“O meu filho corta-se”

Junho 14, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no Público de 29 de maio de 2019.

Muitos jovens têm comportamentos de auto-mutilação. Os pais questionam o que fazer, e eu acrescento o que não fazer.

Muitos jovens têm comportamentos de auto-mutilação. Com as unhas, o x-acto, o compasso, a tesoura ou a lâmina do afia-lápis, desenham cortes no seu corpo. Cortam-se nos pulsos e nos antebraços, nas virilhas e nos tornozelos, havendo mesmo quem se corte no corpo todo, de forma quase indiscriminada. Outros jovens não se limitam a cortar-se e, com agulha e linha, cosem a pele. Inspirados pelo célebre desafio “Tokyo Ghoul”, que começou na China em Setembro de 2011, imitam a personagem Juuzou Suzuya, que costura os lábios, o pescoço e os braços para modificar o corpo.
Os pais descobrem, habitualmente, de modo acidental, ou alertados por alguém. Muitas vezes, os professores são os primeiros a dar o alerta, ou não tivesse a escola um papel privilegiado na identificação de sinais de mau estar e sofrimento das crianças e jovens.

Mas porque o fazem? Pode parecer algo muito estranho e quase paradoxal, mas a verdade é que os cortes são sentidos como um alívio, quando comparados com uma dor emocional mil vezes maior. É isto que os jovens reportam. Uma tristeza, revolta, zanga e angústia tão poderosas e intensas que, quando confrontadas com uma dor física, parecem acalmar. “O meu peito está a arder e a sangrar por dentro, e quando sangro cá fora parece que o que se passa lá dentro fica menos mau… por momentos esqueço-me de todas as coisas más que não me saem da cabeça e sinto um alívio tão grande…”, diz Maria, com 14 anos de idade. Uma jovem deprimida, vítima de maus tratos diversos.

Este comportamento auto-lesivo surge frequentemente associado a um estado depressivo, que pode manifestar-se com sinais e sintomas diversos, desde físicos, afectivos, cognitivos ou comportamentais. Muitas vezes de mãos dadas com perturbações de ansiedade e ideação suicida. De uma forma geral, estes jovens apresentam uma visão profundamente negativa de si próprios, do mundo e do futuro.

Vêem-se a si mesmos como não tendo valor, como sendo inadequados, indesejáveis e incapazes, atribuindo as suas experiências negativas a defeitos psicológicos, morais ou físicos.

Vêem o mundo como insustentável, apresentando obstáculos insuperáveis e resultando continuamente em falha ou perda.

Vêem o futuro sem esperança, pois acreditam que os esforços que despendem serão sempre insuficientes para modificar o curso da sua vida, percepcionando-a como um prolongamento indefinido do seu sofrimento e frustração.

Porque é que isto acontece? Pois, não existe uma resposta simples. Sabemos que existem situações de maior risco, especialmente nos adolescentes, como sejam a baixa auto-estima, sentimentos de culpa, perdas precoces, dinâmica familiar disfuncional ou a exposição prolongada a situações de stress. Também as situações de maus tratos, físicos ou emocionais, a negligência e o abuso sexual são factores de risco acrescido.

Os pais questionam o que fazer, e eu acrescento o que não fazer.

Os pais devem estar atentos, pois outros sinais e sintomas, mais subtis e nem sempre valorizados, precedem a auto-mutilação. Seja a tristeza, a raiva ou a ansiedade, a maior irritabilidade, a apatia ou o isolamento. Ainda, as dificuldades de atenção e concentração (com impacto no rendimento escolar), o comportamento agressivo ou as alterações no sono ou alimentação. Sinais de alerta aos quais os pais (e outros adultos próximos) devem prestar especial atenção. Ao mesmo tempo, desconfiar quando o jovem usa roupas compridas e que tapam o corpo em dias quentes. Recusa vestir algo que mostra os braços ou as pernas? Usa casaco e capuz em dias de verão? Cobre os pulsos com numerosas pulseiras que nunca tira? Pode não ser nada. Ou pode ser.

O que não fazer? Gritar, ralhar, ameaçar, culpabilizar. Ao invés disso, escutar. Mostrar disponibilidade para ajudar e pedir ajuda especializada. Os comportamentos de auto-mutilação não são uma fase, uma mania ou uma mera tentativa de chamar a atenção. São um sinal de alerta vermelho.

 

Psicóloga especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, Psicoterapia e Psicologia da Justiça; docente e investigadora no ISCTE-IUL

 

Psicóloga Rute Agulhas: “Uma família deve ser como um papagaio de papel”

Maio 31, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Rute Agulhas ao Diário de Notícias de 15 de maio de 2019.

Ana Mafalda Inácio

A família é a base de tudo. Pode ter muitos elementos, poucos, só mães ou só pais. Para as crianças não há dúvida, a família são as pessoas que gostam dela e de quem ela gosta. No Dia Mundial da Família, que hoje se assinala, a psicóloga Rute Agulhas dá um conselho: “Não tenham medo de amar e de serem firmes.”

Há famílias perfeitas? Ou quem vive nesta busca vive numa ilusão?

