Audição da criança – Formação Contínua no ISPA

Dezembro 10, 2019 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Objectivos 

Promover conhecimentos sobre o desenvolvimento infantil a nível cognitivo e socio-emocional
Promover conhecimentos sobre técnicas de entrevista a crianças e adolescentes
Desenvolver competências técnicas e relacionais para a audição de crianças e adolescentes

Competências 

Preparar o setting para a realização da audição
Adequar técnicas de entrevistas ao nível do desenvolvimento da criança ou adolescente

Programa

Enquadramento Legal
Desenvolvimento infantil cognitivo e sócio-emocional
Técnicas de Entrevista Forense
Discussão de casos práticos.

Metodologias

Exposição de conteúdos. Discussão e análise de casos práticos. Role-playing

Duração

12 horas

Formadores

Rute Agulhas
(Psicóloga e terapeuta familiar. Perita na Delegação do Sul do INMLCF-IP. Professora assistente convidada no ISCTE-IUL. Investigadora no CIS/ISCTE-IUL e no Centro de Ciências Forenses/FCT/INMLCF-IP. Doutoranda no ISCTE-IUL. Formadora sénior em Psicologia Forense)

Alexandra Anciâes

Psicóloga especialista em Psicologia Clínica e da Saúde e em Psicologia da Justiça. Pós-graduada em Medicina Legal e em Comportamentos Desviantes e Ciências Criminais. Formação em Psicoterapias na APTTCI. Perita Forense. Docente convidada do ISCTE-IUL e Formadora senior na área forense.

Calendarização

Sábado, Janeiro 18, 2020 – 10:00 – 13:00

Sábado, Janeiro 18, 2020 – 14:00 – 17:00

Sábado, Janeiro 25, 2020 – 10:00 – 13:00

Sábado, Janeiro 25, 2020 – 14:00 – 17:00

mais informações no link:

http://fa.ispa.pt/formacao/audicao-da-crianca

A criança tem o direito de brincar e de descansar. Este jogo de cartas ensina-lhe tudo

Novembro 27, 2019 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Notícia do Diário de Notícias de 19 de novembro de 2019.

Ana Mafalda Inácio

Quando se pergunta a uma criança se sabe quais são os seus direitos, é quase certo que diz que sim, alguns poderão hesitar, talvez por timidez, e muitos poucos dirão que não. O mesmo exercício com pais, professores e autoridades policiais terá certamente o mesmo resultado. Mas, ao certo, quantos sabem quais são realmente os 31 direitos das crianças que estão consignados na Convenção sobre os Direitos da Criança, assinada no dia 20 de novembro de 1989, por unanimidade, na Assembleia Geral da Nações Unidas?

De acordo com o projeto europeu ISCWeB, que avalia o bem-estar das crianças e a sua presença na família, escola e comunidade, no qual Portugal participa através do trabalho da psicóloga Joana Alexandre, no âmbito de uma parceria com o ISCTE, as crianças portuguesas conhecem os seus direitos e sentem-se felizes pela forma como são ouvidas pelos adultos.

O projeto ISCWeB, cuja recolha de dados envolveu já 53 mil crianças, nos anos de 2009, 2011, 2016, de 15 países, com idades entre os 8, 10 e 12 anos, 765 das quais em Portugal, 682 com nacionalidade portuguesa e 80 com outras nacionalidades, de várias escolas, e do 3.º, do 5.º e do 7.º anos, revela que 63% das crianças destas idades dizem conhecer os seus direitos, que 45% já ouviram falar da convenção dos direitos da ONU, e que 56% consideram que, no seu país, os adultos respeitam os direitos das crianças. Os dados deste projeto indicam ainda que 47% das crianças consideram que os adultos ouvem o que elas dizem e se sentem felizes com isso.

Mas, depois, a realidade é outra. Quem trabalha com crianças, da escola à justiça, dos pais aos psicólogos, acredita que são poucos os que sabem todos os direitos das crianças e como estes se podem fazer cumprir e respeitar. Para aumentar a consciencialização sobre este tema, as psicólogas Rute Agulhas, Joana Alexandre e Adriana Duarte construíram o Jogo dos Direitos, que lançam dia 26, para assinlar os 30 anos da convenção da ONU. O jogo tem a marca das Ideias com História, e o objetivo é “consciencializar pais, familiares, professores, educadores, autoridades de segurança e as próprias crianças sobre os seus direitos”.

“É um jogo que pretende, de forma lúdica, aumentar os conhecimentos de todos e consciencializar ainda mais a sociedade sobre os princípios e direitos das crianças. A maioria das pessoas acreditam que são apenas os direitos fundamentais e básicos que asseguram e protegem a criança, como o direito à sobrevivência, à alimentação, educação ou saúde, mas há muitos mais”, explica ao DN Rute Agulhas.

Na sua tese de mestrado, “Direitos em Jogo – Construção de Um Jogo Didático sobre os Direitos das Crianças”, a psicóloga Adriana Duarte justifica mesmo que “a literatura tem evidenciado que, muitas vezes, crianças e adultos têm um parco conhecimento sobre os direitos da criança. Torna-se, assim, premente educar sobre e para os direitos da criança, com o objetivo de promover a sua plena promoção em diferentes contextos de vida da criança”.

Os 31 artigos dos direitos em dois baralhos de cartas

A verdade é que a convenção dos direitos tem 54 artigos, 31 de direitos, divididos em quatro categorias: os direitos de sobrevivência, associados à prestação dos cuidados básicos, os direitos de desenvolvimento, que respeitam aos direitos de disponibilidade e acessibilidade a determinados serviços, como educação e saúde, os direitos à proteção, contra qualquer forma de violência física, psicológica ou sexual, e, por último, os direitos de participação, relativamente ao direito de cada criança poder expressar a sua opinião, envolver-se ativamente na vida da sociedade.

“Este é um direito importante e que muitos desconhecem ou ignoram. A criança tem direito a dar a sua opinião, a ser ouvida nas decisões que lhe dizem respeito, mas também tem o direito ao lazer, a brincar e até ao descanso. E muitos ignoram este direito”, explica de novo a psicóloga. Por isso, “este jogo pretende exatamente dar mais conhecimentos às crianças sobre aquilo a que têm direito, até para aumentar as suas competências para reconhecer as situações em que os seus dieitos não estão a ser assegurados”, afirma, sublinhando: “É preciso potenciar a perceção dos próprios adultos sobre os direitos dos filhos ou das crianças com quem trabalham, que os percebem de uma forma mais alargada e aprofundada, porque cada vez mais todos somos agentes de mudança numa sociedade plural e desafiante.”

O Jogo dos Direitos é constituído por dois baralhos de cartas, um para crianças dos 3 aos 6 anos, outro para as que têm entre 7 e 14 anos, ambos estão divididos em nove atividades, que vão desde a memória à lengalenga, da mão protetora e do avião de papel até aos direitos com história, e vamos descobrir os nossos direitos. O último baralho está preparado para abarcar duas faixas etárias, dos 7 aos 10 e dos 11 aos 14.

