Crianças do pré-escolar passam mais de hora e meia por dia em frente a ecrãs

Julho 2, 2020 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Expresso de 19 de junho de 2020.

Foram avaliados os hábitos de 8.430 crianças, com idades compreendidas entre os três e os 10 anos, a residir nas cidades de Coimbra, de Lisboa e do Porto

Um estudo concluiu que as crianças do ensino pré-escolar (até aos cinco anos) passam, em média, mais de uma hora e meia (154 minutos) por dia em frente à televisão e outros dispositivos, anunciou esta sexta-feira a Universidade de Coimbra (UC).

Publicado na revista científica BMC Public Health, o estudo, intitulado “Social inequalities in traditional and emerging screen devices among Portuguese children: a cross-sectional study”, foi realizado por uma equipa de investigadores do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde (CIAS), da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC (FCTUC).

O estudo, refere a UC, teve como objetivo avaliar o tempo de ecrã das crianças portuguesas em diferentes equipamentos eletrónicos — os tradicionais (como a televisão, o computador e as consolas de jogos) e os modernos, incluindo os ‘tablets’ e os ‘smartphones’ –, bem como “determinar as diferenças no uso de acordo com o sexo e a idade das crianças e a posição socioeconómica das famílias”.

Foram avaliados os hábitos de 8.430 crianças, com idades compreendidas entre os três e os 10 anos, a residir nas cidades de Coimbra, de Lisboa e do Porto.

Os dados foram recolhidos em 118 escolas públicas e privadas, e as taxas de participação foram de 58% em Coimbra, 67% em Lisboa e 60% no Porto.

De acordo com os resultados do estudo, nas crianças mais velhas o tempo em frente ao ecrã é maior, sobretudo devido ao maior tempo gasto em dispositivos eletrónicos, como computadores, videojogos e ‘tablets’: aproximadamente 201 minutos por dia.

“Concluímos que a maior parte das crianças, principalmente entre os meninos, excede as recomendações de tempo de ecrã indicadas pela Organização Mundial da Saúde e pela Associação Americana de Pediatria, em que o tempo de ecrã deve ser limitado a uma hora (em crianças até aos cinco anos) ou a duas horas por dia (em crianças acima dos seis anos)”, afirma, citada pela UC, Daniela Rodrigues, primeira autora do artigo agora publicado.

Embora a televisão continue a ser o equipamento mais utilizado, “o uso de ‘tablets’ está generalizado e o tempo gasto neste equipamento é elevado, incluindo em crianças com três anos de idade”, nota a investigadora.

O tempo de ecrã “é sempre mais elevado em crianças de famílias de menor posição socioeconómica, independentemente da idade, sexo, ou do tipo de equipamento”, sublinha ainda Daniela Rodrigues.

De acordo com a investigadora, tendo em conta que o tempo de ecrã está associado a um impacto negativo na saúde das crianças, por exemplo, menor tempo e qualidade do sono, maior atraso no desenvolvimento cognitivo e da linguagem, excesso de peso, etc., estes resultados “indicam que é necessário um maior controlo por parte dos pais no acesso que as crianças têm aos equipamentos eletrónicos”.

Este panorama é “ainda mais preocupante numa altura em que, devido à pandemia de covid-19, as crianças estão obrigadas a passar mais tempo em casa, e precisam de recorrer a alguns destes equipamentos para aceder à telescola”, adverte.

“É fundamental identificar os subgrupos de risco e identificar como cada dispositivo é usado de acordo com a idade, para permitir futuras intervenções apropriadas”, sustenta a investigadora da FCTUC.

Os pais, conclui Daniela Rodrigues, “devem ter em mente que as crianças passam a maior parte do tempo a ver televisão, mas os dispositivos móveis estão a tornar-se extremamente populares a partir de tenra idade”.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Social inequalities in traditional and emerging screen devices among Portuguese children: a cross-sectional study

Crianças e jovens. Uma “vacina real” contra o isolamento

Maio 14, 2020 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da RTP de 19 de abril de 2020.

Quando se é criança e jovem acredita-se que tudo é possível. Mas será esta energia suficiente para ultrapassar a barreira invisível do confinamento motivado pela pandemia? E serão eles, mais do que os adultos amadurecidos pelas vivências, a ensinar-nos como ultrapassar as dificuldades atuais?

por Nuno Patrício

Viver em comunhão e partilha é para crianças e jovens um estado natural. Num mundo cada vez mais sem fronteiras, criar laços de amizade onde a movimentação não se restringe já às fronteiras internas e onde as tecnologias aproximaram ideias e credos, as gerações mais novas adaptaram-se a viver em rotinas dinâmicas de movimentação e de fácil comunicação.

Um mundo que de um dia para outro mudou e pode mudar também a forma de como estas gerações se adaptam e relacionam com ele.

Carlos Céu e Silva, psicólogo clínico formado pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada e Mestre em Aconselhamento Dinâmico, afirma que é natural que crianças e jovens sintam o atual momento como adverso. Contudo este momento em particular pode também ser interpretado como uma excelente oportunidade para uma reaproximação de laços familiares, que a sociedade tanto tem tirado.

“Esta ansiedade que nós criamos”, diz Carlos Céu e silva, “é por vezes mais vinda dos adultos e da nossa perceção de limitação. As crianças obviamente também se sentem limitadas, mas se olharmos para a janela e para a rua, hoje em dia vemos os pais a fazerem aquilo que faziam há 30 anos, que é andar de bicicleta e a fazer uma série de coisas de um modo descontraído e quase que pedagógico ou lúdico”.

A idade como forma de maleabilidade

Os amigos e as brincadeiras parecem agora presos neste passado recente, ainda muito presente. Crianças e jovens vão ter de construir um novo molde.

Sendo as camadas novas “mais plásticas”, existe a tendência para uma maior facilidade na adaptação, muito embora quando esta situação passar se envolvam rapidamente na dinâmica social e destes tempos permaneça apenas uma vaga recordação de dificuldade.

Já os adolescentes, com uma mentalidade mais amadurecida, vão olhar o mundo de uma forma diferente, explica o psicólogo Carlos Céu e Silva.

“Este lado de confinamento tem um lado negativo muito grande que afeta a saúde mental, quer dos adultos, adolescentes ou crianças. (…) Há uma saturação independentemente de toda a criatividade que possam criar”, com a realização de novas tarefas e inovadoras, “ mas também na descoberta de novas facetas que não imaginavam ter”.

Toda uma redescoberta em que a música, a leitura e a informação pode voltar a ser parte de um quotidiano perdido, muitas vezes para as redes sociais, que continuam muito presentes nesta nova sociedade enclausurada.

Mens sana in corpore sano

Estar e ser ativo é questão fundamental para manter uma “mente sã em corpo são”, principalmente neste período.

Precisamente neste campo e preocupados com a falta de oportunidade e espaços para o movimento das crianças, um grupo de investigadores da Faculdade de Motricidade Humana (UL), da Escola Superior de Educação de Lisboa (IPL), e da Escola Superior de Desporto e Lazer (IPVC) levou a cabo um primeiro estudo, no qual analisou rotinas das famílias portuguesas durante as primeiras três semanas de confinamento devido ao surto da Covid-19, criando o projeto C-Ativo em casa.

O encerramento de escolas, bem como muitos dos espaços laborais as rotinas diárias da família e dos filhos, deram origem a taxas de sedentarismo na ordem dos 80 por cento.

De acordo com os dados recolhidos através de um inquérito online, respondido até agora por 1973 famílias e 2167 crianças, os investigadores conseguiram apurar que durante as semanas de entre 10 de março e 1 de abril, a situação de confinamento das famílias originou um decréscimo no tempo de atividade física dos seus filhos em 69,4 por cento dos casos.

Tempo este deslocado para outras atividades que resultam num aumento do tempo dedicado aos ecrãs (68,4 por cento) e um aumento nas atividades em família (82,8 por cento).

Neste estudo foi também avaliado o comportamento das crianças até aos 12 anos.

Fonte: Projeto C-Ativo em casa/DR

Considerando a percentagem de tempo acordado reportado para cada criança (excluindo as horas de sono), o tempo de ecrã lúdico (não contando aulas e trabalhos online), aumenta ao longo das faixas etárias, atingindo valores de 24 por cento na faixa etária dos 0-2 anos, 27 por cento, dos 3 aos 9 anos e 33 por cento, na faixa dos dez aos 12 anos.

A questão do sedentarismo também não foi esquecida, apontando este estudo para um aumento com a idade, atingindo os 62 por cento na faixa etária até aos dois anos; 72 por cento dos três aos cinco anos; 78 por cento dos seis aos nove anos e 84 por cento na faixa etária dos dez aos 12 anos.

Um confinamento que preocupa, mas que aproxima

Ainda no quadro deste estudo, apurou-se que 95,2 por cento das famílias afirmam estar preocupadas ou muito preocupadas com a situação de pandemia actual, sendo que 33,4 por cento consideram que está a ser difícil o isolamento com as crianças, embora 47,9 consideram precisamente o contrário.

Já no que diz respeito à actividade física das crianças, 69,4 por cento das famílias considera que estas têm feito menos ou muito menos exercícios que o habitual. Mas 82,8 por cento do universo estudado indica que tem feito mais ou muito mais atividades em família que o habitual.

