Stress do pai durante a gravidez também influencia comportamento das crianças

Agosto 28, 2019 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Danielle Macinnes / Unsplash

Notícia e imagem do Público de 6 de agosto de 2019.

O estado emocional da gestante já tinha sido relacionado com o comportamento das crianças. Agora, um novo estudo indica que o stress do pai e as dinâmicas do casal também influenciam a forma como os filhos se comportam.

Carla B. Ribeiro

O stress emocional do pai durante a gravidez é uma das causas dos problemas emocionais e de comportamento em crianças de 2 anos, conclui um estudo de uma equipa de investigadores das universidades de Birmingham, Cambridge, Leiden (Holanda) e Nova Iorque, publicado na revista Development & Psychopathology, editada pela Universidade de Cambridge. Mais: o mesmo trabalho relaciona os conflitos no casal aos problemas emocionais de crianças muito pequenas.

A equipa responsável destaca o facto de esta investigação se tratar da primeira a examinar a influência do bem-estar de mães e pais — e não apenas da mãe ou apenas do pai — antes, ao longo do terceiro trimestre, e depois do nascimento das crianças, tendo incluído a observação destas entre os 4 e os 24 meses de idade.

“Há muito tempo que as experiências do pai são tratadas em paralelo ou totalmente isoladas das [experiências da] mãe. E isto precisa de mudar porque a dificuldade de relacionamento das crianças tanto com o pai como com a mãe poderá ter efeitos a longo prazo”, explica Claire Hughes, a professora do Centro de Investigação para Família de Cambridge, em comunicado.

De acordo com os dados apurados pelos investigadores, o bem-estar da mãe de primeira viagem durante o período de gestação influencia directamente o comportamento observado quando os pequenos atingem os 2 anos, registando “birras, inquietação e mal-estar” naqueles cujas mães revelaram stress durante a gravidez. Porém, de acordo com o mesmo estudo, tanto o stress do pai como a relação do casal acaba por determinar o comportamento da criança nos seus primeiros anos de vida. E não apenas durante a gravidez, mas também nos primeiros meses do recém-nascido.

As descobertas apontam para que os bebés que tenham tido, nos primeiros meses de vida, um ambiente familiar tenso, com pai e mãe em stress pós-parto, mais tarde mostram-se “mais propensas a apresentar problemas emocionais”, seja por se revelarem preocupadas, infelizes e chorosas; por se assustarem facilmente; ou por mostrarem resistência a enfrentar qualquer situação que se apresente como uma novidade.

Para Hughes, este estudo torna-se de importância vital por identificar um problema que pode ser trabalhado com acompanhamento no tempo certo: “As nossas descobertas destacam a necessidade de um apoio mais precoce e efectivo para os casais se prepararem melhor para a parentalidade.” A pensar nisso, a equipa começou por partilhar as suas conclusões com a National Childbirth Trust (NCT), instituição britânica que tem como missão apoiar física e emocionalmente quem se prepara para um primeiro filho, ao mesmo tempo que diz “incentivar o NHS”, serviço nacional de saúde do Reino Unido, e outras organizações a reconsiderarem o apoio que oferecem, não o limitando à mãe, mas incluindo também o pai de primeira viagem e, em simultâneo, o casal.

A investigação teve por base uma amostra de 438 mães e pais enquanto esperavam pelo seu primeiro filho, no terceiro trimestre de gravidez, e incluiu o acompanhamento posterior dos três quando a criança tinha 4, 14 e 24 meses. Geograficamente, a amostra dividiu-se entre o Leste de Inglaterra, o estado de Nova Iorque e a Holanda.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Parental well-being, couple relationship quality, and children’s behavioral problems in the first 2 years of life

Depressão na adolescência: quando o fundo do poço começa cedo

Maio 16, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Texto e imagem do DN Life de 6 de maio de 2019.

Está associada a dificuldades nas relações interpessoais, comportamentos agressivos, quebras no desempenho académico e aumento do consumo de álcool e drogas. A depressão na adolescência é um problema grave, que provoca elevada mortalidade. Geralmente por suicídio.

Texto de Joana Capucho

Não se lembra quando surgiram os primeiros sintomas de ansiedade, mas terá sido ainda na escola primária, quando começou a ser vítima de bullying por ser considerada “betinha”. “Era muito certinha, tímida e tinha poucos amigos”. Embora não fosse “muito agressivo”, era o suficiente para lhe “causar desequilíbrios psicológicos”. Com a morte do pai, no final de 2016, Luísa (nome fictício) entrou num estado de “tristeza constante”. “Havia sempre qualquer coisa que me puxava para baixo. Faltava sempre alguma coisa. Sentia que ninguém me percebia. A ira também não ajudava. E tudo isso levou ao isolamento”, conta a adolescente de 16 anos.

Luísa tinha “ataques de ansiedade e de pânico com frequência, insónias constantes, mais baixos do que altos”. Sentia um vazio enorme, embora “a cabeça estivesse cheia de coisas”. Desenhava e escrevia, porque as folhas a “percebiam melhor do que os seres humanos”. Tornou-se mais distraída, o que se refletiu nos resultados escolares. Com o desânimo, pensava desistir de viver. “Tinha pensamentos suicidas. Sentia e pensava tudo, mas nunca cheguei a fazer nada.” Há um ano e meio, foi diagnosticada com depressão e ansiedade e está neste momento a receber acompanhamento psicológico e psiquiátrico. “Continuo bastante ansiosa. A depressão está mais fraca, mas continua aqui. Há dias em que vou mesmo ao fundo do poço e tenho pensamentos muito maus, mas já não são tão frequentes.”

Não são conhecidos dados nacionais, mas várias investigações indicam que a depressão afeta um número considerável de adolescentes e que tem vindo a aumentar nesta faixa etária. De acordo com um estudo da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra, realizado no ano letivo 2017/2018, um em cada quatro alunos do 7.º ao 12.º ano apresenta sintomas de depressão. José Carlos Santos, enfermeiro especialista em saúde mental, diz que 26% dos 6.100 alunos que responderam aos questionários manifestaram sintomatologia depressiva de moderada a grave.

O estudo foi realizado no âmbito do programa +Contigo, que desde 2009 se dedica à promoção da saúde mental e à prevenção de comportamentos suicidários nas escolas de todo o país, com maior incidência na região Centro. Segundo o coordenador da investigação, a percentagem de adolescentes com sintomas depressivos situava-se entre os 15 e os 20% quando o projeto começou. Não tem uma explicação objetiva para o aumento registado nos últimos anos, mas aponta algumas hipóteses. “As equipas dizem que são sobretudo questões de índole familiar: problemas de comunicação e desorganização do sistema familiar”.

