É preciso voltar a pôr as crianças off do mundo virtual

Agosto 14, 2020 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Público de 27 de julho de 2020.

Deslizar o dedo pelo ecrã em tenra idade

Agosto 12, 2020 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Notícias Magazine de 30 de julho de 2020.

Os especialistas não aconselham a visualização de conteúdos em equipamentos como o smartphone ou o tablet abaixo dos dois anos. Interfere com o normal desenvolvimento cerebral. A teoria, porém, pode esbarrar na realidade e cada família terá uma palavra a dizer.

Sofia Filipe

Um restaurante é muitas vezes um excelente palco da impaciência de uma criança e, enquanto a comida não chega, cabe aos pais a tarefa de colocar “em cima da mesa” distrações. Para Renato Gonçalves e Liliana Nunes, ambos de 37 anos, basta um lápis e uma folha para manterem Rafael distraído. Só uns minutos. O sossego regressa ao improvisarem um teatro com fantoches de dedos, com uma corrida de carrinhos ou com bolinhas de miolo de pão a imitar plasticina. “Chegámos a ouvir comentários e até olhares de reprovação, porque o nosso filho não permanecia quieto nos restaurantes”, desabafa Renato. “As crianças têm os seus tempos e rapidamente deixam de manifestar interesse numa determinada distração”, comenta Liliana.

O casal vive em Lisboa e considera que recorrer à tecnologia é “ir pela via mais fácil”. Foi, pois, excluída até o menino completar dois anos, exceto para videochamadas com os avós maternos residentes em Grândola. A decisão foi baseada em convicções pessoais, mas também no que a experiência profissional lhes ensinou. Renato é programador informático no Aeroporto de Lisboa e sobre os sistemas operativos Android e IOS refere que foram “criados para uma utilização fácil e intuitiva, não deixando muita margem para o pensamento”. Liliana é enfermeira na especialidade de Neuropediatria e aponta malefícios ao nível oftalmológico, sinais de dependência, impacto na socialização e interferência na qualidade do sono. Uma das suas tarefas é administrar vacinas a bebés desde os dois meses e constata que a maioria dos pais utiliza o telemóvel para entreter os filhos. “Há outras formas de distrair”, comenta a mãe de Rafael, que atualmente tem três anos e, em alternativa ao smartphone, brinca com legos, puzzles, ouve histórias, desenha, diverte-se com um balão ou brinca ao ar livre.

Mónica Vasconcelos, neuropediatra no Hospital Pediátrico de Coimbra e presidente da Sociedade Portuguesa de Neuropediatria, explica que nos primeiros anos de vida o cérebro é sensível a um amplo espectro de experiências – sensoriais, motoras, linguísticas, emocionais, afetivas – essenciais para a evolução da linguagem e das funções cognitivas. Por seu turno, avisa que “o uso de dispositivos eletrónicos pode afetar o desenvolvimento cerebral”, indicando que esses aparelhos “promovem a passividade, desencorajam a criatividade, a flexibilidade do pensamento e prejudicam a aprendizagem ativa, o treino da capacidade de manter a atenção e a destreza motora”.

Para João Guerra, pedopsiquiatra do Departamento de Pedopsiquiatria do Centro Hospitalar do Porto (CHP), a “indisponibilidade de tempo e de calma de muitas famílias e o desejo de ver um sorriso permanente no rosto das suas crianças” contribuiu bastante para o uso do ecrã abaixo dos dois anos. Teve igualmente muita influência o uso massificado e o tempo que os adultos passam em frente a ecrãs. “É um modelo de um comportamento”, diz o pedopsiquiatra, dando exemplos clássicos, de tão repetidos, de bebés e crianças que “têm” de ter um tablet ou um smartphone para comerem ou para andarem de carro.

Não raras vezes Carla Jerónimo vê chegar ao Colégio Peluche, em Cascais, onde trabalha como educadora de infância, “crianças com o telemóvel na mão”. A birra é o desfecho habitual. “Às vezes é difícil acalmar a criança, que tem um misto de emoções, porque teve de largar o que tanto queria e foi contrariada pelo pai ou pela mãe. Mas acaba por esquecer o aparelho e entrar na rotina”, conta a educadora que, cada vez mais, repara em “casos de problemas de socialização, atraso na linguagem ou dificuldade em pegar num lápis”.

O uso exagerado da tecnologia pode prejudicar a coordenação motora (gatinhar, andar, saltar) e a motricidade fina (pegar numa colher ou num lápis) e, mais tarde, causar alterações posturais e problemas visuais, atesta Mónica Vasconcelos. “Deslizando o dedo no ecrã, algumas crianças conseguem empilhar cubos, mas são incapazes de o fazer se lhes dermos verdadeiros cubos”, exemplifica a neuropediatra, frisando que o audiovisual modifica a forma como é recebida a informação. “Nos ecrãs a história é mais rápida, o tempo de concentração é menor, muda-se de cenário muito rapidamente e a atenção está exposta a estímulos fragmentados.”

Se o tempo de ecrã aumenta, automaticamente diminui o período para outras atividades essenciais para a estimulação de áreas cerebrais e aquisição de competências. No futuro, a existência de limitações poderá originar “quadros clínicos como obesidade, dificuldade no sono ou problemas de comportamento”, garante João Guerra, focando a dependência. Por serem excitatórios, alguns conteúdos associam-se à libertação de um neurotransmissor, dopamina, ligado ao prazer e ao desejo de o repetir. “Quando é interrompida essa atividade e a produção de dopamina, naturalmente surgem por vezes reações de grande irritabilidade e descontrolo.”

Teoria esbarra na realidade

Mónica Vasconcelos e João Guerra defendem a restrição por completo de tablets e smartphones antes dos dois anos. É uma recomendação da Academia Americana de Pediatria (AAP) mas “esbarra na realidade”, constata o pedopsiquiatra. Que o diga Teresa Sofia Castro, pós-doutoranda na Universidade Nova de Lisboa, atualmente a desenvolver o projeto longitudinal Famílias iTec (estudo sobre o uso de meios eletrónicos por crianças dos zero aos oito anos) e membro da rede EU Kids Online.

Em 2016, a AAP reconheceu um desajustamento da orientação face ao estilo de vida moderno, até porque os ecrãs conciliam várias funções num mesmo dispositivo. “O distanciamento entre teoria e prática é o que mostra a minha experiência no terreno. As recomendações são aconselhamentos. Como tal, muitas vezes, colidem com a diversidade de cenários e composições familiares”, sustenta a investigadora, que lida com muitas realidades, como a de uma mãe que vive sozinha com o filho e que lhe dá o tablet enquanto se prepara para sair de casa, para garantir que o jovem não corre o risco de se magoar por andar livremente pela casa.

Teresa Sofia Castro, que também tem colaborado na construção de produtos lúdico-pedagógicos dirigidos a famílias e escolas, considera fundamental apoiar as pessoas com informação baseada na evidência e que não “alimente medos ou ansiedades, mas antes privilegie boas práticas”. Diz que cada núcleo familiar “deve ser entendido no seu contexto e sem pré-juízos”. Isto porque “não há fórmulas mágicas nem receitas”. E, se há um forte desenvolvimento tecnológico, também existem “pais digitalmente competentes que combinam e reajustam diferentes estilos de mediação para gerir o uso de ecrãs no contexto familiar”.

Natural do Porto, Teresa tem dois anos e partilha o quarto com a irmã Luísa, três anos mais velha. Numa parede está afixado um acordo familiar com as normas do uso de tecnologias. Assinado por Luísa e pelos pais, Helena Grangeia e Rodrigo Diego, o documento refere que o uso do smartphone não pode exceder os 15 minutos, o equipamento é apenas utilizado em casa, mas nunca antes de dormir, sempre com um adulto por perto, e não pode haver brigas entre as duas manas. “A Teresa ainda não consegue compreender as regras que foram co-construídas com a Luísa. Mas aceita se pedirmos o aparelho, porque passou o tempo estipulado”, afirma Helena, 36 anos, investigadora na área de Psicologia.

