COVID – 19 : Recomendações para pais divorciados ou separados: responsabilidade parentais. Ordem dos Psicólogos

Maio 20, 2020 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , ,

Descarregar o documento no link:

https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/covid_19_pais_divorciados_separados.pdf?fbclid=IwAR3SOa9ISMjIZeMZycqOylUfOxuyYDpe6qi3i2kfdyWIdknEYulg9P9QUzo

“Estamos no meio de uma pandemia e não sei nada do meu filho”

Abril 28, 2020 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , ,

Texto de Eva Delgado-Martins publicado no Público de 19 de abril de 2020.

No seio de várias situações que o Governo regulou nesta crise, teve o cuidado de decidir que os regimes de responsabilidades parentais são para manter.

No período difícil que atravessamos, todos experimentamos a dificuldade do afastamento da nossa família e amigos. Estar com família é um bom apaziguador desta dificuldade – mas nem todos temos essa oportunidade. Há pais e mães que estão impossibilitados, pelo outro pai ou mãe, de acompanhar o dia a dia dos seus filhos. Hoje damos voz a estes cidadãos e comentamos a frustrante situação que nos testemunham.

Como se sente uma mãe/pai que não sabe que medida de prevenção está o outro a tomar? São várias as reações que nos reportam. Podem presumir, sem certezas: “Presumo que eles estejam em casa, mas não tenho informação sobre medidas que estejam a tomar” (Miguel). Podem, para além do afastamento físico, serem culpabilizados por quererem manter a residência alternada, como está regulado através do acordo das responsabilidades parentais: “Não fui informado de quaisquer precauções, tirando o isolamento social… Quanto às precauções, a mãe considera que impedi-lo de vir faz parte do isolamento social e disse-me que era irresponsável eu ter sugerido que se mantivesse o regime passando a alternância para 15 dias” (João).

Quanto tempo pode, uma mãe/pai, nestas situações não ver os filhos? No caso do João, esse tempo está próximo de um mês, quando a sua expectativa e dos filhos era de 15 dias: “Não o vejo desde o último dia de aulas, foi dia 13, sexta-feira, não o vejo há 24 dias” (João).

O que pode significar para uma mãe/pai não ver os filhos e não poder comunicar ou comunicar parcamente com eles? Para a Sara “tem sido parca a comunicação e magoa (…)”. O que se acentua com a incerteza de quando poderá voltar a estar com a filha: “(…) Não sei quando consigo vê-la.” Não obstante a angústia criada, ainda há iniciativa para alterar a situação, mas as tentativas são frequentemente frustradas: “Desde que ele saiu, temos tentado manter o contacto diário, mas os únicos contactos que conseguimos foram mensagens de texto, que são, em geral, mensagens de texto curtas e sem informação sobre como ele está” (João).

O que faz (e não deve) um pai/mãe decidindo sozinho, unilateral e prepotentemente, sobre a vida dos filhos? Pode, por exemplo, falsamente usar o pretexto da situação de crise para retirar aos filhos a felicidade da companhia do outro pai/mãe.  “Ora, no meu caso, em que as responsabilidades correntes estão entregues à mãe, e as importantes a ambos, tendo eu direitos de visita todas as quartas-feiras e de sexta-feira a segunda-feira de 15 em 15 dias, disponibilizei-me a dividir o tempo com o nosso filho na sequência do fecho da escola, sendo que a mãe respondeu com a suspensão unilateral das visitas, com base na ativação do estado de emergência” (Miguel). Pode também desafiar a decisão do tribunal, sem consequências imediatas, quando tiranamente altera o respetivo acórdão: “O que tínhamos acordado a mãe mudou sem o meu acordo” (João), sequestrando literalmente os filhos. “O meu filho está retido em casa da mãe com aviso dela de que não sai, enquanto isto não acabar” (João).

O que sentem um pai/mãe em que o outro utiliza esta pandemia como pretexto para voltar a guerras antigas que estavam resolvidas pelo tribunal para voltar a atacá-lo? Sentem que tudo parece retornar ao início e que fica em causa uma solução justa e equilibrada conquistada ao fim de muito tempo: “Neste momento a nossa filha está retida em casa do pai. Submeteu um requerimento ao tribunal que assim deve permanecer com ele em quarentena profilática porque estava doente (confirmei via telefone que não tinha nada)! Afirma que a mãe não tem competências. Repetiu todos os argumentos (já provados e discutidos) de um processo que dura há mais de um ano em que tínhamos atingido a ‘guarda partilhada’” (Sara).

