Mortalidade infantil aumenta sem explicação

Maio 13, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do Expresso de 19 de abril de 2019.

Vera Lúcia Arreigoso

Estudo não identificou causas para a subida de 26% nos óbitos entre 2017 e 2018. Idade tardia das mães é uma suspeita.

Não há uma causa concreta que tenha levado à morte mais 60 crianças no primeiro ano de vida em Portugal. Os peritos da Direção-Geral da Saúde (DGS) não conseguiram identificar qualquer explicação para o aumento de 229 para 289 óbitos entre 2017 e 2018. O estudo realizado revelou, ainda assim, que há um novo padrão de gravidez entre as portuguesas.

“Não se identificaram causas que justifiquem o aumento. Não há uma relação causal, mas sim algumas tendências que estão a mudar os padrões de gravidez, com consequências nos recém-nascidos”, garantiu a diretora-geral da Saúde no Parlamento, no início da semana. Graça Freitas adiantou que a principal suspeita recai sobre a idade tardia das mães.

A tendência para o adiamento da maternidade está a empurrar as mulheres para técnicas de procriação medicamente assistida, “com uma estabilização no serviço público e um aumento nas unidades privadas”, e a fomentar mais gestações de gémeos, a prematuridade e o baixo peso à nascença. Ou seja, a potenciar o nascimento de bebés com algum risco.

Graça Freitas sublinha que “os números são muito pequenos e sem relevância estatística”, mas permitiram, ainda assim, detetar algumas particularidades. Por exemplo, a mortalidade infantil foi maior nas regiões de Lisboa e Vale do Tejo, Algarve e Açores, “embora sem ter sido encontrado um padrão causal”, e entre as mães com residência no estrangeiro, sobretudo em países africanos e do Leste europeu.

Outra das conclusões é a falta de informação e o excesso de mortes inconclusivas. O estudo revelou registos omissos, com regiões do país onde nem sequer se sabe qual foi o tipo de acompanhamento que a mulher teve durante a gravidez. Na verdade, ironiza a diretora-geral da Saúde, “a única causa que aumentou nos certificados de óbito foi a ‘causa desconhecida’, que não devia constar” e que leva as autoridades de saúde a pensar em “tornar obrigatórios alguns campos para que outros não fiquem por preencher”.

Os números relativos às mortes nos primeiros 12 meses de vida registadas já este ano “revelam o mesmo padrão dos anos anteriores, isto é, uma estabilidade nos três óbitos por mil nados vivos”, adiantou Graça Freitas. “Para este primeiro trimestre, só vamos conseguir calcular a taxa de mortalidade no final do mês quando tivermos os dados do Instituto Nacional de Estatística.”

Em 2018, quando a mortalidade infantil aumentou 26%, a taxa subiu de 2,7 para 3,3, gerando grande alarme social por poder ser um indicador da degradação dos cuidados nas unidades públicas de saúde. O ano anterior tinha sido um marco por ter colocado o país num patamar de excelência, isto é, abaixo dos três óbitos por mil nados vivos. O recorde absoluto foi batido em 2010, com uma taxa de 2,5. Também aqui não foi possível apurar explicações. “Estudámos tudo, como estudamos sempre, e não encontrámos uma causa”, admite a médica.

“Com números tão pequenos, não se podem tirar conclusões precipitadas. Há sempre o fenómeno da variabilidade dos pequenos números”, afirma Graça Freitas. Já com justificação e bem conhecida, é a reduzida taxa de mortalidade infantil em Portugal. Os números traduzem a evolução do sistema de saúde e da própria evolução social que há décadas colocam o país entre os melhores classificados em todo o mundo.

 

 

Bullying e cyberbullying, há mais raparigas vítimas e mais rapazes agressores

Maio 10, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Teenage Girl Being Bullied By Text Message – Snews

Notícia e imagem do Educare de 29 de abril de 2019.

Estudo sobre problemas comportamentais dos jovens revela que a maioria não está ligada a estas formas de agressão. Dos envolvidos, 13% dos rapazes assumiram-se como agressores ou vítimas provocadoras no bullying e 7,9% admitiram o mesmo papel em relação ao cyberbullying. Recomendam-se programas dedicados à resiliência.

O estudo “Bullying, Cyberbullying e Problemas de Comportamento: O Género e a Idade Importam”, realizado no âmbito do Health Behaviour in School Age Children (HBSC) de 2018, analisou o envolvimento dos jovens nestas formas de comportamento e violência, bem como a frieza emocional, em função do género e da idade. Um dos resultados da pesquisa mostram que 75,6% dos rapazes e 78,6% das raparigas não estiveram envolvidos em bullying e 88,5% dos rapazes e 90,2% das raparigas não reportaram situações de cyberbullying. Ou seja, a maioria não esteve envolvida em situações deste género.

Dos que admitiram o seu envolvimento, os dados revelam que 14,8% das raparigas foram vítimas no bullying e 6,9% no cyberbullying. No caso dos rapazes, 11,2% foram vítimas de bullying e 3,7% de cyberbullying. Treze por cento dos rapazes assumiram-se como agressores ou vítimas provocadoras no bullying e 7,9% disseram o mesmo em relação ao cyberbullying. Nas raparigas, relativamente à condição de agressor ou vítima provocadora, as percentagens baixam para 6,6% no bullying e 2,9% no cyberbullying.

Este estudo demonstrou que o género tem influência no envolvimento neste tipo de situações. Há mais raparigas que contam o seu envolvimento em situações de bullying como vítimas e um número mais elevado de rapazes que admitem estar envolvidos nesses casos como agressores e como vítimas provocadoras. Nas diferenças de género, e em relação ao total de problemas de comportamento e à frieza emocional, os resultados indicam que este tipo de dificuldades é maior nos rapazes.

Segundo a investigação, o envolvimento nestas situações aumentou do 6.º para o 8.º ano de escolaridade, diminuindo significativamente a partir daí. A idade tem também peso no total de problemas de comportamento e na frieza emocional, que vão diminuindo com o tempo. O estudo recomenda “o desenvolvimento de políticas públicas, na área da educação e saúde, em contexto escolar e comunitário, de tolerância zero à violência”.

