Workshop “O Impacto da Violência Doméstica nas Crianças e Jovens”, 18 de abril de 2018 auditório da União de Freguesias Laranjeiro/Feijó

Abril 8, 2018 às 7:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , ,

mais informações:

Anúncios

Filhos da violência

Fevereiro 19, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: ,

Texto do http://expresso.sapo.pt/ de 28 de janeiro de 2018.

Carolina Reis (texto), Alex Gozblau (ilustração)

Alexandra e Inês sentiram o peso das mãos dos pais sem que eles lhes tenham tocado. Houve uma parte de Cláudia e de Rogério que morreu no dia em que perderam as mães. Pedro sente-se hoje protegido numa casa-abrigo. Como eles há mais de 14 mil crianças e jovens em Portugal na mesma situação. São testemunhas da violência dos pais sobre as mães .

A noite parecia durar a vida toda. Sentados na cama, Alexandra* e os dois irmãos agarravam-se uns aos outros como se o facto de estarem juntos os pudesse proteger. Aos 9, 7 e 5 anos, não sabiam dar um nome ao barulho que ouviam no quarto ao lado. Lá dentro, o pai — “o homem”, como Alexandra o trata — gritava cada vez mais alto. A mãe chorava cada vez mais alto. E, um dia, com os gritos vieram também murros, empurrões, socos. “A noite parecia uma coisa sem fim. Era um terror que parecia nunca acabar. Pensava que de manhã as coisas acabavam, mas o amanhã nunca mais vinha”, recorda Alexandra, agora mulher adulta, como se estivesse naquele quarto, a ouvir aquela violência, agarrada aos irmãos, em cima da cama. Passaram 41 anos desde que assistiu às primeiras tareias e insultos do pai contra a mãe e é como se fosse hoje.

Agora, sabe dar-lhe um nome: violência doméstica. Sabe que existe em milhares de lares portugueses, que mata mulheres e deixa órfãs crianças. Os dados mais recentes, de 2016, indicam que estavam sinalizadas, pela Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens, 14.575 crianças e jovens por terem sido expostos a situações de violência doméstica. Deste total, 5880 casos transitaram do ano anterior, 1375 eram processos reabertos e 7320 instaurados naquele ano. A Comissão sinalizou ainda 218 por maus-tratos físicos em contexto de violência doméstica, 116 transitaram de 2015, 19 eram casos reabertos e 83 novos processos. São muitas casas onde as noites pareciam durar a vida toda.

Inês morou numa dessas casas. “O pai batia na mãe e eu ficava escondida atrás da porta a ouvir com medo.” Aos 9 anos — e ao contrário de Inês — ainda não sabe que o som da força das mãos do pai no corpo da mãe a há de acompanhar para a vida. Espera que passe rápido. Que o pesadelo chegue ao fim quando o “pai for preso” e ela e a mãe “forem para uma casa só para as duas”. É demasiado cedo para absorver tanta dor. “Não consegues fazer uma leitura do que está a acontecer. Nem tens estrutura para fazer algum tipo de julgamento”, recorda Alexandra.

Na casa-abrigo onde Inês e a mãe sonham com a vida que há de vir, a menina voltou a brincar. “Esconde a tristeza de ter sido o pai o responsável pela dor que sente”, conta a mãe, esperançosa que a filha apague as piores memórias da infância. Inês viu o pai bater na mãe muitas vezes. Outras ouviu-o. Agora estão salvo, mesmo assim ainda há momentos em que se lembra e acorda assustada. Ou está na escola, a ouvir a matéria, e lembra-se. Ou no regresso a casa tem medo que o pai a esteja a seguir. Como se o presente estivesse sempre em risco de ser um regresso ao passado.

Volta e meia, Alexandra continua a voltar àquelas noites eternas, que parecem durar uma vida. Por momentos, volta a viver o mesmo medo, o mesmo terror, a mesma solidão. E pensa nos que ainda estão nesse lugar de medo, terror e solidão. “Estas crianças vivem em grande sofrimento. Não têm mecanismos para reverter o que vivenciaram. O seu mundo vai-se influenciando por aquilo que experienciámos. Correm o risco de permanecer no ciclo de violência, quer como vítimas quer como agressores”, diz Margarida Medina Martins, fundadora e vice-presidente da Associação de Mulheres Contra a Violência (AMCV).

Algumas destas crianças — cerca de dois terços — chegam a casas-abrigo acompanhadas pelas mães. Perdem o pai, tornando-se órfãs de um pai vivo que agrediu. E, algumas delas, perdem também a mãe. Perdem para sempre um pedaço de si, a inocência. Vivem todas um sofrimento que deveria ser proibido por lei. Tão certo como a violência que não se atenua, é a dor que irão sentir para sempre.

Alexandra sempre sentiu que o pai era a figura autoritária em casa. Era ele que decidia o que faziam, onde iam de férias, se podiam ou não ir ver os jogos do Benfica ou dormir em casa da avó. “O pai não estava presente, no entanto nós sabíamos que era ele que mandava.” Uma autoridade exercida em crescendo. Um dia essa autoridade ganhou forma de gritos. E depois o pai começou a bater na mãe. “Era uma tensão, um terror no dia a dia. À noite, lutava para não adormecer, para ficar vigilante. Mas ao mesmo tempo tinha medo, se ele entrasse pela porta também podia bater em mim”, recorda.

Sendo a mais velha dos três, calhava-lhe o lugar de proteger a mãe e os mais pequenos. E um dia — ainda hoje não consegue explicar como — estava ela entre a mãe e a pistola que o pai lhe apontava. “Estávamos os três no quarto e percebi que ele tinha uma arma. Quando cheguei, estava a minha mãe encolhida deitada na cama e ele apontava-lhe uma pistola.” O pai gritava ‘olha o que tu me fazes fazer, eu dou cabo da minha vida’. A mãe chorava, sem certezas de que continuaria viva. À volta, os vizinhos do prédio que todos os dias ouviam os gritos e som da pancada não se manifestavam. Alexandra e os irmãos pensavam que aquela sorte lhes batia apenas a eles. “Ninguém fala sobre isto. Não percebia porque é que aquilo acontecia ali. Não sei explicar porque é que nunca falei com ninguém. Mas o que é que eu podia fazer?!”