Além dos pais/mães a quem é subtraída a convivência com os filhos, as principais vítimas desta chocante situação são os filhos, usados como arma de arremesso. Sendo recomendável que, na circunstância desta pandemia, se procure uma redução das transições dos filhos da casa da mãe para casa do pai ou vice-versa, como forma de diminuir a probabilidade de transmissão do vírus, não deve nunca, em caso algum, um pai/mãe utilizar esta crise assustadora para autoritariamente se apoderar dos filhos. Este abuso acentua o desespero e o sentimento de incapacidade de acompanhamento das medidas de saúde dos filhos.

É importante que os pais decidam em sintonia e que os acordos extraordinários sobre circunstanciais alterações à regulação do exercício das responsabilidades parentais sejam assumidos e progressivamente avaliados, em função da alteração das circunstâncias.

No seio de várias situações que o Governo regulou nesta crise, teve o cuidado de decidir que os regimes de responsabilidades parentais são para manter, apelando assim à responsabilização e parceria entre os pais separados ou divorciados.

Mas infelizmente, tal como alguns mães/pais não ficam em casa para garantir uma redução do contágio por covid-19 e melhorar as condições de saúde física dos seus concidadãos, alguns pais/mães aproveitam a crise para voltar ou ter comportamentos incorretos, alienadores, colocando em risco a saúde psicológica dos seus filhos, sobrepondo o seu autoritarismo arbitrário à autoridade refletida do Governo, da Direcção-Geral de Saúde, da Organização Mundial de Saúde, e à soberania dos tribunais. A saúde dos filhos é uma responsabilidade de todos os pais/mães, que devem unir-se para os ajudar a serem mais felizes, porque, livres do contágio vírus, podem conviver ativa e presencialmente com ambos.

Carta aos pais separados ou divorciados durante a pandemia

Abril 2, 2020 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , ,

Artigo de opinião de publicado no Público de 23 de março de 2020.

A forma como os pais separados ou divorciados se relacionarem um com o outro, durante esta crise, será crucial para o bem-estar dos filhos num momento muito crítico para eles.

No contexto de pandemia covid-19, a Direção-Geral da Saúde (DGS) e o Ministério da Saúde, informaram no dia 14 de Março que “entrámos numa fase de crescimento exponencial da epidemia” e “é muito importante que todos colaborem nas medidas de contenção” para se tentar travar a propagação da doença. A DGS refere que “o isolamento social é uma prática para ser levada a sério”. Desde o dia 16 de março 2020, e pelo menos até 9 abril (altura que o Governo volta a avaliar a situação), todas as escolas vão estar fechadas e os nossos filhos vão ficar em casa. Através da Resolução do Conselho de Ministros, no dia 18 de março de 2020, foi decretado o estado de emergência em Portugal, para prevenir e conter a propagação do vírus.

“Estabelecer que, durante o período em que durar o estado de emergência, os cidadãos só podem circular na via pública para algum dos seguintes propósitos (…) g) Deslocações por outras razões familiares imperativas, designadamente o cumprimento de partilha de responsabilidades parentais, conforme determinada por acordo entre os titulares das mesmas ou pelo tribunal competente” (Resolução do Conselho de Ministros no dia 18 de março de 2020).

Existem muitas informações, opiniões e conselhos a circular, por vezes contraditórios, que em vez de tranquilizarem os pais provocam-lhes uma enorme insegurança. É fundamental que os pais estejam bem informados para poderem falar e explicar aos filhos o que se está a passar, mas para isso devem previamente colher informações seguras, de fontes credíveis, como é o caso dos sítios da Direção Geral de Saúde (www.dgs.pt) e da Organização Mundial de Saúde (www.who.int).

Esta situação de crise representa um momento de elevada exigência, em termos de adaptação social e psicológica dos diferentes elementos da família. A forma como os pais separados ou divorciados se relacionarem um com o outro, durante esta crise, será crucial para o bem-estar dos filhos num momento muito crítico para eles.

É fundamental que, embora afastados pela necessidade de isolamento social, ambos os pais continuem a assumir as suas funções educativas e a participar nas diversas atividades do dia-a-dia dos seus filhos, promovendo, desta forma, a sua segurança, assegurando-lhes que tudo correrá bem neste período.

