‘Pais-helicóptero’ estão criando filhos simplesmente ‘inempregáveis’

Julho 19, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Texto do site http://www.pensarcontemporaneo.com/

‘Pais-helicóptero’ são os pais que estão sempre girando em torno dos filhos. Praticamente os embrulham em plástico-bolha, criando uma corte de jovens adultos que têm dificuldade de ter um desempenho satisfatório no trabalho e em suas vidas.

‘Pais-helicóptero’ pensam que estão fazendo o melhor, mas, na verdade, estão prejudicando as chances de sucesso dos filhos. Em particular, estão arruinando as chances de que os filhos consigam um emprego e consigam mantê-lo.

‘Pais-helicóptero’ não querem que seus filhos se machuquem. Querem suavizar cada golpe e amortecer cada queda. O problema é que essas crianças superprotegidas nunca aprendem como lidar com a perda, com o fracasso ou com o desapontamento — aspectos inevitáveis da vida de todos.

A superproteção torna quase impossível que esses jovens desenvolvam a tolerância em relação à frustração. Sem esse importante atributo psicológico, os jovens entram na força de trabalho em grande desvantagem.

‘Pais-helicóptero’ fazem coisas demais pelos filhos, portanto, essas crianças crescem sem uma ética de trabalho saudável e sem habilidades básicas. Sem essa ética de trabalho e habilidades necessárias, o jovem não será capaz de realizar muitas das tarefas exigidas pelo local de trabalho.

‘Pais-helicóptero’ superprotegem seus filhos e os privam de qualquer consequência significativa por suas ações. Com isso, eles perdem a oportunidade de aprender lições de vida valiosas a partir dos erros que cometem; as lições de vida que iriam contribuir para sua inteligência emocional.

‘Pais-helicóptero’ protegem suas crianças de qualquer conflito que possam ter com seus colegas. Quando essas crianças crescem, não sabem como resolver dificuldades entre eles e um colega ou supervisor.

As pessoas resolvem problemas tentando coisas, cometendo erros, aprendendo e tentando novamente. Esse processo cria confiança, competência e autoestima. ‘Pais-helicóptero’ impedem que seus filhos desenvolvam todos esses importantes atributos que são necessários para uma carreira de sucesso.

‘Pais-helicóptero’ pensam que seus filhos devem vencer qualquer coisa. Todo mundo que participe de um evento esportivo deve ganhar um troféu. Todos devem conseguir uma nota de aprovação, mesmo que sua tarefa esteja atrasada ou malfeita.

Em um local de trabalho funcional, há apenas um vencedor de uma competição, e apenas um trabalho de alta qualidade é recompensado. Se as crianças crescem pensando que independentemente do que façam irão vencer, não perceberão que, na verdade, têm de trabalhar duro para conseguir ter sucesso.

Esses jovens mimados ficarão arrasados quando continuarem perdendo competições, se saindo mal em entrevistas ou sendo demitidos de seus empregos. Não entenderão quanto esforço é realmente necessário para ser um vencedor no mundo do trabalho.

Esses jovens carecem de competência e ação por nunca terem tido de resolver um problema ou completar um projeto sozinhos. Esperam que outros façam essas coisas para eles, assim como seus pais sempre fizeram. Em essência, não podem pensar ou agir por si mesmos.

A criação-helicóptero inculca uma série de atitudes negativas nas crianças. Elas crescem com grandes expectativas de sucesso, independentemente de quanto tempo ou energia investem, e sentem que merecem tratamento preferencial — sendo que nenhum dos dois comportamentos cai bem com seus colegas ou chefes.

Em uma entrevista de emprego, os futuros empregadores podem ser dissuadidos pela atitude excessivamente egocêntrica de um jovem ou alarmados por sua falta de habilidades básicas.

A aura de ignorância e incompetência de um jovem, combinada com expectativas de recompensas imediatas e substanciais sem relação com o desempenho, pode ser o beijo da morte em qualquer entrevista para um bom emprego.

Quando os pais decidem acompanhar seu filho de 20 e poucos anos em uma entrevista de emprego, isso mina qualquer confiança que um empregador possa ter nesse funcionário em potencial. “Por que”, os empregadores podem se perguntar, “alguém procurando emprego precisaria trazer a mamãe ou o papai na entrevista, a menos que esse jovem seja mais uma criança do que um adulto?”.

Mesmo de pequenas maneiras, os ‘pais-helicóptero’ paralisam seus filhos. A criança adulta de ‘pais-helicóptero’ vai fazer sua pausa para o café e então sair da copa sem ter limpado sua sujeira ou lavado sua xícara. Podemos imaginar como isso causará ressentimento entre seus colegas.

Esses jovens esperam que “alguém” limpe sua coisas, da mesma forma que sua sujeira foi sempre limpada quando eram crianças. Não percebem que já não há ninguém os seguindo, limpando sua sujeira, seja física, interpessoal ou profissional.

Barb Nefer, em um artigo publicado no site WebPsychology, diz que a geração do “milênio está sendo fortemente atingida pela depressão no trabalho. Um em cada cinco trabalhadores [20%] já sofreu de depressão no trabalho, comparado a 16% da Geração X [nascidos entre 1960 e final dos anos 70] e dos ‘baby boomers’ [nascidos entre 1943 e 1960]”.

Nefer destaca que, de acordo com um “‘white paper’ da Bensinger, DuPont & Associates, os ‘millennials’ têm desempenho inferior no trabalho e índices mais altos de absenteísmo, bem como mais conflitos e incidentes de advertência por escrito”, fatores que “podem afetar o desempenho no trabalho”.