Não há famílias perfeitas. A ideia de família perfeita é utópica e parece-me que nem é isso que se deseja. Se me perguntar se as crianças em acolhimento precisam de famílias perfeitas, eu diria que precisam, mas não as há. Precisam, sim, de famílias com competências muito específicas ou, se quisermos, de famílias especiais. Os desafios que estas crianças vão colocar às famílias de acolhimento são muitos e a vários níveis. São crianças que trazem bagagem, que trazem história, uma narrativa, que têm memórias e, portanto, as famílias têm de saber lidar com tudo isto. Têm mesmo de ser famílias especiais, no sentido em que precisam de ter recursos adicionais…

Que tipo de recursos adicionais?

Quando falo de recursos adicionais, falo de capacidades para saber comunicar com a criança, com o jovem, saber gerir conflitos, saber resolver problemas, serem capazes de conter as suas angústias, a tristeza, a revolta. Falo de saber lidar com as memórias traumáticas que muitas dessas crianças têm, com o saber lidar, muitas vezes, com a angústia em relação ao futuro. Muitas destas crianças trazem o medo da perda, da rejeição, porque é só isso que conhecem, e irão ter muita dificuldade em se ligarem e estabelecerem vínculos afetivos. É preciso não esquecer que muitas destas crianças vêm de um padrão grave, foram vítimas de maus-tratos, abandono, abuso. São crianças com dificuldade em confiar, em dar. Portanto, eu diria que não há famílias perfeitas, mas para estas crianças quase diria que era bom que houvesse.

São crianças especiais que exigem famílias especiais. Mas essas famílias depois de receberem as crianças ficam muitas vezes sozinhas, sem qualquer apoio…

É verdade. Pedimos para estas crianças famílias com características especiais e elas vão necessitar não só de um apoio informal, ou seja, do suporte social que tem que ver com toda a ajuda que possa vir da sua própria família, de amigos, do meio onde a família está inserida, mas também do apoio formal. E este é o que ainda falha muito em Portugal.

“O apoio às famílias depois da adoção ainda falha muito em Portugal.”

O que chama de apoio formal, o apoio que o Estado deve continuar a dar a estas famílias?

As famílias deveriam ter apoio e acompanhamento após a adoção por parte dos serviços, porque a partir do momento que a adoção está decretada, as famílias ficam sozinhas, sentem-se sozinhas, não têm uma equipa de retaguarda a quem possam recorrer e pedir ajuda quando precisam. Era muito interessante que tivéssemos um modelo, como o que já existe noutros países, em que há um acompanhamento dos serviços de adoção mais prolongado. Não falo do período de pré-adoção, porque não é nos primeiros meses que surgem as dificuldades, é à medida que a criança vai crescendo, quando chega à adolescência. Muitas vezes, nestes casos, há uma série de variáveis que tornam esta idade ainda mais desafiante. E isto faz que muitas famílias se sintam sozinhas e desmotivadas, sem qualquer ajuda das equipas de adoção. Este apoio e suporte tem uma lógica e deveria ser institucional.

Mas este apoio deveria ser dado só às famílias que adotam ou a outras também que entram no sistema para serem padrinhos civis ou até de acolhimento?

Claro, deveria ser dado a todas. Por exemplo, no caso dos padrinhos civis, surge muito até a questão de se é mãe, ou pai, ou se não é. São questões e angústias que surgem numa família, que muitas vezes quem recebe estas crianças não sabe bem como lidar, no caso das famílias amigas. Para mim as famílias amigas são uma resposta fundamental para crianças e jovens que não têm outras respostas, que não têm um projeto de adoção, que “estão em banho-maria”, para usar as palavras de uma criança de 14 anos que acompanho e que não teve um projeto de adoção bem-sucedido e que voltou para a instituição. Esta é a perspetiva de uma criança que sabe que vai continuar no sistema e que diz “estou em stan by“, que diz estou aqui, vou vivendo o meu dia-a-dia, não tenho projeto, vejo os outros a entrar e a sair da instituição, a voltar à família biológica ou a terem uma nova família. Eu não tenho nada, nem uma família amiga.

Neste caso, e para uma criança já com esta idade, a família amiga poderia ajudar?

Uma família amiga seria uma resposta importantíssima para estas crianças e jovens, porque podem colmatar um vazio que estes miúdos sentem. Por exemplo, chega o Natal e eles vão passá-lo nas instituições ou com as famílias dos educadores, da equipa técnica, mas sabem e percebem que não são especiais para aquelas pessoas. Portanto, este conceito de família amiga é de facto muito interessante, mas, lá está, até mesmo estas famílias deveriam ser bem acompanhadas e ajudadas pelos serviços

O conceito de família amiga não está na lei e nem sempre é visto com bons olhos pelo próprio sistema, por técnicos, magistrados, casas de acolhimento, etc.

É um conceito diferente do de adoção, mas é um conceito e uma perspetiva que tem de ser trabalhada, quer pelo lado da família amiga quer pelo lado da criança, porque não pode ter a expectativa de um dia poder ir viver definitivamente com ela. É preciso definir bem os limites, porque estas crianças são normalmente muito carentes e expectantes e não podem ver uma família amiga como uma solução a longo prazo. Mas é um conceito e uma perspetiva fundamental para muitas destas crianças e jovens acolhidos.

Como é que se explica que o sistema desconfie, como já me foi dito, deste conceito, o que se espera até para o regulamentar?