De acordo com as psicólogas, todas estas atividades foram pensadas para se recorrer ao baralho de cartas – no entanto, “os adultos podem fazer uso da sua ciatividade e imaginação e utilizar as cartas de outra forma, porque o objetivo, tendo em conta a existência de cartas que contêm apenas os direitos das crianças, é o jogo poder alargar-se para outras atividades e contextos”, referem.

Todos os direitos são importantes, desde o da sobrevivência ao lazer e ao descanso.

O jogo, conforme salienta Rute Agulhas, pretende mostrar que todos os direitos são importantes, até aquele que tantas vezes é esquecido, e que é o direito à participação, definido na convenção da ONU nos seguintes artigos: 12 – a criança tem direito a exprimir os seus pontos de vista; 13 – liberdade de expressão, em que a criança tem direito a exprimir os seus pontos de vista, obter informações e dar a conhecer ideias e informações, sem considerações de fronteiras; 14 – liberdade de pensamento, consciência e religião (o Estado respeita o direito da criança à liberdade de pensamento, consciência e religião); 15 – liberdade de associação (as crianças têm o direito de se reunir e de aderir ou formar associações); 16 – proteção da vida privada (a criança tem o direito de ser protegida contra intromissões na sua vida privada); 17 – acesso à informação apropriada (o Estado deve garantir à criança o acesso a uma informação e a materiais provenientes de fontes diversas, e encorajar os media a difundir informação que seja de interesse social e cultural para a criança).

Um jogo para mostrar às crianças e aos adultos que lidam com elas que, afinal, todos os direitos são importantes, mesmo aqueles que parecem não o ser. Mas, além dos direitos, o jogo implica também o ter de lidar com os deveres das crianças. “Todos têm de aprender que há direitos, que estes não se reduzem aos básicos, da sobrevivência à educação, mas que há também deveres, para com os outros e para com a sociedade, e o jogo também aborda este lado”, refere ao DN Rute Agulhas.

As psicólogas acreditam que só havendo “este conhecimento é possível o respeito, a prática e a promoção dos direitos da criança, podendo assim promover-se uma sociedade mais inclusiva e tolerante”.

Quando uma mãe coloca um filho no lixo

Novembro 16, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no DN Life de 10 de novembro de 2019.

Quando uma mãe coloca um filho no lixo todo o país pára e desata a formar impressões e a tecer juízos de valor, com base na pouca informação disponível. Esticam-se dedos acusatórios e condena-se a mãe (a quem chamam monstro) em praça pública, antes ainda de serem conhecidos todos os contornos da situação. Outros há que se focam no facto de a mãe viver, alegadamente, na rua, o que remete para questões sociais, económicas e políticas associada à realidade das pessoas que vivem sem abrigo. Uma realidade que permanece ainda sem respostas suficientemente adequadas e que, sabemos, tantas vezes se cruza com problemas a nível de saúde mental e consumo de substâncias.

Naturalmente que este caso tem um forte impacto negativo em todos nós. Falamos de um bebé recém-nascido colocado num contentor do lixo, como se de lixo, realmente, se tratasse. É algo horrível e que activa emoções muito fortes. E ainda bem que assim é, sinal de que estamos perante um comportamento dissonante e que conseguimos empatizar com aquela criança. Sinal de que somos humanos. Sinal de que há alguma esperança no futuro.

No entanto, calma com os juízos de valor, as condenações a priori e as abordagens sensacionalistas. Antes de julgar e criminalizar, é necessário avaliar a situação para compreender. Sendo que compreender não significa desculpabilizar.

Onde estava ela nessa altura? Qual o seu percurso de vida? Apresentava já factores de risco ou alguma problemática em particular que não foi detectada a tempo?

É necessário avaliar a mãe do ponto de vista psicológico e perceber se estamos perante um quadro depressivo severo, no qual o próprio, os outros e o mundo são percepcionados de forma muito negativa. De acordo com a literatura, estas mães sentem-se sem recursos para enfrentar um mundo ameaçador e acreditam que o futuro será apenas o eternizar de uma situação de forte sofrimento. Ou se a mãe cometeu este crime no contexto de um surto psicótico, sem capacidade de avaliar, no momento em que o cometeu, da ilicitude do acto e das possíveis consequências do mesmo. Ou se esta criança é fruto de uma violação e o bebé percepcionado como a personificação do violador, a prova viva daquilo que aconteceu e deseja esquecer-se. Ou… ou… tantas hipóteses ainda em aberto, e tanta pressa já em julgar.

Esta mãe, jovem adulta numa situação de exclusão tão limite, foi antes uma adolescente. E antes, ainda, uma criança. Onde estava ela nessa altura? Qual o seu percurso de vida? Apresentava já factores de risco ou alguma problemática em particular que não foi detectada a tempo? Para a qual não existiu uma intervenção adequada? Se sim, onde falhou o sistema? Onde falhou a comunidade? Onde falhamos, portanto, todos nós?

Que este caso horrível sirva para várias coisas.

Que sirva para que a saúde mental e a intervenção social deixem de ser olhadas como questões de segunda categoria. E que isso se reflicta a nível das políticas públicas e consequentes medidas de intervenção.

Que possamos centrar-nos mais em abordagens preventivas e de redução do risco, ao invés de manter o foco na remediação e minimização dos danos.

Que possamos também olhar mais para dentro de cada um de nós. O que podemos fazer, enquanto cidadãos e profissionais, em prol dos outros e da comunidade? Quantas mães como esta vivem perto de nós, invisíveis aos olhos de quem as vê? Quantos de nós viram a cara quando passam por pessoas que vivem em situações de total degradação e miséria humana? Quantos de nós fingem não ver?

Que este bebé colocado no lixo traga visibilidade a tantas outras realidades invisíveis.

Alunos que agridem professores e professores que agridem alunos

Outubro 31, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no DN Life de 26 de outubro de 2019.

Diversas situações de agressões físicas entre alunos e professores têm sido noticiadas recentemente, dando conta de uma realidade que sabemos que existe e cuja prevalência é muito preocupante. Este é um tema complexo que remete para diversos aspectos, entre eles o papel da família, a representação social da escola e dos professores, bem como a saúde mental de todos os envolvidos.

Mas vamos por partes.

