Panda Biggs cortou beijo homossexual na série infanto-juvenil Sailor Moon

Junho 19, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 9 de junho de 2018.

Os cortes, que se alargaram às cenas em que se fala da identidade de género, motivaram queixa da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género. Entidade Reguladora da Comunicação Social decidiu arquivar o processo.

Natália Faria

Há muito que a natureza da relação entre duas personagens numa série de animação infanto-juvenil alimentava discussões acesas nos fóruns da Internet: Haruka e Michiru, da série Sailor Moon Crystal, não são primas, como foram apresentadas nalgumas das versões internacionais da série japonesa, mas namoradas. E, apesar de se vestir como um rapaz, Haruka é, afinal, uma rapariga apaixonada por desporto e corridas de automóveis. Mas a sua aparência andrógina e a relação homossexual que mantém com Haruka são aparentemente de “apreensão complexa” para as crianças dos oito aos 14 anos a que a série se destina, pelo que o canal Panda Biggs decidiu cortar as cenas que abordavam as temáticas da homossexualidade e transgénero.

A decisão motivou várias queixas à Entidade Reguladora Para a Comunicação Social (ERC), uma das quais apresentada pela Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG), o organismo responsável pela promoção e defesa desses princípios. A ERC entendeu, porém, que não resulta do corte dessas cenas qualquer apelo à discriminação em razão da orientação sexual, pelo que determinou o arquivamento do processo.

Na decisão publicada esta sexta-feira, a ERC refere-se a quatro participações contra o Panda Biggs relacionadas com a transmissão da série de animação japonesa Sailor Moon Crystal 3, além da queixa apresentada pela própria CIG. Todas aludiam aos cortes da cena em que as duas personagens femininas se beijavam, bem como de todas as demais cenas em que se aflorava a questão da identidade de género de uma das personagens, Haruka, uma rapariga com gostos, comportamento e aparência geralmente associados ao género masculino. No entender dos queixosos, tais cortes reforçam a “invisibilidade de expressões afectivas não-normativas”. E a alegação de que se tratou de um acto discriminatório com base na orientação sexual assentou na constatação de que as cenas de assédio sexual, em que uma personagem masculina força o beijo de uma rapariga, foram transmitidas “sem qualquer pudor sobre o público-alvo”.

Decisões destas traduzem-se na “desvalorização social destas pessoas [não normativas], colocando-as numa situação de fragilidade e marginalidade social”, alegam os queixosos, um dos quais sustenta que o corte da cena em que uma personagem revela que é andrógina configura uma “discriminação de género” que vai contra o artigo 13.º da Constituição.

Cenas desadequadas

À ERC, o Panda Biggs alegou que tais cenas eram desadequadas ao público-alvo e ao perfil do canal e que a sua retransmissão poderia “não ter o melhor acolhimento”. “Tratou-se tão-somente de uma apreciação de natureza editorial que nada tem a ver com censura”, alegou o canal, reivindicando o direito à liberdade editorial.

A ERC reconhece que os artigos 37.º e 38.º da Constituição consagram tal liberdade e sustenta que não resulta de tais cortes qualquer incitamento ao ódio gerado pelo sexo e pela orientação sexual mas um silenciamento das temáticas homossexuais e transgénero de um programa infantil tidas como desadequadas ao público jovem. “Tal preocupação até é legítima, dado que se está perante um assunto fracturante na sociedade portuguesa”, concede a ERC.

“É forçoso reconhecer que as temáticas da homossexualidade e do transgénero ainda não são, no contexto social actual, inteiramente aceites por toda a sociedade portuguesa, originando controvérsia. Pode admitir-se até que sejam de uma apreensão mais complexa para as crianças”, reforçou a ERC, para concluir: “Não se põe, por isso, em causa a liberdade editorial do serviço de programas Panda Biggs, que tem a liberdade de escolher os programas que transmite.”

