ASAE identificou 20 menores a beber álcool no Porto

Março 8, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do http://observador.pt/ de 17 de fevereiro de 2018.

A ASAE identificou no último sábado 20 menores, entre os 15 e os 17 anos de idade, a consumir bebidas alcoólicas em estabelecimentos de diversão noturna na cidade do Porto.

A Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) identificou no último sábado 20 menores, entre os 15 e os 17 anos de idade, a consumir bebidas alcoólicas em estabelecimentos de diversão noturna no Porto.

Em comunicado, a ASAE explica que levou a cabo “uma operação dirigida a estabelecimentos de restauração e bebidas e de diversão noturna situados na zona urbana do Porto, com vista à fiscalização do cumprimento das restrições ao consumo e venda de bebidas alcoólicas em locais públicos e em locais abertos ao público”.

Recordando que “de acordo com a legislação em vigor é proibida a disponibilização e venda de bebidas alcoólicas a menores de 18 anos e a quem se apresente notoriamente embriagado ou aparente possuir anomalia psíquica”, a ASAE informa também que identificou “quatro indivíduos, responsáveis pela venda e disponibilização de bebidas alcoólicas aos menores de idade”.

“Na mesma operação, foram também identificados sete indivíduos a fumar em local proibido, sendo que três deles eram menores de idade”, acrescenta ainda a nota da ASAE.

 

 

 

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A Islândia travou o consumo excessivo de álcool e drogas entre os adolescentes, mas o resto do mundo não está a prestar atenção

Março 1, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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© Dave Imms

Texto do http://observador.pt/ de 27 de janeiro de 2018.

Ao longo dos últimos 20 anos, o consumo de tabaco, álcool e drogas entre os adolescentes diminuiu drasticamente na Islândia. Emma Young foi tentar perceber como e porque razão o modelo não é copiado.

Faltam poucos minutos para as três da tarde numa sexta-feira soalheira e o Parque Laugardalur, perto do centro de Reiquejavique, está praticamente vazio. Vê-se um ou outro adulto a empurrar um carrinho de bebé, mas há prédios e casas a toda a volta do parque, e já acabaram as aulas – onde andam os miúdos?

Neste passeio pelo parque acompanham-me o islandês Gudberg Jónsson, psicólogo, e o norte-americano Harvey Milkman, professor de psicologia, que durante uma parte do ano dá aulas na Universidade de Reiquejavique. Há vinte anos, diz Gudberg, os adolescentes islandeses eram dos que mais bebiam na Europa. “Não se podia andar na baixa de Reiquejavique às sextas à noite, era perigoso”, acrescenta Milkman. “Havia hordas de adolescentes a embebedar-se, ficavam violentos.”

Estamos a chegar a um grande edifício: “E aqui é o ringue coberto de patinagem”, diz Gudberg.

Há uns minutos, tínhamos passado por dois pavilhões dedicados ao badminton e ao pingue pongue. No mesmo parque há também uma pista de atletismo, uma piscina de água aquecida por energia geotérmica e – finalmente! – avistam-se uns poucos miúdos, entretidos a jogar futebol num campo com relva artificial.

Gudberg explica que a razão pela qual não vemos miúdos cá fora é porque estão a ter aulas nestes edifícios, ou em clubes dedicados à música, à dança ou às artes visuais. Ou porque foram sair com os pais.

Atualmente, a Islândia está no topo da tabela europeia no que diz respeito à percentagem de adolescentes com hábitos saudáveis. A percentagem de miúdos entre os 15 e os 16 anos que ficaram embriagados no mês anterior desceu a pique, de 42 por cento em 1998 para 5 por cento em 2016. Os que já experimentaram canábis passaram de 17 para 7 por cento. Os que fumam tabaco todos os dias passaram de 23 para apenas 3 por cento.

O método radical através do qual esta reviravolta foi alcançada baseou-se em dados concretos, mas também depende muito daquilo a que poderíamos chamar “senso comum forçado”. “Este é o estudo mais intenso e profundo do impacto do stress nas vidas dos adolescentes que alguma vez vi”, diz Milkman. “Fico muito impressionado pela eficácia que está a ter.”

Se fosse adotado noutros países, defende Milkman, o modelo islandês poderia contribuir para o bem-estar físico e psicológico de milhões de adolescentes, reduzir as despesas com cuidados de saúde dos estados e beneficiar a sociedade como um todo. Mas é um grande “se”.

“Estive no centro do furacão durante a revolução das drogas”, explica Milkman enquanto tomamos chá no seu apartamento em Reiquejavique. No início da década de 1970, quando estagiou no Hospital Psiquiátrico da Bellevue, em Nova Iorque, “o LSD já estava na moda, e muita gente fumava marijuana. E na altura havia muita curiosidade acerca das razões pelas quais as pessoas tomavam certas drogas.”

A tese de doutoramento de Milkman concluía que as pessoas escolhiam a heroína ou as anfetaminas dependendo da maneira como preferiam lidar com o stress e a ansiedade. Quem procurava a heroína queria adormecer os sentidos; os que recorriam às anfetaminas queriam enfrentar o que os atormentava. Após a publicação deste trabalho, Milkman fez parte de um grupo de investigadores recrutados pelo Instituto Nacional da Toxicodependência dos EUA cuja função era responder a perguntas como: porque é que as pessoas começam a recorrer às drogas? O que as faz continuar? Quando é que passam o limiar da dependência? O que as faz parar? E em que circunstâncias têm recaídas?

“Qualquer estudante universitário nos saberia dizer: porque é que começam? Bem, porque as drogas estão disponíveis, porque as pessoas gostam de correr riscos, porque querem alhear-se, se calhar porque estão um bocado deprimidas”, afirma. “Mas porque é que continuam? Quando me debrucei sobre o limiar da dependência fez-se luz – foi a minha pequena epifania: é possível passar o limiar da dependência mesmo antes de se experimentar qualquer droga, porque aquilo de que as pessoas realmente abusam é da sua maneira de lidar com os problemas.”

Na Universidade Estadual Metropolitana de Denver, Milkman foi um dos grandes impulsionadores da ideia de que as pessoas estavam a ficar viciadas nas alterações químicas do cérebro. Os miúdos que procuravam o confronto queriam emoções fortes – e conseguiam-nas ao roubar jantes de automóveis, autorrádios e, mais tarde, carros, ou através de drogas estimulantes. O álcool também provoca alterações químicas no cérebro. É um sedativo cujo efeito começa por se fazer sentir no controlo cerebral, podendo assim retrair inibições e, em doses limitadas, reduzir a ansiedade.

“As pessoas podem ficar viciadas em álcool, carros, dinheiro, sexo, calorias, cocaína – seja o que for”, diz Milkman. “A ideia de dependência comportamental tornou-se a nossa imagem de marca.”

Esta ideia deu origem a outra: “Porque não desenvolver um movimento social em torno das ‘pedradas naturais’, da ideia de que é possível atingir esse estado alterado através da química cerebral de cada um – já que me parece evidente que as pessoas querem alterar a sua consciência – sem os efeitos nefastos das drogas?”

Em 1992 a equipa de Milkman em Denver obteve uma bolsa de 1,2 milhões de dólares do governo dos EUA para desenvolver o Projeto Autodescoberta, que propunha alternativas de “pedradas naturais” aos adolescentes, que não implicavam consumir drogas nem cometer crimes. Os participantes eram-lhes indicados por professores, enfermeiros e psicólogos escolares, adolescentes a partir dos 14 anos que não sentiam precisar de tratamento, mas que tinham tido problemas com drogas ou cometido delitos de pouca gravidade.

“Não os chamávamos para virem receber tratamento. O que lhes dizíamos era, podemos ensinar-vos qualquer coisa que queiram aprender: música, dança, hip hop ou artes marciais.” A ideia era que estas aulas diferentes podiam provocar alterações na química cerebral dos miúdos, e dar-lhes aquilo de que precisavam para estar melhor no mundo: alguns podiam estar à procura de maneiras de reduzir a ansiedade, outros de emoções fortes.

Ao mesmo tempo, os participantes aprendiam ferramentas fundamentais para a vida, com o intuito de melhorar a forma como se viam a si próprios, e a sua interação com os outros. “Baseámo-nos no princípio básico de que a educação contra a droga não funciona porque ninguém lhe presta a mínima atenção. Aquilo de que os adolescentes precisam é de ferramentas para lidar com essa informação”, diz Milkman. Foi dito aos miúdos que se tratava de um programa de três meses. Alguns acabaram por ficar durante cinco anos.

