Na hora de brincar, os educadores desafiam e os pais substituem-se às crianças

Janeiro 11, 2019 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 7 de dezembro de 2018.

Como brincam os pais com os filhos? Como brincam os educadores de infância com os alunos? Há diferenças de género? Estudo mergulha no papel das brincadeiras e compara Portugal com a Alemanha. E mostra que os pais portugueses não estão habituados a brincar.

Bárbara Wong

Uma mala com objectos lá dentro, da caixa dos ovos à máquina de cola quente passando por um martelo, fios, tecidos, purpurinas, rolhas de cortiça, palhinhas, madeiras. O objectivo é, em 20 minutos, um adulto e uma criança fazerem uma actividade em conjunto. Um boneco, um quadro, uma maquete, o que se quiser. Quando os meninos, dos 3 aos 5 anos, realizam a tarefa com o seu educador de infância, este dá-lhes autonomia. Quando a actividade é feita com os pais, estes ajudam e chegam a substituir-se à criança.

Marina Fuertes e Otília Sousa, da Escola Superior de Educação de Lisboa (ESELx), são as autoras de um estudo que foi publicado na revista científica Plos One, em meados de Novembro. O objectivo era perceber como é que os adultos lidam com as crianças em actividades colaborativas. Esta observação começou por ser feita por Holger Brandes, reitor da Evangelische Hochschüle, em Dresden, que propôs a Fuertes replicá-lo em Portugal, de maneira a haver termo de comparação.

Na Alemanha, a ideia de Brandes era perceber se educadores do sexo feminino e masculino colaboram com as crianças de igual forma — “foi um estudo de género”, precisa Marina Fuertes, docente da ESELx e investigadora da Universidade do Porto. Por cá, como a percentagem de educadores homens é diminuta (não chega aos 2%), as investigadoras decidiram alargar a observação aos progenitores. Participaram 55 educadores (dez deles homens), 45 pais (23 mães e 22 pais), 47 rapazes e 48 raparigas, entre os 3 e os 5 anos.

O desafio era, em 20 minutos, levar a cabo uma tarefa com a tal mala cheia de materiais. As diferenças entre a Alemanha e Portugal fizeram-se sentir logo no início da actividade. As crianças germânicas não podem tocar em nenhum material sem antes explicarem ao educador qual é o seu projecto. As portuguesas são incentivadas a explorar a mala. “O educador alemão ajuda a criança a exercitar-se do ponto de vista cognitivo e da sua organização mental. É pedido a uma criança de 3 anos que faça uma planificação prévia. Os nossos [as crianças portuguesas] mexem em tudo”, explica Fuertes.

No entanto, “as crianças portuguesas tomam bastante a iniciativa”, salvaguarda Otília Sousa, docente da ESELx e investigadora do Instituto de Educação, acrescentando que exploram os materiais, os nomeiam e verbalizam o que podem fazer com eles. “A estratégia alemã é muito boa, mas a nossa é melhor em termos emocionais. É dado tempo à criança, as respostas são afectivas, há contacto ocular, não sentem que estão a fazer uma tarefa”, descreve Marina Fuertes.

E a partir daqui a atitude dos adultos também varia. Se os educadores portugueses incentivam a criança a criar sozinha (aconteceu com 21 crianças, em 50), os pais ajudam-na (18 em 45), mas a maioria substitui-a (25 em 45) e faz o projecto por ela (apenas duas crianças o fizeram a solo). Segundo a mesma observação — todos os pares foram filmados, posteriormente o filme foi visto e classificado pelos investigadores segundo uma escala tendo em conta a empatia, cooperação, desafio, atenção e comunicação —, também houve educadores que fizeram as tarefas pelos seus alunos (12), mas não tanto como acontece com os pais (25).

“O adulto não deve fazer [a tarefa] pela criança ou rejeitar as suas ideias, mas pode contribuir para elas. Apesar de tudo, os educadores trabalharam muito em parceria, alguns preferiram seguir a criança mas não ‘abandonaram na tarefa’. Nalguns casos, questionar e dar várias opções à criança também pode ajudá-la a reflectir, a planear, a tomar decisões”, defende Marina Fuertes.

Homens e mulheres agem de maneira

“O género de quem está com a criança também é importante”, informa Otília Sousa. Inicialmente, as investigadoras não encontraram diferenças entre pais e educadores na interacção com as crianças. Contudo, quando se separaram os pais e os educadores de infância homens para um lado e as mães e as educadoras para o outro, surgiram diferenças: os homens tendem a ser mais competitivos, liderando a actividade e promovendo projectos paralelos. As mulheres permitem que a criança participe e promovem um trabalho colaborativo.

Mais: homens e mulheres agem de maneira diferente quando ao seu lado têm um rapaz ou uma rapariga. Com as meninas, os pais homens dão-lhes a oportunidade de trabalharem em conjunto; já com os meninos, os pais fazem a actividade enquanto eles observam. “Com as mães são os rapazes os autores e a mãe apoia. Com os pais, os rapazes são introduzidos numa hierarquia muito cedo: eles são liderados pelos pais e lideram as mães. Apreendem que podem ser líderes ou liderados. Com as meninas, a parceria é maior. As raparigas são introduzidas à colaboração”, diz Marina Fuertes. Desconhece-se se este comportamento terá impacto no futuro.