O pai das duas irmãs tem 38 anos, é diretor de recursos humanos e conta que Luísa tinha algumas dificuldades para comer. Por indicação de amigos, recorreram a equipamentos eletrónicos e verificaram que o “apetite melhorava” mas, a dada altura, só comia a ver vídeos. “Até que um dia o tablet se partiu. Foi a nossa tábua de salvação.” O uso passou a ser muito mais limitado. Porém, Teresa “nasce já com a Luísa a pedir para ver conteúdos, pelo que teve um acesso mais precoce”, diz a mãe destas irmãs. “Temos a perfeita noção de que o uso de tecnologia pode ser nocivo e, por nós, nem haveria nenhum contacto. Mas uma coisa é o que pensamos, outra o que acontece no dia-a-dia. E, na verdade, é muito difícil evitar o uso completo destes aparelhos.”

Antes dos dois anos, “a negociação não é tanto com as crianças, mas sim dos próprios pais em relação às situações e ao tempo de ecrã que consideram ser ajustado, para garantirem um bom desenvolvimento da criança e uma relação saudável e equilibrada com a tecnologia”, defende Teresa Sofia Castro, que aconselha a visualização de conteúdos adequados à idade e maturidade da criança.

Há pouco mais de um ano, Daniel tinha seis anos quando pegou no tablet, sob o olhar atento dos pais, Elisabete Barros e João Trindade, ambos de 40, para mostrar vídeos do Panda, d’Os Caricas e da Xana Toc Toc ao Miguel, hoje com dois anos. “Nessa altura tinha instaladas no iPhone várias aplicações e músicas para bebés”, comenta a mãe, que faz registos fotográficos dos desenvolvimentos dos filhos para elaborar uma revista para cada um e, de facto, no primeiro número relacionado com o uso de tecnologia, cada um dos irmãos tinha seis meses. “Atualmente, o tablet é partilhado, de forma negociada, respondendo a interesses comuns e individuais.”

Neste lar em Braga, os aparelhos eletrónicos são uma presença banal. A televisão está ligada a maior parte do tempo nos canais Panda ou Disney Júnior, o computador é bastante usado para visualizar fotografias, muitas das quais tiradas pelo Miguel no tablet, no telemóvel ou na máquina fotográfica. “Costumo pesquisar imagens de animais no Google para mostrar ao mais novo. Delira e aprende bastante. Também ouvimos música. Sou investigadora em Tecnologia Educativa no Instituto de Educação da Universidade do Minho e o meu marido é proprietário da Portugaltripsandtours, uma empresa na área do turismo, e as tecnologias são ferramentas essenciais. Estão disponíveis para trabalho e lazer”, declara Elisabete, para quem a preocupação não passa pelo uso precoce mas sim “o desmazelo de deixar que o Miguel use o tablet ou o smartphone horas seguidas ou não observar o que está a visualizar”. Estimula, assim, a realização de atividades como pintura, colagens, jardinagem, culinária ou brincar livremente.

Helena e Rodrigo sublinham a importância de sair à rua com a Teresa e com a Luísa, que brincam imenso juntas. “Temos um parque infantil perto de casa onde andam de bicicleta ou de patins”, diz Rodrigo. Foi a tia materna quem primeiro apresentou as novas tecnologias ao Rafael e depois a avó paterna, após os dois anos. Liliana e Renato começam a pensar na segurança, apesar de ser “um problema para mais tarde”. Para já, o uso é muito controlado. “Vê sobretudo vídeos de construção de legos, que depois reproduz”, menciona Liliana, que acredita na sensibilidade de cada pai ou mãe.

Crianças do pré-escolar passam mais de hora e meia por dia em frente a ecrãs

Julho 2, 2020 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Expresso de 19 de junho de 2020.

Foram avaliados os hábitos de 8.430 crianças, com idades compreendidas entre os três e os 10 anos, a residir nas cidades de Coimbra, de Lisboa e do Porto

Um estudo concluiu que as crianças do ensino pré-escolar (até aos cinco anos) passam, em média, mais de uma hora e meia (154 minutos) por dia em frente à televisão e outros dispositivos, anunciou esta sexta-feira a Universidade de Coimbra (UC).

Publicado na revista científica BMC Public Health, o estudo, intitulado “Social inequalities in traditional and emerging screen devices among Portuguese children: a cross-sectional study”, foi realizado por uma equipa de investigadores do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde (CIAS), da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC (FCTUC).

O estudo, refere a UC, teve como objetivo avaliar o tempo de ecrã das crianças portuguesas em diferentes equipamentos eletrónicos — os tradicionais (como a televisão, o computador e as consolas de jogos) e os modernos, incluindo os ‘tablets’ e os ‘smartphones’ –, bem como “determinar as diferenças no uso de acordo com o sexo e a idade das crianças e a posição socioeconómica das famílias”.

Foram avaliados os hábitos de 8.430 crianças, com idades compreendidas entre os três e os 10 anos, a residir nas cidades de Coimbra, de Lisboa e do Porto.

Os dados foram recolhidos em 118 escolas públicas e privadas, e as taxas de participação foram de 58% em Coimbra, 67% em Lisboa e 60% no Porto.

De acordo com os resultados do estudo, nas crianças mais velhas o tempo em frente ao ecrã é maior, sobretudo devido ao maior tempo gasto em dispositivos eletrónicos, como computadores, videojogos e ‘tablets’: aproximadamente 201 minutos por dia.

“Concluímos que a maior parte das crianças, principalmente entre os meninos, excede as recomendações de tempo de ecrã indicadas pela Organização Mundial da Saúde e pela Associação Americana de Pediatria, em que o tempo de ecrã deve ser limitado a uma hora (em crianças até aos cinco anos) ou a duas horas por dia (em crianças acima dos seis anos)”, afirma, citada pela UC, Daniela Rodrigues, primeira autora do artigo agora publicado.

Embora a televisão continue a ser o equipamento mais utilizado, “o uso de ‘tablets’ está generalizado e o tempo gasto neste equipamento é elevado, incluindo em crianças com três anos de idade”, nota a investigadora.

O tempo de ecrã “é sempre mais elevado em crianças de famílias de menor posição socioeconómica, independentemente da idade, sexo, ou do tipo de equipamento”, sublinha ainda Daniela Rodrigues.

De acordo com a investigadora, tendo em conta que o tempo de ecrã está associado a um impacto negativo na saúde das crianças, por exemplo, menor tempo e qualidade do sono, maior atraso no desenvolvimento cognitivo e da linguagem, excesso de peso, etc., estes resultados “indicam que é necessário um maior controlo por parte dos pais no acesso que as crianças têm aos equipamentos eletrónicos”.

Este panorama é “ainda mais preocupante numa altura em que, devido à pandemia de covid-19, as crianças estão obrigadas a passar mais tempo em casa, e precisam de recorrer a alguns destes equipamentos para aceder à telescola”, adverte.

“É fundamental identificar os subgrupos de risco e identificar como cada dispositivo é usado de acordo com a idade, para permitir futuras intervenções apropriadas”, sustenta a investigadora da FCTUC.

Os pais, conclui Daniela Rodrigues, “devem ter em mente que as crianças passam a maior parte do tempo a ver televisão, mas os dispositivos móveis estão a tornar-se extremamente populares a partir de tenra idade”.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Social inequalities in traditional and emerging screen devices among Portuguese children: a cross-sectional study

Crianças e jovens. Uma “vacina real” contra o isolamento

Maio 14, 2020 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da RTP de 19 de abril de 2020.

Quando se é criança e jovem acredita-se que tudo é possível. Mas será esta energia suficiente para ultrapassar a barreira invisível do confinamento motivado pela pandemia? E serão eles, mais do que os adultos amadurecidos pelas vivências, a ensinar-nos como ultrapassar as dificuldades atuais?

por Nuno Patrício

Viver em comunhão e partilha é para crianças e jovens um estado natural. Num mundo cada vez mais sem fronteiras, criar laços de amizade onde a movimentação não se restringe já às fronteiras internas e onde as tecnologias aproximaram ideias e credos, as gerações mais novas adaptaram-se a viver em rotinas dinâmicas de movimentação e de fácil comunicação.

Um mundo que de um dia para outro mudou e pode mudar também a forma de como estas gerações se adaptam e relacionam com ele.

Carlos Céu e Silva, psicólogo clínico formado pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada e Mestre em Aconselhamento Dinâmico, afirma que é natural que crianças e jovens sintam o atual momento como adverso. Contudo este momento em particular pode também ser interpretado como uma excelente oportunidade para uma reaproximação de laços familiares, que a sociedade tanto tem tirado.