Em 1991, Milkman foi convidado a ir à Islândia para falar sobre este trabalho, e sobre as suas descobertas e ideias. Tornou-se consultor do primeiro centro de tratamento residencial para adolescentes na Islândia, em Tindar. “O centro foi desenvolvido a partir da ideia de propor alternativas melhores aos miúdos”, explica. Foi aí que conheceu Gudberg, que na altura era estudante de psicologia e voluntário em Tindar. São grandes amigos desde então.

Milkman começou a vir regularmente à Islândia para dar palestras. Estas palestras, assim como o centro de Tindar, chamaram a atenção de uma jovem investigadora da Universidade da Islândia, Inga Dóra Sigfúsdóttir. Perguntava-se: e se pudéssemos usar estas alternativas saudáveis às drogas e ao álcool como parte de um programa que, em vez de ser direcionado aos miúdos com problemas, tivesse o objetivo de fazer com que os miúdos não chegassem a beber ou a experimentar drogas?

Já alguma vez bebeste álcool? Se sim, quando foi a última vez que bebeste um copo? Já alguma vez ficaste bêbado? Já fumaste tabaco? Se sim, com que frequência fumas? Quanto tempo passas com os teus pais? Tens uma boa relação com os teus pais? Em que atividades participas?

Em 1992, os adolescentes de 14, 15 e 16 anos de todas as escolas da Islândia preencheram um questionário com perguntas como estas. O processo foi repetido em 1995 e 1997.

Os resultados destes inquéritos revelaram-se preocupantes. A nível nacional, quase 25 por cento dos adolescentes fumavam todos os dias, e mais de 40 por cento tinham ficado embriagados no mês anterior. Mas ao estudar os dados ao pormenor, a equipa percebeu quais eram as escolas que tinham os problemas mais graves – e as que tinham menos. A sua análise revelou a existência de diferenças muito claras entre as vidas dos miúdos que começavam a beber, a fumar e a tomar drogas e as daqueles que não o faziam. Alguns fatores mostraram ser determinantes na proteção dos adolescentes: participarem em atividades organizadas – sobretudo desporto – três ou quatro vezes por semana, passarem um número significativo de horas com os pais durante a semana, serem bem tratados na escola e não saírem de casa durante a noite.

“À época, havia uma série de programas de prevenção da dependência, e faziam-se muitos esforços nesse sentido”, diz Inga Dóra, que trabalhou como investigadora auxiliar nos inquéritos. “Baseavam-se sobretudo na educação.” Os miúdos eram avisados acerca dos perigos do álcool e das drogas, mas, tal como Milkman tinha constatado nos EUA, estes programas não eram eficazes. “Queríamos desenvolver uma abordagem nova.”

O presidente da câmara de Reiquejavique também tinha vontade de experimentar outra abordagem, e muitos pais sentiam o mesmo, acrescenta Jón Sigfússon, colega e irmão de Inga Dóra. Jón tinha filhas adolescentes na altura e juntou-se ao novo Centro Islandês de Investigação Social a que a irmã pertencia quando foi fundado, em 1999. “A situação era preocupante”, afirma. “Era evidente que se tinha de fazer alguma coisa.”

Recorrendo aos dados obtidos através dos inquéritos e aos resultados de investigações anteriores, incluindo a de Milkman, foi implementado gradualmente um novo plano nacional. Chamava-se Juventude na Islândia.

Mudaram-se as leis. Passou a ser ilegal comprar tabaco aos menores de 18 anos e álcool aos menores de 20, e a publicidade ao tabaco e ao álcool foi proibida. A ligação entre as escolas e os pais foi reforçada através da criação obrigatória de associações de pais, assim como da inclusão de representantes dos pais nos conselhos escolares. Os pais eram incentivados a ir a palestras sobre a importância de passar uma quantidade significativa de tempo com os filhos, mais do que “tempo de qualidade” esporádico, de falar com os filhos sobre as suas vidas, de saber quem eram os amigos dos filhos e de fazer com que eles passassem as noites em casa.

Também foi promulgada uma lei que proibia as crianças entre os 13 e os 16 anos de idade de estarem fora de casa depois das dez da noite no inverno e da meia noite no verão. Ainda está em vigor.

O Casa e Escola, o programa nacional das associações de pais, propôs a criação de acordos que os pais deveriam assinar. O conteúdo dos acordos varia de acordo com a faixa etária, e cada associação pode decidir o que é contemplado. Para os miúdos com mais de 13 anos, os pais podem comprometer-se a seguir todas as recomendações assim como, por exemplo, a não permitir que os filhos façam festas sem a supervisão de adultos, a não comprar bebidas alcoólicas a menores e a estar atentos ao bem-estar das outras crianças.

Estes acordos educam os próprios pais, mas também ajudam a fortalecer a sua autoridade em casa, defende Hrefna Sigurjónsdóttir, diretora do Casa e Escola. “Assim torna-se difícil usar a desculpa mais velha do mundo: ‘Mas os outros pais deixam!’”

O estado aumentou o financiamento atribuído às atividades desportivas, às artes, à dança e a outros clubes, de forma a que os miúdos tivessem acesso a formas alternativas de pertencer a um grupo, e de se sentirem bem, sem recorrerem às drogas e ao álcool. As crianças provenientes de famílias de baixo rendimento receberam apoios para poderem participar. Em Reiquejavique, por exemplo, onde vive mais de um terço da população do país, o Cartão de Lazer atribui 35 mil coroas islandesas (280 euros) por ano às famílias para atividades recreativas.

Muito importante também é o facto de os inquéritos terem continuado a ser feitos. A cada ano, são preenchidos praticamente por todas as crianças que vivem na Islândia.

Entre 1997 e 2012, a percentagem de miúdos entre os 15 e os 16 anos que dizem passar todos ou quase todos os dias da semana com os pais duplicou – de 23 para 43 por cento – e a percentagem que participa em atividades desportivas organizadas pelo menos quatro vezes por semana aumentou de 24 para 42 por cento. Entretanto, o consumo de tabaco, bebidas alcoólicas e cannabis nesta faixa etária desceu a pique.

“Embora não possamos provar que existe uma relação de causa-efeito – o que é um bom exemplo das razões pelas quais é difícil convencer os cientistas de que estes métodos de prevenção primária são eficazes – a tendência é muito clara”, observa Álfgeir Kristjánsson, que tratou estes dados e que agora pertence à Escola de Saúde Pública da Universidade da Virgínia Ocidental, nos EUA. “Os fatores de proteção aumentaram, os fatores de risco diminuíram, e a dependência de drogas e álcool diminuiu – e de forma mais consistente na Islândia do que em qualquer outro país europeu.”

“Até a Suécia se ri de nós, chamam-lhe o recolher obrigatório infantil”

Jón Sigfússon pede desculpa por ter chegado dois minutos atrasado. “Tive de resolver uma crise por telefone!” Embora prefira não dizer ao certo com quem esteve a falar, a chamada foi para uma das cidades noutros países do mundo que adotaram, em parte, as ideias do programa Juventude na Islândia.

O programa Juventude na Europa, que Jón lidera, teve início em 2006, depois de os dados estatísticos já bastante admiráveis da Islândia terem sido apresentados numa reunião das Cidades Europeias Contra as Drogas onde, segundo se lembra, lhe perguntaram: “O que estão a fazer?”

A participação no Juventude na Europa é feita através de iniciativas municipais, e não dos governos de cada país. No primeiro ano, inscreveram-se oito municípios. Até à data, participaram 35, em 17 países, desde áreas onde existem poucas escolas até Tarragona, em Espanha, onde o programa implica 4200 estudantes de 15 anos. O método é sempre igual: Jón e a sua equipa falam com os responsáveis locais e desenvolvem um questionário baseado nas mesmas perguntas principais que são usadas na Islândia, às quais se acrescentam outras que variam conforme o local. Por exemplo, as apostas online estão a tornar-se num problema grave em determinados sítios, e os responsáveis locais querem saber até que ponto é que se relacionam com outros comportamentos de risco.

