Brincamos muito pouco com os nossos filhos

Abril 8, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Ana Francisconi on unplash

Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no DN Life de 27 de março de 2019.

Vivemos todos uma vida acelerada e sem tempo para nada. Ou melhor, sem tempo para aquilo que deveria ser o mais importante, essa é a verdade. E de entre as várias coisas para as quais não temos tempo, brincar com os nossos filhos assume-se como uma delas. Talvez mesmo a principal.

Proponho que façamos todos um breve exercício que, prometo, não irá demorar mais do que cinco minutos.

Pegue numa folha branca e desenhe um círculo. Depois, divida esse círculo em cinco fatias (como se fosse uma pizza), relativas ao tempo médio despendido com a família, apenas com os filhos, no trabalho, com amigos ou em actividades de lazer, e em outros contextos.

Já está? Certo.

Desenhe agora um segundo círculo, relativo apenas ao tempo despendido com os seus filhos. Divida este círculo em quatro fatias, relativas ao tempo que, em média, ocupa com as rotinas (p. ex., banho, refeições), a ensinar (p. ex. trabalhos escolares), a brincar (brincadeira pura e dura) ou sem qualquer tipo de interacção (p. ex., as crianças estarem a ver televisão ou a brincar sozinhas).

Agora que terminou ambos os círculos, observe com atenção e reflicta. O que pensa? O que sente? O que gostaria que fosse diferente? O que pode fazer para mudar?

Este exercício tem como objectivo ajudar os pais a tomar consciência de quão pouco tempo passam a brincar com os seus filhos, sendo que a interacção lúdica se assume como especialmente importante para o desenvolvimento de vínculos afectivos. Este tempo de interacção, que diversos autores chamam de “tempo especial”, permite não apenas fortalecer os vínculos afectivos, como também potenciar a aprendizagem através do brincar. É através da actividade lúdica que a criança apreende e aprende, que interage com os outros e com o mundo. A projecção e o jogo simbólico permitem desenvolver competências muito diversas, como a empatia, a capacidade em tolerar a frustração e a resolução de problemas. É através da brincadeira, também, que a criança comunica aquilo que pensa e sente. Que se relaciona com os outros e, ao mesmo tempo, que se organiza dentro de si própria.

Desejamos muito que os nossos filhos nos sintam como pessoas de confiança, a quem possam recorrer se precisarem de algum tipo de ajuda. Queremos ser os seus confidentes e guardiões dos seus segredos. Para isso, é preciso tempo de interacção. Brincar com eles ajuda.

Após este exercício, desafio os pais a criarem tempos especiais, em que devem brincar com os seus filhos. Sem estarem particularmente preocupados em que aprendam algo, mas “apenas” brincar. Bastam 10 a 15 min, diariamente ou a cada dois dias. Para as crianças, garanto que serão os minutos mais preciosos do dia.

Vamos experimentar?

(Já agora, e que tal reflectir sobre as outras fatias do tempo?).

 

 

“Tenho um pai-telefone”

Março 19, 2019 às 6:20 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no DN Life de 19 de março de 2019.

Hoje é o “Dia do Pai” e muitos pais e filhos aproveitam este dia para brincar, passear ou conversar. A esses pais e filhos apenas posso dizer, “aproveitem, aproveitem, aproveitem”. Porque muitos outros pais e filhos não estão juntos.

Alguns não estão juntos porque um deles já morreu. É o meu caso. Aí, restam-nos as memórias, que perduram através do tempo. Essas ninguém nos tira.

Alguns não estão juntos porque o pai se desinteressou e afastou. Na vida destas crianças, as mães são super-heroínas, mães e pais e tudo o mais. Que tentam compensar a rejeição e os sentimentos de abandono que estas crianças sentem, virando-se do avesso quando preciso for.

Alguns não estão juntos porque o pai foi violento e obrigado a afastar-se. Para estas crianças, povoadas de memórias más, as mães vestem uma capa com super-poderes, protegendo-as contra tudo e contra todos.

Por fim, alguns pais e filhos não estão juntos porque alguém os impede. Falo das inúmeras situações de conflito parental em que os filhos são injustamente privados do convívio regular com os seus pais. Acontece com pais e mães, é certo, mas atendendo ao dia de hoje, falarei dos pais homens.

