Venham +5 e podemos ser todos bons alunos

Março 20, 2017 às 12:02 pm | Publicado em Site ou blogue recomendado | Deixe um comentário
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Texto do http://p3.publico.pt/ de 17 de março de 2017.

Métodos de estudo, dicas para controlar a ansiedade e ajuda para elaborar o currículo — tudo junto no mesmo blogue. É o Venham +5

Texto de Diana Barros

Venham +5 (segredos de estudante) é um projecto que promete dar solução às dores de cabeça de todos os estudantes. Criado pela mão de Soraia Rodrigues, é um blogue onde se podem ler dicas acerca de quais os melhores métodos de estudo, tirar dúvidas sobre as melhores formas para contornar a ansiedade e até ter ajuda personalizada para elaborar o currículo.

A ideia surgiu da experiência de Soraia ao ver a irmã enfrentar algumas dificuldades ao lidar com a pressão dos exames. Soraia explica que na altura idealizou “um projecto que ajudasse os estudantes nestas situações”, mas como não tinha capacidade para financiar um projecto físico decidiu criar algo online, “o que também me permitiu atingir um maior número de pessoas”, acrescenta.

O intuito do projecto não é substituir os gabinetes de apoio que já existem nas faculdades e escolas de ensino secundário, mas dar mais armas aos alunos para combaterem o insucesso escolar. Soraia explica a importância do Venham +5, alertando para uma realidade pouco conhecida: o insucesso tem mais impacto no abandono escolar a nível do Ensino Superior que as dificuldades económicas.

A formação de Soraia na área da psicologia deixou-a com uma ideia de quais as causas principais do insucesso escolar. “O insucesso escolar, numa frase precoce, é condicionado por três aspectos: a auto-eficácia que é a capacidade que temos de confiar nas nossas próprias capacidade é determinante, o factor comportamental e emocional também tem um papel relevante e por fim, o contexto familiar”, diz Soraia. Ainda que estes sejam os motivos do insucesso escolar numa fase precoce, podem influenciar o sucesso escolar em fases mais avançadas, Soraia acrescenta  “as experiências vividas na escola primária reflectem-se adiante no percurso escolar”.

Ler os textos disponíveis no blogue é gratuito, mas ter apoio personalizado ou orientação na construção de um currículo custa dinheiro. Soraia explica que o preço “nunca será tão caro como uma clínica de psicologia por exemplo” e acrescenta “estou a lidar com um público de estudantes, a maior parte não tem rendimentos, mas preciso de algum retorno”.

Contudo, os estudantes – quer do ensino secundário, quer do ensino superior – não são os únicos que beneficiaram da ajuda de Soraia, que também já chegou a quem se encontra desempregado à procura de trabalho. Saber o que colocar e não colocar no currículo, qual o modelo a adoptar e que competências sublinhar são dúvidas que vêm à cabeça de quem está a escrever o currículo e o Venham +5 pode indicar o melhor caminho.

Os planos para o futuro incluem a criação de um espaço físico no Porto, mas ainda falta dinheiro, para conseguir financiamento Soraia organizou uma campanha de crowdfunding. O dinheiro angariado na campanha vai servir “para poder ter um site mais trabalhado, organizado e traduzido em várias línguas e para conseguir criar o espaço físico”, explica Soraia. Divulgar o projecto não tem sido fácil, mas os comentários no blogue do Venham +5 já são alguns. “Falei com algumas associações de estudantes – e claro houve de tudo – umas responderam-me, foram receptivas e divulgaram o projecto e outras não se mostraram interessadas”, explica Soraia, mas acrescenta também que acredita que este trabalho de divulgação tenha que ser feito no campo, “ir a uma escola e explicar em que consiste o projecto.”

A psicologia de não dizer psicologia

Os textos do Venham +5 são o resultado de experiência pessoal e pesquisa de Soraia. “O enquadramento dos textos sou eu que escrevo, mas no caso específico de uma actividade para treinar determinada competência, vou buscar informações a fontes externas e referencio-as”, explica a fundadora do projecto.

A formação na área da psicologia também tem peso, mas Soraia prefere manter a palavra longe dos textos que escreve. “Tento sempre escrever os textos do ponto de vista da psicologia, mas oculto a palavra psicologia do meu projecto porque acho que ainda está muito estigmatizada”, explica.

Para Soraia, o fundo científico dos conteúdos do Venham +5 é muito importante, mas categorizá-los como apoio psicológico teria um efeito repelente para o público do seu blogue. “As pessoas ainda não vêm o apoio psicológico como uma necessidade básica.”

Para os de cá e para os que vêm

Além dos conteúdos já disponíveis no blogue, Soraia pretende alargar o Venham +5 a estudantes de Erasmus ou outros programas de mobilidade que venham para Portugal. O objectivo é facilitar a integração dos estudantes estrangeiros, quer na vida cotidiana da cidade, quer na vida académica, onde entraves linguísticos e falta de apoio personalizado podem ser barreiras à aprendizagem.

Soraia explica que o apoio vai ser, sobretudo, em duas vertentes: “pequenos livrinhos digitais que sirvam de introdução à vida académica e à vida na cidade: o preço de um café, como funciona a faculdade entre outras informações” e a criação de parcerias entre alunos da cidade e os que vão para lá estudar “vou contactar alunos que estão cá e já conhecem a cidade para poderem ajudar os outros”, explica Soraia.

 

 

 

Conferência: ” Desenvolvimento e Aprendizagem: Desafios Atuais.” 11 de março em Oeiras

Março 3, 2017 às 10:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações:

https://www.facebook.com/events/246519805795989/

 

Aprender a ler mais cedo: a pressão do sucesso começa no pré-escolar

Fevereiro 5, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto  do site http://uptokids.pt/ de 24 de janeiro de 2017.

O artigo da The Atlantic citado no texto é o seguinte:

The New Preschool Is Crushing Kids

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Com que idade deve a criança aprender a ler?

A propósito de um artigo partilhado recentemente sobre a alfabetização precoce e a pressão que os pais, educadores e muitas escolas exercem sobre as crianças, partilhamos este artigo publicado no DN on-line, em dez. 2015, que reforça a necessidade de respeitar o ritmo de cada uma, adequando o ensino das competências de acordo com a idade e maturidade de cada criança.

«Pediatras defendem que não se deve forçar o desenvolvimento das crianças. Educadores dizem que seguem o ritmo de cada um. Sair do pré-escolar a ler não é uma meta, asseguram, mas estudo americano indica o contrário

Tal como brincar, pintar ou cantar, a leitura tem um papel cada vez mais importante no pré-escolar. De acordo com um estudo feito pela Universidade de Virgínia, nos EUA, que comparou as mudanças entre 1998 e 2010, a percentagem de educadores que esperam que os alunos que vão para o primeiro ciclo saibam ler subiu de 30% para 80%. A mesma pesquisa diz que gastam cada vez mais tempo com fichas de exercícios e cada vez menos com música e arte. Por cá, os três pediatras ouvidos pelo DN dizem que também há uma tendência para a sobrecarga das crianças no pré-escolar, quer por pressão da escola quer dos pais, o que não tem qualquer benefício para os mais novos.

De acordo com o estudo “O jardim-de-infância é o novo primeiro ano?“, citado pela revista The Atlantic, aquilo que se esperava das crianças de 6 anos é hoje pedido às mais jovens. Tal como nos EUA, em Portugal o pré-escolar também mudou, tornando-se mais exigente. Para tal, explica o pediatra Mário Cordeiro, contribuiu “a ciência pediátrica, educativa e psicológica, e também a neurofisiologia”, mas também existem razões “menos boas” para a mudança. Segundo o pediatra, “é querer fazer das crianças “cavalos de corrida” a partir de idades muito precoces, “querendo forçar conceitos abstratos e simbólicos cedo de mais e a aquisição de competências que não são adequadas à maioria dessa idade“. Com base nisso está “a pressão dos pais e um certo show off das escolas (que prometem aulas de inglês aos 2 anos ou mandarim aos 3, por exemplo), impedindo muitas crianças de… serem crianças“.