Nos últimos anos, a pedopsiquiatra Ana Vasconcelos tem vindo a aperceber-se de “um aumento dos estados depressivos na adolescência”, muitas vezes diagnosticados “erradamente como hiperatividade, pois, no início da adolescência, podem mostrar a capa de hiperatividade ou agitação psicomotora e não se manifestar com os sinais” típicos da depressão, nomeadamente “tristeza, apatia, falta de motivação, ideias pessimistas”. Segundo a especialista, as depressões juvenis “aparecem com tentativas de suicídio, jovens que se cortam, com dificuldades de aprendizagem, desmotivação para a escola”.

São também cada vez mais frequentes “os casos de adolescentes da linha depressiva”, ou seja, oriundos de famílias com baixos níveis de serotonina – o neurotransmissor responsável por regular o humor e os estados mentais.

Diana Quintas, 25 anos, sabe o que é fazer parte dessa linha. “Há um grande estigma, ainda, relativamente à depressão, à necessidade de acompanhamento psicológico. É uma doença. É um desequilíbrio de químicos no cérebro e é para tal que precisamos de medicação. E é também uma doença hereditária. O meu pai sofre de depressão e é medicado há bastante tempo. Da mesma forma que há diabéticos que precisam de tomar insulina, eu e o meu pai precisamos, por agora, de tomar antidepressivos.”

Diana teve os primeiros sintomas depressivos aos 19 anos, depois de ter trocado de área no ensino secundário, o que a obrigou a ficar mais dois anos na mesma escola. “Há um sentimento de revolta, de tristeza, de desespero. Há um buraco, uma nuvem escura e parece não haver forma de sair de lá”. Aos 20, começou a estudar Direito. Estava no curso que queria, mas começou a “adquirir comportamentos obsessivos como forma de lidar com a ansiedade e com todo o trabalho” que o curso exigia.

Com a morte do avô, tudo se agravou. Surgiram os problemas para dormir e a falta de apetite. “Tomava café e comia chocolates para me manter acordada e para ingerir calorias.” Começou a afastar-se dos que a rodeavam, ao ponto de se isolar “de tudo e de todos”. No verão do ano passado, “chorava todos os dias, estava constantemente cansada, continuava sem conseguir comer”. Quando recebeu o diagnóstico de depressão, sentiu-se aliviada. “Finalmente, há explicação” para o que a atormenta há anos.

A perda é uma das situações que pode causar depressão na adolescência. “Pode ser de um familiar, mas também de um animal de estimação”, diz o enfermeiro José Carlos Santos, destacando que as roturas afetivas também são muito relevantes. Definida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como o período entre os 10 e os 19 anos de idade, a adolescência é “a fase das sensações, muito da componente afetiva e pouco da cognitiva. O desenvolvimento neuronal – no córtex transfrontal– atinge maturidade por volta dos 24 anos de idade”. Desta forma, “não podemos exigir que os adolescentes tenham um pensamento de um adulto, se não têm estrutura a nível cerebral para o poder fazer”.

Os sentimentos de tristeza fazem parte da adolescência – tal como da idade adulta. Mário Cordeiro diz que “é difícil definir o que é ‘depressão’, ou onde acaba a sensação de ‘estar na fossa’ e começa a verdadeira crise depressiva”. Provavelmente, refere o pediatra, “não há limites e uma será a continuação da outra”. Mas enquanto a tristeza é passageira, a depressão instala-se e afeta a forma como a pessoa se relaciona consigo e com os outros.

Pode ser difícil perceber quando começa a depressão, pelo que há alguns sinais aos quais os pais devem estar atentos, como “a sensação de desespero e abandono, de que o futuro só traz coisas desagradáveis, de não conseguir fazer nada com sucesso”. Não raras vezes, a doença está também associada a uma sensação “de cansaço seguido, durante dias e dias”, a problemas de sono, dores de cabeça ou abdominais sem causa aparente, perda de apetite e de peso ou o contrário.

Além da morte e da separação, Mário Cordeiro refere outros fatores que podem estar por detrás dos quadros depressivos, nomeadamente “a sensação de insegurança quanto a si próprio, separação ou divórcio dos pais, os conflitos familiares, a incapacidade de responder às solicitações do dia-a-dia, a depressão num dos pais, as doenças graves, o alcoolismo ou o consumo de drogas, os problemas com os amigos ou na escola”.

Quando ocorrem vários destes fatores ao mesmo tempo, “pode ser impossível aguentá-los: a depressão aparece e avoluma-se e o jovem debate-se, inclusivamente, com a questão de saber se vale a pena continuar a viver”. Por isso, alerta, “num adolescente, um estado depressivo franco nunca deve ser considerado uma ‘coisa natural’”.

À escala global, o suicídio é a terceira causa de morte na faixa etária entre os 15 e os 24 anos. José Carlos Santos fala numa taxa de suicídio de quatro em cada cem mil habitantes. Não existem dados sobre os comportamentos autolesivos – cortes ou toma de medicamentos sem ideação suicida ativa – mas estima-se que “por cada suicídio haja 100 a 120” ações deste tipo. “É um problema com uma dimensão grande”.

Luísa sofreu em silêncio até ao dia em que um artista que admirava se suicidou. “Os pensamentos maus que tinha triplicaram”. Quando a mãe lhe perguntou o que se passava, teve “um ataque de choro” e contou-lhe o que a atormentava há meses. E foi depois disso que procurou ajuda médica. Diana também contou com o apoio da família: “Dizem que é uma doença silenciosa. Até certo ponto, é, mas os meus pais viram, a minha irmã e o meu cunhado viram, o meu namorado viu. E foram eles que me deram a mão e me ajudaram”.

Mas nem sempre é assim. Ana Vasconcelos diz que “a depressão passa muitas vezes despercebida, sobretudo porque, neste momento, os adultos julgam mais do que tentam compreender”. Segundo a pedopsiquiatra, “muitas vezes, os sintomas da depressão incomodam os adultos, porque os adolescentes são mal educados, impulsivos, muito argumentativos e, por vezes, falta-lhes a capacidade de empatia”. Comportamentos disruptivos e desajustados que podem ser mal julgados.

Os estudos sobre a depressão revelam que quem sofre mais com a doença é o sexo feminino. De acordo com uma investigação recente da Faculdade de Medicina do Porto, a prevalência de sintomas depressivos nas raparigas aos 13 anos é duas vezes mais elevada do que nos rapazes da mesma idade. Segundo o estudo, 18,8% das raparigas sofrem de sintomas depressivos aos 13 anos, enquanto nos rapazes a percentagem é de 7,6%.