A coparentalidade e o envolvimento empenhado dos pais nestas situações de risco, devem ser exercidas em prol da sua aproximação para uma tomada conjunta de decisões e sua cooperação, que assegurem a sua consistência, apoio recíproco, e a divisão de responsabilidades, de forma a e serem os primeiros protetores dos filhos que partilham.Muitos filhos, nesta fase, estão com medos a que os pais devem estar atentos. Este sofrimento pode ser diminuído, se as medidas forem tomadas em sintonia entre os pais, se forem bem orientadas, assegurando que, ao longo desta crise, as crianças viverão num clima de confiança, favorecedor do seu equilíbrio emocional. Neste momento, é essencial que os pais divorciados ou separados deixem de lado todos os desacordos e pensem na saúde e proteção dos filhos, dos familiares e dos amigos. A forma como os pais agem condiciona não só a forma como as crianças vão lidar com as situações de imediato, mas também a forma como ao longo da vida lidarão com outras semelhantes.

Na minha experiência de consulta em psicologia, tenho acompanhado inúmeras situações em que as mães e os pais separados ou divorciados não têm a oportunidade de partilhar informações e decisões inerentes às suas responsabilidades parentais sobre os seus filhos, isso cria verdadeiras situações de desespero e de reforço do sentimento de incapacidade de acompanhamento das medidas de saúde dos filhos por parte outros pais: “Estou muito angustiado… não sei nada dos meus filhos” é uma expressão que escutamos frequentemente.

Também tive já a oportunidade de acompanhar uma situação em que o pai e a mãe separados decidiram, nesta situação de crise, voltar a juntar-se na mesma casa para criar melhores condições de se apoiar e poderem estar ambos junto dos filhos. Recebi de um deles a informação: “Estamos em minha casa, estamos a apoiar-nos”. Noutra situação, em total concordância de ambos, ficou um dos pais com os filhos, e o outro numa situação mais afastada, mas de apoio e comunicação constante e securizante: “Decidimos em conjunto que neste momento era melhor ficarem com o pai, porque eu continuo a trabalhar no hospital.”

O dia a dia dos filhos, mesmo separados do pai/mãe, carece de acompanhamento de ambos. O pai/mãe que não estiver com os filhos deverá ser informado diariamente de como o outro está a gerir as rotinas dos filhos, bem como o primeiro deve aceitar as ajudas que necessita do outro (por exemplo, levar comida, medicamentos) para evitar que os pais que tenham de permanecer em casa sejam obrigados a sair muitas vezes.

Acabando os condicionalismos do período decretado de isolamento social com um dos pais, os filhos deveriam passar estar na casa do outro pai/mãe, retomando rapidamente as rotinas de partilha anteriores. Neste caso, os filhos podem ser compensados com um período maior de permanência com o pai/mãe com quem estiveram privados de conviver.

Os filhos que estão separados dos pais podem combinar diariamente fazer videochamada, para se verem, conversarem e partilharem rotinas do seu dia-a-dia ou telefonemas.

Em acordo e cooperação sobre a organização da vida dos seus filhos durante o estado de emergência, os pais separados ou divorciados estarão a dar um contributo inestimável para a prevenção da propagação do vírus e para o bem-estar dos seus filhos.

Psicóloga e terapeuta familiar

Pais em guerra, quem precisa de psicólogo não é o vosso filho!

Março 3, 2020 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , ,

Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no DN Life de 23 de feverero de 2020.

Muitos pais entendem que os filhos precisam de apoio psicológico e, bem, procuram ajuda nesse sentido. E, com elevada frequência, chegam até nós crianças com sintomatologia diversa. Alterações nos padrões de sono ou de alimentação, medos, isolamento, ansiedade, regressão no desenvolvimento, dificuldades de atenção e concentração… e muitos outros indicadores de que algo não está bem. Inicia-se então um processo de avaliação que deve envolver a criança e os seus adultos significativos, permitindo compreender o seu modo de funcionamento nos vários contextos de vida, como a família e a escola, por exemplo.

Assim, não raras vezes, deparamo-nos com crianças que evidenciam um conjunto de sinais e sintomas que mais não são do que um reflexo da disfuncionalidade do seu meio envolvente.

Sabemos que as crianças são muito permeáveis ao seu ambiente e a tudo aquilo que se passa em seu redor. E reagem, de formas diversas, quando os contextos à sua volta apresentam algum tipo de perturbação. Assim, não raras vezes, deparamo-nos com crianças que evidenciam um conjunto de sinais e sintomas que mais não são do que um reflexo da disfuncionalidade do seu meio envolvente. E, muito frequentemente, um reflexo do conflito parental.

Os pais em guerra ficam cegos e surdos, mas não mudos. Centrados em si mesmos e no conflito, disparam em todas as direcções sem dó nem piedade, totalmente indiferentes ao impacto negativo que tal comportamento tem nos filhos. Ignoram os diversos sinais de alerta das crianças, permitindo que estes evoluam num processo de escalada que tende a agravar-se e a rigidificar-se. E usam as crianças como armas e escudos, coisificando quem deveria ser, acima de tudo, protegido e amado.

