“Diga ao meu filho para deixar de jogar”. Psicólogo prescreve bom senso

Abril 18, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Magnus Fröderberg

Notícia da Rádio Renascença de 5 de abril de 2019.

Marta Grosso

Pedro Hubert é especialista em dependência no jogo e esteve nas Três da Manhã para comentar um estudo recente, segundo o qual um terço das crianças corre o risco de ficar dependente de videojogos.

Quando chegam ao consultório, os pais estão cansados e desesperados. Consideram que os filhos estão dependentes dos jogos de ecrã. Segundo o psicólogo Pedro Hubert, esta é uma dependência em tudo igual às restantes (álcool, tabaco, drogas…).

“Os critérios de diagnóstico são muito parecidos. Por exemplo, ficar muito irritado se não pode aceder aos videojogos, e às vezes há casos de agressão; aumentar o tempo de jogo e a intensidade; troca de prioridades, ou seja, “em vez de estudarem, em vez de dormirem, em vez de comer como deve ser” vão jogar.

“Tendo mais do que quatro destes critérios, sim, há um problema de dependência”, confirma o especialista na Renascença, esta sexta-feira.

Cada caso é um caso, mas Pedro Hubert privilegia sempre o “bom senso”, combinado com “uma espécie de contrato terapêutico”. Tem sempre de haver, sobretudo, no tempo de exposição ao ecrã.

“Às vezes, não é só o jogo em si, é todo o tempo que passam no fórum de jogadores a ver os outros a jogar, o streaming relacionado com o jogo, enfim, é o tempo de ecrã”, explica.

Dependendo da pessoa em causa, deve definir-se uma, duas ou três horas de exposição. “Há pessoas que podem estar três horas em frente ao ecrã, mas andam na ginástica, andam na música, têm amigos, divertem-se, saem”. Nestes casos, não há problema.

“Há outros que vivem aquela hora de modo tão intenso, quase tão doentio, que nessas fases é preciso um período de abstinência e depois introduzir um período limitado. E a hora de ecrã é depois de fazerem os trabalhos, depois de lhes dar outros interesses em vez de afunilarem só naquele”, sublinha o psicólogo.

No programa As Três da Manhã, este especialista em dependência de jogos conta que o caso mais grave que lhe apareceu foi com um homem de 35 anos. Foi a mãe que o levou à consulta.

“Desde os 13,14 anos que não fazia nada mais do que videojogos em casa, na internet. Nunca tinha trabalhado, tirando um ou dois dias e vinha-se embora; tinha mudado de curso frequentemente porque arranjava sempre desculpas. Estava branco, branco, branco, olheiras até às orelhas, mal conseguia falar e tinha problemas gravíssimos de depressão e ansiedade”, relata.

Só foi a duas sessões e nunca mais apareceu. “A mãe não conseguiu impor as tais regras. Ele já tinha demasiada força em casa, demasiada manipulação e continuou a fazer como queria”, conclui.

O pior é que Pedro Hubert quase “pode garantir que, daqui a uns anos, vai haver muitos muitos jovens neste estado, que não sabem falar, trabalhar, não sabem estar, porque a família não soube impor as regras”.

De acordo com um estudo conhecido esta semana, elaborado pelo hospital Cuf Descobertas, um terço das crianças corre risco de dependência dos videojogos, uma vez que passam mais de duas horas por dia a jogar. Uma em casa 10 crianças joga durante mais de quatro horas por dia, indica ainda a investigação, realizada a partir de uma amostra reconstituída por alunos do sexto ano de duas escolas de Cascais.

Outra conclusão é que os videojogos são também causa cada vez mais frequente de conflito no seio da família.

 

 

Bater nos filhos aumenta risco de doença na idade adulta

Abril 16, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Jornal de Notícias de 28 de março de 2019.

Videojogos colocam um terço das crianças em risco de dependência

Abril 15, 2019 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Magnus Froderberg

Notícia da Rádio Renascença de 2 de abril de 2019.

Pensar nos jogos quando não se está a jogar, jogar mais quando se está triste ou zangado, ficar chateado ou inquieto quando não se pode jogar são comportamentos a que os pais devem estar atentos.

Um terço das crianças corre risco de dependência dos videojogos. A conclusão é de um estudo feito pela Cuf Descobertas, publicado no mês de março na revista “Acta Médica Portuguesa” e citado na edição desta terça-feira do jornal “i”.

O estudo tem uma amostra reduzida, 152 alunos do sexto ano de duas escolas do concelho de Cascais, mas permite ter uma primeira noção do problema em Portugal, lê-se no jornal.

A iniciativa para a realização partiu do grupo de pediatras do centro da Criança e do Adolescente do Hospital Cuf Descobertas, depois de constatarem que os videojogos são um fator cada vez mais frequente de conflito na família.

Hugo Faria, pediatra e um dos responsáveis pelo estudo, refere que é muito frequente ouvir “queixas de pais que não conseguem que os filhos joguem menos, que dizem que há discussões quando dão instruções para interromperem a PlayStation”.

De acordo com o pediatra, após análise dos resultados, um dos aspetos mais relevantes é o risco de dependência, se as crianças mantiverem o mesmo padrão de jogo. Pensar nos jogos quando não se está a jogar, jogar mais quando se está triste ou zangado, ficar chateado ou inquieto quando não se pode jogar e a tendência para jogar quando ninguém está a ver são comportamentos a que os pais devem estar atentos.

Segundo o estudo, a maioria das crianças recebe o primeiro aparelho eletrónico entre os seis e os 10 anos. A maioria das crianças indicou passar menos de duas horas por dia a jogar, mas 19,2% reportaram uma utilização diária entre duas a três horas e 9,9% jogavam mais de quatro horas por dia durante a semana.

