Lançamento do livro “Pais Sem Pressa” de Pedro Strecht, 15 outubro em Lisboa

Outubro 14, 2018 às 1:00 pm | Publicado em Divulgação, Livros | Deixe um comentário
Etiquetas: , , ,

 

Pré-Publicação: Pais Sem Pressa, de Pedro Strecht

Outubro 11, 2018 às 6:00 am | Publicado em Livros | Deixe um comentário
Etiquetas: , ,

Notícia do DN Life de 10 de outubro de 2018.

O novo livro do pedopsiquiatra Pedro Strecht, Pais Sem Pressa [ed. Contraponto], chega às livrarias no dia 12 de outubro. Uma reflexão sobre o que andamos a fazer com o nosso tempo e a necessidade de o dedicar mais à relação entre pais e filhos. Em exclusivo, a DN Life antecipa o terceiro capítulo do livro.

  1. TEMPO LIVRE

Escola, trabalho e lazer

Muitos sociólogos de renome mundial, como Zygmunt Bauman ou Byung-Chul Han, parecem unânimes em declarar os indivíduos deste início de século como pertencendo a uma nova espécie, posterior ao Homo sapiens sapiens: aquele que vive de e para o trabalho, consumindo aí toda a sua verdadeira energia psíquica, de forma até superior à despendida em relações afetivas reforçando o conceito de «Homo laborans».

Na perspetiva de Han, esta é a base daquela que o pensador também denomina «sociedade do cansaço», em que desde os mais jovens até aos adultos existe uma constância na queixa física e psicológica da exaustão, situação paradoxal perante a melhoria efetiva das condições de vida em geral.

O sentimento de literalmente viver como Atlas, carregando o peso do Mundo aos ombros, é sentido perante a exigência da dinâmica do dia-a-dia, em que o indivíduo se torna agressor e vítima da sua própria exigência e expectativa, soando apenas raras vozes dissonantes.

Por mim, fazia já ao contrário: punha o fim de semana de trabalho e durante os cinco dias da semana descansava. Ficávamos todos mais felizes. (J., 12 anos)

No entanto, talvez como nunca anteriormente, para homens e mulheres das sociedades mais evoluídas, o trabalho surge valorizado na vertente económica e de ascensão social tornando-se o objetivo central da vida, aparecendo de forma fundida com esta: a vida «é» o trabalho!

Aliás, quando chega a casa e calha em eu o ver, o meu pai só tem um tema de conversa para mim: escola, escola e mais escola. Diz que a escola é o meu trabalho! (J., 12 anos)

É provável que seja por isso que os indicadores mundiais de bem-estar das populações incluam sistematicamente palavras ou conceitos fundamentais da área da gestão ou da economia, como produto interno bruto, rendimento per capita, salário mínimo nacional, entre outros.

Estes dados quase sempre omitem outros que expressam um olhar psicossocial mais profundo, nos quais se poderia verificar que, apesar de tudo, o Homem enquanto ser capaz de sentir, pensar, ou sonhar, tem lugar central: alfabetização, cultura, saúde, justiça, proteção social e ainda, entre tantos, qualidade de habitação, horários de trabalho, possibilidade de tempo livre e de descanso.

Em sociedades munidas, em estreita dependência, de movimentos de globalização ditados em função de critérios economicistas, a vida comum gira em torno da expansão (maximização) da capacidade de trabalho individual ou de grupo, cada vez mais tomando conta da vida muito para além do tempo real dedicado à profissão.

Neste campo, as novas tecnologias tornaram-se uma balança que pede um equilíbrio difícil entre os benefícios inegáveis (e inesperados) que têm vindo a oferecer e a dependência (quase ditatorial) gerada pela dificuldade de permanecer… desligado delas.

Até quando vamos 15 dias de férias para o Algarve, está sempre ao telemóvel… diz que está a responder a coisas de trabalho. E à noite põe-se no computador. Nem sei como a minha mãe o aguenta. (J., 12 anos)

O próprio ritmo de trabalho decorre de forma extremamente veloz e em registo plurifuncional: a organização em ação e reação continuadas. Perante a velocidade impressa na tarefa, qualquer objetivo pode ser sempre revisto pelo próprio ou por outrem num brevíssimo espaço de tempo, num funcionamento em que, quanto mais se age e responde, mais desafios (horizontes) vão surgindo, numa espiral contínua, que muitos sentem como desgastante e, sobretudo, infindável.

«Não ter fim» ou «não sentir chão» surgem como sensações repetidas numa vida laboral em perfeita «queda livre», que produz um nível de tensão e ansiedade exagerados que, a breve trecho, terá consequências físicas e psíquicas já bem conhecidas. Por exemplo, a segregação de substâncias ditas «ativadoras» ou «de stresse» determina a estimulação repetida de algumas áreas cerebrais, provocando cansaço, alterações alimentares e de sono, irritabilidade, perturbação de ansiedade com ataques de pânico e sintomas depressivos com expressão somática (dores de cabeça, tonturas, entre outros), que se tornam a principal causa de morbilidade em muitos pais, jovens e famílias.

A grande revolução das últimas décadas centra-se claramente no ponto em que os múltiplos compromissos profissionais e pessoais da maioria dos indivíduos os acelera a tal ponto na dinâmica espaco-tempo que, verdadeiramente, este último se torna praticamente ausente: «não há/tenho tempo para nada», num espaço que é sempre demasiado (pré)ocupado.

Mais que um mero jogo de palavras, a ocupação do tempo tende a ser feita de forma prévia; na prática, as «agendas» dos pais, tal como em boa parte as dos próprios filhos, tendem a um preenchimento antecipado, por vezes sufocante, capaz de potenciar situações de ansiedade e/ou pânico apenas perante a mera perspetiva do dia de amanhã.

Embora uma pré-ocupação pudesse, na prática, contribuir para uma eventual organização de tarefas e atividades que proporcionassem ao Homem uma maior noção de liberdade individual e social, na maior parte das vezes ela acaba por ter o efeito oposto, quase perverso e doentio: uma autêntica prisão emocional que encarcera na rotina a longo prazo, tornando a vida monótona e desprovida de surpresa, emoção e impacto, num fenómeno emocional de apatia e «não inscrição», tal como o designou o filósofo José Gil.

Aliás, a robotização da atividade humana, agora tão falada a propósito da inteligência artificial, implica com facilidade o esvaziamento de qualquer intensidade afetiva. O plano diário segue à risca o que racionalmente «deve ser» porque simplesmente é o expectável ou o exigido.

