O risco de burnout em crianças com dificuldades de aprendizagem e de atenção

Agosto 19, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto e imagem do LifeStyle Sapo de 15 de julho de 2019.

O burnout ocorre quando os alunos são sujeitos a níveis elevados de stress ou frustração durante um longo período de tempo.

É fundamental que pais e professores saibam identificar os sinais de esgotamento logo que estes surjam, permitindo desencadear os mecanismos mais adequados a cada caso concreto.

Imagine, por exemplo, um dia com 14 horas de atividade escolar com poucas pausas e muita exigência. Tudo somado, aulas, testes, explicações e trabalhos de casa, o que sobra, afinal, para tempo de lazer e descanso das crianças?

Muitas vezes, quase nada! E as crianças com dificuldades de aprendizagem e de atenção merecem uma atenção especial: estão particularmente vulneráveis! Quando os níveis de exigência são elevados e a resposta da criança não corresponde às expectativas, pode começar a desenhar-se um estado de esgotamento físico e mental que se manifesta através de cansaço extremo, insónias e desmotivação. Como se o corpo e a mente se quebrassem e perdessem todas as capacidades de resposta.

O síndrome de burnout é uma condição que afeta cada vez mais pessoas. É acordar cansado depois de uma longa noite de sono; é não ter energia para as coisas mais simples da vida como comer ou fazer a higiene pessoal diária; é ansiedade; isolamento; solidão; dores de cabeça; dificuldades em dormir; exaustão; negativismo; falta de motivação.

Conheça os 7 sinais mais comuns na criança

  1. Antes chegava a casa e, de imediato, fazia os trabalhos de casa. Agora já não. É preciso lembrá-la das responsabilidades. E mesmo assim ainda reclama.
  2. Antes tinha energia, iniciativa própria para, por exemplo, contar à família, com detalhes, como tinha sido o seu dia na escola, agora já não. Tudo é “arrancado a ferros”. Mostra desmotivação e queixa-se de cansaço. A tristeza passa a ser uma constante.
  3. Antes não fugia do convívio social. Agora isola-se. Inventa desculpas para não sair de casa e faltar, por exemplo, aos aniversários dos colegas de escola.
  4. Antes era mais segura e confiante. Agora mostra ansiedade e até medo. Nas vésperas dos testes, por exemplo, chora ao estudar a matéria e as noites passaram a ser de insónias. Deixou de ter um sono de qualidade.
  5. Antes tinha uma atitude positiva perante a vida. Agora questiona e critica tudo. Põe defeitos em coisas que sempre elogiou.
  6. Antes estudava com determinação e os resultados eram melhores. Agora, não consegue manter os índices de concentração necessários para o estudo. Por exemplo, 10 minutos depois de ter iniciado a aula, já não consegue estar focada nas palavras do professor.
  7. Antes não evidenciava sinais de impaciência. Agora, está permanentemente cansada, irritada, muitas vezes com coisas que nunca a incomodaram no passado.

Como ajudar a evitar o burnout em crianças com dificuldades de aprendizagem e de atenção? A solução passa, essencialmente, por fazer pausas para descanso, ter tempos livres, respeitar os períodos de sono, praticar desporto e manter uma alimentação saudável e equilibrada. As crianças com estas dificuldades podem ser mais suscetíveis ao burnout por várias razões:

Fatores Práticos

Na medida em que podem ter que trabalhar mais do que os próprios colegas para obter resultados semelhantes. Não raras vezes, precisam de se esforçar mais para atingir os níveis de concentração necessários durante o processo de aprendizagem. E depois de várias horas consecutivas de estudo sentem-se exaustas.

Fatores Emocionais

As dificuldades que sentem no dia a dia podem conduzir a uma perda da autoestima e a elevados níveis de stress. As crianças podem, igualmente, sentir-se desmotivadas por não conseguir atingir bons resultados escolares, apesar do esforço que tentam desenvolver para superar algumas dificuldades. Evidenciam sinais de frustração por demorarem mais tempo a fazer o mesmo do que os colegas da turma. Vivem angustiados com medo de fracassar.