“A forma como os adultos comunicam com as crianças também é muito interessante”, diz Otília Sousa. Enquanto os educadores dão sugestões, os pais dão indicações. “Quando o adulto manda, o interesse e a participação diminuem; quando sugere, a criança envolve-se e elabora”, acrescenta Marina Fuertes.

O elogio é outra forma de manter os miúdos envolvidos. Não o elogio “a torto e a direito”, mas o “sofisticado”, como: “‘Ensina-me como se faz’; ‘isto é muito interessante, não sabia’; ‘podes ajudar a mãe?’. É a melhor forma de os elogiar”, acredita Marina Fuertes.

O resultado final do projecto também varia de Portugal para a Alemanha, diz Otília Sousa: “Nós temos mais sujeitos animados [as crianças fazem bonecos que personificam as famílias ou animais], e eles [os alemães] fazem mais objectos.”

As investigadoras observaram ainda que os pais portugueses não estão habituados a brincar com os filhos. “Toda a atitude do adulto é de espanto porque não está à espera que a criança saiba fazer”, aponta Marina Fuertes.

Educadores e pais complementam-se

O que era proposto neste estudo passava por construir algo: como se fosse um jogo de legos. E nem as crianças nem os pais têm o hábito de brincar assim. As crianças “são cada vez mais passivas”. “É-lhes dado espaço para brincar, mas não para fazer”, critica Fuertes.

E a comparação volta à Alemanha. Por lá, nas salas do jardim-de-infância há uma mesa de carpintaria a sério, com materiais cortantes, como uma serra. Por cá, isso é impensável. Por lá, há campo para explorar, é comum haver um tanque de areia ou de lama; por cá, os tanques de areia foram retirados das escolas por falta de higiene. Por lá, os meninos podem subir às árvores; por cá nem por isso. “O lado da exploração, o lado mais físico não existe. Afastámo-nos da natureza e higienizámos a brincadeira”, nota Otília Sousa. “Até há 15 anos, no exterior havia árvores, pedras, terra; hoje temos tartan (quente no Verão e ensopado no Inverno). É preciso correr riscos e quanto mais a criança ganha essa noção, nos primeiros anos, mais dificilmente correrá riscos reais no futuro. Estamos a protegê-los tanto, que não estamos a protegê-los e já vemos crianças a correr em superfícies planas e a cair [porque a coordenação motora não está bem desenvolvida]”, lamenta Marina Fuertes.

Em suma, as investigadoras concluem que é importante os pais e os filhos brincarem. Isso melhora a relação, além de que quer uns quer outros aprendem entre si. E também é importante a criança ter várias experiências: “Criar quando lhe dão espaço e regular emoções quando não têm esse espaço, por isso a complementaridade entre educadores e pais é importante”, conclui Marina Fuertes.

E a partir daqui a atitude dos adultos também varia. Se os educadores portugueses incentivam a criança a criar sozinha (aconteceu com 21 crianças, em 50), os pais ajudam-na (18 em 45), mas a maioria substitui-a (25 em 45) e faz o projecto por ela (apenas duas crianças o fizeram a solo). Segundo a mesma observação — todos os pares foram filmados, posteriormente o filme foi visto e classificado pelos investigadores segundo uma escala tendo em conta a empatia, cooperação, desafio, atenção e comunicação —, também houve educadores que fizeram as tarefas pelos seus alunos (12), mas não tanto como acontece com os pais (25).

“O adulto não deve fazer [a tarefa] pela criança ou rejeitar as suas ideias, mas pode contribuir para elas. Apesar de tudo, os educadores trabalharam muito em parceria, alguns preferiram seguir a criança mas não ‘abandonaram na tarefa’. Nalguns casos, questionar e dar várias opções à criança também pode ajudá-la a reflectir, a planear, a tomar decisões”, defende Marina Fuertes.

Homens e mulheres agem de maneira

“O género de quem está com a criança também é importante”, informa Otília Sousa. Inicialmente, as investigadoras não encontraram diferenças entre pais e educadores na interacção com as crianças. Contudo, quando se separaram os pais e os educadores de infância homens para um lado e as mães e as educadoras para o outro, surgiram diferenças: os homens tendem a ser mais competitivos, liderando a actividade e promovendo projectos paralelos. As mulheres permitem que a criança participe e promovem um trabalho colaborativo.

Mais: homens e mulheres agem de maneira diferente quando ao seu lado têm um rapaz ou uma rapariga. Com as meninas, os pais homens dão-lhes a oportunidade de trabalharem em conjunto; já com os meninos, os pais fazem a actividade enquanto eles observam. “Com as mães são os rapazes os autores e a mãe apoia. Com os pais, os rapazes são introduzidos numa hierarquia muito cedo: eles são liderados pelos pais e lideram as mães. Apreendem que podem ser líderes ou liderados. Com as meninas, a parceria é maior. As raparigas são introduzidas à colaboração”, diz Marina Fuertes. Desconhece-se se este comportamento terá impacto no futuro.

“A forma como os adultos comunicam com as crianças também é muito interessante”, diz Otília Sousa. Enquanto os educadores dão sugestões, os pais dão indicações. “Quando o adulto manda, o interesse e a participação diminuem; quando sugere, a criança envolve-se e elabora”, acrescenta Marina Fuertes.

O elogio é outra forma de manter os miúdos envolvidos. Não o elogio “a torto e a direito”, mas o “sofisticado”, como: “‘Ensina-me como se faz’; ‘isto é muito interessante, não sabia’; ‘podes ajudar a mãe?’. É a melhor forma de os elogiar”, acredita Marina Fuertes.