É verdade. O sistema desconfia até a vários níveis. Desconfia porque acha que, por um lado, há pessoas que o que querem é adotar e usam esta situação como atalho; desconfia, muitas vezes, embora seja uma questão que se põe em termos de avaliação, se aquela família está de facto altruisticamente a tentar ajudar a criança ou se aquela não é uma forma de se ajudar a si própria. Desconfia…

As crianças e os jovens estão à guarda do Estado, mas há necessidade desta desconfiança. A seleção que as instituições fazem não é suficiente?

Eu diria que não há necessidade de desconfiança. Há uma triagem, se essas famílias forem bem avaliadas e acompanhadas não há necessidade de tanta desconfiança. Imagine uma família que está sozinha, deprimida, que os filhos saíram de casa ou que está num processo de separação, mais debilitada e, de repente, alguém lhes diz que até era bom ser família amiga de uma criança ou fazer voluntariado numa casa de acolhimento. Aí, quem faz a avaliação percebe que para esta pessoa o ser família amiga é uma forma de compensar o seu vazio e não a criança, está a pensar que vai buscar afeto e atenção à própria criança e não que lhe vai dar esse afeto. Isto em de ser triado, avaliado, porque uma situação destas vai correr mal. Ou seja, isto faz que as famílias amigas tenham de ser bem avaliadas previamente para se perceber se a pessoa está emocionalmente estável para poder dar à criança o que ela precisa. Penso que com a devida avaliação e acompanhamento podemos encontrar perfis de famílias amigas que podem ajudar e isso ser bom para uma criança.

Já falámos das características de famílias adotivas, das que apadrinham e até deste conceito de família amiga. Mas o que é essencial na base de uma família?

O afeto. Vínculos afetivos seguros. Ou seja, é saber que há uma pessoa que preenche de tal forma a minha necessidade de afeto que me faz sentir segura. Quando dizemos que uma criança tem uma vinculação segura com alguém é exatamente por isso, é porque tem uma base afetiva sólida a ponto de me permitir explorar, autonomizar, proteger e socializar. Eu diria que a cola que une uma família são os afetos.

“A cola que une a família é a cola dos afetos.”

É isto que define uma família? E os laços biológicos?

É muito giro ouvirmos e pensarmos nas respostas das crianças sobre o que é uma família. Na perspetiva de uma criança, a família ultrapassa, e muito, a questão dos laços biológicos ou consanguíneos. A criança define a família como as pessoas de quem eu gosto e que gostam de mim. Por isso, voltamos à essência, ao afeto, aos vínculos afetivos, que é a tal cola de que falei, independentemente do sexo das pessoas, do número de pessoas, de onde vêm, de onde vivem, etc. Tudo isto é secundário para as crianças. O que interessa é ela sentir que há um vínculo afetivo. Portanto, o que define uma família não são os seus membros, não é se há mãe e pai, se são dois pais ou se são duas mães, se são os avós ou os tios, se vivem aqui ou na China. O que define a família são os afetos.

Isso significa que até podemos ter mais do que uma família?
Bem, não sei. A minha construção de família é só uma, mas pode passar por pessoas muito diversas.

Como diz o ditado, família há só uma?

Há só uma, mas os elementos que a constituem podem ser pessoas que estão próximas fisicamente ou não, podem ser pessoas com laços biológicos ou não, mas eu sinto-as como família.

E quanto ao ditado “a família não se escolhe”, tem mais que ver com os laços biológicos?

O conceito de família vai muito para lá disto…

A construção de uma família é um processo de aprendizagem?

Acho que é um processo de vivência, experiencial, na perspetiva em que se constrói uma relação. Claro que quando experiencio aprendo, mas se não houver essa experiência afetiva não posso aprender. Se não houver a tónica afetiva não consigo aprender a sentir alguém como família. E o conceito-base de família é afetivo e emocional.

Há o medo de constituir uma família ou só o medo das responsabilidades?

Não sei se há o medo de constituir uma família, penso que é mais o medo das responsabilidades que uma família traz. Até mais o medo pela dificuldade de lidar com a responsabilidade afetiva, o medo do abandono e da rejeição.

O que é mais importante que uma família tenha em atenção quando avança para um projeto de adoção, de apadrinhamento ou até de família amiga?

São situações muito diferentes. Numa família amiga tem de saber à partida que o seu papel é o de uma família que tem de deixar partir. Posso ser hoje família amiga de uma criança que daqui a um ano é adotada e tenho de saber lidar com essa situação. Numa família adotiva a expectativa é diferente. E o que se pede, acima de tudo, é a capacidade de amar de forma incondicional. É a necessidade deste vínculo incondicional que não pode depender nunca do comportamento da criança, da capacidade cognitiva, da inteligência, da beleza do que seja. É amar com tudo o que isso implica…

Ter uma família é realmente importante para todos…

É a base de tudo. É o suporte que nos permite ir à aventura e crescer. Quando há uma base segura na família nem há a necessidade de estar com ela ou de falar com ela constantemente. Sabe-se que as pessoas da família estão lá. Há segurança, e esta baixa a ansiedade, permite-nos arriscar a outros níveis, porque sabemos sempre que temos uma base segura. Os técnicos utilizam uma metáfora de que gosto muito para falar da questão da família. Uma família deve ser como um papagaio de papel, ou melhor, como o voar de um papagaio de papel. Se damos muita corda, o papagaio pode voar demasiado e perdemo-lo. Se puxamos muito e não lhe damos suficiente autonomia, cai no chão. No fundo, o exercício da parentalidade tem de ser com este equilíbrio, entre a forma como damos todos os passos e a liberdade que damos ao outro para voar. O exercício funcional da parentalidade deverá ter esta capacidade de ajustamento entre as grandes necessidades e o equilíbrio do sentimento de pertença. É isso, que o papagaio voe sem se perder e sem cair ao chão. Repare, o papagaio está a voar, mas a base está cá em baixo.

