Adolescentes portugueses estão exaustos. Os que não gostam da escola triplicaram nos últimos 20 anos

Dezembro 23, 2018 às 6:43 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 19 de dezembro de 2018.

Mais de metade dos alunos portugueses dizem-se maus alunos. O novo inquérito sobre o estilo de vida dos adolescentes mostra-os cada vez mais exaustos, tristes e medicados.

Natália Faria

A matéria nas aulas é demasiada, aborrecida, difícil. A avaliação é um stress. E o pior mesmo é a comida do refeitório. Em cada 100 adolescentes portugueses, quase 30 (29,6%) dizem que não gostam da escola. Mas o que mais surpreendeu os autores do novo grande inquérito sobre os estilos de vida dos adolescentes portugueses foram os níveis de exaustão e de tristeza: 17,9% dos adolescentes inquiridos disseram-se cansados e exaustos “quase todos os dias”, 12,7% acusaram dificuldades em adormecer e 5,9% confessaram que se sentem “tão tristes que não aguentam”.

Se recuarmos a edições anteriores deste inquérito, que vem sendo repetido de quatro em quatro anos desde 1998, houve agravamentos em todos aqueles indicadores. Quanto à má relação dos alunos com a escola, “é um problema crónico” que triplicou nos últimos 20 anos. “É uma desgraça continuada”, constata Margarida Gaspar de Matos, a investigadora que coordena a equipa que faz esta análise aos adolescentes portugueses para a Organização Mundial de Saúde (OMS) – este ano com inquéritos distribuídos a 6997 jovens de Portugal continental, do 6º, do 8º e do 10º ano de escolaridade.

Em 1998, 13,1% dos alunos diziam não gostar da escola. Vinte anos depois, essa percentagem aumentou para os referidos 29,6%. E se, no primeiro inquérito, apenas 3,8% acusavam a pressão com os trabalhos da escola, este ano foram 13,7%. Por outro lado, quando os investigadores perguntaram aos alunos do 8º e do 10º ano se pretendiam ir para a universidade, apenas 54,8%, pouco mais de metade, portanto, responderam que sim. Em 2010, as respostas positivas tinham sido 69,3%.

Pior: mais de metade dos alunos (51,8%) consideram-se maus alunos. “Quando lhes perguntamos porquê, a resposta é chapa um: ‘Não tenho boas notas’, ‘não tenho boas notas’, ‘não tenho boas notas’. Não falam da dificuldade em aprender, eles estão é stressadíssimos com as notas. Parece que a escola toda se centrou na questão da avaliação em vez de no gosto pela aprendizagem”, acrescenta a investigadora, para quem o combate a “este cancro que é o desgosto pela escola” exige que se dê mais atenção à flexibilização curricular. Afinal, 87,2% dos alunos queixam-se que a matéria é demasiada, aborrecida (84,9%) e difícil (82%).

“Parece que o ensino está todo virado para a nota em vez de para o conhecimento académico e das pessoas. E isto é uma escola muito punitiva. É uma escola que existe para enfardar conhecimento e não para fazer com que as pessoas desabrochem do ponto de vista da cultura e do conhecimento do meio”, insiste a investigadora, reivindicando a recuperação, nas escolas, dos espaços em que os “os adultos de referência possam contactar com as crianças sem que seja numa troca à volta das matérias”. É que, como se não bastasse, 56,9% dos alunos acusaram a pressão também dos pais para que tenham boas notas.

Tristes e exaustos

Recolhidos através de um questionário online, preenchido em contexto de aula, por alunos de 387 turmas de escolas públicas, estes resultados hão-de integrar o grande retrato internacional da adolescência, chamado Health Behaviour in School-Aged Children, da OMS, que congrega dados semelhantes de 44 países e que deverá ser divulgado dentro de mais ou menos um ano.

Na altura, será possível comparar os estilos de vida dos adolescentes portugueses com os dos outros países, em áreas como o apoio familiar, a escola, saúde, bem-estar, sono, sexualidade, alimentação lazer, sedentarismo, consumo de substâncias e violência. Por enquanto, o retrato que se afigura aos investigadores portugueses é preocupante, com os indicadores reveladores de mal-estar a equipararem-se (e a agravarem-se, nalguns casos), aos de 1998, depois de vários anos de aparente melhoria.

As respostas revelam, por exemplo, que, apesar de a grande maioria (81,7%) dos jovens se considerar feliz, tem aumentado a percentagem dos que se dizem sentir tão tristes que não aguentam… quase todos os dias: eram 3,5% em 2006 e subiram para os 5,9% em 2018. Ao mesmo tempo, os que se dizem tristes quase todos os dias aumentaram de 5,3% para 9,2%, depois de em 2006 terem recuado aos 4,6%.

Já nos comportamentos autolesivos houve “uma diminuição tão ligeirinha que é quase um empate técnico”: 19,6% dos alunos do 8º e do 10º ano assumiram ter-se magoado de propósito pelo menos uma vez nos 12 meses anteriores ao inquérito.

O que deixou “apavorada” a coordenadora deste estudo foi a quantidade de jovens que se declararam exaustos: 17,9% em 2018, acima dos 10,3% de 2014 e dos 9,5% de 2010. Nem 2002, que “foi o ano terrível em que tivemos alguns dos piores indicadores”, foi tão mau. Nesse ano, o valor foi de 16,8%. O estudo não permite estabelecer nexos causais. Mas Margarida Gaspar de Matos, que além de investigadora é psicóloga clínica, recorre à sua experiência profissional para arriscar algumas explicações susceptíveis de ajudarem a perceber para o cansaço e a exaustão dos jovens: “O stress por causa das notas, o abuso do ecrã e as poucas horas de sono”.

Notas de rodapé: 56,6% dos alunos do 8º e 10º ano declararam passar várias horas por dia ao telemóvel. E cerca de metade do total de inquiridos apontou problemas como dificuldades em adormecer, sono agitado, e acordar cedo demais e a meio da noite. Outros indicadores de mal-estar decorrem dos 27,6% dos que se disseram preocupados “todos os dias, mesmo várias vezes ao dia”.