O resultado final do projecto também varia de Portugal para a Alemanha, diz Otília Sousa: “Nós temos mais sujeitos animados [as crianças fazem bonecos que personificam as famílias ou animais], e eles [os alemães] fazem mais objectos.”

As investigadoras observaram ainda que os pais portugueses não estão habituados a brincar com os filhos. “Toda a atitude do adulto é de espanto porque não está à espera que a criança saiba fazer”, aponta Marina Fuertes.

O que era proposto neste estudo passava por construir algo: como se fosse um jogo de legos. E nem as crianças nem os pais têm o hábito de brincar assim. As crianças “são cada vez mais passivas”. “É-lhes dado espaço para brincar, mas não para fazer”, critica Fuertes.

E a comparação volta à Alemanha. Por lá, nas salas do jardim-de-infância há uma mesa de carpintaria a sério, com materiais cortantes, como uma serra. Por cá, isso é impensável. Por lá, há campo para explorar, é comum haver um tanque de areia ou de lama; por cá, os tanques de areia foram retirados das escolas por falta de higiene. Por lá, os meninos podem subir às árvores; por cá nem por isso. “O lado da exploração, o lado mais físico não existe. Afastámo-nos da natureza e higienizámos a brincadeira”, nota Otília Sousa. “Até há 15 anos, no exterior havia árvores, pedras, terra; hoje temos tartan (quente no Verão e ensopado no Inverno). É preciso correr riscos e quanto mais a criança ganha essa noção, nos primeiros anos, mais dificilmente correrá riscos reais no futuro. Estamos a protegê-los tanto, que não estamos a protegê-los e já vemos crianças a correr em superfícies planas e a cair [porque a coordenação motora não está bem desenvolvida]”, lamenta Marina Fuertes.

Em suma, as investigadoras concluem que é importante os pais e os filhos brincarem. Isso melhora a relação, além de que quer uns quer outros aprendem entre si. E também é importante a criança ter várias experiências: “Criar quando lhe dão espaço e regular emoções quando não têm esse espaço, por isso a complementaridade entre educadores e pais é importante”, conclui Marina Fuertes.

 

 

 

É preciso tirar as crianças do sofá – Carlos Neto

Outubro 4, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Carlos Neto ao Jornal C de setembro de 2018.

Entrevista no link:

https://www.cascais.pt/sites/default/files/anexos/jornal/c_100_setembro2018_net.pdf

 

Crianças superprotegidas têm mais dificuldade em lidar com a frustração

Junho 26, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 19 de junho de 2018.

As crianças cujos pais são excessivamente controladores – já baptizados como “pais-helicóptero” por andarem sempre a “sobrevoar” os filhos – tornam-se menos capazes de controlar as suas emoções e os seus impulsos à medida que vão crescendo, podendo mesmo vir a sofrer dificuldades acrescidas nas aprendizagens feitas na escola.

A conclusão resulta de um estudo que juntou investigadores norte-americanos, ingleses e suíços e que, segundo o jornal britânico The Guardian, implicou a observação de 422 crianças e respectivas mães durante oito anos. “Os pais que são excessivamente controladores são quase sempre bem-intencionados e estão a tentar apoiar os seus filhos”, introduz Nicole Perry, uma investigadora universitária do Minnesota, nos EUA, para recomendar: “Contudo, para promover o desenvolvimento das competências emocionais e comportamentais das crianças, os pais devem permitir que estas experimentem uma variedade de emoções e dar-lhes espaço para as gerir de forma autónoma. E só depois, quando a tarefa se revela demasiada para as crianças, devem ajudá-las e orientá-las”.

Num artigo publicado na revista Developmental Psychology, da Associação Americana de Psicologia, os investigadores explicaram que as 422 crianças foram chamadas a um laboratório quando tinham dois anos de idade para os investigadores verem como brincavam com as respectivas mães. Durante quatro minutos e postas diante de uma variedade de brinquedos, as mães sabiam que estavam a ser observadas. Depois, eram deixadas sozinhas com os filhos durante mais dois minutos, sem saberem que continuavam a ser gravadas e observadas.

Aquilo que os investigadores procuravam apurar era até que ponto as mães tentavam assumir as tarefas e orientar a brincadeira dos filhos.

Anos depois, quando as crianças tinham cinco anos de idade, os investigadores voltaram a observá-las para perceber que comportamentos assumiam perante uma distribuição não equitativa de doces e quando convidadas a completar um puzzle sob pressão.

Numa fase posterior do mesmo estudo, quando as crianças tinham dez anos, os investigadores questionaram os respectivos professores sobre a existência de problemas como depressão, ansiedade e solidão entre estas crianças, bem como sobre os respectivos desempenhos escolares e aptidões sociais. Nesta altura, as crianças foram também questionadas sobre as suas atitudes em relação à escola e aos professores.

As conclusões a que os investigadores chegaram são claras q.b. Sopesadas as diferenças etárias e de contextos sócio-económicos, os filhos de mães mais controladoras revelaram, aos cinco anos, ter menos controlo sobre as suas emoções e sobre os seus impulsos. E, mais do que isso, as crianças que aos cinco anos revelavam problemas de auto-controlo das emoções revelaram, cinco anos depois, ter menos aptidões sociais e um desempenho académico mais fraco.