“Esta ansiedade que nós criamos”, diz Carlos Céu e silva, “é por vezes mais vinda dos adultos e da nossa perceção de limitação. As crianças obviamente também se sentem limitadas, mas se olharmos para a janela e para a rua, hoje em dia vemos os pais a fazerem aquilo que faziam há 30 anos, que é andar de bicicleta e a fazer uma série de coisas de um modo descontraído e quase que pedagógico ou lúdico”.

A idade como forma de maleabilidade

Os amigos e as brincadeiras parecem agora presos neste passado recente, ainda muito presente. Crianças e jovens vão ter de construir um novo molde.

Sendo as camadas novas “mais plásticas”, existe a tendência para uma maior facilidade na adaptação, muito embora quando esta situação passar se envolvam rapidamente na dinâmica social e destes tempos permaneça apenas uma vaga recordação de dificuldade.

Já os adolescentes, com uma mentalidade mais amadurecida, vão olhar o mundo de uma forma diferente, explica o psicólogo Carlos Céu e Silva.

“Este lado de confinamento tem um lado negativo muito grande que afeta a saúde mental, quer dos adultos, adolescentes ou crianças. (…) Há uma saturação independentemente de toda a criatividade que possam criar”, com a realização de novas tarefas e inovadoras, “ mas também na descoberta de novas facetas que não imaginavam ter”.

Toda uma redescoberta em que a música, a leitura e a informação pode voltar a ser parte de um quotidiano perdido, muitas vezes para as redes sociais, que continuam muito presentes nesta nova sociedade enclausurada.

Mens sana in corpore sano

Estar e ser ativo é questão fundamental para manter uma “mente sã em corpo são”, principalmente neste período.

Precisamente neste campo e preocupados com a falta de oportunidade e espaços para o movimento das crianças, um grupo de investigadores da Faculdade de Motricidade Humana (UL), da Escola Superior de Educação de Lisboa (IPL), e da Escola Superior de Desporto e Lazer (IPVC) levou a cabo um primeiro estudo, no qual analisou rotinas das famílias portuguesas durante as primeiras três semanas de confinamento devido ao surto da Covid-19, criando o projeto C-Ativo em casa.

O encerramento de escolas, bem como muitos dos espaços laborais as rotinas diárias da família e dos filhos, deram origem a taxas de sedentarismo na ordem dos 80 por cento.

De acordo com os dados recolhidos através de um inquérito online, respondido até agora por 1973 famílias e 2167 crianças, os investigadores conseguiram apurar que durante as semanas de entre 10 de março e 1 de abril, a situação de confinamento das famílias originou um decréscimo no tempo de atividade física dos seus filhos em 69,4 por cento dos casos.

Tempo este deslocado para outras atividades que resultam num aumento do tempo dedicado aos ecrãs (68,4 por cento) e um aumento nas atividades em família (82,8 por cento).

Neste estudo foi também avaliado o comportamento das crianças até aos 12 anos.

Fonte: Projeto C-Ativo em casa/DR

Considerando a percentagem de tempo acordado reportado para cada criança (excluindo as horas de sono), o tempo de ecrã lúdico (não contando aulas e trabalhos online), aumenta ao longo das faixas etárias, atingindo valores de 24 por cento na faixa etária dos 0-2 anos, 27 por cento, dos 3 aos 9 anos e 33 por cento, na faixa dos dez aos 12 anos.

A questão do sedentarismo também não foi esquecida, apontando este estudo para um aumento com a idade, atingindo os 62 por cento na faixa etária até aos dois anos; 72 por cento dos três aos cinco anos; 78 por cento dos seis aos nove anos e 84 por cento na faixa etária dos dez aos 12 anos.

Um confinamento que preocupa, mas que aproxima

Ainda no quadro deste estudo, apurou-se que 95,2 por cento das famílias afirmam estar preocupadas ou muito preocupadas com a situação de pandemia actual, sendo que 33,4 por cento consideram que está a ser difícil o isolamento com as crianças, embora 47,9 consideram precisamente o contrário.

Já no que diz respeito à actividade física das crianças, 69,4 por cento das famílias considera que estas têm feito menos ou muito menos exercícios que o habitual. Mas 82,8 por cento do universo estudado indica que tem feito mais ou muito mais atividades em família que o habitual.

E se a preocupação com o tempo de descanso das crianças é fundamental, 48,5 por cento não notam diferença no tempo de sono em relação ao habitual, manifestando 45,2 por cento que as crianças até têm dormido mais.

Apesar da diferença de género, não foram verificadas diferenças acentuadas entre sexos, tendo rapazes e raparigas valores muito semelhantes em praticamente todas as atividades à exceção das categorias de ecrã lúdico (rapazes vs raparigas) e jogo sem movimento (raparigas vs raparigas).

Dados observados em Portugal e ainda com um universo muito restrito, mas claramente exemplificativo das implicações deste isolamento social obrigatório.

No contexto geral este inquérito vem confirmar a tendência decrescente do tempo de atividade física ao longo da infância, mas as crianças que vivem em condições de confinamento obrigatório apresentam um grande tempo de sedentarismo, especialmente derivado da grande percentagem de tempo de jogo sem movimento (até aos cinco anos de idade) e do aumento do tempo de ecrã lúdico após essa idade.

Este estudo da Faculdade de Motricidade Humana (UL), da Escola Superior de Educação de Lisboa (IPL), e da Escola Superior de Desporto e Lazer (IPVC), está também a decorrer e a ser replicado em vários países (Grécia, Espanha, Reino Unido, Bélgica, EUA, Austrália, Nova Zelândia).

Mais perto de uns, mais longe de outros

Se pensarmos mais abertamente nas relações sociais criadas já neste período de confinamento, tendemos a crer que vai haver uma maior aproximação de nós para com os mais próximos. Mas se isso é verdade o contrário também pode acontecer e ser perigoso.

Os jovens podem, na sua ingenuidade ou malícia, aproveitarem-se destas fragilidades.

Para o psicólogo Carlos Céu e Silva, este isolamento, bem como distanciamento, pode ser desestruturante, “por mais consciência que tenhamos que isto é provisório, ou transitório, evidentemente afeta sempre o estado mental.”

Uma sociedade só existe se, no conjunto, todos nos comportarmos como seres saudáveis, sempre com uma boa rede social e rodeados de figuras sólidas que possam ser reproduzidas internamente.

De outra forma a anarquia tomará conta de nós, originando conflitos e desorganização no eu em que vivemos. E será o medo que vai travar a impulsividade dos jovens ou torná-los mais resistentes? Certo é que neste campo os mais velhos têm um papel fundamental na gestão da ansiedade.

É preciso compreender os medos da forma mais eficaz para ajudar as crianças a lidar com eles. E uma das formas mais simples a fazer nestas situações é tranquilizá-las, explicando o que se passa em seu redor e desmistificando cenários não entendíveis para a mente infantil.

Mas se os medos causam emoções desagradáveis e desconforto, também podem demonstrar um outro lado de aprendizagem, que se forma através da “nocão, dentro da sua dimensão etária, dos perigos que a vida tem”.

Os medos comuns na infância e na adolescência

Após o nascimento só estamos predispostos a ter medo das quedas e de certos ruídos, mas a partir do primeiro ano de vida, surgem outros medos:

1.º ano de vida: Separação, ruídos, quedas;
2.º ano: Animais, treino do bacio, banho;
3.º ano: Hora de deitar, medo do escuro monstros, fantasmas;
5.º ano: Divórcio dos pais, de se perderem;
7.º ano: Perda/morte dos pais, rejeição social;
9.º ano: Guerra, situações novas, adoção;
12.º anos: Ladrões, injecções.

Sinais que devem preocupar os adultos, sendo estes agentes tranquilizadores e explicadores das situações que as envolvem. E devem respeitar o medo que a criança sente, sem lhe dar, porém, uma importância desmedida.

Crianças devem ser protegidas, avisa ONU

Em tempo de crise são as crianças as mais vulneráveis às adversidades, quer económicas, quer emocionais. E neste sentido, já prevendo em todo o mundo consequências graves, o secretário-geral da ONU, António Guterres, apelou às famílias e aos dirigentes de todos os quadrantes para que as crianças sejam elementos de proteção que, apesar de não serem as principais vítimas da pandemia da Covid-19, sofrem também elas significativamente com as consequências.