Tenho as minhas dinâmicas todas registadas aqui no iPhone. Espere um pouco, para lhe responder melhor, deixe-me aqui ver as minhas notas e também todas as questões que lhe queria perguntar… Sabe que eu sou um homem da engenharia e da matemática, esta parte psicológica é sempre complicada para mim… (Pai de J., 12 anos)

A dinâmica relacional de muitos casais e adultos acaba por experimentar o mesmo tipo de dificuldade. Na verdade, o padrão atual relacional passa pela atividade laboral mútua, tanto do homem como da mulher, num plano cada vez mais equitativo e para ambos exigente e sobrepreenchido. Quando a própria vida do casal aparece seriamente comprometida pela falta de tempo a dois, é de assumir como fácil consequência um distanciamento físico e emocional progressivo, um maior desgaste da relação, uma oportunidade de espaço para a chegada de «terceiras» pessoas e, em caso último, a diluição da própria relação com separação e divórcio.

Já não tinha mulher, ela era apenas a mãe dos meus quatro filhos. (N., 43 anos, ex-marido de P.)

A partir de determinada altura, para ele só existia o trabalho ou, quando não, só parecia ter o desejo de fugir de casa, não estar com ninguém, não aturar os filhos. (P., 42 anos, ex-mulher de N.)

Do ponto de vista das crianças e adolescentes, algo de muito semelhante acontece, mesmo ainda antes da entrada no tempo formal de escolaridade, por altura dos 6 anos. Tendencialmente, a maior percentagem das crianças portuguesas conhece a primeira colocação extrafamiliar após o tempo de licença de maternidade ou paternidade, ou seja, ainda no segundo semestre de vida. Começa cedo a pré-ocupação dos mais pequenos, que, com frequência, podem desde bebés passar uma média de 10 horas por dia afastados de casa e dos seus adultos de referência.

Depois, segue-se a procura por parte dos pais de um trajeto pré-escolar e escolar dos filhos, onde as palavras de maior presença no seu discurso são cada vez mais familiares de rigor, exigência, disciplina, excelência, desempenho de topo!

Mesmo que o tempo respeitante ao jardim-de-infância, entre os 3 e os 6 anos, devesse ser essencialmente lúdico, centrado na evolução da relação social da criança, da descoberta de si através do outro, da importância do desenvolvimento de capacidades cognitivas e emocionais, são cada vez mais as crianças que acabam por ser sujeitas a uma precoce pré-escolarização concreta no mundo das aprendizagens formais.

Por exemplo, muitos pais valorizam jardins-de-infância que preenchem mais tempo diário com ofertas complementares variadas, embora quase todas de carácter dito pedagógico e, de preferência múltiplas, como inglês, informática ou música, em desprimor de outras mais lúdicas. É o início precoce do que está contido em palavras muito anteriores de Heidegger no conceito de «desassossego distraído».

E, mesmo quando algumas destas últimas são escolhidas pelos adultos, têm implícito o objetivo de desenvolver capacidades de desempenho em diversas áreas: escolhe-se o judo ou o karaté, porque favorecem a concentração e a atenção, o ballet já que implica regras, ordem e método. Quase nunca o que é simplesmente lúdico é objeto de primeira escolha, cada vez menos esta ou aquela criança pratica dança ou joga futebol por ser a sua atividade favorita.

Nas últimas décadas, neurologistas, sociólogos, pedopsiquiatras e especialistas de áreas afins vêm insistindo na necessidade premente de desenvolver a arte da desligação, ou seja, a utilidade de criar e valorizar espaços de descontinuidade, quebra e interrupção. Num ensaio recente sobre o dom da demora, O Aroma do Tempo, Byung-Chul Han escreve: «Suspender o movimento para refletir é um ato de coragem… A crise temporal advém da eliminação da capacidade de contemplar.»

O preenchimento excessivo do espaço psíquico por um verdadeiro lixo» emocional «pré-ocupa» a mente de forma a não permitir a existência do florescimento de outras áreas psíquicas: é como uma sementeira de monocultura, sendo que esta abafa a possibilidade de pausa psíquica, de descanso ou desenvolvimento de outras áreas pessoais e sociais que só podem existir a partir de um ponto prévio de maior vazio e espaço interior.

Pausa em tempo de pressa. Ou da necessidade oposta de procura de «pontos de fuga», como descreveu James Garbarino, pedopsiquiatra norte-americano. Tal como na conceção de um espaço abstrato, o ponto de fuga permite a noção e a necessidade de perspetiva: ver «para além de» algo ou alguém. Faz falta esta noção de distanciamento que produz profundidade reflexiva e, em tantos casos, de capacidade criativa.

A capacidade criativa não implica somente a noção de um ato artístico; neste ponto de vista, aplica-se ainda ao desenvolvimento de diversas possibilidades de resolver problemas, encontrar soluções para dificuldades diárias ou simplesmente situar o indivíduo para além de um momento concreto.

Sei que sou bom a jogar futebol. Gosto de estar ali, inventar jogadas, marcar golos, conviver com os meus amigos da equipa, que são diferentes dos da escola. Treino quatro vezes por semana, entre as 19h30 e as 21h00, mas, se me perguntarem se me canso, digo que não. É o melhor tempo da minha semana. É quando eu descontraio e já não penso em mais nada, nem em problemas. (V., 15 anos)

Muitas vezes, este ponto de fuga pode ser ainda utilizado para conseguir alcançar uma outra visão de si próprio, quer dizer, uma melhor capacidade de também olhar e envolver outros.
Permite-se assim a necessidade precoce de desenvolver uma atitude de altruísmo, inclusivamente de cada qual para consigo próprio: o conceito de autotolerância, pautado por adequação de expectativas e um equilíbrio melhor entre exigência pessoal e integração da falha ou da dificuldade.

Tal como se reforça a importância de procurar verdadeiros pontos de interesse emocional, obrigatoriamente diferentes da rotina, distantes ou mesmo em rotura com a atividade profissional ou prioritária. Algo que contenha muito mais do que uma simples compensação económica ou de ascensão social, e reforce verdadeiramente cada criança e adolescente, por vezes até revelando facetas que a própria escola não valoriza: desporto, música, artes plásticas, dança e teatro são exemplos recorrentes.

A presença de um ponto de fuga afetivo representa a possibilidade de olhar para diante, num movimento simultâneo de projeção e libertação perante o peso monótono do «aqui e agora»: o reencontro com o que pode sempre parecer de maior significado pessoal.