Essa é também a opinião da pediatra Júlia Guimarães. “Isto também acontece em Portugal, sobretudo no ensino particular. E é uma tendência perfeitamente errada.” Antes do ingresso no 1º. ciclo, “não se deve academizar”. Os educadores “devem estimular as crianças, através da arte, da música, das brincadeiras e atividades orientadas“, mas o início da leitura e da escrita “deve ficar para o 1º ano“. Na opinião do pediatra Hugo Rodrigues, “é notório que, cada vez mais, o pré-escolar tenta investir na escolarização das crianças, o que é um disparate“. Se o 1º ciclo tem início aos 6 anos, “é porque é nessa idade que é suposto começaram a aprender a ler“. Mas, além da pressão da sociedade, “há demasiada competitividade entre os pais e as próprias escolas“. Claro que, ressalva, “se a criança tem vontade de ir mais além, deve corresponder-se, mas sem impor“.

Embora as crianças possam corresponder do ponto de vista cognitivo, Hugo Rodrigues lembra que “não têm maturidade para lidar com as diferenças relativamente aos outros meninos, nem com as diferenças nos métodos de ensino“. Mário Cordeiro explica que “quando as exigências são disparatadas ou desfasadas relativamente ao que é capaz de dar, ou quando é intensivo e faz gastar tempo que poderia estar a ser usado noutras coisas, a criança vive ainda mais em stress, é menos feliz, sente-se pressionada e, mesmo que aprenda muitas coisas, terá mais hipóteses de se desinteressar“.

Antes de receber o telefonema do DN, Mariana Miranda, educadora de infância há 34 anos, tinha estado a falar com a mãe de uma criança de 5 anos que já lê algumas palavras. Não é um caso único. “Quando chegam já trazem imensos saberes. Nós fazemos diagnóstico e conduzimos, introduzindo coisas novas”, explica a coordenadora do pré-escolar do Agrupamento de Escolas Dr. Costa Matos, em Gaia. No entanto, “não existe pressão para que adquiram essas competências“. Trabalham, sim, “para que desenvolvam o gosto pela leitura e pela escrita“. Cristina Madureira, do jardim-de-infância do Centro Escolar de Cinfães, reforça que “não se espera que as crianças saiam do pré-escolar a ler ou a escrever“. Cada uma tem o seu ritmo “e é com base nele que se trabalha“. No 1º. ciclo “chegam facilmente à leitura e à escrita“.» – DN, dez ’15

LER TAMBÉM…

Alfabetização precoce é perda de tempo

O que deve saber uma criança de 4 anos?

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imagemCapa@Kalendar2017.ru imagens@revistacrescer

 

 

Uma escola portuguesa tem chamado a atenção do Brasil

Novembro 25, 2016 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da http://www.tsf.pt/ de 10 de novembro de 2016.

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Barbara Baldaia

O curso online “Fazer a Ponte” existe desde 2006 e já foi frequentado por mais de 2.000 professores e investigadores brasileiros. A Ponte é uma escola diferente, sem salas e sem testes de avaliação.

Na escola da Ponte, o diretor Paulo Topa faz a ligação via facebook para o Brasil. Atende Wilson Azevedo, do Aquifolium Educacional.

Wilson é o responsável por “Fazer a Ponte”. É este o nome do curso online com uma equipa de professores da Escola da Ponte. A escola, por ser diferente, há muito tempo que fascina os brasileiros.

Wilson ficou curioso com o que leu no livro de Rubem Alves, “A Escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir” ao ponto de ter atravessado o Atlântico e ter vindo viver para Portugal. Pôs a filha a estudar na escola.

O professor brasileiro gostou da experiência e decidiu espalhar a palavra pelo Brasil. O curso existe há 10 anos e, diz ele, já formou mais de 2000 professores e educadores, sobretudo brasileiros. Wilson Azevedo tenta ser preciso: o que se procura é uma aprendizagem mais efetiva.

Vale a pena fixar 3 ou 4 ideias.

Ao contrário das escolas normais, a escola da Ponte não está dividida por turmas nem por idades – está organizada por graus de aprendizagem: iniciação, consolidação e aprofundamento.

Os alunos não aprendem todos o mesmo ao mesmo tempo. Seguindo o programa oficial do ministério da educação, são eles que definem o que aprender e quando aprender.

Da mesma forma, são também os miúdos que dizem quando é que se sentem prontos a ser avaliados e de que forma.

Paulo Topa diz que a maior parte das perguntas que chegam do Brasil tem a ver com a avaliação, com o facto de não haver testes.

As duas traves-mestras da Ponte são “autonomia” e “responsabilização”.

Ao aplicar alguns destes métodos, as escolas brasileiras que vieram beber a experiência da Ponte sentiram já melhorias. Não se trata de empinar matéria. Wilson Azevedo realça que o que é realmente importante é a aprendizagem.

Wilson diz que no Brasil há professores universitários que procuram aprender com o método da Ponte.

Uma escola sem salas de aula, onde o portão está sempre aberto, sem professores a papaguear a matéria, sem testes de avaliação iguais para todos. Uma escola onde cada um é como cada qual.

E, já agora, uma escola onde todas as semanas, os alunos se reúnem em assembleia geral.

ouvir a reportagem no link:

http://www.tsf.pt/sociedade/educacao/interior/uma-escola-portuguesa-tem-chamado-a-atencao-do-brasil-5491526.html

 

 

 

Educação criativa: multiplicando experiências para a aprendizagem – livro digital

Outubro 27, 2016 às 6:00 am | Publicado em Livros, Recursos educativos | Deixe um comentário
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descarregar o livro digital no link:

http://www.pipacomunica.com.br/livrariadapipa/produto/educacao-criativa/

“É um erro não usar erros como parte do processo de aprendizagem”

Setembro 22, 2016 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do site http://educacaointegral.org.br/ de 13 de fevereiro de 2015.

Texto de Richard Curwin, especialista em motivação e problemas de disciplina, publicado originalmente no portal Edutopia e traduzido pelo Centro de Referências em Educação Integral.

Recentemente, eu vi uma palestra com Brian Goldman, um médico que admite ter cometido erros. Em uma linguagem muito emocional, ele descreve alguns erros significativos em prontos-socorros e, então, defende fortemente que haja uma mudança na maneira que a profissão médica responde a tais coisas. Ele acredita que a medicina irá melhorar se médicos forem livres para debater seus erros, sem julgamento, permitindo que eles aprendam uns com os outros. Mas, ele continuou explicando que como médicos são julgados por seus erros, eles são temerosos demais para discuti-los. No lugar disso, as falhas geralmente são encobertas, atribuídas a outros ou ignoradas.

Escutar essa palestra criou em mim uma grande necessidade de examinar muitos erros que eu cometi em minha vida. Eu descobri que meus erros se dividem em quatro categorias:

  1. Aqueles que eu escondi;
  2. Aqueles com os quais eu não aprendi nada;
  3. Aqueles com os quais eu aprendi;
  4. Aqueles com os quais eu aprendi e dividi meu novo conhecimento com outros.

São essas duas últimas categorias que eu penso que possuem grande potencial para aumentar o aprendizado e o ensino.

Encontrar valor no erro

Professores, assim como médicos, são tidos como livres de erros. Administradores, pais ou até outros docentes julgam eles muito negativamente quando cometem erros. No entanto, quando um professor mantém uma forte relação com outro colega, eles compartilham seus problemas livremente, pedem e dão conselhos, e aprendem uns com os outros. Isso também acontece em escolas onde professores mentores compartilham ideias com novos professores.

O que aconteceria se estas duplas se expandissem para incluir um pequeno grupo de professores, mais os administradores, conselheiros ou até departamentos inteiros ou mesmo todo o corpo docente? Eu sei que algumas escolas criaram a confiança necessária para tais debates. Eu penso que isso poderia crescer para incluir um número maior de escolas, talvez até se tornar um procedimento regular para todos os docentes. O que você pensaria desta ideia? Ela é factível? Vale a pena? É útil?

Um importante efeito colateral de discutir erros pode ser mudar a percepção sobre eles, não apenas para professores, mas para estudantes também. Quando professores aprendem de seus erros, eles podem se tornar mais dispostos a deixar os estudantes a aprenderem com os deles.

