Unicef e OMS alertam: 78 milhões de bebés não são amamentados na primeira hora após o parto

Agosto 10, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
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Notícia da SIC Notícias de 31 de julho de 2018.

Cerca de 78 milhões de bebés (60% do total) não são amamentados na primeira hora de vida, aumentando o risco de morte e de doença, alertaram hoje a Unicef e a Organização Mundial de Saúde num novo estudo.

As organizações notam que a maior parte destes bebés nasce em países de rendimento baixo e salientam que mesmo uma demora de algumas horas na amamentação após o nascimento pode colocar as crianças em risco de vida.

O contacto pele com pele na amamentação estimula a produção de leite nas mães, incluindo o colostro, rico em nutrientes e anticorpos, chamado a “primeira vacina” de um bebé.

As taxas de amamentação na primeira hora após o nascimento são mais altas na África Austral e do Sul (65%) e mais baixas no leste da Ásia e Pacífico (32%), refere-se no relatório.

Em países como o Burundi, Sri Lanka e Vanuatu, 90% dos bebés são amamentados na primeira hora, enquanto no Azerbaijão, Chade e Montenegro, só dois em cada dez são amamentados.

O diretor-geral da OMS, Tedrso Adhanom Ghebreyesus, salientou que “a amamentação é o melhor começo de vida possível” e defendeu que é preciso as famílias, sistemas de saúde, patrões e governos apoiarem as mães para “darem aos filhos o começo que merecem”.

No relatório, chamado “Capturar o momento”, elencam-se razões que fazem demorar o primeiro aleitamento, como diferenças nos cuidados às mães e recém-nascidos.

Em muitos casos, os bebés são separados das mães imediatamente após o nascimento e não é a presença de pessoal qualificado a assistir aos partos que afeta a frequência da amamentação após o nascimento.

Práticas como dar aos recém-nascidos leite preparado, mel ou água açucarada ainda contribuem para adiar o primeiro contacto do bebé com a sua mãe.

Outro fator é o aumento de cesarianas, que em países como Egito mais do que duplicaram entre 2005 e 2014, de 20% para 52%, enquanto a percentagem de bebés amamentados desde logo desceu de 40% para 27%.

Estudos anteriores citados no documento agora divulgado mostram que os recém-nascidos que foram amamentados entre as duas e as 23 horas a seguir ao parto tinham 33% mais riscos de morrer do que os que foram amamentados antes.

Entre os recém-nascidos amamentados a partir do dia seguinte ao nascimento, o risco duplicava.

No relatório apela-se aos governos, doadores e decisores para que adotem medidas legais fortes para restringir a publicidade de leite preparado para recém-nascidos e outros substitutos do leite materno.

Lusa

O relatório Capture the Moment: Early initiation of breastfeeding – the best start for every newborn pode ser consultado no link:

https://www.unicef.org/press-releases/3-5-babies-not-breastfed-first-hour-life

 

 

A amamentação é assim tão importante? O que diz a ciência

Agosto 1, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Observador de 19 de julho de 2018.

Vera Novais

Os Estados Unidos voltaram a votar contra uma resolução que promove a amamentação e restringe a publicidade às fórmulas infantis. Afinal, é assim tão importante promover o aleitamento materno?

A Assembleia Mundial de Saúde, na reunião que teve lugar em maio deste ano, queria aprovar uma resolução em que se pedia aos governos que “protegessem, promovessem e apoiassem a amamentação” e que reforçasse a aplicação das regras sobre a publicidade e promoção aos produtos substitutos do leite. No início de julho, o jornal norte-americano The New York Times, não só noticiou que os Estados Unidos votaram contra esta proposta, como que tentaram boicotá-la. Os delegados norte-americanos terão tentado coagir países da América do Sul e de África com ameaças de sanções ou retiradas de apoio e terão mesmo ameaçado a retirada de apoio financeiro à Organização Mundial de Saúde (OMS).

O Presidente norte-americano, Donald Trump, apressou-se a responder ao jornal via Twitter, acusando-o de disseminar notícias falsas. “Os Estados Unidos apoiam fortemente a amamentação, mas não consideramos que as mulheres devam ver o acesso à fórmula [infantil] negado. Muitas mulheres precisam desta opção devido à má nutrição e pobreza.”

Dizer que as mulheres não conseguem amamentar por causa da pobreza e má nutrição é “colocar o carro à frente dos bois”, disse, em comunicado, o Colégio Real de Parteiras do Reino Unido. “É claro que o foco devia ser em reduzir a pobreza e má nutrição de maneira a que as mulheres estejam suficientemente saudáveis para amamentar. Também porque as famílias pobres não conseguem sustentar uma alimentação à base de fórmula.”

As alegadas ameaças feitas pelos Estados Unidos ao Equador — que apresentou a proposta inicial — e a outros países em desenvolvimento fizeram recear que a resolução não fosse aprovada. Mas a Rússia — em conjunto com o Canadá, México e 15 outros países — avançou com uma nova proposta, aprovada por 118 Estados-membros com um voto contra, o voto norte-americano. Ainda assim, os delegados dos EUA conseguiram introduzir algumas alterações na proposta e torná-la menos exigente do que a inicial.

Não é a primeira vez que os Estados Unidos votam contra este tipo de propostas e volta a cair sobre o país a acusação de ceder às pressões das empresas produtoras de fórmula infantil — uma indústria que vale 70 mil milhões de dólares (60 mil milhões de euros) e é dominada por meia dúzia de empresas norte-americanas e europeias. O Observador quis perceber se é assim tão importante promover o aleitamento materno ou se o uso de fórmula infantil é igualmente válido.

Porque é que a OMS quer regras apertadas para as empresas?

A promoção do aleitamento materno e o controlo do tipo de publicidade e promoção que pode ser feita pelas empresas que produzem fórmulas infantis (leite em pó adaptado) não são ideias novas. Já em 1974, durante a 23.ª Assembleia Mundial de Saúde (WHA, na sigla em inglês), tinha ficado claro o declínio da amamentação em vários países do mundo, em parte relacionado com a pressão das empresas produtoras dos substitutos. Nessa altura, a WHA instou os Estados-membros a rever as atividades promocionais levadas a cabo pelas empresas e a criar legislação sobre a publicidade das mesmas caso fosse necessário.

O tema voltou a ser debatido nos anos seguintes e, em 1981, a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) publicaram o Código Internacional de Marketing dos Substitutos do Leite Materno. O código — que era uma recomendação, não uma regulação — foi aprovado por 118 Estados-membros. O único voto contra veio dos Estados Unidos. Na altura, a justificação foi que este tipo de código viola os princípios da liberdade de expressão e de acesso à informação. Quase 40 anos depois, a justificação é a mesma.

“Os Estados Unidos lutam para proteger a capacidade das mulheres de fazerem as melhores escolhas de nutrição para os seus bebés”, disse um porta-voz do Departamento de Saúde e Serviços Humanos norte-americano (a entidade presente na reunião da WHA), citado pelo The New York Times. “Muitas mulheres não são capazes de amamentar por variadas razões. Estas mulheres não podem ser estigmatizadas, têm de ser igualmente apoiadas com informação e acesso a alternativas para a sua saúde e das suas crianças.”

A resolução da WHA não pretendia obrigar as mulheres a amamentar, nem proibi-las de ter acesso a informação sobre a fórmula infantil. Nada na resolução incidia sobre a discriminação e estigma das mulheres que não amamentam. O objetivo era promover o aleitamento materno como melhor opção para a mãe e o bebé, baseado nos dados científicos disponíveis, e reforçar o Código Internacional de Marketing dos Substitutos do Leite Materno, tanto nas legislações nacionais, como na monitorização da sua aplicação e na penalização das violações ao código.