Emocionalmente, é cada vez mais complicado ter a perspetiva de horizonte (no espaço e no tempo), de quebra de limitação circunstancial que o quotidiano impõe. O conceito de fuga não pressupõe também a construção de um referencial, de um «porto de abrigo», expressão utilizada também por Garbarino.

É curioso verificar que todos aqueles que conseguem regularmente abdicar de algumas horas em prol destas atividades consideram este «gasto» como um verdadeiro «ganho» do seu próprio tempo. E usam frases tão significativas como algumas que surgem até em contexto clínico: «um balão de oxigénio», «a minha fonte de energia» ou «uma verdadeira pílula mágica».

Encontrar um ponto de fuga é, com frequência, poder estar ligado a atividades de fortalecimento de mecanismos de identidade e pertença, que com facilidade atuam como saudáveis válvulas de descompressão sobre múltiplas tensões acumuladas ao longo dos dias ou das semanas.

A existência de tempo de lazer correspondeu a uma longa evolução social e humana que levou séculos a ser reconhecida, não como um luxo, mas sim como um saudável direito de quem trabalha (ou estuda). Contudo, numerosos avanços registados no século XX, como o direito a dias férias, um máximo de horas de trabalho semanal, subsídios de Natal, idade de reforma ou outros, tiveram breves décadas de existência folgada para atualmente serem cada vez mais postas em causa perante cenários de precariedade ou outros exclusivamente centrados em cenários ligados aos conceitos de produção e consumo.

Curiosamente, o mesmo foi acontecendo na dimensão infantojuvenil, sendo unânime a ideia de que as crianças e os adolescentes de agora descansam e brincam muito menos do que os seus próprios pais durante o mesmo tempo de crescimento. Têm ainda uma sobrecarga desproporcionada de algumas disciplinas, consideradas fundamentais, em desprimor de outras, facilmente secundarizadas.

Alunos portugueses têm das mais pesadas cargas horárias em 1.º ciclo (…). Nos quatro primeiros anos de escolaridade somam um total de 3744 horas (…). Ainda no que diz respeito aos alunos até final do 9.º ano, Portugal apresenta dentro da União Europeia o primeiro lugar no tempo dedicado à disciplina da Matemática, que ocupa em média 20,4 por cento da totalidade dos currículos. (Maria Isabel Festas, no livro Os Tempos na Escola)

Só que nem sempre foi assim. Na verdade, muitos adultos podem ainda recordar o início de anos letivos apenas no mês de outubro, as aulas teóricas de 50 minutos seguidas de intervalos de 10 e até de 15 minutos, e ainda longos momentos de férias habitualmente gastos em proximidade com a família alargada e sem grande necessidade de programação prévia.

Hoje, perante a falta de tempo ditada por compromissos profissionais, muitos pais começam a incluir na escolha de um estabelecimento de ensino a possibilidade concreta de este se encontrar aberto durante os 12 meses do ano, mesmo que em atividades não-letivas. As pausas correspondentes a férias de Natal, Páscoa ou de verão acabam por ser vividas com algum temor por parte de muitas famílias que declaram não ter onde deixar os filhos.

A corrida à garantia máxima de um eventual sucesso escolar, mais tarde universitário e depois profissional, começa bem cedo. Nesse modelo, é fácil compreender novamente que para a sociedade em geral «tempo é (nada mais do que…) dinheiro». Assim, qualquer pausa soa a desinteresse, laxismo ou até luxo e esbanjamento.

Por outro lado, sabe-se que durante os longos anos de desenvolvimento maturativo (mais de duas décadas) o cérebro necessita de uma estimulação e funcionamento multimodal que vai bem para além de provas continuadas de memorização, retenção e repetição de informação que a escola acaba por pedir quase em exclusividade.

Na minha escola dizem-nos que há mais coisas que contam para a nota, mas não vale a pena iludirem-nos. Então agora no secundário, toda a gente sabe que no final do período a classificação é apenas a soma dos testes a dividir por dois. (H., 16 anos)

É ainda reconhecida a necessidade que o cérebro tem de desligar, isto é, de manter apenas o seu funcionamento basal, longe de outro tipo de exigências e respostas. Começando pelo aspeto mais vulgar, o caso do sono. O sono é, por natureza, a atividade reparadora de todo o funcionamento fisiológico do corpo e da mente. De 16 a 18 horas de sono que um recém-nascido pode cumprir, às oito horas consideradas mínimas ou adequadas na idade adulta, vai uma longa margem de evolução e de variabilidade própria de cada ser humano. Porém, as queixas de sono, nomeadamente as de insónia inicial, são comuns em todas as faixas etárias e têm cada vez mais um início em idades precoces. Parece que o ser humano tem hoje uma dificuldade em, simplesmente, fechar os olhos entregando-se ao chamamento do descanso. Deixar obsessivamente de pensar ou agir, quase sempre antecipando e tentando manter sob controlo o seu próprio funcionamento (e o dos outros) e entregar-se com segurança e tranquilidade ao desconhecido que a noite simboliza.

Talvez porque, para muitos, o descanso soe agora a um universo totalmente desconhecido onde o que acontece (incluindo a saudável atividade de sonho) é incontrolável e… incontornável. Habituado a contornar dificuldades, nem que seja negando-as, uma vez que lidar com a frustração, a barreira ou o limite parece algo extremamente difícil e gerador de tensão, e ainda vendo inscrito na sua matriz estrutural o desejo omnipotente de controlo, o homem comum vê no sono um inimigo temível, ao invés de um bem-vindo companheiro da paz e da tranquilidade.

O horror ao vazio e ao significado do escuro da noite faz com que esta tenda a ocorrer cada vez mais em estado de vigília (por exemplo, a diversão noturna dura até ao amanhecer), ou a ser controlada através de psicofármacos, como os indutores de sono. Falta de sono, excesso de trabalho e pouca disponibilidade para a escuta de si próprio, muito menos do outro, são fatores apontados como frequentes para causas e consequências de insatisfação pessoal e familiar. De novo, reintroduzir um novo paradigma que facilite o reequilíbrio escola-trabalho versus lazer parece ser uma tarefa de máxima urgência.

É fácil fazer a leitura de dados estatísticos que mostram o que se passa em sociedades em que os índices de satisfação e qualidade de vida global são bastantes positivos. É o caso dos países nórdicos, onde este balanço é feito de forma assumidamente cultural: são também locais onde as crianças passam um menor número de horas diárias na escola e as percentagens de sucesso e desempenho escolar são realmente gratificantes.