Segundo um relatório divulgado na passada sexta-feira, a ONU estimativa que esta crise anule os progressos obtidos na baixa da mortalidade infantil, mas não só nesta área.

Com o encerramento das escolas em todo o mundo, as crianças poderão sofrer ainda com a fome, uma vez que cerca de 310 milhões de estudantes dependem dos estabelecimentos de ensino para se alimentarem no dia-a-dia, afirmou.

António Guterres lembra que 188 dos 193 Estados-membros da ONU impuseram o encerramento das escolas, o que afeta cerca de 1500 milhões de jovens

Para o secretário-geral das Nações Unidas, o confinamento e a recessão mundial “alimentam as tensões nas famílias” e as crianças “são, por sua vez, vítimas e testemunhas de violência doméstica e de abusos”.

Tecnologias: “o reverso da medalha”
Até agora, muitos são os estudos que apontam as novas tecnologias, entre os mais novos, como um potencial fator de distração face à rotina social. A facilidade de comunicação e utilização das redes sociais, bem como os jogos online com uma forte obrigatoriedade de permanência em linha, são fontes de afastamento de uma maior socialização presencial.

Se todos estes elementos eram já disruptivos, com a imposição de um ainda maior confinamento, tudo isto pode ser ampliado.

Todavia, também existem aspetos positivos nas novas tecnologias e são estas que nos capacitam para a continuidade de uma relativa “normalidade”, como por exemplo o ensino à distância.

Compreendendo muito do que se passa dentro da mente das crianças e dos jovens, Carlos Céu e Silva diz que este novo paradigma, entre o restringir e o facilitar o acesso aos jogos e tecnologias, tem de exigir, por parte dos adultos, um maior equilíbrio.

“A partir de agora vamos olhar para os jogos, para os vídeos e para estas coisas todas, de uma forma diferente. E vamos todos tentar compreender melhor este mundo (…) e se não tivéssemos acesso a esta tecnologia que temos hoje estaríamos a viver um período medieval”.

Se “estas ameaças apenas ajudam a evoluir mais na nossa condição humana”, refere o psicólogo, também podem despertar ações menos positivas como o caso de uma maior facilidade e risco de assédio sexual a menores, ou ao cyberbullying.

O psicólogo do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, habituado a lidar com os problemas dos mais novos, afirma que não é através do negativismo que se ultrapassa os problemas e que vão ser os mais novos que vão ensinar – e muito – os atuais adultos, na nova normalidade que virá depois desta crise.

“Eu acho que nos próximos anos não vai haver normalidade. Nós temos um registo interno de trauma que vai ficar com este vírus”, explica Carlos Céu e Silva. E vão ser os mais velhos a salvaguardar-se mais isolando-se.

Já o contrário será feito pelos mais novos, com uma mentalidade mais aberta, mais madura e mais responsável, sempre com a necessidade de voltar à escola, às rotinas e amizades suspensas no tempo por uma ameaça para a qual ninguém estava preparado.

Covid-19. “O maior número de horas a olhar para ecrãs, sobretudo para os de menor dimensão, eleva o risco de miopização nas crianças”

Abril 26, 2020 às 3:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Expresso de 15 de abril de 2020.

ALEXANDRA SIMÕES DE ABREU

Seis perguntas a José Manuel Méijome, professor catedrático na área da optometria e ciências da visão da Universidade do Minho.

Quais os efeitos que esta sobre-exposição aos ecrãs tem na visão das crianças?
As crianças estão num período de desenvolvimento da sua visão. O olho já está desenvolvido mas ainda vai sofrer até à idade adulta uma série de modificações, algumas das quais passam pelo aparecimento da miopia. A exposição à luz natural é positiva como método de prevenção do surgir da miopia e também para uma menor progressão dessa miopia. É verdade que no inverno, em que os dias são curtos e as noites longas, já há uma redução a essa exposição à luz natural e às atividades ao ar livre e as crianças escolarizadas já estão sujeitas a um trabalho intenso de visão próxima, mas numa condição de confinamento tudo isso se agrava. Porque não há maneira neste momento de dizer a uma criança “larga o tablet” ou “larga o telemóvel” ou a consola ou o computador. Até porque eles têm aulas no computador, têm de fazer tarefas no computador.

Portanto, em relação às crianças e aos mais jovens poderá ter como consequência um intensificar de problemas de aparição de miopia, que sabíamos já estar a surgir mais cedo e a atingir valores maiores. Obviamente, um mês é um tempo muito curto para que esses processos que demoram um pouco mais a produzir-se venham a acontecer, mas certamente vai contribuir. Ainda não sabemos qual é a sua dimensão, mas vai contribuir certamente nesse sentido em face aos resultados já existentes. Resumindo, nas crianças o risco de miopização pode ser um risco mais real.

Nos adultos afeta de que forma?
Sabemos que estando mais confinados, mais tempo a trabalhar com ecrãs digitais, a olhar para o computador, e em ambientes acondicionados por aquecimento ou ar condicionado, leva a outras problemáticas como é o caso da secura ocular. Olhos secos, ardência nos olhos, desconforto, numa palavra. Isso tende a produzir-se mais para o final do dia. As pessoas normalmente nessas circunstâncias recorrem ao uso de lágrimas artificiais, para hidratar mais o olho. Mas acho que vamos sofrer todos um bocadinho mais com este confinamento.

Que conselhos pode dar tanto aos mais novos como aos mais velhos?
Todos vamos sair desta situação muito mudados, também positivamente, porque temos de aprender a viver de outra maneira e a nossa interação com as tecnologias certamente neste período está a ser levada a um extremo. A mensagem mais importante a passar a todos é que temos de ter pausas de descanso. Se estamos a olhar para um telemóvel a 20 centímetros, estamos a realizar dez vezes mais esforço do que se estivermos a ver televisão a dois metros de distancia. Para poder focar a imagem a esses 20 centímetros, o nosso olho está a fazer dez vezes mais esforço do que se estiver a ver televisão a dois metros.

Para as crianças, penso que uma boa estratégia é abdicarem de vez em quando dos ecrãs de pequena dimensão, até do próprio computador, em favor de uma série que gostem de ver na televisão ou algo que gostem de ver a uma distância maior. A distância ao objecto de observação é crítica para realizarmos menos esforço visual. É por isso que muitas vezes depois de estarmos muito tempo a olhar para o computador quando levantamos os olhos parece que a imagem está um bocado turva. Isso acontece porque o nosso olho ficou de alguma maneira semi-bloqueado com aquela focagem a uma distância tão curta e está a tentar relaxar essa lente que tem dentro de si para poder voltar a focar ao longe. Os adultos podem autodisciplinar-se, às crianças é muito difícil incurtir-lhes a não utilização dos dispositivos, mas que troquem de uns para outros, para dispositivos de ecrãs maiores e que lhes permitam ver a maior distância.

Quando fala de pausas, devem ser feitas de quanto em quanto tempo e com que duração?
Há uma regra conhecida, dos 20, 20, 20. A cada 20 minutos estar durante 20 segundos a olhar a 20 pés de distância que são seis metros mais ou menos. Isto porque a partir dos seis metros o esforço que o nosso olho faz para focar é residual, assumindo que temos uma boa visão ou umas lentes de contacto que estão adequadamente graduadas. A partir dos seis metros consideramos que o olho está relaxado. Mas esta regra dos 20, 20, 20 é meramente para que fique bem na fotografia, não há evidência nenhuma que tenham de ser 20 minutos ou 20 segundos.

Dentro de um período de meia hora a uma hora, eu recomendaria uma pausa de dois a cinco minutos. Até para levantarmo-nos, esticar as pernas e ir olhar um bocadinho à janela, beber um copo de água, ir até à casa de banho. Todo esse período é melhor do que 20 segundos a cada 20 minutos, até porque muitas vezes não podemos parar a tarefa a cada 20 minutos. Resumindo, dentro de um período de uma hora fazer pausas de três a cinco minutos, seria indicado, com a distância de observação o mais longínqua possível. Ir até à janela olhar nem que seja para o edifício em frente, ou para o parque que está do outro lado da rua, ajuda a relaxar a visão.