“Todos os estudos apontam para uma maior vulnerabilidade nas raparigas e para mais comportamentos de risco nos rapazes”, indica José Carlos Santos. O especialista em saúde mental diz que, perante um problema, os rapazes “tendem a uma maior externalização” e a manifestar mais consumos, nomeadamente de álcool e drogas, enquanto nas raparigas “há mais uma ruminação e uma maior internalização do problema”.

No Reino Unido, as redes sociais têm vindo a ser acusadas de instigar a depressão e o suicídio. Em janeiro, o secretário de Estado para a Saúde britânico, Matt Hancock, alertou os responsáveis por estas plataformas para a necessidade de apertar a malha aos conteúdos que induzem estes comportamentos. Uma chamada de atenção que surgiu depois o pai de uma jovem de 14 anos que se suicidou em 2017 ter afirmado publicamente que as redes sociais contribuíram para a morte da filha.

A questão é antiga e tem vindo a ser alvo de alguns estudos: será que os adolescentes que usam mais as redes sociais e os videojogos ficam mais deprimidos? “O grande risco nas investigações é o facto de as duas coisas acontecerem ao mesmo tempo, o que não quer dizer que as duas tenham que estar associadas ou que uma é causadora da outra”, diz o psicólogo clínico João Faria.

Na opinião do coordenador do Núcleo de Intervenção no Uso da Internet e das Telecomunicações do Pin [Centro de Desenvolvimento Multidisciplinar], as redes são “meios que podem potenciar” sentimentos negativos, mas não será correto relacionar “experiências menos positivas nestas plataformas ou nos videojogos com o aparecimento de sintomas depressivos”. Para o psicólogo, estes estão associados sobretudo aos “desafios que se colocam às novas gerações”, que muitas vezes “não sabem o que desejam em relação ao futuro e sentem-se perdidas”.

Em alguns casos de depressão, as redes sociais servem até para os jovens conversarem com outros, o que pode proporcionar algum alívio do sofrimento. Tal como as artes. Segundo a pedopsiquiatra Ana Vasconcelos, para muitos jovens “a criatividade é uma saída para estados depressivos”. “Há adolescentes com depressões graves que escrevem livros, poemas, pintam”.

Oito sinais aos quais os pais devem estar atentos:

  • Tristeza permanente e choro fácil
  • Irritabilidade e frustração
  • Isolamento social
  • Sentimentos de culpa e de incompreensão por parte dos outros
  • Não conseguir dormir bem durante muitas noites seguidas
  • Sensação de cansaço seguido, durante dias e dias
  • Dores de cabeça ou no corpo sem razões aparentes
  • Ideias ou comportamentos suicidas, bem como autolesivos

O estudo mencionado no texto é o seguinte:

Prevenção de comportamentos suicidários: contributos da investigação

 

Estudo. Maus tratos na infância cicatrizam o cérebro e aumentam o risco de depressão

Abril 18, 2019 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do MAGG de 22 de março de 2019.

por Rita Espassandim

A investigação concluiu que maus tratos na infância causam cicatrizes físicas no cérebro.

Um novo estudo descobriu que traumas na infância causam cicatrizes físicas no cérebro, e aumentam o risco de depressão grave. Publicado no “The Lancet” esta quinta-feira, 21 de março, a investigação encontrou uma ligação “significativa” entre adultos que sofreram maus tratos em crianças e um córtex insular menor, uma parte do cérebro que se acredita que ajuda a regular a emoção.

Pela primeira vez, cientistas conseguiram relacionar as mudanças na estrutura do cérebro a experiências traumáticas do início da vida e a problemas de saúde mental na vida adulta. O estudo concentrou-se principalmente num fenómeno conhecido como “cicatrização límbica”, que as investigações anteriores sugeriam estar ligado ao stresse.

Liderado pelo médico Nils Opel, da Universidade de Münster, na Alemanha, o estudo envolveu 110 pacientes internados no hospital com transtorno depressivo grave, monitorizados durante os dois anos seguintes. Os doentes foram submetidos a um questionário detalhado de trauma infantil, que, retrospetivamente, avaliou incidentes históricos de abuso físico, negligência física, abuso emocional, negligência emocional e abuso sexual.

Nils Opel explicou ao “The Telegraph” que, “dado o impacto do córtex insular em funções cerebrais, como a consciência emocional, é possível que as mudanças que vimos tornem os pacientes menos responsivos aos tratamentos convencionais”. Falou ainda do futuro, em que as “pesquisas psiquiátricas devem, portanto, explorar como é que as nossas descobertas podem ser traduzidas numa atenção, cuidado e tratamento especiais, que poderiam melhorar os resultados dos pacientes”.

Os resultados do estudo sugerem que a redução na área do córtex insular, devido à cicatrização límbica, poderia tornar a recaída futura mais provável, e que os maus tratos na infância são um dos maiores fatores de risco para depressão grave. 

Todos os participantes do estudo, com idades compreendidas entre os 18 e os 60 anos, estavam em tratamento hospitalar.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Mediation of the influence of childhood maltreatment on depression relapse by cortical structure: a 2-year longitudinal observational study

 

 

 

 

5 sinais de depressão em crianças e adolescentes

Março 7, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do DN Life de 21 de fevereiro de 2019.

Diz a OMS que 30 por cento da população mundial (se não mais) irá sofrer de depressão ao longo da vida. Diversos estudos vão ainda mais longe e afirmam que os primeiros sintomas, em 50 por cento dos casos, surgem antes dos 18 anos. Razões mais do que válidas para ficarmos todos atentos.

Texto de Ana Pago | Fotografias da Shutterstock

Ler todo o texto no link:

https://life.dn.pt/comportamento/5-sinais-de-depressao-em-criancas-e-adolescentes/?fbclid=IwAR0Uh8MNqKeHWSaGRKN5RDFjz3GxTeMSiWtcDTAfikXREvmOXSbIeH00UKs2/

 

Estudo mostra que sofrimento mental materno está associado a stress dos filhos

Agosto 8, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 26 de julho de 2018.

LUSA

Um estudo desenvolvido por investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) mostra que o sofrimento mental materno se associa a biomarcadores de stress nos filhos, deixando-os em maior risco de desenvolver síndrome metabólico e obesidade.

“Desde o nascimento que o bebé começa a estabelecer uma relação de vinculação com o adulto que lhe assegura o seu conforto e sobrevivência, o seu neurodesenvolvimento, regulação emocional e resposta ao stress”, escreve a instituição de ensino superior em comunicado.

Segundo a FMUP, quando a qualidade das relações de vinculação está comprometida, podem ser espoletados mecanismos na criança que levam a variações nos níveis de cortisol, a hormona do stress responsável pelo controle dos níveis de açúcar no sangue, e a alterações comportamentais, ao nível do sono e do apetite.