Mesmo sobre as crianças e adolescentes é necessário retomar a noção de desenvolvimento e proporcionalidade em temas como responsabilidade, desempenho e, claro, lazer. O que se pode ou deve exigir a uma criança de 6 ou 10 anos (1.º ano ou 5.º ano de escolaridade) tem de ser diferente daquilo que é expectável para 15 ou 18 anos (9.º ano ou universidade).

Imprimir um ritmo desadequado na infância e juventude, sobretudo no que toca às questões da escola (como equivalência de trabalho) e da própria perspetiva futura profissional, é, mais do que tudo, trazer para o presente pré-ocupações sem sentido e uma fonte segura de angústia desnecessária.

Desse modo, nunca o tempo realmente livre que é preciso dar a crianças e adolescentes pareceu tão estranho de aceitar e de implementar de forma convicta por parte dos adultos que os acompanham.

O tempo livre, com pontos de fuga ou em porto de abrigo, constitui um imenso reservatório de bem-estar físico e emocional. A atividade lúdica, mesmo que simplesmente traduzida pelo brincar, parece também ameaçada: isto é, ou é seguido um guião ou um certo objetivo antecipadamente definido, ou com frequência muitos rapazes e raparigas desorganizam-se com facilidade perante o confronto com um espaço vazio ou com uma folha em branco.

E agora o que é para fazer? Se não me der uma ideia, não sei o que desenhar… e posso sair dos riscos? (T., 6 anos)

Também o que Donald Winnicott designou como a saudável «capacidade de estar só» se tornou tarefa complexa para as crianças. Perante a eventualidade de uma organização individual autónoma, algo que corresponde à presença da imaginação e da criatividade, bem como à capacidade de imaginar, propor e desenvolver atividades, muitos dos mais novos recorrem de forma imediata à presença ou monitorização imprescindível do adulto.

Não são raros os pais que afirmam a dificuldade que sentem em que os filhos brinquem sozinhos, nem que seja por curtos períodos de tempo. O mesmo acontecendo na escola, sobretudo nos primeiros anos de escolaridade, em que muitos professores reportam a necessidade da proximidade física e relacional (dependência) dos alunos para que estes consigam iniciar ou manter uma tarefa sem desistir ou dispersar.

Outro dos sentimentos presente neste novo Homo laborans diz respeito à exigência que cada qual coloca em si mesmo, num verdadeiro mecanismo de coação interna. Associado a este fator, em que cada qual se torna carrasco de si mesmo, surge o peso avassalador de um sentimento de culpa: dentro de uma certa cultura judaico-cristã, parece pecado ter tempo livre, louvar o descanso ou a fuga tanto quando se preza o trabalho, a responsabilidade, o ganho económico.

Só que ser capaz de dar este passo de mudança de paradigma implica um longo trabalho emocional e uma capacidade de reflexão e ação em consonância com esse mesmo movimento. Por isso, parece urgente reformular paradigmas de vida diária, integrando-os progressivamente no tempo de existir.

Saber parar é, sem dúvida, saber pensar. Ou, pelo menos, criar mais espaço para a atividade crítica e criativa tão necessária ao balanço emocional do ser humano de hoje.

Dar espaço ao silêncio. Viver a imensidão de uma folha em branco.

 

 

Pedro Strecht: «Algumas queixas de hiperatividade são sinais de boa vitalidade dos miúdos»

Fevereiro 15, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , ,

Entrevista de Pedro Strecht ao https://www.noticiasmagazine.pt/ de 29 de janeiro de 2018.

A hiperatividade e o défice de atenção não são sinónimo de indisciplina, são perturbações que afetam crianças e adolescentes e devem ser tratadas. O pedopsiquiatra Pedro Strecht questiona no seu novo livro se não estaremos a abusar do rótulo e a tratar como doença um problema que é das famílias, da escola e da forma como estamos a lidar com o tempo (ou a falta dele).

Texto Catarina Pires | Fotografia Paulo Spranger/Global Imagens

Pedro Strecht, 51 anos, pedopsiquiatra, tem mais de trinta livros publicados sobre questões relacionadas com o comportamento e o desenvolvimento de crianças e adolescentes.

Hiperatividade e Défice de Atenção (ed. Fundação Francisco Manuel dos Santos) é o mais recente e reflete sobre a forma como estamos a viver a família, o trabalho, a escola e questiona se não estará aí a origem desta verdadeira epidemia que é o diagnóstico de hiperatividade e défice de atenção. Porque para resolver um problema é preciso percebê-lo.

A hiperatividade e o défice de atenção parecem ser a epidemia deste início de século entre crianças e jovens. Há um sobrediagnóstico desta perturbação?
Sim, e a ideia central deste meu livro – Hiperatividade e Défice de Atenção – é que talvez estejamos a usar o mesmo rótulo para situações muito diversas, que temos de aprender a distinguir um pouco melhor.

Não terá este fenómeno muitas vezes que ver com o facto de vivermos cada vez mais em sociedades elas próprias hiperativas, tão desafiadoras como multitasking? Sim.

Não terá que ver com o tempo e a forma como lidamos com este, individualmente, nas famílias e na relação com as crianças, sempre com a sensação de que não o temos e cada momento é para aproveitar até ao limite, como se não houvesse amanhã? Se calhar, sim.

Não haverá muitas crianças que, por exemplo, não param quietas porque simplesmente não têm regras e limites bem definidos desde cedo? Também.

E quando as queixas vêm sobretudo da escola, não será porque os miúdos, ao contrário do que seria expetável com os avanços e as mudanças da sociedade, têm cada vez mais tempo de blocos de aulas e menos tempo de recreio e de vivência de casa, de família, de desporto, de atividades ao ar livre?

Mas a verdade é que até já se poderia falar numa geração ritalina, de tal forma a medicação tem sido a resposta de primeira linha adotada perante crianças com diagnóstico de PHDA [perturbação de hiperactividade e défice de atenção].
Nos últimos anos insistiu-se muito que o que podia ser hiperatividade com défice de atenção era algo que dizia respeito a uma dificuldade de processamento das substâncias libertadas entre as células nervosas – os neurotransmissores – e que, portanto, a resposta única ou quase exclusiva seria a medicação.

O que digo é que estamos a rotular e a medicar em demasia sem tentar outras respostas. Algumas destas crianças até podem vir a precisar de medicação, mas o uso de psicofármacos na infância e na adolescência deve ser o topo da pirâmide, esgotadas que foram outras respostas.