E se a preocupação com o tempo de descanso das crianças é fundamental, 48,5 por cento não notam diferença no tempo de sono em relação ao habitual, manifestando 45,2 por cento que as crianças até têm dormido mais.

Apesar da diferença de género, não foram verificadas diferenças acentuadas entre sexos, tendo rapazes e raparigas valores muito semelhantes em praticamente todas as atividades à exceção das categorias de ecrã lúdico (rapazes vs raparigas) e jogo sem movimento (raparigas vs raparigas).

Dados observados em Portugal e ainda com um universo muito restrito, mas claramente exemplificativo das implicações deste isolamento social obrigatório.

No contexto geral este inquérito vem confirmar a tendência decrescente do tempo de atividade física ao longo da infância, mas as crianças que vivem em condições de confinamento obrigatório apresentam um grande tempo de sedentarismo, especialmente derivado da grande percentagem de tempo de jogo sem movimento (até aos cinco anos de idade) e do aumento do tempo de ecrã lúdico após essa idade.

Este estudo da Faculdade de Motricidade Humana (UL), da Escola Superior de Educação de Lisboa (IPL), e da Escola Superior de Desporto e Lazer (IPVC), está também a decorrer e a ser replicado em vários países (Grécia, Espanha, Reino Unido, Bélgica, EUA, Austrália, Nova Zelândia).

Mais perto de uns, mais longe de outros

Se pensarmos mais abertamente nas relações sociais criadas já neste período de confinamento, tendemos a crer que vai haver uma maior aproximação de nós para com os mais próximos. Mas se isso é verdade o contrário também pode acontecer e ser perigoso.

Os jovens podem, na sua ingenuidade ou malícia, aproveitarem-se destas fragilidades.

Para o psicólogo Carlos Céu e Silva, este isolamento, bem como distanciamento, pode ser desestruturante, “por mais consciência que tenhamos que isto é provisório, ou transitório, evidentemente afeta sempre o estado mental.”

Uma sociedade só existe se, no conjunto, todos nos comportarmos como seres saudáveis, sempre com uma boa rede social e rodeados de figuras sólidas que possam ser reproduzidas internamente.

De outra forma a anarquia tomará conta de nós, originando conflitos e desorganização no eu em que vivemos. E será o medo que vai travar a impulsividade dos jovens ou torná-los mais resistentes? Certo é que neste campo os mais velhos têm um papel fundamental na gestão da ansiedade.

É preciso compreender os medos da forma mais eficaz para ajudar as crianças a lidar com eles. E uma das formas mais simples a fazer nestas situações é tranquilizá-las, explicando o que se passa em seu redor e desmistificando cenários não entendíveis para a mente infantil.

Mas se os medos causam emoções desagradáveis e desconforto, também podem demonstrar um outro lado de aprendizagem, que se forma através da “nocão, dentro da sua dimensão etária, dos perigos que a vida tem”.

Os medos comuns na infância e na adolescência

Após o nascimento só estamos predispostos a ter medo das quedas e de certos ruídos, mas a partir do primeiro ano de vida, surgem outros medos:

1.º ano de vida: Separação, ruídos, quedas;
2.º ano: Animais, treino do bacio, banho;
3.º ano: Hora de deitar, medo do escuro monstros, fantasmas;
5.º ano: Divórcio dos pais, de se perderem;
7.º ano: Perda/morte dos pais, rejeição social;
9.º ano: Guerra, situações novas, adoção;
12.º anos: Ladrões, injecções.

Sinais que devem preocupar os adultos, sendo estes agentes tranquilizadores e explicadores das situações que as envolvem. E devem respeitar o medo que a criança sente, sem lhe dar, porém, uma importância desmedida.

Crianças devem ser protegidas, avisa ONU

Em tempo de crise são as crianças as mais vulneráveis às adversidades, quer económicas, quer emocionais. E neste sentido, já prevendo em todo o mundo consequências graves, o secretário-geral da ONU, António Guterres, apelou às famílias e aos dirigentes de todos os quadrantes para que as crianças sejam elementos de proteção que, apesar de não serem as principais vítimas da pandemia da Covid-19, sofrem também elas significativamente com as consequências.

Segundo um relatório divulgado na passada sexta-feira, a ONU estimativa que esta crise anule os progressos obtidos na baixa da mortalidade infantil, mas não só nesta área.

Com o encerramento das escolas em todo o mundo, as crianças poderão sofrer ainda com a fome, uma vez que cerca de 310 milhões de estudantes dependem dos estabelecimentos de ensino para se alimentarem no dia-a-dia, afirmou.

António Guterres lembra que 188 dos 193 Estados-membros da ONU impuseram o encerramento das escolas, o que afeta cerca de 1500 milhões de jovens

Para o secretário-geral das Nações Unidas, o confinamento e a recessão mundial “alimentam as tensões nas famílias” e as crianças “são, por sua vez, vítimas e testemunhas de violência doméstica e de abusos”.

Tecnologias: “o reverso da medalha”
Até agora, muitos são os estudos que apontam as novas tecnologias, entre os mais novos, como um potencial fator de distração face à rotina social. A facilidade de comunicação e utilização das redes sociais, bem como os jogos online com uma forte obrigatoriedade de permanência em linha, são fontes de afastamento de uma maior socialização presencial.

Se todos estes elementos eram já disruptivos, com a imposição de um ainda maior confinamento, tudo isto pode ser ampliado.

Todavia, também existem aspetos positivos nas novas tecnologias e são estas que nos capacitam para a continuidade de uma relativa “normalidade”, como por exemplo o ensino à distância.

Compreendendo muito do que se passa dentro da mente das crianças e dos jovens, Carlos Céu e Silva diz que este novo paradigma, entre o restringir e o facilitar o acesso aos jogos e tecnologias, tem de exigir, por parte dos adultos, um maior equilíbrio.

“A partir de agora vamos olhar para os jogos, para os vídeos e para estas coisas todas, de uma forma diferente. E vamos todos tentar compreender melhor este mundo (…) e se não tivéssemos acesso a esta tecnologia que temos hoje estaríamos a viver um período medieval”.

Se “estas ameaças apenas ajudam a evoluir mais na nossa condição humana”, refere o psicólogo, também podem despertar ações menos positivas como o caso de uma maior facilidade e risco de assédio sexual a menores, ou ao cyberbullying.

O psicólogo do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, habituado a lidar com os problemas dos mais novos, afirma que não é através do negativismo que se ultrapassa os problemas e que vão ser os mais novos que vão ensinar – e muito – os atuais adultos, na nova normalidade que virá depois desta crise.

“Eu acho que nos próximos anos não vai haver normalidade. Nós temos um registo interno de trauma que vai ficar com este vírus”, explica Carlos Céu e Silva. E vão ser os mais velhos a salvaguardar-se mais isolando-se.

Já o contrário será feito pelos mais novos, com uma mentalidade mais aberta, mais madura e mais responsável, sempre com a necessidade de voltar à escola, às rotinas e amizades suspensas no tempo por uma ameaça para a qual ninguém estava preparado.

Covid-19. “O maior número de horas a olhar para ecrãs, sobretudo para os de menor dimensão, eleva o risco de miopização nas crianças”

Abril 26, 2020 às 3:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Expresso de 15 de abril de 2020.

ALEXANDRA SIMÕES DE ABREU

Seis perguntas a José Manuel Méijome, professor catedrático na área da optometria e ciências da visão da Universidade do Minho.

Quais os efeitos que esta sobre-exposição aos ecrãs tem na visão das crianças?
As crianças estão num período de desenvolvimento da sua visão. O olho já está desenvolvido mas ainda vai sofrer até à idade adulta uma série de modificações, algumas das quais passam pelo aparecimento da miopia. A exposição à luz natural é positiva como método de prevenção do surgir da miopia e também para uma menor progressão dessa miopia. É verdade que no inverno, em que os dias são curtos e as noites longas, já há uma redução a essa exposição à luz natural e às atividades ao ar livre e as crianças escolarizadas já estão sujeitas a um trabalho intenso de visão próxima, mas numa condição de confinamento tudo isso se agrava. Porque não há maneira neste momento de dizer a uma criança “larga o tablet” ou “larga o telemóvel” ou a consola ou o computador. Até porque eles têm aulas no computador, têm de fazer tarefas no computador.

Portanto, em relação às crianças e aos mais jovens poderá ter como consequência um intensificar de problemas de aparição de miopia, que sabíamos já estar a surgir mais cedo e a atingir valores maiores. Obviamente, um mês é um tempo muito curto para que esses processos que demoram um pouco mais a produzir-se venham a acontecer, mas certamente vai contribuir. Ainda não sabemos qual é a sua dimensão, mas vai contribuir certamente nesse sentido em face aos resultados já existentes. Resumindo, nas crianças o risco de miopização pode ser um risco mais real.

Nos adultos afeta de que forma?
Sabemos que estando mais confinados, mais tempo a trabalhar com ecrãs digitais, a olhar para o computador, e em ambientes acondicionados por aquecimento ou ar condicionado, leva a outras problemáticas como é o caso da secura ocular. Olhos secos, ardência nos olhos, desconforto, numa palavra. Isso tende a produzir-se mais para o final do dia. As pessoas normalmente nessas circunstâncias recorrem ao uso de lágrimas artificiais, para hidratar mais o olho. Mas acho que vamos sofrer todos um bocadinho mais com este confinamento.