O conflito parental no contexto dos processos de separação ou divórcio é uma realidade que não podemos negar. E no meio da confusão, são as crianças quem mais sofre, usadas tantas e tantas vezes como trunfos e armas de arremesso. A privação do contacto da criança com o pai surge, assim, como muito frequente (demasiado frequente). As mães elevam vozes que reclamam mais direitos sobre as crianças, quase como se de uma propriedade sua se tratassem. Afirmam que o amor de mãe é mais forte e importante do que o amor de pai e o mais grave é que, muitas vezes, a sociedade acaba mesmo por legitimar esta pretensão.

São as escolas que validam estas vozes, aceitando sem questionar que uma mãe determine que o pai não deve ser informado sobre as questões escolares do seu filho e que não o pode ir buscar. Aceitam sem qualquer documento judicial que o justifique.

São os profissionais que validam estas vozes, aceitando sem questionar que uma mãe exclua o pai de assuntos tão importantes como a saúde física ou mental. Aceitam sem qualquer documento judicial que o justifique.

São também os tribunais que ainda demoram em perceber o direito que a criança tem. O direito a conviver com ambos os pais, de forma regular e equitativa.

“O amor de mãe é inato”, ouve-se muitas vezes dizer. Nada mais errado. Pensemos em quem são os principais responsáveis pelos maus tratos e negligência junto das crianças. Pensemos ainda nas mães que matam os filhos e nas mães que, inclusive, abusam deles sexualmente. Não, o amor de mãe não é inato, tal como o amor de pai também não é.

“A vinculação da criança faz-se apenas com a mãe”, ouve-se muitas vezes dizer. Nada mais errado. Se, tradicionalmente, a mãe está associada ao papel cuidador, actualmente o pai está mais investido nos cuidados e educação da criança e, tal como a mãe, o pai aprende e constrói a sua parentalidade. A literatura indica que os pais podem ser cuidadores sensíveis dos seus filhos e que as crianças estabelecem relações de vinculação seguras, quer com as mães, quer com os pais nos primeiros anos de vida.

Por tudo isto, neste “Dia do Pai”, desejo apenas que todas as crianças possam efectivamente estar com os seus pais. E os pais com os seus filhos.

Perante todas estas questões, desde os pais mortos, desaparecidos ou agressores, existem ainda as crianças que não têm pai. Têm, sim, duas mães. Ou avós. Ou tios. Ou não estão perto da família e vivem em acolhimento. O que fazem estas crianças no “Dia do Pai”? Será que já pensámos nisto como deve de ser? Pois, não pensámos…

Ainda sobre os escassos contactos que mantinha com o seu pai e, na maior parte das vezes, apenas à distância, dizia um menino de nove anos1, “sabes, acho que não tenho um pai-homem… tenho um pai-telefone”.

Queremos “pais-abraços”, “pais-mimos” e “pais-beijos”, a par de “pais-rotinas” e “pais-limites”.

Não queremos “pais-telefone”.

1 No contexto de uma consulta com o colega psicólogo Luís Fernandes.

 

 

Viver no inferno – crianças expostas à violência doméstica por Rute Agulhas

Março 14, 2019 às 11:30 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no Público de 27 de fevereiro de 2019.

É esta a realidade, quase sempre esquecida, das crianças expostas à violência doméstica

Algumas crianças vivem no paraíso. Outras vivem no inferno.

Algumas crianças acordam de manhã e saltam da cama felizes, rumo ao pequeno-almoço e à escola. São acordadas com beijos e mimos, vozes doces e o cheiro a pão quente.

Outras crianças acordam apreensivas com o cenário que irão encontrar. Quem está em casa e em que condições? Estará a mãe triste e chorosa? Ou irritada e zangada? Estará o pai presente para o pequeno-almoço? Ou terá já saído de casa, batendo a porta com força? E onde estão os beijos e os mimos? O pão, ainda que quente, não lhes aquece o coração.

Algumas crianças vão para a escola sorridentes. Levam na mochila os livros e os lápis de cor, nos olhos o brilho de quem deseja conquistar o mundo.

Outras crianças vão para a escola preocupadas. Carregam em si o peso do medo e da responsabilidade. Afinal de contas, deixam para trás os pais. Será que os vão encontrar em casa ao final do dia? Será que a mãe vai estar novamente com marcas na cara? Será que o pai chora quando pensa que ninguém vê?

Algumas crianças estão nas aulas e saboreiam as letras dos livros. Os números dançam à sua frente e as palavras dos professores são música para os seus ouvidos.

Outras crianças estão nas aulas e o seu pensamento está em casa. Estará tudo bem? Será que gritaram um com o outro? Será que se bateram? Será que precisam de mim?

