A geração “floco de neve”: pessoas sensíveis que se ofendem por tudo

Dezembro 8, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto da http://www.revistapazes.com/ de 7 de novembro de 2017.

Quando imaginamos um floco de neve, nós o associamos à beleza e singularidade, mas também à sua enorme vulnerabilidade e fragilidade. Estas são precisamente duas das características que definem as pessoas que atingiram a idade adulta na década de 2010. Afirma-se que a geração “floco de neve” seja formada por pessoas extremamente sensíveis aos pontos de vista que desafiam sua visão do mundo e que respondem com uma suscetibilidade excessiva às menores queixas, com pouca resiliência.

A voz de alarme, por assim dizer, foi dada por alguns professores de universidades como Yale, Oxford e Cambridge, que notaram que a nova geração de alunos que frequentavam suas aulas era particularmente suscetível, não tolerante à frustração e particularmente inclinados fazerem uma tempestade em um copo de água.

Cada geração reflete a sociedade que eles viveram

Dizem que as crianças saem mais ao padrão da sua geração que aos pais. Não há dúvida de que, para entender a personalidade e o comportamento de alguém, é impossível abstrair do relacionamento que estabeleceu com seus pais durante a infância e a adolescência, mas também é verdade que os padrões e expectativas sociais também desempenham um papel importante no estilo educacional e moldam algumas características de personalidade. Em resumo, podemos dizer que a sociedade é a terra onde a semente é plantada e crescida e os pais são os jardineiros que são responsáveis por fazer crescer.

Isso não significa que todas as pessoas de uma geração respondam ao mesmo padrão, felizmente há sempre diferenças individuais. No entanto, não se pode negar que as diferentes gerações têm metas, sonhos e formas de comportamento característico que são o resultado das circunstâncias que tiveram que viver e, em alguns casos, tornam-se inimagináveis em outras gerações.
Claro, o mais importante é não colocar rótulos, mas analisemos para entender o que está na base desse fenômeno, para não repetir os erros e para que possamos dar a devida importância a habidades de vida tão importantes quanto a Inteligência Emocional e a resiliência.

3 erros educacionais colossais que criaram a geração “floco de neve”

  1. Sobreprotecção. A extrema vulnerabilidade e escassa resiliência desta geração têm suas origens na educação. Estes são, geralmente, crianças que foram criadas por pais superprotetores, dispostos a pavimentar o caminho e resolver o menor problema. Como resultado, essas crianças não teve a oportunidade de enfrentar as dificuldades e conflitos do mundo real e desenvolver tolerância à frustração, ou resiliência. Não devemos esquecer que uma dose de proteção é necessária para que as crianças cresçam em um ambiente seguro, mas quando impede que explorem o mundo e limite seu potencial, essa proteção se torna prejudicial.
  2. Sentido exagerado de “eu”. Outra característica que define a educação recebida pelas pessoas da geração “floco de neve” é que seus pais os fizeram sentir muito especiais e únicos. Claro, somos todos únicos, e não é ruim estar ciente disso, mas também devemos lembrar que essa singularidade não nos dá direitos especiais sobre os outros, já que somos todos tão únicos quanto os outros. O sentido exagerado de “eu” pode dar origem ao egocentrismo e à crença de que não é necessário tentar muito, uma vez que, afinal, somos especiais e garantimos o sucesso. Quando percebemos que este não é o caso e que temos que trabalhar muito para conseguir o que queremos, perdemos os pontos de referência que nos guiaram até esse momento. Então começamos a ver o mundo hostil e ameaçador, assumindo uma atitude de vitimização.
  3. Insegurança e catástrofe. Uma das características mais distintivas da geração do floco de neve é que eles exigem a criação de “espaços seguros”. No entanto, é curioso que essas pessoas tenham crescido em um ambiente social particularmente estável e seguro, em comparação com seus pais e avós, mas em vez de se sentir confiante e confiante, temem. Esse medo é causado pela falta de habilidades para enfrentar o mundo, pela educação excessivamente superprotetiva que receberam e que os ensinou a ver possíveis abusos em qualquer ação e a superestimar eventos negativos transformando-os em catástrofes. Isso os leva a desejarem se bloquear em uma bolha de vidro, para criar uma zona de conforto limitado onde eles se sintam seguros.

Para entender melhor como a educação recebida afeta uma criança, é importante ter em mente que as crianças procuram pontos de referência em adultos para processar muitas das experiências que experimentam. Isso significa que uma cultura paranóica, que vê abusos e traumas por trás de qualquer ato e responde com sobreproteção, gerará efetivamente crianças traumatizadas. A forma como os adultos enfrentam uma situação particularmente delicada para a criança, como um caso de abuso escolar, pode fazer a diferença, levando a uma criança que consegue superar e se torna resiliente ou uma criança que fica com medo e torna-se uma criança vítima

Qual é o resultado?

O resultado de um estilo de parentesco superprotetivo, que vê o perigo em todos os lugares e promove um sentido exagerado de “eu”, são pessoas que não possuem as habilidades necessárias para enfrentar o mundo real.

Essas pessoas não desenvolveram tolerância suficiente à frustração, então o menor obstáculo os desencoraja. Nem desenvolveu uma Inteligência emocional adequada, então eles não sabem como lidar com as emoções negativas que certas situações suscitam.

Como resultado, eles se tornam mais rígidos, se sentem ofendidos por diferentes opiniões e preferem criar “espaços seguros”, onde tudo coincide com suas expectativas. Essas pessoas são hipersensíveis à crítica e, em geral, a todas as coisas que não se encaixam na visão do mundo.

Também são mais propensos a adotar o papel das vítimas, considerando que estão todos contra ou equivocados. Desta forma, eles desenvolvem um local de controle externo, colocando a responsabilidade sobre os outros, em vez de se encarregar de suas vidas e mudar o que podem mudar.

O resultado também é que essas pessoas são muito mais vulneráveis ao desenvolvimento de transtornos psicológicos, do estresse pós-traumático à ansiedade e à depressão. Na verdade, não é estranho que o número de transtornos de humor aumente ano após ano.

Fonte:
Mistler, BJ et. Al. (2012) The Association for University and College Counseling Center Directors Annual Survey Reporting. Pesquisa do AUCCCD ; 1-188

Este artigo foi publicado originariamente no site Rincón Psicología e fora livremente adaptado pela equipe da Revista Pazes.

Créditos da foto de capa: Andrew Robles
@andrewroblesphoto/unsplash.com

 

 

 

Solidão na era digital: nunca estivemos tão conectados e tão sós

Novembro 19, 2017 às 1:00 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Texto do http://observador.pt/ de 5 de novembro de 2017.

Ana Cristina Marques

O que veio primeiro, a internet ou o isolamento social? Numa era em que estamos cada vez mais conectáveis há quem, no final do dia, se sinta sozinho e conte os “gostos” que vêm do ecrã.

A partir desta segunda-feira estão 60 mil pessoas em Lisboa para falar de tecnologia mas, o mais provável, é que nunca tenhamos estado tão sozinhos como agora. Às portas da Web Summit, a maior conferência de empreendedorismo, tecnologia e inovação da Europa, questionamo-nos se o futuro da solidão não será online.

Filipa Jardim da Silva e João Faria já receberam casos de “solidão digital” nos respetivos consultórios, em Lisboa. Apesar de ambos os psicólogos trabalharem muito com adolescentes, esta não é uma questão com balizas etárias, antes uma espécie de “epidemia” dos tempos modernos. A chegada e a expansão da internet trouxeram consigo a promessa do contacto e do fim da solidão, mas o ritmo de vida e as novas formas de falar uns com os outros vieram impactar o dia a dia. Se um individuo se consegue sentir sozinho no coração de uma multidão, o que garante que isso não aconteça à frente de um computador ou de smarpthone na mão?

Um estudo recente mostrou que passar mais de duas horas por dia em redes como Facebook, Twitter ou Snapchat duplica a probabilidade de alguém se sentir isolado. “Não sabemos o que veio antes, se o uso de redes sociais ou a sensação de isolamento social”, chegou a dizer Elizabeth Miller, professora de Pediatria da Universidade de Pittsburgh, à BBC. Para a coautora do estudo, que envolveu 2 mil adultos com idades compreendidas entre os 19 e os 32 anos, talvez seja o uso cada vez mais intenso das redes sociais o responsável por um crescente isolamento face ao mundo real.