Ainda de acordo com este documento, ao fim-de-semana 17,1% das crianças jogam duas a três horas diárias e 24,3% mais de quatro horas por dia.

A “Acta Médica Portuguesa” é a revista científica da Ordem dos Médicos.

Artigo citado na notícia é o seguinte:

Dependência de vídeojogos : um problema pediátrico emergente?

Piscinas de bolas são um ninho de bactérias para as crianças

Abril 11, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do MAGG de 29 de março de 2019.

Por Rita Espassandim

Restos de vómito, fezes e urina foram encontrados por investigadores norte-americanos em seis parques distintos.

Não há criança que resista a uma piscina de bolas, mas a verdade é que podem ser perigosas no que diz respeito à higiene. Segundo investigadores dos EUA, estes brinquedos são um ninho de bactérias para as crianças.

A notícia, avançada pelo jornal espanhol “La Vanguardia“, explica que a equipa de investigadores da Universidade da Geórgia lançou um alerta para os riscos que se correm nestes espaços, muitas vezes escolhidos pelos pais para uma festa de aniversário, ou uma tarde divertida em família.

O estudo, publicado na revista “American Journal of Infection Control“, foi feito com base na análise de seis parques de bolas, no estado da Geórgia. Escolhendo entre 9 a 15 bolas de diferentes profundidades, foi possível encontrar, entre elas, restos de vómito, fezes e urina. 

Os resultados deixaram os investigadores em alerta, uma vez que, durante a investigação, encontraram 31 tipos diferentes de bactérias nas bolas coloridas, incluindo uma que pode causar doenças. O perigo de apanhar uma infeção nestes parques é muito grande, uma vez que as crianças costumam pôr as bolas na boca e brincar com elas.

O estudo detalha todas as bactérias perigosas encontradas, que podem causar infeções urinárias, meningites, pneumonia e infeções cutâneas. Para combater esses perigos, a Universidade da Geórgia recomenda que seja estabelecido um protocolo de limpeza para os parques de bolas, a fim de melhor proteger as crianças que brincam no interior, bem como os trabalhadores desses espaços.

 

 

 

Sozinhos entre milhares de “amigos”. Estudo associa redes sociais a solidão nos jovens

Março 29, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 13 de março de 2019.

Investigação em Portugal indica que passar muito tempo online faz os jovens sentirem-se sozinhos, mesmo quando não deixam de falar com os amigos frente a frente. É a natureza da comunicação online que provoca a solidão? Investigadores dizem que há uma conexão.

Karla Pequenino

Num mundo em que é cada vez mais normal usar o Facebook, o Twitter, o Instagram, ou o YouTube para comunicar com outras pessoas – a qualquer hora, em qualquer lugar –, são vários os trabalhos que começam a encontrar uma relação entre usar Internet e sentir mais solidão. Particularmente, nos jovens.

Um estudo do Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida (ISPA), em Lisboa, mostra que os jovens portugueses que passam muito tempo nas redes sociais se sentem mais sozinhos. É uma conclusão comum na área da solidão digital: em 2016, um inquérito a utilizadores portugueses do Facebook, feito na Universidade Lusófona do Porto, mostrou que quem passa mais tempo na rede social se sente mais só. Em 2017, outro estudo, desta vez focado nos EUA, mostrou que passar mais de duas horas por dia em redes como Facebook, Snapchat e Twitter duplicava a probabilidade de alguém se sentir isolado.

Só que os investigadores do ISPA descobriram que o sentimento de solidão entre os jovens portugueses mantém-se, mesmo quando o tempo que passam online não interfere com o tempo que passam a falar com amigos fora da Internet, frente a frente. Em causa pode estar a falta de riqueza sensorial das conversas online.

“O nosso estudo sustenta que há qualquer coisa na comunicação online que causa a solidão, que é a forma como a comunicação acontece online que cria esse sentimento”, resume ao PÚBLICO o investigador do ISPA Rui Costa. “Nas raparigas, em particular, o sentimento de solidão não se explicava por passarem menos tempo com os amigos. Foi uma das questões que nos chamou a atenção.”

As conclusões foram publicadas na revista académica International Journal of Psychiatry in Clinical Practice. O estudo, em que foram inquiridos 548 jovens em Portugal (dos 16 aos 26 anos) entre 2015 e 2016, mostra que as redes sociais eram de longe a actividade preferida dos jovens quando estão na Internet. Os participantes foram avaliados quanto à percepção de solidão, ao ambiente familiar, e se têm um “uso problemático da Internet”. Foi questionado o grau de identificação com afirmações como “A interacção social online é mais confortável do que frente-a-frente”, e “Faltei a compromissos sociais devido ao meu uso da Internet”.

Inicialmente, o objectivo do estudo era avaliar a relação entre o uso problemático, ou vício, da Internet e o grau de interacção social. “A Internet começa a ser um problema quando há problemas de privação”, explica Costa. “Quando não dormimos, quando deixamos de fazer o trabalho, ou quando usamos o telemóvel para resolver problemas como a ansiedade ou a depressão. Se nos sentimos ansiosos e agarramos o telemóvel, estamos a ignorar o problema subjacente.”

No caso dos rapazes que participaram, como já se tem visto noutros estudos sobre o tema, um uso problemático da Internet estava associado a menos tempo para os amigos ou parceiros fora da Internet. Mas com as raparigas, embora o tempo online interferisse com algumas relações familiares, não interferia com o tempo que passavam a falar com os amigos em pessoa. Só que, mesmo assim, elas reportavam sentimentos de solidão.