Algumas crianças vão para o recreio e dão asas à sua imaginação. São bruxas e duendes, reis e rainhas, que correm uns atrás dos outros e se escondem por magia. As bolas dançam no ar e os berlindes conquistam as covas desenhadas na terra.

Outras crianças vão para o recreio e não brincam. As suas mentes estão povoadas de monstros, estes bem reais, que deitam fogo pela boca e agridem. Como podem brincar infestados de memórias más?

Algumas crianças conversam, resolvem divergências e partilham. Emprestam os seus materiais e brinquedos, aguardam pela sua vez e aprendem a lidar com as contrariedades. Não podem ganhar sempre e perder faz parte da vida.

Outras crianças gritam e batem nos colegas, por vezes até nos adultos. Bater é uma boa forma de resolver os problemas e de expressar a zanga que sentem. É isso que aprendem em casa. E choram, sozinhas, escondidas na casa de banho.

Algumas crianças regressam a casa cansadas, mas felizes. Brincar, banhos e jantar, história antes de adormecer, que acalma e embala. Os olhos fecham-se devagar e com promessas de sonhos. Sonhos bons.

Algumas crianças regressam a casa com o coração apertado. Espera-as a tensão e o receio face ao desconhecido. Sem previsibilidade, surge a angústia e a ansiedade. E não, não adormecem devagar. A canção que as embala é feita de gritos e insultos. Os olhos fecham-se de exaustão, inundados de lágrimas e fantasmas. À sua espera, sonhos maus.

Algumas crianças vivem num ambiente de paz e afecto, com rotinas e limites. Crescem com a segurança que apenas uma relação de vinculação segura lhes pode dar, permitindo-lhes explorar o mundo, confiantes.

Outras crianças vivem num ambiente hostil, com violência verbal e muitas vezes física. Assistem a essa violência, aprendem que esta pode ser legítima e ensaiam também formas diversas de a exercer. Não têm dos seus pais o colo e a disponibilidade necessária para os acolher. Sozinhos, inseguros e tantas vezes desorganizados, procuram uma forma de sobreviver.

Estas crianças dão sinais, nem sempre explícitos, de sofrimento psíquico. Sintomas ansiosos e depressivos, alterações de comportamento e de humor, alterações no rendimento escolar. Sentem medo e culpa, crescem de uma forma apressada e aprendem, da pior forma possível, que existem problemas. E dor. E morte.

É esta a realidade, quase sempre esquecida, das crianças expostas à violência doméstica.

O irresistível Pinguim-de-Adélia – Rute Agulhas sobre parentalidade positiva

Fevereiro 20, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no DN Life de 27 de janeiro de 2019.

O Pinguim-de-Adélia («Pygoscelis adeliae») é uma espécie de pinguim que habita a Antártida, e foi assim baptizado em homenagem à esposa do investigador que o descobriu, Jules d’Urville.

Estes animais são muito pequenos e, talvez por isso, esta é considerada a espécie de pinguins mais adorável e irresistivelmente fofa!

A sua época de reprodução ocorre durante o mês de Outubro e constroem os ninhos nas encostas rochosas, utilizando pedras. Tanto o macho como a fêmea tomam conta dos seus ovos, à vez, mantendo-os quentes e protegidos de possíveis predadores. Qualquer pequena pedra é muito importante, e são usadas também como galanteio ou até trocadas por alguns momentos de paixão!

Mas o que têm estes pinguins de tão especial, ao ponto de lhes ser dedicada uma crónica?

O Pinguim-de-Adélia, pela forma doce como interage com os seus pares, pelo cuidado que tem com os seus ovos e, mais tarde, com as suas crias e, ainda, pela partilha dos cuidados por ambos os pais, de forma coerente, que exercem uma verdadeira co-parentalidade (de fazer inveja a muitos seres humanos!), dá o nome a um projecto inovador da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Protecção das Crianças e Jovens1.

Chamamos-lhe, portanto, «Adélia – Projecto Parentalidade Positiva». Porque os cuidados não se medem aos palmos, este pinguim tão pequenino é, em boa verdade, um gigante da parentalidade positiva.

De acordo com a Recomendação Rec (2006) 19 do Conselho da Europa – Comité Conselho de Ministros, a parentalidade positiva é definida como «um comportamento parental baseado no melhor interesse da criança e que assegura a satisfação das principais necessidades das crianças e a sua capacitação, sem violência, proporcionando-lhe o reconhecimento e a orientação necessários, o que implica a fixação de limites ao seu comportamento, para possibilitar o seu pleno desenvolvimento».