Este estudo envolveu os pais e cerca de 100 crianças que frequentavam a consulta de obesidade no Hospital Dona Estefânia, em Lisboa, e mostra uma correlação significativa entre o estado mental materno e os níveis alterados de cortisol nos filhos, associação encontrada mais frequentemente nas raparigas.

Foram igualmente analisadas as diferenças entre os vários tipos de vinculação entre progenitores e os filhos, destacando-se as estratégias de vinculação insegura que se desenvolvem quando “a qualidade da relação, que implica a sensibilidade e capacidade de resposta contingente do cuidador principal, está comprometida”, explica a investigadora Inês Pinto.

A responsável pelo trabalho concluiu que as filhas que apresentavam estratégias de relação insegura do tipo “evitante”, na qual uma situação de depressão da mãe pode fazer com que esta não seja tão responsiva a alguns sinais de sofrimento da criança, acabam por não ser capazes de se regularem emocionalmente, “podendo recorrer aos alimentos para se confortar”.

“Esta criança interpreta que o choro é algo negativo e suprime-o, seja para manter a mãe por perto ou porque sente que não surte efeito”, lê-se na nota da FMUP.

Estas são crianças que “raramente pedem ajuda e que tentam resolver tudo sozinhas”, sendo também “as que menos aparecem nas consultas”, porque “aprendem que tudo o que é emocional não pode ser verbalizado”.

De acordo com a também médica pedopsiquiatra no hospital Beatriz Ângelo, em Loures, este processo pode culminar num cenário de compensação através em desregulações hormonais.

Já nas estratégias de vinculação insegura do tipo ansioso, as crianças percebem “que nem sempre as mães estão presentes, mas que podem forçar a resposta materna, se exagerarem os seus estados”. “São essas que mais aparecem na consulta, que pedem ajuda, mas nas quais não foram encontradas associações com as hormonas do stress”, referiu.

Para a investigadora, a intervenção dos profissionais de saúde deve ser adaptada consoante o tipo de vinculação. Enquanto na relação de vinculação insegura do tipo evitante é necessário ajudar as crianças a verbalizar os sentimentos, no grupo ansioso é preciso auxiliá-las a distinguir “uma dor real daquela que não é”.

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Os resultados desta investigação, desenvolvida no programa doutoral em Metabolismo: Clínica e Experimentação da FMUP e orientada pelo professor catedrático Rui Coelho sublinham a importância da qualidade da relação de vinculação entre a mãe e o filho, do funcionamento familiar e do estado mental de pais e filhos quando se estuda a obesidade infantil.

“Deste modo, ao protegerem os seus filhos do stress excessivo e que perturba o funcionamento e o desenvolvimento dos sistemas neurofisiológicos, contribuem para a redução do risco da obesidade infantil”, acrescentou a investigadora.

Notícia da FMUP:

Depressão materna pode influenciar obesidade infantil

 

 

Adição digital: estudo comprova ligação entre uso excessivo de dispositivos digitais e depressão

Junho 2, 2018 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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moodsapo

Notícia e fotografia do moodsapo de 22 de maio de 2018.

As ligações entre uso excessivo da tecnologia e o desenvolvimento de problemas de saúde mental são cada vez mais faladas. Uma nova pesquisa realizada nos EUA veio comprovar esta ligação e ainda estabelecer uma relação causal entre o posicionamento do corpo, a energia e o humor da população que usa excessivamente os dispositivos digitais.

Já se sabe que os tablets, smartphones e outros gadgets digitais tomaram conta do dia-a-dia da população. E também já se sabe que essa ‘normalidade’ não traz benefícios à saúde, muito pelo contrário. Mas um novo estudo levado a cabo pela Universidade de São Francisco, nos EUA, veio agora comprovar que realmente «existe uma forte ligação entre a adição digital, especialmente no uso compulsivo do telemóvel, e a ansiedade e depressão».

A recente investigação contou com a participação de dois grupos de estudantes universitários, na qual se observou que vários indivíduos dos dois grupos, dentro e fora das aulas, estavam constantemente com a cabeça inclinada para baixo a fazer scroll nos seus telemóveis, em vez de estarem a conviver com as pessoas que os rodeavam. Este facto levou os investigadores a uma conclusão: o grupo que mais utilizou o telemóvel reportou um maior nível de solidão, ansiedade e depressão do que o grupo que menos o usou. «Para a preservação da saúde mental, é necessária a comunicação humana, porque é assim que aprendemos a modular os nossos estados de humor», esclarece Erik Pepper, investigador e professor no Instituto de Estudos de Saúde Holística da Universidade de São Francisco.

O investigador explica que as mensagens de texto e emails são formas de comunicação digital assíncronas, ou seja, são comunicações transmitidas de forma intermitente. Através desse tipo de comunicação, as pessoas não veem com quem estão a falar, logo não podem aperceber-se de sinais não-verbais, como a linguagem corporal ou vocal, entoação, etc., «razão pela qual não é possível medir o impacto emocional do seu discurso», elucida Erik Peper, o que pode originar uma errada interpretação da mensagem enviada. Além disso, o nível de profundidade dessas comunicações tende a ser mais superficial.

Durante as últimas três décadas, o investigador e professor da Universidade de São Francisco Erik Pepper afirma notar uma grande diferença comportamental nos estudantes. Antes do boom tecnológico, a maioria dos jovens estabelecia «contacto visual, falando entre si à medida que desciam os corredores nas pausas entre as aulas. Hoje em dia, é mais provável vê-los encostados a uma parede enquanto mexem nos seus smartphones ou tablets», conta. «Estão na sua própria bolha digital», frisa, acrescentando que se não se criar intimidade através da comunicação com os outros, irá criar-se um clima de isolamento e, consequentemente, o início de uma depressão. Além disso, a comunicação não-satisfatória não é a única forma pela qual os aparelhos eletrónicos afetam a saúde mental.

Os autores do estudo Erik Pepper e Richard Harvey foram mais longe, tentando estabelecer uma relação causal entre o posicionamento do corpo, a energia e o humor da população objeto de estudo. «Quando uma pessoa está deprimida e sem esperança, tende a adotar uma postura mais curvada», explicam. Se esse indivíduo «já tiver histórico de depressão, estados de pessimismo, ansiedade ou medo, ao colocar o corpo nesta posição está a evocar esses mesmos estados de espírito», prosseguem. Mas, assim que corrigem a postura, irão sentir-se menos deprimidos, mesmo que nenhum outro fator seja alterado.

Para além de serem parte integrante no aparecimento de sintomas de doenças do foro mental, os dispositivos móveis também dificultam o ato de adormecer devido à luz azul emitida pelos ecrãs, fator este que também «contribui para um maior desenvolvimento de doenças», sejam estas de foro psíquico ou físico, acrescenta Erik Pepper.