Passados apenas dois meses de os questionários serem devolvidos à Islândia, a equipa envia um relatório preliminar com os resultados, assim como uma análise comparativa baseada nas outras regiões que participam no programa. “Costumamos dizer que, tal como a fruta e os legumes, a informação tem de ser fresca”, diz Jón. “Se estas análises fossem apresentadas um ano depois, as pessoas diriam, ‘Pois, mas foi há muito tempo, e se calhar as coisas mudaram entretanto…” Para além de ser fresca, a informação tem de ser local, para que as escolas, os pais e os responsáveis políticos saibam exatamente que problemas existem numa determinada área.

A equipa analisou 99 mil questionários oriundos de locais tão diferentes como as Ilhas Faroé, Malta e a Roménia – assim como da Coreia do Sul, e, muito recentemente, de Nairobi e da Guiné-Bissau. Em termos gerais, os resultados mostram que no que diz respeito ao abuso de determinadas substâncias por parte dos adolescentes, aplicam-se os mesmo fatores de risco e de proteção. No entanto, há algumas diferenças: num dos municípios (num país “do Báltico”), a participação em atividades desportivas organizadas revelou ser um fator de risco. Ao investigar este revés, descobriu-se que tal se devia ao facto de os clubes serem orientados por jovens ex-militares com propensão para o consumo de esteroides e anabolizantes comuns entre os culturistas, assim como para fumar e beber.

Embora Jón e a sua equipa apresentem todas as informações acerca do que mostrou ser eficaz na Islândia, cabe a cada uma das comunidades que participam decidir o que fazer face aos seus resultados. Em certas situações, decidem não fazer nada. Um país de maioria muçulmana (cuja identidade não nos revela) rejeitou os dados por considerar que revelavam um nível inaceitável de consumo de álcool. Noutras cidades – como aquela cuja crise Jón tentou resolver pelo telefone – apesar de haver abertura face aos dados e dinheiro para gastar, as equipas têm verificado que é muito mais difícil captar e manter financiamento para estratégias de prevenção de saúde do que para tratamentos.

Mais nenhum país fez mudanças à escala das que se verificam na Islândia. Quando lhe perguntamos se nalgum lugar foi copiada a lei que obriga as crianças a ficar em casa durante a noite, Jón sorri. “Até a Suécia se ri de nós, chamam-lhe o recolher obrigatório infantil.”

Em toda a Europa, as taxas de consumo de álcool e drogas por parte dos adolescentes têm vindo a reduzir-se longo dos últimos vinte anos, mas em nenhum país isso aconteceu de forma tão drástica como na Islândia. E as razões para estas melhorias não estão necessariamente ligadas a estratégias que promovem o bem-estar entre os adolescentes. No Reino Unido, por exemplo, o facto de os adolescentes passarem mais tempo em casa a comunicar online do que em pessoa é uma das principais razões que explica a descida no consumo de bebidas alcoólicas.

Mas Kaunas, na Lituânia, é um exemplo do que pode ser conseguido através de uma intervenção ativa. Desde 2006, a cidade distribuiu estes questionários cinco vezes, e as escolas, os pais, as organizações de cuidados de saúde, as igrejas, a polícia e os serviços sociais uniram-se para tentar melhorar o bem-estar das crianças e reduzir o uso de álcool e drogas. A título de exemplo, os pais têm direito a participar em oito ou nove sessões de aconselhamento parental por ano, e há um novo programa que encaminha apoios suplementares a instituições públicas e organizações não-governamentais da área da saúde mental. Em 2015, a cidade começou a oferecer atividades desportivas gratuitas às segundas, quartas e sextas, e está a ser planeado um serviço gratuito de transporte para as famílias de baixo rendimento, para que as crianças que vivem longe das instalações desportivas também possam participar.

Entre 2006 e 2014, o número de adolescentes entre os 15 e os 16 anos que referiram ter estado embriagados nos 30 dias anteriores desceu cerca de 25 por cento, e houve uma redução de mais de 30 por cento entre os que disseram fumar diariamente.

Atualmente, a participação no Juventude na Europa é bastante dispersa, e a equipa na Islândia é pequena. Jón gostaria que surgisse um organismo central com financiamento próprio dedicado à expansão do programa na Europa. “Embora estejamos a desenvolver este trabalho há dez anos, não é a nossa função principal, a tempo inteiro. Gostávamos muito que alguém copiasse este modelo e o implementasse em toda a Europa”, afirma. “E porquê nos havemos de limitar à Europa?”

Jón e Birgir, os futebolistas

Depois do passeio pelo Parque Laugardalur, Gudberg Jónsson convida-nos para irmos a sua casa. Cá fora, no jardim, os seus dois filhos mais velhos, Jón Konrád, de 21 anos, e Birgir Ísar, de 15, conversam comigo sobre beber e fumar. Jón bebe, mas Birgir diz que não conhece ninguém na escola que fume ou beba. Também falamos sobre os treinos de futebol: Birgir tem cinco ou seis treinos por semana; Jón, que está no primeiro ano da faculdade, num curso de gestão na Universidade da Islândia, treina cinco vezes por semana. Começaram ambos a treinar regularmente depois das aulas quando tinham seis anos.

“Temos imensos instrumentos musicais em casa”, tinha-me dito o pai dos rapazes. “Tentámos que se interessassem por isso. E já tivemos um cavalo. A minha mulher gosta muito de andar a cavalo. Mas não aconteceu. Acabaram por escolher o futebol.”

Alguma vez lhes pareceu demasiado? Sentiram pressão para ir aos treinos quando lhes apetecia fazer outra coisa qualquer? “Não, divertíamo-nos a jogar futebol”, diz Birgir. Jón acrescenta, “Experimentámos e habituámo-nos a jogar, por isso fomos continuando.”

E não é só isso que fazem. Embora Gudberg e a sua mulher, Thórunn, não planeiem meticulosamente passar um determinado número de horas por semana com os três filhos, acabam por levá-los muitas vezes ao cinema, ao teatro, a jantar fora, a fazer caminhadas, à pesca e até em expedições familiares de pastorícia, quando as ovelhas da Islândia são trazidas do cimo dos montes em setembro.

Jón e Birgir podem ser particularmente dedicados ao futebol, e particularmente talentosos (graças ao futebol, Jón recebeu uma bolsa de estudo da Universidade Estadual Metropolitana de Denver, e poucas semanas depois do nosso encontro, Birigir foi chamado para jogar na seleção nacional de sub-17). Mas será que o aumento significativo da percentagem de miúdos que fazem desporto quatro ou mais vezes por semana poderá conduzir a outros benefícios, para lá da saúde das crianças?

Será que, por exemplo, terá tido alguma coisa a ver com a vitória esmagadora da Islândia sobre a Inglaterra no Campeonato Europeu de Futebol de 2016? Quando lhe perguntamos isso mesmo, Inga Dóra Sigfúsdóttir sorri: “Também temos tido bastante sucesso na música, com os Of Monsters and Men [uma banda indie-folk de Reiquejavique], por exemplo. São jovens que foram incentivados a trabalhar em equipa. Já me agradeceram algumas vezes”, diz, piscando o olho.

Noutros países, as cidades que se juntaram ao Juventude na Europa têm dado conta de outros benefícios. Em Bucareste, por exemplo, a taxa de suicídios entre os adolescentes tem estado a decair, em paralelo com o consumo de álcool e drogas. Em Kaunas, o número de crianças que cometeram crimes desceu um terço entre 2014 e 2015.

Como diz Inga Dóra: “Através desta investigações, ficámos a saber que precisamos de criar as circunstâncias nas quais os miúdos possam viver de forma saudável, em que não sintam a necessidade de recorrer a substâncias como o álcool e as drogas, porque percebem que a vida é divertida e há muitas coisas para fazer – e sabem que têm o apoio dos pais, que passam bastante tempo com eles.”

Mas a Islândia é um país pequeno…

Trezentos e vinte e cinco milhões de habitantes contra trezentos e trinta mil. Trinta e três mil gangues contra praticamente nenhum. Cerca de um milhão e trezentos mil jovens sem abrigo contra meia dúzia.