Que conselho daria a uma família?

É muito difícil. O que posso dizer é que não tenham medo de amar e de serem firmes.

* Trabalho inserido numa investigação Especial – Crianças em Perigo, a ser publicado durante o mês de maio no Diário de Notícias

 

 

Brincamos muito pouco com os nossos filhos

Abril 8, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Ana Francisconi on unplash

Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no DN Life de 27 de março de 2019.

Vivemos todos uma vida acelerada e sem tempo para nada. Ou melhor, sem tempo para aquilo que deveria ser o mais importante, essa é a verdade. E de entre as várias coisas para as quais não temos tempo, brincar com os nossos filhos assume-se como uma delas. Talvez mesmo a principal.

Proponho que façamos todos um breve exercício que, prometo, não irá demorar mais do que cinco minutos.

Pegue numa folha branca e desenhe um círculo. Depois, divida esse círculo em cinco fatias (como se fosse uma pizza), relativas ao tempo médio despendido com a família, apenas com os filhos, no trabalho, com amigos ou em actividades de lazer, e em outros contextos.

Já está? Certo.

Desenhe agora um segundo círculo, relativo apenas ao tempo despendido com os seus filhos. Divida este círculo em quatro fatias, relativas ao tempo que, em média, ocupa com as rotinas (p. ex., banho, refeições), a ensinar (p. ex. trabalhos escolares), a brincar (brincadeira pura e dura) ou sem qualquer tipo de interacção (p. ex., as crianças estarem a ver televisão ou a brincar sozinhas).

Agora que terminou ambos os círculos, observe com atenção e reflicta. O que pensa? O que sente? O que gostaria que fosse diferente? O que pode fazer para mudar?

Este exercício tem como objectivo ajudar os pais a tomar consciência de quão pouco tempo passam a brincar com os seus filhos, sendo que a interacção lúdica se assume como especialmente importante para o desenvolvimento de vínculos afectivos. Este tempo de interacção, que diversos autores chamam de “tempo especial”, permite não apenas fortalecer os vínculos afectivos, como também potenciar a aprendizagem através do brincar. É através da actividade lúdica que a criança apreende e aprende, que interage com os outros e com o mundo. A projecção e o jogo simbólico permitem desenvolver competências muito diversas, como a empatia, a capacidade em tolerar a frustração e a resolução de problemas. É através da brincadeira, também, que a criança comunica aquilo que pensa e sente. Que se relaciona com os outros e, ao mesmo tempo, que se organiza dentro de si própria.

Desejamos muito que os nossos filhos nos sintam como pessoas de confiança, a quem possam recorrer se precisarem de algum tipo de ajuda. Queremos ser os seus confidentes e guardiões dos seus segredos. Para isso, é preciso tempo de interacção. Brincar com eles ajuda.

Após este exercício, desafio os pais a criarem tempos especiais, em que devem brincar com os seus filhos. Sem estarem particularmente preocupados em que aprendam algo, mas “apenas” brincar. Bastam 10 a 15 min, diariamente ou a cada dois dias. Para as crianças, garanto que serão os minutos mais preciosos do dia.

Vamos experimentar?

(Já agora, e que tal reflectir sobre as outras fatias do tempo?).

 

 

“Tenho um pai-telefone”

Março 19, 2019 às 6:20 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no DN Life de 19 de março de 2019.

Hoje é o “Dia do Pai” e muitos pais e filhos aproveitam este dia para brincar, passear ou conversar. A esses pais e filhos apenas posso dizer, “aproveitem, aproveitem, aproveitem”. Porque muitos outros pais e filhos não estão juntos.

Alguns não estão juntos porque um deles já morreu. É o meu caso. Aí, restam-nos as memórias, que perduram através do tempo. Essas ninguém nos tira.

Alguns não estão juntos porque o pai se desinteressou e afastou. Na vida destas crianças, as mães são super-heroínas, mães e pais e tudo o mais. Que tentam compensar a rejeição e os sentimentos de abandono que estas crianças sentem, virando-se do avesso quando preciso for.

Alguns não estão juntos porque o pai foi violento e obrigado a afastar-se. Para estas crianças, povoadas de memórias más, as mães vestem uma capa com super-poderes, protegendo-as contra tudo e contra todos.

Por fim, alguns pais e filhos não estão juntos porque alguém os impede. Falo das inúmeras situações de conflito parental em que os filhos são injustamente privados do convívio regular com os seus pais. Acontece com pais e mães, é certo, mas atendendo ao dia de hoje, falarei dos pais homens.

O conflito parental no contexto dos processos de separação ou divórcio é uma realidade que não podemos negar. E no meio da confusão, são as crianças quem mais sofre, usadas tantas e tantas vezes como trunfos e armas de arremesso. A privação do contacto da criança com o pai surge, assim, como muito frequente (demasiado frequente). As mães elevam vozes que reclamam mais direitos sobre as crianças, quase como se de uma propriedade sua se tratassem. Afirmam que o amor de mãe é mais forte e importante do que o amor de pai e o mais grave é que, muitas vezes, a sociedade acaba mesmo por legitimar esta pretensão.