Deliberação da ERC citada na notícia:

Deliberação ERC/2018/95 (CONTPROG-TV)

 

 

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Deliberação ERC Participações contra SIC – Programa televisivo Supernanny

Junho 11, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Consultar a deliberação no link:

Deliberação ERC/2018/93 (CONTPROG-TV)

Os efeitos negativos da exposição precoce aos ecrãs nas crianças

Maio 19, 2018 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Kelly Sikkema on Unsplash

Notícia do Lifestylesapo de 8 de maio de 2018.

Ver televisão é um passatempo muito comum nas crianças mais pequenas. A excessiva exposição pode influenciar negativamente a saúde física e mental, revela um estudo.

As principais conclusões de um estudo da Universidade de Montreal, no Canadá, indicam que ver muita televisão precocemente (aos 2 anos de idade) está associado a riscos subsequentes na adolescência, como vir a ser obesa no futuro, ter hábitos alimentares pouco saudáveis e risco de “saltar” o pequeno-almoço, assim como ter problemas de socialização na escola.

O estudo da Universidade de Montreal foi realizado a cerca de duas mil crianças, nascidas entre 1997 e 1998. Os investigadores seguiram estas crianças desde os 5 meses de idade até completarem 13 anos. Quando fizeram 2 anos, os pais também foram revelando a quantidade de horas que passavam em frente à televisão.

As conclusões do estudo referem que a cada 1h13m que era adicionada ao tempo diário de ver televisão quando as crianças eram pequenas, estava associado a um aumento de 8% no risco de hábitos alimentares não saudáveis, 10% de deixar de tomar o pequeno-almoço aos fins de semana e uma diminuição de 4,7% na socialização na escola, já na adolescência.

As crianças que foram objeto deste estudo tornaram-se adolescentes com hábitos pouco saudáveis, como consumirem mais comida designada de “junk food” e registaram um maior índice de massa corporal.

Os hábitos de vida não afetam apenas o risco metabólico, mas também podem influenciar os resultados pessoais de sucesso, alerta ainda o estudo.

A ACADEMIA AMERICANA DE PEDIATRIA RECOMENDA:

– Para crianças dos 2 aos 5 anos, a recomendação dita uma hora por dia para programas televisivos com conteúdos de qualidade e adequados à idade da criança, e sempre com supervisão dos pais.

– Os pais de crianças de 6 anos devem impor limites sobre o tipo de conteúdos aos quais podem ter acesso e por quanto tempo, e garantir ainda que a tecnologia não interfe com as atividades físicas e qualidade do sono.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Prospective associations between toddler televiewing and subsequent lifestyle habits in adolescence

 

Façam o que eu digo, não façam o que eu faço? notícia da Sábado com declarações de Manuel Coutinho do IAC

Março 14, 2018 às 12:07 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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A notícia contém declarações do Dr. Manuel Coutinho (Secretário–Geral do Instituto de Apoio à Criança e Coordenador do Sector SOS-Criança do Instituto de Apoio à Criança).

Pais gostam mais que os filhos vejam televisão do que estejam na internet

Fevereiro 23, 2018 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 6 de fevereiro de 2018.

Inquérito realizado pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social junto de 650 agregados mostra que só um em cada 10 pais vigiam a utilização da Internet pelos filhos.

CLARA VIANA

Os pais atribuem uma “função pacificadora” à televisão, mas não têm a mesma percepção em relação ao uso da Internet. Esta é uma das conclusões de um inquérito realizado pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) junto de 650 agregados familiares com crianças entre os três e os oito anos, que foi completado por uma série de entrevistas e observação em lares de 20 famílias.

Os dados, divulgados em 2017, foram analisados por uma série de especialistas neste domínio, o que deu origem ao e-book Boom Digital? Crianças (3-8 anos) e Ecrãs, que se encontra disponível desde esta terça-feira no site da ERC.

Nos inquéritos realizados, 73% dos entrevistados concordaram “com a afirmação de que a criança está calma quando está a ver televisão”. “Esta função apaziguadora pode complementar a de baby-sitter electrónica: 54% dos inquiridos concordam com a afirmação de que têm um tempo de descanso quando a criança está a ver televisão”, destaca, no artigo Crescendo entre Ecrãs,uma equipa de investigadores liderada por Cristina Ponte da Universidade Nova de Lisboa.

