheque no valor de cinco mil euros em livros à escolha do estabelecimento de ensino, a que acrescem cheques de quinhentos euros para as menções honrosas de cada categoria.

Na primeira edição, concorreram mais de mil escolas e foram distinguidos cerca de 300 projetos. As escolas interessadas deverão apresentar a candidatura no site da Leya Educação. Os premiados serão conhecidos no Dia Mundial da Criança, a 1 de junho de 2019. O objetivo, lê-se no regulamento, continua a ser o mesmo: que escolas públicas e privadas partilhem “iniciativas extraordinárias, desenvolvidas pelos estabelecimentos de ensino, que contribuam para um desenvolvimento mais feliz dos alunos”.

Escola Amiga da Criança

 

 

 

Portugal e a Participação Digital de Crianças e Jovens – 29 janeiro, Centro Cultural Casapiano

Janeiro 25, 2018 às 10:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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O Regulamento Geral de Proteção de Dados (UE) 2016/679 do Parlamento e do Conselho, aprovado a 27 de Abril de 2016, produz efeitos a 25 de maio de 2018 e visa assegurar em todos os Estados-Membros um nível equivalente de proteção dos cidadãos relativamente ao tratamento dos dados pessoais. O Artigo 8º do RGPD obriga os menores de 16 anos a obterem consentimento parental para acederem aos serviços da sociedade da informação. No entanto, o Artigo também refere: Os Estados-Membros podem dispor no seu direito uma idade inferior para os efeitos referidos, desde que essa idade não seja inferior a 13 anos. Dado que os jovens não foram ouvidos sobre este assunto, lançámos em Portugal o Manual de Ação Para Jovens visando ouvir os jovens no âmbito da iniciativa #RGPDDáATuaOpinião. Recebemos mais de 200 participações de jovens. Com este evento pretendemos debater a idade do consentimento à luz do Artigo 8º do RGPD e as implicações do mesmo ao nível da participação e inclusão digital das crianças e dos jovens portugueses, aproveitando a oportunidade para apresentarmos os mais de 200 trabalhos submetidos por jovens Portugueses em resultado da utilização do Manual de Ação Para Jovens que adaptámos, traduzimos e lançámos em Outubro de 2017 e que contou com versões em 13 idiomase com a participação de 14 países, dos quais Portugal foi o que conseguiu envolver maior número de organizações.

Programa

09:30h. Receção dos participantes

10:00h. Sessão de Abertura
Representante da Casa Pia de Lisboa*
Representantes dos Órgãos de Soberania*
Tito de Morais, fundador do Projeto MiudosSegurosNa.Net

10:15h. A Questão da Idade de Acesso à Internet: Um Debate Crucial
Representante da Comissão Nacional de Proteção de Dados*

10:30h. Mesa Redonda: Qual a melhor idade para permitir o acesso à Internet?
Teresa Sofia Castro, EuKidsOnline Portugal
Cátia Branquinho, Aventura Social / Dream Teens
Fernanda Ledesma, Presidente da ANPRI (Ass. Nacional de Prof. de Informática)
José Manuel Gonçalves, Conselho Executivo da CONFAP (Conf. Nacional das Ass. de Pais)
Moderador: Tito de Morais, fundador do Projeto MiudosSegurosNa.Net

11:30h. Vamos Tirar Partido das Oportunidades Digitais
Sofia Rasgado, Coordenadora do Centro Internet Segura, Centro InternetSegura

11:45h. Encerramento
Tito de Morais, fundador do Projeto MiudosSegurosNa.Net

12:00h. Café Com Networking

inscrição no link:

http://www.miudossegurosna.net/participacao-digital.html

Assembleia Nacional de Crianças e Jovens – Compromisso para Portugal a Cuidar da Casa Comum – 10 de maio na Assembleia da República

Maio 8, 2017 às 9:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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A Associação Fazedores da Mudança, o Movimento Por Uma Escola Diferente, a  Cooperativa Horas de Sonho e a João Sem Medo – Comunidade de Empreendedores Evolucionários, convidam V.Ex.ª para a

 

Assembleia Nacional de Crianças e Jovens

10 de maio 10h30-13h, Assembleia da República – Auditório Almeida Santos

 

Esta Assembleia é a conclusão de um processo participativo subordinado ao tema “Cuidar da Nossa Casa Comum” (Cuidar de Mim, Cuidar dos Outros, Cuidar do meu País e do meu Planeta), que envolve diversas escolas e associações de todo o país, oito das quais, com alunos de diferentes ciclos, irão apresentar de viva voz as suas ideias aos deputados presentes.