 

 

Lançamento dos Resultados Nacionais do Estudo HBSC 2018 – 19 dezembro na Fundação Calouste Gulbenkian

Dezembro 18, 2018 às 2:30 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Inscrição gratuita, mas obrigatória no seguinte link: https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSeJ-uInMvcBnvg9IkSlcOfWPHC-VVXunIECglzeFuH0ObibWg/viewform?vc=0&c=0&w=1&fbclid=IwAR1yiVA37Qrc_C_PXKZN8-6TWUcHgwxV3CJyyBVja6OttwKeeaRZA7Bfwzw

“Desinvestiu-se na droga e na sida”. Ambas “aumentam entre os jovens”

Julho 20, 2017 às 6:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do https://www.publico.pt/ de 9 de julho de 2017 a Margarida Gaspar de Matos.

Nos 30 anos do seu projecto Aventura Social, Margarida Gaspar de Matos, psicóloga e professora catedrática da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa, olha para o que foi então o projecto – e para o que seria, se fosse lançado hoje.

Ana Dias Cordeiro

Se fosse lançado hoje, em vez de há três décadas, o projecto Aventura Social, acredita Margarida Gaspar Neto, em vez dos problemas comportamentais e da droga, teria os novos desequilíbrios que se começam a notar entre géneros e as novas tecnologias da informação a assumir o protagonismo.

O que é o Projecto Aventura Social?

Quando vim para a universidade, vinha do Ministério da Educação onde trabalhava junto das escolas com jovens com problemas de comportamento. Já naquela altura, final dos anos oitenta, esse era o grande problema das escolas. Não criámos um núcleo formal. Para conseguirmos ultrapassar a necessidade de autorização, demos-lhe um nome que não era nada do que costumava ser: Aventura Social. Não era uma instância com existência legal. Hoje tem mais de 20 investigadores. E foram criados três grandes grupos: um deles é o dos estudos à população — temos redes ligadas à União Europeia, redes ligadas à OMS — em matéria da saúde, da qualidade de vida, e de outros. Outro — a que chamámos Aventura Social na Comunidade — tem a ver com o trabalho de intervenção universal como a rede que criámos para envolver os jovens na reflexão dos temas que lhes dizem respeito. Com este projecto dos Dream Teens, o objectivo é trabalhar as partes positivas. As nossas estatísticas dizem que 20% dos miúdos têm problemas e 80% não têm. Vamos ver porque é que esses 80% não têm [problemas]. Vamos ver, quando as coisas correm bem, por que é que correm bem, e vamos tentar providenciar essas coisas boas, e que sejam os próprios jovens a lutar por elas.

Além do problema de comportamento nas escolas, havia outros?

Na altura, associados aos problemas de comportamento, havia os problemas de consumos de droga, a questão da Sida, logo ali nos anos 80. Mais tarde passámos pelo bullying e depois pela questão da obesidade.

Se o projecto fosse lançado agora, qual seriam os problemas a analisar de forma prioritária?

Um deles é a desesperança dos jovens relativamente ao seu futuro. Os miúdos dizem coisas estranhas como “Tanto faz ter 10 como ter 20” [nas notas]. Esta desesperança dos jovens afecta-me mais do que o facto de eles serem insuportáveis na escola, como se nem energia tivessem para serem insuportáveis. Há três anos, quando ia às escolas, muitos jovens diziam que o que aprendiam na escola era o que servia para emigrar: ou inglês ou culinária, para serem chefs. Agora eu penso que, com ou sem razão, as pessoas estão a começar a ficar animadas com o suposto fim da crise. Além dessa desesperança, também vejo a família, que vai começar a ter alguns desequilíbrios, e as novas tecnologias como os outros grandes desafios de agora.

Que tipo de desequilíbrios?

Por exemplo, vamos ter em breve casais em que as mulheres são doutoradas e os homens trabalham na construção civil. Isso não tem nada de mal em si, a questão é o choque cultural que acontece nas nossas casas, do ponto de vista dos interesses pela sociedade.

Os rapazes não apostam tanto na parte académica?

Não apostam, primeiro porque há essa desesperança, e depois porque eles acham que, se aprenderem a arranjar um cano, ou a arranjar computadores, encontram um emprego já e a ganhar mais, e isso é verdade. Mas cria um desequilíbrio entre os casais naquilo que diz respeito à intimidade conceptual e filosófica, sobre as questões da vida.

Já vê sinais evidentes de que isso acontece?

Sim, vejo sinais disso na estatística, porque os dados mostram-nos que, até ao 9.º ano, há tantos homens como mulheres e depois os homens desaparecem e não voltam a aparecer.

Dizia que o terceiro desafio é a questão das novas tecnologias.

Sim, porque vai mudar as relações humanas. As tecnologias têm coisas fantásticas, as pessoas circulam muito pelo mundo e as tecnologias mantêm-nas muito em contacto. Isso é muito importante. Agora tem que haver outras alternativas. A Internet pode ser utilizada para aumentar o convívio pessoal ou para o limitar, e esse é que é o desafio.

A obesidade e os problemas comportamentais já não são prioritários?

Isto são fluxos. A droga foi um daqueles problemas dos anos oitenta. Agora em 2018 — espero estar enganada — penso que os dados dos consumos de droga vão aumentar outra vez. E vão aumentar pela primeira vez desde 2002. A partir desse ano, os jovens em Portugal e na Europa toda têm ficado com melhores indicadores de saúde. Mas isso vai mudar. Nesta altura da crise os indicadores não pioraram. Não melhoraram mas também não pioraram a não ser aquele mal-estar, a desesperança e a falta de expectativas. Não houve ainda problemas do ponto de vista físico, mas eu acho que vamos ter. Eu ainda não tenho dados, mas tenho a percepção.

Que tipo de consumos?

O ectasy, e todas aquelas drogas sintéticas, que estão muito ligadas à cultura dos festivais. Há muito consumo desses produtos também porque os jovens acham que aquilo não faz assim muito mal, porque arranjam uma teoria, que é muito frequente, e dizem isto que há coisas que fazem mal mas que aquilo que eles consomem não faz mal nenhum. Além disso, as pessoas, envolvidas nestes negócios milionários, não vão deixar que o consumo baixe.

Por que aumenta agora e não aumentou antes, neste intervalo entre 2002 e 2018?

Não aumentou antes porque houve um grande investimento nas políticas da saúde, na promoção da saúde nas escolas. Depois desinvestiu-se na droga como se desinvestiu na Sida. Achamos que a Sida desapareceu, mas não desapareceu, continua a aumentar, nomeadamente, nestes jovens adolescentes.

 

 

Raparigas portuguesas são das que praticam menos desporto na Europa

Maio 17, 2017 às 2:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança, Relatório | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 17 de maio de 2017.