“E mesmo com os rapazes, que passavam menos tempo com os amigos, não havia uma conexão directa ao maior sentimento de solidão”, diz Costa. “E isto foi muito interessante. Até agora pensava-se que a Internet levava as pessoas a passar menos tempo a falar com amigos e que isso levava à solidão. Mas agora podemos ver que é a própria Internet que causa a solidão.”

Hormonas, evolução, ou facilidade em apagar amigos?

Para os investigadores do ISPA, o motivo pode estar associado à evolução da espécie humana, durante a qual a vida em sociedade foi necessária para a sobrevivência. Como tal, os mecanismos cerebrais aprenderam a reconhecer a satisfação em interacções sociais apenas quando há informação sensorial suficiente a acompanhar.

“A hipótese que colocamos agora é que a comunicação online não tem a mesma riqueza sensorial que a comunicação offline”, explica Rui Costa. “Quando falamos da Internet, não há informação a nível do olfacto, por exemplo, e a forma das pessoas falam é diferente.”

É uma opinião partilhada pela psicóloga clínica Raquel Carvalho, que trabalha com adolescentes e crianças na Oficina da Psicologia, em Lisboa. Diz que é comum os jovens que acompanha (especialmente, a partir dos 13 anos) falarem em sentimentos de solidão, mesmo que não seja o motivo principal que os leva às consultas. Um dos motivos é que é nesta idade que se começam a afastar da família e a “tentar criar vínculos afectivos com os pares”.

“Nota-se que com o mundo digital os jovens se refugiam muito na tecnologia e, por isso, as interacções com os pares são mais pobres. É com relacionamentos cara a cara que se desenvolvem capacidades como a empatia e a cooperação”, diz Raquel Carvalho. “Depois ao nível das neurociências há hormonas que são produzidas como resposta à sensação de toque. É o caso da oxitocina.”

Conhecida como a “hormona do amor” ou a “hormona do abraço”, nos humanos a oxitocina é libertada durante o toque com outros humanos. No cérebro, o neurotransmissor está relacionado com fenómenos como a criação de laços afectivos, empatia, desenvolvimento de confiança com outras pessoas, e diminuição da agressividade.

“O refúgio na Internet da adolescência pode ser visto como normal, porque actualmente é uma forma de se criarem ligações aos pares”, ressalva Raquel Carvalho. “Mas é preciso garantir que não se estão a substituir encontros reais.”

O aumento da solidão entre os jovens é uma realidade observada também no Observatório da Solidão, do Instituto Superior de Ciências Empresariais e do Turismo (ISCET), no Porto. “A solidão digital é um facto”, diz ao PÚBLICO o coordenador do observatório, o investigador Adalberto Dias de Carvalho. “Muitas vezes tem-se a percepção de que a solidão surge principalmente na população mais idosa. Não é bem assim. As vivências de solidão surgem com mais frequência nos jovens. A diferença é que os mais jovens têm mais facilidade em sair do estado de solidão.”

Adalberto Dias diz que as redes sociais são vistas como um “veículo para superar a solidão”, tanto pelos mais jovens como por outras faixas etárias. Mas – tal como a psicóloga Raquel Carvalho o estudo do ISPA notam – “as relações mediadas pelas redes sociais têm uma natureza diferente”.

Um dos problemas refere Adalberto Dias, é que “as redes sociais criam um estado ilusório de conexão” que se nota, por exemplo, com a facilidade com que se elimina um amigo. “Na Internet basta carregar num botão e uma relação desaparece. A gestão de conflitos é diferente das relações interpessoais”, nota o investigador.

Travar o aumento da solidão

Para a psicóloga Raquel Carvalho é importante travar comportamentos que podem levar à solidão digital cedo. “É cada vez mais normal ver bebés agarrados aos tablets. Nos adolescentes são as redes sociais e também os jogos online. É bom começar a introduzir limites nos mais novos. A propor alternativas ao tempo online, por exemplo, com outros colegas, frente a frente.”

Os efeitos negativos da solidão na saúde estão bem documentados. Um estudo da Universidade de Harvard ao longo de 75 anos mostrou que a sensação pode ser tóxica: quanto mais isoladas as pessoas estão, mais rapidamente se deteriora a sua saúde física e mental.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) nota que boas redes de suporte social são um factor determinante para o bem-estar. Em Janeiro, o Reino Unido nomeou um ministro para a Solidão (o primeiro do mundo), que é um problema que afecta mais de nove milhões de britânicos. O objectivo é impedir a proliferação de um fenómeno que pode dar azo a demência, ansiedade, e aumentar a mortalidade precoce.

Em 2019, os mais jovens são entre aqueles que mais sozinhos se sentem em todo o mundo: numa investigação da estação britânica BBC sobre a solidão – em que foram inquiridas 55 mil pessoas em todo o mundo – 40% dos jovens entre os 16 e os 24 anos admitiram sentirem-se frequentemente sozinhos. A percentagem foi superior à de outras faixas etárias. Além disso, os inquiridos que mais reportaram sentimentos de solidão eram aqueles que tinham mais “amigos online” no Facebook.

A equipa do ISPA quer continuar a estudar o fenómeno da solidão digital em Portugal. “No futuro, queremos analisar o uso problemático do smartphone com o phubbing”, avança Costa. A expressão phubbing (uma amálgama das palavras inglesas phone e snubbing) designa o acto de ignorar alguém, numa ocasião social, ao olhar para o telemóvel em vez de prestar atenção a essa pessoa.

Um estudo recente das universidades de Oxford e Warwick, no Reino Unido, revelou que embora as crianças e jovens passem 30 minutos a mais em casa com os pais do que em 2000, esse tempo não é dedicado a mais interacções familiares. Os dispositivos móveis, como consolas portáteis e tablets, são particularmente usados nestes períodos.