Todos os dias, em crescendo, gestos, atitudes e sinais que ela não conseguia descortinar. Sem pausas ou momentos de fuga. E ela, pequenina, a tentar evitar o que acontecia todas as noites. A ter sempre boas notas para não criar discussões, a comer tudo para não criar conflitos, a portar-se bem para o pai não ter o mínimo por onde começar a gritar com a mãe. Como se a culpa fosse dela. “Tentava fazer tudo para que não houvesse discussão.” Sem sucesso. Depressa os dias se transformavam em noites. E as noites voltavam a durar a vida toda. E as crianças — agarradas umas às outras a ouvir a pancada do pai na mãe — esperavam ansiosas que o amanhã chegasse. Mas o amanhã “era uma coisa” que nunca mais vinha.

Os dias nasceram com a mesma violência durante mais quatro anos, com o pai dentro de casa, outros nove com ele a viver fora mas a controlar tudo o que se passava. A mãe de Alexandra foi ao fundo e levou muitos anos a reerguer-se. Foi sobrevivendo aos poucos, com a ajuda da filha a fazer de mãe. E com sorte. Com muita sorte que a arma não tenha disparado, que a tareia não a tenha matado, que a depressão não a tenha levado a acabar ela própria com a vida.

Maria da Luz não teve a mesma sorte. Sucumbiu às facadas do marido em maio de 2004. Nessa manhã, tornou-se uma das quase 500 mulheres mortas às mãos dos maridos a partir desse ano e até 2017. Morreu à frente da filha mais nova. Cláudia, então com 12 anos, nunca se há de esquecer de a ver deitada no chão, envolta numa poça de sangue. De se meter à frente, de atirar cadeiras ao padrasto para que ele parasse. Das facas a cortarem o corpo da mãe. Do assassino ter ficado parado a olhar quando a ajuda chegou. A noite — em que tudo começou — durará a vida inteira dentro de Cláudia. “Tinha ido dormir a casa de uma amiga e a minha mãe apareceu a chorar. Até aí, nunca tinha assistido a nada violento do meu padrasto com ela”, recorda.

Dormiram fora de casa e estiveram protegidas até o dia nascer. Contra a vontade dos outros, mas com vontade de manter o pequeno negócio, Maria da Luz insistiu em voltar a casa e ir trabalhar no pequeno estabelecimento de que era dona. Cláudia acompanhou-a, apesar de lhe dizer para não ir. “Ela tinha ficado com o trespasse e queria manter o negócio, pois tinha dívidas para pagar.” Lá dentro — escondido — esperava-as o assassino. “Estava dentro de uma espécie de dispensa, quando pediu para a minha mãe se sentar ao lado dele. A princípio ela não queria. Estava ao lado dele, quando ele tirou duas facas e começou a atacá-la.”

Na rua pedonal onde ficava a loja, ninguém entrou para ajudar, só quando a mãe “já estava no chão”, e Cláudia tinha levado uma facada. Teve a certeza, na hora, que a mãe estava morta. Perdeu a esperança ao mesmo tempo que perdeu a mãe. Um vazio enorme, o mundo a desabar à volta e ela em choque a lembrar-se de como a mãe lhe dizia que o diploma é que não podia faltar. “Depois de ser socorrida, levaram-me para outro hospital, para um psicólogo me dizer aquilo que eu já sabia: que a minha mãe tinha morrido.”

Miúda rebelde na escola, habituada a andar “na palhaçada”, entrou em choque quando ouviu a notícia que já sabia. “Lembro-me de dizer e agora como é que eu vou estudar?!”

O Estado deu-lhe uma pensão de 71 euros e entregou-a à irmã mais velha, a “primeira pessoa que apareceu”. E o nome de Cláudia engrossou outras estatísticas, é uma das órfãs da violência doméstica. Só de janeiro a 20 de novembro de 2017, os dados do Observatório de Mulheres Assassinadas da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR) indicam que foram 45 os órfãos.

Juntam-se a milhares como Alexandra, cuja sorte ditou que o seu nome não fosse adicionado à estatística. Carregam a mesma marca. Têm medos e receios que não se podem imaginar. E mais coragem do que parecem. São vítimas diretas da violência. “O meu pai nunca me bateu, mas é claro que me agrediu. Também é meu agressor”, frisa Alexandra. As vidas de Alexandra, Inês e Cláudia seguem todas a partir do dia em que viram o primeiro sinal de abuso.

“Como é que uns se salvam e outros não? Não existe determinismo. O que era a normalidade perde-se. Vai depender muito do que vier a seguir, da forma como se vai fazer o luto, das características pessoais. Precisam sempre de apoio”, sublinha Elisabete Brasil, responsável pelo Observatório de Mulheres Assassinadas da UMAR.

Uma investigação de doutoramento recentemente divulgada conclui que os filhos das vítimas de violência doméstica chumbam cinco vezes mais que as outras crianças. Miguel Rodrigues, comissário e chefe da esquadra de Loures, analisou os anos letivos de 2003/2004 a 2014/2015 e concluiu que estas crianças e jovens têm uma retenção de 56,3%, quase quatro vezes superior à dos outros estudantes (10,5%). A maioria dos chumbos (87%) aconteceu depois de um episódio de violência doméstica.

Ameaçar com a morte 
para salvar a vida

Há poucos estudos centrados nos filhos das vítimas de violência doméstica. Não tem estado nele o enfoque de todos os planos de combate e de prevenção à violência doméstica. Quem com estas crianças e jovens trabalha sabe que o impacto do que viveram assume várias formas. “Muitas destas crianças chegam a casas-abrigo a precisar de apoio terapêutico. Algumas fazem xixi com uma idade em que já não era suposto”, diz Margarida Medina Martins.