A preocupação da Organização Mundial de Saúde vai muito além das mulheres nos Estados Unidos ou nos países desenvolvidos, que têm melhores recursos financeiros e maior acesso a água potável e a cuidados de saúde do que as mulheres nos países em desenvolvimento. Nos países desenvolvidos, as empresas mostram apoiar e incentivar a amamentação materna, como revela a Nestlé no seu site. Mas a postura destas empresas nos países em desenvolvimento parece ser diferente, como denuncia o jornal britânico The Guardian. Nas Filipinas, por exemplo, as empresas fazem lobby junto dos profissionais de saúde, aliciando-os com viagens pagas a conferências e outros programas de lazer, e distribuem folhetos às mães com alegadas informações de saúde, algumas apresentando o leite adaptado como melhor que o leite materno.

Há outras polémicas à volta da amamentação. No passado domingo, na Florida, a modelo Mara Martin desfilou a passarela enquanto amamentava a filha de cinco meses. Tudo aconteceu num desfile de fatos de banho da Sports Illustrated. Martin foi uma das 16 finalistas que concorreram para o desfile. Entre as outras escolhidas estava Brenna Hucky, uma atleta paraolímpica que desfilou com uma perna prostética, uma militar e uma sobrevivente de cancro.

Que riscos podem apresentar as fórmulas infantis?

A alimentação dos bebés com fórmula (leite em pó adaptado) em vez de leite materno teve início no século XIX e tornou-se comum no século seguinte. As empresas alegavam que a fórmula infantil era tão boa como o leite materno e faziam promoção junto dos profissionais de saúde, que eram os primeiros a recomendar às mães que alimentassem os bebés a biberão em vez de os amamentarem.

A moda pegou, mas, a partir de meados do século XX, as mães voltaram a querer amamentar os seus filhos — embora a adesão ainda esteja longe das recomendações das sociedades de pediatria. A venda de fórmula infantil caiu nos países desenvolvidos, mas não nos países em desenvolvimento. Estes substitutos do leite materno começaram a ser uma escolha moderna para os cidadãos com mais recursos desses países, mas estenderam-se também às populações mais pobres e com menos recursos financeiros que permitissem alimentar convenientemente as crianças à base de fórmula infantil. O resultado foi um aumento da mortalidade infantil.

A fórmula infantil é um produto caro. Quando as famílias têm dificuldade em comprar o produto, acabam por diluí-lo muito mais do que a recomendação do produtor e as crianças ficam mal alimentadas. Além disso, em muitos dos países em desenvolvimento que recorrem às fórmulas, a qualidade da água não é adequada. Se a água não for fervida e os biberões (ou outros suportes) não forem devidamente esterilizados, há o risco de contaminação com micro-organismos. A própria fórmula pode estar contaminada.

Nada é mais natural que o leite materno

“As fórmulas infantis são leite de vaca transformado e permitem que o bebé cresça e aumente de peso”, disse ao Observador Graça Gonçalves, pediatra e consultora internacional de amamentação. “Mas não há qualquer comparação possível com um produto que teve milhares de anos de evolução [o leite materno humano].” O leite materno tem as características nutricionais perfeitas, em termos de quantidade de vitaminas e sais minerais, proteínas, gorduras, açúcares e água. “Não é possível meter isto numa lata.” Mesmo que a mãe tenha algumas carências nutricionais, o leite materno continua a fornecer ao bebé elementos que a fórmula não pode fornecer, disse ao Observador Conceição Calhau, nutricionista e investigadora no Cintesis (Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde).

É certo que as empresas têm investido muito na investigação e no melhoramento das fórmulas infantis, que vão adicionando componentes presentes no leite humano, mas, ainda assim, estão longe de ser um equivalente. Para citar só um exemplo, as fórmulas infantis não conseguem passar anticorpos ao bebé, como consegue o leite materno. “A criança só atinge a imunidade equivalente à do adulto aos sete anos. [Como depende da imunidade da mãe], quando deixa de mamar há uma baixa de imunidade na criança.”

Para a pediatra, co-fundadora da Clínica Amamentos (que faz aconselhamento sobre amamentação), o uso de fórmula está normalizado, mas não devia ser sequer a segunda opção para as mães que não conseguem dar mama. A segunda opção deveria ser leite da mãe extraído com uma bomba — dado a copo ou a colher, mas nunca com biberão — e a terceira opção deveria ser leite de outra mulher, recorrendo a familiares e amigas ou a um banco de leite. Graça Gonçalves admite que esta última opção é a mais difícil, porque existe apenas um banco de leite em Portugal.

O que recomenda a OMS?

A Organização Mundial de Saúde recomenda que todos os bebés sejam amamentados em exclusivo até aos seis meses. A partir dessa idade devem ser introduzidos os alimentos sólidos, mas o leite materno continua a constituir uma boa fonte de energia e nutrientes. A OMS prevê a amamentação até aos dois anos, mas esta pode ser mantida por tanto tempo quanto seja confortável e desejável para a mãe e para o bebé, disse Graça Gonçalves, consultora internacional de amamentação.

Iniciar o aleitamento materno logo após o nascimento, até uma hora após o parto, reduz o risco de infeções e o risco de mortalidade precoce, refere a OMS. Além da proteção contra infeções gastrointestinais, o leite materno evita a má nutrição do bebé. A manutenção da amamentação após os seis meses (e até aos dois anos ou mais) ajuda a prevenir a subnutrição em crianças com outras carências alimentares ou durante os períodos de doença.

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, defende que em muitos hospitais e comunidades em todo o mundo, amamentar ou não amamentar pode fazer a diferença entre a vida e a morte e condicionar o desenvolvimento pleno da criança.

A amamentação pode ainda ser defendida por razões mais práticas: a refeição está sempre pronta e pode ser dada em qualquer local; virtualmente não tem custos — especialmente quando comparado com a fórmula infantil; e os custos com os cuidados de saúde também são reduzidos (visto o aleitamento materno prevenir má nutrição e infeções gastrointestinais).

Quais as vantagens da amamentação no futuro?

A Organização Mundial de Saúde defende ainda o aleitamento materno porque a longo prazo protege as crianças de outras doenças como a diabetes ou a obesidade. Conceição Calhau explica que os oligassacarídeos presentes no leite materno, e descobertos recentemente, são um bom alimento para as bactérias boas do intestino dos bebés. Isso, aliado às bactérias adquiridas durante o parto vaginal, vai promover um conjunto de microorganismos intestinais que têm um papel protetor na saúde da criança e do adulto.

Além disso, há trabalhos de investigação científica que demonstram que a mãe perde peso mais facilmente, que a gordura acumulada nos glúteos é mobilizada para a produção de leite e que o útero regride e retoma a posição original mais facilmente, referiu a nutricionista. Além disso, a amamentação ajuda a prevenir o cancro da mama, ainda que, lembrou a investigadora, falte explicar o mecanismo que confere esta proteção.

Conceição Calhau considera que o apoio à amamentação e os benefícios promovidos pela OMS são largamente consensuais, embora pontualmente possam aparecer alguns trabalhos de investigação ou opiniões que o contestem. Há algumas razões para estes trabalhos aparentemente contraditórios. Por um lado, todos os trabalhos relacionados com a amamentação são observacionais — estudar bebés e crianças ao longo do tempo — e não ensaios clínicos controlados — não era ético submeter bebés a um tipo de alimentação que se considere benéfico e outro que se pense ser menos vantajoso.