Relatório da OMS destaca pouca actividade física entre adolescentes portuguesas.

Romana Borja-Santos

A prática regular de exercício físico está longe de ser um hábito entre as adolescentes portuguesas, que estão entre as mais inactivas da Europa. Aos 13 anos, não há nenhum outro país europeu onde as raparigas pratiquem tão pouco exercício. Nesta idade, só 6% das portuguesas dedicam uma hora por dia a uma actividade física moderada a intensa, indicam os dados de um relatório da Organização Mundial de Saúde, que será apresentado nesta quarta-feira no Congresso Europeu de Obesidade, no Porto.

De acordo com o documento Adolescent obesity and related behaviours: trends and inequalities in the WHO European Region, 2002-2014, aos 15 anos o valor desce para 5%, mas nessa altura as italianas conseguem praticar ainda menos desporto do que as portuguesas. Na idade mais baixa avaliada, os 11 anos, os dados não são animadores, mas mesmo assim são mais positivos: 16% das raparigas dedicam uma hora diária ao exercício, ficando à frente de dez países, como Itália, Dinamarca, Suécia ou Holanda.

Para a investigadora Margarida Gaspar de Matos, que coordena a parte portuguesa do trabalho da OMS, estes resultados são preocupantes e mostram que é preciso procurar outras formas de incentivar a prática de exercício – até porque os valores nas raparigas estão praticamente estáveis desde 2002 e nos rapazes as subidas são ligeiras. “Para incentivar a prática é preciso começar cedo e na cultura familiar e com a família. Na escola é preciso que os jovens encontrem a ‘sua actividade’ e não se tenham de reduzir a ‘ofertas standard’”, exemplifica a psicóloga da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa.

Os dados dos rapazes não são tão negativos, mas também estão longe de serem animadores. Aos 11 anos, 26% dos adolescentes praticam pelo menos uma hora diária de uma actividade física moderada a vigorosa. Aos 13 anos o valor desce ligeiramente para 25% e aos 15 anos cai para 18%. Margarida Gaspar de Matos defende que é preciso incentivar o exercício de outras formas, começando por acabar com alguns estereótipos como “retirar dos praticantes de actividade física a ‘etiqueta’ de que são pouco ‘intelectuais’”.

A investigadora vai mais longe nas razões que explicam este afastamento do desporto. A começar pelas poucas condições que existem nas escolas para que os adolescentes possam tomar banho após a actividade desportiva. Depois, sublinha que a associação entre o desporto e práticas competitivas ou até alguns comportamentos mais violentos afasta muitas vezes os jovens que apenas procuram um momento de lazer. “A promoção da actividade física não passa por convencer os adeptos da prática, mas por encontrar contextos e motivação para os que não são adeptos e entender o que os afasta”, conclui.

descarregar o documento citado na notícia em baixo:

Adolescent obesity and related behaviours: trends and inequalities in the WHO European Region, 2002–2014

 

Portugal é um dos cinco países com mais adolescentes obesos

Maio 17, 2017 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança, Relatório | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 17 de maio de 2017.

Relatório da OMS analisa 27 países e regiões. É apresentado nesta quarta-feira no Porto. Mostra que entre 2002 e 2014 o país estagnou no combate a esta doença. Consumo de vegetais é insuficiente e o de fruta é positivo, mas caiu muito nos últimos 12 anos.

Romana Borja-Santos

A luta contra a obesidade em Portugal não está a ter resultados significativos entre os mais novos. Em 2002 os dados não eram animadores e 12 anos depois o cenário continuava bastante preocupante: os adolescentes portugueses estão entre os mais obesos da Europa. Só a Grécia, a Macedónia, a Eslovénia e a Croácia apresentam valores mais negativos, revela um relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS), que será apresentado nesta quarta-feira no Congresso Europeu de Obesidade, no Porto, e que compara 27 países e regiões.

O documento Adolescent obesity and related behaviours: trends and inequalities in the WHO European Region, 2002-2014, aponta para que a prevalência da obesidade em Portugal, nos adolescentes aos 11, aos 13 e aos 15 anos, seja de 5%. Este número representa uma subida de 0,3 pontos percentuais desde 2002, quando o objectivo era travar esta doença. O valor mais elevado na região europeia é registado na Grécia, com 6,5% de adolescentes obesos. No caso de Portugal, a contribuir para este resultado estão sobretudo os rapazes, com 6,9%. Já as raparigas registam um valor de 3%.

“Os níveis de obesidade nos adolescentes são preocupantes, associados a uma má alimentação, pouca actividade física e comportamentos sedentários”, sintetiza ao PÚBLICO a investigadora Margarida Gaspar de Matos, que coordena a parte portuguesa do trabalho da OMS.

A psicóloga da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa lembra que “a obesidade está associada a problemas de saúde no futuro”, dando como exemplo a diabetes, mas também problemas cardiovasculares, respiratórios ou até de sono e mentais. “Quanto mais cedo a obesidade se instala mais difícil é combatê-la e mais se acumulam os efeitos prejudiciais para a saúde física, mental e social”, reitera.

“É necessária uma acção política ambiciosa para atingir o Objectivo de Desenvolvimento Sustentável de travar o aumento da obesidade infantil. Os governos devem direccionar esforços e quebrar este ciclo prejudicial da infância para a adolescência e para o futuro”, reforça a directora regional da OMS para a Europa, Zsuzsanna Jakab, em comunicado.

Também João Breda, coordenador do Programa de Nutrição, Actividade Física e Obesidade da OMS/Europa realça que “a maioria dos jovens não superará a obesidade: cerca de quatro em cada cinco adolescentes que se tornam obesos continuarão a ter problemas de peso na idade adulta”.

Menos fruta

O trabalho da OMS olha também para outros indicadores que podem ajudar a explicar estes resultados, como alguns hábitos alimentares, mas também comportamentos sedentários e pouca actividade física regular. Por exemplo: Portugal não chega a ser dos países onde os adolescentes comem mais fruta diariamente, mas não está longe. O país com melhores resultados é a Bélgica (zona francesa), onde 49,1% dos adolescentes comem fruta todos os dias. Nos portugueses o valor é de 40,9%, mas há uma nuance: o país está entre aqueles onde o consumo de fruta mais caiu entre 2002 e 2014, com uma descida de 6,8 pontos percentuais neste período.