Mudar a percepção sobre os erros dos estudantes é a segunda melhor maneira sobre como erros podem melhorar a aprendizagem. Na vasta maioria das salas de aulas, erros são avaliados como desempenho fraco. Notas são rebaixadas devido a erros. Estudantes são encorajados, formal e informalmente, a não cometerem erros.

Este sistema de crença é um absurdo. Quando eu pensei nos erros que cometi ao longo dos anos, percebi que quanto maior erro, maior tinha sido a aprendizagem. Eu aprendi a partir do meu sucesso também, mas nem de perto tanto. Eu imagino que cada leitor deste texto aprendeu e ainda aprende de erros.

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9 maneiras de ensinar com erros

O problema para os estudantes não é que eles cometem erros. O problema real é que professores não usam estes erros para permitir e promover a aprendizagem. Como a vergonha está comumente associada ao erro, estudantes têm medo de arriscar, explorar e pensar por si próprios. Como um claro exemplo do quão danosa essa visão pode ser, olhe para a composição das turmas dos mais talentosos e dotados [prática bastante comum no sistema norte-americano de ensino e em algumas escolas brasileiras].

Em muitas escolas, os estudantes destas salas não são os que assumem riscos de maneira criativa ou os pensadores únicos. Eles são estudantes que conseguiram altas notas em testes padronizados. Portanto, nós chamamos de talentosos ou dotados os estudantes que cometem menos erros. Eu acredito que é um erro pensar em erros como algo ruim. Quando erros se tornam oportunidades de aprendizado, tudo muda. Estudantes se arriscam mais, pensam em novos caminhos, trapaceiam menos e resolvem mistérios que antes não conseguiam.

Assim, aqui estão algumas coisas que podemos fazer na sala de aula para mudar esta forma de pensar negativa, incluindo tanto processos formais quanto informais de avaliação:

  1. Pare de marcar erros em provas e trabalhos sem explicar porque eles estão errados. Dê explicações suficientes para ajudar o estudante a entender o que aconteceu de errado e como consertá-lo. Um grande X vermelho é insuficiente.
  2. Dê uma chance aos estudantes para corrigir seus erros e refazer o trabalho. Isso permite que erros se tornem oportunidades de aprendizado.
  3. Melhorias e avanços devem se tornar fatores significativos no processo de avaliação. Quanto mais um estudante melhorar, maior sua nota. Nada mostra melhor a aprendizagem por erros do que o avanço.
  4. Quando um estudante cometer um erro em uma discussão na classe, não diga coisas como “Errado, alguém pode ajuda-lo?”; não apenas chame outro aluno sem fazer nenhum comentário a mais. Ao invés disso, pergunte para o aluno “Por que você acha isso? Você pode dar um exemplo? Se você pudesse se perguntar uma questão sobre sua resposta, qual seria?”.
  5. Minha amiga e colega, Madeline Hunter, sugere começar pelo o que está correto. Se um professor pergunta “quem foi o primeiro presidente dos Estados Unidos?” e um estudante responde “Barack Obama”, ao invés de dizer “você está errado”, tente dizer: “Barack Obama é um presidente, você está certo nisso. No entanto, ele não foi o primeiro. Vamos voltar na história”. Até questões tolas podem ser respondidas dessa maneira.
  6. Se um estudante precisar de ajuda com a sua resposta, deixe que ele escolha um colega para ajudar. Chame este ajudante de algo como “consultor pessoal”.
  7. Ao invés de – ou, ao menos, em complemento a – paredes cheias com as conquistas dos alunos, tenha um painel no qual os estudantes possam vangloriar-se de seus maiores erros e do que eles aprenderam.
  8. Faça reuniões a cada duas semanas onde estudantes compartilhem um erro que cometeram, o que aconteceu depois e o que eles aprenderam.
  9. Conte à turma sobre seus próprios erros, especialmente se eles são engraçados, e o que você aprendeu com eles.

Eu adoraria ver uma placa na entrada de cada escola que diga: “Todo mundo que entra aqui, irá aprender”. Aprender significa não ter medo de examinar erros que professores cometem e encorajar estudantes a pensar de maneira que possam produzir erros. Use todos estes erros para aprender deles, para melhorar e para se sentir bem sobre o progresso individual.

 

 

“Um professor mais motivado será mais dedicado”

Agosto 22, 2016 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do site http://www.educare.pt/ a Afonso Mendonça Reis no dia 1 de agosto de 2016.

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Afonso Mendonça Reis criou a campanha “Inspira o teu Professor”. Uma iniciativa que anda pelas escolas para que os alunos percebam a importância de quem ensina.

Sara R. Oliveira

Este ano, Afonso Mendonça Reis, fundador das Mentes Empreendedoras e professor na Universidade Nova de Lisboa, esteve em Davos, na Suíça, a representar Portugal no Fórum Económico Mundial. O economista e empreendedor social teve oportunidade de divulgar a campanha “Inspira o teu Professor”, a iniciativa que ajuda alunos a perceber que os professores são importantes nas suas vidas. Com pequenos vídeos, cartas, pósteres, e mensagens inspiradoras.

“O que é preciso é criar as oportunidades para os alunos refletirem, desenvolverem e verbalizarem a sua opinião sincera”, diz ao EDUCARE.PT. Na sua opinião, é necessário, antes de tudo, sensibilizar alunos, pais, toda a comunidade, para que o papel dos docentes seja efetivamente valorizado. “Através de palavras inspiradoras e gestos simples de agradecimento iniciados pelos alunos e que se estendem posteriormente a toda a comunidade, acreditamos que estamos na direção certa para ajudar a reforçar a missão do professor.”

Criou as Mentes Empreendedoras que escuta ideias dos alunos. Algumas já estão no terreno. Bruna combate o bullying com ações de educação pela paz numa escola primária de Guimarães. Numa escola do Barreiro, um grupo de raparigas criou um centro de voluntariado que está perto da comunidade local. Em Faro, o Gonçalo recicla monitores, paletes e outros materiais, para abrigar gatos vadios que dormem na rua. “Temos testado com sucesso, ao longo dos anos, diferentes formas de integrar o nosso ciclo Mentes Empreendedoras no currículo do ensino oficial”, refere Afonso Mendonça Reis.

EDUCARE.PT: Como se inspiram professores? É mais simples do que parece?

Afonso Mendonça Reis (AMR): Existem princípios da liderança positiva que nos aconselham a dar três elogios por cada reparo. Quando o fazemos, as pessoas sentem-se reconhecidas, mais motivadas e têm um melhor desempenho. Ter uma atitude mais positiva e inspiradora para com as pessoas com quem vivemos e trabalhamos é muito importante e deve ser reforçada regularmente.

A motivação e a inspiração podem vir de gestos tão simples como dizer “obrigado”, reconhecer o trabalho que o outro faz, incentivá-lo para que faça ainda melhor, celebrar as pequenas vitórias. E tem ainda mais valor quando isto é feito pelos nossos pares ou para quem nós trabalhamos. Por isso, através da campanha “Inspira o teu Professor”, queremos fazer os alunos refletir sobre a importância do papel que os professores têm nas suas vidas, em termos profissionais e pessoais, e a agradecer-lhes e inspirá-los de formas simples e concretas, através de pequenos vídeos, cartas e pósteres com mensagens inspiradoras.

E: Quem ensina tem noção da sua importância social?

AMR: Na minha experiência, enquanto docente, percebo a importância de os alunos desenvolverem competências transversais e de concretizarem o seu potencial e trabalho todos os dias com esse objetivo em mente. Os professores com quem temos trabalhado nas escolas têm consciência da importância do seu trabalho no desenvolvimento pessoal e profissional dos seus alunos – o facto de abraçarem projetos como o nosso reflete a compreensão que têm do valor que o mesmo cria para os alunos.

Contudo, desde 2013, e até pelos desafios socioeconómicos que o nosso país tem atravessado, temos assistido a uma crescente desmotivação e descontentamento na classe dos professores, o que de certa forma pode distorcer de forma negativa a noção que têm da sua importância social. Por vermos professores dedicados perderem a sua motivação, criámos a campanha “Inspira o teu Professor” – para reforçar a importância de valorizar o papel dos professores junto dos alunos e da comunidade em geral.

E: E quem aprende sabe valorizar o papel de quem ensina?

