“Estamos a criar adultos egocêntricos, centrados apenas nas suas necessidades”

Outubro 18, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Rute Agulhas ao Pontos SJ de 16 de março de 2018.

Rute Agulhas, psicóloga, acompanha crianças e jovens, alguns em grande sofrimento. Diz que sociedade imediatista e consumo excessivo de tecnologia estão a gerar jovens que não sabem sonhar, esperar, nem lidar com a frustração.

Escreveu recentemente uma carta aberta aos youtubers onde lhes pedia atenção àquilo que faziam. Isto porque tinham chegado ao seu consultório crianças com crises de ansiedade devido aos vídeos que viam no youtube. O que é que este fenómeno nos diz sobre as crianças e jovens de hoje?

Os youtubers são um fenómeno recente em Portugal mas com uma adesão exponencial, e entre miúdos cada vez mais novos. Muitos dizem de forma clara que quando forem grandes querem ser youtubers. Vejo miúdos de 10 anos que fazem cursos para criar e manter uma conta no youtube.

O que é que isto nos diz dos sonhos e desejos das nossas crianças e jovens?

Os youtubers são um modelo incontornável. São jovens adultos, entre os 20-25 anos, que fazem vídeos com conteúdos diversos: uns são puro entretenimento, brincadeiras, que não trazem grandes consequências para os miúdos, mas outros têm conteúdos assustadores, como a “Maria Sangrenta”, ou abordam temas que depois não são clarificados, levando os miúdos a fantasiar. Escrevi esta carta por perceber que havia miúdos com ansiedades, medos, pesadelos e até dificuldades em adormecer porque pensavam em conteúdos dos vídeos. Depois há os jogos, onde aparece a cara do youtuber a jogar e, se uns são inofensivos, outros, como o “Palhaço assassino”, têm conteúdos assustadores. Os miúdos vêem o seu modelo a expressar medo, a ficar assustado, a gritar, a arregalar os olhos. E, por norma, tendemos a mimetizar e a comportar-nos por observação dos nossos modelos. Os youtubers são modelos porque são simpáticos, geram empatia, e os miúdos identificam-se com eles, querem ser iguais a eles, vestir como eles, ter as mesmas coisas do que eles. Os seus produtos de merchandising, livros ou revistas, esgotam num instante, e as meninas pintam o cabelo e maquilham-se da mesma forma das youtubers.

A minha ideia foi levar os youtubers, que talvez façam isto sem pensar nas consequências, a refletir sobre a importância do seu papel, pois têm centenas de milhares de seguidores. Por exemplo, o Casio atingiu há dias os cincos milhões de seguidores. Os miúdos estão sempre em cima do acontecimento pois usam os telemóveis e tablets dos pais, fazem uma subscrição, e quando há um novo conteúdo são notificados. Muitos pais nem sabem. E se não estão a par de tudo, quando chegam à escola imediatamente passam a estar.

A questão central é que aos pais, educadores e família compete o dever de supervisão dos conteúdos e do tempo gasto nisto. Há miúdos que passam horas agarrados ao youtube. Mas muitos pais estão tranquilos porque os filhos estão sossegadinhos no quarto e não estão na rua… O ISCTE fez um estudo recentemente que mostrou que os pais ainda continuam a achar que os perigos estão na rua, são as drogas, os consumos, as más companhias. Não acham que as redes sociais sejam preocupantes e não supervisionam. Os miúdos, que são inteligentes, sabem fazer mais do que os pais e apagam o histórico depois de usar o tablet. Há pais que põem regras, como não levar os telemóveis para a cama. Mas a verdade é que há miúdos que esperam que os pais adormeçam e levantam-se para ir buscá-los. Outros acordam às seis da manhã ao fim de semana, e quando os pais acordam às 9 horas, já eles têm três horas de tecnologias. Na escola, se não têm telemóvel, vêem no dos amigos. Não há forma de controlamos a 100 por cento esta exposição, por isso o investimento só pode passar pela educação.

Como se consegue?

Tem que se conversar sobre o que vêem, explicar, perder tempo, estar com eles a ver. Por vezes, os miúdos estão com phones e nós nem sabemos o que estão a ouvir. Há situações em que têm mesmo de por filtros nos equipamentos. Há pais muito diferenciados que confiam plenamente que os miúdos já têm maturidade para fazer o seu filtro. Mas não têm. Tem de caber aos pais esse papel. Por outro lado, não se trata de culpabilizar os youtubers mas de ajudá-los a serem mais sensíveis ao que fazem e aos seus impactos.

Como é que eles reagiram à sua interpelação?

Reagiram bem e admitiram que nem sempre pensam nas consequência. Por vezes até alertam no final dos vídeos “atenção, não repitam isso, é uma brincadeira, não façam isso sem a presença de um adulto“. Mas estamos a falar dos últimos dez segundos do vídeo, onde a atenção da criança já se esbateu. A mensagem não passa.

No meio de tudo isto, as crianças ficam aterrorizadas, com medos. Mas porque é que continuam a ir ver, mesmo após as recomendações?

Os youtubers misturam conteúdos assustadores – que levam a medos, ansiedades e problemas do sono – com conteúdos lúdicos. Quando os miúdos começam a ver um vídeo não sabem se será assustador e é muito difícil parar a meio. Os youtubers são comunicadores natos, muito apelativos e expressivos a nível não verbal. Os miúdos também afirmam: “depois chego à escola e não tenho nada para comentar”. Ou seja, sentem-se excluídos face aos pares. Todos viram, comentaram, e eles sentem-se excluídos. E nesta idade é muito importante sentirem-se parte de um grupo. No outro dia um dizia-me: “por um lado quero ver, por outro não quero”. Ficam naquela ambivalência. E se não têm ninguém que os ajude a processar e a pensar as vantagens e desvantagens de ver, como podem lidar com o chegar à escola e os outros gozarem por não terem visto? Então optam por ser iguais aos outros, porque há este fenómeno de identificação.

O espaço de conversa entre pais e filhos é cada vez mais difícil?

Cada vez há menos tempo para isso. As pessoas não podem deixar de trabalhar mas há pequenas coisas que podem fazer a diferença, como não ter o rádio ligado quando se vai buscar as crianças à escola, não jantar com a televisão acesa, aproveitar o banho para interagir com os filhos. Sabemos que os miúdos não reagem muito quando lhes perguntamos como foi o dia. Este tipo de interrogatório é infrutífero, é de uma forma mais descontraída que as coisas vem. Os rituais familiares que facilitem a comunicação e a expressão afetiva são muito importantes. São zonas de conforto, criam previsibilidade na vida das crianças. Não se trata de criar tempo extra – os pais queixam-se muito que esse tempo extra não existe -, mas de aproveitar o tempo que têm.

Mas vemos famílias juntas no restaurante onde miúdos e pais estão agarrados ao telemóvel…

Os pais são os modelos. Se eles estão agarrados, é difícil dizer aos filhos para não estarem. Pior: os pais dão os telemóveis e os tablets aos filhos para eles se calarem. Desde pequeninos que fazem isso.

Qual o impacto disso nas crianças?

Não podemos fazer de conta que não estamos na era das tecnologias e pensar que os nossos miúdos de hoje vão crescer da forma como nós crescemos. Quando eu digo aos meus filhos que tive telemóvel aos 23 anos eles quase que desmaiam. A realidade não vai ser a mesma, é um facto. Mas é preciso um equilíbrio e isso é que muitas vezes não se consegue. Os pais delegam muito na internet: se o filho está a fazer o TPC e tem uma dúvida, respondem: “vê no Google“. É a resposta mais fácil. Os pais têm um papel pedagógico e, em vez de ir ao Google, pode ir ao dicionário ou à enciclopédia. Isso implica motivação e sensibilidade e muitas vezes os pais preferem uma solução mais tipo penso rápido do que uma solução de fundo.

Esse consumo excessivo de tecnologia não traz danos a nível da criatividade e da empatia?

O principal impacto é o imediatismo que os miúdos querem em tudo. É o aqui, o agora, e o já. A tolerância à frustração é baixíssima, não têm capacidade de adiar o presente. Os pais, como se sentem culpados pela falta de tempo para os filhos, tendem a compensá-los de outras formas, muitas vezes desajustadas, como por exemplo o materialismo, e o já, o agora. Os miúdos não têm capacidade de espera. Por definição uma criança ou adolescente é auto-centrado, pensa que o mundo gira à sua volta. Se não houver ninguém que o ajude a descentrar-se, a ver que há realidades para além deles próprios, é difícil. Estamos a criar adultos egocêntricos, centrados apenas nas suas necessidades e pouco empáticos. E isso assusta-me.

Mas vai percebendo que também há sonhos, valores e coisas positivas que movem estas crianças?

Claro. Eu vejo de tudo. Ainda no outro dia um miúdo me dizia: “no Natal não quero presentes pois para mim o mais importante é estar com a família, as pessoas de que eu gosto…” Eu até pensei que não estava a ouvir bem pois só estou habituada a ouvir um consumismo desenfreado.