Também a estimulação dos conteúdos visualizados pode privar os cidadãos de um sono tranquilo e regenerador. «Nas redes socais, as pessoas tendem a ficar emocionalmente mais ativas, ao responder em várias frentes, mantendo-se assim mais acordados e com uma maior perda de sono», explica, acrescentando que não é por acaso que muitos dos alunos alvos de estudo se encontrem numa situação crónica de privação de sono. Quanto mais tempo gastar a consumir media, digital ou não, menos tempo gasta para se manter ativo, sendo por isso «o melhor tratamento para o combate à depressão, o movimento e o exercício», diz.
Assim sendo, como sabe se está dependente do seu smatphone? «Coloque o telemóvel longe do seu alcance e tente, durante alguns dias, não o usar», sugere o especialista. De acordo com os investigadores, se ficar agitado e começar a sentir que é impossível não ir verificar as redes sociais e emails, então poderá estar com um problema de dependência digital. Veja na galeria, no início do artigo, seis formas de controlar a obsessão pelo mundo digital, segundo estes especialistas.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Digital Addiction: Increased Loneliness, Anxiety, and Depression

 

Agressões. “Os professores ficam arrasados, deprimidos, doentes”

Maio 29, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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FILIPA BERNARDO/ GLOBAL IMAGENS

Notícia do Diário de Notícias de 13 de maio de 2018.

Joana Capucho

Uma professora foi recentemente agredida a socos e pontapés por quatro familiares de um aluno. Só em Lisboa, a violência contra docentes levou a abrir 87 inquéritos no ano passado

“Em tom impróprio, aquele pai entrou na escola, com o dedo apontado a mim, a insistir que eu tinha batido no filho”. M., professor de primeiro ciclo, de 61 anos, era coordenador da escola onde foi agredido por um encarregado de educação, em abril de 2016. “Chamámos a criança para esclarecer o mal entendido. Dirigi-me ao menino como “filho” – uma expressão que uso frequentemente com os alunos – e, do nada, o pai deu-me uma cabeçada na face, eu caí de costas e fiquei a sangrar do nariz. Foi uma situação muito complicada”, recorda.

M. foi um dos 23 docentes que em 2015/16 pediram apoio psicológico/jurídico à Associação Nacional de Professores (ANP). Um caso que seguiu para o Ministério Público, tendo terminado com a condenação do agressor a pena suspensa e multa. Mas nem sempre este tipo de casos seguem para tribunal. “Os casos que nos são reportados passam a ser acompanhados pelo Gabinete de Defesa do Professor, mas muitos não chegam ao tribunal. Os professores desistem de avançar com o processo com medo de intimidações e também devido à morosidade dos mesmos”, adiantou ao DN Manuel Oliveira, vice-presidente da ANP.

No ano letivo passado, a associação registou 22 casos de agressões físicas ou psicológicas a professores por parte de alunos, encarregados de educação e pais. Já este ano, registou 17, mas o dirigente acredita que muitas situações ficam por reportar. “Os números de agressões conhecidos serão inferiores ao real. Há casos de professores que não comunicam nem pedem ajuda. Sofrem em silêncio. E sofrem muito”, lamenta.

Só no Ministério Público de Lisboa, a violência contra professores motivou a abertura de 87 inquéritos em 2017. Na passada terça-feira, o tema voltou à discussão com o caso de uma professora de Educação Física na Escola Primária do Lagarteiro, no Porto, que foi agredida a socos e pontapés por quatro familiares de um aluno de oito anos, após o repreender durante uma aula.

Para Filinto Lima, da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), “é muito preocupante a forma como os agressores conseguem entrar facilmente numa escola e agredir um professor em funções profissionais”. Reconhece que é algo comum a outras áreas, como a medicina, mas reforça que “na educação, é horrível, porque é deseducar”. Situações, prossegue, que ofendem uma classe inteira.

Segundo Manuel Oliveira, os docentes são vítimas “de agressões físicas e psicológicas, de chantagem por parte dos alunos e dos familiares”. Atos de violência com um enorme impacto na vida dos docentes: “Sofrem um grande desgaste emocional. Os professores ficam arrasados, deprimidos, doentes. Por vezes, não têm capacidades para dar continuidade à profissão”.

Mais intervenção nas escolas
Como tinha “uma boa relação com a comunidade escolar”, M. manteve-se a lecionar na mesma escola após ser agredido pelo pai de um aluno. “Psicologicamente, não fiquei muito afetado, porque existia essa boa relação. Mas fiquei muito preocupado porque, do nada, entra-se numa escola e agride-se uma pessoa, porque o filho disse alguma coisa”, afirma.
As agressões aos docentes afetam, segundo o vice-presidente da ANP, “a autoestima, a imagem do professor”. Não são raros os casos de “depressões graves, de profissionais que não conseguem voltar a trabalhar”.

Destacando “as repercussões psicológicas difíceis de ultrapassar”, Filinto Lima, representante dos diretores, considera que “há formas de tentar diminuir a possibilidade de ocorrerem agressões nas escolas”. “Se tivéssemos mais mediadores de conflitos, psicólogos e assistentes sociais, estas situações podiam ser prevenidas”. E apela, ainda, ao apoio jurídico e psicológico às vitimas.

 

 

 

 

Os bebés também têm depressões

Maio 21, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site MAGG de 13 de março de 2018.

por MARTA GONÇALVES MIRANDA

O doente mais novo do pedopsiquiatra Pedro Caldeira da Silva, que criou a Consulta dos Bebés Irritáveis, tinha apenas quatro meses.

O médico pedopsiquiatra Pedro Caldeira da Silva, da Unidade da Primeira Infância do Hospital D. Estefânia, em Lisboa, acredita que os bebés podem ter depressões. E os sintomas não são assim tão diferentes dos adultos: apatia, pouco interesse na relação com o outro, um olhar triste. Independentemente de não saberem falar, andar ou guardar memórias, eles também sentem dor. “O importante é reconhecer que os bebés podem ter sofrimento — chamemos-lhe depressão ou chamemos-lhe outra coisa qualquer.”

Para combater o estigma associado às crianças e a psiquiatria, o médico criou a Consulta dos Bebés Irritáveis em 2002. Quase 20 anos depois, o número de casos diagnosticados tem-se mantido estável, mas chega quase aos 10%. E é importante perceber que às vezes o bebé não chora apenas porque tem cólicas como disse à MAGG  Pedro Caldeira da Silva. Leia a entrevista.

Como é que um bebé pode ter uma depressão?