Claramente, nos EUA há desafios que não existem na Islândia. Mas os dados recolhidos noutras zonas da Europa, incluindo cidades como Bucareste, onde existem problemas sociais graves e um grau considerável de pobreza, demonstram que o modelo islandês pode funcionar em culturas muito diferentes, defende Milkman. E a necessidade de um programa como este nos EUA é grande: cerca de 11 por cento do álcool a nível nacional é consumido por menores, e o consumo excessivo de bebidas alcoólicas é responsável por mais de 4300 mortes por ano entre os menores de 21.

No entanto, é improvável que venha a ser implementado um programa semelhante ao islandês a nível nacional nos EUA. Um dos maiores impedimentos a uma tal iniciativa é que, ao contrário do que acontece na Islândia, onde se estabeleceu um compromisso a longo prazo face a este projeto nacional, nos Estados Unidos os programas de saúde dirigidos às comunidades são por norma apoiados por bolsas a curto prazo.

Milkman aprendeu a custo que nem os programas mais inovadores e elogiados nem sempre são alargados, ou mesmo mantidos. “Quando criámos o Projeto Autodescoberta, estávamos convencidos de que aquele era o melhor programa do mundo”, explica. “Fui convidado por duas vezes a ir à Casa Branca. O projeto ganhou prémios a nível nacional. Na altura pensei: este programa vai ser copiado e adotado em todas as cidades e aldeias. Mas não foi.”

Concluiu que isso se deve ao facto de não ser possível estabelecer um modelo genérico para todas as comunidades, uma vez que nem todas têm os mesmos recursos. Qualquer tentativa de apresentar aos miúdos nos EUA a oportunidade de participar nas atividades que se tornaram comuns na Islândia, e de os ajudar a não se iniciarem no consumo de álcool e drogas, terá de se apoiar nas estruturas que já existam. “É necessário recorrer aos recursos de cada comunidade“, explica.

Álfgeir Kristjánsson, colega de Milkman, está a apresentar as ideias islandesas no estado da Virgínia Ocidental. Estão a ser distribuídos inquéritos nalgumas escolas básicas e secundárias do estado, e há um coordenador local cujo papel é ajudar a divulgar os resultados junto dos pais e de quaisquer outras pessoas que os possam utilizar para ajudar os miúdos da zona. Mas admite que será difícil atingir os resultados que se verificam na Islândia.

Esta visão a curto prazo também impede o estabelecimento de estratégias eficazes de prevenção no Reino Unido, diz Michael O’Toole, diretor executivo da Mentor, uma instituição de caridade cujo objetivo é reduzir o uso de álcool e drogas entre as crianças e os adolescentes. Esse trabalho acaba por ficar nas mãos das autoridades locais ou das escolas, o que muitas vezes significa que os miúdos se limitam a receber informações sobre os riscos associados ao consumo de drogas e de álcool – estratégia que, reconhece, não tem dado provas de funcionar.

O’Toole está completamente rendido à política islandesa de sublinhar a importância de os pais, a escola e a comunidade trabalharem em conjunto para apoiar as crianças, e de chamar os pais e os encarregados de educação a ter um papel mais interventivo na vida dos adolescentes. Criar mais e melhores apoios para os miúdos é essencial, sublinha. Mesmo no que toca apenas ao álcool e ao tabaco, os dados indicam sem margem para dúvidas que quanto mais velha uma criança for quando fumar o primeiro cigarro ou beber a primeira bebida alcoólica, mais saudável será ao longo da vida.

Mas nem todas estas estratégias seriam aceitáveis no Reino Unido – a começar pelo recolher obrigatório das crianças, passando, muito provavelmente, pela ideia de os pais andarem pelos bairros a verificar se há crianças a quebrar as regras. E a experiência-piloto levada a cabo pela Mentor em Brighton, que implicava convidar os pais a aparecer nas escolas e participar em seminários, revelou que é muito difícil despertar o seu interesse.

A desconfiança do público em geral e a falta de vontade de participar de forma proativa no programa são os maiores desafios onde quer que se tente implementar os métodos islandeses, considera Milkman, porque dizem respeito a questões fundamentais como o equilíbrio da responsabilidade entre os cidadãos e os estados. “Até que ponto é que estão dispostos a deixar o estado controlar as atividades dos vossos filhos? Isto não será uma interferência demasiado grande do governo na vida das pessoas?“

Na Islândia, a relação que se estabeleceu entre os cidadãos e o estado tem permitido que um programa nacional eficaz reduza drasticamente a percentagem de miúdos que fumam e bebem demasiado – e, no mesmo movimento, tem aproximado as famílias e ajudado as crianças a tornar-se mais saudáveis, de todas as maneiras. Será que mais nenhum país está disposto a decidir que estes benefícios justificam os custos?

Tradução: Francisca Cortesão

Este texto foi originalmente publicado no site Mosaic Science

 

Cigarros electrónicos aumentam vício nos jovens

Fevereiro 19, 2018 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do http://p3.publico.pt/ de 24 de janeiro de 2018.

Relatório da Academia de Ciências e Medicina dos Estados Unidos conclui que fumar cigarros electrónicos é menos perigoso para a saúde dos adultos, mas aumenta o risco de vício no jovens

Texto de P3/Lusa

Fumar cigarros eletrónicos aumenta o risco de vício nos jovens, mas é menos perigoso para a saúde dos adultos do que os convencionais, com tabaco, revela um relatório da Academia de Ciências e Medicina dos Estados Unidos.

De acordo com o relatório publicado na terça-feira, e que analisou 800 estudos científicos, a nicotina presente nos cigarros electrónicos pode criar vício junto dos jovens, encorajando-os a fumar tabaco. Ainda assim, segundo a mesma publicação, os cigarros electrónicos são menos nocivos do que os cigarros convencionais para os adultos, podendo também ajudar a parar de fumar.

Os investigadores da Academia Nacional de Ciências, Engenharia e Medicina dos Estados Unidos sublinham, no entanto, que ainda faltam estudos. “Nesta fase, não é possível saber se o cigarro electrónico tem um impacto positivo ou negativo para a saúde pública”, ressalva o relatório. “Os cigarros electrónicos não podem simplesmente ser considerados melhores ou piores”, defende David Eaton, docente da Universidade de Washington em Seattle e presidente do conselho editorial do relatório, encomendado pelo congresso norte-americano há dois anos e agora conhecido.

Para o especialista, “os efeitos adversos dos cigarros eletrónicos sobre a saúde de adolescentes e de adultos que não fumam tabaco também merecem alguma preocupação”, desde logo pelo vapor que é emitido. Ainda assim, David Eaton reforçou que usá-los “pode ser uma maneira de reduzir o tabagismo, que afecta a saúde”. Os investigadores sustentam que seriam necessários mais estudos científicos para perceber os efeitos desta utilização a longo prazo.

 

 

LPCC e ACP lançam iniciativa “Carros Sem Fumo” para alertar para o impacto nocivo de fumar no interior das viaturas, inclusive transportando crianças

Janeiro 11, 2018 às 6:00 am | Publicado em Campanhas em Defesa dos Direitos da Criança | Deixe um comentário
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A Liga Portuguesa Contra o Cancro em parceria com o Automóvel Clube de Portugal (ACP) lança a ação Carros Sem Fumo com o objetivo de alertar para o impacto nocivo de fumar no interior das viaturas.

A Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC) e o Automóvel Clube de Portugal (ACP) apresentaram dia 27 de novembro, pelas 10h, na Escola Básica António Rebelo de Andrade, em Oeiras, a ação CARROS SEM FUMO. O objetivo prioritário do projeto é a sensibilização dos portugueses, em geral, para um comportamento responsável no que respeita ao consumo do tabaco em deslocações de automóvel, com especial preocupação quanto ao impacto que este ato tem sobre crianças e idosos.

Após a realização de um estudo por parte do ACP junto dos seus associados – ver ficha técnica no final – as conclusões revelam que ainda há muito trabalho que pode e deve ser feito no que respeita à educação e sensibilização dos portugueses em torno dos hábitos de consumo de tabaco, em particular quando se deslocam de carro.

Os principais resultados do estudo indicam que:

90% dos inquiridos desconhece que o nível médio de partículas tóxicas libertadas pelo tabaco e respiradas numa viagem de carro é cinco vezes superior à média das partículas tóxicas no ar, mesmo em cidades muito poluídas;

Apenas 20% dos inquiridos sabe que 85% do fumo passivo é invisível e sem odor;

Mais de 50% dos inquiridos fumadores afirma fumar dentro da viatura;

Mais de 10% do total dos inquiridos afirma ter-se deslocado pelo menos uma vez nos 30 dias anteriores numa viatura em que estivesse alguém a fumar na presença de uma criança, adolescente, jovem ou idoso.