A preocupação não é propriamente recente, mas está na ordem do dia. A título de exemplo, a revista The Atlantic lembrou-se de perguntar, em maio de 2012, se o Facebook nos estava a deixar solitários e, três anos depois, o The Guardian tentou descobrir se era possível encontrar intimidade em identidades online cada vez mais mutáveis e num ambiente de permanente vigilância. Em Portugal, as mais recentes investigações orientadas por Ivone Patrão, psicóloga na consulta de comportamentos e dependências online da Clínica ISPA (Instituto Superior de Psicologia Aplicada), mostram que 25% dos jovens portugueses, entre os 12 e os 30 anos, estão viciados em tecnologia e 14% são dependentes dos smartphones.

“Desligava o telefone e chorava muito”

Em abril deste ano, a psicóloga Rosário Carmona e Costa alertava para o facto de as redes sociais estarem não só a mudar o que fazemos, mas também quem somos. Para fazer crescer o ponto de vista, Carmona e Costa cita no seu livro, “iAgora? Liberte os seus Filhos da Dependência dos Ecrãs”, a apresentação “The Innovation of Loneliness” de Shimi Cohen: “Usamos a tecnologia para nos definir, compartilhando pensamentos e sentimentos à medida que eles acontecem, e chegamos a criar experiências para termos o que partilhar, como se acreditássemos que estar sempre ligados nos fará sentir menos sós”.

Nem mais. Segundo diz Filipa Jardim da Silva ao Observador, a “solidão na era digital é uma forma de solidão acompanhada”. Em causa está uma mesma premissa, isto é, a insatisfação pessoal com o tipo de suporte que se tem a nível social, mas também as interações superficiais que mantemos diariamente, ainda que estejamos rodeados de pessoas (física ou virtualmente falando). Mas há mais. As identidades mutáveis fazem parte da equação: nas redes sociais é fácil mostrarmos apenas o que queremos, uma versão otimizada de quem somos, o que, em última análise, impossibilita a criação de relações autênticas. “Uma relação social só é verdadeira se acedermos à pessoa num todo”, continua a psicóloga, referindo que, atualmente, corremos o risco de viver a vida em permanente modo personagem. “No fundo, sou aquilo que as pessoas à minha volta querem que eu seja. No final do dia há uma sensação de vazio. Há solidão.”

Vânia Duarte que o diga. Ultrapassada a barreira dos 30 passou por uma fase em que esteve dependente dos elogios virtuais e dos “gostos” que ia recebendo na conta de Instagram, como se estes funcionassem como uma espécie de aprovação social. Era importante mostrar a barriga inexistente e os abdominais definidos, conseguidos à custa de uma dieta rigorosa e restrita — peixe, batata doce, frango, bróculos e omeletes de claras –, mas também de muitas horas dedicadas ao ginásio. Para isso, chegava a tirar mais de 20 fotografias até encontrar aquela que, depois de muitos filtros, corresponderia ao seu ideal de beleza.

A designer digital chegou a acreditar que assim combateria os complexos corporais de que há muito era vítima. “Recebia muitos elogios, muitos likes, mas nunca me sentia assim, como eles me viam. Desligava o telefone e chorava muito. Não me identificava. Sentia-me muito incompleta, apesar de as pessoas me elogiarem muito”, conta ao Observador. Vânia sentia-se sozinha e foi preciso ir parar à cama de hospital com uma anemia severa para perceber que, neste caso, as redes sociais eram suas inimigas ao possibilitarem comparações constantes e irrealistas. “Estamos constantemente sujeitos a estímulos, a acharmos que o outro é melhor, sobretudo na área de fitness. Há cada vez pessoas mais infelizes.”

Curiosamente, um inquérito realizado recentemente pela britânica Royal Society for Public Health, feito a 1.500 adolescentes e jovens adultos, mostrou que o Instagram é a “pior rede social considerando saúde mental e bem-estar”. Apesar de somar pontos por promover a expressão individual e a identidade em si, a plataforma de fotografia está a associada a elevados níveis de ansiedade, depressão, bullying e até FOMO — sigla inglesa para “fear of missing out”. Mas é importante não diabolizar as redes sociais, que tantas barreiras da comunicação já destronaram, até porque também há estudos que sugerem que o Instagram é muito utilizado para partilhar histórias sobre depressão e inseguranças pessoais.

Considerando o culto da imagem descrito, quase parece que vivemos uma adolescência tardia, no sentido em que queremos constantemente agradar o outro. Filipa Jardim da Silva concorda: “Quando o número de gostos começa a ser sinónimo de aceitação é quando começamos a perder o chão. É uma armadilha que não é assim tão óbvia quanto isso”.

Ao relato de Vânia, que atualmente vai contando a sua história no blogue Lolly Taste, junta-se o de Constança Portugal, hoje com 21 anos, que tentou como muitas pessoas, antes e depois dela, criar um blogue de sucesso. A pressão para ter milhares de seguidores era tanta — e tão cobiçada por marcas que assim mediam o sucesso de uma determinada página — que a estudante de gestão começou a prestar demasiada atenção ao Instagram. “Senti que tinha de criar uma imagem de Instagram muito cuidada e cheguei ao ponto em que transmitia uma falsa felicidade muito grande”, conta. Certo dia, e para contrariar a tendência, decidiu fotografar-se mal acordou: descabelada, com unhas por arranjar e maquilhagem por aplicar. “Ao contrário do que poderia pensar, tive uma receção muito positiva e recebi muitas mensagens.” A experiência de Constança, que garante existirem vários casos semelhantes ao seu no mundo da blogosfera, trouxe-lhe um ensinamento: “Sentimo-nos muito mais sozinhos quando transmitimos essa falsa felicidade”.

Comunicação, ansiedade e hostilidade online

Em 1995, Sherry Turkle, professora na área dos estudos sociais sobre ciência e tecnologia no MIT, publicava um livro que a colocaria na capa da revista Wire: “Life on Screen” era um retrato positivo do impacto do digital nas nossas vidas. Mais de 15 anos depois, Turkle mudou de opinião e a Wire virou-lhe as costas, quando em 2011 o livro “Alone Together: Why We Expect More from Technology and Less from Each Other” chegou ao mercado. Na obra a autora escreve que, hoje em dia, o facto de sermos inseguros nas nossas relações e ansiosos perante o conceito de intimidade faz com que procuremos na tecnologia formas de estar em relações e, ao mesmo tempo, formas de nos proteger dessas mesmas relações. O problema da intimidade digital, garante, é que ela é incompleta: “Os laços que formamos através da Internet não são, no final, os laços que nos unem”.

“Estou a pensar no sistema do iPhone, naquela nuvem que aparece quando alguém está a responder a uma mensagem”, diz João Faria ao Observador. “Só esse mecanismo, que permite ver se a outra pessoa está a escrever, se demora ou não, desencadeia mecanismos negativos nas pessoas.” A imagem criada permite ao psicólogo especializado em perturbações da ansiedade associadas à utilização da internet, que trabalha no Centro para as Perturbações do Desenvolvimento (PIN), traçar uma comparação com o passado, numa altura em que um telefonema simplesmente não era atendido. O assunto ficava arrumado.

João Faria considera que os jovens vivem uma ansiedade muitas vezes potenciada pelas novas formas de comunicar, eles que chegam a trocar “milhares de mensagens por dia”. É o caso de um paciente seu que, aos 15 anos, tem uma “fortíssima dificuldade” em se desligar das redes sociais. Por ser particularmente insatisfeito com a sua versão offline, procura no universo online uma espécie de consolo e bem-estar. O maior receio, por mais ilógico que possa parecer, é perder o quer que seja de todas as vezes que não está conectado — voltamos ao FOMO. “Nestes casos, a ansiedade torna-se quase patológica”.

Um artigo publicado no The Guardian em abril de 2015 explorava a ideia de que a solidão no futuro possa estar precisamente na forma como hoje estabelecemos e mantemos relações. Uma pessoa sozinha sente necessidade de ser “vista, aceite e desejada”, ao mesmo tempo que se torna extremamente cautelosa com a exposição pessoal. O mesmo artigo citava uma investigação da Universidade de Chicago, que mostra que o sentimento de solidão é capaz de desencadear a “hipervigilancia do tecido social”. Quer isto dizer que uma pessoa nestas circunstâncias fica muito alerta à rejeição e suscetível de entender as interações sociais de uma forma hostil.