Fatores Sociais

As crianças com dificuldades de aprendizagem e de atenção podem sentir-se solitárias e procurar, ainda mais, esse isolamento. Preferem ficar em casa em vez, por exemplo, de ir a uma festa da escola onde estarão acompanhadas e obrigadas a conviver com dezenas de colegas. Podem manter excelentes relações de grande cumplicidade com os pais, mas ao mesmo tempo, sentir-se pressionadas com o receio de os dececionar, por exemplo, com eventuais más avaliações escolares. Muitas vezes os professores e a própria família exageram na lista de tarefas que obrigam as crianças a cumprir, esquecendo-se que os períodos de descanso são fundamentais não só para a própria aprendizagem, como também, para uma boa saúde física e psicológica.

Nem sempre é fácil perceber a proximidade do perigo, tantas vezes, discretamente, à espreita. O burnout não aparece rapidamente. Pode levar várias semanas, meses ou até anos a desenvolver-se e, nos casos mais graves, acabar em depressão. Fique atento aos sinais.

“Diante de um ecrã a criança transforma-se numa espécie de porta USB ou numa impressora”

Julho 26, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Catherine L’Ecuyer ao Observador de 13 de julho de 2019.

Tânia Pereirinha

Ou seja, transforma-se num ser amorfo, que em vez de agir, reage — ou nem isso. Quem o diz é Catherine L’Ecuyer, doutorada em Educação e Psicologia e autora do bestseller “Educar na Curiosidade”.

Canadiana a viver em Barcelona, tem um currículo que impressiona, desde os artigos académicos mais famosos à coluna de opinião no El País, passando pelos livros feitos bestsellers internacionais ou pelo doutoramento acabado de concluir em Educação e Psicologia. Ainda assim, não é por “Educar na Curiosidade” ter sido traduzido em oito línguas, incluindo português, e ir já na 25ª edição em Espanha, que Catherine L’Ecuyer é uma sumidade na matéria.

Só por isso, seria considerada “especialista”. Sobe para o degrau acima porque, além de estudar a fundo o tema, é também mãe, de quatro filhos, de 14, 13, 11 e 8 anos. E, garante ao Observador, é uma mãe que pratica em casa aquilo que advoga na vida profissional.

Quando o assunto são as novas tecnologias é peremptória: antes dos 2 anos nenhuma criança deve ser exposta a qualquer tipo de ecrã e o uso de telemóveis deve ser atrasado ao máximo, sendo que o máximo pode muito bem ser a chegada à idade adulta.

Fácil falar, difícil fazer? Assegura que não e revela que na sua própria casa não há tablets, videojogos, ou smartphones: “Temos um telemóvel familiar — que só dá para fazer chamadas, não tem Internet –, que [os meus filhos] utilizam quando necessitam”.

Explica que não é uma questão apenas educativa, mas também pediátrica: o uso das novas tecnologias por bebés, crianças e adolescentes pode ter efeitos críticos nas diferentes fases do desenvolvimento, para além de ainda poder potenciar outro tipo de consequências. “Atrás de um ecrã as crianças e os jovens desinibem-se e dizem coisas que não diriam cara a cara, mostram partes do corpo que na vida real nunca mostrariam”, exemplifica.

Nos Estados Unidos, cientes disto mesmo, são cada vez mais os pais a atrasar deliberadamente a idade com que dão smartphones aos filhos, existindo até movimentos organizados nesse sentido, como o “Wait Until 8th” (Espera até ao 8º), uma espécie de juramento que os pais podem fazer online em nome dos filhos, numa lógica de a união faz a força — já para não dizer que também diminui a pressão social. Outros pais americanos, admitindo a sua incapacidade para educarem sem tecnologia, estão por seu turno a esgotar as agendas dos “consultores de tempo de ecrã”, os mais novos especialistas na matéria, acabados de chegar, aproveitando o nicho de mercado.

Em Portugal recentemente, para dar uma conferência sobre a forma como as novas tecnologias estão a influenciar a capacidade de atenção das crianças, Catherine L’Ecuyer respondeu às perguntas do Observador sobre o tema e deixou pistas para pais e educadores.

Acha que aquelas imagens caleidoscópicas dos canais para bebés fazem maravilhas a acalmar o seu filho de meses? Tem a certeza de que tablets e televisões são coisas completamente diferentes? Acredita que o seu filho tem uma inteligência acima da média porque nenhuma criança da mesma idade poderá algum dia ser capaz de mexer tão bem num smartphone? Esta entrevista é para si.