São as escolas que validam estas vozes, aceitando sem questionar que uma mãe determine que o pai não deve ser informado sobre as questões escolares do seu filho e que não o pode ir buscar. Aceitam sem qualquer documento judicial que o justifique.

São os profissionais que validam estas vozes, aceitando sem questionar que uma mãe exclua o pai de assuntos tão importantes como a saúde física ou mental. Aceitam sem qualquer documento judicial que o justifique.

São também os tribunais que ainda demoram em perceber o direito que a criança tem. O direito a conviver com ambos os pais, de forma regular e equitativa.

“O amor de mãe é inato”, ouve-se muitas vezes dizer. Nada mais errado. Pensemos em quem são os principais responsáveis pelos maus tratos e negligência junto das crianças. Pensemos ainda nas mães que matam os filhos e nas mães que, inclusive, abusam deles sexualmente. Não, o amor de mãe não é inato, tal como o amor de pai também não é.

“A vinculação da criança faz-se apenas com a mãe”, ouve-se muitas vezes dizer. Nada mais errado. Se, tradicionalmente, a mãe está associada ao papel cuidador, actualmente o pai está mais investido nos cuidados e educação da criança e, tal como a mãe, o pai aprende e constrói a sua parentalidade. A literatura indica que os pais podem ser cuidadores sensíveis dos seus filhos e que as crianças estabelecem relações de vinculação seguras, quer com as mães, quer com os pais nos primeiros anos de vida.

Por tudo isto, neste “Dia do Pai”, desejo apenas que todas as crianças possam efectivamente estar com os seus pais. E os pais com os seus filhos.

Perante todas estas questões, desde os pais mortos, desaparecidos ou agressores, existem ainda as crianças que não têm pai. Têm, sim, duas mães. Ou avós. Ou tios. Ou não estão perto da família e vivem em acolhimento. O que fazem estas crianças no “Dia do Pai”? Será que já pensámos nisto como deve de ser? Pois, não pensámos…

Ainda sobre os escassos contactos que mantinha com o seu pai e, na maior parte das vezes, apenas à distância, dizia um menino de nove anos1, “sabes, acho que não tenho um pai-homem… tenho um pai-telefone”.

Queremos “pais-abraços”, “pais-mimos” e “pais-beijos”, a par de “pais-rotinas” e “pais-limites”.

Não queremos “pais-telefone”.

1 No contexto de uma consulta com o colega psicólogo Luís Fernandes.

 

 

Viver no inferno – crianças expostas à violência doméstica por Rute Agulhas

Março 14, 2019 às 11:30 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no Público de 27 de fevereiro de 2019.

É esta a realidade, quase sempre esquecida, das crianças expostas à violência doméstica

Algumas crianças vivem no paraíso. Outras vivem no inferno.

Algumas crianças acordam de manhã e saltam da cama felizes, rumo ao pequeno-almoço e à escola. São acordadas com beijos e mimos, vozes doces e o cheiro a pão quente.

Outras crianças acordam apreensivas com o cenário que irão encontrar. Quem está em casa e em que condições? Estará a mãe triste e chorosa? Ou irritada e zangada? Estará o pai presente para o pequeno-almoço? Ou terá já saído de casa, batendo a porta com força? E onde estão os beijos e os mimos? O pão, ainda que quente, não lhes aquece o coração.

Algumas crianças vão para a escola sorridentes. Levam na mochila os livros e os lápis de cor, nos olhos o brilho de quem deseja conquistar o mundo.

Outras crianças vão para a escola preocupadas. Carregam em si o peso do medo e da responsabilidade. Afinal de contas, deixam para trás os pais. Será que os vão encontrar em casa ao final do dia? Será que a mãe vai estar novamente com marcas na cara? Será que o pai chora quando pensa que ninguém vê?

Algumas crianças estão nas aulas e saboreiam as letras dos livros. Os números dançam à sua frente e as palavras dos professores são música para os seus ouvidos.

Outras crianças estão nas aulas e o seu pensamento está em casa. Estará tudo bem? Será que gritaram um com o outro? Será que se bateram? Será que precisam de mim?

Algumas crianças vão para o recreio e dão asas à sua imaginação. São bruxas e duendes, reis e rainhas, que correm uns atrás dos outros e se escondem por magia. As bolas dançam no ar e os berlindes conquistam as covas desenhadas na terra.

Outras crianças vão para o recreio e não brincam. As suas mentes estão povoadas de monstros, estes bem reais, que deitam fogo pela boca e agridem. Como podem brincar infestados de memórias más?

Algumas crianças conversam, resolvem divergências e partilham. Emprestam os seus materiais e brinquedos, aguardam pela sua vez e aprendem a lidar com as contrariedades. Não podem ganhar sempre e perder faz parte da vida.

Outras crianças gritam e batem nos colegas, por vezes até nos adultos. Bater é uma boa forma de resolver os problemas e de expressar a zanga que sentem. É isso que aprendem em casa. E choram, sozinhas, escondidas na casa de banho.

Algumas crianças regressam a casa cansadas, mas felizes. Brincar, banhos e jantar, história antes de adormecer, que acalma e embala. Os olhos fecham-se devagar e com promessas de sonhos. Sonhos bons.