Que conselhos pode dar tanto aos mais novos como aos mais velhos?
Todos vamos sair desta situação muito mudados, também positivamente, porque temos de aprender a viver de outra maneira e a nossa interação com as tecnologias certamente neste período está a ser levada a um extremo. A mensagem mais importante a passar a todos é que temos de ter pausas de descanso. Se estamos a olhar para um telemóvel a 20 centímetros, estamos a realizar dez vezes mais esforço do que se estivermos a ver televisão a dois metros de distancia. Para poder focar a imagem a esses 20 centímetros, o nosso olho está a fazer dez vezes mais esforço do que se estiver a ver televisão a dois metros.

Para as crianças, penso que uma boa estratégia é abdicarem de vez em quando dos ecrãs de pequena dimensão, até do próprio computador, em favor de uma série que gostem de ver na televisão ou algo que gostem de ver a uma distância maior. A distância ao objecto de observação é crítica para realizarmos menos esforço visual. É por isso que muitas vezes depois de estarmos muito tempo a olhar para o computador quando levantamos os olhos parece que a imagem está um bocado turva. Isso acontece porque o nosso olho ficou de alguma maneira semi-bloqueado com aquela focagem a uma distância tão curta e está a tentar relaxar essa lente que tem dentro de si para poder voltar a focar ao longe. Os adultos podem autodisciplinar-se, às crianças é muito difícil incurtir-lhes a não utilização dos dispositivos, mas que troquem de uns para outros, para dispositivos de ecrãs maiores e que lhes permitam ver a maior distância.

Quando fala de pausas, devem ser feitas de quanto em quanto tempo e com que duração?
Há uma regra conhecida, dos 20, 20, 20. A cada 20 minutos estar durante 20 segundos a olhar a 20 pés de distância que são seis metros mais ou menos. Isto porque a partir dos seis metros o esforço que o nosso olho faz para focar é residual, assumindo que temos uma boa visão ou umas lentes de contacto que estão adequadamente graduadas. A partir dos seis metros consideramos que o olho está relaxado. Mas esta regra dos 20, 20, 20 é meramente para que fique bem na fotografia, não há evidência nenhuma que tenham de ser 20 minutos ou 20 segundos.

Dentro de um período de meia hora a uma hora, eu recomendaria uma pausa de dois a cinco minutos. Até para levantarmo-nos, esticar as pernas e ir olhar um bocadinho à janela, beber um copo de água, ir até à casa de banho. Todo esse período é melhor do que 20 segundos a cada 20 minutos, até porque muitas vezes não podemos parar a tarefa a cada 20 minutos. Resumindo, dentro de um período de uma hora fazer pausas de três a cinco minutos, seria indicado, com a distância de observação o mais longínqua possível. Ir até à janela olhar nem que seja para o edifício em frente, ou para o parque que está do outro lado da rua, ajuda a relaxar a visão.

Ao nível da iluminação também há recomendações?
A luz natural é boa desde que não interfira no contraste do ecrã. Se eu tenho luz direta a incidir no ecrã isso pode provocar-me falha de contrastes, excesso de reflexos e brilhos que me dão desconforto e acabam por fatigar-me mais. Mas desde que a luz não esteja a incidir diretamente no meu ecrã deveríamos priorizar espaços onde haja luz natural. E depois ter o ecrã ajustado de maneira a que não fique muito alto. Quando temos o ecrã muito alto em relação à altura dos olhos temos de abrir muito os olhos e quanto mais abrimos os olhos mais superfície fica exposta para a evaporação das lágrimas.

Portanto, o topo do ecrã deve estar à mesma altura ou ligeiramente mais baixo do que a nossa linha dos olhos. Daí que os computadores portáteis sejam ideias porque têm sempre uma posição mais baixa em relação aos nossos olhos. Isto não é tão importante para as crianças, mas sobretudo para os adultos que têm mais falta de lágrima e uma lágrima de pior qualidade, sobretudo à medida que vai aumentando a idade e principalmente nas mulheres a partir dos 40 a 50 anos.

Quais os principais sinais a que é preciso estar atento?
As pessoas devem saber que esta situação excepcional pode levar ao agravamento de alguns sintomas como má visão ao longe, pelo efeito do esforço que estivemos a fazer ao perto. Se percebermos que a criança se aproxima mais da televisão ou dos objetos para os poder ver, isso é indicativo de que poderá estar algo a acontecer. Se os adultos sentem maior desconforto ocular, mais fatigados visualmente, isto é, se ao fim de seis, oito horas de trabalho que antes aguentavam perfeitamente, agora sentem os olhos com ardor, vermelhos, secos, também é motivo de suspeita de que poderá estar a ser agravado algum fenómeno da superfície ocular.

Mas, atenção, quando começarmos a voltar à normalidade vai ser com algumas cautelas e não queremos que as pessoas comecem a enfiar-se nem na consulta do oftalmologista, nem na consulta do optometrista. Visão desfocada, problemas de secura ocular ou qualquer outra alteração que notem na tolerância das suas lentes de contacto, devem contactar o seu médico habitual telefonicamente para perceber a urgência com que devem ir ou não à consulta.

Inimigos da atividade física na infância: sugestões e conselhos

Dezembro 28, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Sapo Lifestyle de 28 de outubro de 2019.

A atividade física é essencial para o crescimento saudável e para o desenvolvimento da criança. Durante a infância, brincar é a melhor forma de fazer atividade física.

As crianças são naturalmente ativas logo desde a barriga da mãe. Contudo, nas sociedades atuais, a atividade física tem de disputar o seu espaço nos dias das crianças.

A televisão, os computadores e os videojogos estão entre as atividades que mais competem pela atenção das crianças e acabam por torná-las mais inativas. Mas a atividade física enfrenta também outros inimigos durante a infância. Saiba quais são os mais comuns e como combatê-los para que o seu filho tenha uma vida mais ativa e

As atividades que envolvem ecrãs são, regra geral, inimigas da atividade física. Ver televisão, usar o computador, jogar videojogos ou até mesmo usar um telemóvel são atividades que afastam as crianças de outros tipos de brincadeiras e mantêm a criança sentada ou parada durante longos períodos de tempo. Isto significa que a criança reduz a quantidade de tempo que passa em atividades mais movimentadas e, por isso, reduz também o seu gasto de energia, o que pode contribuir para a obesidade.

Além disso, as atividades que envolvem ecrãs podem ter outras consequências negativas para o desenvolvimento e a saúde da criança. Por exemplo, tem sido demonstrado que ver televisão antes dos 2 anos de idade pode afetar o desenvolvimento da linguagem e também reduzir a capacidade de atenção da criança no futuro.

Sugestões para combater o inimigo número 1:o ecrã

O tempo que a criança passa em atividades que envolvem ecrãs é um hábito que se aprende desde muito cedo. Na correria do dia-a-dia, é fácil que os adultos caiam na tentação de utilizar a televisão para entreter as crianças enquanto estão ocupados com outras tarefas.

Para conseguir que a sua criança tenha uma vida mais ativa e saudável, procure seguir as últimas recomendações dos especialistas sobre atividades com ecrãs para crianças até aos 5 anos de idade:

– Crianças com menos de dois anos de idade não devem ver televisão ou participar em atividades que envolvam ecrãs.

– Crianças com dois a cinco anos de idade devem ter um limite de uma hora para o tempo passado em atividades que envolvam ecrãs, como ver televisão.

– Crianças não devem ter televisão no quarto de dormir.

Não é só o tempo que a criança passa em atividades com ecrãs que importa. É necessário ter em atenção os tipos de programas que a criança assiste e os jogos ou outras atividades às quais a criança tem acesso. São de evitar histórias ou jogos violentos ou muito agitados, que envolvam movimentos rápidos e muitas luzes. Os programas educativos são os mais indicados. Por outro lado, para manter a tendência natural da sua criança para ser ativa, não basta reduzir o tempo de ecrã, é preciso colocar à sua disposição atividades divertidas e dar condições para que ela se movimente.

O seu exemplo também é fundamental. Evite passar muito tempo em frente aos ecrãs e participe em algumas dessas atividades demonstrando o quanto é agradável e divertido.

Sabia que… Passar muito tempo a ver televisão antes dos dois anos de idade pode causar atrasos no desenvolvimento da fala no seu bebé? Além disso, alguns estudos indicam que crianças que vêm muita televisão até aos 3 anos de idade podem ter dificuldades de atenção mais tarde, ao entrar para escola.

Outros inimigos da atividade física e sugestões para combatê-los

Para além de competir com as atividades com ecrãs, a atividade física enfrenta outros inimigos, como a disponibilidade de tempo, de espaços, ou de segurança.

Disponibilidade de tempo: Os horários de trabalho preenchidos dos pais e as longas deslocações entre o trabalho e a casa reduzem o tempo que os pais têm disponível para levar a criança a espaços onde possa movimentar-se livremente.

Sugestões para combater este inimigo: Para enfrentar este desafio é necessário incluir a atividade física na rotina da família e garantir-lhe um tempo diariamente. Por exemplo, reserve um ou dois dias por semana para irem ao parque, envolva a criança em tarefas domésticas, usem as escadas, vão a pé para a escola ou à mercearia do bairro, ou proponha à criança atividades que podem ser realizadas dentro de casa, como dançar.