Concretamente sobre a fruta, Margarida Gaspar de Matos lembra que o relatório da OMS não apresenta explicações para estas mudanças, mas a investigadora avança com alguns argumentos. Com a crise económica, diz, comer fruta ficou mais “caro do que um hambúrguer” e são reportados mais casos de crianças que se deitam sem comer por dificuldades económicas em casa. Ainda assim, a psicóloga diz que as escolas têm conseguido ter alguns programas de distribuição de fruta que talvez tenham travado uma descida ainda maior.

A OMS analisa, no documento, a relação entre a obesidade e o contexto socioeconómico em que os adolescentes vivem, percebendo-se que a má alimentação anda de mãos dadas com as dificuldades financeiras. No caso de Portugal, o relatório apenas consegue estabelecer uma relação entre o excesso de peso e o baixo estatuto socioeconómico nos rapazes de 11 anos. Ainda assim, Margarida Gaspar de Matos salienta que é precisamente nesta idade que o país tem o maior pico de obesidade nos adolescentes.

Poucos vegetais

Ainda nos hábitos alimentares, quanto aos vegetais, só 28% dos adolescentes portugueses comem estes produtos diariamente. Os valores mais elevados encontram-se na Bélgica e Ucrânia, onde ultrapassam os 50%. Mesmo assim o valor subiu dois pontos percentuais em Portugal desde 2002. O que é positivo.

Outra boa notícia é que nestes 12 anos registou-se uma queda significativa em Portugal no consumo de produtos como refrigerantes e doces, tanto em rapazes como em raparigas e em todas as faixas etárias.

Margarida Gaspar de Matos lembra que já outro estudo da OMS, Health Behaviour in School-aged Children, publicado no ano passado, e que serve de ponto de partida à avaliação que será divulgada nesta quarta-feira, indicava que os jovens portugueses teciam críticas à qualidade da alimentação das cantinas escolares. A psicóloga sublinha: uma alimentação saudável não implica servir refeições com pouco sabor.

De resto, ainda de acordo com o estudo, os hábitos alimentares e a actividade física vão piorando com a idade, mas é entre os rapazes de 11 anos que se verifica uma maior prevalência de obesidade. Factores relacionados com o crescimento contribuirão também para esse facto, diz.

Entre os 11 e os 15 anos aumentam também alguns comportamentos sedentários, como utilizar a televisão ou o computador mais de duas horas por dia, ainda que se tenha registado uma queda nos últimos anos. O relatório não explica, mas a psicóloga lembra que estes hábitos podem estar a ser substituídos por outros, como o uso de tablets e smartphones– até porque nem por isso a actividade física tem aumentado entre os adolescentes portugueses. Aliás, as raparigas até estão mais sedentárias.

Os dados da OMS levam Margarida Gaspar de Matos a deixar algumas recomendações ao Governo. Mais do que políticas novas, a investigadora apela à continuidade nas medidas e pede uma avaliação dos resultados do que já foi feito – criticando, no entanto, opções como as tomadas pelo então ministro da Educação, Nuno Crato, que desvalorizaram a importância de disciplinas como a Educação Física.

descarregar o documento citado na notícia em baixo:

Adolescent obesity and related behaviours: trends and inequalities in the WHO European Region, 2002–2014

Vídeos publicados na Internet incentivam jovens a ser violentos?

Janeiro 23, 2017 às 6:00 am | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Texto do http://ionline.sapo.pt/ de 16 de janeiro de 2017.

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Joana Marques Alves

Investigadora Margarida Gaspar de Matos e pedopsiquiatra Ana Vasconcelos comentam os últimos casos de imagens virais de violência entre jovens. Teme-se um “concurso de mau caráter”. Adolescentes vivem uma fase da vida particularmente vulnerável. Despistar sinais de risco, até familiares, é crucial para que a moda não pegue.

Primeiro houve mensagens ameaçadoras. Depois, a ex-namorada marcou um encontro para falarem sobre o relacionamento. Quando chegou ao local combinado, no Feijó, o jovem de 15 anos foi esfaqueado, espancado e apedrejado. Teve de ser hospitalizado, depois de uma das facadas lhe ter atingido um pulmão. O caso foi divulgado no mesmo dia em que foi difundido na internet o vídeo de um jovem da mesma idade a ser espancado por outros junto a duas escolas em Almada. Repete-se a cena. Cenas que, no passado, muitas vezes podiam ficar escondidas nos recantos das escolas, são filmadas e colocadas a circular na internet. O número de casos de violência entre adolescentes tem vindo a preocupar pais, educadores e psicólogos, e as autoridades estão a ser cada vez mais requisitadas nos estabelecimentos de ensino. A violência juvenil está a aumentar? E as imagens com milhares de partilhas e reproduzidas na televisão a qualquer hora do dia serão um combustível perigoso?

Segundo dados da PSP e da GNR citados pela imprensa, no ano letivo de 2015/2016 foram registados 5051 episódios criminais nas escolas ou imediações. Só a PSP registou 4102 ocorrências, um número que representa um aumento significativo face aos anos anteriores. No ano letivo de 2014/2015 houve 3930 ocorrências, em 2013/2014, 3888, e em 2012/2013 foram contabilizadas 3486, ou seja, menos 700 casos do que no último ano letivo. Também a GNR tem vindo a registar mais casos.

O último Relatório Anual de Segurança Interna – que apresenta dados relativos ao ano escolar 2014/2015 – dá mais pistas sobre o fenómeno da violência nas escolas. A maioria das ocorrências que levaram as autoridades a deslocar-se aos estabelecimentos de ensino estava relacionada com casos de ofensa à integridade física. Depois surgem os episódios relacionados com furtos e injúrias ou ameaças. O mesmo relatório mostra que a maioria dos casos ocorre no distrito de Lisboa, seguido de Porto e Aveiro. Os distritos onde foram registadas menos ocorrências foram Évora, Guarda e Castelo Branco.

A necessidade de ser viral

Entre os especialistas contactados pelo i, a opinião é unânime: a divulgação de imagens estimula comportamentos violentos, mas isso não quer dizer que as agressões tenham aumentado. A sociedade também pode estar mais atenta, declarando mais casos que, no passado, eram calados nos corredores das escolas. “Antes não se falava tanto disso porque, de algum modo, a violência interpessoal era mais tolerada: os pais agrediam os filhos, de chicote por vezes, os professores agrediam os alunos, os maridos agrediam as mulheres, os amigos agrediam-se uns aos outros, a polícia agredia os cidadãos… A regulação social era feita com base na pancadaria”, sublinha a investigadora Margarida Gaspar de Matos, membro do Centro de Investigação do ISPA – William James Center for Research.