Para estes pais em guerra que procuram o psicólogo com a ânsia de um diagnóstico para a criança – e, já agora, que permita culpar o outro – é preciso dizer de forma clara que o problema não está centrado na criança. De nada adianta levarem a criança ao psicólogo para que seja “tratada”, quando o problema não é a criança. Não, o problema são eles, os pais. Os que gritam, insultam, batem e denigrem o outro progenitor perante a criança. Os que elaboram esquemas maquiavélicos para prejudicar o outro progenitor, impedem convívios e fazem a criança sentir-se rejeitada e abandonada. Os que dizem amar a criança e querer protegê-la e acabam, afinal, por ser os principais agentes maltratantes.

Sabemos que o divórcio é uma crise gigantesca e que nem todos os pais possuem os recursos (internos e externos) necessários para lidar com a mesma. Pois bem, peçam ajuda. Se possível, ainda na fase pré-divórcio para que, em conjunto, possa pensar-se na melhor forma de gerir esta alteração na estrutura familiar. A comunicação à criança, a definição dos contactos, a reorganização da vida quotidiana, dos papeis e dos limites. Peçam ajuda para resolver as divergências e os conflitos, procurando soluções que beneficiem, acima de tudo, a criança. Peçam também ajuda individual para cada um dos pais, se preciso for. Porque pedir ajuda não é sinal de fraqueza ou de doença mental, mas antes um sinal de que se coloca o bem estar de todos no centro da equação e pretende avançar-se de uma forma reparadora e constructiva.

Estamos separados e amamos os nossos filhos

Fevereiro 7, 2020 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , ,

Artigo de opnião de Vera Ramalho publicado no Público de 16 de janeiro de 2020.

Pais que são adequados na definição da guarda da criança, nas práticas parentais, que têm menos conflitos durante o divórcio e à frente da criança, podem amenizar o impacto do divórcio na criança.

Na literatura, o divórcio ou a separação dos pais é descrito como um evento que causa mal-estar psicológico às famílias, em concreto, porque implica mudanças e ajustamentos na vida dos adultos (pais e outros familiares) e das crianças. Sobretudo quando há adequação dos adultos, os efeitos negativos na adaptação da criança são maioritariamente transitórios.

O impacto do divórcio na criança depende de vários factores, entre eles o temperamento e a idade da criança; a psicopatologia dos pais, com especial relevância para a depressão; uma coparentalidade conflituosa, incluindo a intensidade e frequência do conflito interparental antes e após o divórcio.

No caso de desajustamento, a magnitude e a duração dos problemas que a criança pode exibir decorrem de várias circunstâncias, sendo que entre aquelas que podem causar maior impacto negativo está a forma como os próprios adultos lidam com o divórcio e como a transpõem para a criança. Pais que são adequados na definição da guarda da criança, nas práticas parentais, que têm menos conflitos durante o divórcio e à frente da criança, podem amenizar o impacto do divórcio na criança.

Em prol da adaptação da criança ao divórcio/separação, ficam aqui algumas sugestões para os pais e a família:

  • Dar prioridade ao bem-estar da criança e às suas necessidades separando a conjugalidade da parentalidade e abrindo mão da eventual vontade de contrariar o ex-cônjuge;
  • Respeitar o outro promovendo a comunicação com o pai/mãe da criança quanto às necessidades dos filhos;
  • Promover uma parentalidade cooperativa. A qualidade da parentalidade é um dos melhores preditores do bem-estar social e emocional da criança. Assim, a partilha de um estilo parental democrático, baseado na coparentalidade cooperativa, marcada pelo envolvimento de ambos os pais na educação, cuidados e decisões sobre a vida dos filhos, é decisiva no ajustamento da criança ao divórcio;
  • Separar a relação conjugal da relação coparental (a relação dos adultos é só com eles, não cabe à criança saber coisas relacionadas com o fracasso da relação dos pais ou se a mãe/o pai acha que o seu ex-parceiro a/o deixou porque tem outra pessoa;
  • Reduzir ao máximo o conflito: O conflito entre pais é considerado o factor de risco com maior impacto no ajustamento da criança à separação. O conflito pode ser manifestado pela raiva, pela hostilidade, pelas dificuldades de cooperação nos cuidados e na comunicação com os filhos, pela linguagem agressiva, pela agressão física, ou outras situações nefastas e cria stress, tristeza e insegurança na criança. Além disso, o conflito entre os pais traduz-se, na maioria das vezes, em disciplina permissiva e inconsistente, instabilidade emocional, impulsividade nas práticas parentais e menor responsabilidade e disponibilidade emocional para a criança;
  • Não envolver a criança na disputa; ela não é um juiz ou conselheiro matrimonial. Quando as crianças são envolvidas nos conflitos parentais, acontece a deterioração das relações pais-filhos. O impacto na criança é muito negativo, causando stress e desadaptação. Quanto mais a criança percebe que os conflitos entre os pais são desadequados, maior o risco para ter problemas de ajustamento e de bem-estar. Também está comprovado que ambientes pós-divórcio altamente conflituosos podem acarretar mais problemas de externalização (comportamentos de oposição, agressividade, hostilidade, etc.) na criança;
  • Respeitar o direito da criança de gostar do pai, da mãe e dos restantes membros da família;
  • Não perguntar à criança se prefere estar com o pai ou com a mãe, pois isto só causa tensão à criança;
  • Mostrar interesse pelo que a criança possa estar a sentir e disponibilidade para responder a perguntas e esclarecer dúvidas relacionadas com receios acerca do divórcio;
  • Não perguntar o que acontece em casa do outro progenitor;
  • Manter ao máximo hábitos e rotinas diárias;
  • Não dizer mal do outro progenitor ou da sua família à criança nem permitir que a restante rede familiar o faça;
  • Não usar a criança como forma de apoio pessoal, mas procurar ajuda noutros adultos;
  • Se os pais estiverem juntos numa festa ou em qualquer outro momento festivo da criança, não devem discutir ou entrar em conflito à frente da criança e dos seus amigos;
  • Não expor a vida da criança (mesmo quando fala de si) nas redes sociais. A probabilidade da criança ouvir comentários desagradáveis é enorme e o dano que isto pode provocar nela também;
  • Deixar a criança levar as suas roupas, brinquedos e outros pertences para a casa do pai/mãe. São dela.
  • Não usar a criança como mensageiro para falar com o outro progenitor. Este tipo de envolvimento da criança é totalmente desaconselhado e causa ansiedade, tristeza e mágoa. Os adultos devem agir como tal e comunicar entre si pelo bem-estar dos seus filhos.

A residência alternada é a melhor opção para todas as crianças?

Fevereiro 3, 2020 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , ,

Artigo de opinião de António Castanho publicado no Diário de Notícias de 24 de janeiro de 2020.

A grande maioria das crianças quer um relacionamento com os pais depois da separação, e a maioria dos pais quer e pretende manter um relacionamento pleno com os filhos/as.

Nesta fase da discussão, já não existe espaço para questões como a vinculação, se a mãe ou o pai tem ou não mais ou menos capacidade para cuidar de uma criança ou se a criança tem direito à presença dos pais na sua vida. A ciência já respondeu a isto e não deve existir lugar a dúvidas.

Após o divorcio/separação dos pais, a família da criança continua a existir e a residência única é um modelo por vezes desadequado e sempre que possível devem ser dadas às crianças as condições necessárias para possam passar tempo de qualidade com mãe e pai depois da separação ou divórcio, e sempre que possível através de um modelo justo para ambos os progenitores e para a criança. Os estudos comprovam isso.

Existem, contudo, neste mundo ideal, alguns problemas de partida que se podem acentuar se o Estado assumir a condição de regulador único do Superior Interesse da Criança partindo do princípio que o melhor para todas as crianças e famílias é aplicar sempre a mesma bitola e decretar para todos os casos, a residência alternada e a guarda partilhada.

Com o pressuposto, de que a residência alternada é o melhor para todas as crianças, esquecemo-nos que pode ser a melhor ou a pior de todas as opções. É a melhor opção quando os pais se centram na criança e cooperam e poderá ser pior das opções quando existe um conflito que coloca no meio de uma guerra e que a criança funciona como arma de arremesso.

A minha experiência profissional permite-me assegurar que:

– Os pais devem continuar a decidir, como sempre o fizeram, sem a intervenção do tribunal ou de outras instituições do Estado.

– Pais que não estão em conflito resolvem, frequentemente, a guarda das crianças sem recorrer ao tribunal.

– Em regra, os pais não necessitam que o Estado assuma o seu papel, decretando medidas como a residência alternada e quando o fazem é por existe um conflito.

– Em casos em que o conflito é de baixa intensidade, o papel regulador do Tribunal é pontual e resolve a situação com intervenção mínima.

– Mais importante que o tempo passado com os filhos, é a qualidade desse tempo.

– Pais em conflito esquecem-se das crianças tornando-se estas um meio para atingir um fim e que estas são completamente ignoradas e tornam-se, tristemente, objetos divididos ao meio.