Ao nível da iluminação também há recomendações?
A luz natural é boa desde que não interfira no contraste do ecrã. Se eu tenho luz direta a incidir no ecrã isso pode provocar-me falha de contrastes, excesso de reflexos e brilhos que me dão desconforto e acabam por fatigar-me mais. Mas desde que a luz não esteja a incidir diretamente no meu ecrã deveríamos priorizar espaços onde haja luz natural. E depois ter o ecrã ajustado de maneira a que não fique muito alto. Quando temos o ecrã muito alto em relação à altura dos olhos temos de abrir muito os olhos e quanto mais abrimos os olhos mais superfície fica exposta para a evaporação das lágrimas.

Portanto, o topo do ecrã deve estar à mesma altura ou ligeiramente mais baixo do que a nossa linha dos olhos. Daí que os computadores portáteis sejam ideias porque têm sempre uma posição mais baixa em relação aos nossos olhos. Isto não é tão importante para as crianças, mas sobretudo para os adultos que têm mais falta de lágrima e uma lágrima de pior qualidade, sobretudo à medida que vai aumentando a idade e principalmente nas mulheres a partir dos 40 a 50 anos.

Quais os principais sinais a que é preciso estar atento?
As pessoas devem saber que esta situação excepcional pode levar ao agravamento de alguns sintomas como má visão ao longe, pelo efeito do esforço que estivemos a fazer ao perto. Se percebermos que a criança se aproxima mais da televisão ou dos objetos para os poder ver, isso é indicativo de que poderá estar algo a acontecer. Se os adultos sentem maior desconforto ocular, mais fatigados visualmente, isto é, se ao fim de seis, oito horas de trabalho que antes aguentavam perfeitamente, agora sentem os olhos com ardor, vermelhos, secos, também é motivo de suspeita de que poderá estar a ser agravado algum fenómeno da superfície ocular.

Mas, atenção, quando começarmos a voltar à normalidade vai ser com algumas cautelas e não queremos que as pessoas comecem a enfiar-se nem na consulta do oftalmologista, nem na consulta do optometrista. Visão desfocada, problemas de secura ocular ou qualquer outra alteração que notem na tolerância das suas lentes de contacto, devem contactar o seu médico habitual telefonicamente para perceber a urgência com que devem ir ou não à consulta.

Inimigos da atividade física na infância: sugestões e conselhos

Dezembro 28, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Sapo Lifestyle de 28 de outubro de 2019.

A atividade física é essencial para o crescimento saudável e para o desenvolvimento da criança. Durante a infância, brincar é a melhor forma de fazer atividade física.

As crianças são naturalmente ativas logo desde a barriga da mãe. Contudo, nas sociedades atuais, a atividade física tem de disputar o seu espaço nos dias das crianças.

A televisão, os computadores e os videojogos estão entre as atividades que mais competem pela atenção das crianças e acabam por torná-las mais inativas. Mas a atividade física enfrenta também outros inimigos durante a infância. Saiba quais são os mais comuns e como combatê-los para que o seu filho tenha uma vida mais ativa e

As atividades que envolvem ecrãs são, regra geral, inimigas da atividade física. Ver televisão, usar o computador, jogar videojogos ou até mesmo usar um telemóvel são atividades que afastam as crianças de outros tipos de brincadeiras e mantêm a criança sentada ou parada durante longos períodos de tempo. Isto significa que a criança reduz a quantidade de tempo que passa em atividades mais movimentadas e, por isso, reduz também o seu gasto de energia, o que pode contribuir para a obesidade.

Além disso, as atividades que envolvem ecrãs podem ter outras consequências negativas para o desenvolvimento e a saúde da criança. Por exemplo, tem sido demonstrado que ver televisão antes dos 2 anos de idade pode afetar o desenvolvimento da linguagem e também reduzir a capacidade de atenção da criança no futuro.

Sugestões para combater o inimigo número 1:o ecrã

O tempo que a criança passa em atividades que envolvem ecrãs é um hábito que se aprende desde muito cedo. Na correria do dia-a-dia, é fácil que os adultos caiam na tentação de utilizar a televisão para entreter as crianças enquanto estão ocupados com outras tarefas.

Para conseguir que a sua criança tenha uma vida mais ativa e saudável, procure seguir as últimas recomendações dos especialistas sobre atividades com ecrãs para crianças até aos 5 anos de idade:

– Crianças com menos de dois anos de idade não devem ver televisão ou participar em atividades que envolvam ecrãs.

– Crianças com dois a cinco anos de idade devem ter um limite de uma hora para o tempo passado em atividades que envolvam ecrãs, como ver televisão.

– Crianças não devem ter televisão no quarto de dormir.

Não é só o tempo que a criança passa em atividades com ecrãs que importa. É necessário ter em atenção os tipos de programas que a criança assiste e os jogos ou outras atividades às quais a criança tem acesso. São de evitar histórias ou jogos violentos ou muito agitados, que envolvam movimentos rápidos e muitas luzes. Os programas educativos são os mais indicados. Por outro lado, para manter a tendência natural da sua criança para ser ativa, não basta reduzir o tempo de ecrã, é preciso colocar à sua disposição atividades divertidas e dar condições para que ela se movimente.

O seu exemplo também é fundamental. Evite passar muito tempo em frente aos ecrãs e participe em algumas dessas atividades demonstrando o quanto é agradável e divertido.

Sabia que… Passar muito tempo a ver televisão antes dos dois anos de idade pode causar atrasos no desenvolvimento da fala no seu bebé? Além disso, alguns estudos indicam que crianças que vêm muita televisão até aos 3 anos de idade podem ter dificuldades de atenção mais tarde, ao entrar para escola.

Outros inimigos da atividade física e sugestões para combatê-los

Para além de competir com as atividades com ecrãs, a atividade física enfrenta outros inimigos, como a disponibilidade de tempo, de espaços, ou de segurança.

Disponibilidade de tempo: Os horários de trabalho preenchidos dos pais e as longas deslocações entre o trabalho e a casa reduzem o tempo que os pais têm disponível para levar a criança a espaços onde possa movimentar-se livremente.

Sugestões para combater este inimigo: Para enfrentar este desafio é necessário incluir a atividade física na rotina da família e garantir-lhe um tempo diariamente. Por exemplo, reserve um ou dois dias por semana para irem ao parque, envolva a criança em tarefas domésticas, usem as escadas, vão a pé para a escola ou à mercearia do bairro, ou proponha à criança atividades que podem ser realizadas dentro de casa, como dançar.

Disponibilidade de espaço: A falta de espaço em casa ou na vizinhança para a criança se movimentar livremente ou a falta de segurança dos espaços públicos são também dificuldades importantes que os pais podem encontrar para que a criança tenha uma vida ativa.

Sugestões para combater este inimigo: Mais uma vez o truque é ser criativo! Em casa, a solução é procurar espaços onde possa, por exemplo, afastar uma mesa de apoio por alguns minutos ou até por alguns dias. Jogar jogos tradicionais que não exijam espaços muito alargados, como o “Macaquinho do Chinês”, pode ser uma solução para conseguirem brincar ao ar livre. Por fim, reservar um tempo nos fins-de-semana para um passeio mais longo em família também é uma boa medida. Assim, podem encontrar lugares agradáveis e seguros para juntos fazerem atividades que envolvam movimento.

Tempo passado em espaços ou equipamentos que limitam os movimentos: Atualmente existe uma grande disponibilidade de equipamentos atraentes para transportar ou alimentar a criança ou apenas mantê-la entretida e em segurança. Os parques, carrinhos de passeio, cadeiras de comer ou espreguiçadeiras são alguns exemplos desse tipo de equipamentos. São um bom aliado dos pais porque garantem a segurança da criança mesmo quando os pais não têm a possibilidade de estar junto dela todo o tempo. Mas podem transformar-se num inimigo quando utilizados por longos períodos ou várias vezes durante o dia.

Sugestões para combater este inimigo: O truque é garantir que a criança não passa muito tempo seguido com os seus movimentos limitados. Procure alternar o tempo que a sua criança passa nesses equipamentos com o tempo que passa com os movimentos livres. Pode colocá-la sobre uma manta ou, simplesmente, deixá-la no chão a gatinhar, caminhar, brincar, enfim, a explorar o mundo a sua volta. Sempre debaixo dos seus olhos e em segurança, é claro!