Antes de mais, o papel da família, principal agente de educação e formação das crianças e jovens. A quem cabe educar, não apenas numa perspectiva de satisfação das necessidades (sejam elas físicas, cognitivas ou emocionais), mas também enquanto instructores directos, assumindo um papel mais didáctico numa lógica de resolução de problemas cognitivos ou de interacção social. É na e com a família que as crianças aprendem em primeira instância, porque lá encontram os seus principais modelos, que observam e tendem a imitar. Porque lá percebem que os comportamentos têm consequências, positivas ou negativas. Porque lá aprendem as regras, que podem, ou não, interiorizar. Porque lá percebem a diferença entre o certo e o errado, valores que podem, ou não, interiorizar. Tudo depende da forma como os pais souberem, ou não, desempenhar estes diferentes papeis. O que, por sua vez, se relaciona com variáveis dos próprios pais (como a sua história, aprendizagens passadas, personalidade, crenças), da criança (o temperamento da criança é um factor importante a ter em conta, que também influencia a forma como os pais interagem com ela) e do meio (como, por exemplo, as dinâmicas conjugais, o stresse parental e a rede de suporte social da família). Resumindo, o exercício da parentalidade não é linear e pode ser determinado por um conjunto de factores que, por sua vez, influenciam o desenvolvimento da criança.

E o que temos nós, tantas vezes? Crianças e jovens que crescem com a interiorização de que tudo podem fazer, sem quaisquer consequências negativas. Crianças e jovens autocentrados, sem tolerância à frustração ou capacidade para resolver problemas de forma assertiva. Crianças e jovens com necessidade em sentir controlo e poder, impulsivos, pouco empáticos e desmotivados. Com dificuldade em regular as suas emoções e em antecipar as consequências dos seus actos. Neste contexto, agredir os professores (os seus pares ou qualquer outro adulto) surge como algo natural, a resposta lógica e ajustada, face a um meio que é sentido como injusto e ameaçador.

Se os pais também contribuem para este cenário? Claro que sim.

E, neste contexto de desvalorização, progressiva desautorização e, até, desrespeito, a par da insegurança e imprevisibilidade que os professores sentem, estão criadas as condições para termos adultos desmotivados

Em segundo lugar, falemos da representação social da escola e dos professores. Olhamos para trás e parece que passámos do 8 para o 80. De um contexto e uma classe com muito poder, tantas vezes temida pela autoridade exercida, para um contexto de segunda classe, de menor importância, por vezes até ridicularizada. A quem tudo se pede e tudo se exige, como se a escola tivesse agora de se substituir à família. E, neste contexto de desvalorização, progressiva desautorização e, até, desrespeito, a par da insegurança e imprevisibilidade que os professores sentem, estão criadas as condições para termos adultos desmotivados, cansados e sem recursos para lidar com as exigências crescentes que a infância e adolescência de hoje colocam.

De mãos dadas com tudo isto, a saúde mental, ou a falta dela. Nas crianças e nos jovens, nos pais, nos professores, em toda a comunidade escolar. E aqui não há volta a dar. O sistema educativo precisa de mais psicólogos, num rácio adequado que permita, não apenas desenhar e implementar programas de intervenção, mas também e, acima de tudo, investir na prevenção primária. Em articulação com outros profissionais, destacando-se aqui o papel fundamental dos agentes da escola segura. Sublinhar também que a academia pode e deve ser um precioso aliado das escolas, num esforço de implementação e disseminação de metodologias com base em evidências.

A Psicologia pode ainda ajudar a um outro nível, mais macro, numa lógica de repensar o funcionamento do sistema educativo e as políticas que o orientam. Porque falar de educação é, antes de mais, falar de pessoas que estão numa fase muito sensível do seu desenvolvimento. E estará a escola dos dias de hoje adaptada à infância e juventude dos dias de hoje? Penso que não.

Face a tudo isto, e em jeito de conclusão, dizer apenas que colocar a tónica no castigo e suspender os alunos ou professores agressores não resolve a situação. Digamos que seria como se um médico colocasse um penso rápido para combater uma infecção generalizada.

“Estamos a criar adultos egocêntricos, centrados apenas nas suas necessidades”

Outubro 18, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Rute Agulhas ao Pontos SJ de 16 de março de 2018.

Rute Agulhas, psicóloga, acompanha crianças e jovens, alguns em grande sofrimento. Diz que sociedade imediatista e consumo excessivo de tecnologia estão a gerar jovens que não sabem sonhar, esperar, nem lidar com a frustração.

Escreveu recentemente uma carta aberta aos youtubers onde lhes pedia atenção àquilo que faziam. Isto porque tinham chegado ao seu consultório crianças com crises de ansiedade devido aos vídeos que viam no youtube. O que é que este fenómeno nos diz sobre as crianças e jovens de hoje?

Os youtubers são um fenómeno recente em Portugal mas com uma adesão exponencial, e entre miúdos cada vez mais novos. Muitos dizem de forma clara que quando forem grandes querem ser youtubers. Vejo miúdos de 10 anos que fazem cursos para criar e manter uma conta no youtube.

O que é que isto nos diz dos sonhos e desejos das nossas crianças e jovens?

Os youtubers são um modelo incontornável. São jovens adultos, entre os 20-25 anos, que fazem vídeos com conteúdos diversos: uns são puro entretenimento, brincadeiras, que não trazem grandes consequências para os miúdos, mas outros têm conteúdos assustadores, como a “Maria Sangrenta”, ou abordam temas que depois não são clarificados, levando os miúdos a fantasiar. Escrevi esta carta por perceber que havia miúdos com ansiedades, medos, pesadelos e até dificuldades em adormecer porque pensavam em conteúdos dos vídeos. Depois há os jogos, onde aparece a cara do youtuber a jogar e, se uns são inofensivos, outros, como o “Palhaço assassino”, têm conteúdos assustadores. Os miúdos vêem o seu modelo a expressar medo, a ficar assustado, a gritar, a arregalar os olhos. E, por norma, tendemos a mimetizar e a comportar-nos por observação dos nossos modelos. Os youtubers são modelos porque são simpáticos, geram empatia, e os miúdos identificam-se com eles, querem ser iguais a eles, vestir como eles, ter as mesmas coisas do que eles. Os seus produtos de merchandising, livros ou revistas, esgotam num instante, e as meninas pintam o cabelo e maquilham-se da mesma forma das youtubers.

A minha ideia foi levar os youtubers, que talvez façam isto sem pensar nas consequências, a refletir sobre a importância do seu papel, pois têm centenas de milhares de seguidores. Por exemplo, o Casio atingiu há dias os cincos milhões de seguidores. Os miúdos estão sempre em cima do acontecimento pois usam os telemóveis e tablets dos pais, fazem uma subscrição, e quando há um novo conteúdo são notificados. Muitos pais nem sabem. E se não estão a par de tudo, quando chegam à escola imediatamente passam a estar.