Apenas seis minutos de observação

Os investigadores limitaram-se a observar uma única vez a interacção entre os bebés e as respectivas mães e não consideraram mudanças na família ou na saúde das crianças. Conforme ressalva Dieter Wolke, da Universidade de Warwick, no Reino Unido, os investigadores não averiguaram sobre a existência de distúrbios de ansiedade entre as mães. Mas o investigador não deixou, por isso, de enfatizar o facto de as conclusões convergirem com as de outros estudos que demonstraram que a falta de auto-controlo na infância gera problemas em idades mais avançadas.

“A questão é que se alguém não aprende a auto-regular-se na infância como é que se vai auto-regular quando sai de casa ou quando vai para a universidade?”, reflecte, para considerar que impedir as crianças de fazerem essa aprendizagem configura uma “certa forma de abuso”.

A questão estará assim em perceber onde está a fronteira, isto é, “quando é que o controlo se torna excessivo” e de que modo se enquadra no contexto em que a criança está inserida.

“Embora o estudo estabeleça uma ligação entre o excessivo controlo parental e problemas futuros não é possível concluir que uma coisa provoca a outra”, sublinha outra investigadora, Janet Goodall, da Universidade de Bath, na Inglaterra, para lembrar que a interacção das crianças com as mães durou apenas seis minutos. De resto, segundo a investigadora, os pais não devem sentir-se culpados: “O que realmente importa é que os pais se preocupem com as suas crianças e sobre o que estas fazem e aprendem.”

mais informações na notícia :

Helicopter Parenting May Negatively Affect Children’s Emotional Well-Being, Behavior

 

 

Como obter a cooperação das crianças em 4 passos

Agosto 29, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://uptokids.pt/ de 17 de agosto de 2017.

“Quando saio do trabalho ainda tenho que arranjar paciência para os miúdos”. Ouvi esta frase à mesa, durante um jantar com amigos. O desabafo era de uma mãe, cansada da rotina diária casa-emprego e frustrada por não conseguir tem disponibilidade mental para os dois filhos.

Se perguntarmos aos pais sobre se os filhos são para eles a prioridade, a maioria responderá que sim. Que são a sua prioridade máxima. Só que, na prática, não é isso que acontece. Muitas vezes sem nos apercebermos, é no trabalho e nas preocupações do dia a dia que gastamos a maior parte da nossa energia. E os nossos filhos? Ficam, tantas vezes, em segundo plano. Levam com as nossas frustrações e angústias. Com o autoritarismo de quem quer ter tudo sob controle. Ou com a permissividade de quem não está para se chatear.

É possível fazer diferente?

Sim, é possível. É possível educar sem que a vergonha, os sentimentos de culpa ou a dor (física ou emocional) façam parte do léxico familiar. É possível educar pela positiva, evitando modelos extremos de controlo ou permissividade mas utilizando firmeza e amabilidade ao mesmo tempo, apelando ao respeito mútuo e à cooperação, como bases para ensinar habilidades para a vida, responsabilidade e autocontrolo.

Cabe aos pais criarem as condições para que os filhos aprendam a ser autónomos, cooperantes e responsáveis. No caso da responsabilidade, esta deve ser vista em relação direta com os privilégios de que dispõem. Sem prémios ou castigos. Caso contrário, como diz Jane Nelsen, co-fundadora da Disciplina Positiva, as crianças “não serão mais do que meros receptores, dependentes, e sentirão que a única forma de sentirem que pertencem a algo ou que são importantes para alguém é manipulando os outros”. 

Dicas úteis para obter ajuda dos miúdos

Eis os 4 passos para obter a cooperação das crianças, segundo os princípios de Disciplina Positiva:

1.Expressar compreensão pelos sentimentos.

Escutar em vez de ouvir, mostrar que se percebe aquilo que a criança está a sentir, mesmo que não se concorde com a atuação.

2.Mostrar empatia sem condenar.

Não significa estar de acordo, apenas que compreende a perceção da criança. Dica: pode, por exemplo, partilhar uma situação em que se sentiu da mesma forma que o seu filho, que se identificará com ela.

3.Compartilhar os seus sentimentos e perceções.

Muitos pais evitam mostrar ou dizer como se sentem aos filhos, acham que isso é sinal de fragilidade. Não é. Pelo contrário, reforça a empatia e conexão. Afinal, todos somos humanos, erramos. E os erros são magníficas formas de aprender

4.Convidar a criança a focar-se na solução.

Pergunte-lhe se tem alguma ideia do que fazer no futuro para evitar que o problema se repita ou para melhorar/resolvê-lo. Se a criança não tem nenhuma, faça sugestões até que cheguem a um acordo, que respeite ambos.

imagem@shutterstock

 

 

 

‘Pais-helicóptero’ estão criando filhos simplesmente ‘inempregáveis’

Julho 19, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Texto do site http://www.pensarcontemporaneo.com/

‘Pais-helicóptero’ são os pais que estão sempre girando em torno dos filhos. Praticamente os embrulham em plástico-bolha, criando uma corte de jovens adultos que têm dificuldade de ter um desempenho satisfatório no trabalho e em suas vidas.

‘Pais-helicóptero’ pensam que estão fazendo o melhor, mas, na verdade, estão prejudicando as chances de sucesso dos filhos. Em particular, estão arruinando as chances de que os filhos consigam um emprego e consigam mantê-lo.