A especialista defende que, com as mudanças sociais, é necessário filtrar bem os casos e estabelecer uma diferença entre atos de delinquência, doença mental e meras formas “menos conviviais” de relação interpessoal. “Vídeos como o acima referido [o caso revelado nos primeiros dias de janeiro] mostram uma agressão gratuita que aparenta ter como fim único ‘postar’ na internet um vídeo ‘viral’. Esta é uma nova forma de exibicionismo e de ‘desafeto’ que, a pegar, nos vai dar enormes dissabores nas relações interpessoais”, alerta a especialista.

Margarida Gaspar de Matos usa mesmo uma ideia forte: para os jovens, este fenómeno pode desencadear uma espécie de “concurso de mau caráter”, um despique em torno da violência. E que já não é o conceito de bullying, que começou a ser discutido no final do século passado. “A diminuição do bullying teve muito a ver com a identificação do fenómeno e a tolerância zero em relação a este. Foi retirado ao bullier o estatuto de valentão e passou a ter o estatuto de parvalhão, do cobarde que, não sabendo dialogar para resolver diferendos, agride os mais fracos”, diz a investigadora. “Este vandalismo exibicionista representa outra coisa diferente e temo que este fenómeno aumente se não for identificado e desmistificado como algo estúpido, selvagem e intolerável, e se não houver propostas consistentes e continuadas de soluções que passam, claro, pela responsabilização e punição, mas também, em alguns casos, pelo tratamento.”

Falta de consciência moral

Gaspar de Matos acredita que, podendo ser uma intolerável moda de mau gosto, alguns casos poderão indiciar perturbações mentais ou de personalidade dos jovens que requerem acompanhamento. A pedo- psiquiatra Ana Vasconcelos assinala que não há, ainda assim, muitos casos semelhantes aos de Almada e Feijó. Mas também teme que esta tendência incite a mais violência e defende, por isso, um maior acompanhamento dos jovens.

“Uma das coisas de que se falava há uns tempos era o facto de não ser aconselhável divulgar muitos casos de pedofilia porque isso podia excitar as tendências dos pedófilos. Aqui pode acontecer um fenómeno semelhante”, diz a especialista.

A natureza do adolescente, em fase de descobertas, faz deste um terreno arriscado. “Houve uma altura em que havia a moda de os miúdos se asfixiarem com sacos de plástico. Isso, na verdade, é um truque erógeno [que causa satisfação ou prazer sexual]. No início da puberdade, os adolescentes podem entrar em esquemas como este nos quais confundem a excitação com a violência, acabando por ter esses impulsos muito desajustados.”

A pedopsiquiatra explica que a falta de consciência moral e de autocrítica têm papéis preponderantes nestas alturas, bem como a necessidade de mostrar aos outros aquilo de que se é capaz e de copiar os comportamentos exemplificados em situações prévias. Além disso, o ambiente precário e as inseguranças vividas no seio familiar podem condicionar bastante a vida do jovem na escola, suscitando potenciais comportamentos violentos: “A falta de uma base familiar e de uma perspetiva para as famílias condiciona os adolescentes. Ainda hoje um rapaz me dizia: ‘Estou preocupado porque acho que o meu pai vai para a Suíça.’ Os jovens ouvem coisas que lhes trazem uma insegurança familiar. Todos estes aspetos também não ajudam.” O problema pode começar nas redes sociais, mas vai, como sempre, muito para além disso.

 

 

 

Jovens mais confiantes e competentes têm menos valores e consciência social

Dezembro 29, 2016 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 19 de dezembro de 2016.

adrianomiranda

Adriano Miranda

Inquérito feito a 2700 alunos portugueses revela que, à medida que crescem, jovens vão perdendo a auto-estima e confiança em si mesmos. As raparigas, por outro lado, parecem ver o seu desempenho prejudicado por terem maior consciência social. E quanto mais ricos, menos preocupações com os outros.

Natália Faria

Até que ponto a consciência social e os valores pessoais podem funcionar como travão ao sucesso de um jovem, em termos académicos mas também de saúde e bem-estar? A capacidade que um jovem possa ter para criar empatia com os outros e com os problemas à volta actua no sentido contrário ao do bem-estar? Estas são duas das perguntas que ficaram a pairar na cabeça da psicóloga Margarida Gaspar de Matos, coordenadora portuguesa de um estudo que, após um inquérito a 2700 jovens portugueses entre os 16 e os 29 anos, chegou a conclusões aparentemente pouco animadoras: por um lado, as raparigas demonstram ter uma consciência social mais apurada do que os rapazes, mas depois aparecem como menos optimistas e propensas a sentimentos de mal-estar físico e psicológico; por outro lado, os jovens com um estatuto sócio-económico mais elevado são os que menos valores e consciência social parecem ostentar mas também os mais confiantes e optimistas e os que mais facilmente se percepcionam como bons alunos.

“Fica-se com a sensação que um jovem ou é competentíssimo e confiante mas muito pouco preocupado com os outros e com a realidade – portanto, autocentrado e egoísta, ou cria empatia com o que o rodeia e sofre por causa disso e torna-se menos bem-sucedido”, cogita Margarida Gaspar de Matos. Mas estas são elaborações para fazer no futuro. Por enquanto o que o estudo “Be Positive” que é apresentado esta segunda-feira, na Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa, faz é o “raio x” da situação em termos de saúde pública dos jovens, segundo a teoria dos 5’C’s do norte-americano Richard Lerner, segundo o qual há características básicas nos jovens – Confiança, Competência, Conexão, Cuidados e Carácter – que são determinantes nos seus comportamentos, em termos académicos, de saúde, bem-estar e qualidade de vida, entre outros aspectos.

“É como se estes 5 C’s fossem um software, uma maneira de agir na vida”, ajuda a compreender Margarida Gaspar de Matos. Coordenadora desde há muitos anos do projecto Aventura Social, que se dedica à promoção da saúde dos jovens, e membro da equipa do Health Behaviour in School-aged Children, da Organização Mundial de Saúde, a psicóloga foi convidada a integrar a rede do Desenvolvimento Positivo dos Jovens (Positive Youth Development, conhecido internacionalmente pela sigla PYD) que se propôs fazer a validação à escala mundial dos 5 C’s, enquanto instrumento aferidor do comportamento dos jovens. O estudo, liderado pela Universidade de Bergen, na Noruega, decorreu simultaneamente em mais de 20 países, nesta primeira fase em que Portugal também participou (outros países se juntaram entretanto). E, numa altura em que ainda não é possível comparar os resultados entre países nem chegar aos porquês, os inquéritos feitos online aos 2700 jovens, levantam desde já várias interrogações.