A questão central é que aos pais, educadores e família compete o dever de supervisão dos conteúdos e do tempo gasto nisto. Há miúdos que passam horas agarrados ao youtube. Mas muitos pais estão tranquilos porque os filhos estão sossegadinhos no quarto e não estão na rua… O ISCTE fez um estudo recentemente que mostrou que os pais ainda continuam a achar que os perigos estão na rua, são as drogas, os consumos, as más companhias. Não acham que as redes sociais sejam preocupantes e não supervisionam. Os miúdos, que são inteligentes, sabem fazer mais do que os pais e apagam o histórico depois de usar o tablet. Há pais que põem regras, como não levar os telemóveis para a cama. Mas a verdade é que há miúdos que esperam que os pais adormeçam e levantam-se para ir buscá-los. Outros acordam às seis da manhã ao fim de semana, e quando os pais acordam às 9 horas, já eles têm três horas de tecnologias. Na escola, se não têm telemóvel, vêem no dos amigos. Não há forma de controlamos a 100 por cento esta exposição, por isso o investimento só pode passar pela educação.

Como se consegue?

Tem que se conversar sobre o que vêem, explicar, perder tempo, estar com eles a ver. Por vezes, os miúdos estão com phones e nós nem sabemos o que estão a ouvir. Há situações em que têm mesmo de por filtros nos equipamentos. Há pais muito diferenciados que confiam plenamente que os miúdos já têm maturidade para fazer o seu filtro. Mas não têm. Tem de caber aos pais esse papel. Por outro lado, não se trata de culpabilizar os youtubers mas de ajudá-los a serem mais sensíveis ao que fazem e aos seus impactos.

Como é que eles reagiram à sua interpelação?

Reagiram bem e admitiram que nem sempre pensam nas consequência. Por vezes até alertam no final dos vídeos “atenção, não repitam isso, é uma brincadeira, não façam isso sem a presença de um adulto“. Mas estamos a falar dos últimos dez segundos do vídeo, onde a atenção da criança já se esbateu. A mensagem não passa.

No meio de tudo isto, as crianças ficam aterrorizadas, com medos. Mas porque é que continuam a ir ver, mesmo após as recomendações?

Os youtubers misturam conteúdos assustadores – que levam a medos, ansiedades e problemas do sono – com conteúdos lúdicos. Quando os miúdos começam a ver um vídeo não sabem se será assustador e é muito difícil parar a meio. Os youtubers são comunicadores natos, muito apelativos e expressivos a nível não verbal. Os miúdos também afirmam: “depois chego à escola e não tenho nada para comentar”. Ou seja, sentem-se excluídos face aos pares. Todos viram, comentaram, e eles sentem-se excluídos. E nesta idade é muito importante sentirem-se parte de um grupo. No outro dia um dizia-me: “por um lado quero ver, por outro não quero”. Ficam naquela ambivalência. E se não têm ninguém que os ajude a processar e a pensar as vantagens e desvantagens de ver, como podem lidar com o chegar à escola e os outros gozarem por não terem visto? Então optam por ser iguais aos outros, porque há este fenómeno de identificação.

O espaço de conversa entre pais e filhos é cada vez mais difícil?

Cada vez há menos tempo para isso. As pessoas não podem deixar de trabalhar mas há pequenas coisas que podem fazer a diferença, como não ter o rádio ligado quando se vai buscar as crianças à escola, não jantar com a televisão acesa, aproveitar o banho para interagir com os filhos. Sabemos que os miúdos não reagem muito quando lhes perguntamos como foi o dia. Este tipo de interrogatório é infrutífero, é de uma forma mais descontraída que as coisas vem. Os rituais familiares que facilitem a comunicação e a expressão afetiva são muito importantes. São zonas de conforto, criam previsibilidade na vida das crianças. Não se trata de criar tempo extra – os pais queixam-se muito que esse tempo extra não existe -, mas de aproveitar o tempo que têm.

Mas vemos famílias juntas no restaurante onde miúdos e pais estão agarrados ao telemóvel…

Os pais são os modelos. Se eles estão agarrados, é difícil dizer aos filhos para não estarem. Pior: os pais dão os telemóveis e os tablets aos filhos para eles se calarem. Desde pequeninos que fazem isso.

Qual o impacto disso nas crianças?

Não podemos fazer de conta que não estamos na era das tecnologias e pensar que os nossos miúdos de hoje vão crescer da forma como nós crescemos. Quando eu digo aos meus filhos que tive telemóvel aos 23 anos eles quase que desmaiam. A realidade não vai ser a mesma, é um facto. Mas é preciso um equilíbrio e isso é que muitas vezes não se consegue. Os pais delegam muito na internet: se o filho está a fazer o TPC e tem uma dúvida, respondem: “vê no Google“. É a resposta mais fácil. Os pais têm um papel pedagógico e, em vez de ir ao Google, pode ir ao dicionário ou à enciclopédia. Isso implica motivação e sensibilidade e muitas vezes os pais preferem uma solução mais tipo penso rápido do que uma solução de fundo.

Esse consumo excessivo de tecnologia não traz danos a nível da criatividade e da empatia?

O principal impacto é o imediatismo que os miúdos querem em tudo. É o aqui, o agora, e o já. A tolerância à frustração é baixíssima, não têm capacidade de adiar o presente. Os pais, como se sentem culpados pela falta de tempo para os filhos, tendem a compensá-los de outras formas, muitas vezes desajustadas, como por exemplo o materialismo, e o já, o agora. Os miúdos não têm capacidade de espera. Por definição uma criança ou adolescente é auto-centrado, pensa que o mundo gira à sua volta. Se não houver ninguém que o ajude a descentrar-se, a ver que há realidades para além deles próprios, é difícil. Estamos a criar adultos egocêntricos, centrados apenas nas suas necessidades e pouco empáticos. E isso assusta-me.

Mas vai percebendo que também há sonhos, valores e coisas positivas que movem estas crianças?

Claro. Eu vejo de tudo. Ainda no outro dia um miúdo me dizia: “no Natal não quero presentes pois para mim o mais importante é estar com a família, as pessoas de que eu gosto…” Eu até pensei que não estava a ouvir bem pois só estou habituada a ouvir um consumismo desenfreado.

O que esperam os pais dos filhos?

Bons alunos, excelentes notas. Os miúdos têm agendas assustadoras, cheias de atividades extra curriculares e os pais só esperam que eles sejam os primeiros aqui e ali. É quase uma coisa narcísica para os pais: “o meu filho foi o melhor nisto“. Mas se calhar o filho está triste, não tem amigos, está de rastos, e quase não dorme porque sai do futebol às nove da noite e entra na escola às oito da manhã. Parece que os pais não vêem isso: não há tempo para fazer nada, como se fazer nada fosse uma perda de tempo. Não fazer nada é a coisa mais importante do mundo. Para eles criarem e sonharem alguma coisa têm de ter espaço para isso, e não têm. Depois chegam as férias e os pais só querem ocupar-lhes o tempo ao máximo.

Há pouco falava da espera. Agora da gratuidade. São tudo valores que são difíceis de transmitir hoje?