“Queremos perceber o impacto que há nos sentimentos de solidão em Portugal quando se utiliza o telemóvel quando se está com os amigos ou com a família”, diz Rui Costa.

“Qualquer pessoa pode encontrar benefícios em usar redes sociais”, observa a psicóloga Raquel Carvalho. “Só que têm de manter relações reais. Não se podem limitar às relações virtuais. A tecnologia tem de ser um complemento, caso contrário há riscos de – nos jovens, em particular – não se desenvolverem competências fundamentais.”

 

Estudo diz que fumar durante a gravidez aumenta para o dobro o risco de morte súbita do bebé

Março 25, 2019 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Vladimir Godnik / Getty Images

Notícia da Visão de 12 de março de 2019.

Um estudo, resultante de uma colaboração entre o Instituto de Investigação Infantil de Seattle e cientistas de dados da Microsoft, chegou à conclusão que fumar antes ou durante a gravidez contribui para o aumento do risco da morte da criança antes do seu primeiro aniversário.

A investigação, publicada esta segunda feira na revista Pediatrics, analisou, com base em dados fornecidos pelo Centro para o Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA, mais de 20 milhões de nascimentos e mais de 19 mil mortes inesperadas de bebés, acontecidas durante 2007 e 2011, e descobriu que o risco de morte aumenta por cada cigarro fumado. O estudo concluiu que depois de fumar um maço de tabaco, o risco de morte inesperada triplica em relação aos recém-nascidos de mães não-fumadoras.

“Todos os cigarros contam”, resume Tatiana Anderson, líder do estudo, e neurocientista no Instituto de Investigação Infantil de Seattle. “Os médicos deviam ter estas conversas com os seus pacientes e avisá-los: “Devia parar [de fumar]. Essa é a melhor maneira de diminuir a probabilidade de morte súbita do recém-nascido. Se não conseguir [parar], cada cigarro que reduzir vai ajudar.”

“Um dos pontos mais importantes que eu retiraria deste estudo é que apenas fumar um ou dois cigarros aumenta o risco de morte súbita infantil”, salienta também o pneumologista Cedric Rutland, porta voz da Associação Americana de Pneumonologia.

A síndrome da morte súbita infantil, conhecido como SMSI, continuou a aterrorizar os pais, mesmo depois de se descobrir a ligação entre a posição de dormir do bebé e a sua ocorrência. Depois de uma campanha de sensibilização dos pais para a importância de deitar os bebés de costas, nos EUA, em 1994, esta taxa de óbitos diminuiu para cerca de 50 por cento.

Contudo, apesar da descida, os cientistas identificaram duas outras causas: a sufocação acidental e uma outra ainda mal definida. A resposta para esta terceira causa chegou num estudo publicado em 2006, que mostrava uma ligação direta entre as mortes dos recém-nascidos e as mães fumadoras.

Segundo um estudo do Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas, 23% a 34% dos casos de SMSI estão relacionadas com o tabagismo pré-natal. Os riscos das crianças que nascem de mães fumadoras são bastante altos, sendo que nesta mesma investigação está comprovada uma ligação entre as progenitoras que fumaram durante a gravidez e crianças que sofrem de asma, cólicas e obesidade. O próprio fumo passivo é perigoso para o desenvolvimento do feto e contribui até 20% para o risco da criança nascer abaixo do peso recomendado.

Muitos investigadores tem trabalhado para descobrir até que ponto é que fumar contribui para o SMSI, mas a teoria que prevalece é que fumar aumenta os níveis de serotonina, um neurotransmissor que é “conhecido pela sua influência na sensibilidade à dor, no comportamento exploratório, na atividade locomotora e nos comportamentosde agressivos e de ordem sexual”. Em algumas crianças, é possivel que a serotonina afete a capacidade do tronco cerebral regular o sistema respiratório durante o sono.

“Isto pode, provavelmente, levar as crianças a parar de respirar durante a noite”, explica Rutland, que também é professor clínico assistente da medicina interna da universidade californiana Escola de Medicina UC Riverside.

Apesar da descida significativa no números de fumadores nos EUA, nos últimos anos, Anderson afirma que estatísticas mostram que pelo menos 338 mil mulheres por ano continuam a fumar durante a gravidez. Contudo, a líder do estudo afirma que apesar de grande parte das grávidas saber que não devia fumar, muitas não mostram vontade ou não conseguem parar e “negam que fumam ou dizem que fumam menos do que aquilo que fumam na realidade.”

“Elas não reduzem ou param de fumar. Continuam a fumar ao mesmo ritmo durante toda a gravidez.” Se não fumassem, segundo o modelo computacional deste estudo, é estimado que pelo menos 800 mortes podiam ser evitadas durante a gravidez.

“A mensagem a reter”, recorda Anderson, “é que as mulheres fumadoras que estão a planear engravidar deviam parar de fumar muito antes de começar a tentar.”

Esta nova investigação foi a primeira a ser feita em conjunto com os cientistas de dados da Microsoft, depois de John Kahan, líder da análises de dados de clientes da Microsoft ter perdido o seu filho. Dias depois da morte, em 2003, criou o projeto Aaron Matthew SIDS Research Guild.

A sua equipa tem utilizado os dados disponíveis sobre a morte de recém-nascidos para descobrir uma maneira de salvar crianças como o filho de John Kahan.

Juan Lavista, ex-membro da equipa de Kahan e que agora é diretor sénior de dados científicos no laboratório de investigação AI for Humanitarian Action, criado pelo presidente da Microsoft, Brad Smith, tem como objetivo utilizar a inteligência artificial para ajudar a lidar com alguns dos problemas mais complexos da humanidade e tem permitido a Lavista trabalhar em projetos como o estudo da SMSI a tempo inteiro.