Mesmo entre os especialistas é difícil aceitar [essa ideia.] Há especialistas que acham que os bebés não podem ter uma depressão, porque acham que para ter uma depressão é preciso ter um aparelho mental construído, ter memórias. Portanto, só a partir de uma determinada altura da evolução do desenvolvimento é que se pode falar verdadeiramente em depressão. A nossa experiência na Unidade da Primeira Infância do Hospital D. Estefânia não é bem essa, e há um conjunto grande de especialistas que trabalham em permanência na infância e que falam em depressão em bebés muito pequeninos.

Os especialistas que se opõem à ideia de bebés com depressões acreditam que só é possível ter este quadro a partir de que idade?

Pensam que a partir dos dois anos. Nós podemos pensar na depressão com dois ramos: o da perda súbita de pessoas significativas; e o da insuficiência crónica [de afecto]. Neste último digamos que é preciso ter uma idade maior, dizem alguns. Eu não colocaria sequer esse limite nos dois anos, pode acontecer mais cedo. A partir de certa altura é uma questão de terminologia entre os especialistas, mas o importante é reconhecer que os bebés podem ter sofrimento — chamemos-lhe depressão ou chamemos-lhe outra coisa qualquer.

Segundo a sua experiência, quão cedo é que um bebé pode ter uma depressão?

Lembro-me de um bebé com quatro meses que tinha um quadro depressivo. E os quadros de depressão nos bebés, curiosamente, são muito semelhantes aos quadros de depressão nos adultos.

De que sintomas é que estamos a falar?

Adinamia [redução da força muscular, debilitação muscular e fraqueza], pouca vitalidade, o evitamento do olhar, pouco interesse na relação com o outro, um aparente atraso no desenvolvimento. Alterações do sono e da alimentação, irritabilidade. É um quadro muito semelhante ao dos adultos, com as mudanças inerentes — pouco interesse no jogo, na relação. Um ar triste.

O bebé com quatro meses foi o paciente mais novo que tratou?

Sim. Este era um bebé que estava internado no hospital, tinha sido lá deixado pela mãe.

Foi abandonado?

Sim, mas entregue num sítio em que a mãe provavelmente achava que iria ser bem tratado. Mas claro que o serviço de pediatria não é um bom sítio para deixar bebés. No hospital, e naquela altura — isto já foi há mais de dez anos — os cuidados eram muito transversais no sentido em que uma enfermeira mudava as fraldas, outra alimentava. O resto das necessidades do bebé não eram atendidas, de forma que o bebé estava ali. Estava ali.

Acompanhou esse bebé?

Pediram-me para vê-lo porque estava muito irritado, não aguentava estar deitado, chorava imenso e tinha um ar muito triste. Observei o bebé e a coisa mais marcante que se notava logo era o evitamento do olhar. O bebé não olhava nem por nada. Tinha um aparente atraso de desenvolvimento e transmitia-nos uma tristeza muito grande. Estive com o bebé e isto foi filmado. Em meia hora ajudei-o a reanimar. O filme é muito interessante nesse ponto de vista porque vê-se um bebé a reanimar. Partindo de um evitamento maciço e intencional do olhar, o bebé recusava, recusava e chorava, até finalmente aceitar a relação e recuperar a atividade. Isto foi observado depois pelo pessoal do serviço de pediatria e serviu para mudarem a prática. Perceberem que, mesmo no internamento, é preciso uma continuidade de cuidados.

Com esse caso houve de facto uma transformação no serviço de internamento?

Sim. Os bebés precisam destas experiências repetidas.

De que forma é que interagiu com ele?

Tentei captar-lhe o olhar, entrar no ritmo dele. Tentei regular a distância, perceber qual era a distância com que ele se sentia mais seguro. Tentei perceber quantas modalidades sensoriais é que ele tolerava ao mesmo tempo: se conseguia falar-lhe, tocar-lhe e embalá-lo ao mesmo tempo. Fui ensaiando, fui-me mostrando persistentemente disponível e provavelmente o bebé foi-se sentindo seguro e retomou a relação.

Não sabe o que é que aconteceu ao bebé?

Não, não sei. Soube apenas que este vídeo ajudou na altura os juízes a decidirem mais rapidamente o que fazer com ele.

O que é que pode levar à depressão de um bebé?

Em primeiro lugar, as perdas importantes. No ponto de vista da saúde mental de primeira infância, os primeiros trabalhos importantes publicados foram realizados por René Spitz, um pediatra e psicanalista norte-americano.

Que tipo de estudos é que ele realizou?

Ele fez trabalhos nas prisões nos anos 40 e documentou o que se passava com os bebés que estavam com as mães até aos seis meses e depois eram retirados às progenitoras. E eram “muito bem tratados”, estavam em salas com muitas camas, todas brancas, sem grandes estímulos, eram muito bem lavadinhos e limpos e… mais nada. Spitz documentou isto e constatou que os bebés retirados às mães tinham aquilo que ele chamou depressão anaclítica.

Depressão anaclítica?

Uma depressão por perda. Depois realizou mais trabalhos destes em hospitais, e foram estes que permitiram que as mães estivessem presentes nos internamentos das crianças. Em Portugal as mães passaram a poder estar com os bebés em 1981 ou 1982. As coisas demoram.

Em Portugal as coisas chegam mais devagar?

Não é só cá. Demorou muito tempo a obter este reconhecimento e vencer a resistência de que as mães eram um empecilho na vida dos filhos.

A perda é uma das razões que podem levar à depressão de um bebé. Qual é a outra?

A outra é a insuficiência crónica. A indisponibilidade emocional dos cuidadores tem mais consequências do que propriamente o mau-trato físico.

Estamos a falar de por exemplo mulheres que sofrem de depressão pós-parto?

Por exemplo. A depressão pós-parto é um factor de risco. Nesse caso os bebés não estão necessariamente deprimidos mas mimetizam a expressão deprimida das mães. Quando nós observamos um bebé filho de uma mãe com uma depressão, nós próprios sentimo-nos um bocado deprimidos. Os bebés mimetizam a face da mãe — não quer dizer que estejam deprimidos. Mas pode ser um dos factores: se a depressão se arrasta, não é reconhecida e se mantém cronicamente, há este aspeto da indisponibilidade crónica para o bebé.

Pode haver também uma predisposição genética para a depressão nos bebés?

Provavelmente há, embora esta predisposição genética aumente com a idade. A componente genética do desencadear da depressão aumenta com a idade. Nos bebés muito provavelmente as coisas são quase exclusivamente de base relacional.

Tem ideia de quantos casos de bebés são diagnosticados com depressão?

Aqui na Unidade da Primeira Infância do Hospital D. Estefânia são menos de 10% dos nossos casos. Ainda são alguns.

Maioritariamente são bebés que desenvolveram depressões associadas à perda?