Não se esqueça: as crianças são naturalmente ativas. Mas para usarem essa tendência natural têm de ter oportunidades e têm de aprender que é divertido. Reserve tempo, espaço e divertimento diariamente para a atividade física da sua criança.

Para mais informações consulte www.papabem.pt

Uma geração de inábeis sociais

Outubro 11, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Mafalda Anjos publicado na Visão de 4 de abril de 2019.

Esta semana, descreveram-me um cenário que me causou arrepios: o recreio de um colégio de Lisboa, daqueles no topo dos rankings nacionais, repleto de miúdos, mas, em vez do rebuliço normal das crianças a brincar, o cenário era de paz. Uma paz podre. Os muitos miúdos que ocupavam o pátio estavam sentados pelas escadas, nos bancos corridos ou no chão, agarrados ao seu smartphone. Era cada um por si, cérebros abstraídos e dormentes, isolados do mundo à sua volta, tão sozinhos entre uma multidão de colegas – pequenos e tristes zombies digitais.

Não é só nas escolas. Basta ver os encontros de famílias com crianças pequenas ou os grupos de teenagers quando se juntam –, algo que acontece com muito menos frequência do que na minha geração, em que passávamos horas perdidas à conversa nas esplanadas ou nos jardins. É ver cada um no seu telefone, um dedinho a deslizar para ver o vídeo, a foto ou a storie seguinte, dois dedinhos de cada lado para jogar ao jogo da moda: mata este, atira sobre aquele.

Estamos longe de perceber exatamente como estes nativos digitais vão ser no futuro, por mais estudos que se comecem agora a fazer ao impacto da tecnologia nos cérebros destes miúdos. Terão com toda a certeza competências extraordinárias que nós não temos, vão inventar maravilhas que nos hão de deixar boquiabertos e pôr-nos a pensar como é que vivemos sem isso até àquele dia. Sei que teremos computadores excecionais capazes de fazer coisas que não conseguimos sequer ficcionar – cálculos mirabolantes, matchs perfeitos entre ofertas e vontades cada vez mais caprichosas, velocidades estonteantes para tudo e mais alguma coisa. Mas tudo indica que, ao fim do dia, vamos continuar a ser esta amálgama de matéria e de sentimento, com algumas necessidades e instintos básicos de algumas centenas de milhares de anos: sobreviver, socializar, amar e ser amado. Continuaremos a ser, assim espero, apenas humanos. E é precisamente isso que nos vai distinguir cada vez mais das máquinas e dos robots, que serão anos-luz mais competentes do que nós nas coisas, para usar uma expressão simplista, mecânicas ou, pelo menos, não emocionais.

Voltando ao recreio e aos dedinhos nos ecrãs… Não sei como serão daqui a uma ou a duas dezenas de anos estes nativos digitais, mas uma coisa não é difícil de antecipar: serão muito mais socialmente inábeis. E isso é inquietante, porque estamos, afinal, a falhar em formar as novas gerações no que garantidamente mais vamos precisar no futuro: melhores seres humanos, com o que, na verdade, nos distingue na nossa humanidade – a capacidade de ouvir, ler ou tocar o outro, de interagir em sociedade. Uma criança que não aprendeu a brincar num recreio não sabe criar empatias, gerir conflitos e emoções, ultrapassar frustrações. Como vão estas crianças trabalhar em equipa, integrar-se num grupo ou empresa? Que caminho das pedras tardio terão de fazer para desformatar um cérebro de sinapses condicionadas pelos ecrãs que nós – pais, educadores, adultos – lhes enfiámos à frente?

Isto não são apenas considerandos gerais de ordem filosófica. O caso é sério, não podemos encolher os ombros. Todos os dias saem novos estudos que dizem que a dependência de jogos eletrónicos e das redes sociais causa verdadeiros distúrbios emocionais, e a Organização Mundial de Saúde já propôs inseri-la como doença mental na próxima revisão do manual de classificação de patologias. Um estudo da Ordem dos Médicos, a crianças portuguesas de 11 anos, conclui que um terço está em risco de dependência. Muitos passam quatro horas por dia, todos os dias, a jogar. Além de inábeis sociais, estamos a criar uma geração de viciados numa droga tão ou mais aditiva do que as que conhecíamos até agora.

Escrevo com sentimento de culpa, note-se. Também eu coloco tablets e smartphones à frente dos meus filhos. Mas é mesmo preciso pararmos todos para pensar no que estamos, coletivamente, a fazer aos nossos miúdos. Daqui a uns anos, pode ser tarde demais.

Mais de metade das crianças até aos três anos utiliza em excesso as novas tecnologias

Outubro 9, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Shutterstock

Notícia e foto do DN Life de 2 de outubro de 2019.

67% das crianças em idade pré-escolar usa um ecrã para ver vídeos, ouvir música, jogar. Em geral, passam mais tempo do que o recomendado em contacto com as novas tecnologias, muitas vezes criando dependência antes ainda dos três anos, o que contribui para um atraso na linguagem e no desenvolvimento emocional das crianças.

Texto de Rita Rato Nunes | Fotografia de Shutterstock

Tiago tem três anos e gosta de comboios e aviões. É isso que procura no YouTube quando os pais lhe emprestam o telemóvel, “ainda não sabe pesquisar, mas vai pelo histórico”, explica o pai, Miguel Gonçalves. “Já tem aquela sensibilidade para tocar no ecrã, sabe minimizar e maximizar as janelas, aumentar o som, carregar no YouTube e pouco mais do que isso”.

“As crianças hoje estão mais viradas para a tecnologia, dominam mais facilmente um telemóvel do que pessoas com 60 anos. É muito intuitivo. Mas uma criança de três anos não percebe muito, basicamente quer ver bonecos”, diz Miguel.

67% das crianças até aos três anos utilizam as novas tecnologias. A maioria em excesso, recorrendo aos aparelhos eletrónicos durante mais de uma hora e meia por dia com risco de dependência associado. Estes dados foram divulgados na revista Gazeta Médica, do Hospital CUF, num estudo sobre os Hábitos de Utilização das Novas Tecnologias em Crianças e Jovens, publicado no final do ano passado e apresentado esta terça-feira.

“Nós [pediatras] vemos os pais a utilizarem os seus telemóveis para porem um vídeo para os acalmar. É uma estratégia usual para quando vem ao médico, dão de comer ou há uma birra.”

“É muito frequente apercebermo-nos na consulta normal de pediatria, que a criança em idade precoce está demasiado exposta a ecrãs. Recentemente, tive na minha consulta um bebé com seis meses que a mãe só lhe conseguia dar comida com um tablet à frente com um vídeo do YouTube“, diz o pediatra Hugo Faria, um dos autores do estudo.

Segundo o médico, por volta dos dois anos, as crianças passam por uma fase em que os pais têm dificuldade em acalmá-las, principalmente em momentos de maior tensão, como podem ser as idas ao médico. “Nós [pediatras] vemos os pais a utilizarem os seus telemóveis para porem um vídeo para os acalmar. É uma estratégia usual para quando vem ao médico, para quando colocam a colher com a comida na boca dos filhos ou quando há uma birra. Os pais estão pressionados pela vida atual, que é uma vida atarefada, difícil, e isto é uma forma rápida e fácil de entreter e facilitar tarefas em casa. Eu compreendo isto, mas pode ter consequências”, indica Hugo Faria.

O Tiago “não é de muito boa boca e às vezes ao ver os bonecos no YouTube consigo distraí-lo para comer”, diz Miguel Gonçalves. O filho passa cerca de uma hora por dia com o telemóvel nas mãos: “Também gosta de ver um bocadinho antes de dormir ou quando está sentado no sofá, mas também brinca: gosta de jogar à bola, brincar com carrinhos”.

Há indícios claros de que o uso das novas tecnologias nos primeiros anos de vida pode contribuir para atrasar o início da linguagem e o desenvolvimento emocional das crianças.

Embora ainda não existam estudos suficientes sobre o impacto das novas tecnologias nos primeiros anos de vida, há indícios claros de que estas podem contribuir para atrasar o início da linguagem e o desenvolvimento emocional das crianças.

O estudo alerta ainda para “o aumento da probabilidade de excesso de peso e obesidade futura. O hábito de comer enquanto se utilizam estes meios de comunicação e a exposição regular à publicidade de produtos alimentares são fatores de maior risco”, pode ler-se no relatório.