O que esperam os pais dos filhos?

Bons alunos, excelentes notas. Os miúdos têm agendas assustadoras, cheias de atividades extra curriculares e os pais só esperam que eles sejam os primeiros aqui e ali. É quase uma coisa narcísica para os pais: “o meu filho foi o melhor nisto“. Mas se calhar o filho está triste, não tem amigos, está de rastos, e quase não dorme porque sai do futebol às nove da noite e entra na escola às oito da manhã. Parece que os pais não vêem isso: não há tempo para fazer nada, como se fazer nada fosse uma perda de tempo. Não fazer nada é a coisa mais importante do mundo. Para eles criarem e sonharem alguma coisa têm de ter espaço para isso, e não têm. Depois chegam as férias e os pais só querem ocupar-lhes o tempo ao máximo.

Há pouco falava da espera. Agora da gratuidade. São tudo valores que são difíceis de transmitir hoje?

Sim… Ainda vejo algumas famílias com estas preocupações. Por exemplo, de não ver televisão, de restringir o uso das tecnologias, de privilegiar o contacto com a natureza, de dar metade dos presentes de Natal a uma instituição. Há pais que fazem este esforço… Mas a falta de tempo e a necessidade que os miúdos têm de conversar é enorme. Os pais ficam muito perdidos, por vezes querem ser os melhores amigos dos filhos e os papéis confundem-se. Há pais que me dizem: “quero ser o melhor amigo dela para ela me contar tudo“. Mas ela tem que contar o que entende, porque confia no pai e vê nele um papel parental e não um amigo.

Os pais têm dificuldade em gerir este desejo de proximidade e autonomia?

Sim. E quando entram na pré adolescência, por um lado querem monitorizar – e devem – mas depois há o respeito pela privacidade. Os miúdos reagem mal quando se vai ver o telemóvel ou a conta de instagram. Pais muito controladores levam a que os miúdos criem contas paralelas nas redes sociais. E eles acham que controlam e não controlam nada. Tem de passar pelo diálogo e isso implica tempo, disponibilidade, e os pais perceberem que isso é importante. Muitas vezes, o sucesso académico, profissional  e financeiro são a única bitola para medir o sucesso. Os pais vangloriam-se muito do sucesso dos filhos, como se fosse o prolongamento do seu sucesso pessoal. Ou pelo contrário, para que eles possam ser aquilo que eles não puderam ser.

E o contrário também acontece? Os pais sentirem o falhanço dos filhos como falhanço pessoal?

Sim. Perguntam-se: “onde é que eu falhei? O que vão pensar de mim? Qual vai ser a minha representação social se o meu filho não for o melhor?” Há uma metáfora na parentalidade que diz que educar um filho é como lançar um papagaio de papel. Se damos pouca corda e puxamos muito, o papagaio cai. Mas se damos muita corda, o papagaio perde-se. Este equilíbrio, que não é fácil, é entre a autonomia e a segurança, o vínculo. Deixar voar mas perceber que há aqui segurança, um sítio onde podem sempre voltar. Este é um equilíbrio que implica ajustamentos e nem sempre os pais estão disponíveis para isso.

Porque é que há tantas falhas nas competências dos pais?

Há variadas razões. Antigamente, havia uma aldeia a cuidar de uma criança, como diz o provérbio, pois havia uma perspetiva comunitária. Hoje as pessoas estão muito sozinhas, nem o vizinho conhecem. Os miúdos muito entregues à escola, ao ATL, e num determinado estatuto económico, às empregadas. Os pais são um bocado periféricos na vida das crianças, estão tão ocupados que nem têm muita noção das coisas. Há miúdos que vivem numa “gaiola dourada”, que saem da casa para o colégio, e vice-versa, enquanto os pais estão entregues às suas vidas profissionais altamente exigentes. É oito ou 80: os pais que não supervisionam e dão a liberdade toda e depois este extremo da gaiola dourada.

Os miúdos das classes mais altas sofrem mais isso?

Diria que sim. Muitos nem têm competências básicas para andar num transporte público. Andam sempre de UBER ou no carro dos pais.

Mas que tipo de jovens são os dos nossos dias?

Correndo o risco de generalizar, diria que não têm tolerância à frustração. Não fazem planos a médio e longo prazo porque estão habituados ao aqui e agora e não sabem o que é trabalhar para uma meta, ter prazos e tarefas para cumprir até lá, algumas que duram tempo. É mais: eu quero isto agora e já. Até nas classes mais baixas: há pais sem posses e filhos com iphone. São atributos de exteriorização que os miúdos valorizam imenso.

A sociedade vive muito de estímulos e parece impossível criar uma personalidade que não seja uma manta de retalhos. Como podemos ajudar as crianças e jovens a encontrarem formas de unificação interior?

Para aceitarem e assumirem que não têm de ser iguais e fazer o que os outros fazem, tem de haver uma auto estima e segurança que a maioria deles não tem. Mesmo nos comportamentos mais desviantes, de consumos, de automutilações, percebemos que é um fenómeno de grupo. “Como estou num grupo onde estão todos a fumar um charro e eu não estou?” “Se três ou quatro se auto-mutilam porque eu não o faço também?” E experimentam e depois pensam: “até soube bem porque a tristeza que eu tinha até desapareceu por uns momentos“…É uma coisa assustadora. Muitos fazem parte de grupos na internet onde partilham os cortes, como se cosem, etc.

Mas isto está sempre associado a um sofrimento muito grande..

Sim, claro. Mas também está relacionado com processos de identificação. Sabemos que os miúdos precisam de se identificar. Mas temos que perceber como podemos contribuir para que o processo de identificação seja em torno de algo positivo, como o desporto, o acreditar em algo.

Até que ponto as tradições religiosas podem ajudar nisto?

Podem facilitar a dois níveis. Primeiro porque têm muitos rituais, de congregação: as pessoas unem-se para celebrar algo em comum. E depois algumas religiões –  e tenho miúdos de várias –  têm crenças culturais e religiosas que ajudam a lidar com determinadas circunstâncias, nomeadamente a perda, que pode não ser necessariamente a morte, mas uma perda qualquer. O facto de acreditarem em algo facilita a aceitação.

E a espiritualidade como desejo de aperfeiçoamento, de ser melhor, de ter uma ajuda externa, também é importante?

Sim, para jovens e adultos. Vejo pessoas que, em momentos difíceis, seguiram por esse caminho e afirmam que sentiram uma paz interior e adquiriam outra capacidade para olhar as coisas. Sentem-se menos sozinhas, e isso ajuda a lidar com depressões, lutos, ansiedades e divórcios. Quando os filhos saem de casa, (síndrome do ninho vazio) muitas reorientam-se e vão à procura do voluntariado, de sentirem-se bem a fazer o bem. É muito gratificante: fazer o bem pelo bem, a troco de nada, pode ser terapêutico até do ponto de vista da sintomatologia.

Também tem essa experiência com jovens?

Sim. Acompanho miúdos que, por terem problemas de comportamento e pré delinquência e, e numa perspetiva construtiva, foram encaminhados para projetos da comunidade. Ao início têm relutância, dizem que não se identificam e só vão porque são obrigados, mas depois a gratificação que tiram é grande. Recordo um que estava num projeto de sem abrigo e que dizia que não queria estar com aquelas pessoas; depois começou a contar-me histórias, quase com uma lágrima no olho, pois estava a sentir empatia, a saber pôr-se no lugar do outro. Vejo também muitos universitários pró-ativos que, apesar de estarem muito focados na universidade, querem guardar espaço para fazer voluntariado.

É uma forma de contrariar este auto-centramento?

Sim, e reconhecem que isso os ajuda a sentirem-se melhores pessoas. Esta perspetiva comunitária tem-se perdido mas tem de ser reconquistada. O poder da comunidade é muito grande. Os bairros antigamente tinham essa função e o mundo rural também. Hoje as famílias nas cidades estão dispersas e há falta de redes sociais.

Mas as crianças vivem essa ilusão com as redes sociais tecnológicas…

Sim, claro. Têm x amigos mas são virtuais, não se conhecem. E mesmo quando estão lado a lado, mandam mensagens uns aos outros. Os professores dizem que nos intervalos os miúdos estão todos lado a lado a teclar.

Isto resolve-se limitando o acesso às tecnologias até determinada idade?

Mas como se limita? Onde não há internet? E como se monitoriza?

É preciso forçar as crianças a brincarem umas com as outras?

Sim. Alguns já nem sabem fazê-lo, têm déficits de competências sociais, não sabem convidar para brincar, pedir namoro. É tudo virtual, por emojis. Os miúdos falam por mensagens muito curtas e cheias de simbolismo, pelo que a probabilidade de mal entendidos também é maior. A subjetividade da comunicação gera dificuldade na comunicação.

Isso é assim tão generalizado?