De acordo com um artigo de Brooke Donatone publicado pelo Washington Post, uma nota de 2013 na revista “Journal of Child and Family Studies revelou que universitários que tiveram criação-helicóptero relataram níveis mais altos de depressão”.

O artigo do Washington Post também destaca que uma “criação intrusiva interfere no desenvolvimento da autonomia e da competência. Por isso, a criação-helicóptero leva a uma maior dependência e menor habilidade de completar tarefas sem supervisão dos pais”.

Às vezes, a melhor forma de ‘estar presente’ na vida dos filhos é não estar.
Os artigos acima deixam claro que a ‘criação-helicóptero’ está contribuindo para um crescente índice de depressão entre jovens bem como para uma incapacidade de ter um desempenho otimizado no local de trabalho.

Se você é um pai ou uma mãe que quer que seus filhos sejam bem-sucedidos na carreira quando adultos, precisa estar ciente de quaisquer tendências relacionadas à criação-helicóptero em você ou em seu parceiro.

Amar seus filhos significa guiá-los, protegê-los e apoiá-los. Não significa sufocá-los, superprotegê-los ou fazer tanto por eles que nunca aprendam a pensar por si mesmos, a lidar com desafios ou com o desapontamento e fracasso.

A coisa mais amorosa que você pode fazer como pai ou mãe é dar um passo atrás e deixar seu filho cair, se preocupar e resolver as coisas sozinho. Às vezes, a melhor forma de “estar presente” na vida de seu filho é não estar. É assim que você os capacita a desenvolver confiança, competência, autoestima e inteligência emocional.

Hoje os jovens precisam de pais que os ajudem a se tornar adultos úteis. Isso significa girar menos em torno deles e embrulhá-los menos em plástico-bolha e empoderá-los mais para que façam coisas por si mesmos, resolvam coisas por si mesmos e aprendam a lidar com as dificuldades, tudo por si mesmos.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost Canada e traduzido do inglês.

O artigo The Washington Post citado no texto é o seguinte:

Why are so many millennials depressed? A therapist points the finger at Mom and Dad.

O estudo citado é o seguinte:

Helping or Hovering? The Effects of Helicopter Parenting on College Students’ Well-Being

 

Depressão na infância – não ignore a Baleia Azul no meio da sala

Maio 22, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Num espaço de semanas ou meses, diversas séries ou tendências da internet, como a baleia azul, têm vindo a intensificar o diálogo e a reflexão sobre a auto-mutilação, o suicídio e os comportamentos de risco entre os jovens. Pois bem, mais do que sobre os jovens, hoje pretendo chamar a atenção que estes comportamentos não se prendem apenas com adolescentes… uma criança também pode sentir depressão, uma criança pode tentar suicídio, uma criança pode isolar-se e até auto-mutilar-se.

São pensamentos horríveis e assustadores e que nos colocam a questão: Mas que motivo teria uma criança para ficar deprimida?

Primeiro que tudo, e muito antes de continuar sequer a reflexão, há algo que todos nós adultos temos de compreender: as crianças não estão apenas a começar a crescer, elas estão também a começar a sentir. Sentir é algo constantemente novo para elas, o que quer dizer que dia sim, dia sim, as crianças conhecem um sentimento novo. Imaginam o quão avassalador isto é? É verdade que todos nós passámos por isso e hoje estamos todos cá, contudo, temos agora uma coisa chamada relatividade. Ou seja, com base na nossa experiência de vida, temos a capacidade de relativizar o que sentimos e perceber com a maturidade de hoje, os sentimentos que tivemos na altura. Esta capacidade de maturação permite-nos entender o sofrimento, a dor, a alegria e o êxtase com maior ponderação. Ou seja, se calhar já não consideramos que deixar cair o rebuçado ao chão é a pior coisa do mundo, tendo já perdido um familiar, por exemplo. Mas com as crianças não… o que quer dizer que se a criança deixar cair o rebuçado ao chão, este é realmente o maior problema da vida dela, não tem como comparar e, pior, não tem como saber que melhora depois. É uma estreia.

Por isso imaginem o peso que tem para estas crianças passar por períodos mais complicados, como por exemplo, o afastamento de alguém, perder algo de que gostem muito, uma mudança repentina ou mesmo a morte de um familiar próximo. É como se fosse um mar e um oceano de novidades negativas que se aproximam.

Outro ponto fundamental para entender é que, enquanto nós adultos somos capazes de dialogar e exprimir o que sentimos por palavras, organizando e refletindo sobre as emoções, as crianças não sabem ainda como fazer isso. Por isso, muitas vezes as expressões que elas passam são confusas, mal percebidas e catalogadas de outra forma. Por exemplo, as crianças expressam-se pelo corpo. Ora, quando estão em situação de desconforto, as crianças tendem a ficar mais agitadas, mais irrequietas ou com uma maior tendência para a oposição. Por isso, muitas vezes, crianças com depressão são confundidas com hiperativas ou mal criadas.

Outra reflexão a ter é que, tal como nos adultos, a depressão infantil não se reflete sempre da mesma forma: sim, para algumas crianças significa muita agitação irrefletida, mas para outras poderá ser o isolamento, o afastar-se da escola, a recusa de uma atividade, entre tantas outras coisas.