Os investigadores frisam, de seguida, que esta “função apaziguadora é menos reconhecida por pais cujos filhos usam a Internet: pouco mais de metade (54%) concorda com a afirmação de que a criança está calma quando está nesses ecrãs e menos de um terço (30%) concorda com a afirmação de que eles mesmo têm um tempo de descanso”. Segundo os investigadores, esta diferença relativamente à televisão pode dever-se ao facto de a Internet proporcionar “actividades mais dinâmicas, como a procura de conteúdos, e uma maior interacção”.

Na mesma linha, os resultados do inquérito nacional mostram também que todas as crianças vêem televisão, mas só 38% usam Internet. Este acesso cresce com a idade, passando de 22% entre os 3-5 anos para 62% das crianças com 6-8 anos. Apesar de mostrarem maiores preocupações em relação à Internet do que à televisão, apenas um em cada dez pais disse que realizava “mediação técnica”, como bloquear ou filtrar sites ou verificar o histórico das páginas visitadas.

Descarregar o documento mencionado na notícia:

Boom Digital? Crianças (3-8 anos) e Ecrãs

 

Programa SuperNanny no tribunal: pais de duas famílias revogaram o consentimento que tinham assinado

Fevereiro 21, 2018 às 12:42 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia de Ana Cristina Marques para o Observador em 20 de fevereiro de 2018:

O início do julgamento ficou marcado pela revogação de consentimento de uma família e de um dos pais no que respeita aos direitos de imagem das crianças. Há mais de uma dezena de testemunhas.

Começou esta terça-feira o julgamento da ação sobre a suspensão que envolve o polémico programa SuperNanny, a ter lugar no Tribunal de Oeiras. A sessão que se iniciou pelas 10h00 ficou marcada pela revogação do consentimento de uma família e de um dos pais (pertencente a uma família composta por três figuras parentais) face ao contrato estabelecido com a SIC.

Ao todo, o Ministério Público, em representação dos menores, convocou três famílias, duas delas correspondentes aos programas já emitidos pela estação de Carnaxide, a 14 e 21 de janeiro, e uma terceira de um programa que já estaria gravado. Ao todo, deverão ser ouvidas mais de uma dezena de testemunhas.

A família Mateus e a família Frade, do primeiro e segundo episódios, respetivamente, não revogaram o consentimento que haviam assinado com a produtora, no entanto, o pai da menina que ficaria apelidada de “furacão Margarida”, na sequência do primeiro episódio, fê-lo.

O julgamento do programa SuperNanny começou com a SIC a contestar a legitimidade do Ministério Público estar em representação dos menores. O Ministério Público pediu a interrupção dos trabalhos por uma hora, de maneira a apresentar a devida resposta.

No seguimento do julgamento, o Ministério Público informou que duas famílias não aceitaram a intervenção da Comissão de Proteção de Crianças e Jovens CPC — “instituições oficiais não judiciárias com autonomia funcional”, pelo que o processo remeterá, agora, para o Ministério Público.

O tribunal limitou um máximo de cinco testemunhas a todas as partes envolvidas. Em audiência, o Ministério Público identificou como testemunhas Rosário Farmhouse, presidente da CNPDPCJ, o psicólogo clínico Eduardo Sá, Regina Tavares da Silva, presidente do Comité Nacional da Unicef, Cristina Ponte, professora associada na Universidade Nova, na área das ciência da comunicação e Rute Agulhas, psicóloga e membro da Ordem dos Psicólogos.

Já a SIC, que considerou “não existir fundamento legal para limitar o rol de testemunhas”, o que, na sua acessão põe “em causa o seu direito ao contraditório”, identificou as seguintes testemunhas: a psicóloga e apresentadora do programa em causa Teresa Paula Marques, Pedro Cardoso, Edward Levan, da Warner Bros., e Luís Proença, da direção de programas da SIC. A SIC falou ainda em audiência sobre “o constragimento de tempo e do natural acesso às testemunhas”.