Algumas crianças regressam a casa com o coração apertado. Espera-as a tensão e o receio face ao desconhecido. Sem previsibilidade, surge a angústia e a ansiedade. E não, não adormecem devagar. A canção que as embala é feita de gritos e insultos. Os olhos fecham-se de exaustão, inundados de lágrimas e fantasmas. À sua espera, sonhos maus.

Algumas crianças vivem num ambiente de paz e afecto, com rotinas e limites. Crescem com a segurança que apenas uma relação de vinculação segura lhes pode dar, permitindo-lhes explorar o mundo, confiantes.

Outras crianças vivem num ambiente hostil, com violência verbal e muitas vezes física. Assistem a essa violência, aprendem que esta pode ser legítima e ensaiam também formas diversas de a exercer. Não têm dos seus pais o colo e a disponibilidade necessária para os acolher. Sozinhos, inseguros e tantas vezes desorganizados, procuram uma forma de sobreviver.

Estas crianças dão sinais, nem sempre explícitos, de sofrimento psíquico. Sintomas ansiosos e depressivos, alterações de comportamento e de humor, alterações no rendimento escolar. Sentem medo e culpa, crescem de uma forma apressada e aprendem, da pior forma possível, que existem problemas. E dor. E morte.

É esta a realidade, quase sempre esquecida, das crianças expostas à violência doméstica.

O irresistível Pinguim-de-Adélia – Rute Agulhas sobre parentalidade positiva

Fevereiro 20, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no DN Life de 27 de janeiro de 2019.

O Pinguim-de-Adélia («Pygoscelis adeliae») é uma espécie de pinguim que habita a Antártida, e foi assim baptizado em homenagem à esposa do investigador que o descobriu, Jules d’Urville.

Estes animais são muito pequenos e, talvez por isso, esta é considerada a espécie de pinguins mais adorável e irresistivelmente fofa!

A sua época de reprodução ocorre durante o mês de Outubro e constroem os ninhos nas encostas rochosas, utilizando pedras. Tanto o macho como a fêmea tomam conta dos seus ovos, à vez, mantendo-os quentes e protegidos de possíveis predadores. Qualquer pequena pedra é muito importante, e são usadas também como galanteio ou até trocadas por alguns momentos de paixão!

Mas o que têm estes pinguins de tão especial, ao ponto de lhes ser dedicada uma crónica?

O Pinguim-de-Adélia, pela forma doce como interage com os seus pares, pelo cuidado que tem com os seus ovos e, mais tarde, com as suas crias e, ainda, pela partilha dos cuidados por ambos os pais, de forma coerente, que exercem uma verdadeira co-parentalidade (de fazer inveja a muitos seres humanos!), dá o nome a um projecto inovador da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Protecção das Crianças e Jovens1.

Chamamos-lhe, portanto, «Adélia – Projecto Parentalidade Positiva». Porque os cuidados não se medem aos palmos, este pinguim tão pequenino é, em boa verdade, um gigante da parentalidade positiva.

De acordo com a Recomendação Rec (2006) 19 do Conselho da Europa – Comité Conselho de Ministros, a parentalidade positiva é definida como «um comportamento parental baseado no melhor interesse da criança e que assegura a satisfação das principais necessidades das crianças e a sua capacitação, sem violência, proporcionando-lhe o reconhecimento e a orientação necessários, o que implica a fixação de limites ao seu comportamento, para possibilitar o seu pleno desenvolvimento».

O que implica, então, este conceito de parentalidade positiva? O que devem, ou não devem, os pais fazer para conseguir exercer uma verdadeira parentalidade positiva?

Em primeiro lugar, promover uma comunicação adequada e saudável com os filhos. Uma comunicação clara e coerente é a chave do sucesso de qualquer relação e a relação entre pais e filhos não é excepção. Implica falar de forma clara e com coerência entre aquilo que é transmitido verbalmente e não verbalmente. Do que adianta dizer uma coisa com palavras, quando, tantas vezes, os olhos, o tom de voz, a postura ou os gestos dizem exactamente o contrário?

Uma parentalidade positiva implica também saber resolver problemas de forma ajustada. Em todas as relações surgem problemas e a adequação de uma relação não se avalia pela existência ou inexistência de problemas, mas sim pela forma como estes são geridos.

Saber resolver problemas envolve uma correcta identificação do problema e das várias alternativas de resolução, a identificação de vantagens e desvantagens de cada alternativa e a antecipação de possíveis consequências. Só então conseguiremos identificar a alternativa mais adequada e definir um plano para a operacionalizar. E não, não existem alternativas que apenas acarretem vantagens.

Nas relações pais e filhos importa também saber definir estratégias para lidar com os comportamentos adequados. Quer isto dizer que não devemos dar atenção apenas aos comportamentos desadequados das crianças. Se queremos que os comportamentos desejáveis se tornem mais frequentes, duradouros e intensos, é fundamental saber reforçá-los. Privilegiar o reforço social (elogio) ou com actividades que a criança goste e, se possível, que envolvam toda a família. Quando foi a última vez que elogiou o seu filho, só porque sim?