Como lidar com os sentimentos de uma criança

Por isso, existem vários pontos a ter em atenção. O primeiro é nunca diminuir a dor da criança. Pensemos, quando nos sentimos tristes, sentimo-nos tristes. O alguém nos dizer que não vale a pena estar triste não muda nada, e para as crianças acontece o mesmo. Contudo, o adulto deve apresentar um papel contentor que lhe mostre que tudo passa e que tudo ficará bem. Falar sobre as emoções e os sentimentos é também essencial, de forma a facilitar e a promover o diálogo. Por fim, é essencial pedir ajuda. E não só as crianças… pais, professores, monitores, todos os responsáveis da criança devem saber quando pedir ajuda a um profissional para ajudar. Porque a depressão não é apenas uma doença de adultos, e se é séria em adultos, também o é em crianças.

Depressão infantil: tanta tristeza para um filho tão pequeno

Abril 21, 2017 às 6:00 am | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Texto do http://www.noticiasmagazine.pt/

A depressão nas crianças e jovens é uma realidade bem diferente da oscilação diária de emoções que fazem parte do desenvolvimento infantil. Não é porque uma criança está triste que tem necessariamente de estar deprimida. Mas também não devemos desvalorizar estados emocionais negativos só porque são crianças e não têm, por isso, «razões» para estarem deprimidas. Como se tivessem de existir razões para estar deprimido…

A diferença entre uma depressão e os sentimentos de emoções negativas (normativos) está na duração e na intensidade dos sintomas. Os estudos indicam que crianças com progenitores com história de depressão têm maior predisposição para desenvolver a patologia.

A família não tem apenas o peso genético, tem também o peso psicoemocional. A presença de sentimentos de angústia excessiva, medos e negligência no ambiente familiar pode contribuir como fator de risco para a depressão infantil.

Mas há fatores psicológicos – nomeadamente situações traumáticas ou até fatores ambientais relacionados com condições de vida (pobreza, por exemplo) – que podem contribuir para o aparecimento da depressão.

O diagnóstico de depressão infantil é algumas vezes confundido com outras perturbações do desenvolvimento. Associadas a este diagnóstico surgem algumas comorbilidades (perturbação de hiperatividade e défice de atenção, perturbação de oposição e desafio, comportamentos de autoagressão, dificuldades de aprendizagem), o que o torna ainda mais difícil de ser corretamente formulado.

A boa notícia é que, quando diagnosticada atempadamente e devidamente intervencionada por uma equipa multidisciplinar (médico, psicólogo, família, professores), é possível uma boa recuperação, quer em termos emocionais quer em termos sociais, cognitivos e comportamentais.

Ainda que o tema da depressão nas crianças seja cada vez mais debatido, diferenciado e estudado, existe um longo caminho por desbravar. Culturalmente é difícil aceitar que uma criança possa estar deprimida, por isso este diagnóstico é muitas vezes protelado ou subestimado.

Ter um diagnóstico e o acompanhamento adequado foi essencial para a Maria poder regressar à escola e mudar a forma como se sentia. A mudança não aconteceu de um dia para o outro, mas foi profunda.

Estas são palavras da Maria (nome fictício), que esteve dois anos em recusa escolar:

«Entrei num mundo chamado depressão. Tudo começou aos 12 anos, era uma menina normal, feliz, rodeada de amigos… Tudo isso foi desaparecendo. Fechei-me em casa, não conseguia conviver com as pessoas como antes, não frequentava mais a escola pois a sensação de poder entrar e viver o mesmo que as outras crianças viviam era aterrador.»

«Sentia-me triste 24 horas em cada dia que passava, não gostava mais da minha família, não me importava mais com nada nem comigo mesma. Era eu e a depressão. Via todos aqueles que estavam comigo a afastar-se, não tinha mais planos para o dia de amanhã. Basicamente ficava à espera que me libertasse da tristeza quando ela quisesse ir embora.»

«Aprendi a valorizar-me, a ganhar esperança, lidar com todos os problemas que poderiam surgir na minha vida adiante. Consegui ultrapassar tudo e sei que sempre que precisar posso contar sempre com o apoio da minha psicóloga. Hoje posso dizer que sou outra Maria, encontrei um rumo, voltei à escola, já tenho amigas que gostam de mim por aquilo que sou e encontro-me feliz.»

*Parceria NM/CADIn (Centro de Apoio ao Desenvolvimento Infantil). Júlia Vinhas é psicóloga, especialista em psicologia clínica e da saúde no CADIn.

SINTOMAS A QUE OS PAIS DEVERÃO ESTAR ATENTOS

 

  1. Adolescência
  • Manifestações mais próximas do adulto (humor deprimido, perda de energia, desinteresse, sentimentos de desesperança e/ou culpa, alterações do sono isolamento, baixa autoestima, ideias suicidas)
  • Comportamentos de risco
  •  Agressividade consigo e com os outros
  •  Não ter um projeto de vida
  • Pouco interesse pela escola
  1. Dos 6 aos 12 anos
  • Ter um aspeto triste, chorar facilmente
  • Queixar-se de falta de energia – dores de barriga e cabeça, perda de força nos membros
  • Perder o interesse por atividades de que antes gostava (desportos, jogos)
  •  Demonstrar sentimentos de incompetência, negativos, de desvalorização, falta de confiança e baixa   autoestima («não sei», «não sou capaz», «não consigo», «ninguém gosta de mim»)
  • Medos frequentes e injustificados
  1. Até aos 6 anos
  • Perder o interesse por atividades lúdicas
  •  Ficar ansioso com a separação dos pais
  •  Não brincar com outras crianças ou evitar o contacto
  •  Fazer chichi na cama (quando já era autónomo)
  •  Ter frequentes acessos de raiva/choro ou comportamentos de oposição
  •   Mudar os padrões habituais de sono ou apetite
  •  Queixar-se de dores sem haver uma razão

 