O que implica, então, este conceito de parentalidade positiva? O que devem, ou não devem, os pais fazer para conseguir exercer uma verdadeira parentalidade positiva?

Em primeiro lugar, promover uma comunicação adequada e saudável com os filhos. Uma comunicação clara e coerente é a chave do sucesso de qualquer relação e a relação entre pais e filhos não é excepção. Implica falar de forma clara e com coerência entre aquilo que é transmitido verbalmente e não verbalmente. Do que adianta dizer uma coisa com palavras, quando, tantas vezes, os olhos, o tom de voz, a postura ou os gestos dizem exactamente o contrário?

Uma parentalidade positiva implica também saber resolver problemas de forma ajustada. Em todas as relações surgem problemas e a adequação de uma relação não se avalia pela existência ou inexistência de problemas, mas sim pela forma como estes são geridos.

Saber resolver problemas envolve uma correcta identificação do problema e das várias alternativas de resolução, a identificação de vantagens e desvantagens de cada alternativa e a antecipação de possíveis consequências. Só então conseguiremos identificar a alternativa mais adequada e definir um plano para a operacionalizar. E não, não existem alternativas que apenas acarretem vantagens.

Nas relações pais e filhos importa também saber definir estratégias para lidar com os comportamentos adequados. Quer isto dizer que não devemos dar atenção apenas aos comportamentos desadequados das crianças. Se queremos que os comportamentos desejáveis se tornem mais frequentes, duradouros e intensos, é fundamental saber reforçá-los. Privilegiar o reforço social (elogio) ou com actividades que a criança goste e, se possível, que envolvam toda a família. Quando foi a última vez que elogiou o seu filho, só porque sim?

E o que fazer face aos comportamentos desadequados da criança? Pois, se queremos exercer a nossa parentalidade de uma forma positiva, então temos mesmo de eliminar as estratégias de natureza punitiva. E por punição não se entenda apenas a punição física, mas também outros comportamentos que são psicologicamente agressivos. Como dar ordens sem explicação, «porque aqui mando eu» e «é não, porque não». Ou, ainda, humilhar ou ameaçar a criança de qualquer forma, intimidando-a ou fazendo-a sentir que não é amada, desejada ou aceite de forma incondicional.

No fundo, pretende-se ajudar os pais a encontrar estratégias alternativas para lidar com os comportamentos negativos como, por exemplo, ignorar, reforçar comportamentos que sejam incompatíveis com aqueles que se pretendem eliminar ou, ainda, retirar privilégios como consequência da sua exibição.

As crianças precisam ainda de limites, de um amor firme com balizas que as orientem e encaminhem. Ouvir um «não», ou até muitos «nãos», não traumatiza as crianças. Contrariamente ao que tantos pais pensam, crescer com um modelo parental de baixo controlo gera mais dificuldades de regulação emocional e comportamental, maior imaturidade e dificuldade na relação com os outros.

Promover a auto-estima da criança é também uma forma de exercer uma parentalidade positiva. Ajudar a criança a identificar os seus pontos fortes e áreas de competência, valorizando-se por aquilo que consegue fazer, mas, acima de tudo, por quem é.

Por fim, importa também partilhar momentos lúdicos e de lazer. Momentos em que brincadeira e divertimento sejam as palavras de ordem, sem que exista, necessariamente, uma agenda de aprendizagens associada a essas actividades. Brincar livremente, deixando fluir a capacidade simbólica da criança, é de uma riqueza sem tamanho. E quando essas brincadeiras são partilhadas em família… tudo ganha uma nova cor!

O nosso Pinguim-de-Adélia tem já um primeiro material a circular pelas famílias de Portugal! Um «quantos-queres» (quem é que ainda se lembra como se faz?) dedicado às várias dimensões da parentalidade positiva. E não é que as crianças de hoje, tal como as do nosso tempo, adoram o «quantos-queres», mesmo com tecnologia zero?

 

 

 

Carta aberta aos pais divorciados em conflito

Fevereiro 19, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no DN Life de 18 de janeiro de 2019.

Caros pais separados ou divorciados, e que estão em conflito, esta carta é para vocês.