Para Vítor Veloso, Presidente da LPCC, “estes dados são preocupantes pelo que há necessidade de dar continuidade a uma das principais acções da Liga Portuguesa Contra o Cancro – a Prevenção Primária. “

“Cada cigarro contém mais de 4.800 substâncias químicas nocivas, sendo que destas, 60 são potencialmente causadoras de cancro. Se considerarmos que 85% do fumo passivo é invisível e inodoro, facilmente se percebe que fumar no interior do carro é um ato que se perpetua muito para lá dos breves minutos de consumo.”

Por estes motivos faz um apelo: – “Faça do seu carro um carro livre de fumo. Faça da sua família uma família livre de fumo.”
“Poder trabalhar com um parceiro como o ACP que tanto e tão bem representa o universo dos automobilistas nacional é um privilégio para nos fazer chegar a mais cidadãos e famílias do nosso país”, concluí o Presidente da LPCC.

“A associação do ACP a esta iniciativa era inevitável” afirma Carlos Barbosa, Presidente do ACP, acrescentando que, “enquanto associação de referência para os automobilistas nacionais que tem como fim último a prossecução da defesa dos interesses dos mesmos, os temas da educação para a saúde não nos são alheios. Especialmente quando têm impacto direto em crianças e idosos.”

Esta ação será levada a todo o país através de ações de sensibilização nas escolas, com a distribuição de 100 mil folhetos e autocolantes para carros nas escolas do ensino básico e ainda através dos canais de comunicação do ACP e da LPCC, focando-se nas crianças como veículos influenciadores junto dos pais.

A campanha de sensibilização do projeto tem como embaixadores o casal de atores Paula Lobo Antunes e Jorge Corrula.
O evento contou com a presença do Ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, do Presidente do ACP, Carlos Barbosa, do Presidente do Núcleo Sul da LPCC, Francisco Cavaleiro de Ferreira e ainda dos embaixadores da campanha.

 

Notícia do site da Liga Portuguesa Contra o Cancro em 27 de Dezembro de 2017

Filhos de mães fumadoras com maior risco de ter tensão alta

Julho 7, 2017 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da http://www.tvi24.iol.pt/ de 13 de junho de 2017.

Efeito é visível desde bem cedo, logo aos quatro anos de idade

As mães que fumam agravam o risco de pressão (ou tensão) arterial alta nos filhos. Um estudo do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP) concluiu que este efeito é logo visível aos quatro anos de idade.

Os autores do estudo, publicado na revista “Nicotine & Tobacco Research”, defendem que as mulheres devem deixar de fumar antes de engravidarem. Ao mesmo tempo, lembram que a pressão arterial sistólica alta está associada ao risco de doenças cardiovasculares, a principal causa de morte no nosso país.

A investigação envolveu 4.295 crianças nascidas em cinco maternidades da Área Metropolitana do Porto, pertencentes à coorte Geração 21 (projeto de investigação que acompanha mais oito mil crianças da cidade do Porto, desde o nascimento).

Num país como Portugal, onde a hipertensão é um problema major, onde muitas pessoas morrem de AVC [Acidente Vascular Cerebral] e muitas grávidas continuam a fumar durante a gravidez, estes resultados demonstram que começa bem cedo a programação da doença [hipertensão arterial] nas crianças. Portanto, a prevenção tem que começar antes”, alerta Henrique Barros, responsável do estudo.

Em análise, esteve a associação entre o tabagismo materno (antes da gravidez, durante a gravidez e quatro anos após o parto) e a pressão arterial das crianças, que foram avaliadas à nascença e aos quatro anos.

A conclusão fala por si: observou-se que os filhos de mães que fumavam apresentavam níveis de pressão arterial sistólica mais elevados, com um um percentil da pressão arterial sistólica superior. Mais de 22% têm já aos quatro anos uma pressão arterial sistólica considerada elevada.

O estudo designado “Maternal smoking: a life course blood pressure determinant?”  tem como principal autora Maria Cabral e é também assinado por Maria João Fonseca, Camila González-Beiras, Ana Cristina Santos e Liane Correia-Costa.

Maternal smoking: a life course blood pressure determinant?

 

 

Fumar na praia ou nos parques infantis com os dias contados?

Março 24, 2017 às 7:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da http://rr.sapo.pt/ de 24 de março de 2017.

O discurso de Vytenis Andriukaitis  pode ser consultado em baixo:

EUROPEAN CONFERENCE ON TOBACCO OR HEALTH: TOWARDS A TOBACCO-FREE EUROPE – PORTO, PORTUGAL – 23 MARCH 2017

EPA

Bruxelas defende a proibição do consumo de tabaco em todos os espaços públicos, entre os quais praia, parques infantis e equipamentos desportivos. O anúncio foi feito pelo comissário europeu da Saúde e Segurança Alimentar no Porto, onde participou na VII Conferência Tabaco e Saúde, organizada pela Liga Portuguesa contra o Cancro.

A ideia é que a proibição seja implementada em todos os Estados-membros.

O comissário defendeu ainda, na quinta-feira, a definição de uma idade mínima para se fumar e aumentar a consciencialização nas escolas.

Vytenis Andriukaitis pretende que, com estas medidas, possa ser reduzido o número de mortes devido ao consumo do tabaco. Fumar mata seis milhões de pessoas, por ano, em todo o mundo. Em Portugal, 30 pessoas morrem por dia, vítimas de doenças relacionadas com o tabaco.

O governante europeu alertou também ser necessário seguir com atenção o mercado dos cigarros electrónicos, vistos como uma alternativa para deixar de fumar, afirmando que estes “não se podem tornar numa porta de entrada para novos fumadores”.

“Se os cigarros electrónicos são considerados como uma ferramenta que permite deixar de fumar, então devem ser autorizados como produtos farmacêuticos e vendidos em farmácias”, sublinhou.

Para o responsável, “o tabaco deve parecer e saber a tabaco, não deve parecer um perfume ou um bâton”, sendo que “tudo isto torna [o tabaco] atraente para as crianças começarem a fumar”.

Vantagens de uma embalagem limpa

Vytenis Andriukaitis referiu que “as evidências mostram que as pessoas têm menos probabilidade de fumar” se os maços exibirem mensagens e imagens que alertam para os riscos do tabaco, bem como se não tiverem marcas, logotipos e design de marketing”.

“Este é o motivo pelo qual cinco Estados-membros decidiram tornar obrigatória a embalagem ‘limpa’ nos respectivos países, e é um excelente exemplo para o resto da Europa”, disse.

Para o comissário europeu, ainda há um longo caminho a percorrer no combate ao tabagismo e é necessário que os estados-membros “juntem forças e trabalhem em conjunto” para tornar a Europa numa zona livre de tabaco.

Perante as “consequências devastadoras” do acto de fumar, quer de saúde quer económicas, o comissário desejou ainda que a legislação comunitária ajude os adolescentes “a fazerem a escolha certa de dizer não ao primeiro cigarro”.

Esta conferência é organizada pela Liga Portuguesa Contra o Cancro, em parceria com a associação europeia das ligas contra o cancro, com o Alto Patrocínio da Presidência da República.

No evento, cuja sessão de abertura contou com a rainha de Espanha, estarão presentes até sábado médicos e peritos de Portugal, Espanha e outros países europeus, bem como delegados de toda a União Europeia.

 

 

 

Estudo revela que fumar na gravidez pode causar problemas na visão dos filhos

Março 23, 2017 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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As mulheres que fumam durante a gravidez, aumentam a probabilidade de os filhos desenvolverem um determinam tipo de problema na retina.

Este dano também foi verificado quando os bebes nasciam com menos peso do que o normal.

Foi um estudo publicado na revista JAMA Ophthalmology quem revelou o problema. Este estudo foi levado a cabo por várias universidades e institutos da Dinamarca, onde foram analisadas 1406 crianças dinamarquesas que ou tinham nascido com peso a menos ou que tinham sido expostas ao fumo do tabaco ingerido pela mãe durante a gravidez.