Alexandra e Cláudia nunca chumbaram ou fizeram xixi na cama. Alexandra usou o medo para deixar de ter medo dele. “Não é que não tenha medo, mas nunca mais tive medo de nada como aquele tipo de medo, tão profundo.” Interiorizou a dependência financeira da mãe pelo pai, que a usava como (mais) uma forma de controlo, para ser sempre uma mulher independente. Cláudia “sufocou” muitas vezes enquanto crescia. Já desconfiou muito de tudo e de todos. Já teve problemas em deixar-se conhecer. “É uma fragilidade muito grande.” Há ano e meio que vive com o namorado uma segunda vida. A morte da mãe faz parte de um percurso que aprendeu a aceitar. Não tem medo dos homens, mas protegeu-se mais ao longo da vida. Analisava muito as pessoas à minha volta,e de uma discussão simples extravasava para uma discussão gigante. “Houve muitas falhas no meu ‘processo’. Não houve vontade de perceberem onde me estavam a meter.”

Para Daniel Cotrim, psicólogo da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), o foco deve agora centrar-se nos filhos da vítimas de violência doméstica que até aqui foram dependendo da boa vontade dos técnicos que os acolheram. “Muitas vezes, são jovens que acreditam nos mitos da violência doméstica, que o poder é do homem. São desconfiados, aprenderam a construir uma carapaça. Mas também há muitos que levam as mães a sair de casa e a procurar abrigos, a pedir ajuda. Ameaçam que se vão embora ou que se matam e é essa a pedra de toque para a mulher sair.”

A mãe de Rogério nunca saiu de casa. Talvez porque ele fosse demasiado pequeno para ter coragem de lhe pedir. Apanhou até cair morta no chão e ser encontrada pelo filho. Aos 8 anos tornava-se órfão de mãe e de pai vivo, autor confesso do crime. “O meu pai também morreu nesse dia.” Recorda, em silêncio, inúmeras vezes esse dia. É hoje pai de dois rapazes, marido de uma mulher a quem “nunca passou pela cabeça” bater. Tem medo que a memória o atraiçoe — e há coisas de que não se lembra, como a roupa que vestia ou que fazia antes de entrar na cozinha e ver o corpo da mãe estendido no chão. Mas recorda-se de como era natural o pai chegar a casa bêbado e bater na mãe. E como ele via — umas vezes escondido, outras não — e percebia que havia qualquer coisa que não estava bem. Sabia apenas que estas eram noites intermináveis, que pareciam nunca ter fim.

A violência manifestou os primeiros sinais na escola. Rogério chumbou uma vez na escola primária, mas os professores pensaram que o desinteresse se devia à falta de recursos económicos. Não percebiam que não era desinteresse, era sofrimento. “Na altura, ainda se dizia entre marido e mulher não se mete a colher. E que em casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão.”

Era mais agitado do que os outros, mais agressivo, não fazia as três refeições por dia. Chegava à escola e passava o tempo da aula a atirar papelinhos aos colegas, nos intervalos se não começava a briga entrava nela. Ficava de castigo nos tempos livres ou encostado à parede durante as aulas.

E, um dia, Rogério não chegou tarde às aulas, como era costume. Naquele dia não foi. Estava em casa, sentado no chão da cozinha, agarrado aos joelhos. A mãe jazia ali ao lado. “Levei muito tempo a falar sobre isto.” Foi morar com os avós maternos depois de enterrar a mãe, mas não deixou de ter contacto com o pai. “A minha avó levava-me a vê-lo na cadeia, dizia que era meu pai e que tinha o direito de me ver.” Rogério nunca perguntou se era um direito imposto pela Justiça ou se era um direito herdado pela sociedade.

Em casa, entre ele e os avós, pais enlutados de uma filha que morreu muito cedo, havia um vazio. “Estivemos muito tempo sem nos vermos e depois, de repente, a filha deles morreu e eu fui viver com eles.” Avós à moda antiga, devastados pela tragédia, criaram Rogério com a austeridade de antigamente. Na escola, a criança revoltava-se. “Assim que cheguei ao preparatório, ia à escola mas não ia às aulas. Fazia tudo aquilo que me diziam em casa para não fazer, como fumar. Era um escape. Achava que se o meu pai me tinha tirado a minha mãe, se o meu avô me batia com o cinto, então eu podia fazer tudo.”

Chumbou mais duas vezes, comprovando a teoria da tese de Miguel Rodrigues. Experimentou “todas as drogas” antes de fazer 18 anos. Envolveu-se em brigas cada vez mais violentas. Fazia bullying a outros colegas, roubava-lhes o dinheiro do almoço e esperava, no fim das aulas, os que se queixavam. Os professores perderam a paciência, a avó não sabia lidar com ele e o avô nunca teve uma expressão de carinho.

E na escola nunca perceberam o que estava por detrás daquelas atitudes. “O Estado deveria fazer uma coisa que não tem feito, e que não sabe fazer. Não são propostas, nem campanhas, tem de haver uma política nacional em que todas as crianças e jovens que estão em risco fiquem sinalizados”, defende Margarida Medina Martins.

Nessa política nacional integrada, a escola e a saúde deveriam ocupar um papel central para detetar, precocemente, casos de risco. “Não basta apoiar socioeconomicamente as famílias. É preciso dotá-las de outras ferramentas, que passam por ter um relacionamento com as crianças mais construtivo. A saúde tem um papel primordial: vê as crianças, vê muitas vezes o corpo das crianças, na vacinação, por exemplo. E as escolas têm um contacto privilegiado, muito antes de as crianças darem sinais de que estão em risco. Mas para isso tem de estar a criança no centro de atividades”, continua a responsável da AMCV.

Quando chegou ao 9º ano, depressa a escola se encarregou de enviar Rogério para um curso técnico-profissional, daqueles onde estão todos os outros miúdos que chumbam. “Há crianças que se mutilam porque a dor interna que sentem é tão grande que tem de haver uma dor física que seja superior. É complexo perceber o que aconteceu. Também entram em quadros depressivos. É preciso que o Estado efetive uma resposta para estas pessoas. O luto não se faz em dois ou três dias”, sublinha Elisabete Brasil.

Destruição total da família

Falta ir além da boa vontade. À Comissão de Proteção das Vítimas de Crimes chegam, todos anos, muitos pedidos de indemnização de filhos de mulheres mortas. Sempre que o assassino não tem meios de reparar a família da vítima e desde que a família não seja rica, o Estado pode atribuir uma indemnização até 34.860 mil euros.