Formação Depressão Infantil – 17 novembro Braga e Sacavém

Novembro 3, 2016 às 10:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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www.academiabc.pt

www.facebook.com/academia.bernardodacosta

 

O que os pais devem saber quando escolhem um desporto para os filhos

Outubro 3, 2016 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Texto do site http://www.eosfilhosdosoutros.com/ de 15 de setembro de 2016.

by

João Moreira Pinto

Saiu um artigo da maior importância para os pais de jovens desportistas e não só. O artigo publicado pela Associação Americana de Pediatria pretende ser um documento orientador para os pediatras e cuidadores de crianças que praticam desporto. Não sendo eu pediatra (porque sou cirurgião pediátrico), sou pai de um rapaz que adora desporto. Mais, acho que nós pais (e Mães) atentos procuramos que os nossos filhos façam muito desporto como parte integrante de uma vida saudável. Mas quantos desportos devem as crianças praticar? Devem especializar-se num só desporto ou diversificar? Quantas horas por semana? Estas e outras perguntas são respondidas neste artigo que revê tudo o que a ciência conseguiu estudar e provar até ao momento.

Indo por partes. Os benefícios do desporto infantil estão estudados e são consensuais: melhora as capacidades motoras das crianças, facilita a sua socialização, promove a autoestima, o trabalho de equipa e a capacidade de liderança, é um divertimento saudável. Mas depois há um lado negro do desporto, em particular do desporto de competição (isto são dados dos EUA): (1) 70% das crianças que frequentam desporto ‘organizado’ (desporto em clubes) desistem por volta dos 13 anos; (2) pelo menos 50% das lesões desportivas em crianças e adolescentes são por excesso de esforço (overuse). E para quê? (Continuamos com dados dos EUA.) Apenas 1% dos atletas que competem no high-school level recebem bolsas. E apenas 0,03-5% deles chegarão a um nível profissional. De facto, por muito que nos entusiasme imaginar que os nosso filhos serão os melhores naquele desporto, a probabilidade de serem atletas profissionais é muito muito pequena.

Nós (pais) temos tendência a projetar as nossas frustrações nas expectativas que criamos para o futuro dos nossos filhos. «Já viste como gosta da bola? O puto há-de ser o próximo Ronaldo.» «A minha princesa vai ser a bailarina que eu nunca consegui ser.» «No que depender de mim, dar-lhe-ei todas as condições para ser o melhor.» «E desde cedo, porque eu só não aprendi, porque já fui tarde…» É aqui que a porca torce o rabo, porque (1) o desporto infantil não pode servir para apaziguar as frustrações dos pais, (2) o problema não está em começar tarde um desporto. Este é uma ideia errada que muitos pais têm.

A estatística americana (que julgo poder aplicar-se à nossa realidade) mostra que a especialização num só desporto demasiado cedo na vida da criança leva a uma taxa maior de desistência da carreira desportiva. Para além do mais, existem outros riscos associados ao desporto de competição em idade precoce: isolamento social, lesões desportivas, ansiedade, depressão e até abuso físico, emocional e sexual por adultos envolvidos nas atividades do clube. É mais importante para a criança entre os 0 e os 12 anos experimentar muitos desportos. Diferentes desportos representam diferentes movimentos, diferentes competências físicas, psicológicas e sociais, diferentes ambientes, etc.

Em estudos comparativos (agora já com amostras europeias), provou-se que a diversificação precoce (ou seja, variar muito os desportos que a criança) e a especialização tardia (ou seja, centrar num desporto somente mais tarde na adolescência) relaciona-se com um maior sucesso desportivo em competições de elite. Com excepção de alguns desportos, como a ginástica e a patinagem artística, onde o pico de performance acontece antes da maturação física, todos os outros desportos devem ser praticados em especialização/exclusividade após a adolescência.

Posto isto, o artigo resume algumas informações que os pediatras e cuidadores devem ter em mente quando discutem a vida desportiva das crianças:

Primeiro, o foco principal do desporto é a diversão e aprendizagem de competências físicas que nos serviram para toda a vida. Quanto ao número de horas/semana que a criança deve praticar desporto organizado, uma regra que se pode aplicar é: número de horas/semana deverá ser sempre menor que a sua idade em anos (para um máximo de 16 anos).

Segundo, a participação em múltiplas actividades desportivas até à puberdade, diminui o número de lesões, stress e burnout dos jovens desportistas. A especialização tardia (fim da adolescência) relaciona-se com maior sucesso desportivo. A diversificação precoce e a especialização tardia aumenta a probabilidade de envolvimento desportivo por toda a vida, bem-estar físico futuro e possivelmente mais participação em desporto de elite.

Terceiro, se um jovem atleta decide especializar-se num só desporto, é importante:

  1. Discutir com o jovem quais os seus objectivos pessoais e distingui-los dos nossos (pais) e dos dos treinadores.
  2. Estar atento ao ambiente de treino e às práticas, para saber se estão de acordo com as melhores práticas para aquele desporto em específico.
  3. Ter pelo menos 3 meses de pausa/ano, dividido em períodos de 1 mês. Esta pausa refere-se ao desporto que o jovem pratica, mas pode/deve ser substituídos por outras actividades físicas que mantenham a boa-forma do atleta.
  4. 1-2 dias por semana de folga do seu desporto pode diminuir o número de lesões.
  5. Monitorizar o estado físico, psicológico e nutricional dos jovens atletas.

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Pode ler o artigo original aqui: Sports Specialization and Intensive Training in Young Athletes.

 

Maioria dos antidepressivos não funciona em crianças e adolescentes

Junho 22, 2016 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do http://lifestyle.sapo.pt  de 9 de junho de 2016.