Sim… Ainda vejo algumas famílias com estas preocupações. Por exemplo, de não ver televisão, de restringir o uso das tecnologias, de privilegiar o contacto com a natureza, de dar metade dos presentes de Natal a uma instituição. Há pais que fazem este esforço… Mas a falta de tempo e a necessidade que os miúdos têm de conversar é enorme. Os pais ficam muito perdidos, por vezes querem ser os melhores amigos dos filhos e os papéis confundem-se. Há pais que me dizem: “quero ser o melhor amigo dela para ela me contar tudo“. Mas ela tem que contar o que entende, porque confia no pai e vê nele um papel parental e não um amigo.

Os pais têm dificuldade em gerir este desejo de proximidade e autonomia?

Sim. E quando entram na pré adolescência, por um lado querem monitorizar – e devem – mas depois há o respeito pela privacidade. Os miúdos reagem mal quando se vai ver o telemóvel ou a conta de instagram. Pais muito controladores levam a que os miúdos criem contas paralelas nas redes sociais. E eles acham que controlam e não controlam nada. Tem de passar pelo diálogo e isso implica tempo, disponibilidade, e os pais perceberem que isso é importante. Muitas vezes, o sucesso académico, profissional  e financeiro são a única bitola para medir o sucesso. Os pais vangloriam-se muito do sucesso dos filhos, como se fosse o prolongamento do seu sucesso pessoal. Ou pelo contrário, para que eles possam ser aquilo que eles não puderam ser.

E o contrário também acontece? Os pais sentirem o falhanço dos filhos como falhanço pessoal?

Sim. Perguntam-se: “onde é que eu falhei? O que vão pensar de mim? Qual vai ser a minha representação social se o meu filho não for o melhor?” Há uma metáfora na parentalidade que diz que educar um filho é como lançar um papagaio de papel. Se damos pouca corda e puxamos muito, o papagaio cai. Mas se damos muita corda, o papagaio perde-se. Este equilíbrio, que não é fácil, é entre a autonomia e a segurança, o vínculo. Deixar voar mas perceber que há aqui segurança, um sítio onde podem sempre voltar. Este é um equilíbrio que implica ajustamentos e nem sempre os pais estão disponíveis para isso.

Porque é que há tantas falhas nas competências dos pais?

Há variadas razões. Antigamente, havia uma aldeia a cuidar de uma criança, como diz o provérbio, pois havia uma perspetiva comunitária. Hoje as pessoas estão muito sozinhas, nem o vizinho conhecem. Os miúdos muito entregues à escola, ao ATL, e num determinado estatuto económico, às empregadas. Os pais são um bocado periféricos na vida das crianças, estão tão ocupados que nem têm muita noção das coisas. Há miúdos que vivem numa “gaiola dourada”, que saem da casa para o colégio, e vice-versa, enquanto os pais estão entregues às suas vidas profissionais altamente exigentes. É oito ou 80: os pais que não supervisionam e dão a liberdade toda e depois este extremo da gaiola dourada.

Os miúdos das classes mais altas sofrem mais isso?

Diria que sim. Muitos nem têm competências básicas para andar num transporte público. Andam sempre de UBER ou no carro dos pais.

Mas que tipo de jovens são os dos nossos dias?

Correndo o risco de generalizar, diria que não têm tolerância à frustração. Não fazem planos a médio e longo prazo porque estão habituados ao aqui e agora e não sabem o que é trabalhar para uma meta, ter prazos e tarefas para cumprir até lá, algumas que duram tempo. É mais: eu quero isto agora e já. Até nas classes mais baixas: há pais sem posses e filhos com iphone. São atributos de exteriorização que os miúdos valorizam imenso.

A sociedade vive muito de estímulos e parece impossível criar uma personalidade que não seja uma manta de retalhos. Como podemos ajudar as crianças e jovens a encontrarem formas de unificação interior?

Para aceitarem e assumirem que não têm de ser iguais e fazer o que os outros fazem, tem de haver uma auto estima e segurança que a maioria deles não tem. Mesmo nos comportamentos mais desviantes, de consumos, de automutilações, percebemos que é um fenómeno de grupo. “Como estou num grupo onde estão todos a fumar um charro e eu não estou?” “Se três ou quatro se auto-mutilam porque eu não o faço também?” E experimentam e depois pensam: “até soube bem porque a tristeza que eu tinha até desapareceu por uns momentos“…É uma coisa assustadora. Muitos fazem parte de grupos na internet onde partilham os cortes, como se cosem, etc.

Mas isto está sempre associado a um sofrimento muito grande..

Sim, claro. Mas também está relacionado com processos de identificação. Sabemos que os miúdos precisam de se identificar. Mas temos que perceber como podemos contribuir para que o processo de identificação seja em torno de algo positivo, como o desporto, o acreditar em algo.

Até que ponto as tradições religiosas podem ajudar nisto?

Podem facilitar a dois níveis. Primeiro porque têm muitos rituais, de congregação: as pessoas unem-se para celebrar algo em comum. E depois algumas religiões –  e tenho miúdos de várias –  têm crenças culturais e religiosas que ajudam a lidar com determinadas circunstâncias, nomeadamente a perda, que pode não ser necessariamente a morte, mas uma perda qualquer. O facto de acreditarem em algo facilita a aceitação.

E a espiritualidade como desejo de aperfeiçoamento, de ser melhor, de ter uma ajuda externa, também é importante?

Sim, para jovens e adultos. Vejo pessoas que, em momentos difíceis, seguiram por esse caminho e afirmam que sentiram uma paz interior e adquiriam outra capacidade para olhar as coisas. Sentem-se menos sozinhas, e isso ajuda a lidar com depressões, lutos, ansiedades e divórcios. Quando os filhos saem de casa, (síndrome do ninho vazio) muitas reorientam-se e vão à procura do voluntariado, de sentirem-se bem a fazer o bem. É muito gratificante: fazer o bem pelo bem, a troco de nada, pode ser terapêutico até do ponto de vista da sintomatologia.

Também tem essa experiência com jovens?

Sim. Acompanho miúdos que, por terem problemas de comportamento e pré delinquência e, e numa perspetiva construtiva, foram encaminhados para projetos da comunidade. Ao início têm relutância, dizem que não se identificam e só vão porque são obrigados, mas depois a gratificação que tiram é grande. Recordo um que estava num projeto de sem abrigo e que dizia que não queria estar com aquelas pessoas; depois começou a contar-me histórias, quase com uma lágrima no olho, pois estava a sentir empatia, a saber pôr-se no lugar do outro. Vejo também muitos universitários pró-ativos que, apesar de estarem muito focados na universidade, querem guardar espaço para fazer voluntariado.

É uma forma de contrariar este auto-centramento?