Acreditando que esta iniciativa será do seu interesse, e considerando que a sua presença será de grande mais-valia para a mesma, convidamo-lo a juntar-se a nós, confirmando a sua presença até dia 9 de maio de manhã.

Esta Assembleia insere-se no ForumTerra – Portugal a Cuidar da Casa Comum e o programa da mesma encontra-se em www.terra.org.pt/assembleia.html.

Na expectativa de uma resposta positiva, despedimo-nos com os melhores cumprimentos e desejando…

mais informações:

https://www.parlamento.pt/Paginas/2017/maio/Assembleia-Nacional-de-Criancas-e-Jovens.aspx

 

Facebook. Mãe, pai… precisamos de falar

Fevereiro 6, 2016 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Reportagem do Observador de 21 de janeiro de 2016.

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Hugo Tavares da Silva

Mil jovens portugueses falaram sobre privacidade no Facebook num estudo feito em Portugal. O Observador foi a reboque e ouviu conselhos de 5 adolescentes para os pais. Está na hora de os ouvir.

Nenhuma conversa que tem como ponto de partida um seco “temos de falar” é fácil. Em inglês, o famoso “we need to talk” é bem mais sedutor, mas isto será em bom português. O objetivo? Evitar climas de guerra fria à mesa de jantar, rostos corados ou episódios embaraçosos. Ou seja, é uma espécie de “não me esperes na porta da escola, fica ao fundo da rua” da era digital. Este é um manual de boas maneiras, sobre e para os utilizadores das redes sociais, nomeadamente o Facebook. Estratégia para os pais? Bom, é engolir em seco, pegar num bloco de notas e fazer scroll down

Publicar fotografias dos filhos em pequenos é coisa para haver chatice. Se houver bónus — poses esquisitas, sem roupa, com óculos ou aparelho –, então boa sorte. Comentários de papás babados, a dizer coisas como “ahh, sais mesmo à tua mãe”, publicar artigos que deveriam ser do interesse do filho, ancorados por um “olha, é bom para ti”, também é provável que resulte numa ligeira azia.

A rede social de Mark Zuckerberg tem qualquer coisa como 1500 milhões de utilizadores espalhados pelo mundo. Em outubro de 2015, quase cinco milhões de portugueses tinham conta no Facebook. É, por isso, todo um mundo novo nas ligações entre pais e filhos. Nem tudo é embaraço ou estorvo, pois há também espaço para conselhos, recomendações, hábitos e privacidades. E também, porque não, provas de confiança de parte a parte.

Uma coisa de cada vez. Comecemos pela razão que fez o Observador desencantar cinco jovens para falar sobre a sua experiência nas redes sociais. O Facebook e a MiudosSegurosNa.Net, uma plataforma que visa garantir a segurança de crianças e adolescentes na internet, apresentaram esta quinta-feira uma campanha (“Pensa antes de Partilhar”) sobre os hábitos e desafios que os jovens enfrentam diariamente nessas águas que parecem sem limite — o objetivo passa também por servir de bússola, para orientar pais, filhos e educadores, sobre como melhorar a sua proteção e segurança.

Para tal, foram entrevistados mil jovens com idades entre os 14 e 18 anos. Os autores do estudo destacam o facto de 80% dos inquiridos terem já recorrido às ferramentas de privacidade para bloquear alguém; já 94% censura e acha incorreto que se publiquem fotografias negativas ou embaraçosas. Para casos mais problemáticos, onde o jovem se sente incomodado ou visado, 75% deles admitiu que pediria ajuda. Um dos jovens ouvidos pelo Observador (nomes fictícios) foi vítima de bullying no Facebook e a mãe foi chave nesse processo.

De acordo com o estudo publicado esta quinta-feira, a internet é o meio de comunicação mais natural e recorrente entre os jovens. A quantidade de plataformas, aplicações, redes sociais, ajuda a explicar o fenómeno: as adolescentes inquiridas têm, em média, 3.6 contas em redes sociais, contra 2.9 dos rapazes. Oitenta e cinco por cento usa o telemóvel para o toma lá dá cá, mas também recorrem a computador e tablets. Conclusão: em média, os jovens entre os 14 e 18 anos usam 2.5 dispositivos.