AMR: A nossa experiência nos workshops “Inspira o teu Professor” reflete isso mesmo. Costumamos dizer entre nós, nas Mentes Empreendedoras, que os alunos “dizem o que não pensam e pensam o que não dizem”. É típico dos alunos do Básico e Secundário criticarem os professores, protestarem com as aulas e com as notas. A verdade é que estudar exige esforço e nem sempre conseguimos ver os frutos ou a importância que esse esforço terá no futuro. Mas também é verdade que quando os alunos pensam mais profundamente sobre quem lhes ensinou a ler e escrever, a fazer contas, quem está todos os dias com eles, quem é exigente para que eles se tornem cada vez melhores, chegam à conclusão de que os professores são verdadeiramente essenciais no caminho que percorrem.

A título de exemplo, durante a campanha, houve vários alunos que, no final dos workshops feitos nas escolas, disseram que aquela era a primeira vez que estavam a refletir a fundo no papel dos seus professores e em toda a dedicação e esforço que fazem para os ensinar e educar; mencionaram também o quão importante era ter mais momentos em que fossem incentivados a pensar neste tema para poderem ver os professores de uma outra perspetiva, mais positiva e inspiradora. Concluindo: o que é preciso é criar as oportunidades para os alunos refletirem, desenvolverem e verbalizarem a sua opinião sincera.

E: Criou o projeto “Inspira o teu Professor”. O que se faz? O que se pretende com esta iniciativa?

AMR: A campanha “Inspira o teu Professor” tem como objetivo valorizar a missão social dos professores, motivando-os a fazer mais e cada vez melhor. Fazemo-lo de duas formas: através de workshops nas escolas e de uma grande campanha de comunicação nacional.

Os workshops são destinados a alunos do Secundário, de qualquer curso, e são orientados pelos mentores e amigos das Mentes Empreendedoras, em colaboração com os professores das respetivas escolas. Nestes workshops, ajudamos os alunos a refletirem sobre o impacto que os professores têm na sua vida e desafiamo-los a agradecer e inspirar professores com mensagens cativantes materializadas em vídeos, cartas, testemunhos, desenhos e qualquer outra forma de comunicação criativa.

A campanha visa chegar a todos os membros da sociedade: professores, alunos, pais, sociedade. Neste sentido, os materiais de comunicação produzidos têm cobertura nacional. Tendo em conta a importância de haver diferentes pontos de vista, pretende-se que haja um reconhecimento universal do impacto dos professores na sociedade: primeiro no desempenho escolar dos alunos e depois na mobilidade social dos mesmos.

Este ano, realizámos a primeira edição da campanha no final de janeiro: 51 workshops em escolas de norte a sul do país, em que participaram cerca de 1300 alunos e através dos quais foram inspirados mais de 100 professores. Foram produzidos pelos alunos centenas de vídeos, cartas e pósteres, alguns dos quais poderão ser encontrados na nossa página de facebook: http://www.facebook.com/inspireyourteacher. Atualmente, estamos a definir a estratégia para o próximo ano letivo, em que pretendemos alargar a mais escolas em todo o país e chegar a mais alunos, inspirar mais professores e sensibilizar cada vez mais a sociedade. Estamos também a falar com parceiros de forma a estender a campanha a nível internacional.

E: Acredita que é o professor o fator que mais impacto tem na aprendizagem dos alunos?

AMR: Existe evidência estatística, segundo estudos PISA da OCDE, que prova que, depois da família e do contexto socioeconómico, os professores são de facto quem mais influencia o desempenho escolar dos alunos.

E: O reconhecimento do professor está pouco trabalhado no nosso país? O que deveria ser feito?

AMR: A questão do reconhecimento da missão do professor está pouco trabalhada em Portugal e foi por isso que criámos esta campanha, para reforçar a importância dos professores na sociedade. Adicionalmente, à medida que fomos participando em fóruns internacionais, fomos encontrando várias pessoas que se identificaram com o problema e que queriam tornar-se embaixadores das Mentes e levar a campanha para o seu país.

É necessário, em primeiro lugar, sensibilizar os vários agentes da comunidade – alunos, pais, membros da sociedade em geral – para que se possa aumentar o reconhecimento dos professores, levando a uma mudança de atitude. Através de palavras inspiradoras e gestos simples de agradecimento iniciados pelos alunos e que se estendem posteriormente a toda a comunidade, acreditamos que estamos na direção certa para ajudar a reforçar a missão do professor.

E: Criou Mentes Empreendedoras e vai às escolas ouvir as ideias dos alunos. Tem escutado boas ideias?

AMR: Não só temos ouvido boas ideias, como temos presenciado e participado no desenvolvimento e implementação das mesmas.

Exemplos: O projeto Arco-Íris, implementado pela aluna Bruna, em Guimarães, combate o bullying através de dinâmicas de grupo de educação pela paz e cooperação numa escola primária. O feedback das crianças e educadoras é positivo e a sessão final resultou num compromisso das crianças em nunca mais ser “bully” e ser ativo no combate ao bullying. Este projeto inspirou mais jovens e já foi replicado por mais dois clubes Mentes Empreendedoras.

Numa escola do Barreiro, um grupo de raparigas que sempre se interessaram por voluntariado, sentiu que havia pouca informação e oportunidades locais para as pessoas poderem colaborar como voluntárias. Assim, criaram o projecto “Ponte – Centro de Voluntariado” que liga o voluntariado à comunidade local e suas verdadeiras necessidades: http://www.facebook.com/pontecentrodevoluntariado, uma página no facebook que serve como plataforma de encontro entre associações no Barreiro que precisam de ajuda para realizar os seus projetos e pessoas interessadas em colaborar como voluntárias.

Em Faro, o Gonçalo criou condições para os gatos vadios poderem viver na rua. Através da reciclagem de monitores, paletes e outros materiais, foram criadas casa de abrigo do frio, calor e chuva. Este ano, o Gonçalo tornou-se mentor e é ele agora quem ajuda outros alunos a desenvolverem as suas ideias.

E: O que é ser bom professor? O que é ser bom aluno?

AMR: No mundo de hoje, dizer o que é bom ou mau é um exercício bastante desafiante. A missão do aluno na escola é aprender e a do professor é ajudar o aluno a aprender. Criámos a campanha porque acreditamos que um professor mais motivado será mais dedicado e terá um melhor desempenho em prol dos seus alunos do que um professor pouco reconhecido e motivado. Acreditamos no reforço positivo e que uma colaboração e reconhecimento efetivo de todas as partes, alunos, pais e professores ajuda os professores a serem melhores a ajudar os alunos a aprender.

E: Os alunos deviam ter mais autonomia? De que forma?

AMR: Desenvolver autonomia é algo que, em si mesmo, é positivo. O trabalho que as Mentes Empreendedoras fazem na escola pretende ser um complemento ao trabalho já desempenhado pela comunidade escolar e sempre em colaboração com os professores. Temos testado com sucesso, ao longo dos anos, diferentes formas de integrar o nosso ciclo Mentes Empreendedoras no currículo do ensino oficial.

O ciclo Mentes Empreendedoras é um processo de desenvolvimento de autonomia, de liderança e de talento nos jovens do Ensino Secundário. Despertamos os jovens para a ação e apoiamo-los na implementação das suas ideias e na sua aprendizagem ao longo do processo. Pretendemos com isto gerar um “ciclo virtuoso” que ativa o potencial impacto social dos jovens, tornando-os referências inspiradoras na sua comunidade.

Os alunos são desafiados a identificar um problema na sua escola ou comunidade e, consequentemente, a resolver ou mitigar esse mesmo problema. A aprendizagem surge quando as experiências, orientadas para um objetivo concreto, são consolidadas e ajudam os alunos a serem cada vez mais eficazes na prossecução do seu projeto ou outros desafios da sua vida.

E: Quais são, na sua perspetiva, os principais problemas do atual sistema de ensino?

AMR: Acreditamos que um debate alargado interpartidário, envolvendo a sociedade civil, poderia gerar consensos que permitiriam ir edificando e revendo um sistema de ensino que cumpra todas as ambições que dele pretendemos perante as naturais restrições de recursos que existem.