A minha amostra é enviesada porque eu vejo as famílias sempre nalgum estado de sofrimento. Mas os adolescentes, numa maneira geral, é assim que comunicam. O que é assustador. Ou os pais contrariam isto, de uma forma ativa – e isto implica chatearmo-nos com os filhos, dizer não, acabou – ou então não sei…. O problema é que temos muitos pais sozinhos, no pós divórcio, e que têm medo da rejeição e da perda dos filhos, sendo, por isso, mais permissivos. Pensam: “Se eu digo que não, ele não quer vir para a minha casa”. Entre uma coisa e outra, os miúdos esticam a corda e é uma escalada.

Falta literacia sentimental aos pais? Há dificuldade em ler o que se passa dentro de cada um e de o expressar?

Sim. Não há emoções boas e emoções más mas vemos muito nas crianças a ideia de que a tristeza, a raiva e a zanga são coisas más. São emoções como as outras, desde que devidamente enquadradas e geridas. E mais uma vez os pais são modelos: se morre alguém e os pais choram às escondidas, porque não podem mostrar aos filhos que estão tristes, que sentido isso faz? Não estamos a dotar os miúdos de competências para lidar com as emoções, sejam positivas ou negativas. Para serem modelos, os pais têm de estar confortáveis com a sua parte emocional. Ou seja, eu posso zangar-me, tenho direito, mas não tenho direito de magoar, de partir uma mesa. A legitimidade entre a emoção e a legitimidade do comportamento. Tenho de ter capacidade para comunicar. Se isto não acontece no seio mais primário que é a família, onde vai acontecer?

Falando agora das famílias que, em vez de serem porto de abrigo, são o motivo do sofrimento das crianças, devido a maus tratos ou conflitos parentais. De que forma isso agudiza o sofrimento?

Quando os maus tratos acontecem no seio da família derruba-se a crença base que qualquer ser humano precisa de ter, a de que “eu pertenço a algo“, neste caso à família, à qual posso recorrer em caso de necessidade. Se quem devia proteger não o faz, e os miúdos não encontram alternativas, é o arruinar do sentimento de segurança. Por vezes encontram alternativas na família alargada, na escola, nos amigos, e isso são fatores protetores. Mas quando não têm competências para ir à procura, para pedir ajuda, é muito pior. Não é necessariamente hipotecar o futuro mas diminui claramente a esperança no futuro. Pois se eu não tenho uma base e uma vinculação seguras, como vou explorar o mundo e arriscar o que quer que seja? Surgem as ansiedades, inseguranças, a dificuldade em confiar. Cai por terra a ideia de que há pessoas que me amam incondicionalmente e estão dispostas a tudo por mim. Dificuldade em expressar emoções, em ter relações de intimidade emocional, em confiar, são características típicas das vinculações desorganizadas, associadas aos maus tratos e abandonos, aos pais inconsistentes, à falta de previsibilidade. As crianças precisam de perceber que, aconteça o que acontecer, o pai está lá. Isso condiciona depois a forma como se vinculam aos outros adultos e traduz-se nas relações de casal muito complicadas e também no exercício da parentalidade. Quando avaliamos pais mal tratantes, abusivos, é muito importante perceber como eles próprios se vincularam e cresceram.

Os pais têm noção disso? Conhecem-se?

Muitas vezes não. E como não têm capacidade de perceber, vão replicando o modelo disfuncional. As famílias que estão disponíveis, conseguem mudar. Mas nem todas as famílias são trabalháveis.

Ao lidar com estes sofrimentos, consegue acreditar no futuro e nas crianças?

Tento agarrar-me às coisas boas, como àquela criança que disse que o mais importante era a família. Tento valorizar estas situações boas que me fazem não desistir de acreditar no ser humano. No meio de tantas experiências menos boas, aprendemos a distanciar-nos, mas há dias em que chego a casa e choro.. Trabalho há 20 anos e alegra-me perceber que hoje se reflete muito mais sobre estas coisas, por isso quero acreditar que daqui a uns anos estejamos bem melhor.

 

Rute Agulhas é Psicóloga especialista em Psicologia clínica e da Saúde, Psicoterapia e Psicologia da Justiça. Docente universitária. 

Fotografia: Nuno Pinto Fernandes

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.

Pais que estudam pelos filhos

Setembro 28, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no DN Life de 22 de setembro de 2019.

O ano lectivo ainda agora começou e já vemos pais e mães empenhados em organizar o processo de estudo… o seu, não o dos seus filhos. Pois é, existem milhares de pais que estudam, não com os filhos, mas sim pelos filhos.

Assumem os testes como sendo deles, as notas como sendo suas. Recordo-me, inclusive, de uma adolescente que chegou a casa e começou aos gritos com a mãe, acusando-a de não ter estudado “como deve de ser” e, por isso, ela (adolescente, a aluna) ter tido má nota. A mãe pediu desculpas…

Bem, temos mesmo que reflectir sobre isto.
O que queremos para os nossos filhos?

Queremos que cresçam e que sejam autónomos, ou que se mantenham dependentes dos pais ad eternum?

Queremos que sejam responsáveis e assumam as consequências dos seus comportamentos, ou que atribuam aos outros essa mesma responsabilidade?

A resposta a estas perguntas dita a forma de agir dos pais e educadores.

Se pretendemos fomentar a autonomia, independência e responsabilidade, então ensinamo-los a ler e a resumir, distinguindo o essencial do acessório. Ensinamo-los a fazer esquemas, a relacionar as matérias e a pensar! Pensar, esse verbo tantas vezes esquecido… e não apenas memorizar sem nada perceber! Ensinamo-los, ainda, a adquirir hábitos de estudo e a perceber que é bom aprender. Pelo prazer de descobrir coisas novas.

Damos-lhes a papinha toda feita, que é como quem diz, a matéria digerida e organizada. Eles apenas têm de ler ou ouvir esses tais resumos e fazer os testes.

Se pretendemos fomentar a dependência, pois estudemos por eles, Façamos os trabalhos de casa e os trabalhos de férias também. Lemos, fazemos os resumos e até os gravamos em ficheiros áudio! Damos-lhes a papinha toda feita, que é como quem diz, a matéria digerida e organizada. Eles apenas têm de ler ou ouvir esses tais resumos e fazer os testes.

Chegará o dia em que os pais fazem mesmo os testes pelos filhos? Já não sei…

Sei que no ensino superior há alunos que pedem para que os atendimentos sejam feitos… aos pais!

Sei que no ensino superior os alunos se queixam porque… há aulas ao sábado! (que professores ditadores são estes que sugerem aulas ao sábado??).

Sei que no ensino superior há alunos que perguntam se um texto deve ter uma introdução, um desenvolvimento e uma conclusão…. conteúdos que fazem parte do currículo do 2.º ano de escolaridade… sim, do 1.º ciclo…

Sei que no ensino superior há alunos que fazem queixa dos professores… porque não disseram as páginas exactas dos livros que teriam de estudar! Isto de sugerir uma bibliografia assim “sem mais nem menos” não pode ser! Temos de indicar as páginas e os parágrafos que devem ler!

Pois estes alunos, antes de chegarem ao ensino superior, passaram por todos os outros níveis de ensino. O que se passou para que atingissem este nível de dependência, desconhecimento, imaturidade e irresponsabilidade?

Naturalmente que não podemos sobregeneralizar. Mas, efectivamente, muitos destes alunos tiveram pais que sempre fizeram por eles. Estudaram por eles. Resolveram por eles. Pensaram por eles.

O que dizer destes pais? Muitas vezes, projectam nos filhos os objectivos e ambições que tinham para si próprios. Ou encontram nos filhos um meio para atingir um fim. O fim da realização e do sucesso.
Mesmo que seja um pseudo sucesso.

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As gémeas da Amadora. Quem são os verdadeiros responsáveis?

Setembro 25, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no Público de 22 de agosto de 2019.

É à comunidade que devemos exigir, em primeiro lugar, um olhar atento às nossas crianças. A proximidade confere-lhe o poder único de aceder às dinâmicas familiares, tantas vezes escondidas perante os demais.

O recente caso das gémeas de 10 anos de idade que viviam em condições deploráveis, não iam à escola e eram vítimas de várias formas de violência motivou a que se apontasse o dedo às Comissão de Proteção de Crianças e Jovens e aos tribunais. Serão eles os verdadeiros responsáveis?

Comecemos pela comunidade. As crianças vivem inseridas numa família nuclear, com outros familiares e uma rede de vizinhança. Salvo raras excepções, existem pessoas que residem perto, no mesmo prédio, na mesma rua ou no mesmo bairro. E esta rede informal é também feita das pessoas da mercearia, da padaria, do café, da igreja, do jardim, entre tantas outras que se cruzam e se conhecem, melhor ou pior.