“A ansiedade pode, de facto, ser gerada pela ideia da avaliação permanente”, reitera Filipa Jardim da Silva. A psicóloga clínica não tem dúvidas de que a internet fomenta fenómenos de ampliação, ao mesmo tempo que garante que as partilhas online são “o novo cadastro vitalício”. João Faria partilha da mesma opinião, quando diz que a Internet aumenta exponencialmente as experiências negativas que um indivíduo possa ter e que, por isso, é mais fácil encontrar círculos de rejeição. Nem de propósito, a Linha Internet Segura, que funciona de forma gratuita desde 2011, existe para entrar e sair do universo online de forma segura (800 21 90 90).

A “hostilidade online” é uma realidade cada vez mais presente, tanto que até existe uma campanha do Conselho da Europa nesse sentido. A “No Hate Speech”, cujo nome também funciona como um slogan, não deixa grande margem para dúvidas: a ideia é combater o discurso de ódio na internet. “Os comentários negativos são os que proliferam mais. Nós somos particularmente atentos à crítica, ao rebaixar. É também uma questão cultural”, argumenta João Faria.

Ao ritmo (louco) da solidão

Algures na imprensa internacional encontramos a frase “a solidão tornou-se na ‘doença’ mais comum do mundo moderno”, uma ideia que o psicólogo João Faria não só entende, como aceita — embora não considere a solidão uma doença, antes um sintoma de condições tão graves como a depressão. “As pessoas estão mais sozinhas do que nunca e, ao mesmo tempo, têm muita facilidade em comunicar umas com as outras”, diz como se ainda lhe custasse a acreditar. Para ele, o sentimento de solidão é exacerbado pelo mundo cada vez mais rápido em que vivemos, no qual não há tempo para sentir saudades ou para nos encontrarmos cara a cara. A isso alia-se o facto de estarmos a perder a capacidade de esperar.

Ao telefone com o Observador, João Faria conta um exercício que fez numa sala de aula com miúdos a chegar aos 5 anos de idade. O psicólogo pediu aos alunos que levantassem a mão quando estivessem aborrecidos, enquanto João ligava um antigo jogo de computador, da sua infância. “O jogo demora 4 minutos a carregar. Os miúdos meteram a mão no ar ao fim de um minuto. Estavam aborrecidos.

A vida cada vez mais imediata está a roubar-nos a capacidade de gerirmos as nossas emoções, bem como a tolerância em lidar com o que sentimos, e ao consultório de João Faria chegam cada vez mais pessoas que se sentem sozinhas, embora não saibam reconhecer essa mesma solidão. “O marcador de quem não sabe que está a sentir-se sozinho é, por exemplo, o facto de procurar incessantemente conexão virtual.”

Ivone Patrão, coordenadora de estudos sobre dependências tecnológicas com o cunho do ISPA, tem um discurso semelhante. Considerando a investigação que a permitiu perceber que 14% dos jovens, entre os 12 e os 30 anos, estão dependentes do smartphone, a psicóloga garante que as pessoas mais dependentes da internet sentem-se isoladas socialmente, mas não emocionalmente. “Nestes casos, se lhes retirarmos a internet, estas pessoas deixam de ter apoio emocional, ficam sem nada”, explica ao Observador, ao mesmo tempo que deixa ficar a seguinte ideia: apesar de se sentirem acompanhadas, são pessoas que não se apercebem que dependem de uma ferramenta para comunicar e que há um interesse mútuo por detrás dos likes no Facebook e dos jogos online.

Há quatro meses, Mark Zuckerberg escrevia na rede social que criou que a comunidade do Facebook contava oficialmente com 2 mil milhões de pessoas mensalmente. Em setembro de 2017, o site Techcrunch escrevia que o Instagram alcançara os 800 milhões de utilizadores mensais e os 500 milhões de utilizadores diários. E quantas aplicações existem para conhecer pessoas em contextos mais e menos românticos?

“Recebo sobretudo crianças e jovens”, conta João Faria. “Mas garantidamente que a situação não se esgota nesta faixa etária. É expetável que se alastre até aos idosos. De qualquer maneira, as crianças de hoje serão os adultos e os idosos de amanhã. Não sou nada otimista nisto, para ser sincero.”

 

 

Os perigos de deixar as crianças sozinhas em casa

Novembro 3, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto da http://www.sabado.pt/ de 1 de novembro de 2017.

por Ana Catarina André

Horas a mais na Internet, ansiedade e cyberbullying – os riscos de não ter um adulto por perto.

Incêndios, assaltos, mas também conversas online com desconhecidos e publicação de fotografias impróprias em redes sociais. Deixar um miúdo sozinho em casa nas férias pode ser sinal de perigo – é preciso avaliar cada caso, alertam os especialistas. “As crianças mais pequenas nunca devem ficar sozinhas, mas aos 12/13 anos já poderão estar preparadas – depende da maturidade, da responsabilidade, do tempo que se pretende que fiquem sós e dos perigos que há em casa e nas redondezas”, considera a psicóloga Vera Ramalho. E alguns destes perigos são novos. Sem adultos por perto, os mais pequenos estão mais vulneráveis à Internet e às tecnologias e podem comprometer o seu desenvolvimento saudável e socialização. Saiba mais.

Estranhos nas redes sociais

Para Joana [nome fictício] aquele era um download inofensivo. Só depois é que a adolescente de 14 anos percebeu o perigo. “Um homem de 50 anos abordou-a. Como se viam através da câmara do smartphone, pediu-lhe que se despisse. Ficou muito assustada, mas felizmente contou o que se tinha passado. Se se tratasse de uma rapariga mais vulnerável, com um contexto familiar de risco, poderia ter acedido ao pedido”, conta a psicóloga Ivone Patrão, autora do livro #Geração Cordão – A geração que não desliga!. A especialista defende que se deve fazer uma socialização digital desde muito cedo. “As tecnologias devem ser introduzidas de forma segura na vida das crianças, com regras e transparência. Deve fomentar-se que falem sobre o que fazem online para que os pais e educadores as possam ir alertando para os perigos”, refere.

Tecnologias fora de controlo

Ficar em casa pode ser um convite a usar o tablet, a televisão ou o computador sem limites. “Estar muitas horas em frente ao ecrã de um tablet ou computador não só afecta o desenvolvimento cerebral (pode tornar-se um vício), como a socialização”, explica Ivone Patrão. Até à idade adulta – explica a especialista – treina-se muito a interacção social. Se esta for exclusiva ou maioritariamente digital, essas crianças e adolescentes não estarão preparados para lidar no futuro com reuniões de trabalho ou conflitos com o namorado ou marido. “As nossas crianças não estão a desenvolver o toque e a capacidade de contacto com outros”, afirma. Mais: ao não terem limite sobre a utilização de computadores, tablets ou televisões, correm também o risco de aceder a conteúdos inadequados para a sua faixa etária, seja pornografia ou drogas. Apesar de tudo, Ivone Patrão considera que a televisão envolve menos riscos no que diz respeito à socialização e desenvolvimento. “É um meio menos interactivo do que a Internet. Quando estamos online, podemos sempre fazer mais pesquisas e receber mais input através de chats. Diante de um televisor assumimos uma posição mais receptora de informação.”

Jogos perigosos

A ausência de supervisão pode também levar os mais novos a envolverem-se em jogos como a Baleia Azul. Nos últimos dois meses, as comissões de protecção de menores registaram 34 casos com eventuais ligações ao fenómeno que incita ao suicídio e à automutilação e que se espalhou através das redes sociais. “Mesmo que a criança esteja com os pais ou outro elemento da família o risco mantém-se”, defende a psicóloga Raquel Ferreira, da clínica BRD Teen.

Fotografias ousadas nas redes sociais

Há quem aproveite para publicar ou enviar fotos a amigos e desconhecidos – em poses ousadas ou sem roupa –, sem ter noção das consequências. Um dos pacientes de Ivone Patrão contou-lhe que enviou imagens suas, “comprometedoras”, a uma rapariga que conheceu na Internet. Queria conquistá-la, mas acabou por ser vítima de cyberbullying: se ele não lhe desse dinheiro, ela enviaria as fotos à família e aos amigos. “Ele decidiu não ceder e contou tudo aos pais que valorizavam a sua iniciativa de admitir o que sucedera”, diz a psicóloga. E acrescenta: “Era um jovem de 22 anos, mas podia ter acontecido a um adolescente ou pré-adolescente”.