Não é apenas dizer que algo se passa a nível neurológico, dar uma medicação e a criança melhora. Sem dúvida que muitas que tomam medicação melhoram, não é isso que está em causa. Eu até digo às vezes a brincar que todos nós melhoraríamos se tomássemos um psicoestimulante, claro. Mas isso tem consequências.

Que consequências?
Estamos a receitar psicofármacos quando o cérebro está ainda em desenvolvimento e hoje sabemos, pelos estudos da moderna neurociência, que para além dos 20 anos ainda há muitas áreas cerebrais que continuam a desenvolver-se, nomeadamente as que têm que ver com a ligação das emoções com os impulsos. E, portanto, sim, há consequências.

Mas há outras, indiretas, que também são importantes: eventualmente desde cedo, com algumas crianças e pais, [o excesso de medicação] não ajuda a que cada um vá descobrindo outras maneiras de se autorregular e tomar mais consciência de si e dos fatores que estão à sua volta e que claramente podem mudar.

Estamos a deixar tudo para a medicação?
Aposta-se na medicação como se fosse algo milagroso, mas não perguntamos aos pais quanto tempo a criança passa na escola, quanto tempo está em família, se as regras e os limites estão bem estabelecidos, e por aí fora. Pode ser incomodativo fazer estas perguntas e encontrar as respostas, mas com elas levamos as pessoas a refletir sobre alguns padrões negativos, que se conseguirmos mudar talvez isso tenha impacto no comportamento das crianças e dos adolescentes.

Num artigo que publicámos no site da Notícias Magazine sobre o programa Supernanny, que tanta polémica causou e foi entretanto suspenso, a coach parental Cristina Valente dizia que mais do que educar as crianças é preciso educar os pais. Concorda?
Sim, isso é muito importante nesta questão da hiperatividade. Por um lado, a necessidade da contenção emocional dos pais junto das crianças, por outro a questão das regras e dos limites. E depois a pressão, ou não, sobre o desempenho escolar e a regulação, ou não, dos tempos livres.

A primeira é muito importante, porque a contenção emocional implica tempo para estar, ouvir e compreender os mais novos, e hoje sabemos que é difícil conseguir isso.

Quanto às regras e aos limites, é muito incómodo dizer, mas a falta destes é que é hoje uma epidemia. Há muitas crianças que funcionam numa estrutura impulsiva, agem no imediato em função do que querem ou não querem.

Por outro lado, a escola é onde os miúdos passam mais tempo – muito tempo – sem descanso pelo meio. Uma escola em relação à qual os pais têm uma enorme expetativa quanto ao desempenho e também das alternativas em termos de tempos livres. Estamos a falar da escola, da família, da sociedade, é muita coisa que tem de mudar.

E, no entanto, não muda.
Sim, e isso é de alguma forma surpreendente. Estamos a falar de coisas que já sabemos há muito tempo, mas que depois não estamos a saber mudar. Porque continuamos a construir bairros que não têm um espaço que dê para as crianças virem cá para baixo brincar, jogar à bola, correr, conviver uns com os outros? Por que não favorecemos mais o desporto na escola ou outras atividades mais criativas como as artes em geral e também as humanidades?

Porque insiste a escola em blocos de aulas de noventa minutos em que a criança ou o adolescente deve estar quieto e calado a ouvir um adulto debitar matéria? Não admira que aumentem as queixas dos professores relativamente ao comportamento dos alunos. Nem um adulto aguentaria noventa minutos quieto e calado.
Isso é mesmo uma questão que temos de repensar. Os miúdos fazem testes de uma hora e meia no 5º ano. Não sei se os pais e os professores se lembram, mas nós tínhamos aulas de cinquenta minutos e intervalos de dez, depois de vinte e o ritmo era sempre este.

Um miúdo de 10 anos fazer um teste de uma hora e meia? Ao fim de meia hora a capacidade de atenção, memorização e até de desempenho começa a diminuir. Atenção, memorização e sobretudo reprodução de informação: o nosso sistema de ensino não pede muito mais. É triste, mas é verdade. Estejam quietos, decorem, fixem, reproduzam e não pensem muito, não se mexam mesmo nada, que em princípio tudo correrá bem se assim for. Felizmente assim não é.

Eu acho que algumas queixas de hiperatividade na escola são sinais de boa vitalidade de muitos miúdos. Quer dizer que ainda existem enquanto criança ou adolescente, respondem, reagem, não estão passivos, quietos, semimortos ou esvaziados de conteúdo perante o peso da expetativa escolar.

Outra coisa que talvez fosse importante repensar são os horários de trabalho. Refere no seu livro um estudo que diz que os pais passam em média quarenta minutos por dia com os filhos. Que consequências tem isto?
Já não é um estudo recente, mas não deve estar desatualizado e abordava o pouco tempo que os pais em Portugal e noutros países têm de relação exclusiva com os filhos. Talvez até tenha diminuído com a questão das novas tecnologias.

As novas tecnologias têm coisas ótimas, mas dispersam muito a atenção – uma mãe que está a mudar uma fralda e está a atender o telefone, um pai que está a brincar com o filho e a responder a e-mails. Na minha consulta já tenho pais que a interrompem para atender o telefone porque têm de responder muito urgentemente ao trabalho.

As pessoas reagiram com alguma ironia quando um partido – não me lembro qual – propôs o direito de os trabalhadores desligarem do trabalho quando estão em casa, mas esse direito é fundamental.

Há uma revolução por fazer a vários níveis: família, escola, trabalho?
Sim, é todo um paradigma que tem de mudar. Diz-se sempre, e é verdade, que os países nórdicos têm ótimas taxas de resposta escolar. Ora, na Europa, são os países onde as crianças passam menos tempo na escola. Claro que há incentivos à parentalidade, que os horários de trabalho são adaptados a isso… É uma questão de procurar uma melhor regulação – que também passa por uma atitude consciente da cada um de nós – entre tempo de trabalho, de escola e de descanso e lazer.

É um balanço que estamos a fazer mal, com muito pouco equilíbrio, e isso tem consequências nas crianças. Não é por acaso que em Portugal – nos adultos e nos pequeninos – somos um dos maiores consumidores de psicofármacos, nomeadamente de antidepressivos e ansiolíticos.