Sim, e reconhecem que isso os ajuda a sentirem-se melhores pessoas. Esta perspetiva comunitária tem-se perdido mas tem de ser reconquistada. O poder da comunidade é muito grande. Os bairros antigamente tinham essa função e o mundo rural também. Hoje as famílias nas cidades estão dispersas e há falta de redes sociais.

Mas as crianças vivem essa ilusão com as redes sociais tecnológicas…

Sim, claro. Têm x amigos mas são virtuais, não se conhecem. E mesmo quando estão lado a lado, mandam mensagens uns aos outros. Os professores dizem que nos intervalos os miúdos estão todos lado a lado a teclar.

Isto resolve-se limitando o acesso às tecnologias até determinada idade?

Mas como se limita? Onde não há internet? E como se monitoriza?

É preciso forçar as crianças a brincarem umas com as outras?

Sim. Alguns já nem sabem fazê-lo, têm déficits de competências sociais, não sabem convidar para brincar, pedir namoro. É tudo virtual, por emojis. Os miúdos falam por mensagens muito curtas e cheias de simbolismo, pelo que a probabilidade de mal entendidos também é maior. A subjetividade da comunicação gera dificuldade na comunicação.

Isso é assim tão generalizado?

A minha amostra é enviesada porque eu vejo as famílias sempre nalgum estado de sofrimento. Mas os adolescentes, numa maneira geral, é assim que comunicam. O que é assustador. Ou os pais contrariam isto, de uma forma ativa – e isto implica chatearmo-nos com os filhos, dizer não, acabou – ou então não sei…. O problema é que temos muitos pais sozinhos, no pós divórcio, e que têm medo da rejeição e da perda dos filhos, sendo, por isso, mais permissivos. Pensam: “Se eu digo que não, ele não quer vir para a minha casa”. Entre uma coisa e outra, os miúdos esticam a corda e é uma escalada.

Falta literacia sentimental aos pais? Há dificuldade em ler o que se passa dentro de cada um e de o expressar?

Sim. Não há emoções boas e emoções más mas vemos muito nas crianças a ideia de que a tristeza, a raiva e a zanga são coisas más. São emoções como as outras, desde que devidamente enquadradas e geridas. E mais uma vez os pais são modelos: se morre alguém e os pais choram às escondidas, porque não podem mostrar aos filhos que estão tristes, que sentido isso faz? Não estamos a dotar os miúdos de competências para lidar com as emoções, sejam positivas ou negativas. Para serem modelos, os pais têm de estar confortáveis com a sua parte emocional. Ou seja, eu posso zangar-me, tenho direito, mas não tenho direito de magoar, de partir uma mesa. A legitimidade entre a emoção e a legitimidade do comportamento. Tenho de ter capacidade para comunicar. Se isto não acontece no seio mais primário que é a família, onde vai acontecer?

Falando agora das famílias que, em vez de serem porto de abrigo, são o motivo do sofrimento das crianças, devido a maus tratos ou conflitos parentais. De que forma isso agudiza o sofrimento?

Quando os maus tratos acontecem no seio da família derruba-se a crença base que qualquer ser humano precisa de ter, a de que “eu pertenço a algo“, neste caso à família, à qual posso recorrer em caso de necessidade. Se quem devia proteger não o faz, e os miúdos não encontram alternativas, é o arruinar do sentimento de segurança. Por vezes encontram alternativas na família alargada, na escola, nos amigos, e isso são fatores protetores. Mas quando não têm competências para ir à procura, para pedir ajuda, é muito pior. Não é necessariamente hipotecar o futuro mas diminui claramente a esperança no futuro. Pois se eu não tenho uma base e uma vinculação seguras, como vou explorar o mundo e arriscar o que quer que seja? Surgem as ansiedades, inseguranças, a dificuldade em confiar. Cai por terra a ideia de que há pessoas que me amam incondicionalmente e estão dispostas a tudo por mim. Dificuldade em expressar emoções, em ter relações de intimidade emocional, em confiar, são características típicas das vinculações desorganizadas, associadas aos maus tratos e abandonos, aos pais inconsistentes, à falta de previsibilidade. As crianças precisam de perceber que, aconteça o que acontecer, o pai está lá. Isso condiciona depois a forma como se vinculam aos outros adultos e traduz-se nas relações de casal muito complicadas e também no exercício da parentalidade. Quando avaliamos pais mal tratantes, abusivos, é muito importante perceber como eles próprios se vincularam e cresceram.

Os pais têm noção disso? Conhecem-se?

Muitas vezes não. E como não têm capacidade de perceber, vão replicando o modelo disfuncional. As famílias que estão disponíveis, conseguem mudar. Mas nem todas as famílias são trabalháveis.

Ao lidar com estes sofrimentos, consegue acreditar no futuro e nas crianças?

Tento agarrar-me às coisas boas, como àquela criança que disse que o mais importante era a família. Tento valorizar estas situações boas que me fazem não desistir de acreditar no ser humano. No meio de tantas experiências menos boas, aprendemos a distanciar-nos, mas há dias em que chego a casa e choro.. Trabalho há 20 anos e alegra-me perceber que hoje se reflete muito mais sobre estas coisas, por isso quero acreditar que daqui a uns anos estejamos bem melhor.

 

Rute Agulhas é Psicóloga especialista em Psicologia clínica e da Saúde, Psicoterapia e Psicologia da Justiça. Docente universitária. 

Fotografia: Nuno Pinto Fernandes

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.

Pais que estudam pelos filhos

Setembro 28, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no DN Life de 22 de setembro de 2019.

O ano lectivo ainda agora começou e já vemos pais e mães empenhados em organizar o processo de estudo… o seu, não o dos seus filhos. Pois é, existem milhares de pais que estudam, não com os filhos, mas sim pelos filhos.

Assumem os testes como sendo deles, as notas como sendo suas. Recordo-me, inclusive, de uma adolescente que chegou a casa e começou aos gritos com a mãe, acusando-a de não ter estudado “como deve de ser” e, por isso, ela (adolescente, a aluna) ter tido má nota. A mãe pediu desculpas…

Bem, temos mesmo que reflectir sobre isto.
O que queremos para os nossos filhos?

Queremos que cresçam e que sejam autónomos, ou que se mantenham dependentes dos pais ad eternum?

Queremos que sejam responsáveis e assumam as consequências dos seus comportamentos, ou que atribuam aos outros essa mesma responsabilidade?

A resposta a estas perguntas dita a forma de agir dos pais e educadores.

Se pretendemos fomentar a autonomia, independência e responsabilidade, então ensinamo-los a ler e a resumir, distinguindo o essencial do acessório. Ensinamo-los a fazer esquemas, a relacionar as matérias e a pensar! Pensar, esse verbo tantas vezes esquecido… e não apenas memorizar sem nada perceber! Ensinamo-los, ainda, a adquirir hábitos de estudo e a perceber que é bom aprender. Pelo prazer de descobrir coisas novas.