– Agressores/as controladores/as, mesmo sem registo de violência, utilizam as crianças como uma extensão do seu controlo sobre o outro utilizando o sistema para o perpetuar.

– A residência alternada requer grande coordenação logística por parte dos progenitores (seja a 50%, 40% ou 30%) e muitos pais vivem a dezenas ou centenas de quilómetros e/ou trabalham por turnos, sem rede de suporte.

– A residência alternada em casos de conflito grave é, e quem trabalha com crianças sabe, a pior das opções.

No entanto, para qualquer opção, incluindo a guarda partilhada ou residência alternada, é importante perceber se estão garantidas:

  1. as necessidades físicas, emocionais, sociais e educacionais, incluindo a necessidade de estabilidade e segurança, tendo sempre em conta a idade e o estágio de desenvolvimento da criança;
  2. a disposição de cada progenitor/cuidador para apoiar o desenvolvimento e a manutenção do relacionamento da criança com o outro;
  3. o histórico de cuidados e os planos propostos para o cuidado e educação, levando em consideração as necessidades físicas, emocionais, sociais e educacionais da criança;
  4. as opiniões e preferências da criança sempre, que possível;
  5. a natureza, força e estabilidade do relacionamento entre a criança e cada um dos progenitores/cuidadores e outras pessoas significativas na vida da criança;
  6. a capacidade de cada progenitor/cuidador de comunicar e cooperar em questões que afetam a criança;
  7. o impacto de qualquer violência, abuso ou intimidação, independentemente da criança ter sido diretamente exposta ou ter experimentado a situação;
  8. a natureza da violência, abuso, intimidação, frequência e há quanto tempo aconteceu;
  9. os danos causados à criança pela violência, abuso ou intimidação;
  10. A opção de residência/guarda exigirá cooperação entre os pais/cuidadores e avaliação se esta cooperação ameaça a segurança da criança, do outro progenitor ou outra pessoa.

Aqui chegados, reafirmo que defendo a residência alternada sempre que se confirme como o melhor, assegurando o Superior Interesse da Criança e não de outros interesses e que a residência alternada é uma boa opção, mas existem outras igualmente boas. Para que o Superior Interesse da Criança seja garantido, a criança e a família devem ser vistas como únicas e não incluídas em tabelas decisórias.

Os/as decisores/as, nos casos em que são chamados a intervir, têm de dedicar energia, atenção, sensibilidade que cada criança merece, não arriscando medidas tabelares para todos os casos.

Não devemos esquecer que os pais já se articulam e decidem o melhor para os seus filhos e quando tal não acontece o regime legal já prevê e aplica a medida considerada a melhor ao caso concreto, cada vez mais, a residência alternada.

Assim, a residência alternada pode constituir a melhor opção, mas pode também constituir um limbo para a criança, se for aplicada forma tabelar ignorando a especificidade de cada caso e a singularidade de cada criança.

Psicólogo Clinico/Psicoterapeuta (ex-OPC e ex-Comissário numa CPCJ)

Crianças e divórcio – um olhar para além do tribunal

Janeiro 8, 2020 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , ,

Texto de Eva-Delgado Martins publicado no Público de 5 de janeiro de 2020.

Quando a escola se transforma num campo de batalha de pais separados – o que fazer?

Dezembro 5, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , ,

Texto de Eva Delgado-Martins publicado no Público de 1 de dezembro de 2019.

Um quinto dos casais separa-se nos primeiros 12 meses de vida do bebé

Novembro 7, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , ,

Notícia e imagem do DN Life de 27 de outubro de 2019.

Falta de comunicação, vida sexual em declínio e parceiro pouco envolvido nos cuidados do bebé foram os principais motivos identificados num estudo recente feito no Reino Unido. Por muito desejado que um bebé seja, o nascimento de um filho coloca sempre o casal à prova. E muitos não resistem.

Joana Capucho

Quando Afonso nasceu, a relação de Carolina e Tiago já não estava bem. “Existiam alguns problemas, que tomaram proporções gigantescas com o nascimento do bebé”, recorda a mãe. Aos 23 anos, depararam-se com uma gravidez não planeada e nenhum dos dois estava “minimamente preparado emocional e psicologicamente para a chegada de um bebé” e para “todas as mudanças” que isso implicaria. “Começámos a discutir mais, a ser menos tolerantes um para outro. Eu sentia-me mais empenhada, mais madura e acabou por se abrir um fosso gigante entre nós, que nunca mais foi tapado”, conta Carolina, agora com 35 anos.