Por outro lado, os estudos observacionais não são feitos nas condições ótimas. A nutricionista explicou que, quando os partos são programados ou quando as mães são sujeitas a uma cesariana, o bebé e a mãe podem estar demasiado adormecidos para a amamentação ou, pior, o corpo da mãe ainda nem sequer está pronto para o fazer. Mais, se a mãe não for convenientemente acompanhada, o bebé pode não estar a mamar corretamente, o que faz com que os resultados do estudo fiquem influenciados. Não faz sentido comparar uma pessoa que come sopa à colher com uma que come sopa com garfo

E se a mãe não consegue amamentar?

Há mulheres que gostavam de amamentar e não conseguem e acabam por recorrer à fórmula infantil mesmo que esta não fosse a sua primeira opção. Para Graça Gonçalves, menos de 5% das mulheres tem realmente alguma condição que as impeça de amamentar. As restantes mulheres que não conseguem alimentar os seus bebés dessa forma foram, na opinião da médica, mal acompanhadas e mal apoiadas.

“As desajudas começam logo na maternidade, quando o leite artificial é incentivado”, disse a consultora de amamentação. Mas também acontece quando os profissionais de saúde impõem a amamentação à mãe sem acompanharem o processo. Um bebé que não pegue corretamente na mama vai magoar a mãe e não se vai conseguir alimentar convenientemente. A mãe vai encarar o processo como doloroso e um sacrifício, o bebé vai ficar com fome e a mãe vai ficar convencida que o seu leite “é fraco”. E não existem “leites fracos”, como se apressou a esclarecer a médica. “E são raríssimos os casos de mulheres que não conseguem produzir leite suficiente”, acrescentou Conceição Calhau.

Os bebés que nasçam de parto natural e no fim do tempo de gestação têm, à partida, maior facilidade em mamar corretamente. Quando o parto é antecipado ou induzido, o bebé pode ainda não estar pronto para fazer a primeira refeição, disse Graça Gonçalves. Até a epidural, se passar para o bebé, pode deixá-lo demasiado atordoado para comer. “As mães e os bebés não têm as melhores condições iniciais para a amamentação funcionar”, concluiu a médica.

Mas o parto prematuro não é, só por si, condição suficiente para se optar pela fórmula infantil. “Se o bebé nascer entre as 35 e as 37 semanas é possível amamentar, mas tem de haver muito apoio porque vão existir muitas dificuldades na amamentação”, disse Graça Gonçalves. “Se o bebé nascer entre as 28 e as 30 semanas o apoio tem de ser extraordinariamente maior.” Não só o bebé não está preparado, como o próprio corpo da mãe ainda não está pronto para a produzir leite. Mesmo nestes casos, a pediatra recomenda que se recorra, sempre que possível, a leite humano de um banco de leite ou de familiares ou amigas.

Nos casos em que o bebé não consiga ou não possa mamar e seja preciso recolher a leite extraído, da mãe ou de um banco de leite, ou a fórmula infantil e nos casos em que seja preciso suplementar os bebés, a pediatra deixa um conselho importante: não usar biberão (usar colher, copo ou seringa). “O biberão é inimigo da amamentação.” A posição para dar biberão não é a posição natural de alimentação do bebé, requer muito menos esforço mamar de uma tetina do que da mama da mãe, o que acaba por fazer com que o bebé coma mais do que precisa. “Quando se sente saciado já é tarde demais.”

E se a mãe não quer amamentar?

“A decisão de amamentar, ou não, é uma escolha da mulher e deve ser respeitada”, disse o Colégio Real de Parteiras do Reino Unido (RCM, na sigla em inglês) numa nova posição sobre alimentação infantil publicada em junho. As razões que podem levar uma mulher a evitar ou parar a amamentação vão desde questões médicas, culturais ou psicológicas, até desconforto físico ou inconveniência, referiu um editorial da revista científica The Lancet, em 2016. “Estas questões não são triviais e as mães que não recebem apoio acabam por escolher o biberão com fórmula.”

Daí que o RCM defenda a importância de os pais terem acesso a informação, quer sobre as vantagens da amamentação, quer sobre como devem alimentar corretamente os seus bebés com fórmula infantil — seja em exclusivo, seja em combinação com o leite materno. Os profissionais de saúde devem assim estar preparados não só para promover e apoiar o aleitamento materno, mas também para dar os melhores conselhos aos pais que escolham a fórmula. Apesar desta recomendação, a associação deixa claro que “a amamentação em exclusivo durante os primeiros seis meses de vida de um bebé é o método mais apropriado de alimentação infantil”.

“Há mulheres para as quais amamentar é um verdadeiro prazer. É muito bom para elas e muito bom para o bebé. Mas amamentar um bebé quando a mãe não gosta de o fazer? É uma catástrofe”, disse Elisabeth Badinter, uma feminista francesa, citada num artigo de opinião no The Guardian.

Para Graça Gonçalves, as mulheres que estejam bem informadas e bem apoiadas dificilmente escolhem a fórmula infantil em detrimento do aleitamento materno. Para a consultora em amamentação é necessário esclarecer que a fórmula não é equivalente ao leite materno e apoiar as mães que tiveram más experiências com a amamentação no passado. Mais: a pediatra defende que se o bebé pudesse escolher, escolhia o leite materno, e que ao fazer uma escolha a mãe também deve pensar no bebé.

Mesmo para as associações que apoiam mães que não amamentam, como a “Don’t judge just feed” (Não julgue, alimente apenas), a amamentação é apoiada, incentivada e celebrada. O que esta associação procura é que as mães que não podem ou não querem amamentar recebam o mesmo tipo de apoio. Não ser capaz de amamentar pode ter um forte impacto nas mães que esperavam poder fazê-lo e a associação também quer apoiar estas mulheres e sensibilizar para este problema.

 

 

Vale a pena reduzir a amamentação materna para os bebés dormirem mais?

Julho 21, 2018 às 5:05 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do MAGG de 12 de julho de 2018.

por Catarina da Eira Ballestero

Estudo diz que os bebés que ingerem sólidos antes dos 6 meses dormem mais. Um especialista discorda: o leite da mãe em exclusivo é o melhor.

e acordo com os resultados de um estudo divulgado recentemente no Jama Pediatrics, as crianças que começam a ingerir sólidos com menos de seis meses de idade dormem mais do que aquelas que são amamentadas. A investigação liderada pelo especialista Michael Perkin, do Instituto de Pesquisa de Saúde da População e do Hospital St. George, em Londres, sugere que a introdução dos sólidos pode resultar num sono melhor.

Michael Perkin e a sua equipa analisaram 1303 bebés: os do grupo de introdução precoce de alimentos começaram a ingerir sólidos com cerca de 16 semanas, em média, em comparação com os do grupo padrão que iniciaram às 23 semanas. Durante o período do estudo, que durou cinco meses, os bebés que começaram a comer sólidos mais cedo dormiam mais do que aqueles cujas mães continuaram a amamentar exclusivamente até aos seis meses de idade — uma média de quase 17 minutos a mais, para sermos precisos.

A diferença de minutos, que atingiu o seu pico máximo aos seis meses dos bebés, persistiu após o primeiro aniversário destes, sendo que as crianças que começaram a dormir mais cedo também acordavam com menos frequência (9%) do que os outros.