“O mundo tem muitos problemas e acreditamos que podemos fazer a diferença com a inteligência artificial”, afirma Juan Lavista.

Os cientistas que trabalharam juntos neste estudo não pretendem ficar por aqui, sendo que tem como intenção investigar outros problemas relacionados com a síndrome, desde o impacto dos cuidados pré-natais, à relação que a idade de recém-nascido tem com a sua morte súbita e examinar como é que a SMSI acontece nos 50 estados norte-americanos.

 

 

 

Novos dados sobre a relação das crianças com a internet

Março 25, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Snews

Notícia de Educare de 11 de março de 2019.

A EU Kids Online Portugal apresentou recentemente, em conferência na Universidade Nova de Lisboa, a conclusão do inquérito nacional, levado a cabo no biénio 2017-2018, acerca do contexto digital de crianças e jovens portugueses.

A versão 4 da EU Kids Online, o mais novo e recente trabalho coordenado em Portugal por Cristina Ponte, focou-se na caracterização das tendências dos novos ambientes digitais, e pretendeu alargar conhecimentos sobre competências e direitos digitais, bem como identificar fatores e mediações capazes de lidar com riscos digitais.

Portugal participa, desde 2006, na EU Kids online, uma rede europeia que estuda e identifica lacunas na pesquisa sobre crianças e internet na Europa, integrando assim o projeto a nível europeu, com a orientação de Sonia Livingstone, da London School of Economics. O trabalho desenvolvido entre 2006 e 2009 permitiu que investigadores de 21 países europeus caracterizassem os usos da internet, telemóvel e outras tecnologias online por parte das crianças.

Foi graças a essa recolha de informação que em 2010 foi possível publicar o primeiro inquérito europeu com uma amostragem de 1000 crianças e igual número de pais. As primeiras conclusões apontam Portugal como sendo um dos países com menor incidência de riscos online entre crianças e jovens, com idades compreendidas entre os 9 e os 16 anos.

Esta intervenção é assumidamente um projeto em continuidade e constante atualização, capaz de sustentar a rede de pesquisa europeia sobre crianças e jovens e as suas experiências online. Estudos anteriores forneceram dados importantes para novos estudos e, desta feita, permitiram alargar e aprofundar a temática sobretudo quando o acesso à internet passa a ser feito através de novos dispositivos. Com a introdução de smartphones e tablets, verificou-se uma evolução das experiências das crianças e dos seus pais abrindo também novas portas a oportunidades, ameaças, riscos e segurança.

A amostra para este último inquérito considerou a participação de 1974 crianças e jovens com idades compreendidas entre os 9 e os 17 anos, sendo que 62% da amostra pertence ao grupo etário 13-17 anos. O smartphone é, sem dúvida, o equipamento mais utilizado para aceder à internet e cerca de 80% dos jovens assumem a sua frequência diária para ouvir música ou ver vídeos. Há também uma elevada percentagem – cerca de 75% – que a usa para comunicar com familiares e amigos ou aceder às redes sociais.

O bullying continua a ser o que mais incomoda crianças e jovens, onde a percentagem de raparigas incomodadas duplica em relação aos rapazes. O bullying cara a cara assume proporções inferiores ao bullying por meio tecnológico onde a mensagem que magoa assume maior percentagem.

A facilidade em conhecer novas pessoas através da internet continua a ser uma das maiores preocupações dos adultos em relação aos seus filhos, que veem aqui uma oportunidade para alargar laços sociais. Não obstante, a maior parte dos jovens inquiridos ainda assinalam que consideram ser mais divertido encontrarem-se os com amigos cara a cara do que na internet.

28% destes jovens sentem-se incomodados perante a publicação de vídeos, fotos ou textos dos seus pais sem o consentimento deles. Metade terá mesmo pedido aos pais que os conteúdos fossem retirados.

11% da amostra com idades compreendidas entre os 11 e os 17 anos referem que deixam de estudar para passar mais tempo na internet e que chegam a passar menos tempo com a família e com os amigos para estar online. 60% dos inquiridos referem, inclusivamente, que ficam aborrecidos por não poderem estar mais tempo online.

Importa referir que muitas vezes, a exposição a riscos não se traduz necessariamente em danos. 22% das crianças e jovens de 9-17 anos não partilharam com ninguém situações menos agradáveis que os incomodaram ou perturbaram. Perante uma situação de incómodo, 33% optaram por bloquear o contacto da pessoa e apenas 12% mudaram as definições de privacidade. É nas raparigas que se assiste a uma intervenção ativa mais elevada.

Ainda assim, é nos ambientes familiares e nos amigos da mesma idade que é principalmente procurado o apoio em caso de risco. Segundo 90% dos jovens, o local onde vivem é reconhecidamente seguro. No que diz respeito à mediação da internet por parte dos pais, quase metade dos inquiridos refere que esta se baseia nos conselhos para uma utilização segura da internet e para o pedido ajuda em situações de incómodo. O bom relacionamento com colegas e professores também adquire muita importância e coloca a escola como um espaço integrador.

As TIC e sua influência na socialização de adolescentes

Março 17, 2019 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Descarregar o documento no link:

https://www.fad.es/sites/default/files/investigacion_conectados_2018.PDF

Há mais mundo quando as histórias são contadas em voz alta

Março 16, 2019 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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snews

Texto e imagem do site Educare de 1 de março de 2019.

As crianças entram no texto e viajam pelo mundo. Aprendem e questionam. E a imaginação, a curiosidade, o vocabulário, e a aprendizagem saem reforçados. Ler em voz alta aos mais pequenos estará em vias de extinção?

