Como evitar o divórcio nos primeiros meses de vida de um bebé

Agosto 7, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Observador de 21 de julho de 2019.

Tânia Pereirinha

Noites sem dormir, roupas para lavar, fraldas para trocar e um ser indefeso que chora, geme e grita várias horas por dia. A grande dúvida é: por que motivo ninguém diz que é tão difícil ter um bebé?

No dia em que completaram o primeiro ano de casados, no final de junho, Filipa Silva e o marido tiveram um serão diferente. Não foram para fora, não passaram a noite num hotel, nem sequer saíram para ir a um restaurante. Pegaram no telefone e encomendaram sushi do centro comercial mais próximo para o jantar. Quando a encomenda chegou, comeram juntos, no apartamento onde vivem, na Amadora, enquanto na cadeirinha de bebé a filha de ambos, de apenas 10 meses, roía um pedaço de pão. Às 21h, mãe e filha estavam deitadas, como de costume. “Sucesso: não tive de fazer o jantar… Luz de velas? Romance? O que é isso? Nós somos dois conhecidos que vivem debaixo do mesmo teto”, desabafa Filipa, 29 anos, ao Observador.

Desde que a licença de maternidade de 5 meses chegou ao fim, pelo menos durante a semana, Filipa e o marido coincidem na cama durante umas horas, mas não adormecem nem acordam juntos. Tudo porque, como não conseguiram arranjar creche para a bebé, ela teve de se despedir do emprego que tinha como assistente administrativa numa sociedade de advogados, das 9h às 18h, e de arranjar outro trabalho, com um horário menos “normal”, que lhe permite ter a bebé durante menos horas por dia numa ama.

Ainda tentou tirar partido da legislação que protege os pais de crianças até aos três anos e prevê o regime de teletrabalho, mas como não conseguiu, não teve outra opção: “Pedi para trabalhar remotamente em casa, algo que já tinha feito durante a baixa e em vários outros episódios, a minha função era compatível, desde que ajustada. «Estamos a contratar pessoas novas, não podemos abrir esse precedente», foi um dos argumentos da diretora dos Recursos Humanos. Agora sou técnica informática, trabalho das 6 da manhã às 15h, porque é a única forma de ganhar dinheiro e ter tempo para ter uma vida em família”.

Quando utiliza a palavra “família”, Filipa Silva está a pensar sobretudo na filha. E no marido também, mas mais enquanto pai da bebé. Desde o nascimento, em agosto de 2019, que a vida de casal praticamente deixou de existir. Primeiro foram as sequelas da cesariana, difíceis e traumatizantes. Depois o processo de amamentação, que correu tão mal que quase a fez entrar em depressão. A seguir tudo o resto: o choro, as cólicas, as noites sem dormir, o cansaço, a culpa, a frustração e as consequentes zangas. “Nós não discutíamos e agora discutimos. O meu marido acha sempre que o estou a condenar quando faço uma sugestão ou lhe pergunto qualquer coisa. Ele nunca me subia o tom de voz, acha que se passam coisas na minha cabeça que não passam”, revela.

“Todo o meu tempo é para a casa e para a bebé. Quando a miúda adormece, que é o tempo que temos enquanto casal, estamos estoirados. O sexo é à pressa, não vá ela acordar. Não há tempo sequer para ser sexy”, admite Filipa.

Não é que o marido, nove anos mais velho, também ele técnico informático, não reparta com ela as tarefas e responsabilidades inerentes à bebé — “É um ótimo pai: alimenta, prepara comida, dá banho, veste, muda mil fraldas” –, o que está a falhar é mesmo a sua prestação como companheiro e amante, diz. “Enquanto marido tem muito a melhorar; isto é uma viagem a dois. Sinto falta do romance, do tempo a dois sem interrupção, de ir dançar, de sair… Nós durante a semana nem sequer adormecemos juntos. Não o vejo a deitar, nem ele me vê acordar, não temos estas pequenas coisas, podermos aconchegar-nos no corpo da pessoa que amamos… Parecemos duas pessoas que partilham casa”.

Por muito que não apareça nos prospetos de boas-vindas ao maravilhoso novo mundo da paternidade, é uma realidade incontornável: os primeiros meses de vida dos bebés — ou os primeiros anos, vá — são uma prova de fogo para a vida em casal.

E isto é válido para todos, sejam casais recentes ou duradouros, se bem que com intensidades também distintas, garante ao Observador a psicóloga clínica Catarina Mexia, especialista em terapia de casal: “A par da infidelidade e do desemprego, o nascimento de um filho, sobretudo se for o primeiro, é uma das situações que mais impacto tem na vida de casal”.

A probabilidade de a coisa correr mal (leia-se de terminar em separação ou divórcio) será inversamente proporcional ao nível de solidez e estrutura do casal, bem como às capacidades de flexibilização e adaptabilidade de marido e mulher, explica a especialista. E tem aumentado nos últimos anos: “Tradicionalmente, quando as relações se construíam ao  longo de anos de namoro, havia uma ligação que se estruturava no convívio a dois. Quando aparecia uma criança e essa construção de relação tinha acontecido de forma saudável e tendo em conta as necessidades de cada um, era sempre um terceiro elemento que vinha «intrometer-se» na relação, sim, mas as coisas ajustavam-se sem dificuldades de maior. Quando nasce um bebé há claramente um desvio no foco. E não há volta a dar, por muito que digamos que o pai também participa, há uma grande diferença, até a nível fisiológico, por isso é a mãe quem passa a concentrar todas as atenções no bebé. Se o casal não estiver bem alicerçado, se não conseguir entender este desvio, que é natural e deve ter uma duração limitada, pode ter dissabores fortes. Vai sempre existir alguém que sente que perdeu alguma coisa — o homem –, e alguém que pensa que está a dar tudo e a receber pouco — a mulher.”

Para evitar que isto aconteça, defende Catarina Mexia, será essencial “manter o foco”: “Costumo dizer aos meus casais que se aquilo que os fez estarem juntos não foi o desejo ou o projeto de terem filhos, mas o facto de gostarem um do outro, é nisso que têm de se focar. O que faz sentido é pensarem em cada um individualmente, depois como casal e só então como pais de uma criança. Claro que, numa primeira fase, os bebés precisam muito dos pais — e depois também; haverá sempre uma grande complexidade neste processo –, mas o importante é não perder o foco. E o foco, o objetivo, aquilo que os faz estarem juntos, é levarem a relação a bom porto. Tendo uma criança para educar, dar carinho e fazer crescer pelo caminho, claro”.

67% dos casais admitiram ser “muito infelizes” na relação durante os três primeiros anos de vida dos filhos. Foi deste número que John e Julie Gottman, especialistas em relacionamentos e divórcios, fundadores do instituto em Seattle com o seu nome, partiram em 2013 para uma série de 16 estudos que lhes permitiram concluir uma série de coisas no mínimo perturbadoras.

Depois do nascimento do bebé, a frequência e intensidade das discussões aumenta significativamente; apesar de se fartarem de trabalhar, em casa e fora dela, nem mãe nem pai sentem o seu esforço reconhecido pelo outro; o desejo sexual das mulheres tende a diminuir, sobretudo durante o período de amamentação, o que por sua vez faz com que a frequência com que o casal tem sexo também caia significativamente; as mães canalizam todas as suas energias para a relação com o bebé e, emocionalmente, têm pouco a oferecer aos maridos ou parceiros.

Assustador? Há mais: vários estudos estabelecem correlações negativas entre a satisfação matrimonial e a existência de filhos; outros garantem que, no caso das gravidezes não planeadas, o panorama tem tendência a ficar ainda mais negro.