“É esse o valor da maior indemnização que já demos. A qualquer vítima, o Estado não pode dar mais do que isto. Estas indemnizações só são atribuídas depois do julgamento terminar, quando fica provado que o agressor não tem meios para indemnizar as vítimas. Porém, se ficarem numa situação de carência pode-lhes ser adiantada uma pensão, como já aconteceu”, explica Carlos Anjos, presidente da Comissão.

A maioria dos pedidos é feita em nome de crianças e jovens cujas mães foram mortas pelos maridos ou companheiros. “A média das indemnizações atribuídas fica entre os 20 e 25 mil euros, e são muitos os casos em que é dado o valor máximo. Há sempre o risco de estas vítimas não saberem que têm direito, de os advogados não os avisarem”, continua Carlos Anjos.

Cláudia e Rogério não faziam ideia. Ela, quando foi morar sozinha, numa casa de porteira, lavava as escadas do prédio, trabalhava numa loja e continuou a estudar. Ele emigrou assim que acabou o curso de hotelaria e sentiu que tinha de se afastar da velha realidade. Ela teve duas consultas de psicologia ao longo da vida. Ele foi a uma, mas a avó não teve dinheiro para mais. “É preciso trabalhar seriamente o envolvimento da comunidade e da família nos planos de cidadania e igualdade, que passe a ser tema dos CV escolares”, defende Daniel Cotrim.
Não é que exista dinheiro que pague, mas também aí as crianças ficam desamparadas. “Passam-nos casos com irmãos que são separados, uns vão viver com o tio, outros com o avô. Há outros casos em que há um corte radical com a família do pai. É a destruição total da família”, sublinha Carlos Anjos.

Já não existe o silêncio que existia quando Alexandra e os irmãos se encolhiam em cima da cama, a ouvir o pai bater na mãe. Mas ainda há quem defenda que a culpa é da vítima, como fez em outubro do ano passado um juiz do Tribunal da Relação do Porto. “O adultério da mulher é um gravíssimo atentado à honra e dignidade do homem. Sociedades existem em que a mulher adúltera é alvo de lapidação até à morte. Na Bíblia, podemos ler que a mulher adúltera deve ser punida com a morte”, escreveu o juiz desembargador Joaquim Neto de Moura na sentença. O magistrado, e a colega que com ele assina o despacho e que admitiu tê-lo feito sem ler, são agora alvo de um processo disciplinar. Ou a juíza do julgamento de Manuel Maria Carrilho, com a magistrada a desvalorizar as queixas de Bárbara Guimarães por esta ser “uma mulher destemida e dona da sua vontade”. Considerou Joana Ferrer que tal indicava que não era “plausível que na sequência das agressões tenha continuado com o marido em vez de se proteger a si e aos filhos”. Bárbara Guimarães — e o Ministério Público numa rara atitude — chegaram a pedir o afastamento da juíza, mas o Tribunal da Relação entendeu mantê-la.

Não têm faltado alertas para o tema. O Estado continua a elaborar planos e programas de combate à violência doméstica. Têm sido feitas campanhas, promovidas sessões de esclarecimento em escolas pelo país. As associações que trabalham com as vítimas abriram e gerem casas-abrigo, centros de acolhimento, fazem cartazes com números garrafais a incentivar as mulheres a não terem medo, saírem de casa e denunciarem o agressor. Como aquele que Pedro, 16 anos, viu afixado numa das paredes da escola. O cartaz era sobre a violência no namoro — vinha na sequência de uma sessão de esclarecimento que contou “com pessoas famosas”.

Ele viu-o, copiou o número para o telemóvel e deu-o à mãe. “Devia ter cinco anos quando vi o meu pai, irritado, a agarrar numa garrafa na cozinha e preparar-se para atirá-la à minha mãe.” Não atirou. Só que “mal o vinho lhe sobe à cabeça”, Pedro já sabia o que se seguia. “Vivíamos num ciclo que não parava. Estávamos bem só os três [Pedro, a mãe e o irmão], mas quando pai entrava em casa tínhamos medo. Já sabíamos o que ia acontecer.” Na pequena vila no interior do Norte do país onde viviam, não havia quem o pai não conhecesse. A mãe, num misto de medo e vergonha, estava disposta a aguentar até o filho mais novo fazer 18 anos. Faltavam cinco quando Pedro lhe deu o número que tirou do cartaz. Ela pensou e acabou por tomar a iniciativa.

A resposta veio em fúria e a família não teve outra solução senão procurar refúgio numa casa-abrigo. “Primeiro era difícil irmo-nos queixar às autoridades. Depois não nos conseguiam proteger.” Tal como na maioria dos casos, foram as vítimas a ter de sair de casa. Pedro deixou a escola e os amigos para trás. No local onde vivem, e que o pai não sabe onde fica, há muitas mães com filhos, num ambiente que à primeira vista parece caótico.

Para Pedro o caos é diferente. Eram noites que pareciam durar a vida toda. “Quando o meu pai começava a bater na minha mãe parecia que nunca mais ia terminar.” Fechava os olhos com força, muita força, como se essa força fizesse a violência passar mais depressa. Mas não tinha esse feito.

E no dia seguinte, a noite voltava a parecer durar a vida toda. “Só queria ir para a escola e ficar lá o tempo todo.” O mesmo escape de Alexandra, vítima do mesmo crime 40 anos antes. “Os fins de semana eram um horror. Na escola havia normalidade. Mas aos fins de semana estás sempre a pensar naquilo. Só queria era ir para a escola”, recorda.

Pedro faz questão de dizer que quer ser testemunha em tribunal. A mãe explica através de um livro ao irmão o que é um tribunal, a justiça, a violência. Miguel, uma criança com ar triste, quer ser polícia quando for grande.

Ir a tribunal é uma forma de mostrar que já não tem medo. Pedro não sabe que pode ser um prolongar da dor. Cláudia foi a testemunha principal do julgamento que condenou o padrasto a 22 anos de cadeia. Criança com a memória fresca das facas a atingirem o corpo da mãe, contou aos juízes como tinha sido. O padrasto sentado atrás, separado por “uma fina barreira de madeira”.