Fica por clarificar o motivo exato pelo qual as novas tecnologias devem ser evitadas em idade pré-escolar: “Não sabemos ainda se isto acontece por efeito direto do estimulo que os ecrãs dão ou se acontece porque estamos a substituir tempo com os adultos, os pais, que são a principal fonte de estimulo para as crianças dessas idades”, refere o pediatra.

Vídeos, música e jogos é o que atrai mais as crianças

Ver vídeos, ouvir música e jogar: é assim que a maioria destas crianças passa mais de uma hora e meia com os aparelhos eletrónicos. Para a Academia Americana de Pediatria (APP), que tem emitido várias recomendações sobre o tema, os pais não devem permitir que crianças com menos de 18 meses tenham contacto com os meios digitais, com exceção feita para as videochamadas. Depois desta idade, devem escolher aplicações ou programas didáticos para assistir com os filhos, descodificando o seu conteúdo. Entre os dois e os cinco anos, a APP recomenda que o uso das novas tecnologias não ultrapasse os 60 minutos.

O estudo revela ainda que o aparelho tecnológico mais usado pelas crianças até ao três anos é o tablet, depois o telemóvel, o computador e a consola.

“Estes novos meios de comunicação são importantes, são o futuro, mas têm de ser limitados. É preciso deixar espaço para que haja outras atividades e é preciso deixar um espaço livre de estimulo para outras atividades, nomeadamente, o estudar, o dormir, o brincar, o convívio com a família. A internet deve abrir janelas de comunicação e não fechar outras”, diz Hugo Faria.

O artigo citado na notícia é o seguinte:

Efeitos da Exposição a Dispositivos Digitais no Desenvolvimento da Linguagem em Idade Pré-Escolar

Congresso (In)Dependências: Prevenir e intervir nas adições com e sem substância – 11 outubro em Leiria

Setembro 27, 2019 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações nos links:

http://congresso2019.psivalor.pt/?fbclid=IwAR2kKwuxLIJbxnzQ9KyuZ_fhWxJJ7YA-_ca9sSG6sJcCy7Pclu5lgZggVy4#hipercontainer

https://www.facebook.com/events/2286651014703563/

“A brincar também se educa”. Um guia para envolver os pais e afastar as crianças dos ecrãs

Setembro 10, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do Observador de 15 de agosto de 2019.

Ana Cristina Marques

90% das crianças entre 5 e 14 anos já têm telemóvel e preferem o smartphone aos jogos tradicionais. Os pais têm cada vez menos tempo. Mas os especialistas alertam: brincar sem ecrãs é fundamental.

Uma amostra de 1.200 crianças portuguesas, dos 5 aos 14 anos, concluiu que 90% tinha um telemóvel ou um Ipad próprio ou, então, partilhado com os irmãos. “São os dispositivos que os pais já não querem e que ficam para os filhos. Fiquei surpresa, os professores também não sabiam”, relata Ivone Patrão ao Observador, investigadora, psicóloga e terapeuta familiar do ISPA – Instituto Universitário. O estudo por ela coorientado teve por base alunos de escolas públicas e privadas e serviu para criar o jogo Missão 2050, lançado em junho último, que visa a promoção do uso saudável de tecnologia. “Enquanto investigadora foi uma surpresa”, insiste. “Tinha ideia que isto começava aos 10 anos, com a entrada para o 5.º ano. Mas não. E eles comunicam uns com os outros depois da escola, à noite.”

Enquanto se rendem aos ecrãs — assumam eles a forma de smartphones ou de tablets –, as crianças estão a tirar tempo aos estudos e à própria brincadeira. Ivone Patrão fala “na normalização de comportamentos”, isto é, de um comportamento online que substitui o ir brincar para a rua ou o jogar ao UNO, por exemplo. Não quer isto dizer que estas crianças sejam dependentes do uso do ecrã — isso é outra conversa — mas pode realmente existir um comportamento considerado excessivo.

Vários artigos que alertam para o facto de haver pais que usam os telemóveis e os tablets como babysitters: segundo o estudo “Happy Kids: Aplicações Seguras e Benéficas para Crianças”, do Católica Research Centre for Psychological, Family and Social Wellbeing (CRC-W), da Universidade Católica Portuguesa, as crianças que mais usam aplicações têm até 2 anos e são os pais os primeiros a dar aos filhos o acesso a dispositivos eletrónicos, além de 90% das casas portuguesas ter ligação à internet, “smartphones, computadores portáteis ou tablets”.

O debate em torno dos ecrãs é tanto que o insólito já aconteceu: nos EUA há famílias que contratam coaches para as ajudar a educar crianças longe dos ecrãs, porque é difícil recordar um tempo em que tal não existia. Também nos Estados Unidos, como já antes explicou o Observador, são cada vez mais os pais que atrasam de propósito a idade a que os filhos recebem smartphones para as mãos, existindo até movimentos organizados nesse sentido — por exemplo o “Wait Until 8th” (Espera até ao 8º).

O papel dos pais nas brincadeiras dos filhos

Brincar é essencial para o desenvolvimento dos mais novos, seja a nível sócio-emocional, psicomotor ou cognitivo. O ato de brincar deve seguir três etapas evolutivas: as atividades que geram ação (quando um bebé atira um brinquedo ao chão está a ter uma primeira noção da lei da gravidade), as simbólicas (pegar numa vassoura e transformá-la num cavalo é um exercício de imaginação) e as que exigem regras (os jogos de computador e os de tabuleiro ajudam a perceber que a vida se rege por um conjunto de normas).

A brincadeira funciona como uma espécie de tubo de ensaio para a vida real. Permite explorar, conhecer, aprender e percecionar o mundo, perceber como este funciona. Brincar faz parte da vida de uma criança e é tão importante que a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda três horas diárias de atividade física, leia-se jogos e brincadeiras, a partir do primeiro ano. O gesto tão naturalmente associado à infância parece estar, por estes dias, em vias de extinção. Tanto que há sensivelmente um ano a Sociedade Norte-americana de Pediatria recomendava que os pediatras receitassem mais tempo para brincar. A escassez está, muito provavelmente, associada ao atual estilo de vida marcado por agendas cheias e acesso facilitado aos ecrãs, o que veio alterar a forma como as crianças olham o mundo à sua volta.

Para Inês Afonso Marques, psicóloga infantil e autora do livro “A brincar também se educa” (editora Manuscrito), quando os pais dão tempo aos filhos para brincar estão a educá-los, a ajudá-los a fazer escolhas e a usar a criatividade, entre outras vantagens. Mas o uso que fazemos da tecnologia pode estar a impedir as crianças de brincar, diz. E os pais são o modelo dessa realidade. Ao Observador, a psicóloga explica que brincar implica envolvimento e atividade, enquanto a tecnologia é passiva. “As crianças gostam de se sujar, de sentir, de envolver os cinco sentidos naquilo que estão a fazer. Tudo aquilo que possa suscitar a descoberta, tudo isso estimula uma criança.”

Foi Sílvia e o marido que aproximaram a tecnologia do filho de três anos para garantir aos pais momentos de descanso e para ajudar a criança nas refeições. Ao Observador, esta mãe admite que o filho sempre comeu mal, pelo que recorria ao ecrã para o distrair. “Talvez isto tenha sido um pouco mau porque ele hoje não come bem. Antes fazia as refeições sem saber o que estava a comer, hoje não tem uma relação boa com a comida.” Atualmente, o filho vê alguma televisão em casa — sempre sintonizada em canais infantis — e Sílvia congratula-se pelo facto de ele não ter ficado muito adepto dos ecrãs. “Sinto-me aliviada porque ele não os procura, não ficou dependente. Entretém-se sozinho, encarna personagens com acessórios.”

A psicóloga e investigadora Ivone Patrão é perentória quando argumenta que as crianças não deveriam ter ecrãs nas horas das refeições e no tempo de brincar porque “têm de estar concentradas no que estão a fazer, seja comer ou brincar”. O ecrã, continua, deve ser encarado como um complemento à brincadeira, mas não o pode substituir. “O ecrã é muito assumido como algo que os vai tranquilizar, mas é preciso fazer um uso adaptado, caso a caso, dependendo das necessidades da família. Acho que os pais devem perguntar-se porque usam a tecnologia. Muitas vezes dá-se a ferramenta, mas não o manual de instruções.”