Não interessa a vossa idade, profissão ou estatuto socioeconómico. Não interessa se vivem numa barraca, numa casinha modesta ou numa mansão que vale milhões, no centro da capital. Não interessa também o volume da vossa conta bancária, o carro que conduzem ou o colégio que os vossos filhos frequentam. Se têm empregada externa ou interna, se não têm empregada nenhuma, se viajam muito ou pouco, nada disso realmente importa.

Aquilo que realmente importa é o que estão a fazer, muitos de vocês, aos vossos filhos.

Podia tecer aqui inúmeras considerações sobre o impacto negativo que as vossas discussões têm no bem-estar das crianças. Explicar o quão danoso é expor as crianças ao conflito, utilizá-las como arma de arremesso numa guerra que é vossa, e não delas, ou torná-las mensageiros entre os pais. Podia ainda explicar os sentimentos de tristeza e ansiedade que as crianças experienciam, o medo, a desconfiança, os conflitos de lealdade. Já para não falar das noites mal dormidas destas crianças, povoadas de insónias e receios, bem como das dificuldades em concentrarem-se na escola, por terem a cabeça tão cheia de pensamentos maus.

Mas porque explicar tudo isto tem, para tantos pais, impacto zero, na medida em que continuam centrados em si próprios e no conflito, ignorando totalmente o bem-estar das crianças, iremos abordar o assunto de outra forma.

Vamos utilizar um paralelismo com os maus tratos físicos, que são, efectivamente, mais fáceis de identificar. A única diferença é que os maus tratos físicos deixam marcas visíveis.

Deixo o resto à vossa consideração.

Dizer mal do pai ou da mãe na presença da criança equivale a dar-lhe um murro na cara.

Proibir a criança de levar as suas coisas de uma casa para a outra, alegando que são da «casa da mãe» ou da «casa do pai», equivale a apertar-lhe o pescoço.

Gerar discussões nos momentos festivos da criança, como a sua festa de aniversário, na presença dos amigos, equivale a dar-lhe pontapés e socos na barriga.

Dizer à criança que o pai ou mãe não gosta dela equivale a queimar-lhe o peito com um cigarro.

Proibir a criança de falar ou estar com o pai ou a mãe equivale a bater-lhe com a fivela do cinto nas costas e nas pernas.

Perguntar à criança se gosta mais da mãe ou do pai equivale a chicoteá-la com fios descarnados.

Gritar, berrar, ofender ou bater no outro, na presença da criança, equivale a derramar por cima dela uma frigideira com óleo a ferver.

Por fim, expor tudo isto nas redes sociais ou na televisão, equivale a prostituir a criança.

Sobre os jornalistas que publicitam e promovem esta violência, na senda de um aumento de audiências, pois equivale ao crime de lenocínio.

 

 

Workshop “Somos Família” com Rute Agulhas, 29 de Janeiro em Lisboa

Janeiro 26, 2019 às 6:48 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Workshop “Somos Família” (3 horas)

Lisboa: 29 de Janeiro

A separação e o divórcio são hoje uma realidade incontornável, com uma incidência muito significativa e que se traduz em alterações importantes na estrutura e organização da família. Estas alterações exigem ao sistema familiar a capacidade de reorganizar-se e ajustar-se a esta nova configuração familiar, com redefinição de fronteiras, papéis e limites.

Foi a pensar nestas dificuldades que foi desenvolvido o Manual de Boas Práticas para Pais Divorciados. Não pretende ser um manual de instruções, pois cada família tem a sua própria dinâmica. Não existem receitas que se adequem a todas as famílias. Existem, no entanto, diversas práticas que a literatura tem demonstrado como tendo um impacto mais positivo no bem-estar da família, em geral, e no das crianças, em particular.

Neste workshop irão ser abordados os seguintes temas: o processo de comunicação, o facto de a(s) criança(s) passar(em) a ter duas casas, a escola e as actividades, a gestão das férias e das datas festivas, e o tribunal.

Para além disso será apresentado o jogo de tabuleiro o qual visa facilitar a expressão emocional, cognitiva e a gestão comportamental, por forma a prevenir eventuais dificuldades de ajustamento das crianças.

Mais informações no link:

http://red-apple.pt/workshops-redapple/item/208-somos_familia

Curso: Abuso sexual de crianças e adolescentes – Processo de avaliação – 14, 24 e 31 de Janeiro de 2019 em Lisboa

Janeiro 7, 2019 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Mais informações no link:

http://www.apf.pt/agenda/curso-abuso-sexual-de-criancas-e-adolescentes-processo-de-avaliacao-1?fbclid=IwAR2lAj781SIy0ndI7YhG9npf6JqavD-fB5bS4p5dum_0uw5gsYFBoFYe8RE

Não se adopta uma criança por pena

Dezembro 26, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no DN Life de 9 de dezembro de 2018.