Sara R. Oliveira

Há novidades do outro lado do Atlântico que revelam que a leitura em voz alta para os mais novos está a aumentar desde 2014. Nos Estados Unidos da América, há cada vez mais crianças, entre os seis e os oito anos, que escutam histórias em voz alta pelo menos cinco dias por semana. É um momento especial em família e as boas notícias estão no estudo da Scholastic “Kids & Family Reading Report – The Rise of Read-Aloud”. Mais de 80% dos pais e filhos inquiridos confessaram apreciar bastante essa experiência e esta partilha em família.

Susana Almeida é mãe de dois filhos e blogger (sersupermaeeumatreta). Os seus filhos têm cinco e três anos e todas as noites há histórias para contar lá em casa. Muito cedo, habituaram-se a olhar para um livro como um brinquedo. Ler em voz alta tem várias virtudes e benefícios para as crianças. “Além de fomentar o contacto com os livros, estimula a imaginação, aumenta e diversifica o vocabulário e desperta a curiosidade para mais leituras”, refere a blogger ao EDUCARE.PT.

“A leitura deve ser incentivada”, defende. Susana Almeida não tem dúvidas. Ler em voz alta para os seus filhos “é um momento único de partilha, de conversa e de descoberta de mundos novos”. “A imaginação de uma criança é um terreno fértil, mas precisa de ser regado. Em famílias em que não existem hábitos de leitura enraizados, a escola tem um papel muito importante de levar os livros até às crianças e de fazer esse intercâmbio entre a escola e a casa. Nem todas as crianças vão ser futuros leitores, mas o papel dos pais e da escola é tentar que o sejam”, sublinha.

Em seu entender, não será apenas a leitura em voz alta que está em vias de extinção, a leitura no geral também não respira saúde. “Lemos cada vez menos, seja jornais, revistas ou livros em papel, que têm vindo a ser substituídos pelo que vamos lendo superficialmente na Internet. E acredito que os pais que não têm hábitos de leitura dificilmente vão criar esse hábito nos filhos”.

Mikaela Öven, especialista em parentalidade positiva, vê imensos benefícios na leitura em voz alta aos mais pequenos, seja na aprendizagem, seja no desenvolvimento da linguagem, no raciocínio, entre outras capacidades e competências. “É um excelente momento de conexão e de possibilidade de aprendizagens”, afirma ao EDUCARE.PT. Mas tudo depende dos livros que se escolhem. Uma coisa é ler “A Bela Adormecida”, outra coisa é ler “O Monstro das Cores”. “Depende também se nos limitarmos apenas ao ler, ou se também conversamos sobre o que estamos a ler”, diz.

“Dependendo dos livros que escolhemos é um excelente momento para elaborar e refletir sobre questões emocionais, sobre medos, sobre relações, sobre consentimento, sobre igualdade de género, sobre imensas coisas”. Os benefícios, na sua opinião, dependem muito do género de livro que se escolhe para ler e acredita que uma escolha consciente de livros é muito importante.

Para a especialista em parentalidade positiva, contar as histórias dos livros em voz alta para os mais pequenos não é uma prática em extinção. “Não tenho essa ideia. Acho que as pessoas são muito mais conscientes em relação às suas escolhas de livros infantis. Pelo menos quem se interessa pela parentalidade consciente”. Pais e escolas não devem esquecer que essa prática estimula a aprendizagem. “Certamente! Nas escolas acho que se deveria principalmente estimular a reflexão e a crítica em relação àquilo que estamos a ler. Sejam livros ou coisas online”, refere.

Imaginar, comentar, duvidar
Os benefícios de ler em voz alta para quem está a crescer e a aprender são variados. A criança entra no texto e viaja pelo mundo. Aprende e questiona. “O momento da leitura de uma história, em família ou na escola, é um momento muito especial, uma oportunidade de conexão e de comunicação entre o adulto e a criança”, afirma Tânia Reis, terapeuta da fala. “A literatura infantil desenvolve a imaginação, promove a criatividade, facilita o entendimento do mundo e constitui uma excelente forma de potenciar o desenvolvimento linguístico, e não só, da criança”, realça.

Explorar uma história é conhecer mais mundo. Conhecer animais, plantas, flores, números, letras. “A exploração de histórias permite ampliar o conhecimento do mundo! A leitura de histórias permite à criança imaginar, iniciar um pensamento crítico e reflexivo, fazer relações com os diferentes conhecimentos, comentar, indagar, duvidar, criar uma opinião”.

Na linguagem oral, a leitura em voz alta e a exploração de histórias facilitam o contacto, a aquisição e a exploração de um maior número de palavras e, frequentemente, de palavras que são menos usuais no dia-a-dia da criança. Ouvir livros em voz alta também aumenta o vocabulário. Para Tânia Reis, “a leitura de histórias por um adulto possibilita o contacto com estruturas sintáticas mais complexas e menos frequentes (construção de frases), contribuindo para o aumento compreensão e expressão oral”.

A melodia da leitura produz efeitos. “Ouvir um adulto a ler permite à criança observar os padrões prosódicos (entoação) que terão uma importância extrema, futuramente, na compreensão leitora e na pontuação. Explorar em conjunto a leitura permite à criança fazer inferências, previsões, gerar conhecimento, atribuir significado, fulcrais para a literacia. Porque ler é muito mais do que transformar as letras em sons”, repara.

Ver como um adulto explora um livro permite à criança aceder a pré-competências de leitura. A terapeuta da fala exemplifica. Não é apenas o folhear de um livro, é igualmente “perceber que existem símbolos visuais que são transformados em palavras (descodificação), entender a ordem da leitura e da escrita (esquerda para a direita)”. “Com os livros contribuímos para a pré-história leitora da criança”, realça, lembrando o psicólogo russo Leo Vigotsky que, no século passado, escreveu: “A aprendizagem escolar nunca parte do zero. Toda a aprendizagem da criança na escola tem uma pré-história”.