“Da minha «estatística» em consulta de psicologia infantil, os pais de primeira viagem têm uma enorme probabilidade de rutura nos primeiros 3 ou 4 anos de vida do primeiro filho. Gerir uma empresa é bem mais difícil do que sonhar ter um negócio, não sei se me faço entender”, diz a psicóloga e terapeuta Ana Durão, especialista em aconselhamento de crianças e adolescentes. “Tenho muitos casais que chegam às consultas exaustos, com dificuldades para tomar conta dos filhos, de os educar e cuidar. São casais discordantes, fragilizados com as suas próprias inseguranças individuais e da relação. Ainda a semana passada tive em consulta um casal que discutia entre si, cada palavra dita por um era corrigida pelo outro. Na verdade precisam de um espaço para cada um, um espaço para o casal ser um casal e um espaço para serem pais. Precisam de saber desempenhar os vários papéis.”

Filipa Silva, que até é filha de pais divorciados — que nunca estavam “em sintonia” —, conhece as estatísticas, teme que a realidade a leve pelo mesmo caminho e questiona as convenções sociais, que fazem com que o nascimento de um novo bebé seja sempre recebido com alegria, nunca com alegria e preocupação, como se o processo de gerar, ter e educar um filho não fosse um dos trabalhos mais difíceis de todos. “Toda a gente doura a pílula. Ninguém fala do sacrifício pessoal que é necessário. E isto é tão pior numa sociedade como a portuguesa, em que a família é vista como algo culturalmente importante, mas depois há muito pouco suporte para uma vida em família. Espera-se que a mulher deixe a casa para trabalhar. Mas com estas novas responsabilidades para a mulher, cada vez mais acumula deveres. E os direitos? E a vida conjugal?”

Porque as experiências de terceiros, sejam eles conhecidos ou não, são quase tão essenciais para perceber, enquadrar e perspetivar as nossas próprias vivências quanto os conselhos de quem estuda sobre o assunto, falámos com outros quatro pais e mães recentes sobre o impacto que a chegada dos filhos teve ou está a ter nas suas vidas conjugais. Ouvimos histórias de praticamente todas as cores — só dourado é que não.

“Ter um bebé não mata completamente o romantismo. Mas também acho que é porque temos uma bebé que colabora e dorme”

Talvez não seja a prova que faltava para determinar que as mulheres são de Vénus e os homens de Marte, mas mostra bem quão diferentes são as mentes de um homem e de uma mulher, neste caso casados há cerca de dois anos, pais de uma bebé de seis meses e meio. Teresa Sotomaior Estrela, 34 anos, e José Marçal, 39, falaram com o Observador em separado, no mesmo dia, com cerca de duas horas de diferença. Questionados sobre de que forma o nascimento de Pilar lhes afetou a vida conjugal, responderam de maneiras diferentes.

Para ela, a maior dificuldade dos primeiros meses de maternidade tem sido, além do cansaço e da desorganização, a falta de iniciativa do marido: “Sinto que ele ainda está noutro planeta. Ele tenta, mas… o que sinto é que tenho de estar sempre a dizer-lhe ‘faz isto, faz aquilo’, não tem iniciativa, não decide nada. Já me cansa estar sempre a dizer tudo, parece que fiquei com dois filhos. Considero-o uma pessoa inteligente e capaz, mas agora não percebo”.

Para ele, o pior é mesmo a falta de tempo: “Não é que não estivesse à espera, mas o primeiro grande impacto é a falta de tempo para nós, como casal. E para mim também, e para cada um de nós, nas atividades que tínhamos sozinhos. Desde que a Pilar nasceu, por exemplo, corri duas vezes. O cansaço e ter necessidade de dormir e não poder fazê-lo também vêm a seguir. Há muitas tarefas novas, tratar da roupa, alimentar a bebé, acordar a meio da noite… Este cansaço leva a algumas irritações entre nós, mas acho que já estamos a conseguir equilibrar mais as coisas”.

“Tenho menos paciência, tolero menos quando não há iniciativa para fazer certas coisas. Mas ele pede-me desculpa, prefere que lhe diga em vez de ficar a remoer. Acho que o segredo é esse: conversar, relevar e, se calhar, antes de dizer alguma coisa assim pior, ir dormir um bocadinho. Além disso, eu também consigo pedir desculpa, dizer que exagerei. Ter um bebé não mata completamente o romantismo. Mas também acho que é porque temos uma bebé que colabora e dorme”, tinha dito Teresa uma ou duas horas antes.

Foi exatamente uma semana depois de ter constituído uma empresa de mobiliário infantil, com a irmã, que mora em Bruxelas, que Teresa descobriu que estava grávida. Não é que não tencionassem ser pais, só não pensaram que ia acontecer tão depressa. Com José, engenheiro eletrotécnico, também a trabalhar por conta própria e, ainda para mais, a fazer um doutoramento, o processo revelou-se especialmente complicado. “Dei à luz em dezembro, num dia em que tinha uma entrega de peças no Porto. Estava na maternidade a mandar mensagens para a cliente e para o fornecedor. Foi aí que me dei conta de como é bom trabalhar por conta de outrem.”

O facto de as ajudas familiares disponíveis não serem muitas e estarem limitadas aos avós paternos de Pilar (os maternos vivem longe, no norte do país) não só não ajuda como até provoca novos focos de tensão entre o casal. De acordo com Catarina Mexia, esta é uma das questões para que os casais devem estar particularmente alerta quando nasce um bebé: as relações com as famílias de origem. “Quando nos constituímos como família temos de criar fronteiras permeáveis mas bem marcadas face ao resto da família. Ora, quando nasce um bebé, é quase como se houvesse um ataque às muralhas. Porque as heranças culturais e familiares são fortes e podem nem sequer ser consentâneas no casal, de forma a evitar zangas é essencial conversar e negociar novas regras para esta fase”, aconselha.

José e Teresa não o fizeram, mas ambos reconhecem que a situação tem potencial para causar problemas. “Nos primeiros meses custa e nunca deixámos a Pilar”, diz ele. “Depois também são os meus pais, se calhar é mais fácil para mim do que para a Teresa aceitar que ela fique lá… Às vezes esta questão também leva a algumas discussões. É preciso estabelecer fronteiras, cada um tem as suas teorias, os avós fazem comentários, há pequenas coisas que podem até não ser críticas, mas são percebidas como se fossem, e depois, com o cansaço, isto ganha outras proporções… É uma coisa que estamos a tentar estabilizar, mas penso que, de vez em quando, vai ter de acontecer, vamos ter de deixar a bebé com eles. Como nas amizades, as relações também se constroem através de experiências. Viajar, estar com amigos, ir àquele evento — tudo isso faz parte da vida, de uma vida saudável. Se for só rotina não é vida”, explica.

Teresa, que já antes tinha recordado as viagens que fizeram juntos a São Tomé e Príncipe, aos Estados Unidos e ao Vietname, é da mesma opinião. Mas tem noção de que, com Pilar, dificilmente as coisas voltarão a ser o que eram. Pelo menos para já: “Gostamos de fazer viagens grandes, sem guias nem grandes planos, mas acho que tão cedo não fazemos mais nenhuma. No Vietname dormi num sítio por dois euros e meio onde até ratazanas apareceram, acho que não ia com a minha bebé para lado nenhum com estas condições. Além disso, com ela, a questão monetária também mudou. E isso foi outra dificuldade grande: repartir o orçamento. Todas as finanças andam à volta da bebé. Não discutimos sobre o assunto, acho que nos limitamos a ficar tristes”.