Segundo a Sociedade Norte-americana de Pediatria, até aos 2 anos o uso de smartphones e de tablets não é recomendável, sendo que a introdução deve ser feita de forma gradual e com a supervisão dos adultos. Inês Afonso Marques insiste nesta tónica: é importante controlar o que é transmitido à criança, bem como limitar ao máximo todo o tipo de monitores. “Há crianças [em consultório] que verbalizam ‘Preciso do telefone porque não tenho nada com que me entreter’. Isso revela uma dependência associada à incapacidade de a criança encontrar outros estímulos.”

“Não gosto de culpar a tecnologia… Na minha infância tive consolas. Muitas vezes, no consultório, pergunto aos miúdos as brincadeiras preferidas e a maior parte responde o telemóvel, o tablet, o computador e a consola. Por outro lado, sinto que eles têm sede de brincadeiras, têm vontade de usar os jogos que estão nas prateleiras do consultório, jogos banais, mas o mais imediato é a tecnologia muito por observação e pelo modelo que têm à sua volta”, continua Inês Afonso Marques, que ressalva que cabe aos adultos quebrar o ciclo e encontrar ou reencontrar outras formas de brincar. A isso acrescenta-se a “falsa questão” da falta de tempo, até porque a psicóloga ouve em consultório como as crianças se queixam de que os pais não têm tempo para brincar e como os pais argumentam que já não sabem brincar. “Não é necessário muito tempo, desde que este seja de qualidade”, diz, aconselhando os adultos a seguir os interesses da criança e a seguir o ritmo desta.

O uso pouco saudável das tecnologias pode, entre outras coisas, impactar a criança do ponto de vista motor, no sentido em que pode prejudicar a sua destreza. Também por isso a OMS alertou recentemente para a necessidade de as crianças com menos de cinco anos terem de passar menos tempo sentadas diante dos ecrãs para passarem, ao invés, mais tempo a brincar de maneira a crescerem de forma saudável. Entre as recomendações da Organização Mundial de Saúde está, por exemplo, o facto de os bebés com menos de um ano de idade terem de ser “fisicamente ativos várias vezes ao dia e de formas diversas” e não ficarem “contidos” mais de uma hora de cada vez em cadeiras ou carrinhos. “Tempo de ecrã não é recomendável”, acrescenta a OMS.

Sobre isso, Carlos Neto, professor e investigador da Faculdade de Motricidade Humana (FMH), disse em 2015 ao Observador que o ecrã “alterou muito significativamente a vida das crianças e dos pais”. “Passou-se da trotinete ao tablet de uma forma rapidíssima e não há equilíbrio. E o que está em causa neste momento é que nem a atividade desportiva que as crianças fazem em clubes, nem a educação física escolar, nem o desporto escolar — que são muito importantes — são suficientes para acabar com o sedentarismo que existe.”

Aos 44 anos e com duas filhas, de 7 e 8 anos, Sofia não diaboliza a tecnologia, mas faz questão de impor regras que, espera, um dia, as miúdas levem consigo para a complicada fase da adolescência. O ecrã mais utilizado lá em casa é a televisão, sobretudo para ver desenhos animados e filmes familiares como a saga “Harry Potter”. “A regra, embora não seja sempre cumprida, é dois desenhos animados quando chegam da escola, o que dá no máximo uma hora de televisão”, conta ao Observador. Limitar o tempo de acesso à televisão deriva da preocupação de Sofia, que considera que os estímulos emitidos por este ecrã são muito rápidos para os cérebros das crianças. “Se passar o tempo, a mais nova, por ter alguns problemas, fica perturbada, começa a rodopiar em loop, sem parar, a mexer freneticamente as pernas, até o discurso dela fica mais confuso.”

Outra regra imposta por Sofia passa pelo uso de smartphones: o uso exclusivo dos telefones dos pais (elas não têm gadget próprio) serve para jogar jogos escolhidos a dedo e testados pela mãe, preferencialmente que estimulem o raciocínio matemático, embora também haja momentos para “maquilhar e vestir princesas”. As filhas só podem jogar duas a três vezes por semana, cinco jogos à vez. “Quanto mais cedo elas tiverem noção de que os ecrãs têm de ser usados com inteligência, melhor. Eu não uso o telemóvel à frente delas, caso contrário nada disto faria sentido. Faço questão de dar o exemplo.”

Também o pedopsiquiatra Pedro Strecht considera que as tecnologias — em particular as aplicações — podem interferir no desenvolvimento das crianças, sobretudo em relação a algumas áreas cognitivas e de relação social. “Se um menino de 8 anos brinca no tablet ou se um de 12 anos joga na playstation, diria que isso é normal e não vejo mal nisso — só aconselho os pais a darem os jogos apropriados à idade dos filhos; mas se ele só brincar com o tablet ou com a playstation… Há crianças que crescem quase só com experiências de relação e de estímulo centradas no ecrã. Há pessoas que acham que tenho uma visão muito crítica em relação às tecnologias… As tecnologias têm coisas ótimas que podem facilitar ganhos de tempo, simplesmente acho que, nos dias de hoje, elas próprias se tornam tão opressivas no chamado tempo tecnológico que também bloqueiam a nossa vivência, o nosso tempo biológico e emocional”, já antes disse ao Observador.

O que mais preocupa a psicóloga Ivone Patrão é precisamente o estado das relações sociais. A socialização, diz, deve ser mista, tanto presencial como online. “O que me preocupa é se for só online. Se as crianças começam assim já não vão ter relações”, afirma, referindo-se ao impacto nas respetivas competências sociais. “Elas deixam de estar treinadas para a resposta em direto.”

Afinal, o que dizem os estudos?

Indepentemente da idade, Ivone Patrão refere que o ecrã tem, de facto, afetado pela negativa o ato de brincar. “Vejo que isso os deixa sentados, inertes, parados do ponto de vista físico. E há outra questão: o ecrã dá-lhes um input… o output vai ter de sair. Quando deixam de estar ao ecrã podem ficar mais irrequietos. A energia natural da infância tem de sair de outra forma. Isso tem impacto ao nível do comportamento e do ponto de vista cerebral. A luz do ecrã, por exemplo, pode provocar alterações no sono”, assegura.

O problema não é necessariamente o ecrã, mas o uso que se faz deste. Porque também nos smartphones ou nos tablets há vantagens: como a facilidade de acesso à informação, a capacidade de aprender novas línguas ou o facto de ser uma ferramenta útil na sala de aula. Nem de propósito, segundo um estudo do ano passado, publicado no jornal semanal The Lancet Child & Adolescent Health, limitar o tempo que as crianças passam a olhar para um ecrã melhora a sua capacidade de aprendizagem — o ideal seria passarem menos de duas horas por dia nessa condição.

Em 2017, a Sociedade Norte-americana de Pediatria apresentava um estudo — feito entre 2011 e 2017 com 894 crianças entre os seis meses e os dois anos — que mostrava que as crianças menores de dois anos que usavam ecrãs táteis corriam o risco de começar a falar mais tarde. Sobre isso, Catherine L’Ecuyer, doutorada em Educação e Psicologia e autora do bestseller “Educar na Curiosidade”, já antes disse ao Observador que “o tipo de interação que o tablet promove não é como a interação humana, que requer um processo ativo. Diante do ecrã, a criança anda a reboque de estímulos frequentes e intermitentes. Transforma-se numa espécie de porta USB ou numa impressora.”

As recomendações já antes citadas pela Organização Mundial de Saúde, tendo em conta o uso do ecrã por parte das crianças, não foram bem aceites por todos, já que o The Guardian cita especialistas que argumentam que, na sua base, há falta de provas. Juana Willumsen, uma das autores das referidas recomendações, diz que não há como negar que os ecrãs fazem parte da vida moderna, ao mesmo tempo que argumenta que o grupo de trabalho em questão não encontrou vantagens em introduzi-las a crianças com menos de três anos. “Capacidades sociais e cognitivas são mais bem desenvolvidas com outra pessoa do que com um ecrã. Cuidadores que brincam interativamente são absolutamente vitais para o desenvolvimento das crianças, em particular nos primeiros anos.”

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