AFP

A maioria dos remédios antidepressivos é ineficaz em crianças e adolescentes que sofrem de depressão grave, podendo ser, eventualmente, até perigosos, aponta um estudo publicado esta quinta-feira no jornal médico britânico The Lancet

Realizado por um grupo internacional de investigadores, o estudo revê 34 testes em mais de 5.000 crianças e adolescentes, com idades entre os 9 e os 18 anos, envolvendo 14 medicamentos antidepressivos.

Apenas um destes medicamentos, a fluoxetina – comercializada principalmente como Prozac -, mostrou-se mais eficaz do que um placebo para tratar os sintomas de uma depressão.

A fluoxetina também é mais bem tolerada do que os demais antidepressivos, escreve o mesmo estudo.

No sentido contrário, a nortriptilina foi considerada a menos eficaz dos 14 antidepressivos estudados, e a imipramina, a menos tolerada. Já a venlafaxina está associada a um risco crescente de pensamentos suicidas.

Os investigadores reconhecem, porém, que a verdadeira eficácia e os riscos de efeitos secundários indesejáveis graves desses medicamentos continuam a ser campo desconhecido, devido à fragilidade dos testes clínicos existentes.

É o caso, sobretudo, dos pensamentos e comportamentos suicidas associados aos fármacos antidepressivos. Num comentário agregado ao estudo, o cientista australiano Jon Jureidini destaca que, no que diz respeito à paroxetina, estes atingem 10% dos doentes, numa nova análise de dados, contra os 3% de estudos já publicados.

Segundo estimativas citadas pelo estudo, 2,8% das crianças entre os 6 e os 12 anos e 5,6% dos adolescentes sofrem de problemas depressivos graves nos países desenvolvidos. Esse número pode estar subestimado, alerta no entanto o mesmo estudo.

Esses sintomas são diferentes dos observados nos adultos e incluem, em especial, irritabilidade, falta de vontade de ir à escola ou comportamento agressivo.

Em relação aos antidepressivos – que também podem causar, além das ideias suicidas, dores de cabeça, náuseas e insónias -, a sua prescrição continua a aumentar, ainda que a maioria dos países ocidentais recomende, a partir de agora, que sejam reservados às depressões mais graves e após o fracasso da psicoterapia.

“Os antidepressivos não parecem oferecer um benefício claro nas crianças e nos adolescentes”, concluem os autores do estudo, que acrescentam que “a fluoxetina é, provavelmente, a melhor opção quando o tratamento medicamentoso é indicado”.

Vários especialistas comemoraram os resultados do estudo, que fortalecem as recomendações de países como França ou Reino Unido, no que diz respeito à prescrição de antidepressivos a crianças e adolescentes.

O primeiro tratamento das depressões em ambos os grupos deve continuar a ser “a abordagem psicológica, ou relacional”, que é “mais eficaz no longo prazo”, disse à agência de notícias France Presse o vice-presidente da Sociedade Francesa de Psiquiatria da Criança e do Adolescente, Daniel Marcelli, que participou na elaboração das recomendações de França.

“Estamos de acordo com as conclusões dos autores, que consideram que os antidepressivos devem ser utilizados de forma sensata e controlada de perto”, declarou a psiquiatra britânica, Bernadka Dubicka.

 

 

Já está disponível para download o InfoCEDI n.º 64 sobre A Depressão em Crianças e Adolescentes

Junho 17, 2016 às 12:30 pm | Publicado em Publicações IAC-CEDI | Deixe um comentário
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depressão

Já está disponível para consulta e download o nosso InfoCEDI n.º 64. Esta é uma compilação abrangente e actualizada de dissertações, estudos, citações e endereços de sites sobre A Depressão em Crianças e Adolescentes.

Todos os documentos apresentados estão disponíveis on-line. Pode aceder a esta publicação AQUI.

Mário Cordeiro. “Há mais crianças que se sentem infelizes, tristes e deprimidas. Até bebés…””

Julho 24, 2015 às 10:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do i a Mário Cordeiro no dia 18 de julho de 2015.

Ana Brígida

“O problema não são os divórcios. Qualquer evento pode ser traumático se os miúdos se sentirem ameaçados”

Marta F. Reis e Vítor Rainho

A paixão pela medicina e as críticas à sua desumanizaçao são os fios condutores desta conversa.

Médico há mais de 30 anos, autor de mais de uma dezena de livros em diferentes registos. Toca piano, é um leitor compulsivo e fotógrafo amador. Acaba de tirar um curso de História de Arte e está decidido a aprender violino para acompanhar um dos filhos. Mário Cordeiro tem bicho carpinteiro como as crianças. Encontramo-lo numa manhã de férias numa esplanada com vista para a Praia da Areia Branca. Há anos que o seu retiro é por ali, na aldeia de Cezaredas, perto da Lourinhã. A caminho dos 60 anos, gosta cada vez mais do campo e sente-se cada vez com mais sede e fome do mundo, na corrida contra o tempo da vida.

Como decidiu seguir a carreira de medicina?

Foi sempre uma coisa que me entusiasmou, até pela parte da ciência, da descoberta. Aquele aspecto mais de trabalho de Sherlock Holmes, de chegar ao diagnóstico a partir dos dados, como se estivesse a fazer um puzzle. Depois terei sido influenciado por ter crescido num ambiente médico.

O pai, também Mário Cordeiro, insistiu nisso?