Não, penso que a maioria dos casos estão associados sobretudo à insuficiência crónica.

Como é que um pai ou uma mãe reage a um diagnóstico destes?

Nós não transmitimos necessariamente o diagnóstico. O diagnóstico serve para o que serve, portanto não é necessário muitas vezes transmiti-lo. Umas vezes sim, informamos, quando nos parece que é útil, outras vezes não.

Como é que é feito o tratamento?

O tratamento é relacional. Não se usam anti-depressivos em bebés. É fornecer ao bebé rapidamente uma experiência diferente.

Quando é possível, tenta-se que sejam os pais a fazê-lo?

O tratamento é muito sensível, e nós temos muito cuidado com isso. Tentamos ver se de facto na família é possível fazer esta experiência continuada satisfatória. Para um bebé ou uma criança muito pequenina, para quem os cuidadores não estão muito atentos ou não atendem às suas necessidades, começar um tratamento destes é um risco. Se a relação com o bebé é interrompida, isto para ele vai representar um abandono e nós podemos acabar por contribuir para agravar a depressão. Temos de ter muito cuidado e perceber bem qual é a motivação e a disponibilidade emocional da família para então decidirmos qual é a via de intervenção. Mas muito frequentemente utilizamos as técnicas da chamada psicoterapia mãe-criança, em que se fala com a mãe na presença do bebé ou se está com o bebé na presença da mãe.

E em que é que isso consiste exatamente?

Usamos a palavra. Falamos sobre o bebé com a mãe, falamos sobre as dificuldades da mãe, ou chamamos a atenção para os movimentos do bebé, o que é que necessita, se precisa de colo. Às vezes falamos pelo bebé.

Isso quando existe de facto uma disponibilidade por parte da família. E quando não existe?

Quando não existe, não existe. As pessoas ou procuram ajuda e aceitam ou não procuram e não aceitam. Mas outra das coisas que podemos fazer é ponderar a ajuda das creches ou dos jardins de infância. Sensibilizar alguém que esteja mais disponível para a criança de forma mais continuada. Isto dá-nos alguma garantia de que vai haver uma continuidade.

Quando é que criou a Consulta dos Bebés Irritáveis?                                                                                       

Em 2002. A nossa preocupação foi, e continua a ser, a seguinte: trazer um bebé ou trazer uma criança à psiquiatria é muito difícil. Há um estigma normal e natural associados. Portanto, nós fazemos muitas coisas com a intenção de diminuir o estigma.

Como por exemplo?

Por exemplo, não temos nenhum entrave ao pedido de consulta. As pessoas telefonam e têm consulta, não precisam de relatórios, computadores ou médicos de família. O acesso é completamente livre, porta aberta, desde que as crianças tenham menos de três anos. Foi também um bocadinho neste contexto que nós pensámos como é que podíamos chamar a atenção para o facto de haver bebés que estão em sofrimento, que choram, choram, choram e são difíceis de acalmar e que, enfim, nós podemos dar alguma ajuda além de dizer que é das cólicas. O que nós pensámos então foi criar uma consulta que estivesse descentrada da psiquiatria, que não tivesse estes nomes, e que chamasse a atenção para isto e que as pessoas tivessem um sítio aonde pudessem recorrer.

O que é que é um bebé irritável?

É um bebé que os pais acham que é irritável.

É tão simples quanto isso?

É tão simples quanto isso. Depois nós logo vemos o que é. Nós temos conseguido dar resposta numa semana. A Unidade da Primeira Infância nunca teve lista de espera. Temos 35 anos. Isto é um ponto de honra. Quando é preciso fazemos mais atendimentos, quando há total impossibilidade das nossas enfermeiras, faz-se um acompanhamento telefónico antes da consulta. Nós conseguimos dar sempre resposta. Depois o que encontramos no bebé irritável varia muito. Nós estávamos à espera de encontrar muitos casos de bebés com as chamadas perturbações regulatórias do processamento sensorial. Há um conjunto de bebés que têm reatividade especial aos estímulos sensoriais — aos sons, ao toque, ao embalar —, e que desse ponto de vista podem ser muito irritáveis.

São muito sensíveis?

Sim, ou pelo contrário podem ser muito pouco sensíveis e por isso procurarem ativamente estímulos. Estávamos a pensar que iríamos encontrar muitos casos desses, e para esses o esclarecimento das características do bebé ajuda a adaptar a relação. E encontrámos alguns, mas a grande maioria dos que nos chegaram eram bebés com dificuldades no sono. Também encontrámos muitas mães com depressão pós-parto não reconhecida. Hoje em dia penso que já há muito mais sensibilidade para isto, mas ainda é preciso chamar a atenção para este problema. Muitas mulheres e bastantes homens têm depressão pós-parto e não o reconhecem, não procuram ajuda.

 

 

Como lidar com esta nova geração “dependente” da tecnologia

Abril 23, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da http://visao.sapo.pt/ de 8 de abril de 2018.

CLARA SOARES

Jornalista e Psicóloga

Duas psicólogas, especialistas em perturbações que afetam os adolescentes, falam das pressões excessivas e dos exageros da vida virtual. Não é à toa que a Organização Mundial de Saúde acabou de incluir o “vício de videojogos” na sua lista de doenças do foro psiquiátrico.

IVONE PATRÃO

A investigadora do ISPA – Instituto Universitário de Psicologia Aplicada e autora do livro Geração Cordão defende que os adultos devem falar com as crianças desde cedo sobre 
o uso da tecnologia

Os adolescentes passam demasiado tempo online ao ponto de isso lhes alterar o humor?

Há dez anos, comecei a receber na clínica jovens com indicação de comportamentos agressivos e alterações do sono, mas que nada tinham que ver com perturbação de hiperatividade e défice de atenção. Estavam ligados à dependência online. 
A dependência da tecnologia compromete a alimentação, o sono, o rendimento escolar, as relações com os outros. Numa pesquisa que fizemos com meio milhão de adolescentes que usa smartphone, 14% deles tiveram a cotação máxima em dependência da internet.

A vida virtual e o multitasking afetam o funcionamento 
do cérebro juvenil? 
Há diferenças de género?

Quem já tem outros fatores de risco para sintomas ansiosos e depressivos fica mais vulnerável. 
Os estudos na área da neurobiologia, com recurso a ressonâncias magnéticas, mostram que são ativadas as mesmas zonas cerebrais (da recompensa) nos utilizadores da internet e de videojogos. O excesso 
do seu uso limita o desenvolvimento 
e o treino das competências sociais 
e da autonomia. Uma investigação com 2 220 jovens, entre os 12 e os 30 anos, permitiu perceber que os rapazes tendem a ligar-se mais aos videojogos 
e as raparigas às redes sociais.