Ansiedade e medo

Se não tiverem sido preparados pelos pais (ver caixa) e não tiverem ainda autonomia suficiente para se sentirem bem sem a presença de um adulto, os miúdos podem sentir-se desamparados. “Se for uma criança muito protegida e insegura, será incapaz de estar sozinha e provavelmente entrará em stress”, explica Vera Ramalho, salientando a importância de os pais avaliarem a responsabilidade, a capacidade de compreensão de regras e maturidade dos filhos antes de os deixarem sem supervisão.

Posts de pais e professores

“Muitos adultos esquecem-se de que também são modelos digitais para os mais novos. Por isso, devem ter cuidado com as partilhas nas redes sociais”, alerta Ivone Patrão. Se um pai ou uma mãe publicar fotos ousadas – mesmo que sejam só de rosto – ou fizer publicações diárias sobre os locais onde está, as crianças e adolescentes quererão fazer o mesmo, diz a especialista. O mesmo acontece se perceberem que o adulto leva o telefone para o quarto e o utiliza antes de adormecer. “Estas situações geram uma certa ambivalência e perda de autoridade parental”, explica Ivone Patrão, frisando a importância de estabelecer regras de utilização dos dispositivos electrónicos.

Artigo originalmente publicao na edição 694 de 17 de Agosto de 2017.

 

 

 

 

A “pressão do mundo virtual” anda a mexer com a saúde mental dos jovens

Setembro 21, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 7 de setembro de 2017.

Passam em média mais de duas horas por dia nas redes sociais. Há especialistas que acham que isso já se está a notar nas urgências e consultórios psiquiátricos.

Catarina Reis

Sem barreiras e sem segredos, como uma casa virtual onde tudo pode realmente acontecer. Assim se apresentam as redes sociais aos jovens que as utilizam como o seu meio de comunicação mais natural. E a pergunta que muitos pais fazem é esta: pode o uso excessivo de redes sociais estar associado ao aparecimento de problemas de saúde mental? O médico psiquiatra Diogo Telles Correia, a psicóloga Rosário Carmona e a pedopsiquiatra Maria de Lurdes Candeias acreditam que sim.

Da rua para casa, do convívio de recreio às conversas em redes sociais — em Portugal, são os jovens dos 15 aos 24 anos que mais tempo lhes dedicam. Passam uma média de mais de duas horas por dia a “conversar” e a “partilhar”, segundo um estudo da Marktest, divulgado no ano passado, que indicava ainda que em poucos anos — de 2008 a 2015 — a percentagem de utilizadores, entre todas as faixas etárias, crescera de 17,1% para 54,8%.

Diogo Telles Correia não hesita em ligar os mais recentes números ao crescimento de patologias do foro psicológico nos jovens, como ansiedade e depressão. Porquê? De acordo com o especialista, as redes sociais expõem “os adolescentes a um contínuo fluxo de informação, que os estimula constantemente e alimenta uma personalidade hiperactiva e que pode conduzir, não raramente, a situações de ansiedade”.

E a ansiedade, diz o médico psiquiatra e psicoterapeuta, é um veículo para a depressão. Além disso, a globalização das redes sociais veio tornar as relações humanas “mais superficiais e menos estruturantes, facto que reduz a resiliência dos adolescentes às adversidades”, acrescenta.

Aos olhos de Rosário Carmona, psicóloga especialista em adição à Internet, o problema não é novo. “A pressão social, a pressão da integração, sempre existiu. Agora, apenas existe em moldes diferentes.” E prossegue: “Enquanto essa pressão existia na realidade, agora há uma pressão adicional — a do mundo virtual. É esta pressão, que as gerações antigas já tinham, mas a duplicar.” E que é passível de ser encontrada nos episódios mais banais do dia-a-dia de um adolescente. “O não pertencer a um grupo de turma já é motivo de stress. Tudo é uma pressão social” na vida dos adolescentes.

Já a pedopsiquiatra Maria de Lurdes Candeias considera que se um adolescente está sujeito a uma pressão social resultante das redes sociais, então é natural que essa utilização “agrave uma patologia que o jovem já possa ter”. Na perspectiva da especialista, as redes sociais funcionam, assim, como factor de agravamento de uma condição já existente — embora adormecida —, mas não como raiz de um problema da ordem mental.

Não há atenção suficiente

É precisamente nas redes sociais que têm lugar algumas páginas dedicadas à divulgação de imagens e citações de carácter depressivo. De origem desconhecida, o fenómeno tem atraído milhares de jovens utilizadores em todo o mundo. São exemplos as páginas de Facebook Depression Memes 2.0, seguida por 25.323 pessoas, e a Yes, I’m sad, com mais de um milhão de seguidores.

Em Maio, a Organização Mundial de Saúde (OMS) divulgou um relatório onde apontava as cinco principais causas de morte em adolescentes entre os 15 e os 19 anos, em 2015. No estudo Acção Global Acelerada para a Saúde dos Adolescentes: Orientações para apoiar a implementação nacional, a autolesão foi apontada como a terceira causa de morte no mundo — antecedida por acidentes de viação e infecções respiratórias. Este número (67 mil mortes num ano) engloba, segundo o relatório, os suicídios e mortes acidentais resultantes de lesões auto-infligidas pelos jovens que não tinham como intenção. O mesmo estudo divulgou ainda diferenças a nível de género: a autolesão é mais frequente entre raparigas adolescentes do que entre rapazes.

Em Portugal, Diogo Telles Correia lembra os dados partilhados pelo Programa Nacional para a Saúde Mental, em 2015, que davam conta de que, nos últimos anos, se registara “um aumento do número de crianças e adolescentes que recorreram às urgências por depressão, ansiedade e tentativas de suicídio ou para-suicídio — autolesões cujo objectivo não era morrer, mas sim passar uma mensagem de sofrimento ou mágoa”.

Já Rosário Carmona, ainda que admita que há uma relação causa-efeito entre redes sociais e saúde mental dos jovens, não considera, a partir daquilo que presencia no seu consultório, que o problema esteja a crescer. “Não sinto que tenha aumentado. Mas também não quero dizer que acredito nisto porque damos maior atenção ao assunto, porque há pais que vão ler e vão achar que, efectivamente, têm prestado mais atenção, o que não é verdade. Há uma maior informação, mas ainda não há atenção suficiente ao assunto”, subinha.

Prevenção desvalorizada

Nas escolas, junto dos jovens — é onde a psicóloga Rosário Carmona diz ser necessário prevenir e exactamente onde considera que está a falhar a prevenção.

Garante que “há especialistas suficientes no país para ajudar estas crianças”, mas, nos estabelecimentos de ensino, a realidade é outra. “Ou não há psicólogos ou há poucos”, afirma.

Desde cedo que “a prevenção está muitíssimo desvalorizada”. A psicóloga é ainda da opinião que o Governo deveria prestar mais atenção ao problema da saúde mental dos jovens, pois “está confirmado que ganha mais em prevenir do que em remediar”.

Rosário Carmona também lamenta que “a maioria dos pais” chegue “demasiado tarde” ao seu consultório. Para a pedopsiquiatra Maria de Lurdes Candeias, esta é mesmo a raiz do problema. “Não há uma boa formação junto das crianças, sobre o que é certo e o que é errado. Há escolas que querem ter mão nisto, outras que não. Mas eu continuo a dizer que isto depende da formação dada em casa, pelos pais, pelos primos, pelos avós, pelos tios”, conclui.

Travar este fenómeno e as falhas que dele têm decorrido no sistema é, de acordo com Diogo Telles Correia, responder multidisciplinarmente, “incluindo psiquiatras, pediatras, clínicos gerais, psicólogos, entre outros”.

“Como em todas as áreas de saúde mental, o número de médicos e técnicos especializados na área podem não estar à altura deste acréscimo contínuo da prevalência das perturbações mentais” e da complexidade do tema, explica Telles Correia que também ressalva que o trabalho tem que começar em casa, com “pais mais atentos” a sintomas que podem estar associados a uma possível depressão ou problemas de ansiedade.

 

 

 

Dor de criança rejeitada pelo pai ultrapassa o emocional e vira física, diz estudo

Agosto 10, 2017 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Texto do site http://www.vix.com/pt/

Nathália Geraldo

Nem é preciso a Ciência dizer que a participação de quem exerce o papel paternal é fundamental no desenvolvimento da criança, mas, para confirmar essa teoria no campo da psicologia social, pesquisadores da Universidade de Connecticut, nos EUA, investigaram os impactos na personalidade de pessoas que sofreram rejeição do pai na infância.