Falemos de tecnologia, mas vamos por idades. Basta sair para jantar para ver bebés de meses que só comem diante de um ecrã. Outros, assim que conseguem sentar-se ou até antes disso, são deixados em frente à televisão. Que efeitos pode ter a exposição precoce a este tipo de estímulos visuais no cérebro e no comportamento dos bebés?
A Academia Americana de Pediatria e a Sociedade Canadiana de Pediatria recomendam que as crianças até aos 2 anos não vejam qualquer tipo de ecrãs, devido ao risco que acarretam nesse período crítico de desenvolvimento. Não é uma recomendação educativa, mas sim pediátrica. Os estudos associam a exposição a ecrãs nessa idade com a desatenção, a impulsividade, a redução do vocabulário, o défice de aprendizagem, etc. O cérebro habitua-se a um ritmo que não existe no  mundo real, logo a criança não está adaptada à realidade, que é lenta.

O que se passa a partir dessa idade, biológica e emocionalmente, para que essa exposição passe a ser “permitida”?
Estas mesmas associações pediátricas recomendam que as crianças entre os 2 e os 5 anos vejam menos de uma hora por dia, por que nessas idades o cérebro continua a estar num período crítico de desenvolvimento. Entre os 2 e os 5 há menos riscos, mas não convém estar a criar este tipo de necessidade. Como diz a Associação Canadiana de Pediatria, “não há provas de que os ecrãs sejam benéficos”.

Mas uma televisão não é o mesmo que um tablet, pois não? Um é preferível ao outro? Quais são as diferenças de efeitos entre o uso passivo e ativo das tecnologias em cérebros tão jovens?
A investigação é cara e morosa. Por isso mesmo, tem sempre um atraso em relação às inovações tecnológicas, que rapidamente se tornam obsoletas e dão lugar a produtos diferentes a cada ano. Em 2014, Dimitri Christakis (o especialista internacional nos efeitos dos ecrãs nas crianças) publicou um artigo em que questionava a comunidade científica sobre se o tablet seria diferente da televisão, precisamente por causa da sua natureza interativa. O artigo não dava respostas, fazia perguntas. Há estudos desse ano que demonstram que o tablet não é menos prejudicial do que a televisão; até é mais viciante porque é interativo. O tipo de interação que o tablet promove não é como a interação humana, que requer um processo ativo. Diante do ecrã, a criança anda a reboque de estímulos frequentes e intermitentes. Transforma-se numa espécie de porta USB ou numa impressora. A criança ainda não desenvolveu as suas capacidades de inibição e atenção, o seu locus de controlo é externo.

O  que significa isso?
O locus de controlo é o lugar a partir do qual uma pessoa acredita que as suas ações são controladas. Se é externo, a pessoa acredita que a sua ação é condicionada pelo ambiente, pela sociedade, pelos outros. Se é interno, a pessoa sente que tem controlo (capacidade de inibir, moderar, tomar a iniciativa, planear, etc) sobre as suas ações, pelo que age em consciência e de forma responsável.

Existe a ideia de que os cérebros das crianças devem ser estimulados e “trabalhados” desde cedo, sob pena de se fechar a “janela de oportunidade”. É especialmente crítica desta teoria. Porquê?
Não é uma opinião. A ideia de que é preciso enriquecer o ambiente durante os primeiros anos de vida para não perder a oportunidade de aprendizagem é um neuromito. Um neuromito é uma má interpretação da literatura em neurociência. Há períodos críticos (janelas de oportunidade irrepetíveis) para o desenvolvimento, mas não para a aprendizagem. Mais nem sempre é sinónimo de melhor. A aprendizagem é um processo lento que deve acontecer ao ritmo da criança. Estudos sobre apego indicam que as crianças não precisam de um bombardeamento sensorial, mas sim de interação de qualidade com o seu cuidador principal.