 

Bons leitores são bons alunos em qualquer disciplina

Agosto 19, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site http://novaescola.org.br/

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Quando a garotada lê bem (e compreende o que lê), tem mais chances de sucesso. Muitos professores já descobriram isso. E você?

Márcio Ferrari

Trabalhar produção de textos e leitura é tarefa de todos os professores, não só dos que lecionam Língua Portuguesa. A capacidade de entender e produzir textos é fundamental em qualquer disciplina, de História até Matemática. Cada área tem textos com características específicas e não dá para deixar tudo por conta do professor de Língua Portuguesa. “Não é que agora todo mundo tem de ensinar português e cuidar da correção ortográfica”, diz a consultora Maria José Nóbrega, de São Paulo. “Só o professor de cada área sabe se o texto que ele pediu está adequado em termos de vocabulário ou clareza da argumentação, por exemplo.”

É comum o professor de Matemática propor um problema às crianças e perceber que muitas teriam conhecimento para solucioná-lo, mas não conseguem chegar lá porque não entendem o enunciado. “Há alunos que sabem o raciocínio, mas têm dificuldade de escrever e de ler corretamente”, diz Kátia Smole, coordenadora do Mathema, empresa de consultoria em educação matemática de São Paulo.

Textos científicos ensinam a comparar opiniões

O estudo de texto nas aulas de Língua Portuguesa costuma se restringir a narrativas de ficção, relatos pessoais (como cartas) ou notícias tiradas da imprensa. Para o estudante, isso não é suficiente, porque há muitos outros tipos de texto que ele precisa compreender. “Cada área deve investir nos gêneros que fazem parte do seu dia-a-dia”, diz Maria José. Foi por isso que Daniel Helene, professor de História da Escola da Vila, de São Paulo, resolveu propor um trabalho de leitura e produção de texto técnico aos alunos da 5ª série, um dos 12 projetos vencedores do Prêmio Victor Civita Professor Nota 10 de 2004.

Com essa atividade, Daniel conseguiu o que queria: familiarizar a garotada com a escrita científica, que exige planejamento prévio para organizar idéias e atenção à clareza dos conceitos. A turma compreendeu que a linguagem formal facilita a comunicação com o leitor que não se conhece. Por isso, ela é a mais eficiente quando se escreve um texto para ser publicado, seja no jornal da escola ou em sua página na internet.

Os textos de ciências humanas têm outras características peculiares, como revelar a ideologia do autor e expor visões diferentes sobre um tema. Se os alunos forem acostumados a ler vários modelos de texto (de documentos oficiais a ensaios científicos), vão desenvolver espírito crítico para perceber essas nuances. Em pouco tempo saberão expor as próprias idéias por escrito, com argumentos destinados a convencer o leitor.

Na Matemática, o desafio é traduzir palavras em símbolos

A atividade com texto nas aulas de Matemática envolve outros desafios, como a relação entre duas linguagens diferentes as palavras e os símbolos matemáticos. Só o professor da área pode trabalhar satisfatoriamente a combinação de linguagens presente na resolução de problemas. Para solucioná-los, pede-se ao aluno que traduza uma situação inicialmente descrita em palavras para uma forma mais abstrata, composta de números e sinais.

Isso leva a criança a desenvolver habilidades de raciocínio e representação, que ela poderá usar em outras situações, cada vez mais complexas. Resolver uma questão matemática com desenhos pode ser um bom começo para que a garotada das primeiras séries se sinta à vontade no trânsito entre as duas linguagens. Por exemplo: peça que os alunos, por meio de desenhos, distribuam nove lápis em três estojos ou 12 bolas entre quatro crianças.

O trabalho com leitura e escrita em Matemática já pode ser proposto nas primeiras séries. A atividade em grupo é muito produtiva nessa fase, tanto para desenvolver habilidades de comunicação quanto para revelar ao professor e aos próprios alunos o quanto aprenderam e quais dificuldade ainda têm.

A professora Mirela Landulfo, do Colégio Nossa Senhora Aparecida, em São Paulo, utiliza textos nas aulas de Matemática desde a 2ª série. Para ela, essa é a melhor forma de levar as crianças a refletir sobre o que aprendem. Para ensinar tabuada, por exemplo, ela usa jogos e histórias em quadrinhos e depois pede que os alunos escrevam sobre a experiência. Os relatos dos estudantes sobre o Bingo da Tabuada em que eles têm de achar o resultado de uma multiplicação em suas cartelas de números mostraram a Mirela que alguns ficavam atentos às peças do jogo, outros às regras e os demais ao conteúdo matemático. Com base nisso, a professora concluiu que deveria continuar investindo na atividade até que a maior parte da turma constatasse, sozinha, como funciona a tabuada e também avaliasse o próprio aprendizado.

Para que a garotada da 7ª série conseguisse passar aos colegas os conceitos aprendidos, a professora Neide Pessoa dos Santos, da Escola Municipal de Ensino Fundamental Afrânio de Mello Franco, em São Paulo, realizou uma atividade que envolveu todas as turmas. Primeiro, propôs um problema aos alunos de uma classe. Depois, cada um escreveu uma carta, com indicações sobre a resolução, para um colega anônimo de outra sala. O tal colega mais tarde enviou uma resposta, avaliando as dicas recebidas e contando como solucionou o problema. “O exercício pedia um cuidado especial com o texto e ampliou o vocabulário matemático dos meninos”, diz Neide. O empenho das turmas foi tão grande que os professores adaptaram a experiência, com sucesso, para o laboratório de informática. Os alunos ensinaram uns aos outros, por escrito, como desenvolver um software que constrói mosaicos.

O que todo professor pode fazer

• Estimular o gosto pela leitura.

• Fazer perguntas e discutir o que foi lido.

• Avaliar o aprendizado por escrito.

• Mostrar a importância do vocabulário específico.

• Incentivar a clareza ao escrever.

• Treinar a habilidade de organizar ideias.

Quer saber mais?

Colégio Nossa Senhora Aparecida, Al. Jauaperi, 416, 04523-903, São Paulo, SP, tel. (11) 5054-4399

Escola da Vila, R. Alfredo Mendes da Silva, 55, 05525-000, São Paulo, SP, tel. (11) 3751-5255, www.escoladavila.com.br

Escola Municipal de Ensino Fundamental Afrânio de Mello Franco, R. Acambaro, 39, 04827-250, São Paulo, SP, tel. (11) 5667-0412

Bibliografia

Construir e Ensinar as Ciências Sociais e a História, Mario Carretero, 144 págs., Ed. Artmed, tel. 0800-7033444, edição esgotada

Ler e Escrever: Compromisso de Todas as Áreas, Iara Conceição Bitencourt Neves e outros, 232 págs., Ed. da Universidade, tel. (51) 3224-8821, 25 reais

Ler, Escrever e Resolver Problemas, Kátia Stocco Smole e Maria Ignez Diniz (orgs.), 204 págs., Ed. Artmed, 48 reais

Brincar é a forma mais natural de aprender

Agosto 5, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do http://www.educare.pt/ de 8 de julho de 2016.

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As crianças passam pouco tempo no recreio da escola. Brincar é um momento que perde fôlego à medida que os anos avançam no sistema de ensino. Mas as brincadeiras são importantes. Testam limites, confirmam capacidades, desenvolvem a autoconfiança e a autoestima. E ajudam a combater o insucesso escolar.

Sara R. Oliveira

Brincar. Brincar. Brincar. Dentro e fora da sala? Apenas nos primeiros níveis de ensino? Brincar para aprender? Brincar na escola? Brincar em casa? Brincar para conhecer os outros? Brincar para perceber-se a si? Brincar tem prazo de validade? Brincar tem tempo contado? Aida Figueiredo, investigadora do Departamento de Educação da Universidade de Aveiro, autora do primeiro estudo nacional sobre a interação das crianças com os espaços exteriores das creches e jardins de infância, analisou atentamente o assunto e concluiu que os mais pequenos passam 10,8% do tempo no recreio. E pouco desse tempo é dedicado ao jogo livre. “Quando falamos com educadores, professores e pais, eles afirmam e reiteram a importância do brincar como estratégia de aprendizagem e desenvolvimento das crianças. Contudo, as suas práticas, na maioria das situações, não vão ao encontro destes testemunhos”, adianta ao EDUCARE.PT.