As conclusões da pesquisa foram publicadas no Science Daily e trazem evidências sobre o impacto do amor e da dedicação (ou da falta deles) na vida adulta dos participantes.

De acordo com os pesquisadores, não há nenhuma outra experiência pessoal que tenha um efeito tão forte quanto a rejeição do pai – seja por qual motivo for – especialmente quando ainda se é criança.

Os cientistas ainda investigaram como se configura a dor de não ser aceito por quem deveria estabelecer o vínculo paternal e quais são os aspectos sociais que interferem na relação pai e filho. Leia mais a seguir.

Importância do pai na infância

Os pesquisadores da Universidade de Connecticut, Abdul Khaleque e Ronald Rohner, analisaram 36 estudos de psicologia social, totalizando mais de 10 mil participantes, para estabelecer qual é a relação da aceitação ou da rejeição do pai com as características de personalidade dos voluntários na vida adulta.

A primeira conclusão diz respeito à forma de reagir a esse comportamento de quem deveria cuidar e representar uma “figura de apego”.

“Crianças e adultos em todos os lugares, independentemente das diferenças de raça, cultura e gênero, tendem a responder exatamente da mesma maneira quando se percebem como sendo rejeitados por seus cuidadores ou figuras de apego”, relataram.

As respostas foram classificadas, de maneira geral, em dois pares de características de personalidade: ansiedade e insegurança ou hostilidade e agressividade. Estes fatores podem perdurar até quando o indivíduo vira adulto, “tornando mais difícil que os rejeitados formem relações seguras e de confiança com seus parceiros íntimos”.

O estudo pondera que as conclusões também levam em conta as disposições de personalidade.

Como é a dor de ser rejeitado

Khaleque e Rohner também cruzaram pesquisas dos campos da psicologia e da neurociência e constataram que as partes do cérebro que são ativadas quando as pessoas se sentem rejeitadas são as mesmas de quando experimentam dor física.

Um fator, especialmente, torna a experiência da rejeição ainda mais negativa, segundo os pesquisadores: a possibilidade de reviver a dor emocional ao longo dos anos.

“Ao contrário da dor física, as pessoas podem reviver psicologicamente a dor emocional da rejeição repetidamente durante anos”, diz Rohner.

Amor e desenvolvimento

Por fim, a pesquisa concluiu que o amor do pai é fundamental para o desenvolvimento pessoal e que o reconhecimento desta importância deve mitigar a incidência de ‘culpa da mãe’, conceito muito comum no convívio social para justificar o comportamento das crianças.

“A grande ênfase nas mães e na maternidade leva a uma tendência inapropriada de culpar as mães pelos problemas de comportamento das crianças e pelo desajuste quando, de fato, os pais são frequentemente mais implicados do que as mães no desenvolvimento de problemas como estes”.

 

‘Pais-helicóptero’ estão criando filhos simplesmente ‘inempregáveis’

Julho 19, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Texto do site http://www.pensarcontemporaneo.com/

‘Pais-helicóptero’ são os pais que estão sempre girando em torno dos filhos. Praticamente os embrulham em plástico-bolha, criando uma corte de jovens adultos que têm dificuldade de ter um desempenho satisfatório no trabalho e em suas vidas.

‘Pais-helicóptero’ pensam que estão fazendo o melhor, mas, na verdade, estão prejudicando as chances de sucesso dos filhos. Em particular, estão arruinando as chances de que os filhos consigam um emprego e consigam mantê-lo.

‘Pais-helicóptero’ não querem que seus filhos se machuquem. Querem suavizar cada golpe e amortecer cada queda. O problema é que essas crianças superprotegidas nunca aprendem como lidar com a perda, com o fracasso ou com o desapontamento — aspectos inevitáveis da vida de todos.

A superproteção torna quase impossível que esses jovens desenvolvam a tolerância em relação à frustração. Sem esse importante atributo psicológico, os jovens entram na força de trabalho em grande desvantagem.

‘Pais-helicóptero’ fazem coisas demais pelos filhos, portanto, essas crianças crescem sem uma ética de trabalho saudável e sem habilidades básicas. Sem essa ética de trabalho e habilidades necessárias, o jovem não será capaz de realizar muitas das tarefas exigidas pelo local de trabalho.

‘Pais-helicóptero’ superprotegem seus filhos e os privam de qualquer consequência significativa por suas ações. Com isso, eles perdem a oportunidade de aprender lições de vida valiosas a partir dos erros que cometem; as lições de vida que iriam contribuir para sua inteligência emocional.

‘Pais-helicóptero’ protegem suas crianças de qualquer conflito que possam ter com seus colegas. Quando essas crianças crescem, não sabem como resolver dificuldades entre eles e um colega ou supervisor.

As pessoas resolvem problemas tentando coisas, cometendo erros, aprendendo e tentando novamente. Esse processo cria confiança, competência e autoestima. ‘Pais-helicóptero’ impedem que seus filhos desenvolvam todos esses importantes atributos que são necessários para uma carreira de sucesso.

‘Pais-helicóptero’ pensam que seus filhos devem vencer qualquer coisa. Todo mundo que participe de um evento esportivo deve ganhar um troféu. Todos devem conseguir uma nota de aprovação, mesmo que sua tarefa esteja atrasada ou malfeita.

Em um local de trabalho funcional, há apenas um vencedor de uma competição, e apenas um trabalho de alta qualidade é recompensado. Se as crianças crescem pensando que independentemente do que façam irão vencer, não perceberão que, na verdade, têm de trabalhar duro para conseguir ter sucesso.

Esses jovens mimados ficarão arrasados quando continuarem perdendo competições, se saindo mal em entrevistas ou sendo demitidos de seus empregos. Não entenderão quanto esforço é realmente necessário para ser um vencedor no mundo do trabalho.

Esses jovens carecem de competência e ação por nunca terem tido de resolver um problema ou completar um projeto sozinhos. Esperam que outros façam essas coisas para eles, assim como seus pais sempre fizeram. Em essência, não podem pensar ou agir por si mesmos.

A criação-helicóptero inculca uma série de atitudes negativas nas crianças. Elas crescem com grandes expectativas de sucesso, independentemente de quanto tempo ou energia investem, e sentem que merecem tratamento preferencial — sendo que nenhum dos dois comportamentos cai bem com seus colegas ou chefes.

Em uma entrevista de emprego, os futuros empregadores podem ser dissuadidos pela atitude excessivamente egocêntrica de um jovem ou alarmados por sua falta de habilidades básicas.

A aura de ignorância e incompetência de um jovem, combinada com expectativas de recompensas imediatas e substanciais sem relação com o desempenho, pode ser o beijo da morte em qualquer entrevista para um bom emprego.

Quando os pais decidem acompanhar seu filho de 20 e poucos anos em uma entrevista de emprego, isso mina qualquer confiança que um empregador possa ter nesse funcionário em potencial. “Por que”, os empregadores podem se perguntar, “alguém procurando emprego precisaria trazer a mamãe ou o papai na entrevista, a menos que esse jovem seja mais uma criança do que um adulto?”.

Mesmo de pequenas maneiras, os ‘pais-helicóptero’ paralisam seus filhos. A criança adulta de ‘pais-helicóptero’ vai fazer sua pausa para o café e então sair da copa sem ter limpado sua sujeira ou lavado sua xícara. Podemos imaginar como isso causará ressentimento entre seus colegas.

Esses jovens esperam que “alguém” limpe sua coisas, da mesma forma que sua sujeira foi sempre limpada quando eram crianças. Não percebem que já não há ninguém os seguindo, limpando sua sujeira, seja física, interpessoal ou profissional.

Barb Nefer, em um artigo publicado no site WebPsychology, diz que a geração do “milênio está sendo fortemente atingida pela depressão no trabalho. Um em cada cinco trabalhadores [20%] já sofreu de depressão no trabalho, comparado a 16% da Geração X [nascidos entre 1960 e final dos anos 70] e dos ‘baby boomers’ [nascidos entre 1943 e 1960]”.

Nefer destaca que, de acordo com um “‘white paper’ da Bensinger, DuPont & Associates, os ‘millennials’ têm desempenho inferior no trabalho e índices mais altos de absenteísmo, bem como mais conflitos e incidentes de advertência por escrito”, fatores que “podem afetar o desempenho no trabalho”.