Disponibilidade de espaço: A falta de espaço em casa ou na vizinhança para a criança se movimentar livremente ou a falta de segurança dos espaços públicos são também dificuldades importantes que os pais podem encontrar para que a criança tenha uma vida ativa.

Sugestões para combater este inimigo: Mais uma vez o truque é ser criativo! Em casa, a solução é procurar espaços onde possa, por exemplo, afastar uma mesa de apoio por alguns minutos ou até por alguns dias. Jogar jogos tradicionais que não exijam espaços muito alargados, como o “Macaquinho do Chinês”, pode ser uma solução para conseguirem brincar ao ar livre. Por fim, reservar um tempo nos fins-de-semana para um passeio mais longo em família também é uma boa medida. Assim, podem encontrar lugares agradáveis e seguros para juntos fazerem atividades que envolvam movimento.

Tempo passado em espaços ou equipamentos que limitam os movimentos: Atualmente existe uma grande disponibilidade de equipamentos atraentes para transportar ou alimentar a criança ou apenas mantê-la entretida e em segurança. Os parques, carrinhos de passeio, cadeiras de comer ou espreguiçadeiras são alguns exemplos desse tipo de equipamentos. São um bom aliado dos pais porque garantem a segurança da criança mesmo quando os pais não têm a possibilidade de estar junto dela todo o tempo. Mas podem transformar-se num inimigo quando utilizados por longos períodos ou várias vezes durante o dia.

Sugestões para combater este inimigo: O truque é garantir que a criança não passa muito tempo seguido com os seus movimentos limitados. Procure alternar o tempo que a sua criança passa nesses equipamentos com o tempo que passa com os movimentos livres. Pode colocá-la sobre uma manta ou, simplesmente, deixá-la no chão a gatinhar, caminhar, brincar, enfim, a explorar o mundo a sua volta. Sempre debaixo dos seus olhos e em segurança, é claro!

Não se esqueça: as crianças são naturalmente ativas. Mas para usarem essa tendência natural têm de ter oportunidades e têm de aprender que é divertido. Reserve tempo, espaço e divertimento diariamente para a atividade física da sua criança.

Para mais informações consulte www.papabem.pt

Uma geração de inábeis sociais

Outubro 11, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Mafalda Anjos publicado na Visão de 4 de abril de 2019.

Esta semana, descreveram-me um cenário que me causou arrepios: o recreio de um colégio de Lisboa, daqueles no topo dos rankings nacionais, repleto de miúdos, mas, em vez do rebuliço normal das crianças a brincar, o cenário era de paz. Uma paz podre. Os muitos miúdos que ocupavam o pátio estavam sentados pelas escadas, nos bancos corridos ou no chão, agarrados ao seu smartphone. Era cada um por si, cérebros abstraídos e dormentes, isolados do mundo à sua volta, tão sozinhos entre uma multidão de colegas – pequenos e tristes zombies digitais.

Não é só nas escolas. Basta ver os encontros de famílias com crianças pequenas ou os grupos de teenagers quando se juntam –, algo que acontece com muito menos frequência do que na minha geração, em que passávamos horas perdidas à conversa nas esplanadas ou nos jardins. É ver cada um no seu telefone, um dedinho a deslizar para ver o vídeo, a foto ou a storie seguinte, dois dedinhos de cada lado para jogar ao jogo da moda: mata este, atira sobre aquele.

Estamos longe de perceber exatamente como estes nativos digitais vão ser no futuro, por mais estudos que se comecem agora a fazer ao impacto da tecnologia nos cérebros destes miúdos. Terão com toda a certeza competências extraordinárias que nós não temos, vão inventar maravilhas que nos hão de deixar boquiabertos e pôr-nos a pensar como é que vivemos sem isso até àquele dia. Sei que teremos computadores excecionais capazes de fazer coisas que não conseguimos sequer ficcionar – cálculos mirabolantes, matchs perfeitos entre ofertas e vontades cada vez mais caprichosas, velocidades estonteantes para tudo e mais alguma coisa. Mas tudo indica que, ao fim do dia, vamos continuar a ser esta amálgama de matéria e de sentimento, com algumas necessidades e instintos básicos de algumas centenas de milhares de anos: sobreviver, socializar, amar e ser amado. Continuaremos a ser, assim espero, apenas humanos. E é precisamente isso que nos vai distinguir cada vez mais das máquinas e dos robots, que serão anos-luz mais competentes do que nós nas coisas, para usar uma expressão simplista, mecânicas ou, pelo menos, não emocionais.

Voltando ao recreio e aos dedinhos nos ecrãs… Não sei como serão daqui a uma ou a duas dezenas de anos estes nativos digitais, mas uma coisa não é difícil de antecipar: serão muito mais socialmente inábeis. E isso é inquietante, porque estamos, afinal, a falhar em formar as novas gerações no que garantidamente mais vamos precisar no futuro: melhores seres humanos, com o que, na verdade, nos distingue na nossa humanidade – a capacidade de ouvir, ler ou tocar o outro, de interagir em sociedade. Uma criança que não aprendeu a brincar num recreio não sabe criar empatias, gerir conflitos e emoções, ultrapassar frustrações. Como vão estas crianças trabalhar em equipa, integrar-se num grupo ou empresa? Que caminho das pedras tardio terão de fazer para desformatar um cérebro de sinapses condicionadas pelos ecrãs que nós – pais, educadores, adultos – lhes enfiámos à frente?

Isto não são apenas considerandos gerais de ordem filosófica. O caso é sério, não podemos encolher os ombros. Todos os dias saem novos estudos que dizem que a dependência de jogos eletrónicos e das redes sociais causa verdadeiros distúrbios emocionais, e a Organização Mundial de Saúde já propôs inseri-la como doença mental na próxima revisão do manual de classificação de patologias. Um estudo da Ordem dos Médicos, a crianças portuguesas de 11 anos, conclui que um terço está em risco de dependência. Muitos passam quatro horas por dia, todos os dias, a jogar. Além de inábeis sociais, estamos a criar uma geração de viciados numa droga tão ou mais aditiva do que as que conhecíamos até agora.

Escrevo com sentimento de culpa, note-se. Também eu coloco tablets e smartphones à frente dos meus filhos. Mas é mesmo preciso pararmos todos para pensar no que estamos, coletivamente, a fazer aos nossos miúdos. Daqui a uns anos, pode ser tarde demais.

Mais de metade das crianças até aos três anos utiliza em excesso as novas tecnologias

Outubro 9, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia e foto do DN Life de 2 de outubro de 2019.

67% das crianças em idade pré-escolar usa um ecrã para ver vídeos, ouvir música, jogar. Em geral, passam mais tempo do que o recomendado em contacto com as novas tecnologias, muitas vezes criando dependência antes ainda dos três anos, o que contribui para um atraso na linguagem e no desenvolvimento emocional das crianças.

Texto de Rita Rato Nunes | Fotografia de Shutterstock

Tiago tem três anos e gosta de comboios e aviões. É isso que procura no YouTube quando os pais lhe emprestam o telemóvel, “ainda não sabe pesquisar, mas vai pelo histórico”, explica o pai, Miguel Gonçalves. “Já tem aquela sensibilidade para tocar no ecrã, sabe minimizar e maximizar as janelas, aumentar o som, carregar no YouTube e pouco mais do que isso”.

“As crianças hoje estão mais viradas para a tecnologia, dominam mais facilmente um telemóvel do que pessoas com 60 anos. É muito intuitivo. Mas uma criança de três anos não percebe muito, basicamente quer ver bonecos”, diz Miguel.

67% das crianças até aos três anos utilizam as novas tecnologias. A maioria em excesso, recorrendo aos aparelhos eletrónicos durante mais de uma hora e meia por dia com risco de dependência associado. Estes dados foram divulgados na revista Gazeta Médica, do Hospital CUF, num estudo sobre os Hábitos de Utilização das Novas Tecnologias em Crianças e Jovens, publicado no final do ano passado e apresentado esta terça-feira.

“Nós [pediatras] vemos os pais a utilizarem os seus telemóveis para porem um vídeo para os acalmar. É uma estratégia usual para quando vem ao médico, dão de comer ou há uma birra.”

“É muito frequente apercebermo-nos na consulta normal de pediatria, que a criança em idade precoce está demasiado exposta a ecrãs. Recentemente, tive na minha consulta um bebé com seis meses que a mãe só lhe conseguia dar comida com um tablet à frente com um vídeo do YouTube“, diz o pediatra Hugo Faria, um dos autores do estudo.

Segundo o médico, por volta dos dois anos, as crianças passam por uma fase em que os pais têm dificuldade em acalmá-las, principalmente em momentos de maior tensão, como podem ser as idas ao médico. “Nós [pediatras] vemos os pais a utilizarem os seus telemóveis para porem um vídeo para os acalmar. É uma estratégia usual para quando vem ao médico, para quando colocam a colher com a comida na boca dos filhos ou quando há uma birra. Os pais estão pressionados pela vida atual, que é uma vida atarefada, difícil, e isto é uma forma rápida e fácil de entreter e facilitar tarefas em casa. Eu compreendo isto, mas pode ter consequências”, indica Hugo Faria.