‘Pais-helicóptero’ não querem que seus filhos se machuquem. Querem suavizar cada golpe e amortecer cada queda. O problema é que essas crianças superprotegidas nunca aprendem como lidar com a perda, com o fracasso ou com o desapontamento — aspectos inevitáveis da vida de todos.

A superproteção torna quase impossível que esses jovens desenvolvam a tolerância em relação à frustração. Sem esse importante atributo psicológico, os jovens entram na força de trabalho em grande desvantagem.

‘Pais-helicóptero’ fazem coisas demais pelos filhos, portanto, essas crianças crescem sem uma ética de trabalho saudável e sem habilidades básicas. Sem essa ética de trabalho e habilidades necessárias, o jovem não será capaz de realizar muitas das tarefas exigidas pelo local de trabalho.

‘Pais-helicóptero’ superprotegem seus filhos e os privam de qualquer consequência significativa por suas ações. Com isso, eles perdem a oportunidade de aprender lições de vida valiosas a partir dos erros que cometem; as lições de vida que iriam contribuir para sua inteligência emocional.

‘Pais-helicóptero’ protegem suas crianças de qualquer conflito que possam ter com seus colegas. Quando essas crianças crescem, não sabem como resolver dificuldades entre eles e um colega ou supervisor.

As pessoas resolvem problemas tentando coisas, cometendo erros, aprendendo e tentando novamente. Esse processo cria confiança, competência e autoestima. ‘Pais-helicóptero’ impedem que seus filhos desenvolvam todos esses importantes atributos que são necessários para uma carreira de sucesso.

‘Pais-helicóptero’ pensam que seus filhos devem vencer qualquer coisa. Todo mundo que participe de um evento esportivo deve ganhar um troféu. Todos devem conseguir uma nota de aprovação, mesmo que sua tarefa esteja atrasada ou malfeita.

Em um local de trabalho funcional, há apenas um vencedor de uma competição, e apenas um trabalho de alta qualidade é recompensado. Se as crianças crescem pensando que independentemente do que façam irão vencer, não perceberão que, na verdade, têm de trabalhar duro para conseguir ter sucesso.

Esses jovens mimados ficarão arrasados quando continuarem perdendo competições, se saindo mal em entrevistas ou sendo demitidos de seus empregos. Não entenderão quanto esforço é realmente necessário para ser um vencedor no mundo do trabalho.

Esses jovens carecem de competência e ação por nunca terem tido de resolver um problema ou completar um projeto sozinhos. Esperam que outros façam essas coisas para eles, assim como seus pais sempre fizeram. Em essência, não podem pensar ou agir por si mesmos.

A criação-helicóptero inculca uma série de atitudes negativas nas crianças. Elas crescem com grandes expectativas de sucesso, independentemente de quanto tempo ou energia investem, e sentem que merecem tratamento preferencial — sendo que nenhum dos dois comportamentos cai bem com seus colegas ou chefes.

Em uma entrevista de emprego, os futuros empregadores podem ser dissuadidos pela atitude excessivamente egocêntrica de um jovem ou alarmados por sua falta de habilidades básicas.

A aura de ignorância e incompetência de um jovem, combinada com expectativas de recompensas imediatas e substanciais sem relação com o desempenho, pode ser o beijo da morte em qualquer entrevista para um bom emprego.

Quando os pais decidem acompanhar seu filho de 20 e poucos anos em uma entrevista de emprego, isso mina qualquer confiança que um empregador possa ter nesse funcionário em potencial. “Por que”, os empregadores podem se perguntar, “alguém procurando emprego precisaria trazer a mamãe ou o papai na entrevista, a menos que esse jovem seja mais uma criança do que um adulto?”.

Mesmo de pequenas maneiras, os ‘pais-helicóptero’ paralisam seus filhos. A criança adulta de ‘pais-helicóptero’ vai fazer sua pausa para o café e então sair da copa sem ter limpado sua sujeira ou lavado sua xícara. Podemos imaginar como isso causará ressentimento entre seus colegas.

Esses jovens esperam que “alguém” limpe sua coisas, da mesma forma que sua sujeira foi sempre limpada quando eram crianças. Não percebem que já não há ninguém os seguindo, limpando sua sujeira, seja física, interpessoal ou profissional.

Barb Nefer, em um artigo publicado no site WebPsychology, diz que a geração do “milênio está sendo fortemente atingida pela depressão no trabalho. Um em cada cinco trabalhadores [20%] já sofreu de depressão no trabalho, comparado a 16% da Geração X [nascidos entre 1960 e final dos anos 70] e dos ‘baby boomers’ [nascidos entre 1943 e 1960]”.

Nefer destaca que, de acordo com um “‘white paper’ da Bensinger, DuPont & Associates, os ‘millennials’ têm desempenho inferior no trabalho e índices mais altos de absenteísmo, bem como mais conflitos e incidentes de advertência por escrito”, fatores que “podem afetar o desempenho no trabalho”.

De acordo com um artigo de Brooke Donatone publicado pelo Washington Post, uma nota de 2013 na revista “Journal of Child and Family Studies revelou que universitários que tiveram criação-helicóptero relataram níveis mais altos de depressão”.

O artigo do Washington Post também destaca que uma “criação intrusiva interfere no desenvolvimento da autonomia e da competência. Por isso, a criação-helicóptero leva a uma maior dependência e menor habilidade de completar tarefas sem supervisão dos pais”.