É à comunidade que devemos exigir, em primeiro lugar, um olhar atento às nossas crianças. A proximidade confere-lhe o poder único de aceder às dinâmicas familiares, tantas vezes escondidas perante os demais. Exige-se uma comunidade informada e sensibilizada, consciente de que sinalizar uma possível situação de risco ou perigo não constitui uma intromissão na esfera privada das famílias. A violência é um assunto que diz respeito a todos nós, sem excepção, e a não denúncia torna-nos cúmplices.

Temos depois as chamadas entidades com competência de intervenção em matéria de infância e juventude. Os ateliers de tempos livres, os centros de saúde, as escolas, as polícias. Estruturas mais formais da comunidade a quem se pede, ou melhor, exige, que olhem com atenção para as crianças. Que sinais dão elas? O que contam? Que receios manifestam? Sabemos que, muitas vezes, as crianças emitem sinais subtis que nem todos conseguem identificar. Por isso se exige, também, formação específica a todos estes profissionais, capacidade de comunicação e de escuta e, acima de tudo, disponibilidade para exercer o seu papel. Que é o mesmo que dizer, não fazer de conta que não se vê ou não se sabe. Porque se tem medo da reacção dos pais. Porque se deseja manter a aparência de uma escola perfeita e sem problemas. Porque pode haver alguém que faça alguma coisa e assim eu não tenho chatices.

Só depois surgem as CPCJ, que têm como missão definir e executar medidas de promoção dos direitos e protecção das crianças em perigo. Sobre estas equipas multidisciplinares, normalmente as mais criticadas quando alguma coisa falha no sistema de protecção, exigem-se profissionais a tempo inteiro, com formação específica e supervisão técnica. Impõem-se ainda mais recursos, humanos e materiais, para permitir um real acompanhamento de proximidade às famílias.

Temos por fim os tribunais, assessorados por equipas técnicas e peritos. Aos tribunais também é fácil apontar o dedo, porque são lentos, ineficazes e carecem de formação específica.

Pois é, perante casos gritantes de desprotecção de crianças facilmente vamos à procura de bodes expiatórios. Lamentavelmente, esquecemo-nos de duas coisas muito importantes. Em primeiro lugar, todos nós, enquanto comunidade, somos parte integrante do sistema. Em segundo lugar, as CPCJ e os tribunais não actuam sozinhos, envolvidos que estão numa rede de interdependência com as demais entidades.

Trabalhar nesta área há mais de 20 anos permite-me perceber que temos ainda um caminho demasiado longo pela frente. Um caminho de informação, sensibilização e formação técnica que possibilite prevenir e intervir de forma realmente eficaz. Infelizmente, um caminho recheado de obstáculos, como o individualismo, os mitos e as crenças que legitimam a violência, a escassez de profissionais e a dificuldade de articulação interdisciplinar. Mas penso que o principal obstáculo pode estar dentro de cada um de nós – quando esticamos o dedo e acusamos os outros, incompetentes, de falharem.

Não teremos falhado todos nós, enquanto comunidade?

Abuso Sexual de Crianças e Adolescentes – Processo de Avaliação – 20 e 27 de setembro e 4 de outubro em Évora

Setembro 16, 2019 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Mais informações no link:

https://www.facebook.com/events/964372680570043/

Deixem as crianças aborrecer-se!

Agosto 29, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no DN Life de 17 de agosto de 2019.

Durante o ano lectivo as agendas dos miúdos rivalizam com as nossas e muitas há que as superam. Ao longo da semana, horas e horas na escola ou mesmo no jardim-de-infância, as explicações para que possam subir as notas (e, tantas vezes, uma subida que apenas tem de acontecer para que os pais possam exibir as notas, com orgulho, perante os seus amigos ou familiares) e as trinta mil actividades extra-curriculares.

A verdade é que raro é o dia da semana em que a criança tem “apenas” as aulas. Chegam a casa em cima da hora de jantar, banhos e trabalhos da escola, e caem extenuados na cama. Sem tempo para brincar. Sem tempo livre. Numa desarmonia total entre os tempos de sono, alimentação e exercício físico que os deixa esgotados e desorganizados.

“Estamos em férias grandes, como se dizia no nosso tempo, e o que vemos nós? Uma preocupação gigante em ocupar o tempo das crianças.”

Chega-se ao fim de semana e o calvário repete-se, com mais actividades extra-curriculares, explicações adicionais em período de testes e, claro, os aniversários de todos os amigos e conhecidos. Chegam a ser duas e três festas por dia… Também ao fim de semana existe pouco tempo livre e, quando o há, os pais preocupam-se em ocupá-lo, de forma quase obsessiva. Ai se a criança tem um intervalo de 2 horas sem nada programado!

Estamos em férias grandes, como se dizia no nosso tempo, e o que vemos nós? Uma preocupação gigante em ocupar o tempo das crianças. Porque os pais têm menos férias do que os filhos, é um facto, e há que entretê-los de alguma forma. Entre ateliers de tempos livres e campos de férias, com a agenda organizada ao minuto e cheia de actividades preparadas previamente, lá se vão passando as férias. As crianças apenas têm de cumprir o que está planeado.

“Deixar as crianças sem fazer nada não é mau, muito pelo contrário. Porque o aborrecimento é mestre de engenhos.”

No meio disto tudo, onde fica o tempo livre, mas verdadeiramente livre? Aquele tempo em que os miúdos se aborrecem de tanto fazer nada e em que têm de puxar pela imaginação para saberem o que vão fazer a seguir? Onde anda esse tempo precioso em que o aborrecimento acaba por ser um estímulo para a criação e a fantasia, fazendo de conta que se é isto ou aquilo, num mundo mágico que apenas existe na cabeça da criança?

Deixar as crianças sem fazer nada não é mau, muito pelo contrário. Porque o aborrecimento é mestre de engenhos. Uma criança aborrecida, mas mesmo muito aborrecida, sente a necessidade de inventar alguma coisa, sem limitar-se a seguir as instruções de uma caixa ou as orientações de um adulto.

“Uma criança entediada terá de aprender a conviver consigo mesma. Falar para dentro, ouvir os seus pensamentos e sentir as suas emoções.”

Deixem as crianças brincar sem tutoriais e experimentar o tédio e aquela sensação maravilhosa de “não tenho nada para fazer”. Porque são estes momentos que estimulam a necessidade em descobrir o mundo por si mesmas, com a curiosidade e a pró-actividade que, tantas vezes, as agendas coartam.

Em jeito de nota final, salientar que uma criança entediada terá de aprender a conviver consigo mesma. Falar para dentro, ouvir os seus pensamentos e sentir as suas emoções, num exercício fantástico de auto-descoberta e auto-conhecimento. Aprendendo que, no final de contas, a sua melhor companhia pode ser ela própria.

Tradições que prejudicam animais e crianças

Agosto 18, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no Público de 29 de julho de 2019.

Sentir prazer em torturar e magoar um ser, humano ou não humano, não é nem pode ser uma tradição. Representa a humanidade naquilo que ela tem de mais horrível, vil e abjecto.

Muitas crianças assistem a touradas, através da televisão ou ao vivo. Assistem com os pais e os avós, aficionados de gema que procuram proporcionar aos seus filhos e netos uma experiência cultural verdadeiramente única. Em seu entender, trata-se de uma tradição que importa manter viva, um banho de arte quase equiparado a um passeio no Louvre. Em simultâneo, alegam que a exposição à violência não tem impacto negativo em quem assiste, nomeadamente, nas crianças.

O principal argumento surge associado à ideia de que as touradas são uma tradição com raízes históricas. Tradição? Tradição?? Mas desde quando é que as tradições têm de ser mantidas apenas porque sim? Porque, se é esse o caso, então vamos manter os combates de gladiadores, os sacrifícios humanos e de animais (bem, as touradas não diferem muito destes), a caça às bruxas, os torneios medievais, os bacanais gregos, a mutilação genital feminina e masculina, o enforcamento, o apedrejamento, as crianças-soldado, o canibalismo, and so on. Sentir prazer em torturar e magoar um ser, humano ou não humano, não é nem pode ser uma tradição. Representa a humanidade naquilo que ela tem de mais horrível, vil e abjecto.

E o que dizer sobre o impacto que esta exposição à violência tem no desenvolvimento emocional e social das crianças?

Desde muito cedo, as crianças aprendem a distinguir e expressar as emoções mais básicas, como a alegria, tristeza, medo, surpresa, nojo e raiva. Ao mesmo tempo, desenvolvem a capacidade empática, associada ao comportamento altruísta. Quer isto dizer que observar o sofrimento alheio tende a activar emoções negativas e também um comportamento de ajuda.

Ora, ao assistirem a uma tourada as crianças são expostas a uma situação que envolve infligir sofrimento atroz num animal, associado a emoções positivas por parte de quem agride e observa. Alegria, júbilo, bater palmas e dar gritos de entusiasmo e incentivo. Apogeu total quando se cortam as orelhas ou o rabo do animal. Ou seja, dito de uma forma mais clara, o sofrimento do animal é associado a emoções positivas nas pessoas. Pessoas que, ao mesmo tempo, emitem mensagens incongruentes e paradoxais (e hipócritas), como limpar as lágrimas do animal antes de o trespassar.