De acordo com um artigo de Brooke Donatone publicado pelo Washington Post, uma nota de 2013 na revista “Journal of Child and Family Studies revelou que universitários que tiveram criação-helicóptero relataram níveis mais altos de depressão”.

O artigo do Washington Post também destaca que uma “criação intrusiva interfere no desenvolvimento da autonomia e da competência. Por isso, a criação-helicóptero leva a uma maior dependência e menor habilidade de completar tarefas sem supervisão dos pais”.

Às vezes, a melhor forma de ‘estar presente’ na vida dos filhos é não estar.
Os artigos acima deixam claro que a ‘criação-helicóptero’ está contribuindo para um crescente índice de depressão entre jovens bem como para uma incapacidade de ter um desempenho otimizado no local de trabalho.

Se você é um pai ou uma mãe que quer que seus filhos sejam bem-sucedidos na carreira quando adultos, precisa estar ciente de quaisquer tendências relacionadas à criação-helicóptero em você ou em seu parceiro.

Amar seus filhos significa guiá-los, protegê-los e apoiá-los. Não significa sufocá-los, superprotegê-los ou fazer tanto por eles que nunca aprendam a pensar por si mesmos, a lidar com desafios ou com o desapontamento e fracasso.

A coisa mais amorosa que você pode fazer como pai ou mãe é dar um passo atrás e deixar seu filho cair, se preocupar e resolver as coisas sozinho. Às vezes, a melhor forma de “estar presente” na vida de seu filho é não estar. É assim que você os capacita a desenvolver confiança, competência, autoestima e inteligência emocional.

Hoje os jovens precisam de pais que os ajudem a se tornar adultos úteis. Isso significa girar menos em torno deles e embrulhá-los menos em plástico-bolha e empoderá-los mais para que façam coisas por si mesmos, resolvam coisas por si mesmos e aprendam a lidar com as dificuldades, tudo por si mesmos.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost Canada e traduzido do inglês.

O artigo The Washington Post citado no texto é o seguinte:

Why are so many millennials depressed? A therapist points the finger at Mom and Dad.

O estudo citado é o seguinte:

Helping or Hovering? The Effects of Helicopter Parenting on College Students’ Well-Being

 

Os quatro excessos da educação moderna que perturbam as crianças

Junho 14, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site http://www.revistapazes.com/ de 24 de maio de 2017.

Por Jennifer Delgado Suárez, psicóloga

Quando nossos avós eram pequenos, eles tinham apenas um casaco de frio para o inverno. Apenas um! Naquela época de vacas magras, já era luxo ter um. Exatamente por isso a criançada cuidava dele como se fosse um tesouro precioso. Naquela época bastava a consciência de se ter o mínimo indispensável. E, acima de tudo, as crianças tinham consciência do valor e da importância de suas coisas.

Muita água correu por baixo da ponte, acabamos nos transformando em pessoas mais sofisticadas. Agora prezamos pelas várias opções e queremos que nossos filhos tenham tudo aquilo que desejarem, ou, caso seja possível, muito mais. Não percebemos que esse mimo excessivo ajuda a criar um ambiente propício para transtornos psicológicos.

De fato, foi demonstrado que o excesso de estresse durante a infância aumenta a probabilidade de que as crianças venham a desenvolver problemas psicológicos. Assim, uma criança sistemática pode ser empurrada para ativar um comportamento obsessivo. Uma criança sonhadora, sempre com a cabeça nas nuvens, pode perder a sua capacidade de concentração.

Neste sentido, Kim Payne, professor e conselheiro norte-americano, conduziu uma experiência interessante em que simplificou a vida de crianças diagnosticadas com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Depois de apenas quatro meses, 68% destes pequeninos passaram a ser considerados clinicamente funcionais. Eles também mostraram um aumento de 37% em suas habilidades acadêmicas e cognitivas, um efeito que não poderia coincidir com a medicação prescrita para esta desordem, o Ritalin.

Estes resultados são, em parte, extremamente reveladores e, mais que isto, também são um pouco assustadores, porque nos fazem pensar se realmente estamos criando para nossos filhos um ambiente saudável, mental e emocionalmente.

O que estamos fazendo de errado e como podemos corrigir isto?

Quando o “muito” se transforma em “demais”?

No início de sua carreira, este professor trabalhou como voluntário em campos de refugiados, onde teve que lidar com crianças que sofrem de estresse pós-traumático. Payne constatou que essas crianças se mostravam nervosas, hiperativas e tremendamente ansiosas, como se pressentissem que algo de ruim fosse acontecer de uma hora para a outra. Elas também eram amedrontadas em excesso, temendo qualquer novidade, o desconhecido, como se tivessem perdido a curiosidade inata das crianças.

Anos mais tarde, Payne constatou que muitas das crianças que precisavam de sua ajuda mostravam os mesmos comportamentos que os pequenos que vinham de países em guerra. No entanto, o estranho é que estas crianças viviam na Inglaterra, abraçados por um ambiente completamente seguro. Qual a razão que os levava a exibir os sintomas típicos de estresse das crianças pós-traumáticas?

O professor pensa que as crianças em nossa sociedade, apesar de estarem seguras do ponto de vista físico, mentalmente vivem em um ambiente semelhante ao produzido em áreas de conflito armado, como se suas vidas estivessem sempre em perigo. A exposição à muitos estímulos provoca um estresse acumulado que obriga as crianças a desenvolverem estratégias que as façam se sentir mais seguras.

Na verdade, as crianças de hoje estão expostas a um fluxo constante de informações que não são capazes de processar. Elas são forçadas ao crescimento rápido, já que os adultos depositam muitas expectativas sobre elas, forçando-as a assumir papéis que realmente não condizem com a realidade infantil. Assim, o cérebro imaturo das crianças é incapaz de acompanhar o ritmo imposto pela nova educação, por conseguinte, um grande estresse ocorre, com as óbvias consequências negativas.

Os quatro pilares do excesso.

Como pais, nós normalmente queremos dar o melhor para os nossos filhos. E pensamos que, se o pouco é bom, o mais só pode ser melhor. Portanto, vamos implementar um modelo de paternidade superprotetora, nós forçamos os filhos a participar de uma infinidade de atividades que, em teoria, ajudam a preparar os pequenos para a vida.

Como se isso não fosse suficiente, nós enchemos seus quartos com livros, dispositivos e brinquedos. Na verdade, estima-se que as crianças ocidentais possuem, em média, 150 brinquedos. É demais, e quando é excessivo, as crianças ficam sobrecarregadas. Como resultado, elas brincam superficialmente, facilmente perdendo o interesse imediatista nos brinquedos e no ambiente, elas não são estimuladas a desenvolver a imaginação.

Payne ressalta que estes são os quatro pilares do excesso que forma a educação atual das crianças:

1 – Excesso de coisas.

2 – Excesso de opções.

3 – Excesso de informações.

4 – Excesso de rapidez.

Quando as crianças estão sobrecarregadas, elas não têm tempo para explorar, refletir e liberar tensões diárias. Muitas opções acabam corroendo sua liberdade e roubam a chance de se cansar, o que é elemento essencial no estímulo à criatividade e ao aprendizado pela descoberta.

Gradualmente, a sociedade foi corroendo as qualidades que tornam o período da infância algo mágico, tanto que alguns psicólogos se referem a esse fenômeno como a “guerra contra a infância”. Basta pensar que, nas últimas duas décadas, as crianças perderam uma média de 12 horas por semana de tempo livre. Mesmo as escolas e jardins de infância assumiram uma orientação mais acadêmica.

No entanto, um estudo realizado na Universidade do Texas revelou que quando as crianças brincam com esportes bem estruturados, elas se tornam adultos menos criativos, em comparação com jovens que tiveram mais tempo livre para criar suas próprias brincadeiras. Na verdade, os psicólogos têm notado que a maneira moderna de jogar gera ansiedade e depressão. Obviamente, não é apenas o jogo mais ou menos estruturado, mas também a falta de tempo.

Simplificar a infância.

A melhor maneira de proteger a infância das crianças é dizer “não” para as diretrizes que a sociedade pretende impor. É preciso deixar que as crianças sejam crianças, apenas isso. A melhor maneira de proteger o equilíbrio mental e emocional é educar as crianças na simplicidade. Para isso, é necessário:

– Não encher elas de atividades extracurriculares, que, em longo prazo, não vão ajudá-las em nada. – Deixe-lhes tempo livre para brincar, de preferência com outras crianças, ou com jogos que estimulem a criatividade, jogos não estruturados.