Outro trauma depois do trauma. “Os processos em tribunal são horrorosos. Fui bombardeada pelas perguntas do coletivo de juízes, do advogado, do procurador. E o tipo que matou a minha mãe sentado atrás de mim, num julgamento aberto para quem quisesse ver. E eles estavam ali a discutir o que não tinha discussão.” A meio da sessão, levantou-se, a pedido dos magistrados, para fazer um desenho sobre a posição do corpo. “E ainda se riram quando eu disse que a minha mãe cortava o frango com uma tesoura.”

Condenado há 14 anos, o companheiro da mãe de Cláudia tem tido saídas precárias. “Dantes tinha medo. Entrava num autocarro e imaginava que o via. Agora já não.” Quando em tribunal ele pediu desculpa à família, Cláudia não sentiu nada. O oposto ao que acontece quando se lembra da mãe. De como precisou dela, nos momentos em que se sentiu mais sozinha. De como estaria feliz se a visse agora, mulher feita e de diploma na mão.

Ao contrário de Cláudia, Rogério não teve de depor em tribunal. “Lembro-me de entrarem em casa quando estava sentado ao pé da minha mãe.” As pessoas (agentes da polícia e técnicos da segurança social) falaram com ele, mas na sua memória apenas ecoam os gritos do choro da avó.

A mãe de Pedro quer evitar mais traumas e interrogatórios, está ansiosa que tudo passe rápido. “As mulheres que acolhemos têm uma preocupação imediata, que é a segurança e a salvaguarda dos filhos. Têm urgência em tirá-los de uma situação de violência. E depois querem tranquilidade, parecida com a que há numa casa ‘normal’. Preocupam-se também que os filhos tenham uma boa adaptação à escola, que a adaptação à nova escola seja positiva, a nível de sucesso escolar, e a nível psicológico e interpessoal”, diz Daniel Cotrim.

E todas esperam que a violência não tenha deixado sequelas. Depende do futuro que lhes apresentem. Cláudia está a começar a fazer voluntariado com vítimas de violência doméstica. Rogério teve de se afastar para ultrapassar o passado. Alexandra deixou a gestão para trabalhar na área da violência doméstica, trabalhando na área da prevenção com jovens. Deixou de ter bolo de aniversário, de tirar fotografias e de gostar do Natal quando começou a ver o pai bater na mãe. Vive uma vida feliz com os irmãos e os sobrinhos, que talvez conheçam o avô através deste texto. Mesmo assim, há momentos em que a noite parece durar a vida toda. Mas depois o dia amanhece.

*Os nomes dos menores foram alterados para sua proteção

 

 

Filhos de vítimas de violência doméstica chumbam cinco vezes mais

Janeiro 8, 2018 às 2:00 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , ,

Notícia do Diário de Notícias de 7 de janeiro de 2018.

A notícia contém declarações da Dra. Melanie Tavares, Coordenadora dos Sectores da Actividade Lúdica e da Humanização dos Serviços de Atendimento à Criança do Instituto de Apoio à Criança.

 

Portugal submete ao Conselho da Europa Relatório sobre a Convenção de Istambul

Dezembro 11, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , , , ,

Notícia do https://www.cig.gov.pt/ de 12 de setembro de 2017.

Portugal submeteu junto do Conselho da Europa o seu relatório nacional sobre a prevenção e o combate à violência contra as mulheres e a violência doméstica, ao abrigo da Convenção de Istambul.

A Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG) e a Comissão Nacional de Direitos Humanos (CNDH), presidida pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, foram responsáveis pela elaboração deste relatório que contou com os contributos de todas as entidades nacionais com competências relacionadas com a implementação desta Convenção, tais como, os Ministérios da Administração Interna, Justiça, Saúde, Educação , Trabalho e Segurança Social e, ainda, o Provedor de Justiça, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) e a Fundação Calouste Gulbenkian.

O relatório foi enviado para o GREVIO – Group of Experts on Action against Violence against Women and Domestic Violence – a 8 de setembro de 2017. Este Grupo irá analisar o relatório e debatê-lo junto da delegação de representantes nacionais na sua 13ª reunião, que terá lugar de 19 a 23 de fevereiro de 2018, em Estrasburgo.

O GREVIO poderá realizar uma visita a Portugal, na primavera de 2018, para avaliar a situação no terreno e respetivo elaboração de relatório de avaliação no decorrer do próximo ano.

Para mais informações consulte o Report submitted by Portugal »

 

Um terço das crianças vivem só com um dos pais

Julho 25, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , ,

Notícia do http://www.dn.pt/ de 1 de julho de 2017.

Foram sinalizados 8695 casos de violência doméstica | Rui Manuel Ferreira/Global Imagens

Ana Bela Ferreira

No ano passado foram acompanhados 71 016 crianças e jovens pelas comissões de proteção de menores

Mais de um terço das crianças acompanhadas, no ano passado, pelas comissões de proteção de menores viviam com apenas um dos pais. Embora não sejam a maioria dos casos – em 41,3% das situações são em famílias nucleares -, o relatório de avaliação da atividade das Comissões de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) sublinha que em relação ao total de famílias monoparentais na população residente, representam mais do dobro.

Embora sem querer fazer ligações de causa/efeito, o documento salienta que “uma percentagem significativa de jovens acompanhados pelas CPCJ esteve associada a fatores de vulnerabilidade como a pertença a famílias monoparentais ou a dependência das respetivas famílias de rendimentos como o RSI e outros subsídios”.

O relatório, agora divulgado e que foi entregue na Assembleia da República, faz a análise do trabalho das comissões ao longo do último ano, onde foram acompanhadas 71 016 crianças e jovens. Num total de 72 177 processos, resultantes da transferência entre comissões de 1161 casos.

Do número global, apenas 39 194 dizem respeito a problemas sinalizados em 2016, os restantes transitaram do ano anterior. Entre os novos processos, a situação de perigo mais comum é a exposição a comportamentos que possam comprometer o bem-estar e o desenvolvimento da criança (32,8% do total). E dois terços destas situações são exposição dos menores a violência doméstica. “Foram sinalizados às CPCJ 8695 casos de violência doméstica, o que representou 22,2% do total de sinalizações em 2016, ultrapassando, a categoria Negligência, que representou 19,5% do total”, pode ler-se no relatório.