Outro conceito que não lhe é propriamente caro é o que se refere a esta geração como “nativa digital”. Acredita que existe um “plano” por trás disto? Que as empresas tecnológicas, por um lado, constroem os produtos de forma a serem facilmente utilizados pelas crianças; e por outro plantam na mente dos pais a ideia de que a capacidade de manusear a tecnologia é não só uma prova de inteligência dos filhos mas também uma ferramenta capaz de aumentar ainda mais essa inteligência?
O nativo digital é definido como aquele que, nascendo na era digital, está habituado a receber e a processar informações de uma forma que alguém que nasceu antes dessa época (o chamado Imigrante Digital) não consegue. De acordo com essa “hipótese”, os nativos digitais terão vantagens cognitivas que afetarão positivamente a sua aprendizagem, em relação à da geração que os precede, como por exemplo no que diz respeito à multitarefa tecnológica. Apesar da popularidade desta ideia, os estudos dizem que o conceito de nativo digital é sobrevalorizado. Embora demonstrem grande familiaridade e agilidade técnica com a tecnologia, os jovens também dependem demasiado dos motores de busca e não têm competências críticas e analíticas para perceberem o valor e a originalidade da informação que existe na rede. Concluindo: os estudos dizem que a chamada “Geração do Google” não tem o nível de alfabetização digital que lhe tem sido atribuído e que ao próprio conceito falta uma base científica. A crença de que uma pessoa nascida na era tecnológica tem mais habilidades cognitivas para o uso da tecnologia é um mito. E a multitarefa tecnológica também. Se o teu filho aprende a usar um smartphone em minutos não é porque é um génio, mas porque o engenheiro que o desenhou é muito inteligente.

O que é isso da multitarefa tecnológica?
É o ato de fazer muitas coisas que requerem o processamento de informação no âmbito tecnológico ao mesmo tempo. É um mito, a neurociência garante que não podemos realizar em simultâneo várias tarefas que requeiram o processamento de informação. Quando tentamos fazê-lo, o que acontece é que desempenhamos essas tarefas em paralelo e vamos oscilando entre todas elas.

Existem ou não diferenças cerebrais entre as crianças de hoje, que têm toda a informação do mundo à distância de um clique, e os dos seus pais, que quando queriam saber alguma coisa tinham de se dedicar e procurar em livros ou enciclopédias?  
As crianças de hoje aprendem da mesma forma que as de antigamente. Há permanências antropológicas. As previsões alarmistas de que a tecnologia estaria a reestruturar os nossos cérebros (“rewiring our brains”, em inglês) também não têm fundamento científico. Ainda assim, tal como avisa o Conselho Inter-Americano para o Desenvolvimento Integral, a plasticidade tem os seus limites, pelo que a tensão a que uma pessoa está sujeita só é possível dentro de alguns limites, para além dos quais os estímulos podem provocar alterações capazes de comprometer a sua integridade e, consequentemente, a sua aprendizagem. Isto é confirmado pelas evidências que relacionam a multitarefa tecnológica com a diminuição das funções executivas (atenção, capacidade para inibir estímulos externos, etc.). E também pelas evidências que relacionam hiper-estimulação e desatenção. Nas crianças estes efeitos são mais agudos, porque estão num período crítico de desenvolvimento.

Centremo-nos nas crianças entre os 6 e os 12. Há boa e má tecnologia? Que regras ou limites aconselharia nestas idades?
A tecnologia tem de adaptar-se ao ritmo interno da criança, não pode substituir as relações interpessoais reais e não deve veicular conteúdos violentos ou inadequados. A criança tem de desenvolver os seus sentidos de intimidade, privacidade, força, moderação e relevância e a sua capacidade de inibição antes de entrar no mundo virtual. Não é possível desenvolver a noção de intimidade nas redes, por exemplo. A melhor preparação para o mundo online é o mundo offline.

Bem sei que o ideal seria que os consumos fossem sempre acompanhados ou pelo menos supervisionados pelos pais, mas com as vidas atuais isso é praticamente impossível. Que estratégias aconselha a pais e educadores?
Os ecrãs são as amas do século XXI. Temos de oferecer alternativas de qualidade aos nossos filhos: música, desporto, amizades, brincadeiras, natureza, etc. Acreditamos mesmo que estes dispositivos lhes melhoram a qualidade de vida? Nunca houve tantas adições tecnológicas, tanto consumo de pornografia na infância. Tudo na sua medida e no seu devido tempo. Quando atrasamos o uso do smartphone, damos-lhes o luxo das interações pessoais e a oportunidade de fortalecerem qualidades que mais tarde lhes permitirão utilizar estes dispositivos de forma responsável. Um smartphone é um luxo. Por que motivo havemos de lhes comprar luxos?