Os minutos a mais de sono não compensam o fim da amamentação exclusiva

Apesar do quão atrativa possa ser a ideia de que as crianças podem dormir mais com alterações na alimentação, José Aparício, médico pediatra e coordenador do atendimento pediátrico do Hospital Lusíadas Porto, realça que as vantagens da amamentação exclusiva estão muito acima dos 17 minutos a mais de sono.

“Prefiro que os bebés durmam menos 17 minutos e que se alimentem à mama”, diz à MAGG o especialista, que alerta que este tipo de estudos e trabalhos podem influenciar uma mãe a deixar de lado a amamentação exclusiva em prol de um sono mais extenso das crianças.

O médico pediatra afirma que “17 minutos não são nada” e recomenda que “se mantenha a mama”. José Aparício é “muito crítico em relação a tudo o que coloque em causa algo adquirido já há muitos anos, como os benefícios da amamentação exclusiva nos primeiros seis meses de vida das crianças”.

De acordo com as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), o aleitamento materno deve ser obrigatório no primeiro meio ano dos bebés e só depois é que os alimentos sólidos podem ser introduzidos.

“Respeitando o trabalho citado, estamos a comparar uma média de 17 minutos de sono contra uma vantagem imunológica, nutricional, psicológica e intelectual, basicamente tudo aquilo que a alimentação materna traz de positivo para um bebé. São também 17 minutos em que a mãe está a olhar para o bebé e este para a mãe”, afirma o especialista.

De acordo com José Aparício, a amamentação exclusiva é fundamental e traz inúmeras vantagens. “É claro que a população em geral pode ser seduzida pela ideia de conseguir mais tempo de descanso para os filhos, mas tenho mais que argumentos para desmontar esta ideia de 17 minutos a mais à custa de acabar com a mama em exclusivo, que vou defender sempre, devido aos seus variados benefícios em diversos campos”, conclui o pediatra.

Em Portugal, quase dois terços das mães amamentam em exclusivo até aos três meses.

 

 

 

OMS classifica distúrbio de videojogos como doença mental

Junho 19, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 18 de junho de 2018.

O problema é definido como uma “falta de controlo crescente” que impede a realização de actividades normais num período superior a um ano.

Karla Pequenino

A Organização Mundial de Saúde (OMS) classificou os “distúrbios com videojogos” como um problema de saúde mental na nova edição da Classificação Estatística Internacional de Doenças, publicada online esta segunda-feira. A condição é definida como uma “falta de controlo crescente” ao longo de um período superior a 12 meses, em que se dá cada vez mais importância aos videojogos, mesmo com consequências negativas (falta de sono, irritabilidade, exclusão de outras actividades do dia-a-dia).

“Ter um distúrbio [no manual] é algo que os países tomam em consideração quando planeiam estratégias de saúde pública e monitorizam tendências com distúrbios”, lê-se no comunicado da OMS sobre a mudança que tinha sido anunciada no começo do ano. A nova edição da classificação de doenças – que chega mais de uma década depois da última revisão – entra em vigor no dia 1 de Janeiro de 2022. Até lá, os vários países devem preparar traduções e treinar profissionais de saúde para trabalhar com as mudanças. O manual é considerado a base para identificar tendências e estatísticas sobre doenças em todo o mundo por definir um código universal.

“Até 2022 ainda há coisas que podem mudar no manual, e há certamente muito interesse do lado das empresas dos videojogos. É uma indústria em crescimento”, diz ao PÚBLICO o psicólogo Pedro Hubert, coordenador do Instituto de Apoio ao Jogador (IAJ) que se foca no tratamento de dependências associadas aos jogos em Portugal, incluindo os jogos da sorte. Actualmente, cerca de 20% dos pacientes que chegam ao IAJ queixam-se de problemas específicos com videojogos. “Há provas científicas de que o estímulo para jogar pode ser tão forte como a nicotina e outras drogas. Por cá, há cada vez mais pais preocupados por não saber como ajudar os filhos que se isolam, começam a falhar na escola e vivem para os videojogos”, diz Hubert. “A partir do momento em que a OMS aceita isto, os critérios são iguais em todo o lado e os Estados são obrigados a reconhecer o problema.”

Há investigadores, no entanto, que recomendam cautela com o diagnóstico da OMS. A psicóloga Maria João Andrade, que gere a Grinding Mind, uma associação portuguesa para promover uma relação saudável com videojogos, relembra que os casos problemáticos são uma minoria. É algo que a própria OMS reconhece. “Estudos sugerem que o distúrbio apenas afecta uma pequena proporção de pessoas que se dedicam a actividades de jogos digitais ou videojogos”, lê-se no guia da OMS sobre as mudanças quanto aos videojogos. “Porém, as pessoas que se dedicam a esta actividade devem estar alerta sobre o tempo que passam com videojogos, especialmente quando leva a ignorar outras actividades diárias.”

6C51 Gaming Disorder

https://icd.who.int/browse11/l-m/en#/http%3a%2f%2fid.who.int%2ficd%2fentity%2f1448597234

 

O lado negro dos videojogos

Fevereiro 20, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do https://sol.sapo.pt/ de 4 de fevereiro de 2018.

Ricardo Cabral Fernandes

Henrique (nome fictício) jogava todos os dias pelo menos 10 horas. World of Warcraft e League of Legends, jogos online em que o tempo passado em competição é determinante para a pontuação e evolução da personagem, eram uma parte significativa do quotidiano do então estudante de engenharia. Hoje com 26 anos, Henrique não tem problemas em dizer que estava viciado, mas não o considera um problema grave. No seu meio, era algo normal. «Muitos dos meus colegas também jogavam a maior parte do tempo e os colegas de casa tinham uma rotina semelhante», lembra.
Quando percebeu que estava a ter mais notas, Henrique decidiu cortar. Passou a concentrar-se em projetos universitários e, aos poucos, a vida real foi levando a melhor sobre o hábito de jogar. Hoje está emigrado na Alemanha a trabalhar e joga «às vezes», conta. Mas nem todos as relações prolongadas com os videojogos acabam assim. Em dezembro, a Organização Mundial de Saúde classificou  o vício de videojogos como um distúrbio psiquiátrico. A bíblia da psiquiatria mundial, o Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais (DSM, na sigla em inglês), ainda não o reconhece, mas a próxima edição poderá ser diferente.

Uma questão de consciência

Apesar da falta de estudos e números concretos, a dependência de videojogos tem ganho crescente atenção por parte da sociedade. Quem o diz é João Nuno Faria, psicólogo da PIN – Progresso Infantil, para quem a «dependência não está a aumentar, mas cada vez há mais consciência» das famílias. A opinião é partilhada pela psicóloga Sónia Soares Coelho: «A perceção desta perturbação como perniciosa tem vindo a mudar», diz. Com essa mudança, aumentaram os pedidos de ajuda.

O ‘vício’ dos videojogos distingue-se das adições a substâncias químicas, como a cocaína e a heroína, por ser um fenómeno comportamental e não físico. Patrícia Câmara, psicóloga, defende que pode olhar-se para esta dependência como «uma identidade patológica independente» ou como «um sintoma, um mal estar de algo mais abrangente». Para Soares Coelho, as adições «estão quase sempre assentes numa necessidade de preenchimento de vazios», representando a consequência e não a causa original. «Como qualquer outro vício, as pessoas passam a centrar a sua vida – ou pseudo-vida – em torno da dependência», acrescenta Patrícia Câmara.
Para a OMS, o fenómeno pode ser caracterizado por um «fraco controle sobre o jogo, aumentando a prioridade dado ao jogo em relação a outras atividades (…) e continuação ou escalada do jogo apesar das consequências negativas».  Da última vez que a Associação Americana de Psiquiatria se pronunciou sobre o tema, na quinta edição do DSM, publicada em 2013, não quis ser taxativa, mas encorajou o aprofundamento do estudo para se apurar se deveria ser incluído como perturbação psiquiátrica num futuro próximo.