Quanto mais velhos, mais tristes e menos saudáveis

Desde logo, os níveis de confiança, que remetem para a questão da auto-estima e para a existência de uma identidade positiva e sensação de bem-estar, parecem diminuir à medida que os jovens crescem. “Podia-se pensar que quanto mais velhos mais competências destas têm, mas é o contrário: quando mais velhos pior. Quando andam, por exemplo, no 10º ano, os miúdos têm muito mais boa impressão sobre si e sobre as suas competências e, à medida que vão ficando mais velhos, vão ficando não sei se mais realistas se mais pessimistas”, admirou-se Margarida Gaspar de Matos, para quem se trata de “um dado preocupante, do ponto de vista da saúde do bem-estar dos jovens”, e que levanta a questão de saber “o que é que a sociedade em geral, mas também a escola e a universidade, podem fazer para ajudar os jovens a crescer sem terem que sucumbir e ficar mais tristes e menos saudáveis”.

Se esta mudança é exclusiva da sociedade portuguesa ou decorre do amadurecimento dos jovens, e de uma maior noção que estes possam ganhar das dificuldades que os esperam na vida adulta, é cedo para concluir. “Daqui para a frente vamos discutir com os jovens para perceber como é que eles interpretam isto. Em segundo lugar, vamos comparar os resultados a nível internacional, mas isso só poderá ser feito daqui por um ano, o mais tardar”, explica a psicóloga para quem esta conclusão terá também de se relacionar com o que já se sabe quanto à adopção em idades mais avançadas de comportamentos de risco como a ingestão de álcool e o tabaco e as relações sexuais desprotegidas.

Raparigas sentem mais “o peso” do outro

Habituada a estudos sobre a saúde dos jovens que tradicionalmente caracterizam os rapazes como sendo mais propensos a comportamentos de risco e as raparigas a estados de mal-estar físico e psicológico, o “Be Positive” surpreendeu Margarida Gaspar de Matos porque não mostrou grandes diferenças entre homens e mulheres nestas cinco competências. “É dos primeiros estudos que tenho em mãos em que não há diferenças de género, a não ser na questão da consciência social que se inscreve no C do carácter. As raparigas parecem ter mais consciência social, mas depois sabemos, pelos outros estudos que conhecemos sobre a saúde dos jovens, que os rapazes são mais optimistas e conseguem fazer muito melhor, ou seja, o potencial e os processos são idênticos entre rapazes e raparigas, mas, em termos de output, daquilo que é possível concretizar, eles saem-se melhor. É uma nova maneira de ver as diferenças de género e que levanta a questão de perceber a que ponto a consciência social, a capacidade de cada um se preocupar com os outros, conseguem empatar o bem-estar e a descontracção de quem possui estas características”, explica a psicóloga, a quem interessa agora perceber até onde é que “nas raparigas o peso dos outros é um factor negativo”. Dito de outro modo, “se esta consciência social faz com que elas fiquem penalizadas no seu desempenho”. E, por outro lado, se este efeito decorre de elas estarem mais alertas para os problemas mas incapazes de actuar e produzir mudanças.

Os 5 C’s ao pormenor

O propósito da validação da teoria dos 5 C’s é perceber a que ponto a reunião destas cinco características num jovem funciona como indicador de que ele será bem-sucedido. A confiança remete para a questão da auto-estima, a competência refere-se ao desempenho académico mas também em termos sociais e de saúde, a conexão mede a relação com a escola, família, amigos, vizinhança e comunidade em geral, o cuidado que apela ao sentimento de compaixão e justiça social e para a noção de pluralidade e inclusão e, por ultimo, o carácter que é, em ultima instância, que leva cada um a procurar fazer o que está certo.

 

 

 

 

Lançamento do estudo BePositive – 19 de dezembro na Faculdade de Motricidade Humana

Dezembro 15, 2016 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações no link;

http://aventurasocial.com/

Estará a escola menos alinhada com as expectativas dos alunos?

Abril 5, 2016 às 9:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site Educare de 30 de março de 2016.

Snews

Um estudo internacional sobre a adolescência mostra que apenas 11% dos rapazes e 14% das raparigas portuguesas, de 15 anos, gostam muito da escola. “Temos de modernizar processos e arejar os corredores da administração”, afirma Margarida Gaspar de Matos, coordenadora nacional do estudo. O país tem de parar para pensar.

Sara R. Oliveira

Há boas e más notícias. Os jovens portugueses sentem-se apoiados pela família, são dos que mais tomam o pequeno-almoço todos os dias, os consumos de álcool andam ligeiramente abaixo da média de outros países. Mas são também dos que menos gostam da escola, que dizem sentirem-se pressionados por ela e que não se veem como bons alunos. Os dados surgem no Health Behaviour in School-Aged Children, da Organização Mundial da Saúde (OMS), estudo internacional sobre a adolescência feito de quatro em quatro anos. Na edição de 2014-2015 participaram 200 000 adolescentes europeus e do Norte da América de 42 países, de escolas com o 6.º, 8.º e 10.º anos de escolaridade. Do total, 6.000 alunos são portugueses.

Quando a pergunta é se gostam ou não da escola, Portugal surge em 33.º lugar em 42 – apenas 11% dos rapazes e 14% das raparigas de 15 anos dizem que gostam muito da escola. No estudo, cerca de 25% dos adolescentes dos 42 países afirmam que gostam bastante da escola. E só 35% das raparigas e 50% dos rapazes portugueses consideram que têm bom desempenho escolar, quando a média dos 42 países é de 60%. Margarida Gaspar de Matos, psicóloga e investigadora da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa, coordenadora do estudo no nosso país, lembra que a relação dos adolescentes portugueses com a escola vem de longe, pelo menos de 1998. Mas em 2014, a situação piorou e eles respondem que deixaram de gostar da escola. “Dizem que as matérias são desinteressantes e demasiadas, referem muita pressão dos pais para as notas. E, no geral, a escola está menos alinhada com as suas expectativas de futuro”, refere ao EDUCARE.PT.