Considerando que desde 2011 tem vindo a aumentar o número de processos iniciados (a soma de instaurados e reabertos, menos as transferências) é também analisado no documento. O entendimento da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens (CNPDPCJ) é de este fenómeno se deve não só aos “possíveis efeitos da crise económica, que se iniciou em 2008, com reflexo direto nos índices de pobreza infantil, mas também traduz uma maior amplitude na intervenção das CPCJ e uma maior sensibilidade coletiva a problemas como a violência doméstica, o bullying ou o abandono escolar precoce”.

Ao longo do ano foram reabertos 8352 processos e arquivados 38 845. Considerando esta tendência de aumento dos processos reabertos, a comissão reconhece que ser necessária “uma análise aprofundada”, não excluindo uma “eventual correlação com o volume dos arquivamentos.

mais informações no Relatório de Avaliação da Atividade das CPCJ – 2016

 

Filhos do álcool. Vidas marcadas pela vergonha e pelo medo

Julho 13, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , ,

Reportagem do http://www.dn.pt/ de  3 de julho de 2017.

Dulce é filha de um alcoólico, que não bebe há 18 anos
| Henriques da Cunha/Global Imagens

Joana capucho

O vício dos pais consumiu-lhes a infância. Algumas crianças acabam por adotar comportamentos semelhantes

“Chamo-me Dulce e sou filha de um alcoólico.” Dezoito anos depois de o pai ter deixado de beber, Dulce, de 39, fala dele com orgulho. Já não tem vergonha como tinha quando, durante toda a infância e adolescência, o pai aparecia bêbado. Lembra-se de desejar que ele não fosse aos sítios onde estava para não se sentir embaraçada. “Não cambaleava nem andava a cair. E nunca nos tocou, mas era muito ríspido, muito brusco.” A par disso, o medo constante de um acidente de carro ou que algo de mau acontecesse. “Até aos 20 anos não tive pai. Não é fácil conviver com uma adição que é perfeitamente aceite pela sociedade.”

Maria, de 60 anos, conhece bem a vergonha da qual Dulce fala. “Se via o meu pai na rua quando vinha da escola, tentava ir mais devagar para não o apanhar. Lembro-me daquela figura magra a cambalear pela rua e eu a abrandar o passo”, recorda. São memórias que doem. “Uma vez, com uma grande bebedeira, vinha pela rua a dizer que matava a minha mãe. Tinha muito medo.” Ficaram marcas para o resto da vida. Uma depressão que nunca se curou. Um casamento para fugir do ambiente em que vivia, que acabou 12 anos mais tarde. “Para colmatar a dor, comecei a beber. Quando vi que estava a passar pelo mesmo que o meu pai, pedi ajuda aos Alcoólicos Anónimos.”

Dulce e Maria são filhas de pais alcoólicos, duas mulheres que viram a sua infância ser consumida pelo álcool. Como elas, milhares de portugueses, cujas vidas ficam marcadas para sempre. “Sempre que, na infância, os filhos são sujeitos a situações de tensão e violência, seja física ou pelo consumo de álcool, obviamente que ficam marcos para o resto da vida”, diz ao DN o psicólogo Carlos Céu e Silva.

Em muitos casos, são as crianças que assumem o papel de cuidadores, que tratam dos irmãos e que se encarregam de alimentar, lavar ou acalmar os progenitores alcoolizados. “Não têm momentos de pura liberdade infantil. Quando se tornam adultos, muitos ficam exageradamente aptos, pessoas rígidas ou com crises de identidade. Mais do que isso, há um descontentamento permanente, porque não viveram a infância, não tiveram modelos, assumiram o papel de pais”, explica o psicólogo.

Álcool leva à violência

Catarina Homem da Costa, psicóloga clínica, diz que “quando o alcoolismo é materno, está mais associado a situações de negligência, de não prestação dos cuidados básicos”. Já quando é paterno, está “muitas vezes associado a um aumento de comportamentos violentos e/ou inesperados. Outros casos graves são os que levam a situações de abuso sexual”. Há crianças que reconhecem pelos passos se o pai está bêbado, que vão aos bares buscar os pais para evitar que bebam demasiado. “Outras que descrevem que por vezes o pai acaba caído no chão e que o tapam com um cobertor para que não tenha frio. Em alguns casos o progenitor é descrito como tendo comportamentos infantis, em que a sua autoridade é desvalorizada.”

Dulce pensa que o pai terá começado a beber quando estava na tropa. “Naquela altura, quem mais bebesse, mais homem era.” Apesar dos repetidos pedidos dos filhos e da mulher, não reconhecia que tinha um problema. “Nós é que éramos malucos, dizia ele.” Filha de gentes do campo, que viviam no Alentejo, Maria recorda que o pai começava por beber o mata-bicho logo de manhã. “E continuava ao longo do dia.” Em casa, não se falava sobre o assunto.

Há casos, diz Catarina Homem da Costa, que são desvalorizados até pela própria família. “Ainda há muitos meios em que o alcoolismo é visto como um comportamento “normal” e habitual nas famílias. Estes comportamentos são desvalorizados ou desculpabilizados”, indica a psicóloga. Por vezes, alerta, “mesmo que estes casos sejam denunciados, é considerado que a criança não corre risco, porque o risco na nossa sociedade ainda está muito associado ao risco físico”.

No Reino Unido, por exemplo, há instituições específicas para filhos de pais alcoólicos, mas, em Portugal, não existe uma resposta direcionada só para estas crianças. Contactado pelo DN, o Instituto da Segurança Social diz que “a integração destas crianças ocorre em instituições sem valência específica para esta problemática, porque simplesmente não existem”. “Requer-se da instituição que seja protetora e promotora do bem-estar e dos direitos da criança que acolhe, promovendo sempre que possível, e em articulação com a equipa responsável pelo acompanhamento da medida, o seu retorno a meio natural de vida”, adianta.