“Apesar do envolvimento em situações de cyberbullying ser menos frequente por comparação com o envolvimento em situações de bullying, os resultados obtidos apresentaram um padrão semelhante”, adianta o estudo já divulgado no âmbito do 10.º Congresso Internacional de Psicologia da Criança e do Adolescente, que decorreu em Lisboa, e que analisou uma amostra composta por 8 215 estudantes, 52,7% raparigas, com uma média de idades de 14,36 anos, que frequentavam os 6.º, 8.º, 10.º e 12.º anos de escolaridade.

O estudo chama a atenção para o desenvolvimento de competências de pais e professores na identificação de sinais de envolvimento em situações de violência, no suporte a dar às vítimas e provocadores, e na desmistificação da aura de poder e superioridade associada à provocação. O comportamento provocativo deve ser encarado, acima de tudo, como uma perturbação antissocial que necessita de apoio psicológico. “Resiliência na Adolescência”, outro estudo também integrado no HBSC, conclui que “as meninas apresentam valores significativamente mais elevados na empatia, resolução de problemas e objetivos e aspirações, enquanto que os rapazes apresentam valores mais elevados na autoeficácia”.

Os adolescentes mais velhos apresentam valores mais elevados de empatia, objetivos e aspirações. “Os adolescentes portugueses apresentam, de um modo geral, bons níveis de recursos internos associados à resiliência. É, no entanto, importante desenvolver programas promotores de resiliência tendo em atenção que os recursos associados à resiliência se adquirem e agregam ao longo da vida e que grupos mais vulneráveis e expostos a mais adversidades terão mais dificuldade em acionar este mesmo processo”, lê-se no estudo.

Aceder ao estudo mencionado na notícia:

Bullying, ciberbullying e problemas de comportamento: o género e a idade importam?

 

Duas crianças retiradas à família por risco de mutilação genital

Maio 7, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Expresso de 27 de abril de 2019.

Proibição de contacto com crianças só é aplicada a 1% dos condenados por abuso sexual – notícia do Público com declarações de Dulce Rocha Presidente do IAC

Abril 28, 2019 às 1:00 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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A notícia contém declarações da Dra. Dulce Rocha, Presidente do IAC.

Notícia do Público de 20 de abril de 2019.

Entre 2010 e 2016, houve quase 1800 condenações e apenas 15 medidas para impedir culpados de desempenhar funções junto de crianças.

Ana Dias Cordeiro

Continua a existir, como em 1982, quando o Código Penal foi revisto, uma “desvalorização dos crimes contra as pessoas”. Essa era a grande crítica dirigida ao Código Penal na altura e essa é a principal explicação possível ainda hoje, no entender da magistrada Dulce Rocha, para a enorme discrepância entre o número de condenações por crimes de abusos sexuais de crianças e o de penas acessórias, por esses mesmos crimes, de proibição de exercer funções junto de crianças.

Entre 2010 e 2016, houve 1797 condenações por abuso sexual de crianças e apenas 15 medidas de impedimento de trabalho ou actividades com crianças. Ou seja: a medida de afastamento apenas foi decidida pelos tribunais em cerca de 1% desses casos. Os dados são do Ministério da Justiça, recolhidos a pedido do PÚBLICO.

Quando a vítima é menor, o Código Penal prevê desde 2015 que o condenado pelo crime de abuso “é condenado na proibição de exercer, profissão, emprego, funções ou actividades, públicas ou privadas, cujo exercício envolva contacto regular com menores, por um período fixado entre cinco e 20 anos”.

A juíza Carolina Girão, da direcção da Associação Sindical dos Juízes Portugueses (ASJP), ressalva porém que “não há efeito automático das penas”. Uma pessoa não pode ser condenada a uma pena acessória só porque é condenada por crimes sexuais, explica. “A lei é muito mais incisiva no que respeita a crimes sexuais praticados contra crianças mas não exclui uma parte de apreciação” por parte do julgador.

“Existem condutas de uma gravidade muito díspar” no crime de abuso sexual de crianças. “Comete este crime quem colocar a mão numa parte do corpo da criança ou quem violar a criança”, sublinha. E cita o direito ao trabalho previsto no artigo 30 da Constituição segundo o qual “nenhuma pena envolve como efeito necessário a perda de quaisquer direitos civis, profissionais ou políticos”.

A juíza aponta como uma razão possível para o reduzido número de penas de proibição de funções o facto de estas só estarem previstas no Código Penal desde 2015. Mesmo assim, desde então, raras vezes foram decididas: “Em 2015 foram aplicadas três penas acessórias deste tipo, em 2016, foram seis e, em 2017, foram cinco”, segundo informações do gabinete da ministra da Justiça. Ou seja, no total, desde 2015, houve centenas de condenações e apenas foram aplicadas 14 penas de impedimento de função que implique uma proximidade com crianças.

Antes de 2015, o tribunal podia aplicar a proibição ao arguido considerado culpado não como uma condenação mas como uma condição necessária para ele ter uma suspensão da pena de prisão.

Carolina Girão justifica que “na aplicação de uma pena o juiz deve atender à gravidade dos factos e à conexão [dos factos com a sua ocupação]” ou probabilidade de o condenado vir a trabalhar com crianças.

É essa probabilidade que a magistrada e presidente executiva do Instituto de Apoio à Criança (IAC), Dulce Rocha, considera que não deve entrar na equação. “Nas profissões em que não é patente essa ligação [com crianças], tem mesmo assim de haver uma consciencialização para apreciar essa questão e isso passar a ser óbvio, sempre”, defende. “A pena acessória funciona como um meio de evitar que se repita o crime” depois de o condenado sair da prisão.

A prevenção (para a sociedade) e a reinserção (para o condenado) “só se conseguem se nós não facilitarmos que eles reincidam”, conclui Dulce Rocha. A ex-procuradora do Tribunal de Família e Menores de Lisboa evoca a desvalorização deste crime “por parte das pessoas”. Que pessoas? “Os magistrados, os profissionais. E só se desvaloriza [o crime] por desconhecimento das graves consequências que ele tem para as crianças. É necessária uma maior consciencialização.”

“Os conhecimentos científicos têm influenciado muito as legislações no Direito da Família e no Direito das Crianças”, acrescenta. Por isso, perante os conhecimentos das repercussões destes crimes no desenvolvimento, na saúde, no equilíbrio emocional e na vida das crianças, “é necessária mais formação específica e obrigatória para os magistrados” judiciais e do Ministério Público.