Damos-lhes a papinha toda feita, que é como quem diz, a matéria digerida e organizada. Eles apenas têm de ler ou ouvir esses tais resumos e fazer os testes.

Se pretendemos fomentar a dependência, pois estudemos por eles, Façamos os trabalhos de casa e os trabalhos de férias também. Lemos, fazemos os resumos e até os gravamos em ficheiros áudio! Damos-lhes a papinha toda feita, que é como quem diz, a matéria digerida e organizada. Eles apenas têm de ler ou ouvir esses tais resumos e fazer os testes.

Chegará o dia em que os pais fazem mesmo os testes pelos filhos? Já não sei…

Sei que no ensino superior há alunos que pedem para que os atendimentos sejam feitos… aos pais!

Sei que no ensino superior os alunos se queixam porque… há aulas ao sábado! (que professores ditadores são estes que sugerem aulas ao sábado??).

Sei que no ensino superior há alunos que perguntam se um texto deve ter uma introdução, um desenvolvimento e uma conclusão…. conteúdos que fazem parte do currículo do 2.º ano de escolaridade… sim, do 1.º ciclo…

Sei que no ensino superior há alunos que fazem queixa dos professores… porque não disseram as páginas exactas dos livros que teriam de estudar! Isto de sugerir uma bibliografia assim “sem mais nem menos” não pode ser! Temos de indicar as páginas e os parágrafos que devem ler!

Pois estes alunos, antes de chegarem ao ensino superior, passaram por todos os outros níveis de ensino. O que se passou para que atingissem este nível de dependência, desconhecimento, imaturidade e irresponsabilidade?

Naturalmente que não podemos sobregeneralizar. Mas, efectivamente, muitos destes alunos tiveram pais que sempre fizeram por eles. Estudaram por eles. Resolveram por eles. Pensaram por eles.

O que dizer destes pais? Muitas vezes, projectam nos filhos os objectivos e ambições que tinham para si próprios. Ou encontram nos filhos um meio para atingir um fim. O fim da realização e do sucesso.
Mesmo que seja um pseudo sucesso.

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As gémeas da Amadora. Quem são os verdadeiros responsáveis?

Setembro 25, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no Público de 22 de agosto de 2019.

É à comunidade que devemos exigir, em primeiro lugar, um olhar atento às nossas crianças. A proximidade confere-lhe o poder único de aceder às dinâmicas familiares, tantas vezes escondidas perante os demais.

O recente caso das gémeas de 10 anos de idade que viviam em condições deploráveis, não iam à escola e eram vítimas de várias formas de violência motivou a que se apontasse o dedo às Comissão de Proteção de Crianças e Jovens e aos tribunais. Serão eles os verdadeiros responsáveis?

Comecemos pela comunidade. As crianças vivem inseridas numa família nuclear, com outros familiares e uma rede de vizinhança. Salvo raras excepções, existem pessoas que residem perto, no mesmo prédio, na mesma rua ou no mesmo bairro. E esta rede informal é também feita das pessoas da mercearia, da padaria, do café, da igreja, do jardim, entre tantas outras que se cruzam e se conhecem, melhor ou pior.

É à comunidade que devemos exigir, em primeiro lugar, um olhar atento às nossas crianças. A proximidade confere-lhe o poder único de aceder às dinâmicas familiares, tantas vezes escondidas perante os demais. Exige-se uma comunidade informada e sensibilizada, consciente de que sinalizar uma possível situação de risco ou perigo não constitui uma intromissão na esfera privada das famílias. A violência é um assunto que diz respeito a todos nós, sem excepção, e a não denúncia torna-nos cúmplices.

Temos depois as chamadas entidades com competência de intervenção em matéria de infância e juventude. Os ateliers de tempos livres, os centros de saúde, as escolas, as polícias. Estruturas mais formais da comunidade a quem se pede, ou melhor, exige, que olhem com atenção para as crianças. Que sinais dão elas? O que contam? Que receios manifestam? Sabemos que, muitas vezes, as crianças emitem sinais subtis que nem todos conseguem identificar. Por isso se exige, também, formação específica a todos estes profissionais, capacidade de comunicação e de escuta e, acima de tudo, disponibilidade para exercer o seu papel. Que é o mesmo que dizer, não fazer de conta que não se vê ou não se sabe. Porque se tem medo da reacção dos pais. Porque se deseja manter a aparência de uma escola perfeita e sem problemas. Porque pode haver alguém que faça alguma coisa e assim eu não tenho chatices.

Só depois surgem as CPCJ, que têm como missão definir e executar medidas de promoção dos direitos e protecção das crianças em perigo. Sobre estas equipas multidisciplinares, normalmente as mais criticadas quando alguma coisa falha no sistema de protecção, exigem-se profissionais a tempo inteiro, com formação específica e supervisão técnica. Impõem-se ainda mais recursos, humanos e materiais, para permitir um real acompanhamento de proximidade às famílias.

Temos por fim os tribunais, assessorados por equipas técnicas e peritos. Aos tribunais também é fácil apontar o dedo, porque são lentos, ineficazes e carecem de formação específica.

Pois é, perante casos gritantes de desprotecção de crianças facilmente vamos à procura de bodes expiatórios. Lamentavelmente, esquecemo-nos de duas coisas muito importantes. Em primeiro lugar, todos nós, enquanto comunidade, somos parte integrante do sistema. Em segundo lugar, as CPCJ e os tribunais não actuam sozinhos, envolvidos que estão numa rede de interdependência com as demais entidades.

Trabalhar nesta área há mais de 20 anos permite-me perceber que temos ainda um caminho demasiado longo pela frente. Um caminho de informação, sensibilização e formação técnica que possibilite prevenir e intervir de forma realmente eficaz. Infelizmente, um caminho recheado de obstáculos, como o individualismo, os mitos e as crenças que legitimam a violência, a escassez de profissionais e a dificuldade de articulação interdisciplinar. Mas penso que o principal obstáculo pode estar dentro de cada um de nós – quando esticamos o dedo e acusamos os outros, incompetentes, de falharem.

Não teremos falhado todos nós, enquanto comunidade?

Abuso Sexual de Crianças e Adolescentes – Processo de Avaliação – 20 e 27 de setembro e 4 de outubro em Évora

Setembro 16, 2019 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Mais informações no link:

https://www.facebook.com/events/964372680570043/

Deixem as crianças aborrecer-se!

Agosto 29, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no DN Life de 17 de agosto de 2019.

Durante o ano lectivo as agendas dos miúdos rivalizam com as nossas e muitas há que as superam. Ao longo da semana, horas e horas na escola ou mesmo no jardim-de-infância, as explicações para que possam subir as notas (e, tantas vezes, uma subida que apenas tem de acontecer para que os pais possam exibir as notas, com orgulho, perante os seus amigos ou familiares) e as trinta mil actividades extra-curriculares.