Filhos dependentes

As marcas deixadas pelo alcoolismo dos pais podem manifestar-se de diferentes maneiras. Segundo Carlos Céu e Silva, há filhos que se tornam “adultos autónomos e reivindicativos em termos emocionais” e que têm “comportamentos opostos aos que receberam na infância”, muitas vezes com a ajuda de terapeutas, familiares ou amigos. Há também situações ambivalentes, ou seja, “filhos que têm dificuldade em gerir emocionalmente a questão do pai biológico e que ao mesmo tempo só trouxe desilusão e sofrimento”. E o lado mais negro, ressalva, que “são filhos que não se sabem libertar e que, quando se tornam adultos, mantêm relação com as dependências”. Estão “sempre insaciáveis, à procura de mais, não só nas dependências mas também no amor, no trabalho”. São pessoas “que nunca estão completas”.

Maria sabe que poderia ter tido uma vida diferente se o pai não fosse alcoólico. “O medo bloqueou-me bastante. Comecei desde muito cedo a sofrer do sistema nervoso”, recorda. Foi nos Alcoólicos Anónimos, onde entrou em recuperação há 13 anos, que aprendeu a lidar com o passado e os medos que a atormentavam. Ficou a mágoa, lamenta, de não ter tido a oportunidade de dizer ao pai que o compreendia.

Dizem os especialistas que é comum os filhos de alcoólicos manifestarem problemas comportamentais e emocionais. Catarina Homem da Costa sublinha o impacto da violência, da negligência, da autoridade exercida através da força, do medo, de reações inesperadas e inexplicáveis. Pais que num momento são responsáveis e carinhosos e que rapidamente passam “a ser pessoas com comportamentos imprevisíveis, a precisar de cuidados, a causar medo ou mesmo repugnância”.

 

Já está disponível para download o InfoCEDI n.º 70 Criança como vítima indireta da Violência Doméstica

Julho 5, 2017 às 12:00 pm | Publicado em CEDI, Divulgação | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , ,

Já está disponível para consulta e download o nosso InfoCEDI n.º 70. Esta é uma compilação abrangente e actualizada de dissertações, estudos, citações e endereços de sites sobre Criança como vítima indireta da Violência Doméstica.

Todos os documentos apresentados estão disponíveis on-line. Pode aceder a esta publicação AQUI.

Relatório de Avaliação da Atividade das CPCJ – 2016

Junho 29, 2017 às 11:12 am | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , ,

descarregar o relatório no link:

http://www.cnpcjr.pt/preview_documentos.asp?r=6508&m=PDF

Ação de Sensibilização: Entrevista a Crianças Vítimas – 4 de julho em Lisboa

Junho 23, 2017 às 9:18 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , ,

Esta ação vai ser desenvolvida pela APAV, com a parceria da Camara Municipal de Lisboa, dia 4 de julho, das 14h30 às 17h30. Gratuita.

Destinatários: Profissionais das áreas das Ciências Sociais e Humanas, Profissionais do Sistema de Justiça, Profissionais da Educação, Profissionais de Saúde, Forças de Segurança e Profissionais que lidam direta e indiretamente com vítimas de violência doméstica no município de Lisboa.

Inscrições Limitadas

Inscrição formacao@apav.pt  –  Inscrições até 29 de junho (indicar o nome e entidade empregadora)

 Ficha_Inscricao_cmlx3

 

“A ideia de uma mãe matar para proteger é uma coisa que me arrepia” Entrevista de Manuel Coutinho do IAC

Junho 6, 2017 às 6:00 am | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , ,

Entrevista do site https://www.noticiasaominuto.com/ ao Dr. Manuel Coutinho (Secretário–Geral do Instituto de Apoio à Criança e Coordenador do  Sector SOS-Criança do Instituto de Apoio à Criança). no dia 4 de junho de 2017.

por Patrícia Martins Carvalho

A linha SOS Criança – 116 111 – surgiu em 1988 com o objetivo de “dar voz, anonimamente”, às crianças que são vítimas de qualquer tipo de violência, seja no seio familiar, na escola ou por parte de terceiros.

Volvidos 29 anos, este serviço já ajudou milhares de crianças que ligam a pedir ajuda. Mas desengane-se quem pensa que o serviço é apenas para as crianças, até porque, explicou Manuel Coutinho, a legislação portuguesa define que uma pessoa é criança até atingir a maioridade.

Ainda assim, o coordenador da Linha SOS Criança sublinha que os técnicos desta linha telefónica também estão aptos a ajudar adultos que pretendam denunciar situações de violência para com crianças e jovens.

Questões como o rapto parental e o jogo da Baleia Azul foram alguns dos temas desta conversa que terminou com um conjunto de conselhos deste especialista a todos os pais e mães.

Há muitas crianças a ligar para a linha SOS Criança a pedir ajuda?

Foram mais de 100 mil as crianças que, ao longo da existência do serviço SOS Criança, contactaram o serviço. Nem todas são maltratadas, muitas ligam para pedir ajuda num conjunto de situações que, de alguma maneira, pode pôr em perigo a sua vida.

Se não são maltratadas ligam por que motivo?

Ligam porque têm dúvidas substanciais e precisam de falar com alguém, porque têm tendências suicidas ou comportamentos desajustados e querem encontrar a resposta para o seu problema, ligam por questões de comportamentos aditivos, situações de bullying, de abuso sexual, de abandono… são múltiplas e variadas as problemáticas que chegam até nós.

“Foram mais de 100 mil as crianças que, ao longo da existência do SOS Criança, contactaram o serviço”

Qual é o procedimento adotado quando uma criança liga para a linha SOS Criança?

A primeira coisa a fazer é ouvir a criança e perceber o que se passa. Depois da primeira avaliação, tenta-se perceber se a criança tem ou não algum adulto por perto a quem possamos recorrer. Às vezes temos de orientar o caso para a escola, para o serviço de saúde, para a CPCJ, para a polícia…

Também há adultos que ligam?

Sim e são, em primeiro lugar, as mães quem mais liga, depois são os pais, temos também os colegas, os vizinhos, os amigos, os tios, os padrastos, as madrastas…

Que apoio é prestado pelo SOS Criança?