Há, portanto, um longo caminho a percorrer. À medida que os anos passam, brincar perde estatuto no sistema de ensino. “As pressões para o sucesso académico, independentemente da faixa etária, são de mais evidentes. Nas idades mais precoces, pré-escolar e até mesmo na creche, há uma tendência para a escolarização, sendo frequente a manifestação de intenções para a aprendizagem precoce de conteúdos académicos e alguma ansiedade por parte dos pais para uma entrada precoce na escola, tendo por base a ideia ‘quanto mais cedo melhor’”, observa a investigadora. Depois do pré-escolar, os programas extensos e o ensino expositivo, sublinha, “não facilitam a integração do brincar como estratégia de aprendizagem e desenvolvimento, sendo este remetido para o espaço/tempo de recreio com características muito limitadas, ou seja, espaços estéreis e duração de aproximadamente 30 minutos”.

Brincar implica interação da criança com o espaço e com o tempo. E permissão de um adulto que pode dizer sim ou não. Aida Figueiredo defende que o tempo dedicado ao brincar e o espaço e a atitude do adulto devem promover diferentes oportunidades como correr, saltar, trepar, escorregar, balancear. A possibilidade de explorar, de construir e reconstruir o espaço mediante os interesses da criança, “de brincar ao faz-de-conta, de ter espaços de intimidade e de poder escolher com quem brincar, sozinho ou em grupo, são igualmente importantes”. Até porque brincar é um alicerce essencial da cultura humana. É dar liberdade à criança para exprimir o que lhe vai na alma. É testar limites, confirmar capacidades, desenvolver a autoconfiança e a autoestima. “Contudo, atualmente, a ocupação do tempo livre da criança é, na maioria das vezes, regulada por atividades organizadas (não livres) e estruturadas pelo adulto, claramente com finalidades pedagógicas e de desenvolvimento de competências académicas”. “Os responsáveis pela ocupação do tempo/espaço da criança esquecem-se que o brincar é a melhor forma, e a mais natural, de as crianças aprenderem”, afirma.

Brincar traz benefícios imediatos em diferentes domínios. “Considerando o aspeto socioemocional, a criança quando brinca expressa sentimentos e emoções como afeto, medo e agressividade e, em muitas situações, aprende a lidar com a frustração. Quando brinca com os pares, a partilha, a negociação, o estar em grupo, a liderança e a resolução de conflitos são uma realidade constante”. No domínio cognitivo, os benefícios são igualmente diversificados na autonomia, livre iniciativa, criatividade, imaginação e resolução de problemas. “Já no domínio motor e na saúde, o brincar pode promover o aumento da mobilidade, do movimento e da atividade física, contrariando a tendência para a obesidade e outras doenças associadas”, refere a investigadora, que acrescenta que o brincar permite “o desenvolvimento holístico das crianças com níveis elevados de bem-estar emocional”.

Brincar também é desafio e risco. É experimentar novas emoções. É aprender para a vida. “Estas vivências experienciadas durante o brincar permitem, ao longo da vida, uma maior flexibilidade para lidar com situações mais complexas e desafiantes, ficando menos vulneráveis a problemas de ansiedade.” Quando o assunto é brincar, Aida Figueiredo avisa que é preciso parar para pensar. Pensar no que se pretende para os mais novos. “Temos de permitir que as crianças sejam crianças. Penso que é inevitável um questionamento, individual e coletivo, por parte dos agentes educativos – pais, educadores, professores, escolas superiores de educação, universidades e responsáveis políticos pela educação -, sobre que cidadão se pretende para o futuro – reprodutor ou crítico e empreendedor – e se o que estamos a fazer atualmente permite alcançar o que desejamos”.

“O recreio é um direito”

Há uma frase que se perpetua. Que entra na cabeça e que não sai. “A sala de aula não é para brincadeiras.” Brincar é no recreio. “No entanto, a atividade lúdica como metodologia de trabalho, em sala de aula, é muito valorizada. Não são os professores que não entendem”, refere ao EDUCARE.PT Maria José Araújo, doutorada em Ciências da Educação, professora na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto. E não é por estar ou não na escola que os mais pequenos precisam de tempo para brincar. “A criança precisa de tempo para brincar porque é criança.” Há tempo para tudo. Tempo para estudar. Tempo para atividades escolares. Tempo livre. Tempo para brincar. E todos os tempos devem ser respeitados.

“Os adultos só têm que respeitar os direitos das crianças e criar condições para que elas possam exercer esse direito.” “Aliás, é obrigatório criar condições para que a criança vá à escola e é igualmente obrigatório criar condições para que as crianças brinquem. Está bem explícito na Declaração dos Direitos da Criança”, lembra. A questão é que as crianças passam muito tempo na escola e quando acabam as aulas ficam a fazer atividades ou a estudar. Ficam no mesmo ambiente, quase sempre espaços fechados. “De uma maneira geral, fazem atividades que são, maioritariamente, programadas numa lógica escolar: mesma metodologia, mesma intenção, mesmo objetivo, não deixando muito espaço de intervenção e exploração para a criança.”

É essencial respeitar as brincadeiras no recreio da escola. Há professores que castigam as crianças que não fazem os deveres, impedem-nas de ir ao recreio porque sabem que elas valorizam esse momento. Castigam para obrigar a fazer os trabalhos de casa. “Mas, na verdade, isso é perverso e é um erro, pois é castigar as crianças com o conhecimento que elas deviam valorizar. E é injusto porque são quase sempre os mesmos a serem castigados”, afirma Maria José Araújo. Um castigo contraproducente, na sua opinião, que merecia um estudo aprofundado.

“É importante que se explique que o recreio é um direito e é uma necessidade. É um espaço de sociabilidade fundamental para as crianças e os jovens.” Os adultos sabem o significado de um intervalo para café. Sabem que não é só para descansar. “Para as crianças e jovens é fundamental porque, de uma maneira geral, é no recreio da escola que eles conversam, brincam e criam novas brincadeiras e amizades. Cantam, fazem jogos, dançam, trocam informações, aprendem a cooperar e a estar uns com os outros, etc. Esta forma de se divertirem no recreio é fundamental para consolidar e recriar as suas culturas. É ainda fundamental para desenvolver a criatividade.” Não se trata de ir ao recreio recuperar energia. É mais do que isso. “É fundamental para cooperar com o seu grupo de pares, estabelecer redes e contactos, brincar e criar novos jogos e assim aprender. Na verdade, as crianças, enquanto atores sociais, sabem bem o significado do recreio e das brincadeiras de recreio. Basta perguntar-lhes.”

As crianças querem brincar, mas são os adultos que gerem os tempos. “A intensa atividade que se esconde por detrás do brincar não é percetível para muitos adultos. E como são os adultos que organizam a vida das crianças, fazem-no em função das suas lógicas de adulto.” O que fazer? Cumprir os direitos da criança. Acabar com as desculpas. Criar condições de prazer e de bem-estar. Maria José Araújo garante que brincar é fundamental para aprender a cooperar, a concentrar, e é o primeiro passo para combater o insucesso escolar. “As crianças que brincam têm mais sucesso escolar e está comprovado cientificamente.”

Amizade e tolerância
Para Adelina Pereira, professora reformada, distinguida com o Prémio de Mérito Liderança do Ministério da Educação em 2011, o pré-escolar valoriza e incentiva a brincadeira através de atividades que despertam para o quotidiano e desenvolvem a imaginação. “No 1.º ciclo, o ensino não privilegia o brincar nas aulas, mas há uma preocupação que a aprendizagem dos conteúdos seja realizada de uma forma mais lúdica, sendo mais atrativa para os alunos com o apoio de jogos relacionados com as diferentes temáticas, bem como a utilização de computadores e quadros interativos na execução das várias tarefas”, refere.

O tempo de brincar é importante. As brincadeiras despertam descobertas, a escola promove a socialização, facilita o encontro e a descoberta do outro. Brincar é um caminho para a partilha de valores. “Brincar deve ser um estímulo à criatividade e à imaginação com o uso de novas linguagens que ajudam as crianças a pensar. Uma vez que o mundo infantil está, de certa forma, entre a fantasia e a realidade, as brincadeiras permitem-lhes ‘fantasiar a realidade’ de uma forma criativa. É a brincar e a jogar que a criança aprende a comunicar, a relacionar-se com os outros e a adquirir um sentimento de pertença em relação ao grupo de amigos”, diz. O brincar deve ser, sempre que possível, em grupo, na sala ou no recreio, com atividades de lazer. E a escola pode oferecer equipamentos que ajudem a realizar tarefas divertidas.