Assim, se podíamos pensar que observar sofrimento no outro podia, de alguma forma, activar nas crianças comportamentos de ajuda e altruísmo, verificamos que acaba por acontecer exactamente o contrário. A violência torna-se normal, banal, legítima e aceitável. Observar o sofrimento alheio é algo bom. Ser cruel tem recompensas. Ser violento é positivo.

É isto que queremos ensinar às nossas crianças?

Não deixamos as crianças ir ao cinema ver filmes para maiores de 12 anos. Criticamos e censuramos alguns programas de televisão e videojogos porque são violentos. E colocamos filtros parentais nos telemóveis e computadores, preocupados com a eventual exposição das crianças a conteúdos desadequados. O que faz todo o sentido, na medida em que numerosos estudos corroboram a existência de uma relação entre a observação de violência (virtual ou ao vivo) com o desenvolvimento de crenças e atitudes que legitimam e aceitam o recurso à violência, aumentando a probabilidade de exibição de comportamentos agressivos. Esta relação observa-se, em particular, nas crianças.

E deixamos as crianças ir às touradas?

Perante tudo isto, questiono: queremos tradições que prejudicam animais e crianças?

Psicóloga especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, Psicoterapia e Psicologia da Justiça; docente e investigadora no ISCTE-IUL

Sabemos onde andam os nossos filhos?

Agosto 10, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de opinião de Rute Agulhas publicado no DN Life de 28 de julho de 2019.

Esta semana os adultos passaram a conhecer a chamada “Team Strada”. Sim, os adultos, porque as crianças e jovens portugueses há muito que conhecem este adulto que terá 36 anos, angariador de miúdos que desejam ser youtubers (nome chique) e influencers. Que é como quem diz, alguém famoso que ganha dinheiro a fazer vídeos parvos e tem uma legião de seguidores.

Que os miúdos de hoje já não aspiram a serem astronautas, pilotos de automóveis ou futebolistas, isso já sabíamos. Vários estudos recentes têm comprovado isso mesmo. À célebre pergunta “o que queres ser quando fores grande?”, cerca de metade das crianças a partir da idade escolar responde youtuber. E é vê-los chatearem os pais para tirarem cursos de youtuber (sim, existem), gastarem rios de dinheiro em câmaras de filmar, luzes e todo um conjunto de parafernálias necessárias para conseguirem um vídeo perfeito.

Após diversas queixas, a Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Protecção de Crianças e Jovens (CNPDPCJ) expôs a situação ao Ministério Público, pedindo uma investigação para aquilo que considera poder configurar uma situação de perigo para as crianças e jovens envolvidos. Ao vermos os vídeos em questão, deparamo-nos com um tipo de proximidade física aparentemente muito intrusiva, com toques e comportamentos que parecem exceder aquilo que será adequado. É bem-vinda esta investigação.

No entanto, esta polémica deve fazer-nos reflectir a outro nível.

Em primeiro lugar, onde estão os pais ou cuidadores destas crianças e jovens que se deixam enredar nestes meandros, sedentos de fama? Ao ponto de poderem fazer qualquer coisa, aceitar qualquer coisa, calar qualquer coisa? Ou querem os pais, mais ainda do que os filhos, esta mesma fama fácil a troco do que tiver de ser?

Em segundo lugar, sabemos a influência gigante que os youtubers têm nas crianças e jovens. E sabemos nós, pai e cuidadores, a que vídeos assistem os nossos filhos? Que influencers influenciam a sua vida? Que comportamentos tentam eles imitar? Que fotos postam eles, na ânsia de receberem mais likes? Que conversas têm nos milhentos grupos de WhatsApp a que pertencem? Quais os conteúdos dos seus jogos preferidos?

Pois é. Às vezes pensamos que sabemos, mas não sabemos. Os maiores perigos há muito que deixaram de ser as más companhias e as drogas na rua. O maior perigo pode estar mesmo aí ao seu lado, aqui ao meu lado, em nossa casa. Debaixo dos nossos olhos. E este perigo é maior ainda porque é silencioso e não incomoda muito. Os miúdos até estão sossegados e entretidos entre quatro paredes, e acreditamos (ou queremos acreditar) que isso é o bastante para os proteger. Mas não é.

Numa era digital, as competências parentais têm de ser transpostas para o mundo online. O que equivale a dizer que é necessário comunicar abertamente com os filhos e conhecer as actividades digitais em que eles se envolvem, protegendo-os dos perigos que a Internet pode representar.

Dá trabalho? Dá.

Eles refilam porque detestam sentir-se controlados? Refilam.

Mas a supervisão é o único caminho seguro.

 

[Entretanto, o YouTube terá encerrado o canal do Team Strada, depois da abertura de um inquérito por parte do Ministério Público, na sequência das queixas que chegaram à CNPDPCJ.]

Em três anos, 53 crianças adotadas foram devolvidas às instituições

Agosto 1, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do DN Life de 30 de julho de 2019.

“Fui devolvido. Ninguém me quer…”

Em 2016, foram devolvidas 19 crianças que estavam em processo de adoção. Em 2017 foram 20 e no ano passado, 14. Ao todo, são 53. Em termos percentuais, o número é reduzido relativamente ao total das que foram adotadas ano a ano. Cerca de 7% ou menos, mas as marcas, essas, ninguém as apaga da memória de quem se sentiu rejeitado.

Texto de Ana Mafalda Inácio

Sandro e o irmão foram devolvidos duas vezes pelas famílias que os adotaram. Sandro era o mais velho, o mais malcomportado e feioso, segundo as famílias. Pedro e João foram devolvidos uma vez. A família que os adotou considerava que já tinha outros filhos – os seus animais de estimação – e que eles foram perturbar a rotina. Samuel foi vítima de abusos na infância e foi parar a uma instituição. Teve como projeto de vida a adoção. Tornou-se parte de uma família que não tinha filhos, cujo pai também teve uma história de abuso na infância e não conseguiu lidar com a situação. Tempos depois, Samuel voltou à instituição e ainda hoje, quando se refere àquela família, os considera como os seus pais. Nunca mais voltou a ser adotado.

Simão tinha 9 anos quando ele e a irmã mais nova foram devolvidos à guarda do Estado, mas seguiram caminhos diferentes. Ele foi para uma instituição e ela para outra. O tribunal acabou por decidir que um e outro seriam adotados individualmente. Ela já foi adotada, ele está na pré-adolescência e com perfeita consciência de que não será fácil uma segunda oportunidade, uma segunda família, mas continua a perguntar a quem o ouve se já lhe arranjaram uma família. Desabafando tantas vezes: “Fui devolvido, ninguém me quer…”

Estas são histórias que deixam marcas, até nos técnicos que lidam com os processos de adoção ou nos psicólogos que acompanham as crianças ou que avaliam posteriormente os processos que falharam. São histórias que dão que pensar. Por isso, “quando uma adoção é interrompida, é obrigação de todos os técnicos se questionarem. É obrigação porem em causa todo o processo para se perceber o que falhou, porque pode ter havido algum fator de risco, um sinal, que não tenha sido bem avaliado”, a afirmação é de Isabel Pastor, diretora da Unidade de Adoção, Apadrinhamento Civil e Acolhimento Familiar da Santa Casa de Lisboa, numa entrevista ao DN. E reforça: “Por vezes, é mais fácil perceber os sinais depois de a situação ter corrido mal, mas não podemos deixar de o fazer.” Até porque as falhas podem estar na avaliação que se fez da família que, afinal, não correspondia ao perfil que se traçou, pode estar na falha da formação dada aos candidatos, no apoio que lhes é dado, pode estar até na falta de preparação da própria criança para a adoção. “Estamos a lidar com crianças que já se sentem rejeitadas, abandonadas, que trazem, por vezes, uma história muito marcante e que irão sempre testar até ao limite qualquer família. E estas têm de ter as motivações certas e estarem bem preparadas”, argumenta Isabel Pastor.

O futuro é imprevisível, mas as histórias servem de alerta para que outros não tenham de as viver. “As marcas que deixam não são apagadas”, dizem-nos. Por muito que se diga que o número de crianças devolvidas é reduzido comparativamente ao total das que ano a ano integram famílias, nada atenua o sentimento de rejeição, porque é assim que as crianças se sentem. “O número até pode ser reduzido em termos percentuais, mas para as 20 ou 15 crianças que criaram expectativas de ter uma família, que chegaram ao ponto de conhecer os candidatos, de ir viver com eles e depois regressam à instituição, é muito complicado e em alguns casos dramático”, diz a psicóloga Rute Agulhas, que acompanha menores em acolhimento e que fez parte da comissão da Ordem dos Psicólogos que reviu o processo de avaliação dos candidatos à adoção.