“São casos horríveis de perversidade”, diz Dulce Rocha, antes de lembrar algumas das passagens do livro da psicóloga norte-americana Anna Salter, Predators: Pedophiles, Rapists, And Other Sex Offenders, com entrevistas a dezenas de condenados por crimes sexuais que admitiram ter cometido muito mais crimes do que aqueles pelos quais tinham sido acusados.

Uma das razões, constata Anna Salter, será essa desvalorização do risco. Disse a própria autora: “Quando alertadas para casos reportados ou mesmo para uma condenação, as pessoas tendem a subestimar a patologia com a qual estão a lidar.”

 

Casos de tuberculose em crianças aumentaram. Vacina BCG pode regressar

Abril 26, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da TSF de 12 de abril de 2019.

Paula Dias com Rita Carvalho Pereira

As autoridades de saúde estão a considerar retomar a vacinação BCG, depois de, nos últimos anos, ter aumentado o número de casos de tuberculose em crianças.

A diretora do Programa Nacional para a Tuberculose, Isabel Carvalho, indica que a Direção-Geral da Saúde está a estudar a possibilidade da vacina BCG voltar a ser administrada às crianças de risco nas maternidades, o mais cedo possível, depois do nascimento.

Só no último ano, 34 crianças com menos de seis anos contraíram tuberculose (quatro das quais com alta gravidade), sendo que nenhuma das crianças infetada tinha sido vacinada.

Desde 2017 que a vacina BCG deixou de ser obrigatória para todas as crianças.

As regiões de Lisboa e do Porto são aquelas que apresentam o maior número de casos de infeção -e, como tal, são as mais prioritárias -, porém Isabel Carvalho ressalva que ainda não há previsão de quando a medida irá avançar.

“São ideias que têm sentido, que parecem ir melhorar a operacionalização da vacina, mas que ainda estão a ser trabalhadas”, salvaguarda a responsável, em declarações à TSF.

Isabel Carvalho defende que não existe benefício em vacinar toda a população, pelo que não faz sentido essa prática, mas admite que o facto de existir uma baixa incidência de tuberculose em Portugal fez com que os cidadãos e os profissionais de saúde começassem a descurar a doença – o que, por sua vez, levou ao aumento do tempo de diagnóstico e a uma maior probabilidade de contágio.

A diretora do Programa Nacional para a Tuberculose explica que tem ocorrido um atraso na administração da vacina às crianças que estão identificadas para vacinação, por questões logísticas. A responsável aponta ainda demoras no diagnóstico e falhas nos rastreios da doença.

As crianças consideradas de risco, aquelas que podem estar mais expostas a tuberculose, são as que têm pais “com VIH, com dependência de drogas ou álcool, com familiares de países de alta incidência ou que estiveram envolvidas num processo de exposição a tuberculose”, explica Isabel Carvalho.

“Quando achamos que a tosse se arrasta e que, apesar de tomar vário antibióticos, os sintomas não passam, temos de pensar que pode ser tuberculose e é preciso procurar ajuda”, sublinha.

 

 

Todos os anos, há mais 3 mil novos casos de asma em crianças em Portugal, devido à poluição

Abril 24, 2019 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Observador de 11 de abril de 2019.

O estudo da Universidade de George Washington revelou que a maioria dos casos estão associados à poluição rodoviária e inalação de dióxido de azoto.

Em Portugal surgem todos os anos mais de 3 mil casos de asma nas crianças, devido à poluição, noticia o Jornal i na sua edição em papel. A conclusão parte de um estudo feito pela Universidade de George Washington nos Estados Unidos, publicado na revista científica The Lancet Planetary Health. Os investigadores responsáveis pelo estudo foram os primeiros a medir as consequências do impacto da poluição do ar na doença entre os mais novos.

O estudo, realizado em 194 países, revelou que 92% dos novos casos de asma pediátrica surgem em crianças que vivem nas áreas que já cumprem os limites da emissão de dióxido de azoto. Por este motivo, os investigadores apelam à revisão do limite para a emissão deste gás, definido pela Organização Mundial de Saúde. Para os cientistas, prevenir a doença passa por evitar as zonas de maior tráfego, mas a problemática ultrapassa escolhas individuais.

Em todo o mundo, surgem 4 mil novos casos em jovens até aos 18 anos, sendo que 13% estão associados à inalação de dióxido de azoto. As zonas do mundo onde a doença está mais presente são cidades onde são detetados os maiores níveis de poluição, tais como oito cidades na China, para além de Moscovo e Seul, onde a percentagem chega aos 40% . Em Portugal, há 3 mil e 200 novos casos todos os anos. O número está associado à poluição rodoviária. Mas os investigadores, com quem o Jornal i falou, dizem que Portugal não é dos casos mais preocupantes.

 

Estudo revela que mais de um terço dos jovens não usou preservativo na última relação sexual

Abril 22, 2019 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Mais de um terço dos jovens inquiridos num estudo nacional relatou não ter usado preservativo na última relação sexual e 14,5% disse ter tido relações sexuais associadas ao consumo de álcool ou drogas.

“Uma minoria significativa” reportou não ter usado preservativo na última relação sexual (34,1%), sublinha o estudo “Comportamentos sexuais de risco nos adolescentes”, divulgado a propósito do 10.º Congresso Internacional de Psicologia da Criança e do Adolescente, que vai decorrer na quarta e na quinta-feira em Lisboa.

A investigação, a que a agência Lusa teve acesso, concluiu que são os rapazes que mais frequentemente usam preservativo, que têm relações sexuais associadas ao consumo de álcool ou drogas e que não têm a vacina contra o vírus do papiloma humano (HPV).

O estudo realizado em Portugal faz parte do Health Behaviour in School Aged Children (HBSC) 2018, um inquérito realizado de quatro em quatro anos em 48 países, em colaboração com a Organização Mundial de Saúde, que pretende estudar os comportamentos dos adolescentes nos seus contextos de vida e a sua influência na sua saúde/bem-estar.

Segundo os dados recolhidos em Portugal, os jovens mais novos, do 8º ano, são os que mais frequentemente têm relações sexuais associadas ao consumo de álcool ou drogas, realça o estudo, advertindo que estes resultados “podem ter implicações significativas na alteração das políticas de educação e de saúde, direcionando-as para o desenvolvimento de competências pessoais e sociais nas várias estruturas que servem de apoio aos adolescentes portugueses”.