Entre as testemunhas da Warner estão os psicólogos Cristina Valente, que participou no debate da SIC sobre o SuperNanny, e Quintino Aires.

As testemunhas do Ministério Público vão ser ouvidas ainda esta tarde, e as testemunhas da SIC e da Warner apenas no próximo dia 2 de março, altura em que se dá seguimento aos trabalhos judiciais.

De referir que a SIC requereu ainda que as escolas frequentadas pelas seis crianças visadas no processo cedam ao tribunal informação relativa ao desempenho dos menores, mas também ao bem-estar em ambiente escolar, anterior e posterior à exibição do primeiro e segundo episódio do programa SuperNanny.

A SIC suspendeu o programa SuperNanny a 26 de janeiro, na sequência do pedido urgente do Ministério Público para a retirada de todos os conteúdos já publicados do programa e para a suspensão de um próximo episódio. os conteúdos dos programas emitidos permanecem online, porém.

A juíza Cláudia Alves, do Tribunal de Lisboa Oeste emitiu um despacho judicial no final de janeiro através do qual permitia a continuação da emissão do programa mediante algumas condições: para que o terceiro episódio de SuperNanny pudesse ir para o ar, a SIC teria de usar “filtros de imagem e de voz”, quer dos menores, quer dos seus progenitores. Perante estas condições, a estação de televisão decidiu não emitir o programa.

 

 

SuperNanny: “As crianças não são adultos em miniatura” Declarações de Manuel Coutinho do IAC

Fevereiro 20, 2018 às 5:10 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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A notícia contém declarações do Dr. Manuel Coutinho (Secretário–Geral do Instituto de Apoio à Criança e Coordenador do Sector SOS-Criança do Instituto de Apoio à Criança).

Notícia da http://www.sabado.pt/ de 20 de fevereiro de 2018.

por Leonor Riso

Manuel Coutinho, psicólogo e secretário-geral do Instituto de Apoio à Criança, acredita que o tribunal deverá defender a não transmissão do programa.

Hoje, no Tribunal de Oeiras, será julgada a acção acerca da suspensão do programa de televisão SuperNanny. Durante esta audiência, serão apresentadas a contestação e a prova.

O tribunal não deverá permitir que o programa de televisão da SIC suspenso através de um pedido apresentado pelo Ministério Público no Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa Oeste volte a ser transmitido, defende Manuel Coutinho, psicólogo e secretário-geral do Instituto de Apoio à Criança (IAC). “As crianças não são adultos em miniatura. Os pais não podem exercer os seus direitos sobre os filhos de qualquer maneira”, sustenta.

“Acho que o desfecho será favorável a todas as organizações que chamaram a atenção para o facto do superior interesse da criança não ser assegurado”, afirma Coutinho. A Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Protecção das Crianças e Jovens afirmou-se contra o programa, posição acompanhada pela Unicef Portugal, pela Comissão dos Direitos Humanos da Ordem dos Advogados e pelo próprio IAC.

“Continuo a achar que as crianças têm direito à reserva, que não devem ser expostas a situações que as deixem vulneráveis. Há limites que ninguém deve ultrapassar e isso aconteceu neste programa [SuperNanny]. O Estado tem o dever constitucional de defender toda a gente, em especial os mais vulneráveis”, defende o psicólogo de adultos e crianças.

Coutinho frisa que o programa não é pedagógico. “A psicologia não se exerce na praça pública”, acredita. Caso tenha uma função de ensinar, “deve fazer-se com actores e simulando situações”.

 

O miúdo porta-se mal? Não chame a supernanny

Fevereiro 3, 2018 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Patricia Poppe (de blusa branca) convida os pais a ouvirem-se DR

Notícia do https://www.publico.pt/ de 21 de janeiro de 2018.

Não há uma receita para educar, mas há ajudas a que os pais podem recorrer. Da família à ajuda profissional. Tudo menos expor os filhos ao olhar público.