“Há expressões que se ouvem de algumas famílias e que chocam: “Se isto continua assim vou entregá-lo”; ou que “venderam-me gato por lebre”.

De acordo com os dados oficiais, nos últimos três anos, foram devolvidas 53 crianças às instituições de onde saíram no período de transição ou de pré-adoção. Os relatórios do Conselho Nacional de Adoção e CASA, Caracterização Anual da Situação de Acolhimento, dão conta de que em 2016 regressaram ao sistema por interrupção de adoção 19 crianças; em 2017 regressaram 20 – 13 tinham mais de 7 anos, 11 eram do sexo feminino, nove do masculino e dez eram grupos de irmãos. Em 2018, embora não tenha sido ainda divulgado o relatório do CNA relativo a este ano, o DN apurou que foram devolvidas 14 crianças. Ou melhor, que 14 crianças viram o seu processo de adoção interrompido, é assim que os técnicos e os relatórios oficiais designam a situação.

“Dizer que uma criança foi devolvida choca, mas para elas é isso mesmo. E dizem: ‘Fui devolvido, fui rejeitado, ninguém me quer…’”, explica ao DN a psicóloga. No ano passado, foram seis as situações interrompidas no período de transição, que dura 15 dias a um mês após a criança e a família se conhecerem, e oito já na fase de pré-adoção, nos seis meses que se seguem ao tribunal decretar a adoção.

Mas há algumas que são entregues já depois deste período, pois, segundo os técnicos, esta é a fase do enamoramento entre a criança e a família. Outras regressam mais tarde, chegam a viver anos com as famílias, mas “são devolvidas quando começam a crescer e a dar problemas comportamentais, próprios da idade de quem está na adolescência”, refere ao DN Rute Agulhas. Só que estes dados já não aparecem nas estatísticas oficiais, portanto “os casos são chegam aos técnicos e têm de ser avaliados. Se calhar, o que falta, e quando se trata de uma situação mais avançada, é apenas falta de acompanhamento das famílias, e isso tem de ser repensado”, sublinha a psicóloga.

Chocam algumas expressões que se ouvem da boca de algumas famílias, chocam relatos e desabafos dos jovens que passam por estas experiências. “Já tive de avaliar processos em que as famílias me disseram que os filhos cresceram e não lhes estão gratos – ‘não agradece o que fiz por ele’. Ou que não correspondem às expectativas e, sendo assim, ‘vou entregá-lo’; Ou até ‘venderam-me gato por lebre’, como se os técnicos que estiveram no processo de adoção os tivessem tentado enganar”, conta Rute Agulhas. Acrescentando: “Expressões de quem queria um filho feito à medida, como se houvesse uma receita, e que não o teve. Os filhos biológicos não são feitos à medida e vamos devolvê-los?”

Por isso diz que “a avaliação dos candidatos à adoção é muito importante, mas não só. O acompanhamento durante o período de transição e até pós-adoção também. Muitas famílias alegam que se sentem sozinhas sem saber como reagir perante algumas situações. Se tivessem mais apoio talvez o conseguissem fazer e da forma adequada”.

Sandro carrega o peso de ter sido devolvido duas vezes

O que é para ti uma família? Sandro não teve dúvidas na resposta e desenhou um balão negro a flutuar no ar. A imagem é recordada pela psicóloga que com ele falou depois de ter sido devolvido pela segunda vez por famílias que se candidataram à adoção. Sandro, (nome fictício), tinha 9 anos e um irmão mais novo, de 5. Para ele, a família é igual a nada – ou a rejeição, ou a instabilidade. Sandro foi, supostamente, o culpado pelas situações: “É rebelde e feioso”, alegaram as famílias.

Nas duas vezes, Sandro e o irmão foram viver com as famílias, mas pouco depois estavam a ser entregues à instituição de onde tinham saído. “As famílias alegaram que ele se portava mal. A primeira chegou a verbalizar que não correspondia às expectativas e que era feioso, fiquei chocada quando li isto no processo”, explica Rute Agulhas.

A primeira família propôs-se adotar apenas o mais novo, era mais pequeno, menos rebelde e mais bonito, louro, de olhos azuis. Sandro trazia marcas, memórias, tinha passado por muito, já tinha sentido na pele a rejeição da própria família e não estabelecia vínculos, desconfiava e testava. “Mas quem não o faz? Estas crianças são assim. Trazem bagagem, por vezes muito marcante, as famílias candidatas têm de estar preparadas para isso”, sublinha a psicóloga.

“Por vezes chegamos a situações de devoluções porque as famílias se sentem sozinhas, ficam sozinhas, e não conseguem lidar com as situações.”

Da segunda vez, foram adotados por um jovem casal e nada fazia prever que corresse mal. “Li o processo e não havia indicadores”, confirma Rute Agulhas. A família parecia estar bem preparada, mas Sandro e o irmão foram de novo entregues à instituição no período de pré-adoção. “Não queriam ficar com os dois, só com o mais novo”, explica-nos. Era a segunda situação de interrupção de integração na família.

E a vida de Sandro chegou ao ponto de o próprio irmão “o acusar de não terem uma família”. “Foi horrível quando os ouvi. O mais novo dizia que ‘já tivemos duas famílias e os pais devolveram-nos porque o mano se porta mal, não quero ir para mais nenhuma família com ele’.”

As duas situações marcaram a relação entre Sandro e o irmão. Ele assumia: “Sou o culpado de tudo.” Mas, apesar de ter consciência disso, não conseguia evitá-lo. “Sei que estou a atrapalhar a vida do meu irmão”, chegou a referir. O irmão apenas queria uma família e não a tinha por causa dele.

“O desenho que fez sobre a família revela tudo: a ausência de vínculos. Por isso, testava as famílias que os acolhiam até à exaustão, mas no fundo o que queria era que lhe dissessem e mostrassem: não vais ser rejeitado mais uma vez”, argumenta a psicóloga, que sublinha: “Há famílias que têm as motivações certas, outras não. Mas mesmo as que têm devem ser acompanhadas. Por vezes chegamos a situações de devoluções porque as famílias se sentem sozinhas, ficam sozinhas e não conseguem lidar com as situações.”

Dificuldade em lidar com os desafios

Das 20 crianças devolvidas em 2017, só em duas situações a interrupção “foi motivada por uma resistência recíproca entre crianças e candidatos. Na maior parte das vezes, o fundamento das interrupções é atribuído à dificuldade ou à incapacidade de vinculação por parte dos candidatos”, refere o relatório CASA relativo a esse ano.

“Algumas vezes os candidatos mostraram dificuldade em lidar com os desafios e as exigências do processo, denotando falta de conhecimento ou um desfasamento entre as suas expectativas e o real perfil das crianças. Muito excecionalmente, este facto chegou a gerar castigos desproporcionados ou reações violentas”, lê-se ainda.

Em outros casos, o insucesso ocorreu por “indisponibilidade dos candidatos para o projeto de adoção por estarem demasiado centrados nas suas próprias necessidades, mais do que nas das crianças, ou por estarem noutros projetos incompatíveis, profissionais ou pessoais, com a fase do processo que estavam a vivenciar”.

A psicóloga Rute Agulhas alerta: “As famílias que são avaliadas hoje não são as mesmas que vão receber uma criança daí a três, quatro ou mais anos. Neste período, muita coisa pode mudar na vida das famílias e a avaliação e a seleção dos candidatos deveria ter isso em conta. Nem que fosse necessária uma reavaliação. Por vezes, em determinado momento, não se dá a devida importância aos sinais transmitidos pelos candidatos, mas mais tarde estes podem ser reavaliados e isso poderá evitar algumas das situações de insucesso.”

Pedro e João: devolvidos porque perturbaram a rotina familiar com os animais de estimação

Pedro e João nasceram na mesma família biológica, que os maltratou. Foram retirados e entregues à guarda do Estado. Aguardaram na instituição por uma família que os adotasse. Quando esta apareceu ficaram felizes. Pedro tinha 9 anos, João 6. Meses depois estavam a regressar à instituição. O casal alegou que a presença das crianças perturbou a rotina familiar que já existia anteriormente.

Este é dos casos em que Rute Agulhas diz ter visto sinais de que a situação poderia não correr bem assim que consultou o processo. “Quando me deram o processo para avaliar, depois de as crianças terem sido entregues à instituição, percebi que havia sinais, que deveriam ter sido trabalhados e não foram, que indiciavam que as coisas poderiam não correr muito bem.” E dá um exemplo: “Os candidatos foram convidados a fazer um livro de acolhimento para as crianças. Quando vi o livro, fiquei perplexa. Tinha fotografias do casal, da casa e dos animais de estimação acompanhadas por uma legenda: ‘Este foi o nosso primeiro filho, este o segundo, o terceiro…’ Havia umas seis ou sete fotos de animais de estimação, só depois aparecia um espaço para se colocar as fotos das crianças. Acho que isto era paradigmático de que algo se passava com estes candidatos.”