Os autores do estudo apontam como justificações possíveis para estes resultados “o desinvestimento na educação sexual”, a redução do número de campanhas de prevenção e o facto de a infeção se ter passado a considerar uma doença crónica e não uma “sentença de morte”, o que “poderá estar a desvalorizar a importância da proteção.

O estudo “Comportamentos sexuais de risco nos adolescentes” abrangeu 5.695 adolescentes, 53,9% dos quais raparigas, com uma média de idades de 15,46 anos, a frequentarem o 8º ano, o 10º ano ou o 12º ano.

A maioria dos adolescentes inquiridos mencionou já ter tido um relacionamento amoroso, apesar de não ter no momento (48,4%), sobretudo os rapazes (51,8%) e os adolescentes do 8.º ano (50,9%).

Segundo o estudo, a maior parte disse não ter tido relações sexuais (77%). Dos que referiram já ter tido, contaram que a primeira relação sexual foi aos 15 anos.

Os dados indicam também que 85,6% dos inquiridos não realizaram o teste de VIH e 84,7% não têm a vacina contra o HPV.

Segundo os últimos dados estatísticos da UNICEF, cerca de 30 jovens entre os 15 e os 19 anos foram infetados com o VIH/sida, por hora no mundo em 2017, números “particularmente alarmantes se se considerar que nos restantes grupos etários a epidemia estará a diminuir”.

Em Portugal, a situação é também preocupante pois cerca de um terço dos infetados com o VIH/sida tem menos de 30 anos e cerca de 16% tem entre 15 e 24 anos.

O estudo lembra que o melhor meio de evitar a infeção VIH/sida e outras infeções sexualmente transmissíveis continua a ser o preservativo.

HN // JMR

Lusa/fim

 

Raparigas são as que se sentem mais gordas mas há mais rapazes com excesso de peso

Abril 22, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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thumbs.web.sapo.io

Notícia da LUSA de 9 de abril de 2019.

As raparigas são as que se sentem mais gordas, mas há mais rapazes com excesso de peso, revela um estudo, segundo qual quase 70% dos adolescentes portugueses têm peso normal.

“Terão os adolescentes portugueses uma alimentação adequada?” é o título da investigação integrada no estudo Health Behaviour in School aged Children (HBSC), um inquérito realizado de quatro em quatro anos em 48 países, em colaboração com a Organização Mundial de Saúde, sobre os comportamentos dos adolescentes.

Caracterizar os hábitos alimentares e perceções relativas ao corpo dos adolescentes foi o objetivo do estudo, que envolveu 6.997 alunos (51,7% meninas) do 6º, 8º e 10º ano.

Segundo o estudo, 54,7% dos adolescentes percecionam-se como tendo o corpo ideal. As meninas são as que mais se percecionam como estando “um pouco” gordas (28,5% versus 21,6%) e os rapazes “um pouco” magros (11,8 contra 17,3%).

Ao longo da escolaridade mais adolescentes tendem a considerar o seu corpo um pouco gordo ou muito gordo e uma menor percentagem considera ter um corpo ideal, refere o estudo divulgado a propósito do 10.º Congresso Internacional de Psicologia da Criança e do Adolescente, que decorre na quarta e quinta-feira em Lisboa.

Cerca de 45% e 33% dos adolescentes reportaram comer diariamente frutas e vegetais, respetivamente, enquanto um quarto disse consumir doces e colas (refrigerantes) quase todos ou todos os dias, sendo as raparigas a referirem um consumo mais frequente.

Ao longo da escolaridade, menos adolescentes referem tomar o pequeno-almoço diariamente e mais jovens dizem nunca o fazerem.

O estudo conclui que “os adolescentes portugueses têm comportamentos alimentares desajustados ao recomendado para esta faixa etária e que o excesso de peso e a imagem corporal são um problema relevante nesta população”.

Em declarações à agência Lusa, Nuno Loureiro, um dos autores do estudo, afirmou que existem alguns alunos que “não têm claro que têm excesso de peso, e se percebem [que o têm] terão a perceção que está sob controlo”.

“Alguns destes alunos poderão ser atletas, e com a pressão por obter um corpo ‘Ronaldo'” ou “simplesmente porque a sua modalidade assim o determina, têm práticas intensas de exercício com grande predomínio de ganho muscular, algo que influencia e muito a fórmula de cálculo de IMC [Índice de Massa Corpora]”, disse o professor do Instituto Politécnico de Beja.

Estes alunos entrarão no indicador em excesso de peso, mas terão satisfação com o seu peso, explicou.

Também podem existir alunos que efetivamente estão com excesso de peso, mas gostam de si: “estão satisfeitos como estão e são mais resistentes à mudança, digamos que podem ser classificados com estando no estado pré-contemplativo”, adiantou.

“A perceção da imagem do corpo não está muitas vezes ligada ao valor da classificação do IMC, pois os jovens apresentam um valor normal e continuam a reportar estarem insatisfeitos com o seu corpo”, sublinhou.

Nuno Loureiro advertiu que o indicador excesso de peso “não pode nem deve ser visto como uma correspondência inversa para a ideia de corpos bonitos, corpos de modelos ou da procura de abdominais de ferro, porque devido a fatores genéticos e outros fazem com que esta tarefa seja muito difícil para muitos”.

Considerou ainda “preocupante” 15,8% dos adolescentes terem excesso de peso e 3,1% obesidade, defendendo “estratégias efetivas” de apoio, como gabinetes multidisciplinares na escola, onde se concilie uma abordagem estruturada para alteração destes indicadores, “mas num ambiente sem culpas ou dramas, incentivando a adoção de estilos de vida saudável”.

A coordenadora do estudo HBSC em Portugal, Margarida Gaspar de Matos, acrescentou que ter uma alimentação saudável e moderada, rica em fibras e com baixo teor de gordura sal e açúcar, a par da atividade física, é essencial para combater o excesso de peso, mas reconheceu que muitas vezes é difícil pôr em prática na escola e em casa,

“Temos já conhecimento científico (dos profissionais e dos alunos), mas é difícil pôr em prática”, porque muitas vezes existe “um ‘ambiente’ não solidário ou não amigável” da alimentação saudável.