Quanto a privacidade, 80% dos inquiridos admite que já bloqueou alguém, tendência que se confirmou nas conversas entre o Observador e os cinco adolescentes. Apenas metade dos mil entrevistados partilharia a sua password com alguém, sendo que os pais ganhariam no campeonato da confiança (54%), seguidos pelo melhor amigo/a (34%) e pelo namorado/a (34%). Sessenta e um por cento das meninas já pediu que fossem apagadas fotografias ou conteúdos em que estejam inseridas, contra 41% dos rapazes, quem sabe menos preocupados com a imagem.

Em casos de abordagens menos simpáticas, casos realmente incómodos, o que fariam estes jovens? Setenta e cinco por cento deles pediria ajuda. No topo da lista voltam a surgir os pais (54%), seguidos por amigos (26%) e autoridades (24%). Uma coisa é certa para estes garotos: não é correto publicar fotografias más ou embaraçosas (considera 94% dos inquiridos), assim como não é de bom tom publicar sem pedir autorização a quem aparece (69%), mesmo que as fotografias sejam de alto gabarito.

Maria, 17 anos: “Faz-me um bocado confusão aquilo de meterem fotografias de quando somos bebés”

O tom e a articulação das palavras não fazem adivinhar a idade no bilhete de identidade. Do outro lado da linha está Maria, uma rapariga que começou a usar o Facebook aos 11 anos. “Na altura só nos podíamos inscrever com 13 anos, por isso lembro-me de ter metido outra data de nascimento”, recorda. Maria ganha à média do estudo, pois tem contas nas redes sociais Facebook, Instagram, Snapchat e Twitter.

Maria tem os pais no Facebook, que usam apenas um perfil, o da mãe. “No início houve apenas uma conversa sobre não meter fotos vergonhosas ou muitas publicações no meu mural”, conta. “E não meter também comentários nas fotografias como ‘ahh, sais à tua mãe’, ‘é bonita’, aquelas coisas de mães e pais… até dos avós! É quase a família toda com Facebook!”

Há pais que usam também esta ferramenta para deixar recados, o que faz adivinhar algum desconforto alheio. “Quando eu era mais nova, às vezes, a minha mãe deixava [no meu mural] artigos sobre limpar a casa e dizia ‘devias começar a fazer também assim’. Agora já não faz tanto. Publica na mesma, mas não desse género”, conta.

E situações que façam comichão, há? “Faz-me um bocado confusão aquilo de fazerem comentários, de irem comentar fotos de amigos, fazerem publicações mais estranhas ou meterem fotografias de quando somos bebés. Aquelas coisas esquisitas…”, revela, com um fair play e boa disposição assinaláveis. “Adicionar amigos não há problema, desde que não publiquem coisas nos Facebooks deles ou haja conversas e coisas estranhas.” As linhas vermelhas, não há volta a dar, posicionam-se junto às coisas estranhas e esquisitas.

Vamos a conselhos, mães e pais? “Não façam comentários. Não andem a cuscar e quando chega a hora de jantar digam ‘então aquilo que publicaste no Facebook e tal…’, não vale a pena. E não façam comentários nos Facebooks dos amigos”.

Francisca, 15 anos: “Não há conselhos que possa dar, eles usam o Facebook muito mais do que eu”

Esta jovem nem é fã de Facebook, já desativou a conta e voltou a criar outra, porque a dinâmica escolar assim o exigiu. Francisca prefere Twitter, Instagram, Snapchat e Tumblr. “Quando criei a minha primeira conta no Facebook, a minha mãe não concordava muito com isso, porque na altura ela não sabia como funcionava. O meu pai não se importava”, conta. Um vírus levou-a a apagar a conta: “Enviava mensagens automáticas como se fosse eu para muita gente, com o link do vírus. Foi aí que me passei e desativei a conta.” Agora, diz, vai lá apenas para dar um olho às modas: “A cusquice fala mais alto. E, como agora se veem muitos vídeos de experiências sociais, é mais interessante.”