– Passar um tempo de qualidade com eles é o melhor presente que os pais podem dar.

– Criar um espaço tranquilo em suas vidas onde eles podem se refugiar do caos e aliviar o estresse diário.

– Garantir tempo suficiente de sono e descanso.

– Reduzir a quantidade de informações, certificando-se de que esta seja sempre compreensível e adequada à sua idade, o que envolve um uso mais racional da tecnologia.

– Simplifique o ambiente, apostando em menos brinquedos e certificando-se de que estes realmente estimulem a fantasia da criança.

– Reduzir as expectativas sobre o desempenho, deixe que elas sejam simplesmente crianças. Lembre-se que as crianças têm uma vida inteira pela frente até se tornarem adultos, entretanto, então, permita que elas vivam plenamente a infância.

Texto publicado em espanhol no site Rincón de la Psicología, traduzido e adaptado pela Revista Pazes.

 

 

 

Instagram é a rede social mais nociva para a saúde mental

Junho 5, 2017 às 6:00 am | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
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Texto do http://exameinformatica.sapo.pt/ de 24 de maio de 2017.

O estudo citado na notícia pode ser consultado na notícia da Royal Society for Public Health:

Instagram ranked worst for young people’s mental health

Ruben Nascimento Oliveira

É o que diz um estudo realizado no Reino Unido que questionou 1500 pessoas para comparar os efeitos na saúde mental das redes sociais: Instagram, Snapchat, Facebook,Twitter e Youtube.

A Royal Society for Public Health em conjunto com o movimento Young Health publicou um estudo focado nos efeitos que cinco redes sociais diferentes têm na saúde dos jovens.

O estudo foi feito no Reino Unido, onde cerca de 1500 pessoas entre os 14 e 24 anos de idade foram questionadas sobre a sua saúde, bem-estar, suporte emocional, imagem corporal e bullying, noticia a Cnet.

Após análise às respostas, os investigadores concluíram que o Instagram era o mais prejudicial para a saúde dos jovens seguidos por ordem decrescente relativamente ao seu efeito nocivo nos utilizadores, pelo Snapchat, Facebook, Twitter e Youtube.

Os efeitos negativos superiores do Instagram e Snapchat parecem ser derivados do grande foco em imagens que existe em ambas as redes sociais, explica Shirley Cramer Chefe executiva do Public Health Group.

 

De que é que as crianças têm medo?

Maio 13, 2017 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://www.noticiasmagazine.pt/ de 2 de maio de 2017.

Medo do escuro, do lobo mau, de monstros no armário. Das trovoadas, de ficarem sozinhas, da morte. Os medos variam consoante a idade e a personalidade das crianças mas, apesar de lhes poderem causar sofrimento, são tão comuns quanto necessários para crescerem. Cabe aos pais ajudarem os filhos a descobrir que nada é, afinal, tão assustador como pensavam, explica a psicóloga Leonor Baeta Neves, especialista em desenvolvimento infantil. E dar-lhes a confiança de que precisam para se irem tornando independentes. Isso sim, dá um medo danado. A eles e a nós.

Texto de Ana Pago | Fotos da Shutterstock

Quais são os principais medos das crianças, de um modo geral?

São no fundo os medos ancestrais, aqueles que o homem pré-histórico decerto teria e lhe salvavam a vida. Primeiro, o medo do escuro, porque nesses tempos andar no escuro, sem ver, era potencialmente mortal: podia cair num precipício, encontrar um animal feroz, afogar-se num rio. Segundo, o medo de animais, já que não tinham defesas contra os grandes, que eram predadores, ou os muito pequenos (insetos, por exemplo), que podiam trazer doenças. Terceiro, o medo da solidão, de ser abandonado, que até um animal sente. São tudo medos antigos e muito profundos.

E o maior medo de todos? Separar-se da mãe?

O medo da separação também é um medo defensivo, mas é mais do que isso. É de facto o medo maior, o mais compreensível e correto. Um ser humano dificilmente sobrevive sozinho: quanto mais pequeno, maior o risco. A ligação à mãe é um verdadeiro instinto que qualquer animal tem e uma criança sabe, sente, que necessita não apenas dos cuidados físicos, uma vez que nasce incompleta, mas também da relação de afeto, tão importante para a sua saúde como os cuidados materiais. O chamado segundo organizador da personalidade, que é a conhecida angústia do oitavo mês, funciona em relação à mãe pelo pânico que a criança sente quando se separa, quando a mãe desaparece. Esse é um facto conhecido e importante.

Maior que o medo da morte?

A noção da morte, de uma separação para sempre, surge muito mais tarde e é um medo associado ao da separação. Afinal, o sentimento da criança é: «Se eu perco quem me assegura a vida, o que vai ser de mim?»

Por muito irracionais que estes medos pareçam aos pais, eles são reais. Mesmo não tendo uma relação direta com a realidade e sim o sentido que a criança lhes atribui em cada etapa do desenvolvimento…

São reais, sim. Importa reconhecê-los como tal e ajudar os nossos filhos a enfrentá-los com confiança, de modo a evitar que evoluam para fobias. E isto sem nunca ridicularizar a criança ou os seus medos. A realidade é secundária quando se trata de sentimentos.

Ter medo é saudável? Até na medida em que pode evitar que corram riscos desnecessários?

Ter medo é importantíssimo. Ouvimos alguns pais dizerem em tom divertido «Ah, o meu filho não tem medo de nada», mas isto não tem graça. Devia ter medo. E não, os pais não precisam de o assustar para lhe incutir o sentimento de cuidado com muita coisa, nomeadamente esses medos primitivos do escuro, ou de animais, ou do fogo, ou das alturas – afinal, ao andar num escuro total pode magoar-se; se agarrar num bicho que não conhece pode ficar ferido; se se debruçar de um sítio alto pode cair e morrer… Ensinar a ter cuidado é justamente ensinar a não ter medo, ou seja, a utilizar a cautela de forma adequada e eficiente. O que se deve é ensinar a criança a servir-se das ferramentas de que dispõe: pode mexer e usar tudo, ou quase tudo, mas antes deve treinar muito bem essa utilização.

Quando é que um medo aparentemente normal se transforma em motivo para alarme?

Quando se torna obsessivo. Quando prejudica o dia-a-dia e impede o natural funcionamento do quotidiano. Quando se percebe que incomoda a criança e os que lidam com ela. Por outro lado, também existem medos individuais que convém perceber como surgiram. Os pequenos podem ter medo de uma gravura, uma cantiga, uma pessoa, e aí devemos perceber a razão por que isso acontece. Que memórias são evocadas e as associações que fazem.

O que podem os pais fazer concretamente para mostrar às crianças que respeitam os seus medos?

Como para quase tudo na vida, o primeiro passo (e o mais importante) é conversar. Deixar que a criança diga o que receia sem se sentir censurada. Pôr-se no seu lugar, voltar à infância e tentar sentir o mesmo que lhe é descrito. Acima de tudo, nunca forçá-la: uma pessoa pode enfrentar qualquer medo se se sentir acompanhada, mas nunca quando é empurrada. A brincadeira é outra aliada poderosa nesta luta contra os medos: podem fazer jogos de role playing juntos, brincar um pouco com aquilo que assusta o seu filho sem troçar dele. E é bom confidenciar-lhe medos que também tenha tido e como os ultrapassou.

Desvalorizar nunca é solução?

Nunca. Nem gozar ou menosprezar a situação – apenas fará com que a criança deixe de falar nisso por vergonha, enquanto sente reforçar-se o seu sentimento de angústia. Ainda que aos olhos do adulto possa parecer engraçado, o medo tem de ser levado a sério, porque é sério. Para a criança não tem graça nenhuma. É uma ofensa ser ridicularizada.

Falamos em medos infantis, embora na verdade se prolonguem pela adolescência com o receio de não pertencer a um grupo, não ser popular e outros do género…

Os medos infantis mais famosos são os que chamei de ancestrais, por serem antiquíssimos, básicos e inclusive comuns a alguns animais. Depois, quando a criança se socializa, quando vai para a escola, aparecem os medos sociais como a vergonha, que é uma emoção bem forte apesar de um animal não ser capaz de senti-la. Também estes medos sociais são importantíssimos, não apenas na adolescência, mas sobretudo nessa etapa.