Caso já tenham comprado esse “luxo”, como podem os pais limitar ou supervisionar o seu uso?  
Não há problema nenhum em atrasar a idade de uso. Eles vão dizer que toda a gente tem e que vão ficar de fora de tudo. Primeiro, é preciso ajudá-los a perceber as estatísticas, nem sempre é garantido que todos têm mesmo. Depois, mesmo que muitos tenham de facto, isso não é um argumento educativo. Muitas crianças consomem pornografia e embebedam-se e isso não é uma justificação para permitir que os seus filhos o façam.

Tem quatro filhos. É essa a estratégia que usa com eles, em casa?
Não sou uma mãe perfeita, pelo que aquilo que fazemos não é “a” solução. Cada família é um mundo e cada pai e mãe é no limite responsável pelas suas decisões. Em nossa casa há uma televisão que só serve para ver filmes selecionados. Temos dois computadores que são usados em espaços de passagem, para o meu trabalho e para o do meu marido. Os nossos filhos não têm videojogos, nem tablets, e só temos um telemóvel familiar — que só dá para fazer chamadas, não tem Internet –, que utilizam quando necessitam. Mas damos-lhes mil alternativas aos ecrãs: passeios, pesca, desporto, música, viagens, natureza, conversas, leitura, etc. Não podemos proibir só por proibir. Temos de dar-lhes alternativas de qualidade.

Há cada vez mais escolas a apostar no uso das tecnologias para ensinar. Paradoxalmente, diz que Steve Jobs, tal como a maioria dos executivos de Silicon Valley, põem os filhos em escolas tradicionais. É mesmo assim? Por que acha que isto acontece?
Os CEOs das empresas tecnológicas de Silicon Valley vendem tablets às escolas públicas da zona, mas têm os filhos em colégios privados que não os utilizam. Eles sabem que não existem estudos que apoiem o uso da tecnologia em sala de aula. Aliás, sabem que o que há são estudos que dizem o contrário. O tablet é parte de uma estratégia de marketing educativo. A novidade é um conceito essencialmente comercial, não educativo.

O que dizem exatamente esses estudos que vão contra o uso de tablets na escola?
Essa pergunta é demasiado complexa para ser respondida assim. Aquilo que posso afirmar é que não existe atualmente um conjunto de estudos que apoiem o uso de tablets na sala de aula. Não há um conjunto de estudos que estabeleça um benefício entre o uso de tablets e uma melhoria no desempenho académico e nas oportunidades de emprego.

Tempos de atenção cada vez mais curtos, dificuldades de concentração, incapacidade de desenvolvimento de pensamento lógico. Diria que estas expressões descrevem de algum modo a geração adolescente atual? Que papel desempenham as novas tecnologias neste quadro?
Como diz [a romancista americana] Meg Wolitzer, esta é a geração que tem manteiga mas não tem pão. A quem falta o contexto que dá sentido às aprendizagens. O contexto não se encontra na Internet, mas no mundo real. O professor é fundamental, precisamente porque dá esse contexto, torna a aprendizagem “significativa”. Por mais sofisticados que sejam os algoritmos, a educação será sempre uma questão profundamente humana e não tecnológica.

Fala-se muito em dependência e adição às novas tecnologias. Há idades mais permeáveis a isto, no que respeita às fases de desenvolvimento cerebral ou comportamental? A que sinais de alerta devem os pais estar atentos?
Muitas dessas tecnologias estão desenhadas para criarem adição. Quem trabalha nas empresas que as fabricam admite isso mesmo. Não existem estratégias para mitigar esses efeitos em mentes imaturas. Se nos custa a nós, que somos adultos, como é que não vai custar-lhes a eles? Quando uma criança mente para poder consumir tecnologia, está viciada. Mas quando isso acontece, já é um pouco tarde para fazer marcha-atrás. Eu defendo a prevenção: atrasar a idade de uso.

“Se os pais fazem várias coisas ao mesmo tempo, os filhos aprendem a fazer o mesmo”

Outubro 4, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto da http://visao.sapo.pt/ de 12 de setembro de 2016.