Pensar em adoptar uma criança porque sentimos pena das crianças maltratadas e abandonadas é quase um crime. Um crime na medida em que não deve, nem pode ser essa, a motivação para um processo de adopção.

Existem crianças maltratadas, sim, de diversas formas, e que carecem de uma família que lhes dê aquilo que os seus progenitores não conseguiram ou não quiseram dar. Estas crianças têm, naturalmente, uma história e um passado. Vivências, mais ou menos traumáticas, que podem recordar, também de forma mais ou menos consciente. Estas memórias e consequente impacto no processo de ajustamento da criança dependem, não apenas da natureza das mesmas, mas também da idade, recursos psicológicos e suporte da criança.

Quando as crianças têm definido um projecto de vida com vista a adopção, significa que outras alternativas prévias foram esgotadas. Que se considera que os seus pais biológicos ou outros familiares não conseguem satisfazer de forma adequada as suas necessidades.

O que esperam, então, estas crianças?

Esperam uma família que, independentemente da sua composição, lhes dê aquilo que não têm. Exactamente isso, uma família. Alguém que as ajude a experienciar a sensação indescritivelmente boa de pertencer a um todo. Sentirem-se parte de um “nós”, amadas e cuidadas de forma incondicional. Ou seja, que esse amor e cuidados não dependa nunca da sua aparência, origem, comportamento ou habilidades.

Mas estas crianças também precisam de alguém com especiais competências para conter as suas angústias e receios. Alguém que saiba lidar com as dificuldades, e desengane-se quem pense que num processo desta natureza são tudo rosas. Não são.

Estamos, assim, perante um nível de exigência muito elevado. Porque se exige a quem adopta uma criança que apresente, não apenas uma sólida e adequada motivação para adoptar, como também recursos, internos e externos, que lhe permitam fazer face aos desafios que vai enfrentar. E este ou estes candidatos a adopção começam por enfrentar um processo de selecção e candidatura que é, em si, exigente. E assim tem de ser, sob pena de as crianças poderem ser entregues a quem não está devidamente preparado para as proteger e amar.

Volvido este processo, moroso, e estabelecido o chamado «matching» – a correspondência de características, desejos e necessidades de ambas as partes -, inicia-se um caminho que se quer sem retorno. Um caminho nem sempre linear, com obstáculos tantas vezes sentidos como intransponíveis, mas também com tantas gratificações e emoções positivas.

Percorrer todo este caminho não é fácil. Exige motivação, dedicação, empenho, resiliência, suporte e muito, muito amor.

Pena, não. Não se quer, de todo, esta pena. Porque a pena remete para uma visão assistencialista e remediadora de um problema (redutora, portanto), quando aquilo que se precisa é tão mais do que isso. Quem adopta tem de se assumir, necessariamente, como um suporte para a criança, ajudando-a a crescer segura e a explorar o meio que a rodeia. «Pais-trampolim», que amparam e, ao mesmo tempo, impulsionam para a frente. Que ajudam a crescer de forma ajustada e saudável.

E quando dizemos que o caminho da adopção é um caminho que se quer sem retorno significa que é proibido fazer marcha atrás. Uma vez filho, para sempre filho. E os filhos não se devolvem, só porque afinal são portadores de uma deficiência, não são tão inteligentes como gostaríamos, portam-se mal ou não correspondem aquilo que idealizamos. Pois é. A eterna questão da diferença entre o filho ideal e o filho real… uma questão que se coloca, não apenas aos filhos adoptados, mas também aos filhos biológicos.

Não, não se pode adoptar uma criança por pena. Adota-se por amor e com amor. É assim que os filhos nascem dentro do coração de cada um.

 

 

Teatro infantil “Picos e Avelã à descoberta da Floresta do Tesouro”, para crianças 3 e os 8 anos. 19 de novembro, no Centro de Congressos de Aveiro

Novembro 17, 2018 às 7:45 pm | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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A CPCJ de Aveiro vai levar à cena, em parceria com o Centro Social Paroquial da Vera Cruz, a peça “Picos e Avelã à descoberta da Floresta do Tesouro”, no dia 19 de novembro, pelas 10:30 horas, no Centro de Congressos de Aveiro.