Segundo o estudo, 80% das mães não fumavam durante a gravidez, 2% tinham deixado de fumar quando engravidaram e 18% continuaram a fumar no período de gestação.

O fumo do tabaco fez com que a camada de fibra nervosa da retina fosse 5,7 micrómetros mais fina do que a das crianças cujas mães não fumavam. Quanto ao peso, as crianças que tinham um menor peso apresentavam uma camada de fibra nervosa da retina 3,5 micrómetros mais fina.

Ambos os fatores se mostraram determinantes, ainda que de forma independente, para o desenvolvimento de problemas na camada de fibra nervosa da retina, sendo que esta apresentava ser mais fina entre os 11 e os 12 anos.

 

Jornal i em 9 de março de 2017

Olhar pela saúde nas escolas

Janeiro 18, 2017 às 6:00 am | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
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Texto do site http://www.educare.pt/de 6 de janeiro de 2017.

O relatório citado na notícia é o seguinte:

Relatório Técnico de Avaliação do Programa Nacional de Saúde Escolar do Ano Letivo 2014/2015

educare

Programa de Saúde Escolar revela hábitos de alunos e investe em ações que abordam assuntos como a alimentação, os afetos, a sexualidade, a saúde mental. O relatório do ano letivo 2014/2015 foi divulgado pela Direção-Geral da Saúde e mostra o trabalho feito nas cinco regiões do país.

Sara R. Oliveira

Não havia muitos alunos que escovavam os dentes na escola no ano letivo 2014/2015 e nem todos tinham o boletim de vacinas atualizado. Nesse ano, foram sinalizados 2060 casos de maus tratos e registados 50 590 acidentes escolares. Oitenta por cento das escolas cumpriam a restrição de fumar e 15% tinham coberturas de fibrocimento. O Norte e o Algarve investiram na educação para os afetos e a sexualidade. O Alentejo dedicou-se sobretudo à educação alimentar e Lisboa e Vale do Tejo à prevenção do consumo de tabaco. Estes são alguns dos resultados do relatório técnico do Programa de Saúde Escolar do ano letivo 2014/2015, elaborado pela Direção-Geral da Saúde (DGS).

Ao todo, 73% dos alunos matriculados nesse ano letivo foram alvo desse programa, ou seja, 886 490 dos 1 219 652. Uma maior percentagem, 80%, no 1.º ciclo do Ensino Básico e, com menor incidência, 54%, no Secundário. O programa teve mais expressão nos primeiros níveis de ensino. E existem diferenças regionais que, não sendo significativas, revelam prioridades nesta intervenção escolar. O Norte e o Alentejo privilegiaram as escolas do 1.º ciclo. O Centro e o Algarve o 2.º ciclo. Lisboa e Vale do Tejo abrangeu de forma equilibrada todos os níveis de ensino. E o Algarve foi a região que, proporcionalmente, mais trabalhou com os alunos do Secundário.

A análise feita revela que 31% dos alunos abrangidos pelo programa escovavam os dentes na escola, 66% estavam vacinados, 85% cumpriam a vigilância em saúde e 58% tinham um plano de saúde individual. O Norte foi a região que mais contribuiu para a melhoria da vigilância da saúde dos mais novos, o Algarve sobressaiu na melhoria da vacinação. O apoio a crianças e jovens com necessidades de saúde especiais (com doenças crónicas complexas, doenças neuromusculares, diabetes, asma e doenças alérgicas, entre outras) foi mais significativo no Norte e no Algarve. Seja como for, o programa ajudou a melhorar os indicadores de saúde das crianças e jovens, bem como o cumprimento da vacinação e vigilância da saúde.

Segundo o relatório da DGS, a saúde escolar sinalizou 2060 crianças e jovens vítimas ou suspeitas de maus tratos: 631 no 1.º ciclo, 532 no 3.º ciclo, 482 no 2.º ciclo, 267 no pré-escolar e 147 no Secundário. O maior número de sinalizações verificou-se no Norte, seguindo-se Lisboa e Vale do Tejo e a região Centro. O Alentejo e o Algarve tiveram menos situações reportadas. Os casos de maus tratos ou suspeitas sinalizados nas escolas são encaminhados para os Núcleos de Apoio a Crianças e Jovens em Risco.

Oitenta por cento das escolas cumpriam a restrição de fumar no ano 2014/2015. A evolução tem sido positiva. No ano 2013/2014, a percentagem era de 79%, no ano letivo anterior de 76% e em 2011/2012 de 75%. “Apesar da boa evolução, nem todas as escolas cumprem a restrição de fumar e ainda há queixas sobre o desrespeito da lei”, lê-se no relatório. Em 2014/2015, contaram-se nove queixas por alunos fumarem.

O relatório dá ainda conta de 50 590 acidentes escolares: 2726 no pré-escolar, 14 380 no 1.º ciclo, 12 020 no 2.º ciclo, 14 868 no 3.º ciclo e 6 596 no Secundário. Todas as escolas avaliadas tinham sistema de recolha de resíduos sólidos, 98% da água para consumo humano era da rede pública e 90% tinham ligação à rede pública de esgotos. Quinze por cento tinham cobertura em chapa de fibrocimento, a maior percentagem estava situada na região de Lisboa e Vale do Tejo.

A DGS refere que a intervenção no âmbito da saúde escolar tem contribuído para a melhoria da saúde oral e redução da cárie dentária, através da implementação da escovagem dos dentes, de forma correta e precoce. “As crianças e jovens com necessidades de saúde especiais, isto é, problemas de saúde que podem comprometer, ou não, as aprendizagens é outra área de preocupação que as equipas de saúde escolar procuram eliminar/minimizar através da elaboração de planos de saúde individuais”, sublinha a DGS.

Afetos, tabaco, alimentação

As ações sobre alimentação saudável e atividade física foram as que chegaram a mais alunos, 386 383 ao todo. A seguir surgem as ações de educação para os afetos e a sexualidade com 378 400 alunos e as dedicadas ao ambiente e saúde com 270 672. Questões ligadas à saúde mental e à promoção de competências socioemocionais abrangeram 143 014 crianças e jovens, e a prevenção do consumo do tabaco chegou a 122 443 alunos. A prevenção do consumo de bebidas alcoólicas e de substâncias psicoativas ilícitas envolveu menos de 100 mil alunos. No pré-escolar, todos os assuntos são abordados, à exceção da saúde mental e do consumo do tabaco e de substâncias psicoativas ilícitas.

O Norte e o Algarve destacaram-se pelo investimento em educação para os afetos e sexualidade. O Alentejo deu preferência à educação alimentar e o Centro à educação para o ambiente e saúde e à alimentação. Lisboa e Vale do Tejo sobressaiu na prevenção do consumo de tabaco.

O relatório indica que, no futuro, é necessário promover uma maior intervenção em saúde mental e competências socioemocionais. “Melhorar o nível de literacia para a saúde dos alunos é muito mais do que informar sobre os riscos associados a determinados comportamentos e doenças. É motivar, é compreender a informação de saúde, é saber aceder e utilizar essa informação para promover e manter uma boa saúde”. O programa pode virar-se para outras direções. “Outras áreas novas como os hábitos de sono e repouso, a educação postural e a prevenção de comportamentos aditivos sem substância não foram intervencionadas de forma expressiva na escola. No entanto, elas são de capital importância para a saúde das crianças e dos jovens que a frequentam”, realça-se.

No ano letivo 2014/2015, foram avaliados 2230 estabelecimentos de ensino quanto à segurança, higiene e saúde. A maior parte das escolas tem boa segurança e higiene no seu meio envolvente. As escolas do Algarve eram as mais seguras no recinto, no edifício e na zona de alimentação coletiva. A segurança do meio envolvente da escola era maior no Alentejo. O Algarve e o Centro tinham uma maior percentagem de escolas com boas condições de higiene nos diversos espaços escolares. E, como se sabe, a boa higiene do ambiente escolar implica a limpeza geral do espaço, do mobiliário urbano, a boa conservação das salas de aula, balneários, vestiários, instalações sanitárias, remoção de resíduos em todas as áreas do estabelecimento, cantinas incluídas.