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Clara Soares

Jornalista e Psicóloga

No arranque de mais um ano letivo, a VISÃO foi ao encontro da mãe e psicóloga de desenvolvimento Ana Manta, que acaba de lançar o livro Filho, Presta Atenção! (Clube do Autor, 170 págs., €12,50), com dicas e propostas de atividades para fazer em família. A ideia consiste em divertir e treinar competências desde cedo, com uma finalidade simples: concentrar-se com gosto é possível e está ao alcance de todos.

Há década e meia que Ana Manta trabalha numa equipa de intervenção precoce, no centro de saúde de Valongo, onde acompanha crianças com necessidades especiais e miúdos com atrasos de desenvolvimento e problemas de comportamento, como impulsividade e dificuldades em focar-se. Por guardar boas recordações do seu regresso às aulas, ela quis transmitir esse gosto aos três filhos, com quatro, dez e doze anos, admitindo que se inspirou no mais novo para criar exercícios que promovam o treino da atenção, no contexto das rotinas familiares.

Pais e educadores queixam-se dos problemas de atenção das crianças. A ser um problema real, como se resolve?

Esta geração de adultos foi-se afastando-se dos jogos lúdicos que antigamente se cultivavam entre pais e filhos. Esse lugar passou a ser ocupado pelas tecnologias e manifesta-se, depois, nos tais problemas de concentração. Tenho a sensação de que os pais que acompanho se sentem um pouco perdidos, já que os gadgets ganham terreno, empobrecendo a relação. Em nossa casa estabelecemos pelo menos meia hora por dia para estarmos juntos sem tecnologia.

É por isso que investiu tempo a construir exercícios e jogos “à moda antiga”?

Sim, a maior parte dos exercícios que fiz para o livro tem por meta aproximar pais e filhos. A relação é a base do sucesso educativo. Os pais querem que os miúdos sejam bons alunos mas para isso é preciso investir primeiro numa relação de qualidade, que os torne seguros e confiantes e sem medo de arriscar.

O que é, e para que serve, o método Sebastião?

É um conjunto de jogos que tem por meta integrar emoções e sensações e treinar a concentração através dos cinco sentidos. A ideia é usá-los antes do primeiro ciclo, mas os mais velhos também gostam e participam ativamente. Integro isto nas rotinas deles, a seguir aos trabalhos de casa por exemplo, quase como uma recompensa. Sugiro que os pais façam isto duas vezes por semana ou ao fim-de-semana.

Fala da atenção seletiva e dividida ou multitasking. Como se treina a primeira?

As crianças aprendem por imitação. Se os pais fazem várias coisas ao mesmo tempo, os filhos aprendem a fazer o mesmo. Não é necessariamente mau, mas é importante que seja treinada a atenção seletiva, sobretudo as turmas são grandes e convidam à dispersão.

Qual a diferença entre dispersão da atenção e hiperatividade?

A hiperatividade é um diagnóstico clínico muito específico. Em caso de dúvida, os pais devem procurar uma avaliação objetiva, já que muitas crianças que têm o rótulo de hiperativas não o são. O que é frequente é fazerem como vêem os pais fazer. Eu mesma, dei por mim a parar e a pensar: “Calma, eles estão de olho em ti 24 horas por dia!” E comecei a modelar os meus comportamentos, a olhar para as tarefas e a geri-las por tentativa e erro, a experimentar. Parar, focar, refletir.

Por exemplo, os filhos viam-na a escrever o livro. O que lhes dizia?

Eles percebiam e respeitavam. Sabiam também que depois de eles irem dormir eu ficava a fazer o meu trabalho de casa! É importante eles saberem como organizamos o nosso tempo. Mostro-lhes a agenda, com as notas escritas, é um modelo de organização para eles.

Refere que durante as atividades que faz, a criança não deve sentir que está só. Isso acontece muito?

Sem conversar não se pode interpretar o mundo. Se a criança ficar entregue a baby sitters virtuais, seja o Baby TV, o iPad, o que for, não podemos esperar que consigam manter uma socialização saudável com adultos e outras crianças. Não pretendo por culpas em cima dos pais, antes lançar um alerta: parem e pensem no que estão a fazer, pois podem com isso estar a formar seres com dificuldades no relacionamento interpessoal. É preciso aprender a ouvir e a retirar o mais importante do que se ouviu.Noto que há muitas casas onde as pessoas quase não falam, está tudo na sua bolha e não se ouvem.

O que gostaria de recomendar aos pais no arranque deste ano letivo?