Sinais de risco 

Perceber onde está a fronteira entre o normal e o patológico pode ser difícil. Pedro Hubert, psicólogo do Instituto de Apoio ao Jogo,  explica que «não é apenas a quantidade de horas» que permite o diagnóstico, só se associada a outros critérios.

A experiência clínica leva-o a afirmar que a maioria das pessoas que sofre com este problema são jovens universitários, por ser um período de mudanças, mais liberdade mas também mais exigente. Mas também surgem casos de dependência em pessoas mais velhas, sublinha.

Entre os jovens, são comportamentos que se verificam em situações em que vivem em casa dos pais, têm pouca autonomia, problemas de ansiedade social e de interação com os outros.

Já João Nuno Faria refere que, nos casos que tem seguido, consegue diferenciar dois grupos de indivíduos: os que se encontram na linha do espetro de autismo e os «puros», como lhes chama. Estes últimos são casos mais raros, por a sua consulta se focar sobretudo em questões de desenvolvimento infantil. O psicólogo caracteriza os viciados «puros» em videojogos como pessoas com características próximas das dos toxicodependentes: manipuladoras que omitem o tempo que passam a jogar e que conseguem «viver durante um período significativo de tempo em abstinência, enquanto pensam constantemente em formas de o voltarem a fazer e nas estratégias que podem aplicar no próprio jogo».

Um fenómeno social

Para os jovens que assentem que tiveram um problema com os videojogos, há outras nuances. Henrique partilha que, apesar de sentir que desperdiçava muito tempo a jogar, durante algum tempo não viu problema nisso porque tinha muitos colegas na faculdade que faziam o mesmo. Conseguiu parar sozinho ainda durante o curso.

Já Miguel (nome fictício), também começou a jogar mais durante a faculdade. «Naquela altura acordava entre as 11h e as 14h, ia algumas aulas e o resto do tempo passava a jogar, excetuando certos eventos sociais, não muito comuns», lembra. Foi o trabalho que pôs travão ao vício.

Numa coisa concordam: acreditam que existe um estigma em torno de quem, simplesmente, gosta de passar mais tempo a jogar. Para Henrique, a própria ideia de estar viciado é um pouco subjetiva, discordando da ideia de que quem jogar muito não pode ser produtivo. No seu caso, o que fazia era despachar as tarefas mais depressa para ir jogar.
Miguel rejeita que o jogo compensasse alguma tendência para o isolamento. «Muitas pessoas veem o jogar videojogos como uma coisa antissocial e isoladora, mas não é», diz. Prova disso, acrescenta, é ter feito amigos nos videojogos e muitos amigos da ‘vida real’ usarem as mesmas plataformas. «Não vejo diferença entre os jogos e outros hobbies».
Pedro Hubert, sem comentar estes casos em concreto, reconhece que muitos doentes recusam usar o termo de viciado, contrapondo que são grandes jogadores, com estatuto e bem posicionados nos rankings, contribuindo para um sentimento de pertença à comunidade dos ‘gamers’. «Têm um sentimento de pertença muito forte não só entre os jogadores de equipa mas na irmandade», explica. «Faltar a um jogo por terem de jantar é considerado alta traição à pátria». E este sentimento de pertença não se repete com a família ou na escola.

O tratamento

Para Patrícia Câmara, importa não diabolizar os videojogos, pois podem ter efeitos benéficos em algumas situações. «Permitem a pessoas com maior dificuldade em relacionamentos sociais estabelecerem espaços intermédios enquanto não são capazes de interagir».

Quando a vida do jogador passa a estar centrada no virtual e não da realidade, pode então ser necessária uma intervenção sobre esse comportamento, diz a psicóloga.

Os especialistas convergem na importância do tratamento e em ir à procura das causas que levam à dependência, mas divergem na questão da proibição. «O objetivo, seja no jogo ou no consumo de substâncias, é sempre regular o consumo e nunca a proibição, pois já sabemos que isso não resulta», afirma Hubert. Já Faria defende que, nos tais casos puros, é preciso optar-se pela retirada total, para que se consiga trabalhar as competências psicossociais do indivíduo.
Apesar das diferenças, ambos concordam na necessidade de encontrar atividades alternativas que substituam o jogo. Câmara acrescenta ainda que essa busca deve ser acompanhada pelo profissional de saúde, sob risco de o paciente se tornar também dependente da alternativa encontrada. «Aprender a jogar a vida e os seus desafios é a única forma de largar o vício de um jogo», conclui Câmara.

 

Como saber quando os videojogos se tornam um vício

Fevereiro 5, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do https://www.publico.pt/ de 22 de janeiro de 2018.

O vício dos videojogos poderá em breve ser classificado como um distúrbio pela Organização Mundial de Saúde. Mas há quem questione essa intenção. E diga que a OMS está a ver “patologias” em comportamentos que não o são.

Karla Pequenino

Foi há cinco anos. “Olhei com raiva para o meu filho. Ele tinha menos de dois anos e estava assustado.” O instinto de gritar com o bebé persegue o programador norte-americano Scott Jenkins desde então. Foi nesse dia, aos 37 anos, e depois de mais de duas décadas a jogar videojogos, que percebeu que tinha um problema.

“Tinha os comportamentos típicos de qualquer viciado. Estava sempre a pensar em jogar, passava horas em frente ao ecrã, e não dormia para continuar a jogar”, recorda Jenkins ao PÚBLICO. Faz parte de um pequeno grupo de pessoas com dificuldade em desligar o impulso de fugir da realidade através dos videojogos. É comum encontrá-lo no Olganon, um fórum online para falar sobre o problema e pedir ajuda. Jenkins diz que utilizava as madrugadas — o único tempo livre fora do emprego e das obrigações familiares — para competir durante horas a fio com outros jogadores em mundos de fantasia online. “Estava exausto. Ignorava os problemas no meu casamento, fazia mal o trabalho, respondia mal às pessoas. Mas o rasgo de fúria que senti por o meu filho ter acordado cedo de uma sesta e me interromper assustou-me. Era como se estivesse drogado. Não quero voltar a perder a noção assim.”

Há anos que a Organização Mundial de Saúde (OMS) está a recolher casos de indivíduos em todo o mundo na mesma situação: o objectivo é perceber se a secção de “distúrbios comportamentais” do manual da Classificação Estatística Internacional de Doenças deve incluir problemas com videojogos. Se a conclusão for positiva — e notícias nos media de todo o mundo têm dado conta de que será —, a alteração acontecerá em Junho de 2018.

A OMS descreve o distúrbio como uma “falta de controlo crescente” ao longo de um período superior a 12 meses, em que se dá cada vez mais importância aos videojogos apesar das consequências negativas. “Acontece quando o padrão de jogar é de tal intensidade que afecta a ocupação, actividades sociais, educacionais, e familiares de alguém”, clarifica um porta-voz da OMS, Tarik Jasarevic, ao PÚBLICO. O fenómeno junta-se aos jogos da sorte — como a roleta ou o bingo — que já fazem parte da lista. “Há provas bem documentadas, e crescentes, da relevância destas duas condições em diferentes partes do mundo”, nota Jasarevic.