Para já, têm assuntos mais urgentes a resolver. O primeiro é conseguir os melhores cuidados médicos para Pilar que, depois de um primeiro rastreio auditivo inconclusivo — “Provavelmente é líquido nos ouvidos”, foi a informação que lhes deram –, foi diagnosticada com deficiência auditiva. Tinha apenas dois meses: “Ela ouve, mas só a partir dos 50 decibéis, é como se tivesse sempre os dedos nos ouvidos. A nossa cadela ladra e ela não acorda, por exemplo. Vai ter de usar aparelhos auditivos para sempre. Todos os estudos dizem que, se as crianças com este tipo de deficiência tiverem acesso a estes aparelhos até aos 6 meses, antes da aquisição da fala, não têm problema nenhum. Estávamos a ser seguidos na Estefânia e a médica disse-nos logo para esquecermos, que com os rendimentos que temos íamos ficar um ano ou dois à espera, por isso tivemos de comprar o aparelho sem comparticipação”, explica Teresa.

Para além de lhes ter roubado ainda mais tempo de sono, para pesquisas na Internet e preocupações, o problema da bebé, que desde os 5 meses já utiliza o aparelho e ri muito mais com as brincadeiras dos pais, levou-os a criar um grupo no Facebook para reunirem outras famílias nas mesmas circunstâncias e tentarem formar uma associação. O que por sua vez fez com que ficassem ainda com menos tempo. “Ainda não conseguimos reorganizar-nos, sinto que andamos sempre atrás do relógio. E andamos muito cansados, mas disso todos os pais se queixam. Para os pais contemporâneos, que antes de terem filhos gostavam de ir beber um copo ao fim do dia, ir a exposições, sair da cidade ao fim de semana, é ainda mais difícil. Na minha licença de maternidade senti que estava numa prisão, que estava a ficar maluca, sem ver pessoas. Agora que estou a trabalhar a tempo inteiro não melhorou muito, ao fim de semana sinto que sou doméstica. Temos uma senhora uma vez por semana, de manhã, e para duas pessoas dava perfeitamente, mas com a Pilar é impossível. Por isso, aos sábados e domingos tenho de lavar a roupa da bebé, passar a roupa da bebé, fazer sopinhas, fazer frutinhas… e pensar que ainda tinha a loucura de fazer as minhas próprias papas! Isso é para gente que não trabalha, quem trabalha compra papas de supermercado”.

Uma das causas mais comuns das discussões entre casais heterossexuais é a divisão das tarefas domésticas. Teresa e José não são exceção. Ela garante que é quem faz mais em casa e acusa-o de não ter iniciativa: “Ele pode ver uma montanha de roupa, mas nunca vai pensar que ela deve ir para dentro de uma máquina. E desde que a Pilar nasceu só preparou uma sopinha, diz que eu faço melhor…”. Ele diz que está a tentar ajudar mais: “A roupa para lavar e passar é interminável e mesmo ao fim de semana há sempre tarefas para fazer. Sinto que é mais difícil arrumar a casa e manter as coisas. Há tarefas que nós dividimos e há coisas, como cuidar da roupa, que sempre foram mais da Teresa. Tento ajudar mais, cozinhar um pouco mais do que fazia antes, mas, de vez em quando, discutimos por causa disso. Antes não discutíamos muito, agora, de vez em quando, há coisas chatas que não conseguimos resolver, mas acho que já está melhor, vamos falando… São coisas que só depois de discutirmos é que resolvemos”.

Catarina Mexia, apesar de reconhecer que é sobre elas que cai a maior parte do trabalho doméstico, diz que muitas mulheres também não estão totalmente isentas de culpa neste processo. “As mulheres têm de mudar, de ser capazes de delegar. Uma das velhas guerras é a dos homens que são constantemente corridos dos feudos femininos por não saberem fazer à maneira delas ou no tempo delas. O que é mais importante? Que as coisas sejam feitas ou que sejam feitas «assim»? Se as pessoas falassem mais daquilo que precisam e menos do que é socialmente aceite chegavam a sítios muito mais interessantes.”

Quando param para pesar os prós e os contras, Teresa e  José são unânimes: não obstante alguma irritação ocasional e o cansaço omnipresente, está longe de ser tudo mau. “Não posso dizer que estamos sempre chateados, temos momentos bastante bons, quando a bebé dorme e estamos descansados, quando ao fim de semana vamos todos ao jardim ou ao café…”, enumera  ela.

De acordo com Catarina Mexia, o segredo é mesmo este: tirar prazer das coisas mais simples e aproveitar cada momento, preferencialmente a dois: “ Tempo de casal não precisa de ser um fim de semana não sei onde nem um jantar num restaurante caríssimo. Podem simplesmente por uma música — a mesma que ouviam na altura em que tiravam partido da presença um do outro e ficavam horas a conversar –, desligar os telemóveis e retirarem-se do mundo, da família e do trabalho. Foquem-se apenas naquilo que vos dá prazer e conversem, inventem, estejam juntos. Façam o que fariam se quisessem conquistar o outro, por exemplo.”

Ainda assim, tanto Teresa como José admitem que o tempo não chega para tudo e, para já, a sexual é uma das partes da vida de casal que está mais ou menos em espera. “É menor a quantidade de vezes que acontece e o fator surpresa não é uma coisa que se consiga tão facilmente, mas faz parte, ainda só passaram seis meses, não considero que seja um problema grande”, desvaloriza José. “Todos os dias tentamos ver uma série a seguir ao jantar — que é sempre mais tarde do que queremos. Se calhar estarmos aquele bocadinho juntos no sofá já significa muita coisa.”

“Quando a E. finalmente nasceu, acho que percebemos que até ali tínhamos vivido em piloto automático, que tínhamos deixado de ter um futuro”

Ao contrário do que acontece com um quinto dos casais portugueses em idade reprodutiva, Bruno Ferreira, 38 anos, e N. não tinham qualquer problema de infertilidade, bem pelo contrário. Mas isso só fez com que o caminho que percorreram até ao nascimento de E., há 3 anos, ainda fosse mais difícil e tortuoso: por três vezes, N. engravidou e, por três vezes, abortou, ao fim de apenas algumas semanas de gestação.

“Perdemos três bebés. À primeira, toda a gente nos dizia que era normal. E à segunda também, nós é que achámos que não podia ser e começámos a fazer exames. Foi assim que soubemos que a N. tem um problema — chama-se síndrome antifosfolípidico, SAF — que lhe estava a provocar tromboses nos vasos finos. Geralmente por volta da quarta ou da quinta semana, a placenta tinha uma trombose e parava de crescer. Os bebés continuavam a crescer normalmente, até que deixavam de ter espaço e rebentavam com a placenta… Quando descobrimos isto, o médico que nos seguia começou a delinear um plano de tratamento, mas a N. engravidou antes de poder começar a fazer o tratamento e, quando o fez, já foi tarde demais. A N. sempre se recriminou por ter perdido o terceiro bebé. Esse foi um dos nossos problemas”, conta Bruno Ferreira ao Observador.

Não foi o único. Antes de começarem a tentar ser pais, Bruno e N. estiveram juntos durante dois felizes anos, findos os quais iniciaram uma jornada de quase três anos de dor, ao longo da qual, além de três bebés por nascer, perderam ainda quatro avós, dois cada um, de quem eram particularmente próximos. Depois, E. nasceu e foi a felicidade suprema — a que se seguiu a dura realidade.