“O brincar deve promover relações de convívio, de amizade e de tolerância. Deve incentivar a aceitação do outro como um ser diferente mas igual na sua realização pessoal.” Os atores educativos sabem que brincar é importante. No pré-escolar, há tempo para isso. Depois, o cenário altera-se. É preciso cumprir programas, ter bons resultados, a vertente lúdica acaba por ficar em último plano. “Os pais, atentos, querem que os seus filhos sejam os melhores e numa perspetiva de lhes dar uma educação mais abrangente, arranjam-lhes atividades que lhes ocupam o pouco tempo que lhes resta da escola e dos trabalhos de casa. Assim, os alunos do 1.º ciclo e seguintes aproveitam, por vezes, a sala de aula para brincar, demonstrando alguma dificuldade em se concentrarem nas temáticas propostas”, repara.

Adelina Pereira defende que a brincadeira deve ser estimulada dentro e fora da sala no pré-escolar. Atividades ao ar livre, em contacto com a natureza, deixar que os mais pequenos criem as suas próprias brincadeiras. “Passado este nível de descoberta, de adaptação, de socialização e de muita brincadeira, as crianças deviam entrar no 1.º ano com alguma maturidade para poderem compreender o mecanismo da escrita, da leitura e da matemática. Para isso, era necessário que as nossas crianças entrassem neste nível de ensino com 7 anos. Assim, a transição seria mais serena e haveria, sem dúvida, tempo para uma aprendizagem mais lúdica e aprazível”. “Uma criança com 6 anos e, às vezes, 5 a fazer 6, dali a três meses, não está ainda preparada para perceber os conceitos abstratos da leitura e da matemática. Começa aí o insucesso e o desinteresse pela escola e esta não vai largar a criança, dando-lhe mais aulas de recuperação, mais trabalhos de casa e lá se vai o tempo da brincadeira”, conclui.

 

 

José Pacheco: “Aulas no século XXI são um escândalo. Com aulas ninguém aprende”

Abril 21, 2016 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do Observador a José Pacheco no dia 10 de abril de 2016.

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Marlene Carriço

Uma escola sem divisão por ciclos de ensino, sem turmas, sem aulas, nem testes. Uma escola onde os alunos aprendem e onde são felizes. É esta a escola que o professor José Pacheco defende.

José Pacheco tem 64 anos e é mestre em Educação da Criança, pela Universidade do Porto. Chegou a fazer parte do Conselho Nacional de Educação e ganhou prémios pelo projeto que coordenou na Escola da Ponte. Há 10 anos decidiu mudar-se e rumou ao Brasil, onde é responsável por mais de 100 projetos para um novo modelo de ensino. No ano em que a Escola da Ponte faz 40 anos, o Observador pôs-se à conversa com o seu principal fundador.

Crítico do modelo tradicional de ensino, que afirma ser do século XIX, o professor defende a aprendizagem numa escola sem aulas, nem turmas, nem ciclos. Uma mudança radical na forma como vemos a escola pública? Sim. Mas possível de implementar, e com sucesso, garante.

Porque é que há 40 anos sentiu necessidade de mudar a forma como dava aulas? O que o levou a iniciar o projeto “Fazer a Ponte”?

Porque me vi incompetente e antiético. Incompetente porque não conseguia ensinar todas as crianças e muitas reprovavam, e antiético porque reconhecia que não ensinava todos e continuava a trabalhar do mesmo modo. E quando encontrei duas professoras que faziam a mesma pergunta que eu — “Porque é que damos a aula tão bem dada e há alunos que não aprendem?” — descobrimos a resposta: se nós dávamos as aulas e eles não aprendiam, eles não aprendiam porque nós dávamos a aula. É isso mesmo. Para nós foi perder o chão. Nós só sabíamos dar aula. Por isso não fui eu que fiz a Ponte, foi muita gente. Talvez eu fosse um despoletador do projeto. E o que fizemos foi algo intuitivo e amoroso: continuámos a dar aulas, porque criança não é cobaia, mas simultaneamente introduzimos nas nossas práticas, em equipa, algumas metodologias, técnicas, espaços de convivência, que foram dando forma a um novo projeto.

Um projeto mais baseado na autonomia?

Na autonomia, na responsabilidade e na solidariedade, que foram os três valores matriciais do projeto. As escolas são as pessoas e as pessoas são os seus valores. A escola não são edifícios, são projetos que partem de valores e de princípios e nós fomos indo ao encontro de uma concretização desses valores.

E as mudanças começaram logo a apresentar resultados?

Houve uma melhoria cognitiva, mas nós fomos além. Nós fizemos pela primeira vez aquilo que hoje se chama de educação integral. Compreendemos que teríamos de mexer não só no nível cognitivo, mas também no domínio atitudinal, sócio moral, ético, estético, emocional, espiritual.

Mas a forma de ensinar mudou repentinamente?

Não. De início dávamos aula durante a maior parte do tempo, porque era aquilo que nos tinham ensinado a fazer, mas fomos introduzindo alterações. Passámos de uma cultura de solidão para uma cultura de equipa, de corresponsabilização. Essa reelaboração da nossa cultura pessoal e profissional custou tempo e sofrimento. Decidimos habitar um mesmo espaço, derrubar paredes, juntar alunos. Compreendemos que sozinhos não poderíamos ensinar tudo a todos. Mas se estivéssemos em equipa, com um projeto, e autonomizássemos o ato de aprender, poderíamos responder efetivamente às necessidades de cada jovem. Ao fim de oito anos estava já a escola toda com um modelo diferente. E nós descobrimos uma coisa fundamental, que é que um professor não ensina aquilo que diz, ele transmite aquilo que é. Um professor tem que ser um tutor e um mediador de aprendizagens. E a aprendizagem acontece quando há um vínculo afetivo entre quem supostamente ensina e quem supostamente aprende.

40 anos depois, como está a Ponte? E como está o ensino em Portugal?

Tenho estado ausente e sinceramente posso estar muito desfasado da realidade portuguesa, mas tenho os meus netos e o meu filho que é professor e vou tendo retorno. Tenho tido algumas informações que me levam a crer que todas as engenharias curriculares feitas até hoje, pouco ou nada fizeram mudar a escola. Todos já perceberam que o modo como trabalham não ensina todos e que isso contraria aquilo que é o direito à educação e que é um dever do Estado. As escolas têm excelentes professores, mas a trabalhar do modo errado. Não faz sentido alunos do século XXI terem professores do século XX, com propostas teóricas do século XIX, da Revolução Industrial. A grande questão é que as escolas têm sido geridas por burocratas e não por pedagogos e as políticas públicas têm sido desastrosas: mais exames, mais alunos por turma.

Quer dizer que não concorda com os exames.

Mais exames não vão melhorar o sistema porque não é a preocupação com o termómetro que faz baixar a temperatura. Mais exames para quê? Os exames não avaliam nada. O teste é o instrumento de avaliação mais falível que existe. Conceber itens de teste, garantir fidelidade e tudo mais é um exercício extremamente rigoroso, assim como assegurar que as condições são as mesmas para todos quando se aplica o teste. E corrigir o teste também introduz uma subjetividade enorme. Além disso, esses instrumentos de avaliação apenas “provam” a capacidade de acumulação cognitiva, de armazenamento de informação em memória de curto prazo, para debitar no exame e esquecer.

Então como se deve avaliar as aprendizagens dos alunos?

Através de uma avaliação formativa contínua e sistemática, que é o que não se faz nas escolas. Nas escolas aplica-se teste e dá-se uma nota sem saber o que se faz. Há quem confunda avaliação com classificação e dê a nota a partir dos resultados dos testes. Eu sei que se alega considerar uma percentagem da nota dada a partir da avaliação de atitudes. Porém, não se apresenta os instrumentos de avaliação, que permitam medir atitudes como a autonomia, a criatividade. Diria que essa avaliação é feita a ‘olhómetro’.