Ou seja, “um casal que olha para as crianças que vai adotar como o sétimo ou oitavo filho, após seis ou sete animais, não tem as motivações certas. As crianças foram lá para casa e algum tempo depois o processo foi interrompido. Um dos argumentos da senhora era o de que as crianças foram perturbar a vida familiar e a rotina com os outros filhos, que eram os animais. Alguma coisa não correu bem neste processo de avaliação”, critica.

No entanto, reconhece que tem sido feito um esforço para se aperfeiçoar os processos de avaliação dos casais. Porque se existe alguma certeza nos processos de adoção é a de que a avaliação dos candidatos deve ser “exigente, rigorosa e criteriosa. Temos de pensar que estas crianças necessitam de famílias com características muito específicas. São crianças que trazem uma bagagem completamente diferente daquela que traz um filho biológico”.

Rute Agulhas integrou a comissão que em 2015 fez a revisão dos protocolos de avaliação dos candidatos à adoção. O pedido foi feito à Ordem pela própria Segurança Social e ao longo do trabalho foram detetadas “discrepâncias e incoerências na forma como os vários centros da Segurança Social faziam esta avaliação. No final, fizemos uma série de recomendações exatamente para uniformizar o processo, porque os candidatos têm de ser avaliados da mesma maneira independentemente de morarem no Porto, em Lisboa ou no Algarve, e isso não estava a acontecer”.

Foi a partir daqui que surgiu um manual de regras de avaliação para os candidatos. Os técnicos não têm dúvidas de que o processo tem de ser exigente e, por isso, muitas vezes é moroso, mas há alguns que admitem que se tal não acontece é também porque “há receio de rejeitar candidatos. Não só porque há muitas crianças à espera de uma família, mas também porque se são rejeitados os casais podem recorrer ao tribunal. Os técnicos têm de ir responder e fundamentar e nem sempre se sentem resguardados pelo próprio sistema”, afirmou ao DN uma técnica que pede anonimato.

A mesma assegura mesmo que a percentagem de casais rejeitados deveria ser maior do que é. “Muitas vezes, não se rejeita por receio ou prurido, mas há casais que não têm as motivações certas”, argumenta. “Nenhum de nós é perfeito, nenhuma criança o é também, sobretudo as que estão em acolhimento, que têm um passado muito marcante. Por isso, quando uma família se disponibiliza para adotar tem de ser especial e estar muito bem preparada para conseguir lidar com todos os desafios que se lhe vão deparar pela frente. E nem sempre há certezas relativamente a isto quando se avalia”, refere. Sublinhando que há que apostar na avaliação e formação dos candidatos e das próprias crianças para a adoção, mas não só. “Devemos estar atentos aos sinais. É preciso questionar porque é que há famílias que são excelentes candidatos e que depois maltratam as crianças e as devolvem. Isto deve fazer que todos nós nos interroguemos”, argumenta.

Samuel ainda hoje pergunta se não há uma família para ele

Samuel tem uma história diferente. Foi adotado e devolvido, mas ainda hoje continua a falar daquela família como “os meus pais”. Apesar de ter sido castigado no período em que viveu com eles. Samuel, chamemos-lhe assim, tinha comportamentos sexuais desadequados, que vinham da sua história de abusos na infância. Foi adotado por uma família em que o pai também revelou depois ter tido uma história idêntica.

“Receber esta criança foi um reativar de tudo, de toda a sua história, e não conseguiu lidar com isso”, explicou ao DN a psicóloga que acompanhou este caso. A criança, na altura, porque agora é já adolescente, “não correspondeu às expectativas daqueles pais, que queriam ter em casa um menino bem-comportado e isso não aconteceu”.

Samuel voltou à instituição. Faz terapia. Não voltou a ter outros pais, mas não deixa de ter o sonho de um dia poder estar em família. Rute Agulhas salienta: “Não se pode generalizar as atitudes do candidatos porque muitos têm as motivações certas, mas há outros que estão focados em si, nas suas necessidades e não nas das crianças.” E destes é frequente ouvir: “Não consigo resolver este assunto, se isto não correr bem, vou entregá-lo.” E questiona: “Estamos a falar de um filho. Entregamos os filhos biológicos quando se portam mal ou quando as coisas não correm bem? É por isso que defendo que temos de olhar para trás, para a avaliação dos candidatos, prepará-los, formá-los e apoiá-los.”

Um casal que se candidata à adoção não pode pensar que tem sempre uma forma de resolver o assunto: a devolução, porque as histórias repetem-se.

Simão também ansiava por uma família. Foi levado para uma instituição com uma irmã mais nova, acabaram por ser devolvidos. Simão testava as famílias, quando regressaram à guarda do Estado ficaram em instituições diferentes e o tribunal acabou por decidir que os dois voltariam à lista de adoção individualmente. A irmã já foi adotada. Ele tem 15 anos e perfeita noção de que não será, mas continua a perguntar: “Há alguma família para mim?”

“Já vi situações em que as crianças foram devolvidas e depois foram adotadas e o processo correu bem, mas é claro que os pais que vêm num segundo momento têm um nível de exigência muito maior. O que espera uma criança que já foi devolvida? Que a devolvam a seguir, então pensa: ‘Não me vou ligar, já sei que vou ser rejeitada’, e testa a família até mais não, porque a mensagem que pretende receber é que, afinal, eles aguentam e a amem de forma incondicional.”

Samuel e Simão não são os únicos que após terem sido devolvidos continuam a acreditar e a ter esperança de que um dia terão uma família. Porque, no fundo, foi sempre isso que lhes faltou. Para eles, a realidade é uma só: “Ninguém os quer.” E é-lhes difícil aceitar. É-lhes difícil aceitar que afinal para eles não há uma resposta.

As férias dos filhos de pais divorciados

Julho 29, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no Público de 25 de junho de 2019.

O que fazer quando, por alguma razão, a criança está longe de um progenitor mais tempo do que aquele que é capaz de compreender? Existem algumas formas de tentar minimizar o potencial impacto negativo que este distanciamento poderá ter na criança.

As férias escolares chegaram e, como em todos os anos por esta altura, temos um calvário que se repete. O calvário das férias dos filhos de pais separados.

A separação ou divórcio parental é (ou deveria ser) apenas entre os elementos do casal, e não entre pais e filhos. Entre pais e filhos não há divórcio. Assim, e partindo sempre do pressuposto que as crianças têm o direito a conviver regularmente com ambos os pais, os períodos de férias tendem a ser (e bem) igualmente repartidos com cada um deles. Mas atenção, porque nesta distribuição do tempo durante as férias e, particularmente agora, nas férias de Verão (mais extensas), há uma variável chave que deve ser tida em conta: a idade da criança.

Os períodos de tempo que a criança deverá passar com cada um dos pais devem ter em conta a sua idade e nível de desenvolvimento, e não apenas aquilo que dá mais jeito aos pais.

As crianças a partir dos dois ou três anos de idade têm uma noção de tempo que, na maioria das situações, não vai além do “hoje” e do “amanhã”. À medida que crescem, até aos cinco ou seis anos de idade, a sua noção de tempo aumenta um pouco mais, conseguindo já entender o que significa “hoje”, “amanhã”, “ontem” e “depois de amanhã”. Ainda recentemente uma criança de cinco anos me dizia que algo iria acontecer “duas vezes amanhã”, o que traduz bem a sua dificuldade em situar-se no tempo.

É a partir da idade escolar, de uma forma geral, que as crianças começam a interiorizar os conceitos de semana, fim-de-semana e mês. A escola e todas as rotinas a ela associadas ajudam as crianças neste tipo de aquisições.

Quando pensamos na divisão do tempo de férias de Verão com os pais, a noção de tempo daquela criança em concreto deve ser tida em conta. Ainda que estejamos a falar de um período que apenas acontece uma vez no ano, a regra base é simples: a criança não deve passar períodos de tempo que sejam muito mais longos do que aqueles que é capaz de compreender.

O que significa isto?

As crianças até aos três anos devem passar períodos de tempo mais curtos, que lhes permitam não estar mais do que três ou quatro dias seguidos sem estar com o outro progenitor.

As crianças em idade pré-escolar, com maior capacidade para lidar com as separações, já conseguem lidar com intervalos de tempo de cerca de uma semana, sem que a distância face ao outro progenitor seja geradora de stresse.

É a partir da idade escolar, de uma forma geral, que as crianças evidenciam um desenvolvimento cognitivo e emocional que lhes permite tolerar períodos de tempo mais longos, como uma quinzena.

E o que dizer dos adolescentes? Aqui, a nossa preocupação não se relaciona tanto com aspectos do seu desenvolvimento, mas sim com a necessidade, legítima, que sentem em estar com os amigos. Assim, será legítimo também ouvir o adolescente e tentar perceber de que forma a interacção com os seus pares poderá ser integrada nos períodos de férias escolares. Lembre-se que, para um adolescente, passar as férias todas com os pais e sem acesso aos amigos equivale a uma espécie de tortura.