Até fazer um ano, a bebé acordou religiosamente de duas em duas horas. N., que passou os nove meses de gestação de baixa e depois gozou oito meses de licença de maternidade, passava 24 horas sobre 24 horas com ela. Raramente saía de casa e, se saía, era para fazer compras, nunca para se distrair.  “Foi super complicado e muito cansativo, sobretudo para a N. À noite, eu ferrava — e ferrava mesmo –, admito que não lhe dava muita ajuda, e o cansaço foi-se acumulando. Discutíamos muito e eu levava um bocado por tabela com as crises de mau feitio, sobretudo por causa do tempo que eu passava fora de casa.”

Apesar de avisar que com o passar do tempo as coisas não se tornam mais fáceis — “Aliás, só têm tendência a piorar: são mais as noites sem dormir, aumenta o stress, há mais decisões difíceis para tomar” –, Catarina Mexia garante que há formas de atenuar a árdua tarefa de tratar de um bebé e manter o casamento à tona. “Só é necessária alguma curiosidade, humor e capacidade de invenção. Acham que vão estar juntos à noite no sofá a conversar ou ver uma série? Esqueçam, alguém vai adormecer, por isso mais vale ficarem à conversa logo que chegam a casa.”

Neste caso, Bruno até insistia para que N. saísse com as amigas e se distraísse, mas ela não queria. Durante os meses de licença de maternidade, o universo dela, como acontece invariavelmente a quase todas as mães, era o da bebé. Avisa a terapeuta, não é expectável que alguém que passa os dias entre fraldas, bolsados e biberões tenha respostas muito excitantes a dar a um “como é que correu o dia?”. O que não justifica de todo que o membro de casal que mantém uma vida lá fora deixe de perguntar: “Mostrem interesse no dia do outro, mesmo que isso signifique apenas ouvir mais uma história de fraldas. No momento em que estão de licença em casa com um bebé, é normal que as mulheres só tenham isso para dar. Se não mostrarem interesse por isso, então os maridos não mostram interesse pelas mulheres”.

Mais ou menos na altura em que a filha nasceu, Bruno, que na altura trabalhava numa multinacional como engenheiro de redes de comunicação, criou com um grupo de amigos uma marca de cerveja artesanal, que lhe passou a ocupar parte dos fins de tarde. “Passou a ser o principal motivo das nossas discussões, a nossa maior divergência. Eu passava lá umas duas ou três horas por dia e, quando chegava, dava banho à miúda, vestia-lhe o pijama, dava-lhe o biberão para adormecer e depois ainda começávamos a fazer o jantar juntos — a Bimby fazia o resto. Mas, para a N., todo o tempo que eu passava fora de casa, desde as 7h até às 20h, era tempo que eu dedicava à cerveja. No fundo, ela nunca encaixou que eu basicamente tinha era dois trabalhos. Diz que durante 8 meses viveu sozinha nesta casa. Não concordo, se calhar estive fora durante 30 ou 40% desse tempo. Quando a E. tinha 5 meses, passámos três semanas e meia em Nova Iorque e, quando voltámos, andámos a viajar pelo país. Aproveitámos o meu mês de licença mais três semanas de férias para estarmos juntos e passearmos, o calendário dela não bate certo com o meu”, recorda.

Não é por acaso que em tempo de férias tudo parece mais fácil: para além de passearmos, termos experiências novas e estarmos livres de horários e obrigações, em férias estamos também longe de casa e por isso não temos de cozinhar, pôr a roupa a lavar, limpar o pó ou sequer levar o lixo, o que necessariamente faz com que sobre mais tempo para namorar e estar em casal. É por isso que, mais do que como garante de equidade e respeito entre as duas partes que o compõem, a divisão de tarefas deve ser vista como uma forma de possibilitar e facilitar a existência do casal, defende a terapeuta Catarina Mexia. “A divisão de tarefas não tem só um lado prático. É reconhecer que se o tempo que o casal tem em casa depois do trabalho é curto e há coisas para fazer, se as fizerem juntos, vão poder despachar-se e parar para estarem um com o outro mais rapidamente. Dividir as tarefas é criar condições para que o casal possa acontecer.”

Depois das férias e do regresso de N. ao trabalho, as coisas realmente melhoraram — tanto que, quando E. tinha um ano e meio, decidiram casar e batizar a bebé. Até que pioraram outra vez.

Foi antes do verão passado: Bruno Ferreira percebeu que estava a fazer o mesmo que aquele colega que sempre tinha criticado — que se deixava ficar no trabalho até tarde, só para não ter de ir para casa discutir com a mulher — e que o problema era mesmo grave. “Foi o meu wake up call. Nesse dia, fui para casa e disse-lhe que, a continuar assim, não íamos acabar bem, que tínhamos de dar a volta à nossa relação e que ela tinha de procurar a ajuda de um psicólogo. Depois de muito me dizer que não queria, finalmente foi: meteram-na logo de baixa, estava no limiar de um burn out.”

Bruno não estaria muito melhor: até tinham passado a discutir menos, mas, de cada vez que o faziam, sentia-se tonto e deixava de conseguir respirar. “Comecei a ter ataques de pânico. Pedi-lhe que acalmasse e realmente ela acalmou. Estivémos de férias em Espanha, corremos o país todo os três e as coisas começaram a melhorar. Depois chegou outubro e eu, que já tinha começado a diminuir a minha atividade na cerveja, porque tinha noção de que me estava a dar cabo da vida, tive mesmo de ir fazer um evento. Desde julho que não fazia nenhum, os meus sócios não podiam, era a minha vez. Foram quatro dias. Os problemas voltaram todos. Foi aí que tomei a decisão e disse «já chega, acabou».”

Ao todo, Bruno e N. estiveram juntos quase oito anos. “Engrenámos na nossa relação com um certo objetivo e, durante o tempo em que tentámos atingi-lo, não olhámos para o passado e não resolvemos uma série de coisas que nos aconteceram pelo caminho, como a morte dos bebés. Quando a E. finalmente nasceu, quando alcançámos o nosso objetivo, acho que percebemos que até ali tínhamos vivido em piloto automático, que tínhamos deixado de ter um futuro”, analisa Bruno, nove meses depois da separação. “A nossa relação como casal foi completamente arruinada com a E.. Desde que ela nasceu perdemos toda a intimidade. A bebé estava sempre lá, no meio da nossa cama, entre nós. Tentei criar uma família, não ser como os meus pais, que são separados, mas acabei assim”, lamenta.

Catarina Mexia diz que situações como esta são mais comuns do que à partida se pensa e compara até o processo de distanciamento por que passaram Bruno e N. com o que ocorre com aqueles casais que todos julgam perfeitos mas que quando os filhos saem de casa se separam — justamente porque também eles se focaram ao longo de anos noutra coisa que não a própria relação.

“Muitas vezes quando existem dificuldades para engravidar, as pessoas ficam de tal forma focadas em ultrapassar esse obstáculo que não falam sobre as suas tristezas nem estão despertas para a tristeza do outro. Quando a criança nasce é como se fossem um balão a esvaziar, o objetivo está cumprido mas emocionalmente eles já não estão lá“, explica. “No caso dos pais exemplares e super focados nos filhos que se separam quando eles vão para a universidade o processo é o mesmo. O que é que sobra quando os filhos saem? Eles os dois. Que são estranhos. Não investiram na relação, não faziam nada juntos, só conversavam sobre o objetivo que tinham em comum.”