Às vezes, a melhor forma de ‘estar presente’ na vida dos filhos é não estar.
Os artigos acima deixam claro que a ‘criação-helicóptero’ está contribuindo para um crescente índice de depressão entre jovens bem como para uma incapacidade de ter um desempenho otimizado no local de trabalho.

Se você é um pai ou uma mãe que quer que seus filhos sejam bem-sucedidos na carreira quando adultos, precisa estar ciente de quaisquer tendências relacionadas à criação-helicóptero em você ou em seu parceiro.

Amar seus filhos significa guiá-los, protegê-los e apoiá-los. Não significa sufocá-los, superprotegê-los ou fazer tanto por eles que nunca aprendam a pensar por si mesmos, a lidar com desafios ou com o desapontamento e fracasso.

A coisa mais amorosa que você pode fazer como pai ou mãe é dar um passo atrás e deixar seu filho cair, se preocupar e resolver as coisas sozinho. Às vezes, a melhor forma de “estar presente” na vida de seu filho é não estar. É assim que você os capacita a desenvolver confiança, competência, autoestima e inteligência emocional.

Hoje os jovens precisam de pais que os ajudem a se tornar adultos úteis. Isso significa girar menos em torno deles e embrulhá-los menos em plástico-bolha e empoderá-los mais para que façam coisas por si mesmos, resolvam coisas por si mesmos e aprendam a lidar com as dificuldades, tudo por si mesmos.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost Canada e traduzido do inglês.

O artigo The Washington Post citado no texto é o seguinte:

Why are so many millennials depressed? A therapist points the finger at Mom and Dad.

O estudo citado é o seguinte:

Helping or Hovering? The Effects of Helicopter Parenting on College Students’ Well-Being

 

Brincar na rua. Os miúdos querem, os pais têm medo

Novembro 8, 2016 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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reportagem do Notícias Magazine de 9 de outubro de 2016.

pedro-correia

descarregar a reportagem no link:

https://ciecum.wordpress.com/2016/10/18/brincar-na-rua-os-miudos-querem-os-pais-tem-medo/

As pessoas crescidas nunca percebem nada

Novembro 4, 2016 às 6:00 am | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Reportagem da http://sicnoticias.sapo.pt/ de 16 de outubro de 2016.

sic

Em menos de um século passámos de um extremo ao outro: de crianças completamente à solta para crianças superprotegidas e cada vez mais ocupadas. O medo dos raptos, dos pedófilos, do trânsito faz com que os mais novos não tenham a liberdade de outros tempos. Os especialistas já vieram alertar para os riscos da falta de autonomia. “As pessoas crescidas nunca percebem nada” é a Reportagem Especial que pode ver aqui.

Visualizar a reportagem no link:

http://sicnoticias.sapo.pt/programas/reportagemespecial/2016-10-16-As-pessoas-crescidas-nunca-percebem-nada-1

“É inacreditável que hoje se passeiam mais os cães do que as crianças”

Setembro 28, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do http://www.dn.pt/ a Carlos Neto no dia 26 de setembro de 2016.

antonio-pedro-santos

Carlos Neto é professor e investigador da Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa | António Pedro Santos / Global Imagens

Ana Bela Ferreira

Há mais de 40 anos que o investigador Carlos Neto trabalha com crianças e está preocupado com o sedentarismo. “Há pais que já não têm prazer em brincar com os filhos”

A falta de autonomia das crianças é culpa das famílias ou das escolas que também as ocupam demasiado tempo?

Eu diria que temos de encontrar um conjunto de fatores para explicar o fenómeno, porque não se pode pôr culpas a ninguém em particular. Veja-se a cidade de Lisboa e o inferno que é às seis da tarde e às oito da manhã e a maneira como as famílias têm de se encarregar de distribuir a vida dos filhos no tempo escolar e para além da escola. Por outro lado, não há uma política habitacional pensada do ponto de vista de criar uma mobilidade saudável no crescimento e no desenvolvimento dos jovens. Só dessa maneira é que se pode compreender o que é que está a acontecer com o baixo índice de mobilidade que temos em Portugal. Os estudos que fizemos em 16 países demonstram que ficámos em 14.º lugar. Muito abaixo dos países escandinavos, onde essa mobilidade é muito elevada, onde têm uma autonomia muito grande e vivem a natureza e o território da cidade de forma plena. Em Portugal, e nos países do Mediterrâneo, a situação é muito complexa, porque há perigos diversos e depois há medos que se instalaram na cabeça dos pais.

Mas esses perigos não existem também nos países nórdicos?

Eles têm uma filosofia de organização do tempo e do espaço completamente diferente. Significa que os nossos jovens e crianças têm muita dificuldade em ter essa autonomia desde muito cedo, porque encontram diversos constrangimentos. Desde o trânsito, o fenómeno da urbanização, a maneira como o tempo escolar e o tempo de trabalho dos pais está organizado. Por outro lado, ganhou-se um medo enorme de as crianças andarem autónomas na rua. A rua desapareceu, está em extinção como local de jogo, de brincadeira, de encontro de amigos. O problema da socialização é uma das questões mais importantes que se colocam hoje na nossa juventude e nas culturas de infância. Temos aqui um problema muito sério que só pode ser resolvido com medidas corajosas e arrojadas do ponto de vista político.