O estudo mencionado no texto é o seguinte:

Kids & Family Reading Report – The Rise of Read-Aloud

Sharenting: adolescentes não querem que pais partilhem fotos e vídeos sobre eles

Março 14, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do DN Life de 23 de fevereiro de 2019.

Os resultados do mais recente estudo nacional da rede EU Kids Online sobre a relação das crianças e adolescentes (9-17 anos) com a internet acabam de ser divulgados. Mais de oitenta por cento usa redes sociais diariamente e está online três a quatro horas por dia, sobretudo a ouvir música, ver vídeos e falar com amigos, reais ou apenas virtuais. Mas também pode estar a ver imagens nojentas ou violentas, conteúdos que apelam à automutilação ou ao suicídio e mensagens de ódio contra grupos de pessoas. Os riscos aumentaram, mas também as oportunidades e a sensação de segurança e domínio da tecnologia. Pode parecer estranho, mas não é. O smartphone é hoje quase uma extensão do corpo, mas não, os miúdos não são nativos digitais. Têm muito que aprender. E, ao que parece, os pais também.

Texto de Catarina Pires | Fotografia de iStock

Têm entre 9 e 17 anos, embora a maioria (62%) seja maior de 13. Raparigas e rapazes em igual número. Não classificados do ponto de vista socioeconómico, a grande maioria percebe a família como bem na vida. Ao contrário do que dizem as más línguas – os adultos que acham sempre que no tempo deles é que era – esta amostra de miúdos, mais precisamente 1974, dizem preferir estar cara a cara com os amigos do que online e, pasme-se, até afirmam divertir-se mais.

Também passam mais tempo a fazer trabalhos de casa e tarefas domésticas (elas) e desporto ou atividades ao ar livre (eles) do que online. (Não é de igualdade de género que trata o estudo, mas é bastante interessante ler muitos dos resultados sob esse prisma).

Apesar disso, reconhecem um uso excessivo da internet, 70% admitindo que fica aborrecido quando não pode estar online e 60 dizendo que muitas vezes dá por si a usar a internet sem um propósito definido.

Seja como for, estes jovens têm-se em boa conta e metade deles acredita de forma veemente que a internet é um espaço de oportunidades. E mesmo os que não são tão benevolentes aproveitam-no: cerca de 80% usam-na todos os dias para ouvir música e ver vídeos e cerca de 75% para comunicar com familiares e amigos ou para ir a redes sociais (na faixa etária dos 13 aos 17 anos entre 81 e 89 por cento usam redes sociais diariamente).

O Facebook, em queda entre os mais novos, foi substituído por aplicações de mensagens instantâneas como o WhatsApp e o Snapchat ou plataformas como o Instagram e o You Tube. Os jogos online têm adeptos entre quase metade dos inquiridos (dois terços dos rapazes); 29% participam em grupos online que partilham os interesses e cerca de um quarto usa a internet com muita frequência para ler notícias ou fazer os trabalhos de casa.

As oportunidades são um lado da moeda. Do outro, estão os riscos, que podem ter graves consequências se não forem mediados pelos adultos – pais e professores – e pela própria sociedade, plataformas e fornecedores de conteúdos e entidades reguladoras.

Maior utilização, mais riscos

Quanto mais/tanto mais: um maior uso da internet para várias práticas continua a estar associado a uma maior exposição a riscos. Esta é uma das conclusões deste estudo financiado pela União Europeia e que teve duas edições anteriores, uma em 2014 e a primeira, em 2010 .

Os dados mais preocupantes prendem-se com o número elevado de jovens entre os 9 e os 17 anos que viu sites com imagens nojentas ou violentas contra pessoas e animais (46%), sites onde se falava de formas de automutilação (45%) e sites com mensagens de ódio contra certos grupos e indivíduos, por exemplo, pessoas de cor, religião, nacionalidade ou sexualidade diferentes (43%).

Números mais baixos, mas ainda assim relevantes acederam a conteúdos que relatavam experiências de consumo de drogas (35%), de como ficar magro (32%) e de formas de suicídio (29%). Estes números subiram exponencialmente em relação a 2014, quando praticamente nenhum destes conteúdos era visto por mais de 5 por cento das crianças e adolescentes.

Este fenómeno terá contribuído para que quase um quarto (23%) deles tenha vivido no último ano situações na internet que os incomodaram ou perturbaram, valor que mais do que duplicou em relação a 2014. O bullying, que teve evolução semelhante (passou de 10 para 24%), continua a ser a situação que mais incomoda, sobretudo os mais novos e as raparigas e o online já ultrapassou o do recreio da escola. Receber mensagens digitais que magoam é a principal queixa (64%).

Outra preocupação dos pais e um dos riscos analisados desde 2010 por este estudo é o acesso a pornografia. Em 2018, a exposição a conteúdos de cariz sexual foi assinalada por 37% dos miúdos, sendo entre os adolescentes que esta mais aconteceu: 41% entre os 13-14 anos; 59% nos 15-17 anos. As reações mais comuns são a indiferença (49%) e ficar contente (31%), com significativas variações por género: quem ficou contente foram 47% dos rapazes e 8% de raparigas. Quem não ficou contente nem indiferente foram os mais novos, entre os 9 e os 10 anos (24%), que disseram ter ficado muito aborrecidos.

Outro risco estudado – conhecer novas pessoas na internet – é visto pelos adolescentes como uma oportunidade para alargar laços sociais: 71% entre os 15-17 anos e 62% entre os 13-14 anos contactaram com pessoas que não conheciam cara a cara, sem diferenças de género. Uma subida acentuada em relação a 2010 e 2014, a maior entre as quatro situações de risco analisadas. Também sem diferenças de género, 44% dos inquiridos encontraram-se cara a cara com pessoas que conheceram na internet. A maioria ficou contente (79%).