Em relação à questão da disciplina e da capacidade (e importância) de dizer «não» e estabelecer limites e regras, quando e porquê os pais perdem a capacidade de fazer isso?
Acho que se perde muitas vezes logo na primeira infância dos filhos, e por duas ou três questões. Por um lado, voltamos à questão do tempo: há menos tempo para os casais estarem juntos e estarem com os filhos.

Depois porque, de uma maneira geral, temos muito menos crianças por família e cada criança absorve uma expetativa de atenção muito grande dos pais. Estamos quase sempre a falar de filhos únicos, que obviamente, existindo toda a atenção e disponibilidade para eles, tornam-se o centro.

Por último, também acho que se torna mais difícil estabelecer regras e limites porque melhorámos muitíssimo em termos económicos e sociais e já não é preciso dizer tantas vezes «não», por exemplo, à compra de uma bola de futebol ou de outra coisa que a criança peça.

E depois também porque os miúdos se tornaram muito mais exigentes, porque têm sobre eles muito mais estímulos para dispersar a atenção, dos telemóveis aos tabletse às PlayStations, que antes os pais não tinham de gerir tanto.

E a questão da culpa? Não andamos todos demasiado e desnecessariamente imersos em culpas que não temos e não trazem nada de positivo ou produtivo?
Winnicott, um pedopsiquiatra que morreu nos anos 1970, falava de good enough parents, pais suficientemente bons, pressupondo que o normal é termos falhas. Não podemos ter a ideia de que vamos fazer tudo bem, vamos responder a tudo, vamos estar sempre disponíveis, porque senão andamos sempre movidos a culpa e vamos fazer as reparações possíveis em relação a várias circunstâncias e acabamos por ceder nas regras, nos limites e etc.

Quando as crianças são mais agitadas, mais indisciplinadas ou mais ativas há sempre alguém que vem com o diagnóstico de hiperatividade. Não será papel dos médicos servir de filtro e ajudar a distinguir o que é patologia do que é falta de regras ou disciplina? Para não cairmos depois no extremo oposto, e indesejável, que é pensar que não há miúdos hiperativos, há é miúdos malcriados.
Completamente de acordo. Os rótulos servem só para nos organizarmos em termos do nosso pensamento. Acima de tudo temos de tentar perceber cada criança e sobretudo evitar a consequência mais fácil do rótulo que é abandonar o investimento naquela criança. Esse é um erro muito grande.

Tal como é um erro pensar que todo o desenvolvimento da infância e da adolescência se faz sem a presença de dificuldades. Quando miúdos dão as suas chatices, isso é que é normal.

Há cada vez mais a expetativa de que o desenvolvimento dos miúdos seja algo completamente liso ou plano. E não é. Ainda bem que há miúdos que se mexem, porque é uma forma de expressar várias coisas. Penso que devemos fugir ao rótulo no sentido de catalogar e fugir ao catalogar, não abdicando do nosso envolvimento pessoal na situação, que acontece muitíssimo.

Eu tenho professores que me questionam por que motivo ainda não dei medicação àquela criança, e eu respondo: mas porque é que ainda não a sentou mais perto de si ou porque é que ainda não valorizou o que ela pode ter feito de bem quando termina uma tarefa, etc.? Quando pomos as coisas fora de nós acaba por ser mais fácil…

Os pais delegam na escola, a escola culpa os pais, os pais e a escola mandam para o psicólogo ou para o pedopsiquiatra para ele tratar… Parece que andamos sempre a empurrar responsabilidades de uns para os outros. Não seria importante cada um assumir o seu papel e trabalhar em conjunto? E haver uma diferença mais clara na cabeça das pessoas entre o que é doença e o que é rótulo?
Sim. Exemplo concreto: tristes por vezes todos estamos, o que não significa que estejamos com uma depressão. Há dias em que podemos estar mais ativos ou mais mexidos sem que isso faça de nós um hiperativo.

O que acontece com uma criança é não apenas função de um património genético ou biológico que herdou, mas é sobretudo expressão de uma modulação de imensos fatores que passam pela própria criança, pelos pais, pela família alargada, pela escola, pela sociedade e pela cultura vigente.

Se tivermos esta ideia mais lata, estaremos muito mais aptos a olhar as crianças como um todo e não a fragmentá-las em rótulos ou patologias. Este balanço é que é muito importante.

Mas quais são então os sintomas ou sinais de que estamos perante uma perturbação de hiperatividade e défice de atenção que justifique intervenção clínica e medicamentosa?
Julgo que a intervenção clínica se justifica sempre que as queixas são significativas e sentidas quer pelos pais quer pela escola, acabando por ter impacto significativo sobre o dia-a-dia da criança e sua família. Quanto à medicação, deve ser sempre a resposta última ou complementar a outras respostas que são possíveis.

 

Lançamento do livro “Hiperactividade e Défice de Atenção”, de Pedro Strecht, 31 de Janeiro, às 18.30, na Biblioteca do Museu João de Deus em Lisboa

Janeiro 29, 2018 às 2:42 pm | Publicado em Divulgação, Livros | Deixe um comentário
Etiquetas: , , ,

Lançamento do livro “Hiperactividade e Défice de Atenção”, dia 31 de Janeiro, às 18.30, na Biblioteca do Museu João de Deus em Lisboa.
Sinopse:
As nossas crianças estão a crescer num perigoso paradigma: a reacção a estímulos constantes substituiu o tempo para parar e pensar. Pais e professores são confrontados com diagnósticos de Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção (PHDA). Mas quantos são reais? Num país em que, em 2016, foram perscritos 5 milhões de embalagens de psicofármacos para jovens abaixo dos 15 anos, é tempo de parar e pensar sobre a abordagem clínica da PHDA. Como lidar com ela de forma integrada e travar o ciclo de resposta única da medicação? Num ensaio que vai às origens do problema, Pedro Strecht aponta caminhos aos milhares de portugueses que diariamente convivem com a PHDA.

Biblioteca do Museu João de Deus

Avenida Álvares Cabral, nº 69 Lisboa

Pedopsiquiatra defende a importância da esperança no futuro das crianças e dos adolescentes

Junho 25, 2012 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Divulgação, Livros | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , ,

Notícia do Público de 19 de de Junho de 2012.

Por Paula Torres de Carvalho

O sofrimento das crianças em consequência da separação dos pais, das condições de pobreza em que vivem, da solidão que sentem, do insucesso escolar que experimentam, são temas abordados pelo pedopsiquiatra Pedro Strecht no seu novo livro Assim seus olhos, editado pela Assírio&Alvim, que chegará às livrarias na próxima segunda feira.