Ele era pediatra. Sei que gostava da ideia, mas não. O meu irmão mais velho andou em Medicina e depois desistiu e tenho uma irmã médica. Na altura não havia serviços de urgência de pediatria – o primeiro em Santa Maria era numa casa de banho adaptada para ver crianças. Como em casa ele estava de prevenção, aos almoços e jantares era frequente estarmos todos à mesa e alguém telefonar a pedir indicações para o filho que estava doente. Era engraçado porque nós a certa altura já fazíamos apostas sobre o que ia ser com base nas respostas e perguntas que ele fazia.

O interesse surge aí?

Sim. Gostava daquilo mas havia um problema: se via sangue começava logo a tremer, por isso pensei que nunca iria para Medicina. Tanto que quando me fui inscrever no liceu escolho Direito, que era algo que também me interessava. Todo feliz vou para a paragem do autocarro, que terei perdido por uns instantes. É enquanto estou à espera pelo autocarro seguinte que tomo a decisão de voltar à secretaria, rasgar os papéis e inscrever-me para Medicina.

O que o fez voltar atrás? 

Acho que foi pensar ‘não vou deixar de fazer o que quero por medo’. Não podia ser o facto de tremer ao ver sangue que me ia limitar na profissão. Nunca houve de facto pressão familiar, embora curiosamente toda a minha família do lado paterno, pai, avô e trisavô, tenham sido médicos.

Uma grande referência sua foi, contudo, o seu avô materno. O que o marca tanto?

A vida dele. Não conheci os meus avós paternos – o pai do meu pai já tinha morrido quando nasci e a mãe estava na Índia. Esse avô era realmente uma pessoa incrível, um homem da Renascença. Médico, oficial da Marinha, perito em história medieval italiana, em orientalismo. Foi secretário-geral da Sociedade de Geografia. Foi inventor! Inventou uma maca que permitia que duas pessoas transportassem um ferido em vez de quatro, ainda hoje ensinada na NATO. E fazia tudo discretamente. Não era um homem dos sete ofícios mas dos 70. Tive a sorte de ficar com o seu espólio quando a minha mãe morreu e ele tinha escrito memórias e apontamentos sobre a participação nas campanhas da República. Note-se que nasceu em 1881, foi mobilizado para derrotar Paiva Couceiro quando houve a tentativa de restaurar a Monarquia e depois esteve na Primeira Grande Guerra e nas campanhas de África. Era agnóstico e foi um dos únicos portugueses a ter autorização para consultar os arquivos secretos do Vaticano. Descubro tudo isto nas memórias, lá em casa o avô era o avô. Sabia que tinha estado em África mas não sabia nada sobre o seu pensamento religioso ou político. Achei esse processo de descoberta de uma pessoa fascinante, mais porque estava tudo escrito com uma letra irrepreensível. Era como se estivesse escrito em Word. Digo muito aos meus filhos: escrever é comunicar e é bom que, mesmo com os computadores, consigam rabiscar coisas que sejam entendíveis 100 anos depois.

Há algo desse avô no seu lado de cultivar vários ofícios, da escrita à música?

Não sei o que será genético, mas acho que esta vontade que tenho de fazer coisas é uma resposta a uma certa angústia existencial. É isto de sentir que há tanta coisa por fazer, ouvir, ler, escutar, aprender e ao mesmo tempo ver que a vida não é eterna.

Sente essa ânsia aumentar?

Sim, é aquela coisa de pensarmos que morremos velhinhos e isso a certa altura começa a cair por terra. Começam a morrer pessoas próximas de nós, da nossa idade, mais novas. Digo isto sem fatalismos. Ela anda aí e acho que isso deve ser uma força motivadora para tudo. Sinto sobretudo a ânsia de não perder tempo com coisas que não interessam. Durante muitos anos não fui capaz de dizer que não e agora já sou.

O que mudou nas doenças das crianças desde que começou a trabalhar?

Houve muitas mudanças em tudo. Quando comecei as crianças morriam de desidratação na sequência de uma gastroenterite. Em Peniche, no início dos anos 80, no serviço médico à periferia, chegava a fazer bancos em que entrava às 8 da noite de sexta-feira e estava até às 8 da manhã de segunda. Eram quase 72 horas de urgência e via-se de tudo: desde uma grávida em trabalho de parto, picadas de peixe-aranha e, se havia festas na aldeia, era quase certo que apareciam facadas e navalhadas.

Havia muitas situações de alcoolismo, mesmo em miúdos?

Sim, as sopas de cavalo cansado. Havia essa ilusão nas aldeias de que o álcool dava calor, o que ajudava a fazer frente ao frio. Claro que também havia miúdos que iam à garrafeira dos pais, quase para experimentar o menú dos adultos. Hoje é diferente. A bebida passou a ser vista quase como uma condição para estar contente e feliz. Há uma noção um bocado perversa do que estar feliz e contente implica dizer alarvices e fazer figura de palhaço…

Os pais levam essa preocupação ao consultório?

Sim, mas vejo sobretudo isso nos agrupamentos escolares. O álcool hoje aparece muito barato aos jovens. Até à volta de algumas escolas há happy hours de cerveja, imperiais a 60 cêntimos, o que fica mais barato que uma água ou um refrigerante.

Em termos de doenças, que diferenças se nota mais nas crianças?

Não nos podemos esquecer que somos campeões na redução da mortalidade infantil. Houve uma diminuição do peso das doenças infecciosas e há mais situações crónicas, seja perturbações do desenvolvimento, cancro e as consequências de violência e acidentes. Mas há muito mais problemas de saúde mental, se calhar porque as pessoas ligam também mais a isso, mas não digo só esquizofrenias e neuroses. Há mais casos de crianças que se sentem infelizes, tristes, deprimidas.

Crianças de que idade?