Os miúdos aprendem por imitação e seguem o modelo dos pais. Estes estão à altura?

Os jovens, com legitimidade, perguntam: “Então o meu pai não me deixa estar na internet e, à uma da manhã, põe um post no Facebook?” Chegam aos 16 anos sem nunca terem conversado sobre isto com os pais ou recebem respostas vagas como “podes estar, mas só um bocadinho” ou “já estás nisso há tempo demais”. 
Não são exemplos a seguir.

Os jovens podem ficar deprimidos pelo medo da comparação social 
na vida real. Como se lida com isto na vida virtual?

A pressão do grupo sempre existiu. 
A vida online amplia essa pressão, eles ficam 24 horas ligados, sem parar 
para refletir, como acontecia antes. Deixaram de ter time out. Assumo que a sintomatologia ansiosa e depressiva tem que ver com esta sobrecarga. Aconselho os pais a promoverem momentos de encontro. Definam regras, como o não usar ao jantar, sem exceções, seja o jogo ou o email de trabalho a enviar. Mas falem uns com os outros!

TERESA LOBATO FARIA

A especialista lembra que os jovens precisam de se sentirem compreendidos e aceites pelos adultos, sem pressões excessivas nem julgamentos. E deixa pistas para os pais e os professores
Porque se agravam 
os sintomas ansiosos e depressivos 
na adolescência?

Essa é a altura da vida em que os jovens começam a questionar e a tomar decisões, a imitar o que fazem os amigos. 
É também nessa altura que surgem atitudes de isolamento ou de rebeldia. Há também a questão genética, o bullying, a rejeição do grupo e o stress crónico nas famílias. O imediatismo social dominante limita a capacidade de esperar e de resistir à frustração. 
A ansiedade vem antes da depressão 
e é um fator de risco para esta.

O que faz com que haja jovens que se sintam menos bem na escola, chegando mesmo a vomitar?

Vomitar pode traduzir uma fobia escolar ligada à angústia da separação ou ao excesso de exigência e à pressão para o sucesso. Muitas vezes, os adultos exigem em vez de ajudarem. Por exemplo, quando divulgam nas redes sociais o facto de o filho estar no quadro de honra… A intenção até pode ser boa, mas a comparação social cria sensações de incapacidade.

A adolescência não é uma doença. 
Há alguma coisa que está 
a escapar aos adultos?

O pior que se pode dizer a um adolescente aflito é: “Tu sabes, tu consegues.” Isto agrava o problema, conduz a estados de desistência e de falta de esperança. Outros erros comuns: numa turma, castigar os malcomportados sem ter a sensibilidade de avaliar o impacto que isso tem sobre os perfeccionistas, que vão para as aulas com uma ansiedade horrível; pais que ficam ofendidos se os jovens preferem programas com amigos às saídas com eles.

Que fatores contribuem 
para uma adolescência tranquila?

A partilha familiar, que é um fator protetor por excelência, mas existe pouco, 
e ter abertura para aceitar os deslizes e a experimentação dos miúdos. Imagine que o vê a fumar – mas é fumador, está em risco ou só a experimentar? Os pais também não devem ficar sentidos perante os primeiros sinais de autonomia dos filhos, o que é saudável. Quando os vossos filhos se queixam, levem-nos a sério. Evitem que meros mal-entendidos se tornem conflitos enormes. Saibam ouvir e respeitar para que eles não se sintam incompreendidos e cresçam com chão e esperança.

 

 

 

Las nalgadas durante la infancia incrementaría el riesgo de depresión e intentos suicidas

Novembro 21, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do site https://www.psyciencia.com de 7 de novembro de 2017.

Por David Aparicio

A principios del año escribí un extenso artículo que presentaba la evidencia de cientos de investigaciones sobre los efectos de las nalgadas en la salud física y mental de los niños. Las investigaciones no han cesado y datos más recientes nos alertan de repercusiones más severas como depresión, intentos suicidio, abuso del alcohol y drogas.

El estudio publicado en Child Abuse & Neglect y dirigido por Melissa T. Merrick y los ya conocidos expertos en el tema del castigo físico, Elizabeth Gershoff y Andrew Grogan-Kaylor, llevaron un análisis que evaluó el efecto de las Experiencias Infantiles Adversas (ACE, por sus siglas en inglés) que sufrieron 7645 personas de diferentes razas antes de los 18 años de edad.

Experiencias Infantiles Adversas y el efecto de las nalgadas

Las ACE incluyen por lo general una lista de 10 experiencias: abuso sexual, emocional, físico, negligencia (física y emocional), problemas en el hogar (madre tratada violentamente, familiares con trastornos mentales, familiares en prisión, con problemas de abuso de sustancia y padres separados o divorciados). Sin embargo, en esta investigación se decidió añadir las nalgadas1 en la lista de ACE para a explorar sus efectos en conjunto y por separado.

Como era de esperarse, los análisis indicaron que una relación directa y creciente entre los ACE y los problemas de salud mental como el consumo de drogas y alcohol, intentos de suicidio y depresión. Así se encontró que las personas que habían sufrido de seis o más ACE durante su infancia tenían 2.73 más riesgo de sufrir de depresión durante su vida adulta; 24.36 de intentar suicidio, 3.73 de riesgo de abuso de sustancias y 2.84 de tener problemas de alcohol. Al analizar los ACE de manera independiente se encontró que las nalgadas durante la infancia también relacionaba con los problemas de alcohol, drogas, intentos de suicidio y depresión.

La investigación también evaluó los efectos combinados entre varios ACE y en esta etapa se encontró  las nalgadas no se relacionaban significativamente con el intento de suicidio y depresión. Los autores argumentan que probablemente se deba a que las nalgadas están fuertemente relacionadas con otras formas de maltrato físico infantil (cachetadas, correazos, etc.) que se relacionan también con problemas de salud.

Hace poco en Francia aceptó como legal el uso de nalgadas, bajo la premisa de que los padres están en una relación jerárquica que les atribuye el derecho de usar el castigo físico como método correctivo. Ningún gobierno puede legalizar la violencia como medio “correctivo” cuando las leyes internacionales lo prohiben y hay tanta evidencia de los efectos que puede provocar. No estamos hablando solo de efectos imperceptibles, estamos hablando de problemas de salud mental y físicos que causan la muerte de millones de personas y representan miles de millones de dólares en gastos de salud.

Fuente: Psypost

Notas al pie de página:

Para evitar confusiones o malas interpretaciones los autores fueron cuidadosos a la hora de definir qué son las nalgadas: (uso de fuerza física, con la mano abierta, para provocar dolor, pero sin lesiones con el fin de corregir o controlar la conducta de los niños.

 

 

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