Com prefácio de D. Manuel Clemente, este livro é sobre “o lugar da esperança no futuro das crianças e adolescentes” e os vários desafios que o dia-a-dia lhes coloca, refere o autor.

Desde 2007 que em Portugal se separam anualmente mais casais do que aqueles que se unem, lembra o médico, notando que esta é uma realidade que não diz apenas respeito a Portugal, mas à maioria dos países europeus.

Mais de 80% dos casos passam por processos de regulação parental e os filhos “pagam injustamente a mais elevada factura”, diz. “No clima de verdadeira terra queimada, sem sombras possíveis à vista (…) o resultado final é de fácil previsão: a devastação emocional”. São muitos os casos que o médico recebe no seu consultório, em Lisboa. No livro, descreve o exemplo de uma menina de sete anos, cujos conflitos decorrentes da separação dos pais se arrastavam há dois anos, com consequências profundamente traumáticas. “Posso achar que durmo em casa da mãe. Mas também pode vir o pai com a polícia tocar à porta da escola e tentar levar-me para casa dele”, conta ao médico na consulta, explicando-lhe que a melhor solução seria ir viver para casa do namorado, um colega da escola, também no segundo ano.

Papel dos pais

Salientando a necessidade do papel fundamental dos pais “na concepção de um novo mundo psíquico com plena aptidão a funcionar posteriormente de forma autónoma” e na necessidade da paz no crescimento das crianças, Pedro Strecht questiona: “Mas que paz é possível se o cenário é sempre de guerra?”

Importa então colocar algumas perguntas: “O que procuram os pais quando cessam uma relação e acima de tudo, reclamam os seus direitos não olhando aos da criança, o seu próprio filho/a?”; “Se a separação ocorre pela sucessiva falha na relação, porquê perpetuá-la temporalmente pela manutenção (e, por vezes, ampliação) do conflito que a originou?”; “Será que, a partir de determinado momento o conflito em si e a energia psíquica que o próprio consome são mais importantes do que qualquer esforço emocional para (re)colocar os filhos no lugar que lhe é devido?”

Mas além dos “estilhaços” das separações, este livro aborda outras causas do sofrimento infantil num tempo marcado pela falta de tempo para a criança.

Morrer de “solidão afectiva”

As crianças e os adolescentes “são sempre seres dependentes e vulneráveis e não podem nem devem ser deixados emocionalmente sozinhos”, alerta o pedopsiquiatra Pedro Strecht,. E lembra: “Pode morrer-se de solidão afectiva”, como já escrevia René Spitz nos anos de 1940, a propósito dos seus estudos sobre depressão infantil.

Strecht fala também do “precoce murchar” de crianças vítimas de pobreza, citando o psicanalista João dos Santos: “Algumas pessoas morreram aos 30 anos mas acabaram por ser enterradas depois dos 70”. É que, na verdade, muitas crianças adoecem (ou morrem mesmo) aos três ou aos sete anos e nunca mais recuperam o “ânimo”, quer isso seja expresso em alegria, força ou alimento de uma razão de ser que permita continuamente ir mais além: fisicamente vivos estão de facto psiquicamente mortos”, diz o pedopsiquiatra, frisando a importância da necessidade da esperança “dependente da capacidade de trabalhar, lutar, viver para algo porque esse desígnio é importante ou bom e não apenas porque há sobre ele a hipótese de se ser bem- sucedido”, escreve Strecht.

 

Pedro Strecht: “As crianças precisam de paz”

Julho 7, 2011 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , ,

Entrevista de Pedro Strecht publicada na Revista Única do Expresso de 22 de Maio de 2010.

 

Cândida Santos Silva

Preservar os mais novos das discussões e dos conflitos é bom para toda a família. Saiba como actuar.

O número de casais portugueses que se separa tem vindo a aumentar de ano para ano. Com a última alteração à lei do divórcio as estatísticas registaram mais divórcios que casamentos. Pedro Strecht, pedopsiquiatra, diz que no seu consultório recebe muitos pedidos de ajuda e de aconselhamento. Por isso dicidiu escrever um livro, a que chamou ‘Dá-nos a Paz’, publicado pela Assírio & Alvim, onde responde às principais dúvidas dos casais que passam por um divórcio onde existem filhos. Aqui ficam algumas das dúvidas que com mais frequência lhe chegam.

É melhor evitar a todo o custo uma separação só para se manter a imagem de uma família unida? Há pais que prolongam demasiado situações irreversíveis para as suas vidas, atingindo, por vezes, o limiar do insuportável, só para manter uma ideia de família nuclear, não importa a que preço. Nunca é bom prosseguir situações que não são verdadeiras e que fragilizam emocionalmente.

Mesmo quando se julga estar a actuar no superior interesse das crianças? É sempre negativo viver cenários de mentira e fachada. Isso pode deixar os mais novos desprotegidos perante a possibilidade de interiorização de modelos de relação patológicos, existindo o risco de se desenvolver a imagem de um pai ou uma mãe demasiado impulsivo ou agressivo ou, pelo oposto, excessivamente frágil e indefeso. Se os pais não estão bem na relação mútua, também não estão suficientemente fortes e disponíveis para os filhos. É útil lembrar que os filhos não são almofadas psíquicas que sirvam para amparar episódios repetidos de mal-estar, agressividade ou conflito entre os pais. As crianças não devem ser pretextos para desculpas ou inexistência de decisões que competem aos adultos tomar. Em casos de vivências diárias muito complexas ou negativas para o equilíbrio dos mais novos, uma separação pode ser, potencialmente, um alívio ou solução do problema.

Qual a melhor altura para comunicar a separação? Não existe o momento ideal. A questão do tempo é algo que deve dizer respeito à vida dos adultos e à sua capacidade para sentirem que são capazes de o fazer.

Há alturas em que as crianças e adolescentes podem ser poupados à revelação da situação? Por exemplo, momentos que estão muito próximos de etapas ou vivências importantes para os filhos, como a proximidade da época de exames, a perda ou morte próxima de um familiar, a recente entrada para a escola.

Há alguma maneira especial de comunicar uma separação aos filhos? A melhor maneira é ir directo ao assunto. As palavras devem ser simples, mas francas. De início, as explicações não precisam de ser muito elaboradas. Deve-se sempre assegurar que o amor dos pais pelos filhos não cessa ou termina por acabar a relação. É fundamental transmitir a ideia de que as crianças não têm que tomar parte do conflito. Para além de tudo isto é importante ouvir o que os filhos têm para dizer, responder às suas dúvidas e deixá-las expressar livremente os seus sentimentos.