Agora que se separou, Bruno fica com a filha semana sim, semana não. Já acorda à noite, basta ouvi-la mexer-se — na cama e no quarto dela. Reconhece que podia ter estado mais presente, ter ajudado mais, mas também que entre ambos existem demasiadas diferenças, algumas irreconciliáveis. A forma de educar E. será uma delas: “Ela sempre foi muito condescendente com a miúda. Dá-lhe mais liberdade do que acho que devíamos dar e esse foi outro problema: nunca chegámos a acordo em relação à educação da E.. A N. nunca conseguiu perder o sentimento de que ela é muito especial. E, como eu lhe dizia, é. Mas é para nós e para a nossa família, para o resto do mundo ela é uma criança normal e, como tal, é assim que tem de ser educada”.

No final, diz que não mudaria “rigorosamente nada”. Nem o casamento, de que nunca foi apologista, e que aconteceu já o processo que os levaria à separação estava em curso: “Ela e a família recriminaram-me muito por isso, perguntaram-me porque é que casei para me separar um ano a seguir. Casei porque, para mim, fazia sentido. Tive muitas relações antes e nunca me fez sentido casar. A única pessoa com quem fez sentido foi com a N.”.

“Os homens continuam a viver as vidas deles de forma normal. Nós acordamos a pensar no que há para fazer e deitamo-nos a pensar no que não foi feito”

Quando soube que estava grávida, Magda Santos, 29 anos, teve medo de contar a novidade ao namorado, J., de 37. Viviam juntos em Matosinhos há cerca de um ano, ela digital marketeer numa empresa de turismo de luxo, ele guia turístico em bicicleta, mas ter um bebé não lhes fazia parte dos planos. Foi lavada em lágrimas, “no maior pânico”, que Magda anunciou que C., hoje com um ano e quatro meses, estava a caminho. J. surpreendeu-a, ficou contente, disse-lhe que ia correr tudo bem. Meia hora depois, encontrou-o na sala, em silêncio, de olhos fitos na parede vazia. Recorda-se do que ele lhe disse na altura, confessa ao Observador, como uma espécie de premonição: “A nossa vida acabou”.

Durante a gravidez, não houve problemas de maior — “Fui apaparicada, tratou-me muito bem” –, mas, a partir do momento em que C. nasceu, as coisas mudaram. A bebé ainda chorava todo o dia e toda a noite quando, aos três meses, o pai começou a passar temporadas de duas semanas seguidas fora de casa. “Era a época alta do turismo, durante sete meses foi assim. Não tenho suporte familiar, foi muito difícil”, recorda Magda, que ficou sozinha a tratar da filha.

No caso terá sido absolutamente necessário, por questões financeiras, mas talvez devesse ter sido mais bem conversado. De acordo com a psicóloga Catarina Mexia, um erro frequentemente cometido pelos pais e mães recentes é o de julgar que tudo pode continuar igual depois de nascer um bebé: “Ouço muitas vezes em consulta pessoas que dizem que não vão abdicar do seu sucesso profissional por causa dos filhos. Ou que querem continuar a sair à noite como antes, com os amigos. São pessoas que não compreendem o alcance da decisão que tomaram“.

Na verdade, não é por nascer um bebé que aquela promoção tem de ser recusada ou que nunca mais se poderá sair para dançar e beber um copo, decisões como essas passam é a ter de estar sujeitas a uma maior negociação (e alternância) entre o casal. “Quando nasce um filho cada um dos elementos do casal tem de se colocar em segundo plano. Ou pelo menos de reavaliar as suas prioridades, ajustar hábitos de vida e responsabilidades profissionais”, diz a especialista. “Dou o exemplo de um casal de amigos: na altura em que lhes nasceu o segundo filho, ele, que é médico, começou a fazer a especialidade, e ela abrandou. Depois, quando nasceu ao terceiro, fizeram ao contrário: ela teve a oportunidade de fazer o doutoramento e ele ficou mais dedicado à família.”

No caso de Magda e do namorado não aconteceu bem assim: quando regressava a casa, J. não compensava propriamente o tempo perdido. “Ele tem uma filha de 13 anos, tendo experiência com uma criança achei que fosse mais fácil ajudar com esta, mas parece que voltou à estaca zero. Ele é muito querido, é muito fofinho e, vendo de fora, realmente é um bom pai. Mas quando vamos ao fundo da questão, ser um bom pai não é só dar miminhos — ninguém come miminhos.”

Problema: ao nascimento da bebé, esse momento de stress para a vida em casal, juntou-se, entretanto, outro fator de desestabilização. J. passou a trabalhar apenas de forma esporádica, aos fins de semana, pelo que o de Magda se tornou o único salário fixo da família. “Sou eu que tenho de me lembrar se há uma creche para pagar, sou eu que tenho de saber se vai acabar o leite ou não, se as roupas servem, se há fraldas — e também sou eu quem tem de comprar e de pagar estas coisas todas; todas as responsabilidades com a criança recaem sobre mim. Se ele está em casa, eu espero que faça tudo aquilo que uma dona de casa faria — que arrume, que vá às compras, que vá buscar a bebé… Ele cozinha, mas, tirando isso, não faz nada. Acho que, na cabeça dele, isto ainda são tarefas de mulher”, enumera.

Os dados são de um estudo feito e divulgado este ano em Portugal: as mulheres com filhos menores e que vivem maritalmente são as que têm mais dificuldade em conciliar vida familiar, pessoal e profissional, passando em média 7 horas e 18 minutos por dia a trabalhar fora de casa e outras 6 horas e 12 minutos dentro dela. Um absurdo? Sim, mas apenas porque os homens não estão a fazer a parte deles, garante o estudo, que estima que faltam ainda cinco gerações até a divisão de tarefas ser igualitária em Portugal, e diz também Catarina Mexia. “O «problema» não foi a entrada da mulher no mundo do trabalho — isso já aconteceu há muitos anos –, o «problema» foi o acesso da mulher à carreira. Hoje as mulheres têm teoricamente as mesmas possibilidades de ascensão de carreira, pelo que têm de trabalhar o mesmo ou ainda mais do que os homens. Isso, infelizmente, continua a jogar ainda muito contra elas, a evolução social é sempre mais lenta do que a realidade das pessoas. Chegar a casa e ter de fazer o trabalho doméstico depois de um dia inteiro a trabalhar é muito pesado. E se há muitos homens que até já reconhecem esta situação, do ponto de vista prático o modelo de família ainda é muito o tradicional, o modelo do «eu ajudo a minha mulher». Não tem de ajudar nada, é uma parceria, o que tem de existir é uma divisão de tarefas.”

Inevitavelmente, as discussões entre Magda e J. começaram a acontecer dia sim, dia sim. A relação do casal caiu para mínimos inauditos: “No final do dia, quando estamos juntos, um quer dormir, outro ver uma série, outro olhar para o telemóvel. Acho que somos companheiros de casa — e daqueles que se dão mal. Tudo incomoda: a loiça que está mal lavada, a roupa que está espalhada… Entretanto, há uns meses que já nem dormimos juntos: ele passou a ir dormir para o quarto ao lado. Incomoda-me e tento falar sobre isso, mas ele diz sempre que eu estou a exagerar. Diz que está calor e que o quarto está abafado e que não há espaço para todos…”

Tendo em conta o cenário, o sexo já nem sequer é assunto. Se, num primeiro momento, foi Magda quem se retraiu — “Fiz episiotomia [corte feito na zona do períneo para ampliar o canal de parto] e tinha muitas dores, até aos nove meses dela foi muito difícil. Por isso e porque me fazia alguma confusão ser mãe e um ser sexual ao mesmo tempo” –, com a passagem do tempo e com o aumento do mal-estar entre o casal, também J. acabou por, aparentemente, se desinteressar — “Quando, finalmente, me passou, ficou ele hesitante. E não melhorou, até ao dia de hoje não melhorou. Ele diz que não é nada, que está indisposto… Sempre gostei muito de sexo com o meu namorado, era espetacular, mas até a esse nível o nascimento da nossa bebé nos afastou”.