Isso significa facilitar os transportes, criar espaços verdes?

Espaços verdes, política habitacional mais adequada à política educativa e também à gestão do tempo de trabalho dos pais. Está tudo demasiadamente formatado e as crianças e jovens precisam que isso seja desconstruído para a vivência do corpo em situações mais espontâneas e mais naturais, do espaço construído e do espaço natural da cidade. Quando falamos em índice de mobilidade baixa, isso significa que temos de atuar em várias frentes para tornar mais sustentável uma vida feliz e com sucesso das crianças e jovens porque elas merecem. E acima de tudo uma perspetiva de não repressão do corpo em movimento porque o sedentarismo não é só físico, é também mental, social e emocional. A investigação científica tem demonstrado claramente que quem mais faz atividade física, mais brinca na infância, mais tem relação com os amigos, são crianças que normalmente têm mais sucesso no futuro, mais rendimento escolar e obviamente têm um índice de felicidade e de empatia muito maior.

Mas hoje as crianças quase só se relacionam com as outras em atividades organizadas.

Praticamente está tudo organizado quer do ponto de vista das atividades no meio escolar quer nas atividade extraescolares. Se isto ainda não bastasse têm depois uma cultura de ecrã muito agressiva. É muito natural ver crianças à volta de uma mesa de café e não se falam, estão todas a olhar para o iPhone. O corpo em movimento é fundamental para todo o desenvolvimento, não só emocional, também cognitivo, social e emocional. A escola tem de urgentemente mudar o modelo de funcionamento, quer na organização curricular quer na forma como as crianças são mais ou menos participativas. Temos de dar uma espécie de um trambolhão na sala de aula, no sentido de tornar as aulas mais ativas por parte das crianças.

Falta uma política de brincadeira?

Há alguns sinais interessantes do Ministério da Educação de tentar que a vida na escola não seja uma coisa tão formal e tão séria, isto é, de ter tempos mais disponíveis para expressão dramática, educação física, música, dança ou um conjunto de atividades que consigam que o corpo disponibilize maior capacidade expressiva, de empatia, de modo a tornar os cidadãos mais cultos, com maior capacidade de ética e de cidadania e portanto não estar apenas centrado nos rankings. Está provado cientificamente que crianças com maior nível de atividade física e relacional no recreio aprendem mais na sala de aula. Portanto, não podemos querer crianças sedentárias ou a ouvir um conhecimento que muitas vezes não lhes interessa. O ensino não pode ser isto no século XXI.

A gestão do tempo da família também tem de mudar?

Temos de dar um ar fresco a este país, este país não pode estar com esta depressão enorme em que temos pais e professores esgotados, porque as crianças reparam em tudo. Há pais que já não têm prazer em brincar com os filhos, e há professores que já não têm capacidade de perceber a importância dessa atividade espontânea do que é correr atrás de uma bola, subir a uma árvore, fazer um jogo de grupo no recreio ou pura e simplesmente subir o muro e tentar descobrir o que está do lado de lá. Ou ter locais secretos. Como é que nós promovemos a saúde pública e mental numa perspetiva de maior cidadania, de maior empreendedorismo e de maior grau de felicidade? É isso que está em causa quando falamos em promover o corpo em movimento. Nunca foi tão importante o papel dos pais e da família na educação dos filhos no que diz respeito à implementação deste tipo de atividades. Sair com as crianças para a rua e brincar, desfrutar a natureza. Os pais têm de ter mais tempo disponível para fazer este tipo de atividades. É inacreditável que hoje se passeiem mais os cães do que as crianças. Inacreditavelmente faz-se hoje um esforço inadmissível de tornar os robôs mais humanos e ao mesmo tempo estamos a robotizar o comportamento humano.

 

Suíços resistem à educação baseada no medo – por enquanto

Setembro 5, 2016 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do site http://www.swissinfo.ch/por/ de 29 de agosto de 2016.

Express

Por John Heilprin

Quando o consultor de negócios Christoph Hunziker voltou para Berna com sua família após mais de um ano no Peru, foi preciso apenas um dia para que seu filho de 6 anos de idade se acostumasse a ir sozinho para o jardim de infância.

A caminhada é de apenas algumas centenas de metros, através de um caminho entre prédios de apartamentos. Mas ele precisava ainda atravessar a entrada de uma garagem. O percurso acabou se transformando em um rito de passagem importante para ele.

“Isso tornou-o muito mais independente. E também mais maduro, eu acho. E responsável”, diz Hunziker.

Na Suíça, assim como nos Estados Unidos, Canadá e alguns outros países, é comum ver crianças caminhando sozinhas para a escola, ou brincando fora do alcance da voz ou dos olhos dos pais.

“Eu acho que ser independente o tanto quanto possível é algo completamente normal para as crianças”, diz Alexander Renggli, diplomata suíço e pai de dois filhos, que vê aí uma possível ligação com o sistema político da Suíça, baseado na democracia direta. “Talvez seja também parte de um valor político fundamental que temos na Suíça. É o que chamamos de autorresponsabilidade.”

Renggli passou grande parte de sua infância no exterior em lugares onde ele não podia sair por si mesmo, mas como pai ele aprecia a maneira suíça.

“Eu acho que isso também traduz de forma básica a maneira como somos socializados, como crescemos, assumindo responsabilidades desde pequeno”, disse.