Bárbara Wong

Não é fácil educar. É raro o pai que nunca se confrontou com um dilema, com uma dúvida sobre a educação dos filhos. E agora o que vou fazer? Fiz bem? Devia ter feito de outra maneira? A culpa é minha? Se calhar tenho de pedir ajuda, mas a quem? O polémico programa televisivo Supernanny procura dar essa ajuda aos pais dos filhos mais mal comportados. O guião é simples: há uma família que precisa de ajuda e há uma psicóloga ou terapeuta familiar que tem a solução. A criança problemática deixa de o ser e os pais aprendem a gerir os problemas. Final feliz? Nem por isso. Não é na televisão nacional que se resolvem os problemas privados. Os pais têm outras alternativas.

O programa foi para o ar no último domingo e na segunda-feira de manhã já a Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Protecção das Crianças e Jovens (CNPDPCJ) criticava o conteúdo por considerar que existe um “elevado risco de o programa violar os direitos das crianças, designadamente o direito à imagem, à reserva da vida privada e à intimidade”. Também a UNICEF e o Instituto de Apoio à Criança subscreveram as críticas; e a Entidade Reguladora para a Comunicação Social e a Ordem dos Psicólogos receberam queixas. No final da semana, a família do segundo episódio pedia para que este não fosse para o ar; e a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens de Loures exigia à SIC que retirasse as imagens da criança do primeiro episódio do ar, ao que a estação respondeu que não iria obedecer.

A SIC defende que Supernanny é um programa com “uma vertente pedagógica”, acrescentando que o objectivo “é sempre o de auxiliar pais e educadores a melhorarem a relação com os seus filhos, ajudando-os a estabelecer regras e limites e melhorando a comunicação entre todos, criando assim uma dinâmica familiar mais saudável”. Em causa está o superior interesse da criança, abalado com a exposição mediática, dizem as entidades que se mostram contra o programa e também os especialistas com quem o P2 falou para este trabalho. Portanto, é ponto assente que se os pais estiverem muito desesperados com o comportamento dos filhos, não devem recorrer a um meio onde os problemas da sua família fiquem expostos à vista de milhares de pessoas. A audiência do primeiro episódio foi de um milhão de espectadores.

Então a quem recorrer? Em primeiro lugar à família e aos amigos. Às vezes não é fácil tomar a decisão de pedir ajuda externa porque os pais têm vergonha de não serem capazes de gerir o problema sozinhos, reconhece José Morgado, especialista em Psicologia da Educação e professor e investigador no ISPA, em Lisboa. “Às vezes, os pais têm pudor em pedir ajuda porque acham que são péssimos pais. É preciso trabalhar a auto-estima dos pais”, defende.

Mas não deveria ser um problema pedir ajuda, diz por seu lado Ana Teresa Brito, da Fundação Brazelton/José Gomes Pedro. E a ajuda está em todo o lado. No médico que acompanhou o casal durante a gravidez, no pediatra da criança, no enfermeiro do posto de saúde que dá as vacinas, no educador de infância que a recebe na creche ou no pré-escolar, enumera a especialista. Há toda uma “aldeia” de profissionais que podem ajudar a família porque estabeleceram uma relação com ela, declara. “Uma aldeia cuja família respeite e confie”, acrescenta.

E se essa aldeia não funcionar? Porque o ideal é que funcione, mas pode não ser suficiente. Então há ajudas mais especializadas. José Morgado acredita que o psicólogo de educação é o profissional que pode ajudar os pais e as crianças ou adolescentes em questões de comportamento em casa ou na escola. Ao psicólogo de educação cabe “ouvir e fazer perguntas, muitas perguntas” para compreender o que se passa naquela família. “Mas quando se instala em mim a dúvida se é um problema de saúde mental, então encaminho para a pedopsiquiatria. É preciso sensibilidade no âmbito técnico, mas também ético”, defende o professor.