Em 2016, mais de cinco centenas dos fãs de videojogos inquiridos num estudo da Universidade de Oxford admitiram ter problemas a controlar o tempo passado a jogar. Os investigadores reuniram opiniões de 19 mil homens e mulheres do Reino Unido, EUA, Canadá e Alemanha. Entre 0,5% e 1% relataram mesmo sintomas de “grande aflição” na ausência da actividade.

Num outro estudo, citado pela OMS, 13,8% dos adultos inquiridos na Coreia do Sul admitiram ter problemas em largar jogos online.

Vergonha do diagnóstico

Quem se identifica com os sintomas, vê o reconhecimento pela OMS como uma oportunidade de pedir ajuda profissional sem medo. “Tenho imensa vergonha de não conseguir deixar os videojogos. Só o meu irmão gémeo é que sabe”, admite ao PÚBLICO Jonathan Guerreiro, um luso-descendente de 23 anos que vive na Argentina. “Por cá, estar ‘viciado em videojogos’ é sinónimo de não querer avançar com a vida. É visto como uma decisão consciente, mas não é.”

É uma das razões para não procurar ajuda profissional. Quando tenta parar sozinho, tem ataques de ansiedade — “não me consigo concentrar, fico nervoso, irritado” —, mas sentar-se em frente ao ecrã não lhe dá alívio. “Quanto mais tempo passo nos videojogos mais stressado fico por estar a evitar obrigações. Vou-me deitar exausto, a dizer que tenho de parar, mas quando acordo a vontade de jogar voltou.”

Para qualquer decisão — desde passar o fim-de-semana com os amigos, a ir às compras — Guerreiro pensa no tempo de jogo de que tem de abdicar. Há várias estratégias para manter os utilizadores cativados: as missões em aventuras de fantasia online são cada vez maiores (algumas incluem dezenas de passos e minidesafios que demoram semanas a completar) e, por vezes, se o utilizador se afasta durante uns dias — convocado por responsabilidades da vida real — o progresso desaparece e tem de começar de novo. É pior em jogos colectivos, nos quais os jogadores sentem o dever de ajudar a equipa.

Ainda assim, Guerreiro não vê os videojogos como o vilão. “Na adolescência, ajudaram-me a lidar com a depressão do meu irmão e o ambiente de tensão cá em casa. Deram-me amigos de todo o mundo”, diz o jovem. “Sempre joguei perto de três horas por dia, por vezes seis, no secundário.” Hoje, joga mais de dez seguidas.

Investigadores dividem-se

Há investigadores que recomendam cautela com o diagnóstico da OMS. “É importante reter que os videojogos não são os ‘demónios’, provocadores da adição ou do comportamento de risco nesta actividade”, alerta a psicóloga Maria João Andrade, que gere a Grinding Mind, uma associação portuguesa que tem como objectivo promover uma relação saudável com videojogos. “Se não, em vez dos oito a 13% dos jogadores que sofrem desta perturbação, teríamos com certeza bem mais.”

A psicóloga descreve a actualização do manual da OMS como “um passo importante”, mas preocupa-se com a forma como o tema surge nos media. Um dos receios é que muitos pais se precipitem a autodiagnosticar os filhos, ou a equiparar o problema aos jogos de apostas. “Nesses há um pensamento irracional pela busca da sorte. É a ideia de que ao pressionar um botão se pode ganhar”, nota Maria João Andrade. “Nos videojogos, há outros comportamentos estimulados. É preciso perseverança, raciocínio lógico e desenvolver estratégias para ganhar.” Relembra que os casos problemáticos “são ainda uma minoria”, e que há outras práticas normais a que algumas pessoas ficam presas — do sexo, às compras, ao desporto. “São actividades que nos dão prazer e onde facilmente conseguimos criar um mecanismo de fuga ou compensação”, diz Maria João Andrade.

“Então, porquê isolar os videojogos?” A pergunta é feita por Chris Ferguson, um professor de psicologia da Universidade de Stetson da Florida que tem criticado, publicamente, a decisão da OMS.

“Parte dos sintomas sugeridos [pela OMS para distinguir o vício dos videojogos] nem faz sentido. Concordar que ‘uso videojogos se me sinto stressado’ é algo completamente normal para um passatempo. Não é o mesmo que recorrer a substâncias como heroína ou álcool”, diz Ferguson ao PÚBLICO.

O investigador acusa a OMS de “estar a ver patologias em comportamentos normais” e de ser pressionada pelo “pânico moral e político que se gerou em torno dos videojogos, em particular nos países asiáticos”.

Ao PÚBLICO, a OMS diz que “não existiu qualquer pressão por qualquer governo”. Ao mesmo tempo, a organização admite que tem visto um “número crescente de actividades de prevenção e programas de tratamento em vários países”.

Em Portugal, o SICAD — Serviço de Intervenção nos Comportamentos Adictivos e nas Dependências acaba de publicar, pela primeira vez, orientações sobre o tratamento a dar aos dependentes do jogo, sublinhando que devem ser tratados na rede pública como qualquer dependente de álcool ou de drogas ilícitas.

Na China e na Coreia do Sul, o uso excessivo de videojogos e da Internet é visto como um problema grave de saúde pública. Partes do orçamento de Estado destinam-se a ajudar jovens — a cultura asiática põe uma grande pressão no sucesso escolar devido ao mercado de trabalho altamente competitivo (não há tempo a perder com compulsões por videojogos).

Também começam a surgir centros de reabilitação no Ocidente, em particular nos EUA, Alemanha e Reino Unido. Os tratamentos mais comuns variam entre uma combinação de fármacos, terapia familiar e terapia ao ar livre em ambientes rurais — muitos obrigam a uma total abstinência dos videojogos.

Abstinência é controversa

 

A psicóloga portuguesa tem dúvidas quanto ao método. “O modelo de abstinência total de videojogos para a vida do sujeito não é o ideal nem pertinente nestes casos”, diz Maria João Andrade. Corre-se o risco de ignorar alguns benefícios da actividade, como estimular a memória, o trabalho de equipa e aliviar a dor. Há vários estudos na área: em 2010, por exemplo, um grupo de cientistas norte-americanos apresentou provas de que videojogos serviam para reduzir a ansiedade face à dor crónica, particularmente, em ambientes de realidade virtual. “O foco passa a estar no jogo, e não na dor ou no tratamento médico a que alguém vai ser submetido, enquanto a realidade virtual prende os outros sentidos”, nota o investigador Jeffrey Gold, da Universidade da Califórnia do Sul, no relatório.

Muitas vezes, utilizar os videojogos como um refúgio recorrente é apenas um sintoma de algo maior. Os psicólogos que falaram com o PÚBLICO receiam que tratá-los como a causa seja uma distracção face às causas reais.

“É preciso perceber a origem do problema”, frisa a psicóloga Maria João Andrade. “Analisar caso a caso, o contexto em que o sujeito vive, as suas figuras de apoio, as suas motivações e acima de tudo trabalhar com a pessoa naquilo que a leva a desistir do grande jogo que é a vida para viver apenas o grande jogo do ecrã.”

mais informações no link:

https://icd.who.int/dev11/l-m/en#/http%3a%2f%2fid.who.int%2ficd%2fentity%2f1448597234

 

Brinquedos ruidosos põem em perigo a audição das crianças

Janeiro 15, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.dn.pt/ de 7 de janeiro de 2018.