Medo da violência

Os índices de criminalidade nos Estados Unidos são mais baixos agora do que na época em que os pais de meia-idade de hoje eram crianças e não podiam brincar ou ir para a escola sozinhos. O mesmo ocorre em alguns países como o Reino Unido, Canadá e Austrália.

E isso é um dos principais pontos do “Free-Range Kids”, um movimento de pais nos EUA que surgiu após o sucesso do livro da americana Lenore Skenazy, que aborda como educar as crianças para que elas cresçam em segurança e seguras de si.

Skenazy, que lançou o livro depois de escrever uma coluna de jornal em 2008 sobre deixar seu filho de 9 anos de idade andar sozinho de metrô em Nova York, disse que a Suíça oferece um bom exemplo de como não “superproteger” as crianças.

“A liberdade é uma parte essencial da vida”, diz Skenazy. “Se os pais estão sempre lá para mediar os problemas, os medos, os perigos e as confusões, as crianças acabam não tendo a oportunidade de fazer isso por conta própria.”

Meu primeiro dia de aula  Os primeiros passos de Elias na escola.

Crianças que brincam ou vão sozinhas para a escola é algo comum não só na Suíça, mas também em outros países como Alemanha, Japão e Holanda.

A ênfase na promoção da autossuficiência das crianças, permitindo-lhes mais independência, contrasta com alguns outros países desenvolvidos como os EUA, que só recentemente aprovou uma lei federal que permite às crianças irem à escola pela forma que os pais julgarem ser “apropriada à idade”.

Skenazy cita os índices de criminalidade para mostrar que a situação está muito mais segura nos EUA do que muitas pessoas pensam. Mas as pessoas acabam cedendo a seus medos, segundo ela, porque “o cérebro funciona como o Google”, às vezes dando importância demais a um único incidente – um fenômeno percebido também na Suíça.

Casos suíços

Em 2007, o desaparecimento de uma menina de cinco anos de idade no cantão de Appenzell, na região leste do país, pôs em questão a proteção das crianças na tradicionalmente “segura” Suíça, onde os casos de desaparecimento e assassinatos de crianças são raros.

No verão deste ano, o desaparecimento de um menino de 12 anos de idade em uma cidade do cantão de Solothurn revelou alguns perigos da era digital.

O menino foi encontrado na casa de um homem de 35 anos de idade em Düsseldorf, na Alemanha. Eles se conheceram jogando pela internet. A polícia prendeu o homem por suspeita de abuso sexual de menor e falsidade ideológica, e apreendeu em seu domicílio material de pornografia infantil.

Esses tipos de incidentes – e o ciclo incessante de notícias que geram – fazem com que alguns educadores temam que a Suíça possa, eventualmente, mudar suas normas. Para Babette Domig, professora aposentada de escola primária em Berna, muitas famílias suíças que vivem de forma tradicional no campo não têm tempo para superproteger suas crianças.

“Ter mais tempo, mais informações, saber mais (sobre o mundo), às vezes não só ajuda. Eu acho que é o que está acontecendo no momento”, disse.

Autonomia

Quando as crianças não podem descobrir as coisas por si mesmas, elas podem ficar sem as habilidades necessárias para lidar com as dificuldades. A psicóloga alemã Dorothe Dörholt diz ver algumas semelhanças entre seus jovens pacientes suíços.

“Muitos cresceram protegidos demais de tudo, sem ter contato com situações negativas”, conta. “Mais tarde, de repente, eles saem da escola, vão para a universidade e se sentem sobrecarregados. Eles não têm as ferramentas para lidar por conta própria com as dificuldades que enfrentamos como jovens adultos.”

Dörholt diz que todos os lugares em que ela morou – Alemanha, Estados Unidos e Suíça – são seguros para as crianças, mas o comportamento dos pais varia segundo o “medo ressentido”.

“Tem muito a ver com a mídia. Se você vê o tempo todo crianças sendo raptadas, mesmo que seja uma ocorrência rara, você acaba achando que o mundo é um lugar perigoso”, disse.

Segundo a psicóloga, as crianças têm uma tendência natural para a autonomia e é importante que os pais permitam que isso aconteça.

“Porque, se uma criança tiver êxito, ela percebe, ‘Uau, eu posso fazer isso’, e se não tiver, ela percebe, ‘Uau, isso foi difícil. Não consegui, mas nada de ruim aconteceu, então posso tentar de novo”, conta Dörholt.

A volta para casa

Alguns pais, como Hunziker, dizem que a volta da escola – um dos poucos momentos da semana quando as crianças podem ter tempo livre – é ainda mais importante para as crianças aprenderem a ser autônomas do que a ida para a escola, quando há um tempo a ser respeitado.

O próprio filho de Hunziker ficou irritado no primeiro dia do jardim de infância, quando viu que seu pai estava observando-o. Para o pai, a transição pode ter sido mais difícil – começando no Peru, onde ele se preocupava com o trânsito de Lima e outros problemas de segurança.

“Quando minha esposa ia a algum lugar com as crianças e eu ficava em casa ou estava em outro lugar, eu costumava ficar realmente preocupado”, conta Hunziker. “Mas aprendi a deixar um pouco, na verdade, com o tempo nos soltamos.”

mais informações no link:

http://www.swissinfo.ch/eng/-free-range-kids-_swiss-resist-fear-based-childrearing—for-now/42384890?srg_sm_campaign=general&srg_sm_medium=soc&srg_sm_source=sflow

 


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