O Tiago “não é de muito boa boca e às vezes ao ver os bonecos no YouTube consigo distraí-lo para comer”, diz Miguel Gonçalves. O filho passa cerca de uma hora por dia com o telemóvel nas mãos: “Também gosta de ver um bocadinho antes de dormir ou quando está sentado no sofá, mas também brinca: gosta de jogar à bola, brincar com carrinhos”.

Há indícios claros de que o uso das novas tecnologias nos primeiros anos de vida pode contribuir para atrasar o início da linguagem e o desenvolvimento emocional das crianças.

Embora ainda não existam estudos suficientes sobre o impacto das novas tecnologias nos primeiros anos de vida, há indícios claros de que estas podem contribuir para atrasar o início da linguagem e o desenvolvimento emocional das crianças.

O estudo alerta ainda para “o aumento da probabilidade de excesso de peso e obesidade futura. O hábito de comer enquanto se utilizam estes meios de comunicação e a exposição regular à publicidade de produtos alimentares são fatores de maior risco”, pode ler-se no relatório.

Fica por clarificar o motivo exato pelo qual as novas tecnologias devem ser evitadas em idade pré-escolar: “Não sabemos ainda se isto acontece por efeito direto do estimulo que os ecrãs dão ou se acontece porque estamos a substituir tempo com os adultos, os pais, que são a principal fonte de estimulo para as crianças dessas idades”, refere o pediatra.

Vídeos, música e jogos é o que atrai mais as crianças

Ver vídeos, ouvir música e jogar: é assim que a maioria destas crianças passa mais de uma hora e meia com os aparelhos eletrónicos. Para a Academia Americana de Pediatria (APP), que tem emitido várias recomendações sobre o tema, os pais não devem permitir que crianças com menos de 18 meses tenham contacto com os meios digitais, com exceção feita para as videochamadas. Depois desta idade, devem escolher aplicações ou programas didáticos para assistir com os filhos, descodificando o seu conteúdo. Entre os dois e os cinco anos, a APP recomenda que o uso das novas tecnologias não ultrapasse os 60 minutos.

O estudo revela ainda que o aparelho tecnológico mais usado pelas crianças até ao três anos é o tablet, depois o telemóvel, o computador e a consola.

“Estes novos meios de comunicação são importantes, são o futuro, mas têm de ser limitados. É preciso deixar espaço para que haja outras atividades e é preciso deixar um espaço livre de estimulo para outras atividades, nomeadamente, o estudar, o dormir, o brincar, o convívio com a família. A internet deve abrir janelas de comunicação e não fechar outras”, diz Hugo Faria.

O artigo citado na notícia é o seguinte:

Efeitos da Exposição a Dispositivos Digitais no Desenvolvimento da Linguagem em Idade Pré-Escolar

Congresso (In)Dependências: Prevenir e intervir nas adições com e sem substância – 11 outubro em Leiria

Setembro 27, 2019 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações nos links:

http://congresso2019.psivalor.pt/?fbclid=IwAR2kKwuxLIJbxnzQ9KyuZ_fhWxJJ7YA-_ca9sSG6sJcCy7Pclu5lgZggVy4#hipercontainer

https://www.facebook.com/events/2286651014703563/

“A brincar também se educa”. Um guia para envolver os pais e afastar as crianças dos ecrãs

Setembro 10, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do Observador de 15 de agosto de 2019.

Ana Cristina Marques

90% das crianças entre 5 e 14 anos já têm telemóvel e preferem o smartphone aos jogos tradicionais. Os pais têm cada vez menos tempo. Mas os especialistas alertam: brincar sem ecrãs é fundamental.

Uma amostra de 1.200 crianças portuguesas, dos 5 aos 14 anos, concluiu que 90% tinha um telemóvel ou um Ipad próprio ou, então, partilhado com os irmãos. “São os dispositivos que os pais já não querem e que ficam para os filhos. Fiquei surpresa, os professores também não sabiam”, relata Ivone Patrão ao Observador, investigadora, psicóloga e terapeuta familiar do ISPA – Instituto Universitário. O estudo por ela coorientado teve por base alunos de escolas públicas e privadas e serviu para criar o jogo Missão 2050, lançado em junho último, que visa a promoção do uso saudável de tecnologia. “Enquanto investigadora foi uma surpresa”, insiste. “Tinha ideia que isto começava aos 10 anos, com a entrada para o 5.º ano. Mas não. E eles comunicam uns com os outros depois da escola, à noite.”

Enquanto se rendem aos ecrãs — assumam eles a forma de smartphones ou de tablets –, as crianças estão a tirar tempo aos estudos e à própria brincadeira. Ivone Patrão fala “na normalização de comportamentos”, isto é, de um comportamento online que substitui o ir brincar para a rua ou o jogar ao UNO, por exemplo. Não quer isto dizer que estas crianças sejam dependentes do uso do ecrã — isso é outra conversa — mas pode realmente existir um comportamento considerado excessivo.

Vários artigos que alertam para o facto de haver pais que usam os telemóveis e os tablets como babysitters: segundo o estudo “Happy Kids: Aplicações Seguras e Benéficas para Crianças”, do Católica Research Centre for Psychological, Family and Social Wellbeing (CRC-W), da Universidade Católica Portuguesa, as crianças que mais usam aplicações têm até 2 anos e são os pais os primeiros a dar aos filhos o acesso a dispositivos eletrónicos, além de 90% das casas portuguesas ter ligação à internet, “smartphones, computadores portáteis ou tablets”.

O debate em torno dos ecrãs é tanto que o insólito já aconteceu: nos EUA há famílias que contratam coaches para as ajudar a educar crianças longe dos ecrãs, porque é difícil recordar um tempo em que tal não existia. Também nos Estados Unidos, como já antes explicou o Observador, são cada vez mais os pais que atrasam de propósito a idade a que os filhos recebem smartphones para as mãos, existindo até movimentos organizados nesse sentido — por exemplo o “Wait Until 8th” (Espera até ao 8º).

O papel dos pais nas brincadeiras dos filhos

Brincar é essencial para o desenvolvimento dos mais novos, seja a nível sócio-emocional, psicomotor ou cognitivo. O ato de brincar deve seguir três etapas evolutivas: as atividades que geram ação (quando um bebé atira um brinquedo ao chão está a ter uma primeira noção da lei da gravidade), as simbólicas (pegar numa vassoura e transformá-la num cavalo é um exercício de imaginação) e as que exigem regras (os jogos de computador e os de tabuleiro ajudam a perceber que a vida se rege por um conjunto de normas).

A brincadeira funciona como uma espécie de tubo de ensaio para a vida real. Permite explorar, conhecer, aprender e percecionar o mundo, perceber como este funciona. Brincar faz parte da vida de uma criança e é tão importante que a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda três horas diárias de atividade física, leia-se jogos e brincadeiras, a partir do primeiro ano. O gesto tão naturalmente associado à infância parece estar, por estes dias, em vias de extinção. Tanto que há sensivelmente um ano a Sociedade Norte-americana de Pediatria recomendava que os pediatras receitassem mais tempo para brincar. A escassez está, muito provavelmente, associada ao atual estilo de vida marcado por agendas cheias e acesso facilitado aos ecrãs, o que veio alterar a forma como as crianças olham o mundo à sua volta.

Para Inês Afonso Marques, psicóloga infantil e autora do livro “A brincar também se educa” (editora Manuscrito), quando os pais dão tempo aos filhos para brincar estão a educá-los, a ajudá-los a fazer escolhas e a usar a criatividade, entre outras vantagens. Mas o uso que fazemos da tecnologia pode estar a impedir as crianças de brincar, diz. E os pais são o modelo dessa realidade. Ao Observador, a psicóloga explica que brincar implica envolvimento e atividade, enquanto a tecnologia é passiva. “As crianças gostam de se sujar, de sentir, de envolver os cinco sentidos naquilo que estão a fazer. Tudo aquilo que possa suscitar a descoberta, tudo isso estimula uma criança.”

Foi Sílvia e o marido que aproximaram a tecnologia do filho de três anos para garantir aos pais momentos de descanso e para ajudar a criança nas refeições. Ao Observador, esta mãe admite que o filho sempre comeu mal, pelo que recorria ao ecrã para o distrair. “Talvez isto tenha sido um pouco mau porque ele hoje não come bem. Antes fazia as refeições sem saber o que estava a comer, hoje não tem uma relação boa com a comida.” Atualmente, o filho vê alguma televisão em casa — sempre sintonizada em canais infantis — e Sílvia congratula-se pelo facto de ele não ter ficado muito adepto dos ecrãs. “Sinto-me aliviada porque ele não os procura, não ficou dependente. Entretém-se sozinho, encarna personagens com acessórios.”

A psicóloga e investigadora Ivone Patrão é perentória quando argumenta que as crianças não deveriam ter ecrãs nas horas das refeições e no tempo de brincar porque “têm de estar concentradas no que estão a fazer, seja comer ou brincar”. O ecrã, continua, deve ser encarado como um complemento à brincadeira, mas não o pode substituir. “O ecrã é muito assumido como algo que os vai tranquilizar, mas é preciso fazer um uso adaptado, caso a caso, dependendo das necessidades da família. Acho que os pais devem perguntar-se porque usam a tecnologia. Muitas vezes dá-se a ferramenta, mas não o manual de instruções.”