Conversar. Por mais simplista que possa parecer, esse é um dos conselhos que a psicóloga Catarina Mexia dá a casais nestas circunstâncias — ou aos que queiram evitar chegar a tanto:  “É muito importante conversar com o coração, dizermos aquilo que queremos ou esperamos em vez de ficarmos zangados porque o outro não viu ou não se apercebeu. E mostrar apreciação pelo outro, não no sentido de gratidão, mas no de identificarmos as pequenas coisas que gostámos que ele tivesse feito”. Outro “clássico” que jamais deve ser esquecido: o beijo de despedida. “Mesmo quando há problemas e discussões, devia ser obrigatório. Não significa que já está tudo bem, o que estou a dizer ao outro é que, mesmo quando não está tudo bem e as coisas precisam de ser faladas e resolvidas, o que sinto por ti é suficiente para que eu não queira dormir ou sair sem te mostrar a importância que tens para mim e sem te garantir que esta relação é para continuar”, explica a especialista.

Há uns meses, pouco depois do primeiro aniversário de C., a situação tornou-se de tal forma insustentável que Magda e J. se separaram. Durante um mês, ficou completamente sozinha com a bebé: “Perdi a pouca ajuda que ele me dá, faz o jantar, às vezes dá o jantar à bebé, põe a bebé a dormir, mas, apesar de estar sobrecarregada, tinha paz de espírito. E não estava a remoer porque tinha estado a trabalhar e ainda tinha de ir arrumar ou tratar da casa, quando ele tinha passado o dia inteiro sem fazer nada”. Depois, fizeram as pazes e J. voltou para casa. Mas os problemas mantêm-se.

Queixa-se da pressão social, que continua a colocar todo o peso da organização familiar sobre as mulheres: “Os homens continuam a viver as vidas deles de forma normal. Nós acordamos a pensar no que há para fazer e deitamo-nos a pensar no que não foi feito. Tenho a sensação de que é geral, as minhas colegas de trabalho queixam-se do mesmo”.

Questionada sobre como vê o futuro da relação, hesita, diz que tem esperança, que a filha sentiu muito a ausência do pai e que talvez a solução passe por irem morar para o estrangeiro. “Se ganhássemos um bocadinho mais, podia ser que as coisas melhorassem. Mas também já pus a hipótese de que se ele é preguiçoso cá, vai ser preguiçoso lá fora também. A nossa vida nunca foi perfeita. Mas já foi muito melhor. Havia entusiasmo, viajávamos muito. Fui um bocadinho naïf, ele já tinha uma filha de 13 anos e a responsabilidade não estava lá na mesma. Contava a mim mesma a mentira de que era uma questão de maturidade. Acho que, no fundo, o que não existe é um investimento dele na família.”

As férias dos filhos de pais divorciados

Julho 29, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no Público de 25 de junho de 2019.

O que fazer quando, por alguma razão, a criança está longe de um progenitor mais tempo do que aquele que é capaz de compreender? Existem algumas formas de tentar minimizar o potencial impacto negativo que este distanciamento poderá ter na criança.

As férias escolares chegaram e, como em todos os anos por esta altura, temos um calvário que se repete. O calvário das férias dos filhos de pais separados.

A separação ou divórcio parental é (ou deveria ser) apenas entre os elementos do casal, e não entre pais e filhos. Entre pais e filhos não há divórcio. Assim, e partindo sempre do pressuposto que as crianças têm o direito a conviver regularmente com ambos os pais, os períodos de férias tendem a ser (e bem) igualmente repartidos com cada um deles. Mas atenção, porque nesta distribuição do tempo durante as férias e, particularmente agora, nas férias de Verão (mais extensas), há uma variável chave que deve ser tida em conta: a idade da criança.

Os períodos de tempo que a criança deverá passar com cada um dos pais devem ter em conta a sua idade e nível de desenvolvimento, e não apenas aquilo que dá mais jeito aos pais.

As crianças a partir dos dois ou três anos de idade têm uma noção de tempo que, na maioria das situações, não vai além do “hoje” e do “amanhã”. À medida que crescem, até aos cinco ou seis anos de idade, a sua noção de tempo aumenta um pouco mais, conseguindo já entender o que significa “hoje”, “amanhã”, “ontem” e “depois de amanhã”. Ainda recentemente uma criança de cinco anos me dizia que algo iria acontecer “duas vezes amanhã”, o que traduz bem a sua dificuldade em situar-se no tempo.

É a partir da idade escolar, de uma forma geral, que as crianças começam a interiorizar os conceitos de semana, fim-de-semana e mês. A escola e todas as rotinas a ela associadas ajudam as crianças neste tipo de aquisições.

Quando pensamos na divisão do tempo de férias de Verão com os pais, a noção de tempo daquela criança em concreto deve ser tida em conta. Ainda que estejamos a falar de um período que apenas acontece uma vez no ano, a regra base é simples: a criança não deve passar períodos de tempo que sejam muito mais longos do que aqueles que é capaz de compreender.

O que significa isto?

As crianças até aos três anos devem passar períodos de tempo mais curtos, que lhes permitam não estar mais do que três ou quatro dias seguidos sem estar com o outro progenitor.

As crianças em idade pré-escolar, com maior capacidade para lidar com as separações, já conseguem lidar com intervalos de tempo de cerca de uma semana, sem que a distância face ao outro progenitor seja geradora de stresse.

É a partir da idade escolar, de uma forma geral, que as crianças evidenciam um desenvolvimento cognitivo e emocional que lhes permite tolerar períodos de tempo mais longos, como uma quinzena.

E o que dizer dos adolescentes? Aqui, a nossa preocupação não se relaciona tanto com aspectos do seu desenvolvimento, mas sim com a necessidade, legítima, que sentem em estar com os amigos. Assim, será legítimo também ouvir o adolescente e tentar perceber de que forma a interacção com os seus pares poderá ser integrada nos períodos de férias escolares. Lembre-se que, para um adolescente, passar as férias todas com os pais e sem acesso aos amigos equivale a uma espécie de tortura.

E o que fazer quando, por alguma razão, esta regra não pode ser cumprida e a criança está longe de um progenitor mais tempo do que aquele que é capaz de compreender? Existem algumas formas de tentar minimizar o potencial impacto negativo que este distanciamento poderá ter na criança.

Uma imagem vale mais do que mil palavras

O Francisco tem um ano e meio de idade e nas férias irá estar uma semana com cada progenitor. Diariamente, faz uma videochamada com o progenitor que está longe. Mesmo que ainda não saiba falar muito bem, ouve a voz e vê a imagem, e a interacção é seguramente mais rica.

Torre de legos

A Inês tem três anos e vai estar uma semana com cada um dos pais. Como não tem ainda uma noção de tempo que lhe permita compreender o que isso significa, os pais arranjaram um jogo. No início de cada semana tem sete peças de lego espalhadas. Todas as noites, quando se deita, coloca uma peça em cima da outra. À medida que os dias vão passando, vai construindo uma torre. Ela sabe que quando a torre estiver completa será o dia de mudar para a casa do outro progenitor.

Um dia de convívio durante as férias

A Sara tem quatro anos de idade e tem o seu tempo de férias dividido por quinzenas. A meio de cada quinzena de férias com a mãe ela passa um dia inteiro com o pai. E vice-versa.