Literacia de alunos e docentes

O relatório focou-se no ano letivo em que mudou o paradigma de intervenção da saúde escolar e o seu sistema de informação. No ano em que foi elaborado um referencial de educação para a saúde, em que se operacionalizaram projetos para a promoção de estilos de vida saudáveis, do pré-escolar ao secundário, e se investiu em materiais pedagógicos.

Ao todo, 53 557 educadores de infância e docentes foram alvo do programa. Tal como acontece com os alunos, os professores dos primeiros níveis de educação, em especial os educadores de infância, são os que têm maior apoio no âmbito da saúde escolar. Situação que se repete e que a DGS avisa que é preciso inverter. “O principal trabalho das equipas de saúde escolar, especialmente no que à promoção da saúde diz respeito, é junto dos docentes e não docentes”, lê-se no relatório. O Alentejo, o Centro e o Norte trabalharam com cerca de 80% dos educadores de infância e professores do 1.º ciclo.

O programa melhora a literacia para a saúde de alunos e docentes. Quanto mais cedo se passar à ação, melhor. “Obter ganhos em saúde, a médio e longo prazo, passa por olhar para o perfil de saúde da população portuguesa e trabalhar desde cedo em prol da promoção e educação para a saúde, e da redução dos determinantes das doenças crónicas como a obesidade, o tabaco, a diabetes e a hipertensão arterial que condicionam a esperança de vida saudável”. E não se pode esquecer a formação. A DGS defende que “investir em promoção da saúde na escola é dar prioridade aos docentes, capacitando-os para que os determinantes da saúde sejam integrados nos currículos das mais diversas áreas do saber e a sua ‘transmissão’ aos alunos seja pedagogicamente adequada ao nível de desenvolvimento do grupo escolar”.

 

 

Quatro em cada dez jovens começam a beber aos 13 anos

Setembro 23, 2016 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do http://ionline.sapo.pt/de 21 de setembro de 2016.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

ESPAD Report 2015 Results from the European School Survey Project on Alcohol and Other Drugs

Dados Portugal

http://www.espad.org/report/country-summaries#portugal

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Marta F. Reis

Inquérito conclui que há menos jovens a fumar e a beber em Portugal, mas muitos ainda começam cedo demais. 16% admitem ter problemas.

As notícias são mais boas do que más: nos últimos 20 anos tem diminuído a percentagem de jovens que fumam e bebem álcool e há mesmo uma fatia sem precedentes de adolescentes que nunca tiveram consumos problemáticos: no ano passado, 23% dos adolescentes com 16 anos garantia nunca ter tocado em tabaco, álcool ou drogas ilícitas. Resultados do inquérito internacional ESPAD, que desde 1995 tira o pulso à juventude em 35 países europeus, revelam, porém, que ainda são muitos os jovens que começam a explorar os limites numa idade precoce e há comportamentos de risco significativos. Mais de quatro em cada dez adolescentes portugueses admitem que aos 13 anos, ou antes, já tinham experimentado álcool e 5% já tinham apanhado uma bebedeira. Em relação ao tabaco, um quarto (24%) também já tinham fumado os primeiros cigarros e 5% começaram nesta idade a fumar diariamente.

Geração de 1999 O inquérito ESPAD (sigla inglesa para European School Survey Project on Alcohol and Other Drugs) abrangeu, em 2015, 96 042 jovens, incluindo 3456 rapazes e raparigas portugueses. A metodologia do projeto consiste em avaliar regularmente os comportamentos de risco aos 16 anos, pelo que nesta ronda de dados está em causa a geração nascida em 1999.

Se tem filhos nesta idade, eis alguns resultados que importa ter em conta, até se quiser ter uma intervenção proativa. Aos 16 anos, mesmo sendo proibido legalmente, 42% dos jovens portugueses dizem beber regularmente e 20% declaram ter tido pelo menos um episódio em que beberam mais do que a conta nos 30 dias anteriores ao inquérito – conceito de “consumo intenso” definido como ter ingerido cinco bebidas ou mais numa única ocasião.

Se os comportamentos a nível nacional surgem quase sempre dentro da média ou mesmo um pouco menos problemáticos do que noutros países, há um dado singular. Portugal é o segundo país, depois de Malta, onde as preferências dos adolescentes em matéria de álcool recaem sobre as chamadas bebidas brancas, como o vodca ou o absinto que alimentam os shots. Não obstante a tradição vitivinícola do país, é na Ucrânia ou na Moldávia que os jovens preferem o vinho, enquanto na Albânia ou na Bélgica a cerveja lidera.

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Em relação às bebidas, há ainda outro aspeto a destacar. Um terço dos jovens inquiridos a nível europeu admitem ter tido algum incidente enquanto estavam sob o efeito de álcool. Em Portugal, apenas 16% dos jovens admitem problemas, mas os dados põem a nu os riscos: 9% dizem ter perdido algum pertence, 4% envolveram-se em discussões e 3% em confrontos físicos. Sendo percentagens menores, é ainda possível perceber que 2% dos adolescentes portugueses reconhecem ter tido relações sexuais desprotegidas associadas ao álcool. Na mesma percentagem, dizem terem-se magoado a si próprios e terem tido comportamentos perigosos como nadar em zonas sem pé.

Raparigas começam a fumar mais No que diz respeito ao tabaco, aos 16 anos 9% fumam diariamente e 19% regularmente (declaram ter fumado no mês anterior ao inquérito). Se durante muito tempo os rapazes fumavam mais do que as raparigas, a situação tem estado a inverter-se e Portugal não foge à regra: entre a geração de 1999, a percentagem de raparigas que fumam ocasionalmente (21%) já supera a dos rapazes (18%).

O consumo de drogas ilícitas surge igualmente dentro da média internacional. Aos 16 anos, 16% dos jovens já experimentaram, a maioria canábis. O Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), estrutura do Ministério da Saúde responsável pela área das dependências que promove o estudo em Portugal, destacou como um dos elementos positivos o facto de haver um consumo residual das chamadas das novas substâncias psicoativas. Recorde-se que, em Portugal, o fenómeno das smartshops, que vendiam drogas quimicamente parecidas com medicamentos controlados ou drogas ilegais mas sem estarem reguladas como substâncias ilícitas, foi travado em 2013, proibindo-se a venda de substâncias psicoativas à medida que estas eram do conhecimento das autoridades, o que levou ao encerramento de muitos estabelecimentos. Na altura começava a haver registo de jovens nas urgências com psicoses relacionadas com o consumo. O alerta mantém-se, porém, para a canábis, cujo consumo também pode desencadear crises e não tem diminuído.

Cuidado com os ansiolíticos

Porque os medicamentos são drogas e têm riscos, sobretudo quando tomados sem vigilância, o inquérito ESPAD apresenta também dados sobre o consumo de alguma medicação sem receita médica por parte dos jovens. Em Portugal não se verificam consumos de opioides, mas 5% dos jovens admitem tomar sedativos e tranquilizantes sem indicação de um médico – percentagem abaixo da média europeia, mas em que existe ainda assim uma chamada de atenção: este consumo sem supervisão parece ter uma incidência quatro vezes maior entre as raparigas. O SICAD destacou ainda que no país há um consumo deste tipo de medicamentos, mesmo com receita, acima do que acontece nos outros países, com 13% dos jovens portugueses medicados com ansiolíticos contra uma média de 8%. Estes dados não foram trabalhados no relatório internacional, mas o SICAD considera que é nesta vertente que os indicadores nacionais se afastam de forma mais negativa. Uma última matéria em que os comportamentos dos adolescentes portugueses não geram, por agora, particular preocupação é o vício dos jogos e da internet. Um quinto dos jovens dizem passar o tempo na net a jogar e 2% admitem apostas a dinheiro, percentagens ligeiramente abaixo da média europeia.

10% acham fácil arranjar coca

Não há consumo sem acesso e os resultados sugerem que ainda há muito a fazer. Quase 80% consideram ser fácil ou muito fácil ter acesso a álcool e 60% dizem o mesmo em relação ao tabaco, apesar de a legislação proibir a compra antes dos 18 anos. A perceção dos jovens sobre a facilidade com que conseguem arranjar droga é, contudo, mais surpreendente. Três em cada dez admitem ser fácil ter acesso a canábis e 10% têm a mesma ideia sobre arranjar ecstasy ou cocaína, drogas que, ainda assim, 2% dizem já ter consumido aos 16 anos.