HN // ZO

Lusa/fim

 

 

As bebedeiras instantâneas dos miúdos

Abril 15, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Maria João Gala

Reportagem do Notícias Magazine de 6 de março de 2019.

Os miúdos portugueses bebem menos do que a média dos miúdos europeus – é uma boa notícia. Outra: o consumo de álcool entre menores tem vindo a diminuir paulatinamente há 12 anos. Mas há dois problemas: a iniciação nas bebidas alcoólicas fortes aos 13 anos é mais acentuada entre os portugueses e os casos das bebedeiras episódicas extremas, o célebre “binge drinking” em que bebem compulsivamente, estão a aumentar – e aqui há um número grave: em 2017, o INEM atendeu no país 1 270 menores em coma alcoólico, ou seja mais do que três por dia, todos os dias. Como bebem eles?

Texto de José Miguel Gaspar | Fotos de Maria João Gala/GI

As duas irmãs loiras começaram a beber juntas há cinco ou seis anos e continuam a beber juntas agora. São de Aveiro, são ambas bonitas, têm hoje 17 e 18 anos, a mais nova é mesmo muito bonita, tem a cara da supermodelo inglesa Rosie Huntington-Whiteley, que já foi a Splendid Angharad, uma personagem incontaminada de “Mad Max – Estrada da Fúria” (2015) em que a Imperatriz Furiosa conduzia com determinação de ferro e um só braço uma caravana motorizada de mulheres pelo apocalipse adentro em direção ao nascer do sol e à libertação do tirano Immortan Joe.

Foi no ano da estreia desse filme de George Miller, tinha a rapariga mais nova 14 anos e a irmã 15, que aconteceu o episódio da bebedeira no mar que só não acabou em desgraça porque não calhou, ainda hoje a mais velha recorda a tremer, olha, já estou toda arrepiada, diz ela a arregaçar um braço e a parar para o olhar.

Foi num dia de verão normal, tinham ido de férias com os pais para o Algarve e passavam grande parte do dia, e depois as noites também, horas seguidas sem os ver, casa, praia, piscina, às horas que cada um quisesse.

Nesse dia que acordou com algum tédio, começaram a beber as duas à tarde, o céu estava nublado, não havia grande coisa que fazer, o bar da casa estava bem nutrido. Começaram com vinho branco, depois passaram às cervejas, depois safaris-cola, variaram as bebidas sem beber muito só de uma para depois ninguém notar, havia de tudo na casa de férias, até copos pequeninos e tequila.

Os pais não estavam, tinham ido a uma expedição com outros pais, elas não, a música crepitava alta na sala branca de estar e elas riram-se que se fartaram, acabaram a tarde aos shots e a desfilar da sala para a varanda, a fazer poses, a voltear, a imitar as passarelas com os páreos a esvoaçar, a língua de fora, desfeitas no sofá a rir muito, a música muito alta, a barriga a doer de tanto rir.

Não se lembram quanto isto durou, nem quanto entornaram, mas adormeceram e quando acordaram já era noite e tinham as barrigas a roncar. McDonalds para as duas, batatas a dobrar, colas XL – McDonalds é o melhor cura ressacas, a nossa mãe também diz, dizem elas -, comem em casa, comem depressa, depois arranjam-se e vão sair.

Cruzam-se logo com um grupo de quatro miúdos ingleses que conheceram vagamente na piscina no dia anterior, eles eram mais velhos, 16 ou 17 anos, não tinham 18, nenhum, já traziam bebidas na mão, vinham tocados, e um deles uma mochila carregada a tilintar. Bebem na rua, a luz da lua abriu, a noite está quente, passeiam, correm, fingem que fogem, voltam a rir, gozam uns com os outros, os rapazes tinham as caras incendiadas do sol, riem agora todos muito, já estão na praia, vamos lá abaixo ver o luar.

Corre tudo lindamente, a noite rodava, o álcool rodava, o céu todo a estrelar, amanhã vai estar um rico dia de praia, e estão todos sentados em roda na areia a jogar ao penálti com copinhos de vodka preta e o absinto que saiu da mochila a tilintar.

E caiu de chapa na água, a cara para baixo e ficou ali

Eu lembro-me de estar muito bem, mesmo bem, diz a rapariga muito bonita de 17 anos que na altura tinha 14, lembro-me de estar maluca, eu sou tímida, estava alegre, solta, ria-me com tudo e com nada, maluca, e disse que queria ir ao mar. Não sei o que eles disseram, estávamos bêbados, todos bêbados, os ingleses estavam sempre a dizer penálti! e quando alguém diz penálti todos têm de beber o que tiverem no copo de uma vez, e eu levantei-me, ninguém me impediu, e fui.

Não me lembro de caminhar, não me lembro de chegar à água, lembro-me só que a água me dava pelos tornozelos e era quente, quentinha, e depois lembro-me, mas aqui lembro-me muito mal, de cair de chapa na água.

E ela ficou assim, diz agora a abrir muito os olhos a irmã que tem 18 anos e na altura tinha 15, caída de cara para baixo na água, não se mexia ou parecia que não se mexia, eu só via o vestido branco dela a ondular no mar. Também eu agora não me lembro bem, não sei se passou um minuto ou se passaram dez, mas lembro-me de repente de saltar na areia, parece que me passou logo a bebedeira, e já estou de pé na água com ela, já estou a levantá-la pelos braços, ela toda molhada, a virá-la, a tirar-lhe o cabelo da cara, a chamar por ela mas ela não respondia, pesava muito, caía, abria e fechava logo os olhos, não dizia nada, nada de nada.

Devo ter entrado em choque térmico e fiquei inconsciente, diz a primeira virada para a segunda ligeiramente envergonhada enquanto desenha círculos invisíveis no tampo da mesa do café onde as duas se vieram sentar. Não conseguia falar, não conseguia andar, eles disseram-me depois que tiveram que me arrastar até casa, a minha irmã e os ingleses, arrastaram-me mesmo, eu não mexia as pernas nem os pés, fui a arrastar como se estivesse desmaiada, e conseguiram subir comigo e deitar-me na cama sem que os pais, eles já tinham chegado e já se tinham deitado, dessem por nada, eram férias, deviam ser umas duas da manhã.