Caixa do tesouro

O Martim tem seis anos e tem o seu tempo dividido por quinzenas. Apesar de já ir para a escola este ano, ainda não consegue perceber muito bem o que são duas semanas seguidas. Então cada progenitor tem consigo uma caixa especial, que decorou previamente com ele, onde colocam pequenos objectos simbólicos durante o tempo em que estão longe. Uma flor de um jardim, uma concha da praia, um papel rabiscado com um desenho. Quando se reencontram, abrem juntos esta caixa e exploram cada objecto. Qual a mensagem que é transmitida? “Penso em ti mesmo quando estou longe de ti, nas mais pequenas coisas do dia-a-dia.”

Vamos tentar?

 

Psicóloga especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, Psicoterapia e Psicologia da Justiça; docente e investigadora no ISCTE-IUL

Quando os pais se separam, não deixam de ser “pai” e “mãe”

Junho 28, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Eva Delgado-Martins publicado no Público de 9 de junho de 2019.

O divórcio ou separação é o segundo acontecimento da vida dos filhos mais gerador de tensões difíceis de gerir.

A separação e o divórcio correspondem à assunção formal, por parte do casal, do fim do seu casamento ou união. O casamento ou união é uma estrutura social que evolui no tempo, baseado em rotinas e compromissos numerosos e complexos, sobretudo quando há filhos, que vão ter de ser substituídos depois da separação, através da negociação entre os pais. Estas negociações devem conduzir a um verdadeiro plano parental, escrito e assinado por ambos, que otimize a comunicação entre ambos, evite o desenvolvimento de conflitos posteriores e que, nos casos mais graves, possa ser um elemento positivo a utilizar em tribunal, por ocasião do acordo da regulação das responsabilidades parentais.

O divórcio ou separação é o segundo acontecimento da vida dos filhos mais gerador de tensões difíceis de gerir. Os filhos sofrem sempre quando há separação. Este sofrimento pode ser diminuído, se a separação for bem orientada, assegurando que as crianças vivem num clima de confiança, ao longo da separação/divórcio dos pais, favorecedor do seu equilíbrio emocional.

Quando os pais se divorciam, nem sempre têm a possibilidade de prever refletidamente que vão ser confrontados, no futuro imediato, com a necessidade de tomarem um grande número de decisões importantes que os afetarão a si e aos seus filhos.

Um envolvimento empenhado dos dois pais que se separam, garantindo uma boa relação de ambos com os filhos, caracterizada por um bom apoio emocional, uma comunicação frequente, clara e aberta e uma definição de papéis adequada é um importante fator protetor dos filhos na adaptação à separação parental (Tein & Sandler, 2011).

A coparentalidade e a relação dos pais depois da separação, embora apareçam mais associadas aos fatores de risco, são definidas na literatura como protetoras, quando há uma diminuição do conflito depois da separação e quando a relação entre os pais é de cooperação, consistência, apoio, divisão de responsabilidades e paz (Vélez, Wolchik, Tein & Sandler, 2011).

Tendo em conta os benefícios a longo prazo, a partilha dos cuidados, responsabilidades e convívio deve ser regra nos casos de pós-separação com crianças de todas as idades, desde a primeira infância e adolescência (Kruk, 2014).

A forma como os pais se relacionam um com o outro após a separação é crucial. Os filhos precisam que eles interajam de forma construtiva, vivam ou não na mesma casa. Os pais divorciados/separados têm a responsabilidade e o dever de contribuir autonomamente para a educação dos filhos, sem uma interferência mútua despropositada. Tanto um como outro são a família dos filhos, agora em duas casas, independentemente da forma como o tempo é dividido entre ambos. Para crescerem saudavelmente, os filhos devem sentir-se livres de amarem ambos os pais, sem conflitos de lealdade, sem medo de perderem um deles. Para os filhos, o divórcio/separação é sempre sentido como uma perda. A rutura do casal não deve resultar numa perda de parentalidade. É-se pai e mãe para toda a vida.

No divórcio/separação amigável, a separação ocorre por acordo entre os pais, o que não significa que ambos o desejem igualmente, ou que ambos concordem inicialmente com todas as condições da separação. Numa parentalidade cooperativa, os pais procuram isolar os conflitos conjugais ou interpessoais das suas funções parentais. Discutem planos para os filhos, procurando um apoio mútuo e esforço comum na partilha de responsabilidades parentais, bem como a disponibilidade física e emocional para satisfazerem as necessidades evidenciadas pelos filhos (Margolin et al.,2001). É fundamental que, apesar do di­vórcio/separação, ambos os pais continuem a assumir funções educativas e a participar nas diversas atividades do dia-a-dia dos seus filhos, promovendo desta forma o seu saudável desenvolvimento.

O divórcio/separação representa um momento de elevada exigência, em termos de adaptação social e psicológica dos diferentes elementos da família. A principal tarefa dos psicólogos mediadores é ajudar os pais a atuarem diretamente no processo de melhoria da qualidade da parentalidade, corresponsabilizando-os pela mudança desejada. A mediação é pedagógica e preventiva, porque ensina os pais não apenas a resolver os conflitos atuais, como a evitar os futuros. A mediação representa assim um mecanismo de transformação construtiva de conflitos na tentativa de encontrar meios e práticas alternativas de transformação construtiva de conflitos que promovam o diálogo e o envolvimento efetivo de ambos os pais para solucionarem/transformarem os seus conflitos, de maneira consensual, e realizarem mudanças positivas com ganhos mútuos para a reorganização.

A mediação familiar tem, frequentemente, a vantagem de promover um desenvolvimento positivo, de prevenção do agravamento do conflito. Através da mediação, é primordial alcançar uma transformação positiva da relação e a manutenção ou a restabelecimento dos laços de relação (Six, 2001).

A autora segue o novo acordo ortográfico

 

Semana da Criança e do Brincar – 27 maio a 1 junho em Faro

Maio 26, 2019 às 9:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Mais informações no link:

http://www.cm-faro.pt/pt/agenda/52413/semana-da-crianca-e-do-brincar.aspx?fbclid=IwAR1V4rJeEAhQJrPZacgDEuWPm0He6SRPLcKboGJsk_2e5xJwb-sVZNzImy0

Ação de sensibilização sobre “Educar para o divórcio”

Abril 3, 2019 às 9:00 am | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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mais informações no link:

“O impacto do divórcio no contexto escolar” 3 abril em Lisboa

Março 27, 2019 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações no link:

http://red-apple.pt/workshops-redapple/item/211-conversa_mf

Carta aberta aos pais divorciados em conflito

Fevereiro 19, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no DN Life de 18 de janeiro de 2019.

Caros pais separados ou divorciados, e que estão em conflito, esta carta é para vocês.

Não interessa a vossa idade, profissão ou estatuto socioeconómico. Não interessa se vivem numa barraca, numa casinha modesta ou numa mansão que vale milhões, no centro da capital. Não interessa também o volume da vossa conta bancária, o carro que conduzem ou o colégio que os vossos filhos frequentam. Se têm empregada externa ou interna, se não têm empregada nenhuma, se viajam muito ou pouco, nada disso realmente importa.

Aquilo que realmente importa é o que estão a fazer, muitos de vocês, aos vossos filhos.

Podia tecer aqui inúmeras considerações sobre o impacto negativo que as vossas discussões têm no bem-estar das crianças. Explicar o quão danoso é expor as crianças ao conflito, utilizá-las como arma de arremesso numa guerra que é vossa, e não delas, ou torná-las mensageiros entre os pais. Podia ainda explicar os sentimentos de tristeza e ansiedade que as crianças experienciam, o medo, a desconfiança, os conflitos de lealdade. Já para não falar das noites mal dormidas destas crianças, povoadas de insónias e receios, bem como das dificuldades em concentrarem-se na escola, por terem a cabeça tão cheia de pensamentos maus.