Joana Capucho

Organização Mundial da Saúde não recomenda níveis de ruído superiores a 85 decibéis, mas há brinquedos que chegam aos 135. Pais devem estar atentos, dizem especialistas

Guitarras, minibaterias, carros, armas e MP3 são apenas alguns dos brinquedos que podem constituir um perigo para a saúde auditiva das crianças. Se o nível de ruído ultrapassar o recomendado, podem conduzir a uma perda gradual da audição, que terá consequências no desenvolvimento global da criança. Agora que o stock de brinquedos foi renovado no Natal, os especialistas aconselham os pais a avaliar o nível de ruído das prendas oferecidas aos mais novos.

“A Organização Mundial da Saúde indica que o nível máximo de ruído permitido por brinquedo é de 85 decibéis (dB), apesar de a norma europeia relativa às propriedades físicas e mecânicas dos brinquedos (EN-71) que, entre outras coisas, fixa o nível sonoro máximo na conceção de brinquedos seguros, definir como limite o valor máximo em 125 dB para brinquedos com fulminantes”, indica a diretora-geral da GAES – Centros Auditivos em Portugal, Dulce Martins Paiva. Apesar de toda a legislação que existe, a responsável acredita que muitos brinquedos ultrapassam o que está recomendado. Uma opinião partilhada pelo pediatra Hugo Rodrigues: “Acredito que as marcas mais conceituadas têm isso em consideração, mas muitos fabricantes não.”

Com a “mesma minuciosidade” com que, por exemplo, avaliam os brinquedos com peças pequenas – que podem causar asfixia -, Dulce Paiva aconselha os pais a “a avaliarem o nível de ruído emitido pelos brinquedos oferecidos aos filhos neste Natal”, porque há casos em que chega aos 135 dB. De acordo com a especialista, isto é “o equivalente ao barulho produzido por uma banda de rock”. “Imagine o que é estar várias horas, diariamente, exposto a este nível de som. Necessariamente tem de haver consequências”, sublinha.

O desenvolvimento do aparelho auditivo pode, segundo Hugo Rodrigues, ficar afetado. “Está a desenvolver-se para responder a uma determinada frequência e intensidade de sons. Se for sujeito constantemente a intensidades muito altas, são ativados constantemente os recetores e provocamos uma desabituação a valores mais baixos. Por isso é que as crianças ficam a ouvir pior, porque desabituam o ouvido a responder a intensidades sonoras mais baixas”, explica o pediatra.

Para a maioria das crianças, quanto mais ruído fizerem os brinquedos, melhor. Até certo ponto, Dulce Paiva diz que o “estímulo auditivo é benéfico, mas também pode representar um risco”.

“O uso continuado de brinquedos musicais, com níveis sonoros elevados, pode provocar, além de dor no ouvido, uma fadiga no nervo auditivo”. Isto pode conduzir “a uma redução da audição derivada de uma lesão profunda das células do ouvido interno”, tal como a “problemas de sono, irritabilidade, dores de cabeça, alterações gastrointestinais, de visão, entre outros”.

Dificuldades de aprendizagem

Além das implicações diretas na audição, Hugo Rodrigues diz que a capacidade de concentração, abstração e resposta da criança pode ficar afetada, já que “fica habituada a muito barulho e precisa de estímulos cada vez mais intensos para conseguir estar atenta”.

Esta perda auditiva nos primeiros anos de vida acaba, segundo Dulce Paiva, por prejudicar “o desenvolvimento global da criança, tanto a nível emocional como social, mas sobretudo ao nível da linguagem. Ao deixar de estar exposta ao estímulo da linguagem existe um desfasamento do seu desenvolvimento linguístico, com repercussões na aprendizagem”. São os pais e os professores quem normalmente detetam que alguma coisa não está bem. De acordo com um estudo divulgado em novembro pela associação norte-americana Sight and Hearing, 18 dos 22 brinquedos que foram testados tinham níveis superiores a 85 decibéis.

O que diz a Deco

Embora não tenha nenhum estudo específico sobre os brinquedos ruidoso, a Deco já emitiu considerações gerais sobre o tema. “A marcação CE é um símbolo colocado nos brinquedos pelos fabricantes: não é uma garantia de segurança para a criança. Daí exigirmos que sejam criados mecanismos que permitam uma avaliação dos brinquedos por parte de entidades independentes”, recomenda, destacando que “persistem fabricantes ou distribuidores que, com frequência, vendem produtos com falhas, por não seguirem padrões de fabrico exigentes ou não exercerem um controlo responsável”.

mais informações no link:

http://www.sightandhearing.org/Services/NoisyToysList%C2%A9.aspx

 

 

 

 

Médicos elogiam passagem do vício de videojogos a doença

Janeiro 9, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.dn.pt/ de 27 de dezembro de 2017.

Joana Capucho

A inclusão do distúrbio dos videojogos na lista internacional de doenças da OMS vai facilitar o diagnóstico e o tratamento de quem usa excessivamente este tipo de jogos

Isolam-se da família e dos amigos, deixam de fazer atividades que eram habituais, têm problemas de sono e com a alimentação, passam a ter pior rendimento escolar. Estes são alguns sinais de dependência dos videojogos, um problema que vai passar a poder ser classificado como um distúrbio psiquiátrico, de acordo com a nova edição do manual da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde, CID-11, da Organização Mundial da Saúde (OMS), que será lançada no próximo ano.

“É a confirmação de que esta é uma questão de saúde “mental”, que é grave. É muito importante haver o reconhecimento de que não é um problema simples de alguns adolescentes. Há uma minoria que tem problemas muitos graves e que têm que ser diagnosticados, o que será mais fácil com a publicação dos critérios”, diz ao DN Pedro Hubert, psicólogo especialista em adições na área do jogo.

Após uma monitorização deste transtorno feita ao longo de dez anos, a OMS decidiu que o vício do jogo pode ser considerado um problema de saúde mental. Embora ainda não tenha sido lançada a definição final, sabe-se que este se caracteriza por um padrão de comportamento de jogo “contínuo ou recorrente”, no qual o jogador não consegue controlar, por exemplo, o início, a frequência, a intensidade, a duração e o contexto em que joga.

Por outro lado, aumenta a prioridade dada ao jogo e diminuiu aquela que era dada a outros interesses e atividades diárias. De acordo com o esboço que está a ser preparado pela OMS, há ainda a continuação da conduta “apesar da ocorrência de consequências negativas”.

Para Pedro Hubert, este reconhecimento por parte da OMS vai permitir “fazer legislação, prevenção, diagnóstico e tratamento”, ao mesmo tempo que contribuirá para que “os próprios promotores de videojogos possam ser responsabilizados pelo que fazem”. No Instituto de Apoio ao Jogador, adianta, 20% dos pacientes têm problemas relacionados com os videojogos – há seis anos era de 1%.

Já o presidente da Sociedade Científica Ibero Latino-Americana para o Estudo do Jogo, Henrique Lopes, destaca que esta classificação no CID é “uma forma de os profissionais de saúde comunicarem uns com os outros usando um sistema alfanumérico”. A atribuição de um número a uma patologia ou pré-patologia que exista é, portanto, “uma questão básica de segurança”. “Uma maneira de, seja aqui ou na China, os profissionais estarem todos a falar da mesma coisa.” Não é, prossegue, uma integração no DSM, o manual das doenças mentais da Associação Americana de Psiquiatra, porque para isso acontecer seriam necessários marcadores específicos, “que ainda não existem para os videojogos”, pois o que é analisado são os elementos comportamentais. Pedro Hubert lembra que este problema já surge no DSM-5, publicado em 2013, mas como provisório, pois carece de mais estudos.