No dia a seguir quando acordei, continua ela a contar, tinha os lençóis pretos, todos pretos. Acordei bué de tarde, toda baralhada, só fazia perguntas à minha irmã, estava à toa, mas o que é que aconteceu? Vomitei-me toda, não me lembro, os lençóis ficaram assim por causa da vodka que era preta. E depois passei o dia a vomitar, inclusive no almoço de família, levantei-me duas vezes para ir à casa de banho gregar, disse aos pais que tinha comido fritos, eles dizem que os fritos fazem mal, os pais nunca souberam, ainda hoje não sabem que aquilo aconteceu.

Beberam dentro da sala de aula aos 14 anos

E ela e a irmã acendem mais um cigarro – não é bem acender, é mais dar um clique, ambas fumam dos cigarros curtos Oikos ou Heets que se enfiam numa maquineta que parece uma lapiseira gorda mas é só uma boquilha gorda -, há mais miúdos ali na mesa do café, uma outra rapariga loira de 17, outra de 18, morena, também muito bonita, parece uma jovem Jaclyn Smith dos “Anjos de Charlie”, os anjos originais de 1976 onde também estava a áurea Farrah Fawcet – a Farrah já morreu, ninguém se lembra porque ela morreu no mesmo dia do Michael Jackson -, na mesa também estão rapazes, um de 19 e outro de 20, e eles e elas, todos, também estão a fumar.

Também começaram a beber com 12, com 13 ou com 14, que são as idades com que dizem ter começado a sair livremente à noite. E a outra rapariga loira que é mais tímida e pareceria a Farrah se não tivesse o cabelo todo entrançado até à nuca a apertar, conta que ela e a morena uma vez, tinham 14 anos, andavam no 9.º ano, e a meio da tarde de uma segunda-feira resolveram comprar uma garrafa de vodka num minimercado, aqui compras na boa, a mulher da caixa nem olhou para mim, e desafiaram-se a beber, com mais quatro rapazes, dentro da aula de matemática. Foi na boa, a prof nem topou, diz a menina loira a cintilar orgulho ou pundonor ou um inchaço excêntrico desconjuntado do ego.

A prof de matemática não topou, mas a professora da aula a seguir, a de educação física, topou-os a todos à légua. Foram os rapazes que deram barraca, dizem elas, entraram no ginásio todos a abrir, a abandalhar, nós só nos ríamos, ela parou logo a aula, separou-nos dos outros e fomos ao diretor de turma. Tivemos que dizer tudo o que se passou e tivemos depois que escrever tudo e entregar uma folha cheia. E chamaram os nossos pais.

Dos rapazes não sei, dela, e aponta para a morena parecida com a Jaclyn, não a encontraram, a mãe dela não veio, e a minha deu-me um sermão, que seja a última vez, estás a ouvir?! Mas acho que ela não se chateou muito, diz a miúda, tanto foi que nem tocou mais no assunto no dia a seguir. Mas nesse ano eu chumbei, confessa ela a baixar os olhos, mas não foi do álcool, eu não queria nem gostava de estudar, também não preciso de estudar muito para passar, quero ir para a universidade, claro, a não ser que me saia o Euromilhões.

E a outra menina loira, a mais bonita de todas que parece a Splendid Angharad do “Mad Max”, a que esteve para se afogar com água pelos tornozelos, sente vontade de dizer: eu sou boa aluna, aliás sou a melhor aluna, tirei sempre as melhores notas da turma. E com isso clica mais um cigarro.

Há três crianças em coma alcoólico todos os dias

É impossível não termos visto as manchetes, em 2017 o Instituto Nacional de Emergência Médica atendeu 1 270 menores em coma alcoólico nos vários hospitais do país, são mais do que três por cada dia, são 3,4 casos registados em cada um dos dias do ano, “e isso é apenas a ponta do iceberg”, sublinhou na altura a secretária de Estado Adjunta e da Administração Interna, Isabel Oneto, enquanto a tutela lançava mais uma campanha de sensibilização que expunha os riscos das crianças enfrentarem consequências mais sérias do que uma ressaca.

Há miúdos muito novos que bebem muito, mesmo muito, o fenómeno “binge” veio como uma moda, ficou e ainda não passou, “binge drinking” é uma nova forma social de beber em grupo, muito popular entre os menores, é o epíteto moderno da bebedeira instantânea, bebe-se pesada e compulsivamente num período muito curto de tempo, como por exemplo engolir em cinco minutos cinco ou seis ou dez shots de vodka – há vodkas com 40% e há vodkas com 80% de álcool, como a Devil Springs de New Jersey, ou de 95%, como a Everclear, a mais forte do mundo, diz o Guinness, uma vodka sem odor, sem aroma, sem cor, o “intoxicante invisível”.

E entre o primeiro e o último shot não se sentiu nada, só um leve ardor interior, mas depois há uma súbita deflagração etílica, uma coisa de movimento vulcânico, e quando a bebedeira chega ferra imediatamente como um arpão, é uma moda perigosa o “binge”, é uma forma suicida de beber, diz Luís Almeida Santos, o diretor da Urgência Pediátrica do Hospital de S. João, no Porto.

O médico, que nunca mais esqueceu os quatro miúdos de 11 e 13 anos que atendeu na Urgência num domingo há muito tempo às oito da manhã – estiveram a vazar dezenas de fundos de garrafa do vidrão atrás de uma discoteca que havia no Shopping Dallas e a média alcoólica deles era superior a três gramas de álcool por litro de sangue, coma alcoólico, portanto, em crianças de 11 e 13 anos -, está agora a compilar e destrinçar os episódios brutos atendidos na Urgência de S. João em 2018. Foram 74 mil casos, falta separar os que são de menores de idade e, dentro desses, os que são episódios alcoólicos. Não espero uma diminuição, diz o especialista, e não me espantaria que houvesse um aumento.

Mas Luís Almeida Santos já desenredou os 348 mil episódios brutos atendidos na Urgência do hospital central do Porto que ocorreram entre 2014 e 2017. Entre esses todos, apontou 407 casos com menores em coma ou à beira desse estado patológico em que há perda de consciência, ausência ou redução das reações a estímulos e alteração nociva de funções vitais. E desdobrou os casos pelos quatro anos em que aconteceram. Sem surpresa, sublinhou o arco crescente: 90 casos em 2014, 95 em 2015, 112 em 2016 e 109 em 2017.