Mas porque explicar tudo isto tem, para tantos pais, impacto zero, na medida em que continuam centrados em si próprios e no conflito, ignorando totalmente o bem-estar das crianças, iremos abordar o assunto de outra forma.

Vamos utilizar um paralelismo com os maus tratos físicos, que são, efectivamente, mais fáceis de identificar. A única diferença é que os maus tratos físicos deixam marcas visíveis.

Deixo o resto à vossa consideração.

Dizer mal do pai ou da mãe na presença da criança equivale a dar-lhe um murro na cara.

Proibir a criança de levar as suas coisas de uma casa para a outra, alegando que são da «casa da mãe» ou da «casa do pai», equivale a apertar-lhe o pescoço.

Gerar discussões nos momentos festivos da criança, como a sua festa de aniversário, na presença dos amigos, equivale a dar-lhe pontapés e socos na barriga.

Dizer à criança que o pai ou mãe não gosta dela equivale a queimar-lhe o peito com um cigarro.

Proibir a criança de falar ou estar com o pai ou a mãe equivale a bater-lhe com a fivela do cinto nas costas e nas pernas.

Perguntar à criança se gosta mais da mãe ou do pai equivale a chicoteá-la com fios descarnados.

Gritar, berrar, ofender ou bater no outro, na presença da criança, equivale a derramar por cima dela uma frigideira com óleo a ferver.

Por fim, expor tudo isto nas redes sociais ou na televisão, equivale a prostituir a criança.

Sobre os jornalistas que publicitam e promovem esta violência, na senda de um aumento de audiências, pois equivale ao crime de lenocínio.

 

 

III Jornadas de Direito da Família e das Crianças – 20 e 21 de fevereiro de lisboa

Fevereiro 10, 2019 às 5:53 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Workshop “Somos Família” com Rute Agulhas, 29 de Janeiro em Lisboa

Janeiro 26, 2019 às 6:48 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Workshop “Somos Família” (3 horas)

Lisboa: 29 de Janeiro

A separação e o divórcio são hoje uma realidade incontornável, com uma incidência muito significativa e que se traduz em alterações importantes na estrutura e organização da família. Estas alterações exigem ao sistema familiar a capacidade de reorganizar-se e ajustar-se a esta nova configuração familiar, com redefinição de fronteiras, papéis e limites.

Foi a pensar nestas dificuldades que foi desenvolvido o Manual de Boas Práticas para Pais Divorciados. Não pretende ser um manual de instruções, pois cada família tem a sua própria dinâmica. Não existem receitas que se adequem a todas as famílias. Existem, no entanto, diversas práticas que a literatura tem demonstrado como tendo um impacto mais positivo no bem-estar da família, em geral, e no das crianças, em particular.

Neste workshop irão ser abordados os seguintes temas: o processo de comunicação, o facto de a(s) criança(s) passar(em) a ter duas casas, a escola e as actividades, a gestão das férias e das datas festivas, e o tribunal.

Para além disso será apresentado o jogo de tabuleiro o qual visa facilitar a expressão emocional, cognitiva e a gestão comportamental, por forma a prevenir eventuais dificuldades de ajustamento das crianças.

Mais informações no link:

http://red-apple.pt/workshops-redapple/item/208-somos_familia

Guarda partilhada ou guerra partilhada?

Novembro 29, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de publicado no Público de 18 de novembro de 2018.

Ana Gabriela Silva

Se a separação for inevitável é preciso nunca esquecer que o superior interesse da criança não é satisfazer-lhe os desejos, mas satisfazer-lhe os direitos. E o direito das crianças e jovens é ter pais que não colocam os seus desejos e guerras acima dos seus filhos.

Em Agosto de 2014, o professor Daniel Sampaio, que muito admiro, escrevia também aqui no jornal PÚBLICO um artigo sobre a guarda partilhada e a importância desta medida cada vez mais utilizada pelos tribunais de família como reguladora do poder paternal em caso de separação ou divórcio. Na verdade, em geral os pais estão cada vez mais participativos na educação dos filhos e por conseguinte mais competentes na possibilidade de cuidar, orientar e cooperar naquela que era a missão consagrada das mães até aos anos 80.

Na generalidade dos casos, temos crianças que vivem desde a infância em “casa da mãe/casa do pai” com relativa harmonia e observamos novos modelos familiares e famílias reconstruídas “os meus os teus e os nossos”, que funcionam com entreajuda e negociação das diferenças que existem, afinal, entre todos nós.

No entanto, não posso ignorar a dor que continua ainda a chegar com tanta frequência às consultas de psicologia. São constantes os pedidos de apoio psicológico para crianças com pais em processo de divórcio, em especial por inadaptação da criança à medida de guarda partilhada. Importa dizer que a guarda partilhada é na base a responsabilidade parental atribuída a ambos os progenitores e não essencialmente a residência alternada.

Quando um casal se separa, efectivamente separa-se a conjugalidade da parentalidade. E, na verdade, muitos casamentos morrem porque esta diferença já não existia durante a vida da família. Mal nascem os filhos, o casal perde importância. Especialmente no sul da Europa, observa-se ainda uma certa confusão de poderes e papéis, com alianças extremas entre mães e filhos e pais à procura do seu lugar – heranças da nossa história e religião. Quando a separação se dá, muitas mães ainda têm dificuldade de encontrar outros papéis significativos na sua vida e muitos pais tentam viver uma proximidade que não foi suficiente até então.

Vemos então pais e mães num afã de competição e crianças e adolescentes que não compreendem, nem poderão gerir em meia dúzia de meses, a guerra instalada pela sua posse. Se acrescentarmos a este campo de batalha, pensões de alimentos, falta de limites e regras por excesso de trabalho e culpas, diálogo a menos e telemóveis a mais, um novo parceiro é visto como um autêntico vilão.

De repente, pede-se aos técnicos que façam em meses no acompanhamento aos mais novos o milagre de neutralizar o que durante anos os pais não conseguiram pôr a funcionar. Estes acompanhamentos acabam por se revelar terapias familiares, ou mesmo terapias de casal que deveriam ter acontecido quando a relação ainda continha esperança.

Deixo, assim, uma reflexão: é imprescindível que as famílias comecem desde o nascimento dos filhos a olhar para a ordem das coisas. Primeiro, vem o equilíbrio do casal, depois, o desejo de ter filhos e a responsabilidade partilhada de os orientar. Para a boa evolução desta tão desafiante missão há que usar a comunicação para saber quem é o outro, para respeitar diferenças e desenvolver afectos. Para dar tempo ao tempo e abrandar o ritmo. E se, ainda assim, a separação for inevitável é preciso nunca esquecer que o superior interesse da criança não é satisfazer-lhe os desejos, mas satisfazer-lhe os direitos. E o direito das crianças e jovens é ter pais que não colocam os seus desejos e guerras acima dos seus filhos.

Seria por isso muito importante que os tribunais de família, perante o inevitável, promovessem mais a mediação familiar. E que a educação parental passasse a fazer parte do percurso familiar como é a ida ao pediatra para a consulta de rotina. Precisamos de pais que estejam disponíveis para se escutarem e partilharem dúvidas. É com estas famílias que estamos prontos e desejosos de trabalhar. Antes ou depois do divórcio, mas sempre em cooperação.

Psicóloga Clínica no CADIn – Neurodesenvolvimento e Inclusão

 

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