E o que fazer face aos comportamentos desadequados da criança? Pois, se queremos exercer a nossa parentalidade de uma forma positiva, então temos mesmo de eliminar as estratégias de natureza punitiva. E por punição não se entenda apenas a punição física, mas também outros comportamentos que são psicologicamente agressivos. Como dar ordens sem explicação, «porque aqui mando eu» e «é não, porque não». Ou, ainda, humilhar ou ameaçar a criança de qualquer forma, intimidando-a ou fazendo-a sentir que não é amada, desejada ou aceite de forma incondicional.

No fundo, pretende-se ajudar os pais a encontrar estratégias alternativas para lidar com os comportamentos negativos como, por exemplo, ignorar, reforçar comportamentos que sejam incompatíveis com aqueles que se pretendem eliminar ou, ainda, retirar privilégios como consequência da sua exibição.

As crianças precisam ainda de limites, de um amor firme com balizas que as orientem e encaminhem. Ouvir um «não», ou até muitos «nãos», não traumatiza as crianças. Contrariamente ao que tantos pais pensam, crescer com um modelo parental de baixo controlo gera mais dificuldades de regulação emocional e comportamental, maior imaturidade e dificuldade na relação com os outros.

Promover a auto-estima da criança é também uma forma de exercer uma parentalidade positiva. Ajudar a criança a identificar os seus pontos fortes e áreas de competência, valorizando-se por aquilo que consegue fazer, mas, acima de tudo, por quem é.

Por fim, importa também partilhar momentos lúdicos e de lazer. Momentos em que brincadeira e divertimento sejam as palavras de ordem, sem que exista, necessariamente, uma agenda de aprendizagens associada a essas actividades. Brincar livremente, deixando fluir a capacidade simbólica da criança, é de uma riqueza sem tamanho. E quando essas brincadeiras são partilhadas em família… tudo ganha uma nova cor!

O nosso Pinguim-de-Adélia tem já um primeiro material a circular pelas famílias de Portugal! Um «quantos-queres» (quem é que ainda se lembra como se faz?) dedicado às várias dimensões da parentalidade positiva. E não é que as crianças de hoje, tal como as do nosso tempo, adoram o «quantos-queres», mesmo com tecnologia zero?

 

 

 

Carta aberta aos pais divorciados em conflito

Fevereiro 19, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no DN Life de 18 de janeiro de 2019.

Caros pais separados ou divorciados, e que estão em conflito, esta carta é para vocês.

Não interessa a vossa idade, profissão ou estatuto socioeconómico. Não interessa se vivem numa barraca, numa casinha modesta ou numa mansão que vale milhões, no centro da capital. Não interessa também o volume da vossa conta bancária, o carro que conduzem ou o colégio que os vossos filhos frequentam. Se têm empregada externa ou interna, se não têm empregada nenhuma, se viajam muito ou pouco, nada disso realmente importa.

Aquilo que realmente importa é o que estão a fazer, muitos de vocês, aos vossos filhos.

Podia tecer aqui inúmeras considerações sobre o impacto negativo que as vossas discussões têm no bem-estar das crianças. Explicar o quão danoso é expor as crianças ao conflito, utilizá-las como arma de arremesso numa guerra que é vossa, e não delas, ou torná-las mensageiros entre os pais. Podia ainda explicar os sentimentos de tristeza e ansiedade que as crianças experienciam, o medo, a desconfiança, os conflitos de lealdade. Já para não falar das noites mal dormidas destas crianças, povoadas de insónias e receios, bem como das dificuldades em concentrarem-se na escola, por terem a cabeça tão cheia de pensamentos maus.

Mas porque explicar tudo isto tem, para tantos pais, impacto zero, na medida em que continuam centrados em si próprios e no conflito, ignorando totalmente o bem-estar das crianças, iremos abordar o assunto de outra forma.

Vamos utilizar um paralelismo com os maus tratos físicos, que são, efectivamente, mais fáceis de identificar. A única diferença é que os maus tratos físicos deixam marcas visíveis.

Deixo o resto à vossa consideração.

Dizer mal do pai ou da mãe na presença da criança equivale a dar-lhe um murro na cara.

Proibir a criança de levar as suas coisas de uma casa para a outra, alegando que são da «casa da mãe» ou da «casa do pai», equivale a apertar-lhe o pescoço.

Gerar discussões nos momentos festivos da criança, como a sua festa de aniversário, na presença dos amigos, equivale a dar-lhe pontapés e socos na barriga.

Dizer à criança que o pai ou mãe não gosta dela equivale a queimar-lhe o peito com um cigarro.

Proibir a criança de falar ou estar com o pai ou a mãe equivale a bater-lhe com a fivela do cinto nas costas e nas pernas.

Perguntar à criança se gosta mais da mãe ou do pai equivale a chicoteá-la com fios descarnados.

Gritar, berrar, ofender ou bater no outro, na presença da criança, equivale a derramar por cima dela uma frigideira com óleo a ferver.

Por fim, expor tudo isto nas redes sociais ou na televisão, equivale a prostituir a criança.

Sobre os jornalistas que publicitam e promovem esta violência, na senda de um aumento de audiências, pois equivale ao crime de lenocínio.

 

 

Workshop “Somos Família” com Rute Agulhas, 29 de Janeiro em Lisboa

Janeiro 26, 2019 às 6:48 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Workshop “Somos Família” (3 horas)

Lisboa: 29 de Janeiro

A separação e o divórcio são hoje uma realidade incontornável, com uma incidência muito significativa e que se traduz em alterações importantes na estrutura e organização da família. Estas alterações exigem ao sistema familiar a capacidade de reorganizar-se e ajustar-se a esta nova configuração familiar, com redefinição de fronteiras, papéis e limites.