De acordo com o relatório EU Kids Online, «a exposição a riscos não conduz necessariamente a danos: para muitos jovens, como acontece com os riscos offline, o contacto online com conteúdos e situações de comunicação arriscada pode levar a resiliência ao risco, ou seja, a ter mais capacidade para afrontar e gerir situações de perigo».

Parece ser o que acontece na maioria dos casos. Ainda que 22% das crianças e jovens de 9-17 anos não tenham falado com ninguém sobre situações na internet que os incomodaram ou perturbaram, os restantes recorreram ao apoio de amigos da mesma idade (42%) e pais (33%).

O estudo apurou ainda que «as respostas mais frequentes a situações de incómodo por via de contactos indesejados ou agressivos nas redes sociais cobrem estratégias ativas, como bloquear o contacto dessa pessoa (33%), e estratégias passivas, como ignorar o problema e esperar que ele se resolva por si (33%) ou fechar a janela e a aplicação (25%). Apenas 12% mudaram as suas definições de privacidade após uma situação negativa, e 11% reportaram o problema online.» As raparigas passam mais à ação do que os rapazes, bloqueando a pessoa ou reportando o problema. Eles ficam-se por fechar a janela e a aplicação.

Não, não são nativos digitais

A grande maioria dos miúdos entrevistados acha que domina a tecnologia (competências instrumentais): 79% diz saber gravar uma fotografia que encontraram online e 81% garantem saber modificar configurações de privacidade do seu perfil na rede social.

Confessam-se menos fortes nas competências relativas à «navegação e gestão crítica da informação online», ainda assim 52% dizem ser fácil verificar se a informação que encontram na internet é verdadeira (menos a raparigas que os rapazes) e 66% consideram que sabem escolher as melhores palavras-chave para fazer pesquisa na internet. Relativamente às notícias online, os mais novos desconfiam e acreditam que os meios tradicionais são os mais credíveis.

Confiantes mesmo são nas suas próprias competências sociais: 88% afirmam saber que informação devem ou não partilhar online e 89% garantem que sabem remover pessoas da lista de contactos (mais as raparigas do que os rapazes, e com proveito).
As competências criativas são as menos desenvolvidas, sendo mais raros os produtores de conteúdos e mais comuns os “curadores” dos ditos.

De acordo com os EU Kids Online «estes resultados contrariam o mito dos ‘nativos digitais’: crianças e adolescentes não dominam de modo automático e natural o uso das novas tecnologias, aproveitando todas as suas potencialidades. Competências criativas e críticas apresentam valores bastante mais baixos do que as instrumentais, móveis ou sociais».

Quando é que os pais vão tirar os olhos do seu próprio smartphone?

As crianças e adolescentes entrevistados sentem-se seguros e apoiados em casa, mas dois terços considera que não é ouvido com atenção pela família.

A mediação da internet por parte dos pais incide mais em dar conselhos sobre como a usar em segurança e em ajudar quando algo incomoda – expressa por quase metade dos miúdos – do que em conversar sobre atividades (cerca de um terço) ou incentivar à exploração e aprendizagens (um quinto). Há significativas variações por idade e género. As raparigas são mais vezes alvo de atenção familiar do que os rapazes e também são quem mais procura o apoio familiar quando encontram problemas na internet.

Formas de mediação restritiva e técnica, como o uso de filtros, registaram valores bastante baixos, estando mais presentes entre os mais novos (9-12 anos).

A verdade é que quase todos os inquiridos indicam que podem fazer uso de redes sociais (só 7% não tem autorização para usar), fazer download de músicas e filmes (5% não tem autorização) e usar a webcam ou a câmara vídeo do telemóvel (9% não tem autorização).

Estas restrições atingem os mais novos, mas ainda assim o que estes resultados demonstram é que a larga maioria de crianças, desde os nove anos, pode fazer uso de redes sociais sem restrições.

É nelas também que muitos pais estão emaranhados. E é provavelmente a isso que se deve um novo fenómeno analisado pela primeira vez pela EU Kids Online: o sharenting, que designa a partilha por parte dos pais de imagens e vídeos das crianças ou comentários sobre situações engraçadas das suas vidas, nas redes sociais, o termo inglês combina partilha (share) e parentalidade.

Parece então que os miúdos estão a tomar consciência de que a sua pegada digital pode ser muito anterior à sua entrada online e fugir ao seu «controlo». E não estão muito contentes: 28% dizem que os pais publicaram textos, vídeos ou imagens sobre eles sem lhes perguntarem se estavam de acordo, 13% ficaram incomodados com essas partilhas e 14% pediram aos pais que retirassem esse conteúdo.

Estes são apenas alguns dos resultados deste estudo, que será apresentado dia 28 de fevereiro, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa, na Conferência «Crianças e Jovens Portugueses no Contexto Digital». Há muito sobre o que refletir a partir do que disseram os miúdos entrevistados e Cristina Ponte, professora universitária e responsável pelo estudo, gostaria que o mesmo servisse precisamente para isso.

«As crianças dão-nos este retrato. Por exemplo, as questões do tempo: as crianças passam demasiado tempo nos ecrãs, e os pais? As crianças sentem-se aborrecidas quando não estão ligadas. E os pais? É fundamental desconstruir essa ideia de que as crianças vivem num mundo que não tem nada que ver com o dos adultos. Hoje, nos países desenvolvidos não há ninguém que não tenha um telemóvel e não esteja sempre a olhar para ele. Se calhar, é tempo de refletir sobre como estamos a educar os nossos filhos», diz.

 

 

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