Há políticas que lhe custam a engolir, “cujo racional teórico” lhe custa a entender. O aumento de horas em algumas disciplinas é um exemplo. “É mesmo muito ingénuo pensar-se que o insucesso escolar se resolve com mais horas ‘do mesmo’. Penso que ninguém acredita nisto”, diz. A carga horária portuguesa é excessiva em comparação com a generalidade dos países europeus. “Há qualquer coisa nos métodos de ensino, na sequência das aprendizagens, na seleção dos assuntos prioritários e basilares, no sistema de avaliação, na dinâmica social e educativa das escolas, etc., que devia fazer parar o país para pensar”, defende.

A ligação à família, mais refeições em conjunto, os baixos consumos de álcool, os cuidados nas relações sexuais são boas notícias. No geral, há uma boa relação com os pais e uma boa perceção do suporte parental, tanto a nível nacional como na comparação internacional. Portugal está em 1.º lugar no jantar todos os dias com a família, com 80% das raparigas e 79% dos rapazes a responderem que o fazem. Onze por cento dos rapazes e 4% das raparigas contam que bebem álcool pelo menos uma vez por semana e 7% dos rapazes e 4% das raparigas revelam que fumaram cannabis nos últimos 30 dias – aqui o nosso país surge em 27.º lugar. Além disso, 26% dos rapazes já tiveram relações sexuais, 13% das raparigas também, 73% dos rapazes e 75% das raparigas usaram preservativo na última relação sexual, quando a média do estudo é de 65% – e aqui Portugal ocupa a 7.ª posição.

“Temos, pois, uma geração de pais de filhos adolescentes atentos e empenhados.” Os consumos têm vindo a baixar, as políticas públicas da última década focam-se no assunto. Mas é preciso estar atento para a questão das “alternativas”. “Temos um estudo recente que refere que os jovens consomem álcool para se divertir, para ‘aumentar’ competências, para enfrentar situações difíceis e para ‘seguir’ o grupo de pares”, revela a investigadora. “Uma estratégia nacional de prevenção do consumo, a médio e a longo prazo, devia encarar esses motivos e prever alternativas para cada um deles: divertimento sem consumos, promoção de competências socioemocionais e relacionais, autorregulação de estados emocionais negativos, promoção da coesão social e do suporte social.”

Atuação ‘mikado’ é inútil e cara

Margarida Gaspar de Matos está preocupada com alguns indicadores. A falta de gosto dos alunos pela escola, o stresse que ela provoca, o facto de não a encararem como um recurso, a falta de expectativas face a um futuro onde a escola tenha lugar, estão na sua lista. Os alunos acham as aulas desinteressantes e as matérias excessivas. Dizem que a comida da escola é muito má, numa altura em que, lembra, “aumentou o número de alunos que vão para a cama com fome por não terem comida em casa”.

A falta de satisfação com a vida também a preocupa, comparativamente com os outros adolescentes do estudo. Aqui Portugal ocupa a 36.ª posição com 83% dos rapazes e 74% das raparigas a responderem que estão bastante satisfeitos com a vida. “Escrevemos recentemente um artigo nos Arquivos da Medicina a que chamamos ‘Os adolescentes portugueses ainda estão saudáveis, mas já não estão felizes’. Temo bem que com esta insatisfação as questões associadas ao risco e à falta de saúde reapareçam no próximo estudo”, observa.

Perante alguns dados preocupantes, é preciso parar para pensar. Promover um debate com especialistas e populações afetadas. Fazer um diagnóstico da situação, estabelecer programas integrados com objetivos a curto, médio e longo prazos, de forma que sejam concretizados de modo pragmático e monitorizado, com avaliação permanente dos resultados. “Estas ações necessitam de condições de implementação.” “É inútil e dispendiosa uma atuação ‘Mikado’: assim, de repente, recolhe-se tudo o que foi feito e faz-se de novo uma coisa completamente diferente, sem avaliação prévia nem previsão de avaliação posterior. Assim andamos aos círculos e perdemos tempo e dinheiro.”

Como devem as escolas enquadrar estas conclusões? O que tem de mudar? “Não há soluções simples para assuntos complexos, multifacetados e, ainda por cima, ‘crónicos’”, responde. A coordenadora nacional do estudo defende que é necessário analisar escolas com boas práticas e tornar esses processos explícitos, aprender com as práticas de países onde as coisas correm bem, ouvir professores e alunos para os envolver e depois responsabilizar. “Temos de modernizar processos e arejar os corredores da administração. A morosidade dos processos e os seus meandros não ajudam. Enfim, não será fácil, mas tem de ser feito.”

A Secretaria de Estado da Juventude e do Desporto referiu, publicamente, que o desporto escolar, a promoção de hábitos de vida saudável, a educação para a cidadania e a valorização da educação não formal são assuntos prioritários. A investigadora concorda. “Eu diria que o caminho é por aí, só espero que esta declaração de intenções não seja uma ‘lista de intenções de Ano Novo’”. É preciso arregaçar as mangas e partir para a ação. “Estamos todos muito fartos de documentos muito bem feitos, cheios de intenções sensatas e cientificamente adequadas, mas que depois demoram anos a implementar, ou se implementam e duram um trimestre, ou são estrangulados pela máquina administrativa que tem uma inércia milenar, ou são reduzidos a uma ‘caricatura’ de si mesmos e concretizados nos mínimos.”

“Precisamos de modernizar e agilizar todos estes processos. Precisamos de uma cultura de investigação-ação. Precisamos de uma dinâmica construtiva. Precisamos de aceitar uma avaliação e monitorização como parte de uma construção de algo melhor.” Na sua opinião, o caminho é por aqui.

 

 

 

Em Portugal, a falta de autonomia dos adolescentes “é algo assustadora”

Março 16, 2016 às 2:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Entrevista do Público a Margarida Gaspar de Matos no dia 15 de março de 2016.

Enric Vives Rubio

Margarida Gaspar de Matos: “Quando há ‘apenas’ laços fortes há, em geral, pouca dissonância e debate de ideias (vamos pouco além das discussões do dia-a-dia sobre a gestão da casa)” Enric Vives-Rubio

Andreia Sanches

Entrevista a Margarida Gaspar de Matos a propósito do novo estudo da Organização Mundial de Saúde: a família, que os portugueses tanto prezam, dá afecto e apoio, mas os “pares”, sublinha, são essenciais para aprender a negociar, a debater e a descobrir o mundo.