Quatro e cinco. No fundo miúdos deprimidos por se sentirem mal nos seus ecossistemas, mal em casa, muito fechados. São quatro paredes sem casa, no carro, no consultório. E muitas vezes tudo plastificado, mesmo os afectos.

Falta de amor que gera falta de amor-próprio?

Sim. Creio que o nosso discurso de adultos não contribui muito para uma boa auto-estima.

Que idade tinha a criança mais nova que viu com uma depressão?

Já vi depressões em bebés. Um bebé que não seja objecto de afecto explícito corre esse risco. Agora, o ser humano tem uma boa resiliência desde que perceba o que se passou.

Mas como se trata uma criança com depressão?

Primeiro é preciso descobrir o que a deprime, o que a traumatizou, magoou. Isso nem sempre é fácil. E depois é tentar fazê-la ver o lado bom da vida, o que às vezes não é fácil pois é residual.

Dizia que os adultos podem contribuir para esse fenómeno.

Sim, há duas coisas erradas que fazemos. Uma é criar a expectativa de uma vida maravilhosa que depois não se concretiza. Aquela pressão para ir para o quadro de honra, ter a camisa de marca. A outra coisa é precisamente o contrário, aquela atitude de “escusas de estar a esforçar-te para ser uma pessoa completa porque, das duas uma, ou vais ser um malandro ou a vítima do malandro.” É o que vemos no telejornal: a galeria de horrores em que se salta do malandro, para o assassino, o pedófilo, o ladrão, o corrupto, o mentiroso. Isto não é muito estimulante para quem está a crescer e acho que devemos, enquanto adultos, ter a preocupação de passar um quadro de liberdade do que é a vida adulta. Devemos dizer que há o malandro, a vítima do malandro e depois a terceira hipótese, que é a da generalidade das pessoas. Acho que os adultos se vitimizam um bocado e desfrutam pouco para estar obcecados com o que não têm e isso passa às crianças.

Os pais que o procuram hoje são diferentes de há 30 anos?

Sabem mais coisas. Sempre foram mas hoje assumem-se mais como os primeiros cuidadores dos filhos e os médicos vão perdendo felizmente aquela arrogância, aquilo de se achar que os pais não sabiam nada e o doutor é que era o bom. Antes, se os pais fossem ignorantes, saíam tão ignorantes como quando tinham chegado ao consultório porque nada era explicado ou então os médicos usavam um jargão impressionante. É aquela velha história de dizer ao doente quem tem espondiloartrose e não bicos de papagaio. Espondiloartrose é mais solene e às vezes isto ainda acontece… A medicina evoluiu muito pouco neste sentido.

Da humanização?

Sim, continua a haver este desfasamento entre uma ciência que não sendo exacta tem de ser muito rigorosa, mas que tem de saber ao mesmo tempo comunicar. Não será caso único, acontece o mesmo com a linguagem jurídica. Acho que se um diagnóstico ou uma terapêutica é um acto negocial, como uma lei é para ser seguida pelas pessoas, tem de ser antes de mais entendido.

Uma relação negocial em que sentido?

Se faço um diagnóstico ou prescrevo um antibiótico de oito em oito horas, e os pais questionam que por causa do infantário têm receio que a educadora falhe, tenho de ver se há alternativa, se pode ser de 12 em 12. Tem de haver um entendimento mínimo para haver um compromisso e as coisas funcionarem.

 

Crianças deprimidas. São cada vez mais e mais novas

Janeiro 9, 2015 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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artigo do i de 7 de janeiro de 2014.

Nicholas Monu  Getty Images

Nicholas Monu Getty Images

 

Por Rosa Ramos

A crise, o desemprego dos pais, o stresse e a pressão de ser melhor são algumas das razões apontadas pelos especialistas para o aumento de casos. Cabe aos pais ajudar a ultrapassar

António nunca acreditou em depressões, muito menos em crianças. Por isso, quando o filho de 15 anos começou a trancar-se no quarto depois de a namorada o ter deixado, reagiu mal. Um mês depois, quando Bruno deixou de ir à escola e de aparecer nos treinos de futebol, António decidiu adoptar uma postura ainda mais agressiva. Sem resultados: o filho parecia não se importar com nada. Uma tarde, a seguir a uma discussão, Bruno tomou uma caixa inteira de comprimidos e acabou internado no hospital. A seguir foi-lhe diagnosticada uma depressão.

Há cada vez mais crianças e adolescentes deprimidos nos consultórios dos pedopsiquiatras e psicólogos infantis e nos hospitais. Além de estar a aumentar nestas faixas etárias, a depressão manifesta-se cada vez cedo. “Se há uns anos os primeiros sintomas começavam a surgir geralmente na pré-adolescência, hoje atingem crianças com três, quatro anos”, confirma a psicóloga infantil Rita Jonet.

A culpa, acreditam os especialistas com quem o i falou, é sobretudo do clima económico e das dificuldades que as famílias atravessam. “O desemprego e os problemas dos pais levam a quadros de depressão e ansiedade nos jovens e isso tem-se reflectido nas consultas, quer no consultório quer no hospital”, admite o psiquiatra Daniel Sampaio, que trabalha com adolescentes.

O presidente da Comissão Nacional da Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente sublinha que, mesmo sendo muito pequenas, as crianças apercebem-se dos dramas domésticos. “Há famílias em que pai e mãe estão desempregados e não têm dinheiro, sequer, para comprar os livros escolares”, exemplifica Bilhota Xavier. Rita Jonet acrescenta que os filhos são “esponjas” que absorvem o ambiente que encontram em casa: “Pais extremamente ansiosos, preocupados, pessimistas e angustiados em relação ao futuro passam esses estados de espírito para os filhos”.