Perguntas&Respostas

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Mário Cordeiro – Pediatra

“As escolas deviam estar mais empenhadas na promoção da saúde”

Passam-lhe pelo consultório casos de adolescentes a tomar sedativos e tranquilizantes? Quais são os motivos?

Não muitos. Creio que temos de olhar para estes dados com algum espírito crítico, não apenas para uma análise da amostra e sua significância e representatividade, mas para os possíveis vieses das respostas e a própria definição de caso. O que é “tomar um ansiolítico”? Todos os dias? Antes dos testes? De vez em quando? Receitados? Homeopáticos de venda livre? Se admitirmos que sim, que tomam mais do que antes, pode ter a ver com a informação, acesso, venda através da net, moda, e também necessidade face ao stresse. O mais importante é saber se os que tomam são os que necessitam e se os que necessitam são os que tomam.

Que tipo de intervenção seria necessária?

Informação, mas transformada em conhecimento, ou seja, dada por pais, professores, profissionais de saúde, e não nas redes sociais. É preciso falar verdade, explicar o que são drogas e medicamentos, e ser-se sério, rigoroso e científico na abordagem da questão quando se fala com um adolescente. No livro que publicarei em outubro, intitulado “Os Nossos Adolescentes e as Drogas – Realidades, Mitos e Verdades”, abordo este assunto, dirigido a um público juvenil, mas também aos educadores em geral. As escolas deviam estar mais empenhadas nesta promoção da saúde, mais do que em sobrecarregar os alunos de matéria exclusivamente académica. Aliás, é uma matéria que poderia ser dada transversalmente, em Língua Portuguesa, Matemática, História, Ciências, tal e qual a sexualidade deveria ser.

Os dados revelam que, não obstante tendências positivas, aos 13 anos, 24% dos jovens já fumaram e 41% já beberam. A esmagadora maioria acha fácil ter acesso a álcool e tabaco, e 10% a ecstasy ou cocaína. Os pais estão atentos ou são apanhados de surpresa por consumos, mesmo ocasionais?

As drogas já cá estão há muito tempo, vieram para ficar e ficarão. É por isso que, “deste lado”, há um grande trabalho a fazer de modo a que uma pessoa que sempre terá droga à sua disposição (incluindo tabaco, álcool e medicamentos legais, já sem falar nas ilegais) possa não a querer, recusá-la e dela não necessitar, porque tem uma boa autoestima, autoconceito, um percurso de vida de que gosta e objetivos de vida, para lá de amigos, família e uma rede social (que não as virtuais) de qualidade afetiva.

Que estratégias recomenda em termos de prevenção aos pais que fiquem preocupados?

A melhor prevenção é a informação, mas transformando-a em conhecimento e em sabedoria. Criar resiliência através de prática desportiva, cultural, artes, sentido ético, viver com frugalidade, e não estar sempre a vitimizar-se e a sentir-se com péssima vida, valorizar o que se tem em termos de círculo humano e também de bens materiais. Tudo isto leva a que a droga passe a ser dispensável e até um obstáculo à felicidade, mesmo que esteja ao virar da esquina. É nisto que temos de investir e, mais uma vez, creio que a escola deveria ter um programa transversal que tocasse em todas as disciplinas.

Perante que sinais devem procurar ajuda especializada? 

Se um adolescente começa a desinvestir na escola, nos amigos, nas relações pessoais, se se isola demasiadamente, perde a noção do mundo, está deprimido e tenta reagir enganando-se com curtos momentos de prazer e de esquecimento da realidade, se se torna violento, rouba, só pensa nisso, é urgente dar-lhe ajuda. Como me disse um inspetor da polícia em Oxford, “se encontrarem um papel de prata no quarto do vosso filho. não é certo que tenha sido para fumar heroína… pode ter estado apenas a comer uma tablete de chocolate…”. Mas há que estar atento e apoiar, mesmo que as coisas aconteçam e a situação seja dura. Os toxicodependentes são doentes e não estão nessa situação “por gozo” – chegaram lá por um percurso de vida de falta de objetivos, de luta, de fuga à realidade. Compete-nos, enquanto sociedade organizada, ser solidários com eles e tentar fazê-los sair desse estado de degradação humana, sejam drogas ilegais, seja o álcool ou o tabaco, que ainda são as drogas mais usadas em Portugal.

 

 

 

No Alentejo bebe-se e fuma-se mais, no Algarve os jovens preferem a cannabis

Junho 14, 2016 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da Público de 2 de junho de 2016.fernando Veludo

Natália Faria

Inquérito feito a mais de 70 mil jovens que completaram 18 anos em 2015 espelha variações regionais nos consumos aditivos.

Os jovens do Alentejo consomem mais álcool e tabaco, enquanto os residentes no Algarve recorrem mais a substâncias como a cannabis e os dos Açores aos tranquilizantes e sedativos sem prescrição médica.

Estas variações regionais estão espelhadas no estudo Comportamentos Aditivos aos 18 Anos, que é apresentado nesta quinta-feira pelo Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD).

O inquérito a 70.646 jovens que completaram 18 anos em 2015 apontou a embriaguez ligeira como o comportamento de maior nocividade mais declarado nos 12 meses anteriores ao dia do inquérito, que coincidiu com o Dia da Defesa Nacional: 63% declararam ter-se embriagado ligeiramente, 47% assumiram o comportamento binge (consumo esporádico excessivo) e 30% declararam ter-se embriagado severamente.

O álcool surgiu como a substância mais consumida entre os jovens. Seguiram-se o tabaco, as drogas ilícitas e os tranquilizantes ou sedativos sem prescrição médica; em linha, de resto, com as conclusões dos estudos mais recentes sobre consumos entre jovens.

O último destes estudos, apresentado em Março também pelo SICAD, e elaborado a partir dos inquéritos a 18 mil alunos entre os 13 e os 18 anos, mostrava que os consumos de álcool, tabaco e drogas estavam em queda, comparativamente a 2011. Em todos os grupos etários, à excepção dos 18 anos.

A crise foi então aventada como possível explicação, mas, como admitiu na altura a responsável pela análise, Fernanda Feijão, “se fosse só a crise, os de 18 anos também estariam a beber menos”.

As dificuldades levantadas pela lei do álcool (que, em 2013, interditou a venda de bebidas espirituosas a menores de 18 anos e de cerveja e vinho a menores de 16 anos, e que, entretanto, foi alterada no sentido de alargar a interdição de venda de todos os tipos de álcool a menores) foram outra das hipóteses admitidas como explicação para a diminuição dos consumos.

Metade fuma

Como os jovens de 18 anos ficaram de fora desta tendência (e também porque a amostra deste estudo abarca jovens que já deixaram a escola e começaram a trabalhar, dispondo, por isso, de mais dinheiro), os consumos atingem neste estudo percentagens mais elevadas. Nos 30 dias anteriores ao inquérito, 65% dos jovens declararam ter consumido álcool, 43% tabaco, 15% substâncias ilícitas e 3% tranquilizantes ou sedativos.

Entre as drogas ilícitas, a cannabis é, de longe, a substância mais consumida (15%), o que confirma as conclusões do Relatório Europeu sobre Drogas apresentado na terça-feira e que aponta para um aumento no consumo desta substância na generalidade dos 28 países da União Europeia. O tabaco é, porém, de todas as substâncias psicoactivas analisadas, aquela de consumo mais frequente: perto de metade (47%) dos consumidores tem um consumo tabágico diário ou quase diário. O álcool, ao contrário, destaca-se como a substância com menor percentagem de consumo diário ou quase diário (14%).

Quando a pergunta era se alguma vez tinha experimentado qualquer uma daquelas substâncias, 88% dos jovens responderam “sim” para o álcool, 62% para o tabaco, 31% para as substâncias ilícitas e 7% para os tranquilizantes ou sedativos.

Curiosamente, apenas uma minoria declarou ter tido problemas no ano anterior ao inquérito decorrentes daqueles consumos. Entre os que reportaram algum tipo de problema, o consumo do álcool apareceu mais associado a questões relacionadas com a condução sob embriaguez, a actos de violência ou conduta desordeira e a relações sexuais desprotegidas. Já o consumo de drogas ilícitas surgiu mais associado a problemas financeiros, condutas em casa ou a quebras no rendimento na escola ou no trabalho.

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