Esta iniciativa destina-se a crianças com idades compreendidas entre os 3 e os 8 anos.

O evento conta com a presença da Presidente da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens, Dra. Rosário Farmhouse.

Inscrições através do email: cpcjaveiro@cm-aveiro.pt

P.R.E.V.E.N.I.R. O abuso sexual de crianças e adolescentes

Setembro 17, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Rute Agulhas publicado no Observador de 7 abril de 2018.

As crianças devem aprender a distinguir as partes privadas e não privadas do seu corpo e identificar as situações em que essas partes privadas podem ser tocadas (como em contextos de higiene e saúde).

Abril é, desde o início deste século, assinalado em diversos países como o mês da prevenção dos maus tratos na infância e juventude. Uma forma simbólica de assinalar a importância da prevenção primária e de sensibilizar a comunidade, de uma forma geral, para o papel fundamental que desempenha na prevenção, detecção e sinalização de qualquer forma de mau trato.

Porque devemos privilegiar uma cultura preventiva, de natureza universal, atuando sobre os factores de risco associados aos maus tratos, minimizando-os, ao mesmo tempo que se potenciam factores protectores. Prevenir ao invés de apenas intervir ou reagir.

Mas como se faz esta prevenção? O que implica? Que papel pode desempenhar cada um de nós?

Vamos centrar-nos sobre o abuso sexual infantil, por ser a forma de mau trato que é menos abordada, quer na família, quer na escola, talvez por estar associada ao tema da sexualidade, que continua ainda a ser um tabu.
A sigla ajuda a sistematizar as principais ideias e regras básicas a reter.

P.R.E.V.E.N.I.R.

P (Privadas)
O corpo tem parte privadas (mamas e órgãos genitais) e não privadas. As crianças devem aprender a distinguir as partes privadas e não privadas do seu corpo e identificar as situações em que as suas partes privadas podem ser tocadas (por exemplo, em contextos de higiene ou de saúde).
Devem ainda aprender que o seu corpo lhes pertence. «O meu corpo é meu!» é algo que todas as crianças devem interiorizar.

R (Risco)
Existem situações de risco que as crianças devem aprender a identificar. Nem sempre são situações muito óbvias, na medida em quem os agressores sexuais (que podem ser de ambos os sexos, ter qualquer idade, profissão ou aparência) recorrem a estratégias de sedução e envolvimento, de forma gradual, bem como a comportamentos que podem ter um duplo significado. Por exemplo, mascarando comportamentos progressivamente mais sexualizados com brincadeiras de cócegas, massagens, ou mesmo cuidados de higiene. As crianças mais novas, em particular, têm maior dificuldade em identificar estas situações, sendo que nem sempre as percepcionam como abusivas.

E (Escutar)
O abuso sexual reveste-se de segredo e o processo de revelação é muitas vezes inibido por sentimentos de culpa, vergonha e medo. A criança sente medo de não ser acreditada ou medo de consequências negativas, para si ou para terceiros. Medo ainda de ser afastada da família ou de que algo mau possa acontecer ao abusador, tantas vezes uma pessoa especial e de quem a criança gosta, o que potencia conflitos de lealdade.
No entanto, muitas crianças fazem tentativas de revelação junto de adultos em quem confiam. Tentativas estas que nem sempre são explícitas, e que é preciso saber descodificar. «Não gosto dos beijos do tio»,ou «não quero mais ir para casa da avó»são alguns exemplos de tentativas de dizer algo. Algo que nem sempre é compreendido.
O adulto deve escutar activamente a criança, dar-lhe espaço para falar, mas também e, acima de tudo, estar atento a eventuais alterações de funcionamento que possam surgir (por exemplo, alterações de comportamento, emocionais, sociais).
Escutar a criança significa ouvir para além daquilo que é dito. Ver para além do que é observado. E manifestar disponibilidade emocional para ouvir, mostrar que se acredita na criança e desresponsabilizá-la pelo abuso.

V (Valorizar)
Valorizar as competências da criança, os seus recursos e potencialidades e ajudá-la a perceber que pode desenvolver competências para lidar com eventuais situações de risco.
Aprender a distinguir segredos bons e segredos maus. Segredos bons são segredos que nos fazem sentir bem e que, mais tarde ou mais cedo, acabam por ser revelados (por exemplo, uma prenda ou surpresa que se prepara para alguém). Pelo contrário, os segredos maus estão associados a emoções negativas, geram desconforto e mau estar. Os segredos bons podem ser guardados, mas os segredos maus devem sempre ser revelados.