O SOS Criança tem o serviço de atendimento telefónico, um chat online, um email e um serviço de atendimento jurídico e outro psicológico através da linha 116 111 que funciona de segunda a sexta-feira das 09h00 às 19h00. Depois temos também outra linha – 116 000 – que é o número europeu para as crianças desaparecidas e que funciona 24 horas por dia durante os 365 dias do ano.

O número de crianças a pedir ajuda tem aumentado?

O número de crianças que chegam ao SOS Criança tem vindo a estabilizar ao longo dos anos. Temos tido, quase sempre, à volta de 2.500 a 3 mil situações por ano.

“Por muito pobres que possamos estar não se pode privar as crianças dos bens essenciais”

E durante os anos da crise?

Nesse período houve um aumento do número de apelos relacionados com situações de pobreza, porque quando há crises as crianças são sempre as primeiras vítimas. Mas por muita crise que exista em Portugal, por muito pobres que possamos estar não se pode privar as crianças dos bens essenciais.

O que é que devemos fazer para perceber se uma criança é vítima ou não de maus-tratos?

É preciso estarmos atentos aos sinais que são aquilo que nós vemos e que podem ser nódoas negras, tristeza, sangramento a nível vaginal ou anal, uma ausência de vontade de brincar, uma atração muito especial por questões da sexualidade, um receio em estar na presença de um adulto. Tudo isto são sinais aos quais devemos estar atentos.

“A regra número um é acreditar sempre na criança, partir do princípio de que as crianças não mentem”

Reconhecidos os sinais, qual é o passo que se segue?

Fazer uma avaliação especializada que, numa primeira fase, passa pelo médico de família. Depois pode, eventualmente, passar por uma avaliação do Instituto de Medicina Legal, por uma equipa de pedopsiquiatras. Mas depende. Cada caso é um caso. A regra número um é acreditar sempre na criança, partir do princípio de que as crianças não mentem.

Recentemente foi noticiado mais um caso de rapto parental. As crianças são utilizadas como ‘arma de arremesso’ num processo de divórcio?

Os pais esquecem-se de que o fim da relação conjugal não significa o fim da relação parental e de que o casal parental se mantém permanentemente. Quando há uma regulação do exercício das responsabilidades parentais feita pelo tribunal, as pessoas têm de acatar. Por vezes não acatam e um dos pais leva a criança para parte incerta, esquecendo-se de que a criança tem o direito de ter acesso a um pai e a uma mãe, exceto se houver uma ordem judicial em contrário. Isto é muito prejudicial para as crianças.

“Uma criança exposta a um ambiente violento fica com marcas irreversíveis”

Uma criança que vive num contexto de violência tem tendência a tornar-se violenta?

Uma criança exposta a um ambiente destes fica com marcas irreversíveis. As crianças vítimas de violência ficam com a sua auto-estima comprometida, têm a sua segurança posta em causa e, muitas vezes, acabam por se tornar em adultos ansiosos e depressivos. No entanto, os estudos indicam que os adultos agressores em regra foram crianças agredidas, mas nem todas as crianças agredidas dão origem a adultos agressores.

Como é que se explica que um progenitor exponha o filho a um ambiente violento?

Cada caso é um caso. No entanto, há pessoas que não têm essa sensibilidade porque não foram preparadas ou estão a passar por uma situação complexa ou têm problemas psiquiátricos. Alguma coisa acontece porque só a perda da lucidez permite que as pessoas exponham os filhos a estes quadros de violência.

Como é o caso das mães homicidas…

Essas são situações que envolvem um contexto de uma grande dor, de um grande sofrimento, mas que só uma patologia o poderá justificar.

É um sentimento de egoísmo que lhes tolda a lucidez?

Essa ideia de matar para proteger é algo que me arrepia…

Há uma ideia ainda pior que é a de matar para castigar o antigo companheiro…

Essa então é muito perversa. Essas pessoas, quando o fazem, é porque perderam a lucidez. Mas a verdade é que as pessoas vão dando sinais disso e nós temos de estar o mais atentos e vigilantes possível, pois as questões de perturbação mental muitas vezes estão à vista e não são levadas a sério.

“Esse terrorismo online denominado Baleia Azul só chega às pessoas que se sentem cheias de um vazio profundo”

Há pouco falou nos problemas de auto-estima das crianças. É isso que as leva a desafios como o da Baleia Azul?

Esse terrorismo online denominado Baleia Azul só chega às pessoas que estão com a auto-estima em baixo, que estão fragilizadas, que se sentem cheias de um vazio profundo.

E como é que se evita que uma criança seja vítima deste ‘ataque terrorista’?

É importante ensinar os filhos que a vida não é só sucessos e que também tem insucessos, que nem sempre as coisas correm como queremos. Temos de ensinar os nossos filhos a partilharem a sua dor e o seu sofrimento. Os adultos têm de conversar mais com os jovens. E digo conversar, não digo gritar, que é o que acontece muitas vezes.

O problema está na comunicação?

A questão da comunicação presencial tem-se vindo a perder por causa dos telemóveis, computadores e tablets. As crianças para brincar não precisam só de brinquedos, precisam de alguém que brinque com elas.

“Esquecemo-nos de preparar os nossos filhos para os fracassos”

Os encontros combinados com estranhos nas redes sociais resolviam-se se pais e filhos conversassem?

Toda a vida as pessoas se puderam encontram com estranhos. O que nós temos de fazer é preparar os nossos filhos para os males da vida. Preocupamo-nos muito em prepará-los para os sucessos e esquecemo-nos de os preparar para os fracassos. Eles têm de perceber que há riscos quando decidem encontrar-se com estranhos, mas isto vem desde a história do Capuchinho Vermelho: não se deve arriscar demasiado porque às vezes podemos acabar na barriga do lobo.

Que conselho deixa então aos pais?

Todos os filhos são únicos. Os filhos são a maior dádiva que nós podemos ter e, por isso, devemos olhar para eles com muito respeito, devemos amar sem limites e limitar por amor. Limitar por amor não é bater, é ajudá-los a crescer de uma forma correta, educada e com muita resistência à frustração.

 

 

 

Página seguinte »


Entries e comentários feeds.