Qual é a melhor abordagem a ter nessas idades, em que os jovens julgam saber tudo e já estão menos dispostos a ouvir os pais?

A adolescência de um filho deve começar a preparar-se ainda durante a infância, quando aprende a sentir-se seguro e amado. É importante nunca deixar gerar-se um vazio grande de comunicação na família: o jovem deve sentir que pode confiar nos pais, mesmo que se oponha a eles, e é bom haver essa oposição para crescer. Por mim, a melhor aposta é o diálogo, por muito difícil que seja. Se possível, conheça o maior amigo do seu filho e nunca o hostilize. Estabelecer uma ponte também pode ajudar: conte-lhe coisas da sua própria adolescência, os disparates que fez, a relação com os avós, como se sentia então. Não havendo uma receita infalível para todos os casos, os pais terão de ir por tentativa e erro.

E o que fazer quando os medos das crianças mexem com memórias dolorosas ou com os medos dos próprios pais?

Aceitar isso e enfrentar, afinal de contas é um ponto de proximidade importante. Se os medos forem demasiado dolorosos para que o adulto consiga debater com o filho essa angústia em comum, fale com um técnico ou leia qualquer coisa que o ajude a ver mais claro. Preparar-se para ajudar as crianças tem tudo para ajudar também os pais.

mais fotos no link:

http://www.noticiasmagazine.pt/2017/sao-estes-os-medos-das-criancas/

 

 

Adolescentes portugueses sentem-se mal quando não têm Internet por perto

Maio 5, 2017 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 19 de abril de 2017.

Mais informações na notícia da OECD:

Most teenagers happy with their lives but schoolwork anxiety and bullying an issue

A satisfação com a vida, a relação com os pais e com a escola também foram avaliadas joana bourgard

Estudo da OCDE diz que jovens que têm um uso extremo da Internet mostram-se menos satisfeitos com a vida e têm também desempenhos académicos piores.

Clara Viana

Portugal é dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) onde existe uma maior percentagem de jovens de 15 anos a afirmar que se sentem mal quando não têm disponível uma ligação à Internet. São mais de 77% os que o afirmam, quando a média na OCDE é de 54%.

Acompanham Portugal naquele pelotão a França, Grécia, Suécia e Taipé, segundo revelam os resultados dos inquéritos efectuados aos alunos que realizaram os testes PISA em 2015, divulgados nesta quarta-feira de manhã num relatório da OCDE sobre o bem-estar dos jovens.

Os testes PISA, que são promovidos pela OCDE, realizam-se de três em três anos para a aferir a literacia a leitura, matemática e ciências dos alunos com 15 anos de idade.

Apesar da aparente dependência dos alunos portugueses face à Internet, o tempo em que estes dizem estar online durante os dias da semana (140 minutos) está ligeiramente abaixo da média da OCDE (146). Ao fim de semana a situação inverte-se: os alunos portugueses passam 190 minutos na Net contra uma média de 184 minutos na OCDE.

Margarida Gaspar de Matos, coordenadora em Portugal do grande estudo sobre a adolescência promovido, de quatro em quatro anos, pela Organização Mundial de Saúde (Health Behaviour in School-Aged Children), confirma que Portugal se tem “evidenciado” no uso da Internet, desde 2010, mas alerta que não se deve confundir “o abuso do uso” com “dependência”.

“A dependência da Internet tem um critério clínico de diagnóstico que transcende as horas passadas” online, adianta. Mas o abuso tem também consequências “uma vez que traz associado problemas de saúde física, nomeadamente higiene do sono, problemas sensoriais, de alimentação, de sedentarismo e psico-sociais”, alerta.

A investigadora salienta, contudo, que não se deve esquecer que “o acesso e uso da Internet é um avanço civilizacional que inclui acesso à informação, gestão do trabalho, comunicação e recreação”.

“São três realidades diferentes e baralhá-las não ajuda a compreender a situação. Deve-se aproveitar os pontos positivos, que são muitos, e tentar limitar os problemas”, conclui.

Quase 90% dos jovens inquiridos na OCDE concordam que a Internet “é um óptimo recurso para obter informação” e 84% consideraram que as redes sociais “são muito úteis”. Na generalidade, a primeira afirmação foi mais apontada por estudantes de meios socioeconómico favorecidos do que pela dos oriundos de meios carenciados. Mas Portugal tem, também aqui, um lugar de destaque: o fosso entre os dois grupos não chega aos cinco pontos percentuais. Há poucas diferenças entre ambos. Dinamarca, Islândia e Macau alinham com Portugal neste grupo. Já no México a diferença entre os dois grupos é de 20 pontos percentuais.

No geral, o uso da Internet “pode aumentar a satisfação com a vida por propiciar entretenimento e retirar obstáculos à socialização”, mas também pode ser uma fonte de riscos ao bem-estar dos jovens, alerta-se no relatório. Por exemplo, os jovens que têm um uso extremo da Internet mostram-se menos satisfeitos com a vida e têm também desempenhos académicos piores.

Satisfeitos com a vida

Saber se os estudantes estão satisfeitos com a sua vida foi um dos objectivos do inquérito realizado. Numa escala de 0 a 10, em que 0 corresponde à pior vida possível e 10 à melhor, em média os alunos da OCDE apontaram para um valor de 7,3.

Em Portugal o lugar nesta escala é de 7,36. No valor mais alto da escala, estão 31% dos alunos portugueses, que dizem estar muito satisfeitos com a vida (34,1% na OCDE) e na posição oposto existem 8,9%, cerca de três pontos percentuais abaixo da média.

Mas a satisfação com a vida está também marcada pelo género: no conjunto dos países da OCDE, existem 39% de rapazes de 15 anos que se dizem muito satisfeitos com a vida, um valor que baixa para os 29% quando são as raparigas a falar. Em Portugal o fosso entre os dois grupos é idêntico (35,6% para os rapazes e 26,3% para as raparigas).

Uma das conclusões a que a OCDE chegou é a de que a relação entre satisfação com vida e o desempenho escolar é fraca. Já o ambiente em que os estudantes aprendem e se desenvolvem têm peso na satisfação com a vida. E aqui, frisa-se, os professores têm um “papel particularmente importante”: “Os estudantes mais felizes tendem a dar conta de uma relação positiva com os seus professores.”

Também os pais têm aqui um papel a desempenhar. Os estudantes cujos pais passam tempo a falar com eles, que comem uma refeição em conjunto ou debatem o modo como o filho se está a sair da escola têm uma probabilidade maior de terem maiores níveis de satisfação com a vida.

Portugal aparece, também aqui, em destaque com 90% dos alunos a dizerem que comem pelo menos uma refeição em conjunto com os pais contra uma média de 82% na OCDE. E 92% dos alunos portugueses também dizem que os pais têm o hábito de falar com eles depois da escola, um valor igualmente superior à média da OCDE (86,1%).

Ir mais longe

A motivação dos alunos em ir mais longe é outro factor preditor de uma maior satisfação com a vida, frisa a OCDE. Aos 15 anos, 44% dos alunos da organização dizem querer completar um curso universitário. Em Portugal são menos: 39,9%.

Em todos os países, os estudantes mais carenciados tendem a ter expectativas mais baixas do que os seus colegas de meios favorecidos no que toca à conclusão do ensino superior. Mas há países piores do que outros e Portugal sai-se mal do retrato, com um fosso de 50 pontos percentuais a separar as expectativas dos dois grupos. Na OCDE este valor ronda os 40 pontos percentuais.

Se o sentimento de pertença à escola é nestas idades um dos factores que mais conta para se estar satisfeito com a vida, e a maioria está nesta situação, também se podem viver ali experiências devastadoras. O bullying é uma delas.

No conjunto dos países da OCDE, cerca de 11% dos estudantes diz-se alvo de gozo, 7% afirmam que são postos à parte e 8% contam que são objecto de boatos maldosos.

A violência física repetida é reportada por 4% dos alunos. No conjunto, 18,7% dizem-se vítimas de um qualquer acto de bullying, um valor que em Portugal desce para 11,8%.

Os resultados dos inquéritos mostram que os rapazes têm maior probabilidade de serem vítimas do que as raparigas, embora estas tenham maior peso se o que está em causa é ser posto de parte ou ser objecto de boatos maldosos. Por outro lado, os estudantes com piores desempenhos estão mais expostos a agressões verbais físicas e psicológicas do que os seus colegas mais bem-sucedidos.

 

 

 

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