Quanto a publicações e definições de privacidade, admite que já teve o seu momento ‘whaaat?’. “As fotos na minha outra conta não são nada de embaraçoso, mas são daquelas coisas que dão vontade de rir e pensar ‘o que raios tinha eu na cabeça?!’. Sempre fui uma pessoa muito fechada relativamente ao Facebook, portanto tenho a sorte de não ter muita coisa para me arrepender”, admite. Francisca disse ainda ao Observador que não permite ser identificada em publicações que todo o público da rede social tenha acesso, embora admita que deixa “amigos de amigos” verem essas publicações. Ou seja, um universo que ela desconhecerá, naturalmente.

Os pais não a envergonham, nadica de nada, quiçá a lógica seja ao contrário. “Não há conselhos que possa dar, eles usam o Facebook muito mais do que eu, e têm uma ideia maior de como as coisas funcionam por aqueles lados”, diz. E garante: “Era capaz de dar a minha password aos meus pais, confio plenamente neles, mas tenho a certeza que eles não lhe dariam uso algum.”

Miguel, 18 anos: “Parem de usar reticências em tudo o que dizem!”

Com contas no Instagram, Snapchat, Pinterest, este rapaz de 18 anos já usa o Facebook desde 2012. Miguel tem as ideias bem definidas quanto ao que os pais não devem fazer, e os pontapés na gramática será o que mais lhe custa.  “Tenho a minha mãe no Facebook, o meu pai não tem conta nessa rede social. Somos bastantes próximos por isso não houve problema qualquer.” A password da conta partilhá-la-ia com os pais ou com o melhor amigo.

Miguel nunca publicou fotografias embaraçosas, mas já foi objeto e alvo do mesmo. “Foi no gozo, até era bastante engraçado”, admite. “Nunca tive problemas a não ser conversas pessoais desagradáveis no Facebook Messenger. Quando tenho comentários desagradáveis, procuro perceber a razão para tal e remediar, se o caso for muito grave, aí peço ajuda.” E recorda um episódio menos simpático: “Bloqueei uma rapariga que é prima do meu melhor amigo. Ela mandava-me 20 mensagens por dia e era bastante incómodo”.

É que este rapaz prefere o Facebook para acompanhar a vida de algumas pessoas e “ver coisas engraçadas como vines“. “Tenho cuidado com quem aceito como amigo, aceito apenas quem conheço. Defino as minhas publicações apenas para os meus amigos verem. Não tenho problemas em ser marcado nas publicações deles. Se forem ofensivas, aí sim, há problemas.”

Se os pais ainda têm unhas para roer ao terceiro adolescente desta lengalenga, chegou a parte do outro lado da moeda. “Os meus pais não me envergonham, quando muito sou eu que os envergonho!” Bom, isto correu bem. E haverá algum dark side, ao estilo “Guerra das Estrelas”?

“Os pais não têm cuidado algum com a escrita, têm um português mau, não têm cuidado com a pontuação”, arranca. “Conselhos? Corrijam o vosso português, usem a pontuação como deve ser. Não comentem as fotos dos vossos filhos, pode ser embaraçoso para eles. Não sejam viciados nesta rede social. Não partilhem tudo e mais alguma coisa porque a certa altura fica demasiado amontoado. Parem de usar reticências em tudo o que dizem!” Okay

Marta, 17 anos: “Veem-se muitos casos de bullying no Facebook, muitos mesmo”

Tinha 12 anos e o processo foi simples: “Disse à minha mãe que queria uma conta, e ela ajudou-me a criar a conta. Ela disse-me para ter cuidado com quem falava, já tinha havido essa conversa”, conta. Marta tem contas no Facebook, Instagram, Twitter, Tumblr e Snapchat.

Esta adolescente tem os dois pais no Facebook, mas apenas um deles lhe dá dores de cabeça. “O meu pai não faz nada, não mete gostos, não manda mensagens, não faz nada. A minha mãe mete coisas que não sou apaixonada no meu perfil, como publicações de maquilhagem… e eu digo ‘eu não quero saber disso!!’”, diz, com os decibéis mais alterados, talvez para a mãe ouvir.

Os risos e o tom mais leve desapareceram quando referiu o caso de bullying de que foi vítima nesta rede social. “Foi no nono ano. O grupo [no Facebook] era da minha turma, servia para discutir trabalhos. Depois uma rapariga falou mal de mim, atacou-me verbalmente, com asneiras”, lembra. “Disse-lhe que não devia fazer isso, os outros viram e não fizeram nada. A minha mãe acabaria por descobrir, por me ver triste, foi comigo à professora, que falou depois com a rapariga.”