Avanço importante

Henrique Lopes, que é também investigador da Unidade de Saúde Pública da Universidade Católica, diz que este é um “avanço importante”, pois existe agora “uma forma de comunicar entre os países”, ou seja, “o distúrbio de impulso para os videojogos quer dizer a mesma coisa” nos vários países. “Quando disser a um colega de outro país que determinado sujeito tem este tipo de problema, ele sabe exatamente o que estou a dizer. É um elemento de segurança e clareza”, sublinha.

Segundo o especialista, “aquilo que faz que uma parte da população seja dependente é uma fragilidade nas redes de socialização”. “Quem se isola socialmente, mais cedo ou mais tarde paga o preço, que, em muitos casos, é a dependência”, afirma. A sociedade de hoje, prossegue, “é muito e cada vez mais isolacionista”: “Acabou a história de ir brincar para a rua. A digitalização dos atos da vida permite manter e reforçar isolamento.” É preciso cuidado com o tipo de jogos, alerta. “Há jogos criados para causar dependência, como os jogos de roleta ou póquer para menores de 10 anos.”

Ainda que essa vertente possa aparecer disfarçada, o psicólogo Pedro Hubert adianta que “cada vez mais os videojogos incluem dinheiro”, nomeadamente em torneios ou apostas desportivas, o que “aumenta o atrativo”. Mas é preciso ter em conta que nem todos os jogadores têm um transtorno mental.

Segundo um estudo publicado no Psychological Science, em 2009, cerca de 8,5% dos jovens americanos entre os 8 e os 18 anos eram dependentes do jogo, percentagem que é de 5% entre os estudantes australianos e que sobe para os 15% na Suíça, na faixa etária entre os 15 e os 34 anos. Em Portugal, segundo os dados cedidos ao DN por Pedro Hubert, a percentagem de jogadores patológicos subiu de 0,3% em 2012 para 0,6% em 2017 e a de abusivos passou de 0,3 para 1,2%. Números, refere o psicólogo, em que se incluem jogadores de videojogos.

Entre os principais sintomas e sinais do vício deste tipo de jogos, o psicólogo destaca os problemas de sono, os fracos resultados académicos, o isolamento, a troca de prioridades e uma má alimentação.

mais informações no link:

https://icd.who.int/dev11/l-m/en#/http%3a%2f%2fid.who.int%2ficd%2fentity%2f1448597234

Jovens obesos ultrapassarão os mal nutridos em 2022

Outubro 11, 2017 às 7:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.dn.pt/ de 11 de outubro de 2017.

Actividade física regular é uma das formas de combater a obesidade

Filomena Naves

Estudo prevê população infantil global maioritariamente obesa dentro de quatro anos. Para a OMS trata-se de “uma crise de saúde global”, a exigir políticas dirigidas ao problema

Hoje há dez vezes mais crianças e adolescentes obesos em todo o mundo do que há 40 anos e se a tendência de crescimento das últimas décadas se mantiver, em 2022, ou seja, dentro de apenas quatro anos, o número de jovens obesos tornar-se-á pela primeira vez superior ao dos que não têm peso suficiente por mal nutrição. A previsão é de um estudo do Imperial College de Londres e da Organização Mundial da Saúde (OMS), que foi publicado ontem, véspera do Dia Mundial da Obesidade que hoje se assinala, na revista The Lancet.

O trabalho, que passou em revista e coligiu ao longo de quatro décadas, entre 1975 e 2016, os dados do peso, altura e índice de massa corporal de mais de 130 milhões de pessoas com mais de cinco anos – 31,5 milhões entre os 5 e os 19 anos, e 97,4 milhões com mais de 20 anos -, é o maior estudo epidemiológico alguma vez realizado, segundo os seus autores, e mostra que a tendência para aumento de número de jovens obesos ganhou maior velocidade desde 2000. Em 1975, um por cento das crianças e jovens a nível mundial tinham peso em excesso, ao passo que em 2016 esse percentagem já chegava aos 8%.

“Esta tendência preocupante, que está igualmente em curso em países de médios e baixos recursos, reflete o impacto do marketing alimentar e das políticas que tornam os alimentos saudáveis e nutritivos demasiado caros para as famílias e as comunidades pobres”, afirma Majid Ezzati, da Escola de Saúde Pública do Imperial College, que coordenou a investigação. Por isso, sublinha o especialista, “esta é uma geração de crianças e adolescentes ao mesmo tempo obesos e mal nutridos”, pelo que alerta para a urgência de se “encontrarem formas de tornar acessíveis a estas famílias e comunidades, incluindo nas escolas, os alimentos saudáveis e nutritivos, especialmente nas comunidades pobres”. Outra medida essencial para combater o problema “é criar leis e taxas para proteger os mais novos de alimentos pouco saudáveis”, diz o coordenador do estudo.

Em 2016, último ano a que se reporta a avaliação, o número de crianças e adolescentes no mundo com peso insuficiente por deficiências alimentares era superior ao dos obesos e com excesso de peso (192 milhões no primeiro caso, 112 milhões no segundo), mas com a atual tendência de crescimento da população obesa a manter-se, nomeadamente nos países do Leste da Ásia, da América Latina e da Caraíbas, esses valores vão inverter-se no espaço dos próximos quatro, asseguram os autores do estudo.

“Esta é uma crise de saúde global”, garante Fiona Bull, que coordena na OMS o programa de vigilância e prevenção de doenças de notificação não obrigatória, notando que a situação “se agravará nos próximos anos, se não se tomarem medidas drásticas”.

A OMS já iniciou o combate contra a obesidade infantil, com a recomendação de políticas nesse sentido, e um plano cujas orientações serão hoje publicadas. Promover a redução drástica do consumo dos alimentos baratos e ultraprocessados e altos teores de calorias e gorduras, e favorecer a atividade física e os desportos são duas dessas orientações.

News release da WHO, gráficos e estudo mencionado na notícia:

Tenfold increase in childhood and adolescent obesity in four decades: new study by Imperial College London and WHO

Vício em videojogos mais perto de ser classificado como doença

Julho 23, 2017 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do site http://tek.sapo.pt/  de 4 de julho de 2017.

Estar à frente do ecrã da televisão ou do computador a jogar por tempos intermináveis tem consequências pouco saudáveis e é por isso que a Organização Mundial da Saúde está a ponderar classificar o vício como um distúrbio psiquiátrico.

A proposta estará em discussão nos comités que analisam a revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID), uma espécie de enciclopédia oficial que serve de referência a médicos e hospitais de todo o mundo sobre o que é uma doença, quais são os sintomas e como tratá-los.

Até agora, apenas o vício relativamente aos chamados “jogos de azar” consta desta lista de doenças. A ser aprovada, a classificação para os videojogos entra na próxima edição do documento, que deverá ser publicada em 2018, refere o jornal O Estado de S.Paulo, que avança a notícia.

Apesar de só no próximo ano poder ser classificado como distúrbio, já desde 2014 que médicos e investigadores demonstram preocupação com as implicações que esse vício pode trazer para a saúde.

A mudança iria contribuir para facilitar o diagnóstico e o tratamento de quem joga excessivamente, na consola, no computador ou mesmo com os seus dispositivos móveis, hábito cada vez mais comum.

Especialistas explicam que quem está viciado já não consegue separar o tempo de lazer passado a jogar e o resto, deixando que o jogo influencie as suas atividades e tarefas do dia-a-dia. “A maioria dos jovens joga de maneira tranquila e controlada. Mas entre os que se tornam dependentes vemos prejuízos importantes, como reprovação na escola, afastamento dos amigos e conflitos com a família”, afirmou ao jornal brasileiro o psiquiatra Daniel Spritzer.

 

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