Segundo a Sociedade Norte-americana de Pediatria, até aos 2 anos o uso de smartphones e de tablets não é recomendável, sendo que a introdução deve ser feita de forma gradual e com a supervisão dos adultos. Inês Afonso Marques insiste nesta tónica: é importante controlar o que é transmitido à criança, bem como limitar ao máximo todo o tipo de monitores. “Há crianças [em consultório] que verbalizam ‘Preciso do telefone porque não tenho nada com que me entreter’. Isso revela uma dependência associada à incapacidade de a criança encontrar outros estímulos.”

“Não gosto de culpar a tecnologia… Na minha infância tive consolas. Muitas vezes, no consultório, pergunto aos miúdos as brincadeiras preferidas e a maior parte responde o telemóvel, o tablet, o computador e a consola. Por outro lado, sinto que eles têm sede de brincadeiras, têm vontade de usar os jogos que estão nas prateleiras do consultório, jogos banais, mas o mais imediato é a tecnologia muito por observação e pelo modelo que têm à sua volta”, continua Inês Afonso Marques, que ressalva que cabe aos adultos quebrar o ciclo e encontrar ou reencontrar outras formas de brincar. A isso acrescenta-se a “falsa questão” da falta de tempo, até porque a psicóloga ouve em consultório como as crianças se queixam de que os pais não têm tempo para brincar e como os pais argumentam que já não sabem brincar. “Não é necessário muito tempo, desde que este seja de qualidade”, diz, aconselhando os adultos a seguir os interesses da criança e a seguir o ritmo desta.

O uso pouco saudável das tecnologias pode, entre outras coisas, impactar a criança do ponto de vista motor, no sentido em que pode prejudicar a sua destreza. Também por isso a OMS alertou recentemente para a necessidade de as crianças com menos de cinco anos terem de passar menos tempo sentadas diante dos ecrãs para passarem, ao invés, mais tempo a brincar de maneira a crescerem de forma saudável. Entre as recomendações da Organização Mundial de Saúde está, por exemplo, o facto de os bebés com menos de um ano de idade terem de ser “fisicamente ativos várias vezes ao dia e de formas diversas” e não ficarem “contidos” mais de uma hora de cada vez em cadeiras ou carrinhos. “Tempo de ecrã não é recomendável”, acrescenta a OMS.

Sobre isso, Carlos Neto, professor e investigador da Faculdade de Motricidade Humana (FMH), disse em 2015 ao Observador que o ecrã “alterou muito significativamente a vida das crianças e dos pais”. “Passou-se da trotinete ao tablet de uma forma rapidíssima e não há equilíbrio. E o que está em causa neste momento é que nem a atividade desportiva que as crianças fazem em clubes, nem a educação física escolar, nem o desporto escolar — que são muito importantes — são suficientes para acabar com o sedentarismo que existe.”

Aos 44 anos e com duas filhas, de 7 e 8 anos, Sofia não diaboliza a tecnologia, mas faz questão de impor regras que, espera, um dia, as miúdas levem consigo para a complicada fase da adolescência. O ecrã mais utilizado lá em casa é a televisão, sobretudo para ver desenhos animados e filmes familiares como a saga “Harry Potter”. “A regra, embora não seja sempre cumprida, é dois desenhos animados quando chegam da escola, o que dá no máximo uma hora de televisão”, conta ao Observador. Limitar o tempo de acesso à televisão deriva da preocupação de Sofia, que considera que os estímulos emitidos por este ecrã são muito rápidos para os cérebros das crianças. “Se passar o tempo, a mais nova, por ter alguns problemas, fica perturbada, começa a rodopiar em loop, sem parar, a mexer freneticamente as pernas, até o discurso dela fica mais confuso.”

Outra regra imposta por Sofia passa pelo uso de smartphones: o uso exclusivo dos telefones dos pais (elas não têm gadget próprio) serve para jogar jogos escolhidos a dedo e testados pela mãe, preferencialmente que estimulem o raciocínio matemático, embora também haja momentos para “maquilhar e vestir princesas”. As filhas só podem jogar duas a três vezes por semana, cinco jogos à vez. “Quanto mais cedo elas tiverem noção de que os ecrãs têm de ser usados com inteligência, melhor. Eu não uso o telemóvel à frente delas, caso contrário nada disto faria sentido. Faço questão de dar o exemplo.”

Também o pedopsiquiatra Pedro Strecht considera que as tecnologias — em particular as aplicações — podem interferir no desenvolvimento das crianças, sobretudo em relação a algumas áreas cognitivas e de relação social. “Se um menino de 8 anos brinca no tablet ou se um de 12 anos joga na playstation, diria que isso é normal e não vejo mal nisso — só aconselho os pais a darem os jogos apropriados à idade dos filhos; mas se ele só brincar com o tablet ou com a playstation… Há crianças que crescem quase só com experiências de relação e de estímulo centradas no ecrã. Há pessoas que acham que tenho uma visão muito crítica em relação às tecnologias… As tecnologias têm coisas ótimas que podem facilitar ganhos de tempo, simplesmente acho que, nos dias de hoje, elas próprias se tornam tão opressivas no chamado tempo tecnológico que também bloqueiam a nossa vivência, o nosso tempo biológico e emocional”, já antes disse ao Observador.

O que mais preocupa a psicóloga Ivone Patrão é precisamente o estado das relações sociais. A socialização, diz, deve ser mista, tanto presencial como online. “O que me preocupa é se for só online. Se as crianças começam assim já não vão ter relações”, afirma, referindo-se ao impacto nas respetivas competências sociais. “Elas deixam de estar treinadas para a resposta em direto.”

Afinal, o que dizem os estudos?

Indepentemente da idade, Ivone Patrão refere que o ecrã tem, de facto, afetado pela negativa o ato de brincar. “Vejo que isso os deixa sentados, inertes, parados do ponto de vista físico. E há outra questão: o ecrã dá-lhes um input… o output vai ter de sair. Quando deixam de estar ao ecrã podem ficar mais irrequietos. A energia natural da infância tem de sair de outra forma. Isso tem impacto ao nível do comportamento e do ponto de vista cerebral. A luz do ecrã, por exemplo, pode provocar alterações no sono”, assegura.

O problema não é necessariamente o ecrã, mas o uso que se faz deste. Porque também nos smartphones ou nos tablets há vantagens: como a facilidade de acesso à informação, a capacidade de aprender novas línguas ou o facto de ser uma ferramenta útil na sala de aula. Nem de propósito, segundo um estudo do ano passado, publicado no jornal semanal The Lancet Child & Adolescent Health, limitar o tempo que as crianças passam a olhar para um ecrã melhora a sua capacidade de aprendizagem — o ideal seria passarem menos de duas horas por dia nessa condição.

Em 2017, a Sociedade Norte-americana de Pediatria apresentava um estudo — feito entre 2011 e 2017 com 894 crianças entre os seis meses e os dois anos — que mostrava que as crianças menores de dois anos que usavam ecrãs táteis corriam o risco de começar a falar mais tarde. Sobre isso, Catherine L’Ecuyer, doutorada em Educação e Psicologia e autora do bestseller “Educar na Curiosidade”, já antes disse ao Observador que “o tipo de interação que o tablet promove não é como a interação humana, que requer um processo ativo. Diante do ecrã, a criança anda a reboque de estímulos frequentes e intermitentes. Transforma-se numa espécie de porta USB ou numa impressora.”

As recomendações já antes citadas pela Organização Mundial de Saúde, tendo em conta o uso do ecrã por parte das crianças, não foram bem aceites por todos, já que o The Guardian cita especialistas que argumentam que, na sua base, há falta de provas. Juana Willumsen, uma das autores das referidas recomendações, diz que não há como negar que os ecrãs fazem parte da vida moderna, ao mesmo tempo que argumenta que o grupo de trabalho em questão não encontrou vantagens em introduzi-las a crianças com menos de três anos. “Capacidades sociais e cognitivas são mais bem desenvolvidas com outra pessoa do que com um ecrã. Cuidadores que brincam interativamente são absolutamente vitais para o desenvolvimento das crianças, em particular nos primeiros anos.”

“Diante de um ecrã a criança transforma-se numa espécie de porta USB ou numa impressora”

Julho 26, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Catherine L’Ecuyer ao Observador de 13 de julho de 2019.

Tânia Pereirinha

Ou seja, transforma-se num ser amorfo, que em vez de agir, reage — ou nem isso. Quem o diz é Catherine L’Ecuyer, doutorada em Educação e Psicologia e autora do bestseller “Educar na Curiosidade”.

Canadiana a viver em Barcelona, tem um currículo que impressiona, desde os artigos académicos mais famosos à coluna de opinião no El País, passando pelos livros feitos bestsellers internacionais ou pelo doutoramento acabado de concluir em Educação e Psicologia. Ainda assim, não é por “Educar na Curiosidade” ter sido traduzido em oito línguas, incluindo português, e ir já na 25ª edição em Espanha, que Catherine L’Ecuyer é uma sumidade na matéria.