A partir do terceiro ou quarto ano do primeiro ciclo, invistam na planificação, percebam o que eles podem e querem atingir. Organizem metas por disciplinas e notas. Nas minhas consultas, chego a dizer aos pais que o objetivo pode não ser ter muito bom a tudo, haver uma disciplina em que o suficiente chega para um filho se sentir bem.

O que faz mais falta às crianças?

Elas precisam de limites e regras bem definidas e também do respeito dos pais. Eles devem apostar numa relação segura, de confiança e proximidade, que é a base de todas as outras que os filhos levam para a vida.

 

 

Crianças rodeadas de espaços verdes com melhor rendimento

Junho 25, 2015 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Jornal de Notícias de 16 de junho de 2015.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Green spaces and cognitive development in primary schoolchildren

foto Marcos Borga Arquivo Global Imagens

Dina Margato

As zonas verdes dos parques e jardins têm um papel revelante na aprendizagem das crianças, conclui um estudo espanhol, desenvolvido pelo programa Contaminação Atmosférica do Centro de Investigação em Epidemiologia Ambiental.

O estudo, que envolveu 2600 crianças, foi publicado pela revista “Preceedings of the National Academy of Sciences” e comparou o desempenho dos miúdos que frequentam escolas com jardins ou situadas na proximidade de espaços verdes com o de outros impedidos desse contacto.

Primeiro analisou-se o nível de cognição dos miúdos pertencentes a diferentes escolas e colégios de Barcelona. Numa segunda parte do trabalho, os investigadores encaixaram essa informação no mapa das áreas arborizadas, recorrendo a imagens fornecidas via satélite.

A principal conclusão foi a de que o contacto com zonas verdes estimulava o desempenho cognitivo em 5%. E as características mais diferenciadoras referem-se à rapidez no processamento de informação simples e complexa. A memória também ganha 6% face ao grupo privado de parques naturais.

Os investigadores descobriram ainda que o défice de atenção diminuía e isso independentemente da etnia, educação da mãe ou emprego dos pais.

Na explicação de Mark Nieuwenhuijsen, um dos coordenadores do estudo, “quando olhas para um parque o cérebro relaxa e isso influi nele”. Por outro lado, realça ainda as vantagens adjacentes: “estimulam a actividade física, promovem o contacto social e ajudam a reduzir o stress”.

Apoiando-se nas conclusões, os investigadores propõem a expansão de espaços verdes no interior das escolas e na sua proximidade.

 

 

 

 

Workshop “Sebastião presta atenção!” – Técnicas para trabalhar a atenção/concentração

Fevereiro 25, 2015 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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red

Red Apple

Porto: 28 de Fevereiro

Lisboa: 7 de Março

Faro: 14 de Março

Alcanena: 9 de Maio

É difícil para as crianças de hoje em dia concentrarem-se. Afinal estamos na era das novas tecnologias, do descartável e do imediatismo.

A nossa vida corre a mil à hora e as crianças vivem esse ritmo. Então como é que queremos que as crianças aprendam a controlar-se e a concentrar a sua atenção?

Com este workshop pretende-se ajudar pais e profissionais a parar para pensar sobre os problemas ao nível da atenção/concentração e a aprender estratégias e técnicas que ajudem as crianças a tornar-se mais atentas e concentradas, desde pequeninas…

mais informações no link:

http://www.red-apple.pt/index.php/-workshops/276-sebastiaoprestaatencao

 

20 fichas para trabalhar atenção com crianças

Maio 8, 2014 às 12:00 pm | Publicado em Recursos educativos | Deixe um comentário
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texto do site reab.me de 23 de abril de 2014.

Boas referências são tudo! Encontramos um site “Escuela en na Nube” que tem bons materiais, um deles são 20 fichas para trabalhar atenção de crianças. Quem quiser ir lá e ter acesso as fichas clica aqui!

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Workshop Professores – Défice De Atenção/Hiperactividade e Problemas de Comportamento – Intervir em Contexto Escolar

Maio 16, 2010 às 1:01 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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O CADin – Centro de Apoio ao Desenvolvimento Infantil vai organizar um “Workshop Professores – Défice De Atenção/Hiperactividade e Problemas de Comportamento – Intervir em Contexto Escolar” no dia 22 de Maio de 2010 em Cascais. Mais informações Aqui

 


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