Pais em grupo

Muitas vezes as dúvidas dos pais só precisam de ser partilhadas, por exemplo, em grupo. Há 14 anos que a Universidade Católica Portuguesa, no Porto, tem o projecto Aprender a Educar, com sessões sobre temas de parentalidade. Para participar “basta ser pai”, informa Mariana Negrão, coordenadora do projecto, que reconhece que este chega sobretudo a pais mais informados, que vão à universidade ouvir especialistas, mas também expor as suas dúvidas. Até agora foram feitas 140 sessões para três mil participantes.

O programa tem saído de portas para a comunidade, para escolas e colégios, mas também para “contextos mais complexos” como é o dos pais com Rendimento Social de Inserção, por exemplo. Nesses casos, tratam-se questões específicas e adaptadas ao público, mas o esquema é sempre o mesmo: expõe-se o tema, ouvem-se os pais partilhar as suas dúvidas ou as suas histórias. Também José Morgado faz o mesmo, a convite de instituições de Norte a Sul do país, ilhas incluídas. “Os primeiros 20 minutos falo, depois abro espaço para debate e a coisa corre bem. No final há pais que vêm falar dos seus problemas”, resume.

O modelo de Escola de Pais de Patricia Poppe, psicóloga educacional e psicoterapeuta, é diferente. Desde 2014 que a especialista iniciou um programa para os encarregados de educação da Escola Alemã, em Lisboa, onde trabalha desde 1986. Uma vez por semana, durante 15 sessões de hora e meia, os pais reúnem-se e conversam entre si. Falam de tudo e aprendem a ouvir. Não vão ali para ouvir receitas, mas naquela partilha podem encontrar soluções para a maneira como educam, explica a psicóloga, que também faz este trabalho de grupoanálise no seu consultório privado.

Para entrar no grupo é preciso passar por uma entrevista e conhecer bem as regras: escutar os outros, respeitar a sua opinião, saber que tudo o que ali se diz é confidencial, comprometer-se a ir regularmenta e evitar encontrar-se com os outros pais fora do grupo. “São limites seguros que são criados, que permitem que se fale sobre o que se sente, sem medo, sem julgamentos”, explica Patricia Poppe.

Não há receitas

“Muitos pais querem fazer o melhor, mas não conseguem lá chegar. Por isso, [neste grupo] procuro criar um ambiente acolhedor e de segurança para que os pais possam falar abertamente e partilhar”, assim, os pais descobrem que os outros têm problemas semelhantes ou antevêem as questões com que se poderão confrontar mais tarde – porque os grupos são feitos com pais que têm filhos de diferentes idades. Esta partilha faz com que “diminua a vergonha e a culpa”. “Quando os filhos têm problemas, os pais sentem que a culpa é deles”, constata a psicóloga.

Este é um modelo em que não se privilegia a “parte cognitiva e racional”, que é o que acontece nas sessões onde um especialista fala de um tema; mas que os pais vivem porque escutam os outros. “Tudo o que se passa no grupo vai ser interiorizado e levado para casa. Esta é a grande mais-valia”, sublinha Patricia Poppe, acrescentando que “não há uma receita”. “Ninguém diz como é que os pais têm de fazer [em relação ao comportamento dos filhos], os pais descobrem sozinhos porque nada é imposto, vem do seu interior”, reforça.

 

Um conselho que Ana Teresa Brito dá aos pais é “ouvir a sua intuição”. “Acreditamos que os pais são os maiores especialistas, mesmo quando estão a falhar, porque foram eles que sonharam o seu bebé”, justifica.

Não há uma receita para educar, mas há coisas que se podem aprender, defende Mariana Negrão. Assim como há cursos de preparação para o parto também devia haver de parentalidade, considera. “Não se nasce ensinado, os pais têm de experimentar, ir aprendendo e não ter receio de expor a sua ‘incompetência'”, acrescenta.

Hoje os pais sentem a pressão para serem perfeitos, continua a professora da Católica. Mas “não precisamos de superpais”, diz José Morgado. “Se houvesse receitas, saíamos todos direitinhos, desenhados a regra e esquadro. Claro que há princípios e valores que devem ser ensinados, mas que servem para apoiar a relação da criança com o mundo. Não queremos que haja uma receita para educar porque cada criança é única e queremos que as crianças recriem o mundo!”, conclui Ana Teresa Brito.