Separaram-se quando Afonso tinha apenas seis meses. Para a mãe, o maior desafio era conciliar todos os papéis: “Tinha de tomar conta do bebé, ter tempo para mim, ter tempo e disponibilidade para a relação, para as lides domésticas e ainda para trabalhar”. Tornou-se “muito difícil dar conta do recado. Algo tinha inevitavelmente de ficar para trás e no meu caso foi a relação”. Carolina diz que “um bebé exige muito dos pais”, mas “no caso da mulher ainda mais”. Por um lado, “toda a atenção é canalizada para o bebé, depois a mulher está completamente alterada emocionalmente, com comportamentos que ela própria não reconhece em si, e isso leva muitas vezes a um afastamento do casal”.

Na opinião de Carolina, “se não existir uma relação saudável baseada no respeito, compreensão, confiança plena, entreajuda e muito poder de encaixe, é muito difícil sobreviver aos primeiros meses”. Uma perceção que é confirmada pela ciência. De acordo com um estudo feito no Reino Unido, com cerca de dois mil pais, um quinto dos casais termina as relações nos primeiros 12 meses após o nascimento de um bebé.

Falta de comunicação e declínio da vida sexual

A mesma pesquisa, promovida pelo ChannelMum.com e pelo The Baby Show, refere que mais de seis em cada dez pais não estavam preparados para o impacto que a criança ia ter na relação e um terço dos casais assumiu ter problemas sérios nos meses seguintes ao nascimento de um filho. Citado pelo The Independent, o estudo refere que 30% dos participantes que terminaram as relações apontaram a “falta de comunicação” como o principal motivo e outros 30% justificaram o fim da relação com o declínio da vida sexual. Números que, de acordo com as especialistas ouvidas pelo DN, não devem andar muito longe da realidade portuguesa.

“De uma forma geral, os primeiros dois anos de vida da criança são os mais críticos e desafiantes para a conjugalidade”, diz a psicóloga Filipa Jardim da Silva, destacando que “a taxa de separações e divórcios é muito elevada” nesse período. “O nascimento de uma criança é uma mudança, e uma mudança constitui uma crise numa dinâmica familiar e conjugal”, explica.

Os primeiros dois anos de vida da criança são os mais críticos e desafiantes para a conjugalidade.

Com a chegada de um novo elemento, há um convite “à redefinição de papéis e de rotinas, levantando-se problemas que até então não existiam”. Multiplicam-se as noites sem dormir, fraldas para trocar, roupa para lavar, choro, birras. Filipa Jardim da Silva reconhece que “a privação de sono é um fator muito relevante” neste processo. Tal como “as alterações hormonais no pós-parto, que têm uma interferência muito preponderante” na relação. De acordo com o estudo britânico, o facto de o parceiro estar pouco envolvido nos cuidados do bebé também causa danos irreparáveis nas relações.

A família alargada, nomeadamente avós e tios, também “contribui para muitos atritos entre o casal“. “Os familiares próximos acabam por querer fazer parte da educação da criança, opinam e interferem”, pelo que é muito importante que o casal defina “de forma consistente o que é o espaço familiar e onde entram outros”.

Se existirem problemas de comunicação, a probabilidade de o casal se separar aumenta exponencialmente. “Ambos devem convidar-se a falar sobre o que estão a pensar, a sentir, necessidades, limites. A comunicação deve ser assertiva, objetiva e eficaz. Não deve partir do princípio que o outro sabe o que está a sentir, ou que é óbvio”. Até porque “é um período de aprendizagem, de adaptação” – é uma experiência nova para ambos.

Segundo Filipa Jardim da Silva, os problemas estão muitas vezes relacionados com a gestão de expectativas, nomeadamente quando os casais esperam que os filhos os unam ainda mais ou que ajudem a fazer as pazes em fases mais desafiantes. “Sem dúvida que um filho é um elo de ligação entre um homem e uma mulher, sem dúvida que é um legado que deixam e que pode ser fruto de um amor maior entre os dois. Mas, ao mesmo tempo, não é um salva relações, não é um elemento que garantidamente vá unir duas pessoas”. E essa responsabilidade é dada ao bebé mesmo antes de nascer. “Isso pode acontecer ou não. Mesmo que aconteça, não é de forma mágica e linear”.

Sem dúvida que um filho é um elo de ligação entre um homem e uma mulher, sem dúvida que é um legado que deixam e que pode ser fruto de um amor maior entre os dois. Mas, ao mesmo tempo, não é um salva relações, não é um elemento que garantidamente vá unir duas pessoas.