Só por isso, seria considerada “especialista”. Sobe para o degrau acima porque, além de estudar a fundo o tema, é também mãe, de quatro filhos, de 14, 13, 11 e 8 anos. E, garante ao Observador, é uma mãe que pratica em casa aquilo que advoga na vida profissional.

Quando o assunto são as novas tecnologias é peremptória: antes dos 2 anos nenhuma criança deve ser exposta a qualquer tipo de ecrã e o uso de telemóveis deve ser atrasado ao máximo, sendo que o máximo pode muito bem ser a chegada à idade adulta.

Fácil falar, difícil fazer? Assegura que não e revela que na sua própria casa não há tablets, videojogos, ou smartphones: “Temos um telemóvel familiar — que só dá para fazer chamadas, não tem Internet –, que [os meus filhos] utilizam quando necessitam”.

Explica que não é uma questão apenas educativa, mas também pediátrica: o uso das novas tecnologias por bebés, crianças e adolescentes pode ter efeitos críticos nas diferentes fases do desenvolvimento, para além de ainda poder potenciar outro tipo de consequências. “Atrás de um ecrã as crianças e os jovens desinibem-se e dizem coisas que não diriam cara a cara, mostram partes do corpo que na vida real nunca mostrariam”, exemplifica.

Nos Estados Unidos, cientes disto mesmo, são cada vez mais os pais a atrasar deliberadamente a idade com que dão smartphones aos filhos, existindo até movimentos organizados nesse sentido, como o “Wait Until 8th” (Espera até ao 8º), uma espécie de juramento que os pais podem fazer online em nome dos filhos, numa lógica de a união faz a força — já para não dizer que também diminui a pressão social. Outros pais americanos, admitindo a sua incapacidade para educarem sem tecnologia, estão por seu turno a esgotar as agendas dos “consultores de tempo de ecrã”, os mais novos especialistas na matéria, acabados de chegar, aproveitando o nicho de mercado.

Em Portugal recentemente, para dar uma conferência sobre a forma como as novas tecnologias estão a influenciar a capacidade de atenção das crianças, Catherine L’Ecuyer respondeu às perguntas do Observador sobre o tema e deixou pistas para pais e educadores.

Acha que aquelas imagens caleidoscópicas dos canais para bebés fazem maravilhas a acalmar o seu filho de meses? Tem a certeza de que tablets e televisões são coisas completamente diferentes? Acredita que o seu filho tem uma inteligência acima da média porque nenhuma criança da mesma idade poderá algum dia ser capaz de mexer tão bem num smartphone? Esta entrevista é para si.

Falemos de tecnologia, mas vamos por idades. Basta sair para jantar para ver bebés de meses que só comem diante de um ecrã. Outros, assim que conseguem sentar-se ou até antes disso, são deixados em frente à televisão. Que efeitos pode ter a exposição precoce a este tipo de estímulos visuais no cérebro e no comportamento dos bebés?
A Academia Americana de Pediatria e a Sociedade Canadiana de Pediatria recomendam que as crianças até aos 2 anos não vejam qualquer tipo de ecrãs, devido ao risco que acarretam nesse período crítico de desenvolvimento. Não é uma recomendação educativa, mas sim pediátrica. Os estudos associam a exposição a ecrãs nessa idade com a desatenção, a impulsividade, a redução do vocabulário, o défice de aprendizagem, etc. O cérebro habitua-se a um ritmo que não existe no  mundo real, logo a criança não está adaptada à realidade, que é lenta.

O que se passa a partir dessa idade, biológica e emocionalmente, para que essa exposição passe a ser “permitida”?
Estas mesmas associações pediátricas recomendam que as crianças entre os 2 e os 5 anos vejam menos de uma hora por dia, por que nessas idades o cérebro continua a estar num período crítico de desenvolvimento. Entre os 2 e os 5 há menos riscos, mas não convém estar a criar este tipo de necessidade. Como diz a Associação Canadiana de Pediatria, “não há provas de que os ecrãs sejam benéficos”.

Mas uma televisão não é o mesmo que um tablet, pois não? Um é preferível ao outro? Quais são as diferenças de efeitos entre o uso passivo e ativo das tecnologias em cérebros tão jovens?
A investigação é cara e morosa. Por isso mesmo, tem sempre um atraso em relação às inovações tecnológicas, que rapidamente se tornam obsoletas e dão lugar a produtos diferentes a cada ano. Em 2014, Dimitri Christakis (o especialista internacional nos efeitos dos ecrãs nas crianças) publicou um artigo em que questionava a comunidade científica sobre se o tablet seria diferente da televisão, precisamente por causa da sua natureza interativa. O artigo não dava respostas, fazia perguntas. Há estudos desse ano que demonstram que o tablet não é menos prejudicial do que a televisão; até é mais viciante porque é interativo. O tipo de interação que o tablet promove não é como a interação humana, que requer um processo ativo. Diante do ecrã, a criança anda a reboque de estímulos frequentes e intermitentes. Transforma-se numa espécie de porta USB ou numa impressora. A criança ainda não desenvolveu as suas capacidades de inibição e atenção, o seu locus de controlo é externo.

O  que significa isso?
O locus de controlo é o lugar a partir do qual uma pessoa acredita que as suas ações são controladas. Se é externo, a pessoa acredita que a sua ação é condicionada pelo ambiente, pela sociedade, pelos outros. Se é interno, a pessoa sente que tem controlo (capacidade de inibir, moderar, tomar a iniciativa, planear, etc) sobre as suas ações, pelo que age em consciência e de forma responsável.

Existe a ideia de que os cérebros das crianças devem ser estimulados e “trabalhados” desde cedo, sob pena de se fechar a “janela de oportunidade”. É especialmente crítica desta teoria. Porquê?
Não é uma opinião. A ideia de que é preciso enriquecer o ambiente durante os primeiros anos de vida para não perder a oportunidade de aprendizagem é um neuromito. Um neuromito é uma má interpretação da literatura em neurociência. Há períodos críticos (janelas de oportunidade irrepetíveis) para o desenvolvimento, mas não para a aprendizagem. Mais nem sempre é sinónimo de melhor. A aprendizagem é um processo lento que deve acontecer ao ritmo da criança. Estudos sobre apego indicam que as crianças não precisam de um bombardeamento sensorial, mas sim de interação de qualidade com o seu cuidador principal.

Outro conceito que não lhe é propriamente caro é o que se refere a esta geração como “nativa digital”. Acredita que existe um “plano” por trás disto? Que as empresas tecnológicas, por um lado, constroem os produtos de forma a serem facilmente utilizados pelas crianças; e por outro plantam na mente dos pais a ideia de que a capacidade de manusear a tecnologia é não só uma prova de inteligência dos filhos mas também uma ferramenta capaz de aumentar ainda mais essa inteligência?
O nativo digital é definido como aquele que, nascendo na era digital, está habituado a receber e a processar informações de uma forma que alguém que nasceu antes dessa época (o chamado Imigrante Digital) não consegue. De acordo com essa “hipótese”, os nativos digitais terão vantagens cognitivas que afetarão positivamente a sua aprendizagem, em relação à da geração que os precede, como por exemplo no que diz respeito à multitarefa tecnológica. Apesar da popularidade desta ideia, os estudos dizem que o conceito de nativo digital é sobrevalorizado. Embora demonstrem grande familiaridade e agilidade técnica com a tecnologia, os jovens também dependem demasiado dos motores de busca e não têm competências críticas e analíticas para perceberem o valor e a originalidade da informação que existe na rede. Concluindo: os estudos dizem que a chamada “Geração do Google” não tem o nível de alfabetização digital que lhe tem sido atribuído e que ao próprio conceito falta uma base científica. A crença de que uma pessoa nascida na era tecnológica tem mais habilidades cognitivas para o uso da tecnologia é um mito. E a multitarefa tecnológica também. Se o teu filho aprende a usar um smartphone em minutos não é porque é um génio, mas porque o engenheiro que o desenhou é muito inteligente.

O que é isso da multitarefa tecnológica?
É o ato de fazer muitas coisas que requerem o processamento de informação no âmbito tecnológico ao mesmo tempo. É um mito, a neurociência garante que não podemos realizar em simultâneo várias tarefas que requeiram o processamento de informação. Quando tentamos fazê-lo, o que acontece é que desempenhamos essas tarefas em paralelo e vamos oscilando entre todas elas.

Existem ou não diferenças cerebrais entre as crianças de hoje, que têm toda a informação do mundo à distância de um clique, e os dos seus pais, que quando queriam saber alguma coisa tinham de se dedicar e procurar em livros ou enciclopédias?  
As crianças de hoje aprendem da mesma forma que as de antigamente. Há permanências antropológicas. As previsões alarmistas de que a tecnologia estaria a reestruturar os nossos cérebros (“rewiring our brains”, em inglês) também não têm fundamento científico. Ainda assim, tal como avisa o Conselho Inter-Americano para o Desenvolvimento Integral, a plasticidade tem os seus limites, pelo que a tensão a que uma pessoa está sujeita só é possível dentro de alguns limites, para além dos quais os estímulos podem provocar alterações capazes de comprometer a sua integridade e, consequentemente, a sua aprendizagem. Isto é confirmado pelas evidências que relacionam a multitarefa tecnológica com a diminuição das funções executivas (atenção, capacidade para inibir estímulos externos, etc.). E também pelas evidências que relacionam hiper-estimulação e desatenção. Nas crianças estes efeitos são mais agudos, porque estão num período crítico de desenvolvimento.