A verdade é que raro é o dia da semana em que a criança tem “apenas” as aulas. Chegam a casa em cima da hora de jantar, banhos e trabalhos da escola, e caem extenuados na cama. Sem tempo para brincar. Sem tempo livre. Numa desarmonia total entre os tempos de sono, alimentação e exercício físico que os deixa esgotados e desorganizados.

“Estamos em férias grandes, como se dizia no nosso tempo, e o que vemos nós? Uma preocupação gigante em ocupar o tempo das crianças.”

Chega-se ao fim de semana e o calvário repete-se, com mais actividades extra-curriculares, explicações adicionais em período de testes e, claro, os aniversários de todos os amigos e conhecidos. Chegam a ser duas e três festas por dia… Também ao fim de semana existe pouco tempo livre e, quando o há, os pais preocupam-se em ocupá-lo, de forma quase obsessiva. Ai se a criança tem um intervalo de 2 horas sem nada programado!

Estamos em férias grandes, como se dizia no nosso tempo, e o que vemos nós? Uma preocupação gigante em ocupar o tempo das crianças. Porque os pais têm menos férias do que os filhos, é um facto, e há que entretê-los de alguma forma. Entre ateliers de tempos livres e campos de férias, com a agenda organizada ao minuto e cheia de actividades preparadas previamente, lá se vão passando as férias. As crianças apenas têm de cumprir o que está planeado.

“Deixar as crianças sem fazer nada não é mau, muito pelo contrário. Porque o aborrecimento é mestre de engenhos.”

No meio disto tudo, onde fica o tempo livre, mas verdadeiramente livre? Aquele tempo em que os miúdos se aborrecem de tanto fazer nada e em que têm de puxar pela imaginação para saberem o que vão fazer a seguir? Onde anda esse tempo precioso em que o aborrecimento acaba por ser um estímulo para a criação e a fantasia, fazendo de conta que se é isto ou aquilo, num mundo mágico que apenas existe na cabeça da criança?

Deixar as crianças sem fazer nada não é mau, muito pelo contrário. Porque o aborrecimento é mestre de engenhos. Uma criança aborrecida, mas mesmo muito aborrecida, sente a necessidade de inventar alguma coisa, sem limitar-se a seguir as instruções de uma caixa ou as orientações de um adulto.

“Uma criança entediada terá de aprender a conviver consigo mesma. Falar para dentro, ouvir os seus pensamentos e sentir as suas emoções.”

Deixem as crianças brincar sem tutoriais e experimentar o tédio e aquela sensação maravilhosa de “não tenho nada para fazer”. Porque são estes momentos que estimulam a necessidade em descobrir o mundo por si mesmas, com a curiosidade e a pró-actividade que, tantas vezes, as agendas coartam.

Em jeito de nota final, salientar que uma criança entediada terá de aprender a conviver consigo mesma. Falar para dentro, ouvir os seus pensamentos e sentir as suas emoções, num exercício fantástico de auto-descoberta e auto-conhecimento. Aprendendo que, no final de contas, a sua melhor companhia pode ser ela própria.

Tradições que prejudicam animais e crianças

Agosto 18, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no Público de 29 de julho de 2019.

Sentir prazer em torturar e magoar um ser, humano ou não humano, não é nem pode ser uma tradição. Representa a humanidade naquilo que ela tem de mais horrível, vil e abjecto.

Muitas crianças assistem a touradas, através da televisão ou ao vivo. Assistem com os pais e os avós, aficionados de gema que procuram proporcionar aos seus filhos e netos uma experiência cultural verdadeiramente única. Em seu entender, trata-se de uma tradição que importa manter viva, um banho de arte quase equiparado a um passeio no Louvre. Em simultâneo, alegam que a exposição à violência não tem impacto negativo em quem assiste, nomeadamente, nas crianças.

O principal argumento surge associado à ideia de que as touradas são uma tradição com raízes históricas. Tradição? Tradição?? Mas desde quando é que as tradições têm de ser mantidas apenas porque sim? Porque, se é esse o caso, então vamos manter os combates de gladiadores, os sacrifícios humanos e de animais (bem, as touradas não diferem muito destes), a caça às bruxas, os torneios medievais, os bacanais gregos, a mutilação genital feminina e masculina, o enforcamento, o apedrejamento, as crianças-soldado, o canibalismo, and so on. Sentir prazer em torturar e magoar um ser, humano ou não humano, não é nem pode ser uma tradição. Representa a humanidade naquilo que ela tem de mais horrível, vil e abjecto.

E o que dizer sobre o impacto que esta exposição à violência tem no desenvolvimento emocional e social das crianças?

Desde muito cedo, as crianças aprendem a distinguir e expressar as emoções mais básicas, como a alegria, tristeza, medo, surpresa, nojo e raiva. Ao mesmo tempo, desenvolvem a capacidade empática, associada ao comportamento altruísta. Quer isto dizer que observar o sofrimento alheio tende a activar emoções negativas e também um comportamento de ajuda.

Ora, ao assistirem a uma tourada as crianças são expostas a uma situação que envolve infligir sofrimento atroz num animal, associado a emoções positivas por parte de quem agride e observa. Alegria, júbilo, bater palmas e dar gritos de entusiasmo e incentivo. Apogeu total quando se cortam as orelhas ou o rabo do animal. Ou seja, dito de uma forma mais clara, o sofrimento do animal é associado a emoções positivas nas pessoas. Pessoas que, ao mesmo tempo, emitem mensagens incongruentes e paradoxais (e hipócritas), como limpar as lágrimas do animal antes de o trespassar.

Assim, se podíamos pensar que observar sofrimento no outro podia, de alguma forma, activar nas crianças comportamentos de ajuda e altruísmo, verificamos que acaba por acontecer exactamente o contrário. A violência torna-se normal, banal, legítima e aceitável. Observar o sofrimento alheio é algo bom. Ser cruel tem recompensas. Ser violento é positivo.

É isto que queremos ensinar às nossas crianças?

Não deixamos as crianças ir ao cinema ver filmes para maiores de 12 anos. Criticamos e censuramos alguns programas de televisão e videojogos porque são violentos. E colocamos filtros parentais nos telemóveis e computadores, preocupados com a eventual exposição das crianças a conteúdos desadequados. O que faz todo o sentido, na medida em que numerosos estudos corroboram a existência de uma relação entre a observação de violência (virtual ou ao vivo) com o desenvolvimento de crenças e atitudes que legitimam e aceitam o recurso à violência, aumentando a probabilidade de exibição de comportamentos agressivos. Esta relação observa-se, em particular, nas crianças.

E deixamos as crianças ir às touradas?

Perante tudo isto, questiono: queremos tradições que prejudicam animais e crianças?

Psicóloga especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, Psicoterapia e Psicologia da Justiça; docente e investigadora no ISCTE-IUL

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