Modificação dos papéis

“Os filhos são ótimos para os casais, mas o aparecimento de um filho é um dos momentos em que o casal é posto à prova”, reconhece Catarina Mexia. Segundo a psicóloga e terapeuta familiar, “há uma necessidade de adaptação muito grande”. Numa família tradicional, é a passagem de um modelo de duas pessoas para um de três. “Por muito desejada que a criança tenha sido, obrigada a um investimento num terceiro elemento e a um desinvestimento na relação a dois”.

No caso da mulher, a modificação do papel – para mãe – “é mais evidente” e esta está “fisiologicamente mais preparada para responder às necessidades do bebé”. Por outro lado, o papel do homem na relação é posto em causa: “No primeiro ano de vida, a mulher está completamente apaixonada pelo seu bebé. O homem tem um grande competidor”. Uma realidade à qual ambos os membros do casal têm de estar atentos. Ao mesmo tempo, com o passar do tempo surgem frases como “estou cansada, vai lá tu”, que “podem ser entendidas como guerras de poder”.

Se o casal não se constitui de uma “forma boa, para estar atento às necessidades de cada elemento, para conversar de forma consistente e não de ataque”, é natural que surjam mais complicações na relação.

Os casais que já tinham dificuldades em “estabelecer um ‘nós’ consistente e rico são aqueles que vão ter mais problemas com a chegada de um bebé”. Segundo a terapeuta familiar, “são aqueles que vão à consulta e queixam-se que ele/a sai muito com os amigos, não participa nas tarefas de casa ou continua muito ligado à família”. No fundo, explica, “são aqueles que mantêm uma postura mais individualista”.

Do cansaço à diminuição das relações sexuais

A falta de tempo e disponibilidade para o sexo é um dos motivos que conduz ao término das relações. “A questão sexual põe-se porque existe o cansaço. Quando estamos cansados, o sexo entra na última das prioridades. E a isto junta-se o facto de algumas crianças terem problemas de sono, de aparecimento dos dentes e outros”, diz Catarina Mexia. Mas este não será um fator determinante. “A questão sexual costuma estar presente, mas não aparece isolada como sendo a gota de água. Muitas vezes, já existiam alterações na frequência e no desejo de um ou de outro”.

Quando estamos cansados, o sexo entra na última das prioridades. E a isto junta-se o facto de algumas crianças terem problemas de sono.

No decorrer da gravidez, diz, a mulher sofre mudanças importantes ao nível da imagem corporal, o que não está relacionado apenas com o aumento do peso. “Não é só o que vemos no espelho. É o que sentimos e o que ficou registado. A adaptação às alterações no corpo leva algum tempo. E isso pode complicar a vida sexual, porque a mulher fica menos disponível para a sexualidade”, esclarece a psicóloga. Além disso, sublinha, essa vontade “tem muito de psicológico”. “Quando há tensão constante, agudiza mais a falta de disponibilidade sexual”.

Para que a parte sexual não venha a ser um problema, Filipa Jardim da Silva diz que o “autocuidado” é essencial: “Cuidar da mulher e do homem que já existiam antes de ser pai e mãe, cuidar do sistema que se cria e da terceira entidade – o nós”. Para isso, “é fundamental que haja tempo a dois”. “E é importante que seja definido em agenda. Se ficar à espera do momento ideal, não vai acontecer”. Pode ser um dia por semana ou de 15 em 15 dias para jantar fora, estar com amigos ou para outra atividade que quebre a rotina.

Quando já existem problemas

Um quarto dos entrevistados admitiu já ter problemas antes da chegada do bebé, que pioraram nos primeiros meses após o nascimento. Quando já existem atritos ou conflitos, Filipa Jardim diz podem ocorrer vários cenários: “Ou o nascimento da criança agudiza os desencontros e conflitos e o casal fica ainda mais separado; ou o casal coloca o máximo foco no papel da parentalidade e, durante algum tempo, mais do que homem e mulher, funcionam como pai e mãe; ou passam a ter uma motivação maior para ultrapassar o que os separa e resolver as diferenças”.

Como a percentagem de relações que não resiste ao nascimento de um bebé é significativa, Filipa Jardim da Silva conta que os pediatras começam a trazer este assunto para as consultas periódicas, perguntando aos pais como estão enquanto casal, como está a comunicação”. Até porque “a consistência entre o casal vai ser fundamental para o respeito pelas regras e a estabilidade emocional da criança”.

Presunção de inocência e protecção da criança “não são incompatíveis”

Outubro 13, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , ,

Notícia do Público de 7 de outubro de 2019.

Página seguinte »


Entries e comentários feeds.