Aos 13 anos, um em cada três já começou a beber

Os consumos entre os jovens têm vindo a diminuir, tanto em Portugal como na Europa, é o que nos dizem os estudos da Organização Mundial de Saúde do ano passado com inquéritos feitos entre 2002 e 2014 a adolescentes de 15 anos. Nessa dúzia de anos, o consumo regular ao longo da semana desceu para metade, com 16% registados em 2002 e 8% registados em 2014.

A média europeia era de 28% em 2002 e desceu para 13% em 2014. Os nossos miúdos estão melhor do que os espanhóis (21% e 9% nos anos respetivos), do que os franceses (15% para 10%), do que os ingleses (47% para 9%, é uma das mais abruptas descidas na UE) e sobretudo muito melhor do que os miúdos gregos de 15 anos, que em 2002 registavam 30% de bebedores e em 2014 ainda têm 23% que admitem beber álcool ao longo da semana.

Mas os estudos do SICAD (Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências) e os exames do ESPAD (European School Survey Project on Alcohol and Other Drugs) feitos por diversos especialistas em 35 países europeus não são sossegadores. Ambos centraram-se em miúdos de 13 anos e no ano de 2015.

No primeiro estudo, só com portugueses, 31% admitia já ter experimentado álcool, sendo essa a substância mais consumida pelos adolescentes nas escolas públicas – é um número gravoso, praticamente um em cada três. No segundo, 47% dos miúdos europeus de 13 anos admitia já ter experimentado álcool – e um em cada 12 estudantes relatou já ter tido um episódio comatoso com essa tenra idade.

Evidentemente preocupado, muito preocupado, tanto como médico como cidadão, até porque não sabemos bem da realidade total, que há de ser pior do que a dos números das Urgências, diz o pediatra Luís Almeida Santos, tudo isto é altamente alarmante, muito preocupante.

Os números são uma avalancha e João Goulão, diretor do SICAD, concorda. Cita: em 2015, 48% dos menores de idade admitia já ter experimentado beber pela modalidade “binge” e em 2016 e 2017 esse número subiu e chegou aos 50%. É grave, gravíssimo, continua a aumentar. E há mais números que atestam uma evolução paulatina e lenta mas segura: em 2015, 83% de jovens com 18 anos admitia ter consumido álcool nos últimos 12 anos. Em 2016, o valor subiu para 84% e em 2017 para 85%.

A lei existe, mas a lei é contornada

A lei portuguesa que proíbe os menores de beber é recente e entrou em vigor em duas fases, ambas sob a regência do XIX Governo Constitucional liderado por Pedro Passos Coelho e pelo PSD/CDS-PP. A primeira foi adotada em 2013 e trancava a porta das bebidas alcoólicas aos menores, mas deixava duas janelas abertas. Dizia a lei que até aos 16 anos todo o álcool estava proibido, mas a partir dos 16, a idade com que se pode entrar numa discoteca, os menores podiam comprar dois tipos de bebidas: cerveja e vinho.

Na altura, a exceção foi enquadrada pelos nossos brandos costumes culturais – “Beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses”, dizia o marketing oficial dos tempos de Salazar – e pelo poder de lóbi das cervejeiras, que conseguiram impor junto do Governo a sua exceção. Seguiram-se dois anos de debate de uma lei pouco eficaz, discutiu-se por que é que havia um álcool bom e um álcool mau e dois anos depois concluiu-se que não, todo o álcool é nocivo. E a lei de 2015 proibiu tudo, cerveja, vinho, licores, aguardentes, brancas e espirituosas, tudo trancado em proibição até aos 18 anos e à maioridade. Fim de discussão.

Fim de discussão? João Goulão, que há duas décadas dirige o SICAD, diz: há ainda muita complacência social relativamente ao álcool entre menores, há adultos que passam álcool a crianças, facilitam, fecham os olhos, recalcam erros e valores culturais. E diz mais: em Portugal, o álcool é extremamente acessível, todas as casas têm álcool e os preços na rua descem cada vez mais; hoje é muito mais barato beber do que era há dez anos; há discotecas e bares em que o álcool custa tanto como a água! É preciso, evidentemente, mudar isto, e condicionar mais a oferta, conclui Goulão. Mas os miúdos riem-se da lei, sabem da lei e riem-se.

ASAE só identifica 12 menores por mês a beber

Os dados oficiais da Autoridade para a Segurança Alimentar e Económica (ASAE) estão cheios de icebergs de que só vemos a ponta. A lei de 2015 que proíbe a venda e consumo de álcool aos menores de 18 anos fará este ano quatro anos, mas a ASAE só consegue identificar, em média, 12 jovens por mês a beber em locais públicos. Em 2017, o número de menores identificados aumentou superficialmente quando comparado com o ano anterior: 108 em 2016, 133 em 2017.

O aumento está longe de representar a realidade, as violações são flagrantes, diz a associação sindical que representa a ASAE, admitindo ser muito difícil fiscalizar por exemplo em discotecas quando a idade para entrar é de 16 anos mas a idade para beber é de 18. E o sindicato sublinha que tem menos de 200 inspetores para ir à rua em todo o país e que aos fins de semana e à noite ainda tem menos operacionais a trabalhar.

Porto, Lisboa, Aveiro, só não vê quem não quer reparar

Os miúdos riem-se. São 11 da noite, eles são seis, dois rapazes, o resto raparigas, três delas falam brasileiro, o mais velho tem 19, o mais novo 16, estão juntinhos todos sentados numa ponta da escadaria do Palácio da Justiça, na Baixa do Porto, que fica nas costas do jardim de plátanos e grandes sombras da Cordoaria, onde tombam também os homens estatuificados de Juan Muñoz, “13 Que Riem Uns dos Outros”.

O que ali se vê e que se estende aos cafés do canto depois de se passar a colossal estátua esverdeada que segura a balança e a espada pousada, e ao Campo dos Mártires da Pátria, do outro lado do jardim onde há sempre juventude aos magotes e fumo azulado de haxixe no ar, não é diferente do que todos veem, mas muitas vezes sem ver realmente, isto é sem reparar, não é diferente do que se vê ao fim de semana em Lisboa, no Largo de Santos, nas ruas junto à cerca das mimosas do Jardim Nuno Álvares ou no Largo Vitorino Damásio ou, mais à frente, no Cais do Sodré, ou mais acima no Bairro Alto.