Os adolescentes portugueses estão menos com os amigos, depois da escola, quando comparados com os de outros países. E saem menos à noite. Isso é bom, ou significa que estão demasiado presos às saias da mãe? Com que impacto no seu crescimento? Margarida Gaspar de Matos, psicóloga e investigadora, da Faculdade de Motricidade Humana, da Universidade de Lisboa, que coordena a parte portuguesa do estudo Health Behaviour in School-aged Children (HBSC), da Organização Mundial de Saúde (OMS), responde a algumas perguntas suscitadas pelo mais recente relatório internacional sobre a adolescência, divulgado nesta terça-feira de manhã.

Segundo o HBSC, Portugal é o país, em cerca de 40, onde os jovens de 11, 13 e 15 anos menos estão com amigos depois das oito da noite. Isto é bom ou mau? Significa o quê?

Temos uma cultura muito ligada à família e pouco ligada a “grupos de amigos”. Por outro, temos das maiores cargas de aulas e de TPC (trabalhos para casa) da Europa. E, por outro ainda, há agora a Internet que deixa os jovens mais “voluntariamente” em casa… se, por um lado, as saídas à noite estão associadas a riscos (consumos, por exemplo), por outro lado esta falta de autonomia é algo assustadora.

Que indicadores nos estudos revelam essa “falta de autonomia algo assustadora”?

Neste estudo temos dados, por exemplo, sobre a frequência com que os adolescentes jantam com a família — somos dos que mais o fazemos. Ou sobre sair à noite com os amigos — somos dos que menos o fazemos. Estudos anteriores mostravam que em Portugal os jovens não se envolviam em actividades de voluntariado, associativismo. E temos a tal imensa carga horária dos jovens portugueses na escola, que outros estudos, ainda, demonstram.

Na rede [de peritos do] HBSC falamos muito disto: há países (nórdicos) onde os jovens em geral saem de casa dos pais quando acabam o secundário, ficam entregues a si próprios, arranjam um part time para se auto-financiar, pedem um empréstimo para estudar… estas práticas não são comuns entre nós e os jovens ficam dependentes dos país até bem depois da sua maioridade.

Os estudos em geral confirmam que, salvo em casos extremos, é bom termos uma família e apreciarmos ter tempo de qualidade para a família, mas também (salvo casos extremos) é bom termos amigos, tempo livre para os amigos e irmos construindo a nossa autonomia. A família dá no início uma estrutura, mas entre amigos gera-se “a geração”. Ambos são necessários.

Sermos dos que mais jantam com a família é “bom”, se isso for indicador de coesão familiar e alimentação saudável, mas já não é tão “bom” se for indicador de que os jovens não conseguem estar sem a família. Do mesmo modo, estar com os amigos fora de aulas é “mau” se ficar associado as lutas, aos consumos e ao insucesso escolar; mas já não é tão “mau” se significar autonomia, amigos pessoais, interesses vocacionais ou de lazer partilhados… Há um sociólogo (Granovetter) que (em 1983, imagine) escreveu um trabalho chamado a importância dos laços fracos (“weak ties”). O racional é que na nossa rede de contactos sociais/o nosso capital social, temos laços fortes com um número reduzido de pessoas — pais, filhos, esposos, etc. — e laços fracos com um número mais extenso de pessoas. Os laços fortes dão-nos afecto e apoio, mas os laços fracos são importantes para nos “abrir ao mundo”, para construirmos a nossa “diferença” face à família e ao nosso grupo restrito, para nos tornarmos “tolerantes à diferença” e até curiosos sobre o mundo.

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Os laços fortes não chegam.

Quando há “apenas” laços fortes há, em geral, pouca dissonância e debate de ideias (vamos pouco além das discussões do dia-a-dia sobre a gestão da casa). São os nossos laços fracos que nos fazem questionar os nossos valores e as nossas crenças. Claro que os laços fracos podem fazer perigar a nossa “boa educação”, mas a falta de laços fracos dificulta a evolução das ideias e, em última análise, pode perpetuar, por exemplo, o preconceito, a xenofobia… Alem disso o “treino” de debate entre pares constrói-se com estes laços fracos e facilita o aparecimento de jovens com capacidades de negociação, de debate, de resolução de conflitos, que muitas vezes em relações “verticais”, como as da família, não são privilegiados….

No estudo, os adolescentes portugueses aparecem em pior posição do que os de outros países no que diz respeito aos níveis de “satisfação com a vida”, aos 13 e 15 anos. Mas, em relação a outros sintomas de saúde mental e física (como ter dores de cabeça, de estômago, dormir mal, etc), não estão tão mal como os jovens de outros países. Como se enquadra isto?

Pois, diz bem: posso adiantar apenas enquadramentos ou interpretações, estes estudos “transversais” não nos permitem identificar causas. Adianto a minha leitura. É nos mais velhos (13 e 15) que ocorre a pior posição na “satisfação com a vida” e é nos mais novos (11 e 13) que menos ocorrem os chamados sintomas múltiplos. Penso que a recessão que atolou o país desde 2010 pode estar associada à falta de satisfação com a vida. Temos outros dados em Portugal [recolhidos através de questões que nem todos os países aplicaram no inquérito, pelo que não constam dos resultados do relatório final da HBSC/OMS] que apontam para um aumento dos jovens que se auto-lesionam em Portugal, dos que dizem que “estão tão tristes que não aguentam” e dados também que mostram uma diminuição das expectativas em relação ao futuro. Estas questões, associadas à (falta de) saúde mental, formam um dos grandes problemas detectados pelo nosso estudo nacional.

Há algum tempo, numa entrevista ao PÚBLICO, a Candace Currie, a ex-coordenadora internacional do HBSC, disse que estava preocupada com a saúde mental das meninas.

Também está?

Sim, eu e a Candace e mais alguns investigadores do HBSC temos um grupo a estudar exactamente as diferenças de género. As meninas tradicionalmente “internalizam” e aparecem com mais preocupações, com menos confiança, com menos satisfação com a vida, com menor percepção de qualidade de vida, com mais sintomas,  com mais preocupações pela imagem do corpo. Como se o “glass ceiling” estivesse já na adolescência e as meninas andassem sempre stressadas a tentar “provar algo” para sua afirmação pessoal. Este stress aparece com mais força após a puberdade e, portanto, poderá estar associado a alterações hormonais (e respectiva leitura cultural claro). Já quis estudar isto a fundo mas ainda não consegui o apoio financeiro respectivo. Talvez este ano.

mais gráficos no link:

https://www.publico.pt/sociedade/noticia/em-portugal-a-falta-de-autonomia-dos-adolescentes-e-algo-assustadora-1726066

 

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