Agora o caso já não a afeta muito, mas diz que essas histórias são recorrentes. “Agora tenho mais cuidado com grupos. Quando vejo alguém a sofrer o mesmo, tento defender. Sei que é mau estar naquela posição. Veem-se muitos casos desses, muitos mesmo. Normalmente é o elo mais fraco, ou porque fala menos, ou porque é quem está mais de parte”, esclarece.

As cautelas de Marta estendem-se às fotografias. “Tenho cuidado em não mostrar certas partes do corpo, em não falar com pessoas que não conheço, tenho de conhecer ao vivo primeiro.” A adolescente admite ainda que já alterou as definições de privacidade, para que apenas amigos possam ver o que publica.

E conselhos para os pais, que se encontram meio enrolados neste tsunami tecnológico? “Não coloquem fotografias de quando os filhos são mais novos. Seja porque fomos mais gordinhos, ou tínhamos aparelho, ou havia algo que não nos sentíamos bem. Os pais podiam perguntar. Já me aconteceu, sim. Tinha ar de criança, usava óculos… não foi muito agradável”, alerta.

Há mais? Ora essa: “Não cusquem os vossos filhos. O meu pai já me perguntou uma vez sobre uma foto com um rapaz: ‘entããããão quem é o rapazinho?…’. Fiquei sem saber o que dizer, porque nem tenho boa ligação com ele. Com a minha mãe diria que ‘é o António ali da esquina’ ou assim, sem problema. Fiquei um bocado nervosa.”

Ato III: “Não se apeguem muito ao Facebook, vivam as coisas, com as pessoas. Vejo isso um bocadinho: os pais chegam a casa, fazem jantar, vão ao computador ver as notificações, jogar o Candy Crush. Podiam passar esse tempo com os filhos, a falar como correu o dia na escola.” Mas isso não é o que acontece normalmente ao contrário? “Sim, também. Acontece muito…”

Ana, 17 anos: “A melhor forma de usarem as redes sociais é confiarem nos filhos”

Com contas no Twitter, Tumblr e Pinterest, Ana usa o Facebook desde o sétimo ano, pois “toda a gente estava a criar”. Esta adolescente também conta com os pais na lista de amigos, algo que é pacífico. “Simplesmente adicionei-os, sinto que não tenho nada a esconder e que não há necessidade para tal coisa”, garante.

E o que fazem eles? “Geralmente mandam-me publicações de animais para ver, mas por mensagens. O resto das publicações ou dão gosto ou ignoram, também não me preocupo com isso e até brinco a dizer ‘aaah, achas bem não meteres like nas fotos das paisagens que tiro?’” Curiosamente, a única coisa que desassossega Ana não é os pais navegarem no mesmo oceano 2.0 que ela, mas sim o facto de eles verem os vídeos do Facebook “muito alto na sala”.

Ana usa pouco o Facebook. “Partilho vídeos que gosto ou ponho fotos que tiro, já que gosto de fotografia. Não costumo falar com muita gente. Quanto a privacidade, tenho aquilo definido só para amigos, e apenas sou marcada em publicações se aprovar.” Apesar de usar pouco a rede social, há sempre aqueles momentos que oferecem pele de galinha: “Quando vejo o que publiquei há uns anos, há coisas que apago porque são bastante embaraçosas.” Ana também opta por denunciar posts que não gosta.

E bullying? “Creio que sim, há muita gente que sofre bullying em qualquer rede social. Quer seja através de comentários de fotos, posts ou por mensagem. Há sempre alguém que gosta de gozar e criar confusão”, admite. E garante: “Nunca bloqueei ninguém, mas já eliminei amizades, pois não gosto de ter no meu feed pessoas com preconceitos, racistas, homofóbicos, ou que sejam apenas estúpidos.”

Para os pais, aqui segue a sabedoria do alto dos seus 17 anos: “Acho que a melhor forma de usarem as redes sociais é confiarem nos filhos e, se virem algo estranho, falar com eles, mas sem pressionar. Também não devem comentar fotos com comentários como ‘estás tão linda filha, beijinhos’, quase em formato de carta. Toda a gente acha isso estranho, especialmente quando vem de familiares. Os pais devem também mostrar aos filhos quando publicam fotos deles, para não ser uma surpresa desagradável.”

visualizar um vídeo inserido na reportagem no link:

http://observador.pt/especiais/facebook-mae-pai-precisamos-falar/

 

 

 

 


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