O pediatra Mário Cordeiro avisa, por outro lado, que os pais – com determinadas conversas – contribuem para o mal-estar dos filhos: “Por vezes damos uma perspectiva da vida adulta muito negra, como se fosse um corredor da morte e houvesse um determinismo de impostos, corrupção e cortes, quando a vida de adulto tem preocupações, mas também momentos felizes e deve significar, para as crianças, ser mais livre e ter mais autonomia.”

Nem só a crise explica o aumento de casos de depressão na infância e na adolescência. Bilhota Xavier realça a “grande pressão” que é colocada em cima das crianças, desde cedo, para que sejam competitivas e obtenham bons resultados – na escola e nas actividades em que participam: “As famílias conhecem as dificuldades que existem no mercado de trabalho e os números do desemprego jovem. Por isso, muitos pais colocam demasiada pressão nos filhos para que consigam tirar médias mais altas e serem sempre os melhores, de maneira garantir um bom futuro”.

O stresse é, por outro lado, cada vez mais uma característica presente na vida das crianças. Alguns pais, sublinha Rita Jonet, exageram no número de actividades que proporcionam aos filhos. Por excesso de zelo e por desejarem que tenham uma vida boa. Entre ténis, aulas de ballet e de natação, as crianças são obrigadas a entrar numa correria diária, stressante e desenfreada, deixando de ter tempo para serem crianças. “Para estarem sozinhas e se auto-estimularem”. Além disso, falta silêncio na educação de hoje. “Entre a televisão e o tablet, os mais novos não aprendem a estar em silêncio. Habituam-se a receber constantemente estímulos exteriores e, quando não os recebem, sentem um vazio com o qual não conseguem lidar”, explica a psicóloga infantil. Os divórcios mal resolvidos e situações de violência doméstica – que as estatísticas mostram estar a aumentar – são outras causas apontadas pelos especialistas para o aumento das depressões em jovens e crianças. Em famílias estruturadas, e nos casos em que os pais até têm emprego, o problema é outro: a falta de tempo para estar, em pleno, com os filhos. “Sem ter a cabeça cheia de coisas que aconteceram no trabalho e ouvindo o que eles têm para dizer”, defende Rita Jonet. Daniel Sampaio sublinha que é um mito que os adolescentes não queiram falar com os pais. Por isso, ter tempo para a vida em família é fundamental.

O meu filho está deprimido? Há sinais a que os pais devem estar atentos. Na adolescência, a tristeza constante e prolongada não deve ser encarada com ligeireza. Sobretudo se for acompanhada por sinais somáticos – como excesso de peso ou magreza extrema, insónias, isolamento dos amigos e das amizades virtuais, ausência de comunicação, perda de interesse por actividades que antes eram importantes, desinteresse por tudo, quebra no rendimento escolar. E eventuais tentativas de suicídio nunca devem entendidas como meras chamadas de atenção. “Quando um adolescente fala em suicídio deve ser levado a sério”, avisa Daniel Sampaio.

No caso das crianças, é mais difícil descortinar os sintomas de depressão. “Porque cada criança reage à sua maneira e há até crianças que manifestam a depressão através da euforia e da alegria e actividade exageradas”, explica Rita Jonet. Umas podem deixar de comer, outras de brincar. Mas o principal sinal de alerta é sempre uma mudança brusca de comportamento. Independentemente das idades em causa, os pais devem procurar comunicar e compreender os filhos. Sem serem demasiado permissivos, mas sem adoptar um tom paternalista ou rígido. “A melhor maneira de ajudar é ouvir com atenção e, a partir daí, mostrar que é possível encontrar uma alternativa”, aconselha Daniel Sampaio.

Um ano depois da tentativa de suicídio, Bruno continua a ser seguido por um pedopsiquiatra e está a reaprender a gostar de viver. O pai, António, também teve de fazer um conjunto de aprendizagens: “Compreendi que a depressão é realmente uma doença. E hoje admito que talvez tenha sido demasiado duro com ele em alguns momentos. Não era só um coração partido”.

 

Crianças em idade pré-escolar podem ter depressão

Agosto 28, 2014 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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texto da Pais & Filhos de 6 de agosto de 2014.

O estudo mencionado na notícia é o seguinte:

Trajectories of Preschool Disorders to Full DSM Depression at School Age and Early Adolescence: Continuity of Preschool Depression

pais & filhos

Quanto mais cedo uma criança revela sinais de depressão mais probabilidades tem de ter a doença durante a infância, revela um estudo publicado no “The American Journal of  Psychiatry”. E é possível uma criança em idade pré-escolar ter depressão.

“São as más notícias de sempre: a depressão é uma doença crónica e recorrente”, referiu a pedopsiquiatra Joan L. Luby, autora do estudo da Universidade de Washington, nos EUA.

Os investigadores analisaram 246 crianças entre os três e os cinco anos e depois, novamente, entre os nove e os 12 anos, entrevistando-as sobre os seus sentimentos de tristeza, irritabilidade, culpa, sono, apetite e o prazer de brincar.

Mais de 51 por cento das 74 crianças inicialmente diagnosticadas com depressão continuaram deprimidas anos mais tarde, no segundo inquérito. No grupo das crianças que não deram sinais da doença no primeiro inquérito, 24 por cento desenvolveram a doença mais tarde.

“A boa notícia é que, se identificarmos a depressão cedo, podemos encontrar uma janela de oportunidade para tratá-la de forma mais eficaz”, disse Luby.

 

 

 

 

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