Foi a pensar nestas dificuldades que foi desenvolvido o Manual de Boas Práticas para Pais Divorciados. Não pretende ser um manual de instruções, pois cada família tem a sua própria dinâmica. Não existem receitas que se adequem a todas as famílias. Existem, no entanto, diversas práticas que a literatura tem demonstrado como tendo um impacto mais positivo no bem-estar da família, em geral, e no das crianças, em particular.

Neste workshop irão ser abordados os seguintes temas: o processo de comunicação, o facto de a(s) criança(s) passar(em) a ter duas casas, a escola e as actividades, a gestão das férias e das datas festivas, e o tribunal.

Para além disso será apresentado o jogo de tabuleiro o qual visa facilitar a expressão emocional, cognitiva e a gestão comportamental, por forma a prevenir eventuais dificuldades de ajustamento das crianças.

Mais informações no link:

http://red-apple.pt/workshops-redapple/item/208-somos_familia

Curso: Abuso sexual de crianças e adolescentes – Processo de avaliação – 14, 24 e 31 de Janeiro de 2019 em Lisboa

Janeiro 7, 2019 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Mais informações no link:

http://www.apf.pt/agenda/curso-abuso-sexual-de-criancas-e-adolescentes-processo-de-avaliacao-1?fbclid=IwAR2lAj781SIy0ndI7YhG9npf6JqavD-fB5bS4p5dum_0uw5gsYFBoFYe8RE

Não se adopta uma criança por pena

Dezembro 26, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no DN Life de 9 de dezembro de 2018.

Pensar em adoptar uma criança porque sentimos pena das crianças maltratadas e abandonadas é quase um crime. Um crime na medida em que não deve, nem pode ser essa, a motivação para um processo de adopção.

Existem crianças maltratadas, sim, de diversas formas, e que carecem de uma família que lhes dê aquilo que os seus progenitores não conseguiram ou não quiseram dar. Estas crianças têm, naturalmente, uma história e um passado. Vivências, mais ou menos traumáticas, que podem recordar, também de forma mais ou menos consciente. Estas memórias e consequente impacto no processo de ajustamento da criança dependem, não apenas da natureza das mesmas, mas também da idade, recursos psicológicos e suporte da criança.

Quando as crianças têm definido um projecto de vida com vista a adopção, significa que outras alternativas prévias foram esgotadas. Que se considera que os seus pais biológicos ou outros familiares não conseguem satisfazer de forma adequada as suas necessidades.

O que esperam, então, estas crianças?

Esperam uma família que, independentemente da sua composição, lhes dê aquilo que não têm. Exactamente isso, uma família. Alguém que as ajude a experienciar a sensação indescritivelmente boa de pertencer a um todo. Sentirem-se parte de um “nós”, amadas e cuidadas de forma incondicional. Ou seja, que esse amor e cuidados não dependa nunca da sua aparência, origem, comportamento ou habilidades.

Mas estas crianças também precisam de alguém com especiais competências para conter as suas angústias e receios. Alguém que saiba lidar com as dificuldades, e desengane-se quem pense que num processo desta natureza são tudo rosas. Não são.

Estamos, assim, perante um nível de exigência muito elevado. Porque se exige a quem adopta uma criança que apresente, não apenas uma sólida e adequada motivação para adoptar, como também recursos, internos e externos, que lhe permitam fazer face aos desafios que vai enfrentar. E este ou estes candidatos a adopção começam por enfrentar um processo de selecção e candidatura que é, em si, exigente. E assim tem de ser, sob pena de as crianças poderem ser entregues a quem não está devidamente preparado para as proteger e amar.

Volvido este processo, moroso, e estabelecido o chamado «matching» – a correspondência de características, desejos e necessidades de ambas as partes -, inicia-se um caminho que se quer sem retorno. Um caminho nem sempre linear, com obstáculos tantas vezes sentidos como intransponíveis, mas também com tantas gratificações e emoções positivas.

Percorrer todo este caminho não é fácil. Exige motivação, dedicação, empenho, resiliência, suporte e muito, muito amor.

Pena, não. Não se quer, de todo, esta pena. Porque a pena remete para uma visão assistencialista e remediadora de um problema (redutora, portanto), quando aquilo que se precisa é tão mais do que isso. Quem adopta tem de se assumir, necessariamente, como um suporte para a criança, ajudando-a a crescer segura e a explorar o meio que a rodeia. «Pais-trampolim», que amparam e, ao mesmo tempo, impulsionam para a frente. Que ajudam a crescer de forma ajustada e saudável.

E quando dizemos que o caminho da adopção é um caminho que se quer sem retorno significa que é proibido fazer marcha atrás. Uma vez filho, para sempre filho. E os filhos não se devolvem, só porque afinal são portadores de uma deficiência, não são tão inteligentes como gostaríamos, portam-se mal ou não correspondem aquilo que idealizamos. Pois é. A eterna questão da diferença entre o filho ideal e o filho real… uma questão que se coloca, não apenas aos filhos adoptados, mas também aos filhos biológicos.

Não, não se pode adoptar uma criança por pena. Adota-se por amor e com amor. É assim que os filhos nascem dentro do coração de cada um.

 

 

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