Quem o deve fazer? Devem ser sempre os pais a comunicar a separação. Se possível é importante que os dois possam estar presentes. Se, de início, a decisão for unilateral, deve ser o progenitor que assumiu a situação fazê-lo. No entanto, há pais que nunca assumem a quebra da relação, mesmo quando esta implica a sua saída de casa ou o início de novas relações. Nesses casos, cabe a quem fica mais perto comunicar a separação.

A separação provoca sempre sofrimento emocional nos filhos? Qualquer separação implica a necessidade de um longo trabalho emocional de adaptação a uma nova realidade, com perdas, ausências, reajustes, que nem sempre são fáceis para quem os vive. Mesmo quando os filhos se apercebem de um clima anterior de zanga, conflito, frieza ou indiferença entre os pais, é vulgar existir uma expectativa de mudança, de regresso a um qualquer ponto anterior ou quase original do relacionamento dos pais. No entanto, quando a relação do casal é tão abertamente conflitual ou agressiva, quando um dos pais é reconhecido pelos filhos pela perturbação da qualidade de relação é que o sofrimento provocado por uma separação é minorado. Não só pela sensação de protecção e alívio como pela diminuição ou mesmo desaparecimento desse foco de mal-estar diário. Um sofrimento não resolvido pode ser a base de perturbações importantes e duradouras na infância e adolescência.

Há separações que deixam marcas para sempre? A forma como uma separação pode deixar marcas duradouras nos filhos depende sempre da maneira como os adultos souberam preservar os mais novos do impacto negativo da situação.

Devem os filhos saber todas as razões da separação? É útil e necessário existir uma distinção de gerações, de estatuto e de papéis entre os mais novos e os mais velhos. Pais e filhos podem e devem partilhar entre si múltiplas áreas das suas vidas, mas deve também manter-se sempre uma diferença entre partes que são específicas de cada um. Pais e filhos não devem ser companheiros, nem confidentes uns dos outros. Das razões que levam a uma separação haverá sempre algumas que se podem transmitir aos filhos, mas haverá outras que só ao casal importam.

A custódia partilhada é o modelo ideal? Simboliza, acima de tudo, uma responsabilidade conjunta no exercício das responsabilidades parentais. Representa a possibilidade de, com em igual peso, ambos os pais poderem decidir sobre o que desejam para os filhos. Mas também exige uma boa capacidade de comunicação e diálogo entre os pais, mesmo quando há conflitualidade e distância.

Hoje em dia, existe a tendência para se ligar a ideia de custódia partilhada à divisão igualitária de tempos de contacto com o pai e com a mãe. Não é verdade e muito menos representa sempre o modelo ideal. Para muitas crianças e adolescentes, repartir a casa do pai e da mãe implica uma certa maturidade emocional, uma boa segurança e autonomia em relação às figuras principais de vinculação e, muitas vezes, a capacidade de gestão autónoma de questões de organização diária, como roupa e material escolar, entre outras. Esse modelo não é aconselhável em crianças de muito baixa idade, sobretudo nos primeiros três a seis anos de vida, pois são muito dependentes e autolimitados nas suas tarefas de autonomia, nas referências espaciais e temporais, na linguagem e até na própria relação, mesmo quando ela passa pela comunicação verbal.

Depois da separação, é proveitoso continuarem a estar todos juntos em fins-de-semana, férias ou noutras ocasiões? Se existe uma separação, então não é bom falsear a situação perante os filhos. Eles esperam dos pais uma posição de clareza e honestidade que lhes reforce a confiança e a segurança relacional e que, mesmo sendo difícil de assumir ou transmitir, é mais positiva do que a falsidade, a omissão ou a distorção. Há situações em que os pais podem e devem comparecer em conjunto, como nos aniversários, reuniões ou festas escolares ou outras que as crianças solicitarem.

 

4º SEMINÁRIO SOBRE SAÚDE MENTAL INFANTIL E JUVENIL

Junho 25, 2011 às 1:00 pm | Publicado em Divulgação, Uncategorized | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , , , , , , , , ,

4º SEMINÁRIO SOBRE SAÚDE MENTAL INFANTIL E JUVENIL

De Setembro de 2011 a Junho de 2012

Por Pedro Strecht

Médico de Psiquiatria da Infância e Adolescência

Local:

Gabinete de Atendimento Médico e Psicológico

Rua António Enes, nº18-R/C esqº

1050-025 Lisboa

(ao Saldanha, junto ao Instituto Franco-Português e Hospital Particular)

Duração:

18 Sessões, de periodicidade quinzenal (terças-feiras) entre Setembro de 2011 e Junho de 2012, com 1h30 cada, entre as 21h30 e as 23horas; sessões para grupo entre 5 a 7 pessoas.

Público-Alvo:

Médicos, Licenciados ou Estudantes de Psicologia Clínica ou Educacional, Professores, Educadores, Assistentes Sociais, Técnicos de Psicomotricidade, Terapeutas da Fala, ou outros profissionais interessados que lidem com crianças e/ou adolescentes.

Temas a Abordar:

Os primeiros anos de vida

Entre os 6 e os 12 anos

Especificidades da Adolescência

Observação de Crianças e Adolescentes

Bases da Psicopatologia

Problemas de Comportamento

Dificuldades de Aprendizagem

Perturbações Psicóticas

Depressão Infantil e Juvenil

Abuso, Negligência e Maus-Tratos

Evoluções Marginais e Delinquentes

Tentativas de Suicídio e Suicídio

Consumos de Álcool e Drogas

Crianças e Adolescentes Perante a Morte

Separação de Pais e Impacto na Vida Psíquica dos Filhos

Trabalho Terapêutico com Crianças e Adolescentes Institucionalizados

Abordagens Terapêuticas

Preço:

100 euros por mês (emissão de recibo)

Certificação:

Certificado Final de Frequência se cumpridas 2/3 das sessões

Datas de Formação:

Setembro, 13 e 27

Outubro, 11 e 25

Novembro, 8 e 22

Dezembro, 6 e 20

Janeiro, 10 e 24

Fevereiro, 7 e 21

Março, 13 e 27

Abril, 10 e 24

Maio, 8 e 22

Junho12 e 26

 Inscrições: por sms para 964084823 ou por mail para plstrecht@gmail.com


Entries e comentários feeds.