E o que fazer quando, por alguma razão, esta regra não pode ser cumprida e a criança está longe de um progenitor mais tempo do que aquele que é capaz de compreender? Existem algumas formas de tentar minimizar o potencial impacto negativo que este distanciamento poderá ter na criança.

Uma imagem vale mais do que mil palavras

O Francisco tem um ano e meio de idade e nas férias irá estar uma semana com cada progenitor. Diariamente, faz uma videochamada com o progenitor que está longe. Mesmo que ainda não saiba falar muito bem, ouve a voz e vê a imagem, e a interacção é seguramente mais rica.

Torre de legos

A Inês tem três anos e vai estar uma semana com cada um dos pais. Como não tem ainda uma noção de tempo que lhe permita compreender o que isso significa, os pais arranjaram um jogo. No início de cada semana tem sete peças de lego espalhadas. Todas as noites, quando se deita, coloca uma peça em cima da outra. À medida que os dias vão passando, vai construindo uma torre. Ela sabe que quando a torre estiver completa será o dia de mudar para a casa do outro progenitor.

Um dia de convívio durante as férias

A Sara tem quatro anos de idade e tem o seu tempo de férias dividido por quinzenas. A meio de cada quinzena de férias com a mãe ela passa um dia inteiro com o pai. E vice-versa.

Caixa do tesouro

O Martim tem seis anos e tem o seu tempo dividido por quinzenas. Apesar de já ir para a escola este ano, ainda não consegue perceber muito bem o que são duas semanas seguidas. Então cada progenitor tem consigo uma caixa especial, que decorou previamente com ele, onde colocam pequenos objectos simbólicos durante o tempo em que estão longe. Uma flor de um jardim, uma concha da praia, um papel rabiscado com um desenho. Quando se reencontram, abrem juntos esta caixa e exploram cada objecto. Qual a mensagem que é transmitida? “Penso em ti mesmo quando estou longe de ti, nas mais pequenas coisas do dia-a-dia.”

Vamos tentar?

 

Psicóloga especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, Psicoterapia e Psicologia da Justiça; docente e investigadora no ISCTE-IUL

Abuso sexual de crianças e adolescentes: o perigo dos falsos negativos e dos falsos positivos

Junho 30, 2019 às 6:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Artigo de Rute Agulhas publicado no Observador de 27 de maio de 2019.

Há um perigo claro de emissão de pareceres que podem encerrar em si erros de falsos negativos ou falsos positivos. Como minimizar isso?

O abuso sexual de crianças e adolescentes é uma realidade inegável que, embora com maior incidência no sexo feminino e na idade escolar/início da adolescência, abrange ambos os sexos e todas as faixas etárias. Os efeitos negativos do abuso sexual manifestam-se a curto, médio e/ou longo prazo e envolvem alterações a nível físico (e.g., lesões físicas, gravidez, doenças sexualmente transmissíveis), emocional (e.g., medo, tristeza, desconfiança), comportamental (e.g., maior agressividade ou passividade, alterações nos padrões de sono ou alimentação, comportamentos regressivos, comportamentos sexuais inadequados para a idade, auto-mutilação, tentativas de suicídio), e/ou social (e.g., isolamento, alterações nos padrões relacionais, sentimentos de estigmatização). Contrariamente ao que se possa pensar, o abuso sexual não afecta apenas a vítima directa, mas também a sua família e comunidade envolvente.

O abuso sexual é um crime e qualquer suspeita que se revele consistente deve ser sinalizada às entidades competentes, para que estas possam iniciar um processo de investigação e avaliação.

É sobre o processo de avaliação psicológica forense que se exige uma reflexão, Em Portugal, este processo nem sempre decorre de forma célere ou linear, o que obriga as crianças a relatar por diversas vezes aquilo que alegadamente vivenciaram. Muitas crianças chegam a relatar sete ou oito vezes, em serviços diferentes, junto de profissionais diferentes, o que se constitui, sem sombra de dúvida, um processo de revitimização secundária.

Temos disponíveis directrizes internacionais muito claras e objectivas sobre a forma como devem decorrer estes processos — quais os princípios éticos que devem ser tido em conta, quem deve ser envolvido no processo de avaliação, quais os conteúdos específicos que devem ser explorados nas entrevistas de avaliação, que metodologias podem auxiliar a avaliação de crianças mais pequenas, nomeadamente, crianças em idade pré-escolar. A par destas directrizes internacionais, salienta-se ainda toda a investigação já efectuada em Portugal, com diversas publicações que sistematizam protocolos de avaliação.

A existência destas directrizes e protocolos é importante, mas não suficiente, para uma avaliação que se exige rigorosa e isenta de enviesamentos e juízos à priori, por parte do psicólogo. De acordo com a literatura, as variáveis dos próprios entrevistadores exercem uma forte influência sobre os pareceres finais, pelo que devem ser alvo de um processo de reflexão.

Pois vejamos.

A literatura aponta três aspectos que podem contribuir para situações de desacordo nos pareceres dados pelos técnicos, nomeadamente: (a) a sensibilidade, que minimiza os erros de falsos negativos (concluir que é pouco provável que o abuso tenha corrido, quando, na realidade, ocorreu); (b) a especificidade, que minimiza os erros de falsos positivos (concluir que é muito provável que o abuso tenha corrido, quando, na realidade, não ocorreu), e o cepticismo face às revelações de abuso sexual (crenças do entrevistador sobre a possível veracidade do relato).

É desejável que o psicólogo possua elevada sensibilidade e elevada especificidade, embora, muitas vezes, este equilíbrio não se observe. O psicólogo pode ser influenciado por crenças de base (nem sempre conscientes) como, por exemplo, “as crianças não mentem”, “os padrastos são quase sempre os abusadores sexuais”, “uma mãe/mulher nunca abusaria sexualmente de uma criança”, “se os pais estão em conflito devido ao divórcio e às responsabilidades parentais dos filhos, então a alegação de abuso sexual deve ser falsa”. Estas e outras crenças de base podem enviesar todo o processo de avaliação, diminuindo, quer a sensibilidade, quer a especificidade.

Por outro lado, profissionais com um elevado cepticismo irão abordar os casos em que existe uma suspeita de abuso sexual com a crença de que a maioria das revelações é falsa. A este respeito refira-se que, de acordo com estudos internacionais, aproximadamente 1 em cada 4 profissionais acredita que a maioria dos adolescentes que revela uma situação de abuso sexual está a mentir.

Estamos, então, perante um perigo claro de emissão de pareceres que podem encerrar em si erros de falsos negativos ou falsos positivos.

O psicólogo deve ainda ter formação específica nesta área forense e actualizar continuamente os seus conhecimentos. Os desenhos das crianças, por exemplo. Sem dúvida que o desenho é um facilitador da comunicação, especialmente importante com crianças mais novas, e pode ser conceptualizado como uma metodologia auxiliar de avaliação. No entanto, a interpretação do desenho infantil exige conhecimentos específicos, sob pena de se assistir a interpretações, diríamos, selvagens. “O fumo que sai da chaminé sugere a existência de um conflito sexual”, “as mãos da figura humana X são muito grandes, o que indica agressividade”, “a criança desenha cenouras, que têm uma forma fálica, o que remete para o órgão sexual” são exemplos deste tipo de interpretações.

Como minimizar a probabilidade destes erros? Penso que a resposta pode ser apenas uma: com uma adequada articulação interdisciplinar, um processo de avaliação forense que se exige rigoroso e que cumpra as directrizes que a investigação aponta, e uma constante formação, actualização e supervisão dos psicólogos que intervêm nesta área específica.

Referências:

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Agulhas, R. & Anciães, A. (2015). Casos práticos em psicologia forense. Enquadramento legal e avaliação pericial. (2.ª ed.). Lisboa: Editora Sílabo.

Ceci, S. & Bruck, M. (1995). Jeopardy in the courtroom – a scientific analysis of children’s testimony. Washington, DC: American Pychological Association.

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Lamb, M., Hershkowitz, I., Orbach, Y., & Esplin, P. (2008). Tell me what happened: Structured investigative interviews of child victims and witnesses. New York: Wiley.

London, K., Bruck, M., Ceci, S., & Shuman, D. (2005). Disclosure of child sexual
abuse: what does the research tell us about the ways children tell? Psychology, Public Policy, and Law, 11 (1), 194-226.
Mart, E. (2010). Common errors in the assessment of allegations of child sexual abuse. The Journal of Psychiatry & Law, 38, 325-343.

Montesinos, I. & Checa, M. (2010). Evaluación psicológica en el contexto forense. In M. Checa. Manual Prático de Psiquiatria Forense. Barcelona: Elsevier Masson.

Rute Agulhas é psicóloga especialista em Psicologia Clínica e da Saúde. Perita em Psicologia Forense. Professora assistente convidada no ISCTE-IUL. Investigadora no CIS-IUL.

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