E (Emoções)
Crianças mais novas, em idade pré-escolar, já conseguem distinguir emoções positivas e negativas, e associar estas últimas à necessidade em pedir ajuda. Emoções como a tristeza, a zanga, o medo, a vergonha e a culpa podem surgir relacionadas com toques ou conversas sobre as partes privadas ou, ainda, com segredos maus. Qualquer situação que seja geradora de emoções negativas deve ser revelada a um adulto de confiança.

N (Não)
A criança tem o direito de dizer «Sim» e dizer «Não». Dizer «Não» aos toques ou conversas sobre as partes privadas, aos segredos maus, a qualquer interacção que a faça sentir emoções negativas.
Dizer «Não» e pedir ajuda a um adulto de confiança. E se esse adulto não acreditar em si? Pedir ajuda a outro adulto. E assim sucessivamente, até que seja acreditada e protegida.
Não estamos a proteger as crianças quando lhes dizemos que devem obedecer sempre aos adultos. Pois nem sempre os adultos têm razão.

I (Internet)
O uso do Internet faz parte da vida diária da maioria das crianças e adolescentes, com recurso aos telemóveis e outros dispositivos. Em muitas situações, esta ligação à Internet tem claros benefícios, permitindo aprender e estudar, socializar e jogar com os amigos, partilhar fotos e vídeos, ou conversar em salas de chat. Mas também existem riscos associados ao uso da Internet, que podem envolver interacções de natureza sexual. Podem ser expostos a imagens de natureza sexual, receber mensagens sexuais, ser vítimas de chantagem, exploração ou abusos sexuais.
Os pais e cuidadores desempenham um papel fundamental no sentido de promover boas práticas do uso da Internet, estando atentos e conversando abertamente sobre estes riscos, no sentido de promover uma navegação segura. A utilização de controlos e filtros parentais também ajuda na protecção das crianças online.
Novos termos reflectem novas práticas que os pais têm de conhecer, para poder identificar e sinalizar às entidades competentes.
«Sextortion»- exploração de crianças online, em que o agressor chantageia, ameaçando publicar imagens sexuais desta em troca de favores sexuais, dinheiro ou outros benefícios.
«Sexting»- enviar e receber imagens sexualmente explícitas.
«Sex-Chatting»- chat de natureza sexual, em que existe troca de imagens e conteúdos sexuais entre crianças e adultos. Muitas vezes é nestes chats que se inicia o processo de aliciamento gradual da criança (o chamado «grooming»), com vista ao envolvimento em pornografia infantil ou coerção sexual.
As crianças devem aprender a usar a Internet em segurança. Não revelar dados pessoais, não marcar encontros com pessoas que apenas conhecem online. Não abrir mensagens ou ficheiros de pessoas que não conhecem e saber que devem sempre contar a um adulto de confiança qualquer situação que os faça sentir-se desconfortáveis.

R (Revelar)
Os toques ou conversas sobre as partes privadas, os segredos maus, ou qualquer outra situação que gere emoções negativas deve ser revelada a um adulto de confiança. As crianças devem ser ajudadas a identificar estes adultos, fazendo aquilo que alguns autores chamam do «círculo da confiança».Quem está dentro do círculo de confiança? Quem são as pessoas a quem posso pedir ajuda se precisar?
Dentro deste círculo devem estar várias pessoas, a quem a criança deve revelar qualquer situação potencialmente abusiva até que seja acreditada e protegida.

Em resumo, prevenir o abuso sexual não envolve falar de penetração, masturbação ou expor a criança a conteúdos sexualmente explícitos. Implica abordar temas como o corpo, os toques, os direitos, as emoções, os segredos e os riscos associados ao uso da Internet. Implica também aprender a identificar potenciais situações de risco e pedir ajuda.

A prevenção do abuso sexual é da responsabilidade de todos nós, enquanto comunidade. Exige uma abordagem sistémica e holística, envolvendo a criança, os pais, professores e técnicos de uma forma geral.
Exige ainda (talvez o mais difícil) que toda a comunidade passe a abordar este tema com a mesma naturalidade com que aborda a prevenção rodoviária ou realiza simulacros de sismos nas escolas. No fundo, dotar as crianças de competências para lidar com potenciais situações de risco.

Não podemos ignorar. Devemos P.R.E.V.E.N.I.R.

 

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