 

 

 

 

 

Quem educa a Supernanny?

Janeiro 31, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de PedroTadeu publicado no https://www.dn.pt/ de 23 de janeiro de 2018.

Não se põe uma criança a chorar frente a um milhão de pessoas. Não se disciplina uma criança frente a um milhão de pessoas. Não se ralha a uma criança frente a um milhão de pessoas. Não se discute a educação de uma criança frente a um milhão de pessoas.

Não se discute o amor dos pais de uma criança para uma plateia de um milhão de pessoas. Não se faz de um quarto de uma criança o palco de um espetáculo ridículo para um milhão de pessoas. Não se faz de uma criança um ator amacacado da sua própria personalidade, só para conseguir entreter um milhão de pessoas.

Não se inculca, condiciona, manipula, negoceia, chantageia, castiga, premeia ou envergonha uma criança frente a um milhão de pessoas. Não se explora, para gozo de um milhão de pessoas, a imaturidade, a inocência, a infantilidade de crianças inconscientes, inconstantes, incoerentes, irresponsáveis e, por tudo isso, indefesas.

Não se faz negócio, comércio, tráfico de emoções com crianças que nunca podem estar preparadas, precisamente por serem crianças, para decidir, por si só, em consciência, se realmente é do seu interesse aceitar vender o riso ou a lágrima a um milhão de pessoas.

Não se mostra a um milhão de pessoas uma criança, aos berros, descontrolada de raiva. Não se mostra a um milhão de pessoas uma briga, estúpida, de crianças irmãs.

Não se revelam os erros de uma criança a um milhão de pessoas. Não se divulgam os erros dos pais de uma criança a um milhão de pessoas.

Uma criança numa família disfuncional não é exemplo pedagógico para um milhão de pessoas.

Uma criança com pais incompetentes, doentes, amargos, deprimidos, gananciosos, egocêntricos, incautos, distraídos, enganados, esmagados ou pouco inteligentes não pode ser usada como modelo comportamental para um milhão de pessoas.

Uma criança com dificuldades de aprendizagem, de socialização, de agressividade, de timidez, de obediência ou de afirmação não pode ser exibida a um milhão de pessoas como exemplo sintético do mal psiquiátrico ou analítico do desvio psicológico.

Uma criança com problemas pessoais ou familiares deve ser ajudada, sim, mas não deve ver o seu problema íntimo, intransmissível, único, ser transformado num anátema eternizado para o resto da vida através da exposição a um milhão de pessoas das suas dores, sejam superficiais, sejam profundas.

A alegria, a tristeza, o êxito, o fracasso, a angústia, a candura, a malícia, a perversidade, o carácter de uma criança não é assunto para ser debatido por um milhão de pessoas como quem discute o enredo de uma telenovela .

O problema da Supernanny, com o seu casaquinho vermelho, as sobrancelhas arrebitadas e os maneirismos queques, qual diabinho simpático, não são as múltiplas ideias que ela tem sobre a educação das crianças e das suas famílias. O problema da Supernanny é ela não ter recebido educação essencial para reter uma única ideia ética sobre a era mediática.

Sendo assim, usando pedagogia antiga, proponho que para educar a Supernanny a obriguem a escrever, num quadro de ardósia, um milhão de vezes, tantos quantos os espectadores do seu programa, a seguinte frase: “A intimidade de uma criança não é um espetáculo giro. A intimidade de uma criança não é um espetáculo giro. A intimidade de uma criança não é um espetáculo giro. A intimidade de uma criança não é um espetáculo giro. A intimidade de uma criança não é um espetáculo giro. A intimidade de uma criança não é um espetáculo giro…”

 

O Impacto da Exposição de Crianças e Jovens em Programas com Formato de Reality Show

Janeiro 30, 2018 às 3:18 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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descarregar o parecer no link:

https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/criancas_realityshow.pdf

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