E era de esperar que o ensino público português, passados estes 40 anos, mantivesse um modelo tradicional de aulas?

Eu acredito nos professores, na escola, mas não com as medidas político-educativas que são tomadas. Injeta-se na escola cada vez mais objetivos por pressão corporativa. Injeta-se nas escolas áreas que não faz sentido algum. Por exemplo, criar uma aula de área de projeto? Projeto é o projeto da escola, é o projeto educativo. Educação para a cidadania? Nós não ensinamos para a cidadania, nós educamos na cidadania. Cidadania não é uma hora por semana, é todo o tempo de escola. Andamos a brincar com coisas sérias. Está tudo errado.

E porque ninguém muda? A mudança não passa também pelos professores?

Os professores têm uma cultura em tudo contrária à mudança. Eles são ótimas pessoas, maravilhosas. Repare, professor é a única profissão em que o estágio é feito antes de tirar o curso. Fazem 12 anos a ouvir aulas, entram na faculdade e ouvem aulas, e vão dar aulas. Podem até ouvir falar dos Piagets da vida, mas os estágios são feitos em escolas tradicionais, onde estão excelentes professores tradicionais que trabalham no paradigma do século XIX ou XVIII. Este modelo de escola, desde o século XIX, que subdivide a escola em ciclos, em anos, em turmas, em horário padrão, isso é cartesianismo. Aulas? Aulas no século XXI são um escândalo! Em aulas ninguém aprende! Eu aceito quem conteste o que eu digo, mas ninguém contesta porque é uma verdade.

Mas é possível alunos de idades diferentes, todos juntos, aprenderem, na mesma sala, o que é suposto para a sua idade?

Porque não? Ninguém aprende com quem sabe a mesma coisa, ninguém aprende com quem tem a mesma idade. Eu falo daquilo que eu faço [no Brasil] e que tem excelentes resultados. Estou a falar de projetos que produzem excelência académica e inclusão social e onde não há organização por idades. Onde as escolas não têm casa de banho do aluno separada de casa de banho do professor, onde os auxiliares de ação educativa ensinam a limpar aqueles que sujam, onde a educação acontece. Onde não há aulas, nem turmas, nem anos, que são dispositivos sem sentido nenhum, sem fundamentação científica. Concebeu-se uma nova construção social de aprendizagem onde todos aprendem e são felizes. Isso é possível. Eu provo isso em mais de 100 projetos no Brasil e mais meia dúzia em Portugal.

E como vê a figura do chumbo?

A reprovação é a prova de que realmente a escola não funciona como deveria. Muitas vezes se diz que os professores são exigentes quando reprovam. A pergunta que eu faço é: se a escola melhor é a que mais alunos reprova, o melhor hospital é o que mais doentes mata? Quando as pessoas nem sequer refletem sobre isso… Quanto às classes de apoio, planos de recuperação, isso é tudo um enfeite que não resulta, porque aquilo que não se ensina em oito meses, não é em um mês de plano com mais do mesmo que se vai ensinar. Não é com mais horas de aula que se vai ensinar mais, é com outro tipo de aprendizagem.

Mas se o aluno não conseguir atingir as metas de aprendizagem… como se faz?

Compreendo a insistência. Nas escolas que, infelizmente, ainda vamos tendo, há alunos que não conseguem atingir metas. E é preciso acrescentar aulas de recuperação, “explicações”, “planos educativos individuais” e outros paliativos. Mas, nos projetos que acompanho, todos os alunos alcançam as metas. Porque trabalhamos a montante, para não ter de remediar a jusante; investimos na prevenção, para não tentar remediar depois. Nesses projetos, não há “alunos que não conseguem atingir metas”. Portanto, nada é preciso fazer, a não ser desenvolver um trabalho escolar coerente com a Lei de Bases. Em cada escola a seu modo, não há receitas.

Mas concorda que é difícil mudar este paradigma.

Se fosse fácil já tinha mudado. É difícil, é difícil…

Então como se pode fazer esta mudança?

Eu defendo sempre múltiplos caminhos. Um deles é que nós deveremos, nas escolas que despertam para a necessidade de mudar, trabalhar com aqueles professores que tomaram consciência e com coragem, lentamente, respeitando a criança, começar a desenvolver o projeto educativo da escola. Porque os projetos educativos das escolas não são cumpridos. E então esse núcleo de projeto, respeitando quem não queira, tem de avançar com autonomia pedagógica.

Aqui e ali têm sido anunciados alguns projetos inovadores, como as salas de aula do futuro. Isto pode ser o início da mudança?

Não, de modo algum. A aula híbrida, como vejo por aí, é aula. Não tem de haver aula. E as novas tecnologias podem ser importantes, se não forem mitigar o modelo de escola, enfeitar as aulas com quadros interativos ou um portátil por aluno. Quando um aluno está com acesso à informação na Internet ele não aprende, ele precisa da intervenção do adulto, do mediador da aprendizagem, que o ajude a passar da informação caótica para o conhecimento e do conhecimento para uma ação e isso chama-se projeto. E ao passar do conhecimento para a ação desenvolve competências. Isso não acontece numa aula.

Mas nessas salas o professor está lá apenas a guiar o grupo de alunos que tem de buscar as respostas.

Perante o quê? Um projeto? E lança perguntas significativas para os alunos? A aprendizagem tem de partir de necessidades, desejos, sonhos, algo concreto, que eu sinto que a comunidade precisa. É a partir dessa necessidade, com a introdução de projetos de pesquisa e roteiros de estudo, que as coisas acontecem.

Pode-me dar um exemplo prático de como isto pode funcionar?

Há um jovem que se queixa que lhe põem o lixo à porta na sua rua e ele percebe que tem de acabar com essa situação. Ele junta-se com outros jovens e vai fazer um projeto para acabar com a lixeira. Ele vai ter de fazer roteiros de pesquisa para perceber porque é que há lixo, o que é o lixo, o que é isso de recolha seletiva de lixo. Ele vai ter de reunir muitos objetivos do currículo nacional, de ciências, matemática, estudo do meio, português, para resolver. Mas não ensinamos tudo assim. Há objetivos que é impossível incluir nesses projetos que partem das necessidades, então aí nós fazemos os projetos paralelos, alternativos, porque não podemos permitir que a criança não aprenda todos os objetivos do programa.

Esses projetos funcionam de acordo com o modelo tradicional de aulas?

Não! Vou perguntar-lhe e assim pergunto a muita gente: sabe fazer a raiz quadrada? Já não se lembra! Sabe qual a fórmula para calcular o volume da esfera? Não, pois não? Eu posso continuar a perguntar-lhe coisas do ensino básico e você não sabe. E agora pergunto: não teve aulas sobre isso? Aprendeu? Não. Numa aula não se aprende nada. Aprende-se no contexto de projetos, com roteiros de pesquisa, com mediação pedagógica devidamente feita e com avaliação formativa contínua e sistemática, preferencialmente com portefólios digitais de avaliação. É isto.

E é possível fazer diferente e cumprir com os programas, currículos e alcançar metas de aprendizagem?

Só é possível cumprir com tudo isso fazendo diferente, porque do modo que a escola funciona o currículo não é cumprido. Os projetos não são cumpridos.

Que conselho deixa ao ministro da Educação?

Não sei. Mas posso propor que ele reúna com gente que já faz diferente para melhor cá ou se quiser ir lá fora vai ver que lá fora acontecem coisas muito boas em centenas de lugares, em muitos países. Esqueçam a Finlândia e o Norte da Europa.

 

Na Escola da Ponte não há turmas, nem testes

A Escola Básica da Ponte, no concelho de Santo Tirso, marca a diferença no ensino público português há 40 anos. Nesta escola não há ciclos, nem turmas, nem testes. A escola organiza-se em núcleos de projeto e são os alunos, em conjunto com os “tutores”, que definem, quinzenalmente, os objetivos de aprendizagem e vão sendo avaliados à medida que vão dizendo que “já sabem” aquilo a que se propuseram. Na última avaliação externa, levada a cabo pela Inspeção-Geral da Educação, a escola foi avaliada com Muito Bom em todos os parâmetros.

 

 

 

 

 

 

 

 

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