Como não é diferente daquilo que se avista nas ruas de luz branda amarela e calçada branca da Praça do Peixe em Aveiro ou na zona Red que fica encostada à Antiga Fábrica Jerónimo Pereira Campos com a sua enorme fachada de tijoleira de cor vulcânica com parques vermelhos abertos no miolo dos prédios de classe média. O que se vê em todos eles, à vista desarmada, é o mesmo: a maioria são maiores de idade, mas há sempre dezenas, centenas, de menores a passar, a parar, com copos e garrafas na mão, a continuar a beber.

Eu estou beeeem, diz o rapaz a cair nas escadas de cu

Eles empinam na pedra da escadaria do Palácio da Justiça as garrafas que saíram do saco largo de supermercado, duas de vodka Eristoff branca, duas de vodka Misss preta, duas de plástico de litro e meio de sumo sem marca cor de laranja luzente, e riem-se. Foi o mais velho que comprou, zero stress, diz ele, ou vão ao supermercado ou às lojas dos indianos ou trazem de casa, quem quer beber bebe sempre, não há cá stress, repete ele a rir.

Jantaram cada um em sua casa e só depois vieram para cá, só agora, 23 horas, uns vieram de Matosinhos, outros são do Porto, começaram a beber, mas o mais novo, o de 16, que já chegou todo quente e tem a cara e os olhos pretos parados de um Anthony Perkins imberbe, está claramente embriagado, espalma-se pelas escadas, retorcido, e é o centro das atenções. Vai beber o quinto shot, ou o 15.º, diz ele, não sei bem, os outros repetem o seu nome, repetem-no animadamente em crescendo, ele bebe de um só trago, levanta-se ou tenta levantar-se para fazer aquilo que parecia que seria uma vénia, mas cambaleia e cai de cu.

Eu estou bem, eu estou bem, diz ele a afastar desajeitadamente os braços das raparigas que o iam segurar, estou beeeem, deita a língua de fora e a língua é negra, toda negra da vodka pastosa Misss que parece mercúrio e sabe a amora traçada com álcool etílico. Estás bem, estás, diz o amigo mais velho a estender-lhe um chocolate para ele repor os níveis de açúcar, enquanto uma das miúdas brasileiras, elas as quatro trazem saias curtinhas, a que fala com sotaque do Porto também, unhas coloridas, afiadas e compridas, e começa a dar-lhe um sermão que ele não vai ouvir.

Logo a seguir há uma rodada para todos, roda a garrafa da Misss pastosa a tingir os copinhos plásticos brancos e uma das raparigas que está a segurar o copo com a mão esquerda diz de repente: direita é penálti, direita é penálti! E todos eles emborcam a vodka viscosa de supetão enquanto ela bebe a bebida aos golinhos engasgada a rir.

É meia-noite, passam no sopé das escadas e do granito do Palácio dois miúdos de skate a zarpar, do outro lado há um grupo ruidoso que está a brindar e a prolongar muito alto um bramido de éééééé, ouvem-se dois cavaquinhos a desafinar e o rapaz mais velho do primeiro grupo diz para o mais novo que está a cair de bêbado, é pá, tu bêbado és muito chato!

Depois alça-lhe um braço pelo pescoço, os dois descem as escadas da Justiça a bambolear, mais o mais novo do que o mais velho, anda, vamos mijar. E atravessam a estrada sem olhar, sobem o pequeno morro muito verde do jardim da Cordoaria, põem-se ao lado de uma das esculturas dos homens que tombam a rir uns dos outros do madrileno Muñoz, e acenam vigorosamente do outro lado para o grupo de cá, os dentes tingidos a sorrir pretidão.

 

 

 

Tráfico de crianças preocupa polícias portuguesas

Abril 12, 2019 às 6:00 am | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 29 de março de 2019.

Exploração sexual e laboral é fenómeno “a exigir controlo”, alerta RASI, que fala também nas adopções ilegais.

Ana Henriques

O tráfico de menores estrangeiros nas fronteiras aéreas portuguesas, quer para adopção ilegal quer para exploração sexual e laboral está a preocupar as autoridades portuguesas.

O alerta surge no mais recente Relatório Anual de Segurança Interna (RASI), relativo à criminalidade registada no ano passado. Apesar de dar conta de uma redução, em relação a 2017, do número de crianças que foram sinalizadas como tendo sido alvo de tráfico de pessoas, o documento diz que este é um fenómeno “a exigir controlo”.

Foram sinalizados 30 menores como presumíveis vítimas de tráfico, menos 15 que em 2017. São na sua maioria rapazes com idade média de 12 anos e cinco deles vinham de Angola.

No que respeita à restante criminalidade contra crianças e jovens residentes em Portugal, as queixas apresentadas às polícias dão conta de um recrudescimento dos abusos sexuais, mas também de um aumento, da ordem dos 13%, da violência doméstica e dos maus tratos ou sobrecarga de menores. Seja como for, a esmagadora maioria das detenções efectuadas pelas autoridades em 2018 por suspeitas de crimes contra a liberdade e autodeterminação sexual ainda diz respeito a crianças – sejam abusos ou pornografia.

“No quadro da exploração sexual de menores online os valores diminuíram”, sublinha o RASI. “As situações identificadas são praticadas em geral por indivíduos isolados”, tendo-se registado um aumento acentuado de aplicações encriptadas para trocar imagens e vídeos, como o WhatsApp e o Telegram.

Entre os adultos, destaca-se o aumento dos homicídios voluntários, que de um ano para o outro cresceram 34%. Como é habitual, a maioria dos assassinos foram homens e a maioria das vítimas mulheres. Elas morreram às mãos de pessoas que conheciam, e com as quais se relacionavam. Mesmo assim, o fenómeno da violência doméstica contra os cônjuges registou, entre 2017 e 2018, uma ligeira redução. Lisboa, Porto, Setúbal Aveiro e Braga continuam a ser os distritos onde existem mais queixas, a par da Madeira e dos Açores. Só resultaram em acusação 14% dos 32 mil inquéritos desencadeados no ano passado relativamente a este crime, tendo sido arquivados cerca de 21 mil processos – ou seja, 65%.

O relatório citado na notícia é o seguinte:

Relatório Anual de Segurança Interna 2018

 

 

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