Centremo-nos nas crianças entre os 6 e os 12. Há boa e má tecnologia? Que regras ou limites aconselharia nestas idades?
A tecnologia tem de adaptar-se ao ritmo interno da criança, não pode substituir as relações interpessoais reais e não deve veicular conteúdos violentos ou inadequados. A criança tem de desenvolver os seus sentidos de intimidade, privacidade, força, moderação e relevância e a sua capacidade de inibição antes de entrar no mundo virtual. Não é possível desenvolver a noção de intimidade nas redes, por exemplo. A melhor preparação para o mundo online é o mundo offline.

Bem sei que o ideal seria que os consumos fossem sempre acompanhados ou pelo menos supervisionados pelos pais, mas com as vidas atuais isso é praticamente impossível. Que estratégias aconselha a pais e educadores?
Os ecrãs são as amas do século XXI. Temos de oferecer alternativas de qualidade aos nossos filhos: música, desporto, amizades, brincadeiras, natureza, etc. Acreditamos mesmo que estes dispositivos lhes melhoram a qualidade de vida? Nunca houve tantas adições tecnológicas, tanto consumo de pornografia na infância. Tudo na sua medida e no seu devido tempo. Quando atrasamos o uso do smartphone, damos-lhes o luxo das interações pessoais e a oportunidade de fortalecerem qualidades que mais tarde lhes permitirão utilizar estes dispositivos de forma responsável. Um smartphone é um luxo. Por que motivo havemos de lhes comprar luxos?

Caso já tenham comprado esse “luxo”, como podem os pais limitar ou supervisionar o seu uso?  
Não há problema nenhum em atrasar a idade de uso. Eles vão dizer que toda a gente tem e que vão ficar de fora de tudo. Primeiro, é preciso ajudá-los a perceber as estatísticas, nem sempre é garantido que todos têm mesmo. Depois, mesmo que muitos tenham de facto, isso não é um argumento educativo. Muitas crianças consomem pornografia e embebedam-se e isso não é uma justificação para permitir que os seus filhos o façam.

Tem quatro filhos. É essa a estratégia que usa com eles, em casa?
Não sou uma mãe perfeita, pelo que aquilo que fazemos não é “a” solução. Cada família é um mundo e cada pai e mãe é no limite responsável pelas suas decisões. Em nossa casa há uma televisão que só serve para ver filmes selecionados. Temos dois computadores que são usados em espaços de passagem, para o meu trabalho e para o do meu marido. Os nossos filhos não têm videojogos, nem tablets, e só temos um telemóvel familiar — que só dá para fazer chamadas, não tem Internet –, que utilizam quando necessitam. Mas damos-lhes mil alternativas aos ecrãs: passeios, pesca, desporto, música, viagens, natureza, conversas, leitura, etc. Não podemos proibir só por proibir. Temos de dar-lhes alternativas de qualidade.

Há cada vez mais escolas a apostar no uso das tecnologias para ensinar. Paradoxalmente, diz que Steve Jobs, tal como a maioria dos executivos de Silicon Valley, põem os filhos em escolas tradicionais. É mesmo assim? Por que acha que isto acontece?
Os CEOs das empresas tecnológicas de Silicon Valley vendem tablets às escolas públicas da zona, mas têm os filhos em colégios privados que não os utilizam. Eles sabem que não existem estudos que apoiem o uso da tecnologia em sala de aula. Aliás, sabem que o que há são estudos que dizem o contrário. O tablet é parte de uma estratégia de marketing educativo. A novidade é um conceito essencialmente comercial, não educativo.

O que dizem exatamente esses estudos que vão contra o uso de tablets na escola?
Essa pergunta é demasiado complexa para ser respondida assim. Aquilo que posso afirmar é que não existe atualmente um conjunto de estudos que apoiem o uso de tablets na sala de aula. Não há um conjunto de estudos que estabeleça um benefício entre o uso de tablets e uma melhoria no desempenho académico e nas oportunidades de emprego.

Tempos de atenção cada vez mais curtos, dificuldades de concentração, incapacidade de desenvolvimento de pensamento lógico. Diria que estas expressões descrevem de algum modo a geração adolescente atual? Que papel desempenham as novas tecnologias neste quadro?
Como diz [a romancista americana] Meg Wolitzer, esta é a geração que tem manteiga mas não tem pão. A quem falta o contexto que dá sentido às aprendizagens. O contexto não se encontra na Internet, mas no mundo real. O professor é fundamental, precisamente porque dá esse contexto, torna a aprendizagem “significativa”. Por mais sofisticados que sejam os algoritmos, a educação será sempre uma questão profundamente humana e não tecnológica.

Fala-se muito em dependência e adição às novas tecnologias. Há idades mais permeáveis a isto, no que respeita às fases de desenvolvimento cerebral ou comportamental? A que sinais de alerta devem os pais estar atentos?
Muitas dessas tecnologias estão desenhadas para criarem adição. Quem trabalha nas empresas que as fabricam admite isso mesmo. Não existem estratégias para mitigar esses efeitos em mentes imaturas. Se nos custa a nós, que somos adultos, como é que não vai custar-lhes a eles? Quando uma criança mente para poder consumir tecnologia, está viciada. Mas quando isso acontece, já é um pouco tarde para fazer marcha-atrás. Eu defendo a prevenção: atrasar a idade de uso.

Novos ossos estão a crescer nos crânios dos jovens devido ao uso excessivo do telemóvel

Junho 29, 2019 às 8:20 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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David Shahar e Mark Sayers – Scientific Reports

Notícia da RTP Notícias de 21 de junho de 2019.

As novas tecnologias mudaram, indubitavelmente, a nossa forma de vida. Sabemos que os novos dispositivos eletrónicos alteraram a forma como comunicamos, como trabalhamos, como vivemos. Revolucionou a forma como aprendemos, assim como expandiu a quantidade de informação disponível, anteriormente mais limitada.

Hoje, não nos imaginamos a viver sem elas. Mas sabemos também agora que estas novas tecnologias, em particular os telemóveis, estão também a transformar o corpo humano.

Era já conhecido que os telemóveis afetam a saúde ocular. Também a coluna e até o cérebro. Mas não sabíamos que poderia afetar o nosso crânio, nem se imaginava que novos ossos poderiam crescer com a utlização em excesso destes aparelhos.

Um estudo feito pelos investigadores australianos David Shahar e Mark Sayers, da Universidade de Queensland, analisou os crânios de mais de mil pessoas, com idades compreendidas entre os 18 e os 86 anos. Concluíram que 400 pessoas, sobretudo os mais jovens, tinham tido um crescimento de ossos na base dos crânios, o que dizem ser uma mudança corporal provocada pelo uso crescente da tecnologia moderna.

A investigação concluiu que as pessoas (sobretudo os jovens) estão a desenvolver “uma exostose proeminente, que emana da protuberância occipital externa”. Ou seja, esporões ósseos estão a formar-se na parte de trás do crânio. São pequenos crescimentos ósseos que podem formar-se na extremidade dos ossos e que ocorrem quando uma inflamação danifica a cartilagem e o corpo tenta reparar o dano, fazendo crescer mais osso. Durante o estudo, os autores encontraram esporões ósseos cujo tamanho variava entre os 10 e os 31 milímetros.

Os investigadores afirmam que a inclinação frontal da cabeça, ao deslocar o peso da coluna para os músculos da cabeça, provoca um crescimento ósseo nas ligações dos tendões e ligamentos. Assim, acreditam que os dispositivos eletrónicos, em particular os telemóveis, estão na origem do problema.

Quais são as possíveis consequências?

O que reserva o futuro para os jovens adultos que desenvolvem, como referem os autores, “um processo degenerativo (…) num estágio tão inicial das suas vidas”?

Shahar acredita que esta formação óssea pode conduzir a uma deformidade grave na postura, que, por sua vez, pode provocar dores no pescoço, nas costas, e dores de cabeça crónicas. Alguns esporões ósseos podem também requerer tratamento, conforme o tamanho e a gravidade.

O cirurgião ortopédico David Geier afirma no entanto que este problema pode ser prevenido. “As pessoas que estão preocupadas com isto podem começar a trabalhar com um fisioterapeuta para aprender exercícios para fortalecer os músculos que ajudam com a sua postura”, disse à NBC News.

E acrescenta que há pequenas mudanças que podem ajudar, como “colocar almofadas por baixo dos computadores e segurar no telemóvel ou no tablet um pouco mais acima”.

Estudo levanta dúvidas

Este estudo tem recebido críticas distintas, tendo sido apoiado por vários especialistas e rejeitado por outros.

Alguns afirmam que o trabalho é baseado em raios-x antigos, não tem um grupo de controlo, e não consegue provar a causalidade. Além disso, as pessoas que participaram no estudo tinham-se especificamente queixado de dores no pescoço e procuraram um médico, o que significa que não é claro como os resultados se aplicam ao resto da população.

David Langer, diretor de neurocirurgia no Hospital Lenox Hill, disse ao The New York Times que “é mais provável ter uma doença degenerativa dos discos ou desalinhamento do pescoço do que um esporão ósseo a crescer no crânio”.

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