Jovens que passam muito tempo à frente de ecrãs. O que fazer? Debate com Rosário Carmona e Costa, 22 de fevereiro na Escola Básica Luís de Sttau Monteiro, Loures

Fevereiro 17, 2018 às 8:45 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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22 FEVEREIRO | 18:30 » 20:00 Escola Básica Luís de Sttau Monteiro, Loures

Jovens que passam muito tempo à frente de ecrãs. O que fazer? Orador: Rosário Carmona e Costa, psicóloga clínica e psicoterapeuta de crianças e adolescentes. Autora do livro iAgora? Liberte os seus filhos da dependência dos ecrãs.

mais informações:

https://www.facebook.com/events/151649338883690/

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Os mitos educativos que estão a deixar as crianças viciadas em tecnologia

Janeiro 28, 2018 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança, Vídeos | Deixe um comentário
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Texto do http://observador.pt/ de 16 de janeiro de 2018.

Ana Cristina Marques

Há mitos na educação que a ciência rejeita e que ajudam a propagar o vício precoce nas tecnologias digitais. Não, a criança não precisa de smartphones para estimular a sua “inteligência ilimitada”.

Dois dos maiores investidores da Apple enviaram, esta semana, uma carta aberta à empresa com um pedido explícito e desconcertante: combater o crescente vício das crianças face ao uso do iPhone e da internet (redes sociais incluídas). A Jana Partners e o California State Teachers’ Retirement System — que, juntos, controlam 2 mil milhões de dólares de ações da Apple — pediram a criação de ferramentas adequadas. Em resposta, um responsável de comunicação da gigante de tecnologia disse que a empresa “sempre se preocupou com as crianças e trabalha arduamente para criar produtos que inspirem, entretenham e eduquem as crianças“.

Nos últimos anos tem proliferado a ideia de que as aplicações e os dispositivos chamados “inteligentes” podem potenciar a inteligência das crianças — ideia” porque, ao contrário do que se possa pensar, são muitas as teorias sem real base científica. Catherine L’Ecuyer, investigadora na área da educação e autora do novo livro Educar na Realidade, defende que as empresas que distribuem ferramentas digitais fazem-no sob a premissa de que estas promovem a estimulação precoce das crianças. “Dizem-nos que os nossos filhos têm um potencial ilimitado, que devemos aproveitar ao máximo a ‘janela de oportunidade’ dos três primeiros anos. Dizem-nos que estas aplicações se adaptam ao estilo de aprendizagem dos nossos filhos e ajudam a desenvolver cada um dos hemisférios cerebrais”, escreve L’Ecuyer na nova obra.

As afirmações acima descritas — que a cultura popular ajudou a propagar — não passam de neuromitos, verdades infundadas, teorias com as quais a ciência não se identifica. Segundo a autora, grande parte da população não sabe que estes e outros argumentos de venda, que ajudaram a garantir o sucesso comercial de produtos tecnológicos, “carecem de fundamento educativo-científico”.

“A criança tem uma inteligência ilimitada”. Esses e outros neuromitos

Os neuromitos são aquilo que a OCDE descreve como “más interpretações geradas por um mau entendimento, uma leitura equivocada e, em alguns casos, uma deformação deliberada dos factos científicos com o objetivo de usar a investigação neurocientífica na educação e noutros contextos”. São interpretações que ocorrem na literatura popular e que acabam por criar premissas falsas sobre as quais se constroem métodos educativos, diz a autora citada.

“A criança tem uma inteligência ilimitada” e “A criança só usa 10% do seu cérebro” são dois exemplos de neuromitos apresentados pela autora, que assegura que a sua rápida difusão resulta da “vaidade e da dificuldade em reconhecer as limitações humanas”. L’Ecuyer cita o professor de neurociência cognitiva Barry Gordon, investigador na Universidade do Hospital Johns Hopkins, que assegura que “usamos, virtualmente, cada parte do cérebro” e que “quase todo o cérebro está ativo quase sempre”. O neuromito apresentado difundiu-se a grande velocidade e prova disso é o estudo da Nature, de 2014, que mostrou que 48% dos professores ingleses (46% na Holanda, 50% na Turquia, 43% na Grécia e 59% na China) acreditavam nele.

O mito de que utilizamos apenas 10% do cérebro, em particular, tem persistido ao longo dos anos. Em 2014 estreava nas salas de cinema o filme Lucy, interpretado por uma Scarlett Johansson cuja capacidade evolutiva do cérebro está no centro da história. “Estima-se que a maioria dos seres humanos use apenas 10% da capacidade cerebral. Imagine se conseguíssemos ter acesso a 100%. Aconteceriam coisas interessantes”, é uma das falas no filme, uma deixa do professor Norman, interpretado por Morgan Freeman.

“Talvez o mito seja perpetuado porque as funções de que temos consciência – memória, capacidade cognitiva, visão ou linguagem – estão em regiões bem demarcadas no cérebro. Mas há muitas atividades comandadas pelo nosso cérebro que não são conscientes, como o equilíbrio ou o ritmo cardíaco”, disse João Relvas, neurocientista no Instituto de Biologia Molecular e Celular, ao Observador em 2014. “Além disso, há muitas funções que não são exclusivas de uma única parte do cérebro.”

José Ramón Gamo, neuropsicólogo infantil, e Carme Trindade, professora na Universidade Autónoma de Barcelona, são coatuores do livro Neuromitos en Educación. Citados pelo El País, escrevem que a “neurociência demonstrou que, na realização de tarefas, utilizamos 100% do nosso cérebro” e que “tecnologias como a ressonância magnética ajudaram a conhecer melhor os níveis de atividade cerebral e provaram que somente em casos de danos graves provocados por uma lesão cerebral é que se observam áreas inativas no cérebro”.

Outro neuromito listado pela OCDE é aquele que defende que cada hemisfério é responsável por um estilo de aprendizagem diferente. Segundo a teoria da dominância cerebral, que carece de base científica, “as pessoas que usam mais o hemisfério direito são mais criativas e artísticas, enquanto as que usam mais o esquerdo são mais lógicas e analíticas”. Escreve L’Ecuyer que são vários os estudos que descredibilizam esta teoria, ainda que haja atividades adjudicadas a mais um hemisfério do que a outro (como é o caso da linguagem face ao hemisfério esquerdo). Não só os estudos observam que o cérebro trabalha como um todo, como a autora assegura não existirem provas de dominância cerebral nas pessoas, “o que, supostamente, teria repercussões no estilo de aprendizagem”.

A autora dá como exemplo um estudo de 2013, realizado a 1.000 pessoas dos 7 aos 29 anos, que não encontrou prova de dominância cerebral. O diretor do estudo e professor de neurorradiologia na Universidade do Utah, Jeff Anderson, disse: “A comunidade neurocientífica nunca aceitou a ideia de tipos de personalidade com dominância cerebral direita ou esquerda. Os estudos de lesões cerebrais não sustentam essa teoria, e a verdade é que seria altamente ineficaz se uma parte do cérebro fosse, sistematicamente, mais ativa do que outra”.

Nem de propósito, em março do ano passado 30 académicos dos universos da neurociência, educação e psicologia assinaram uma carta publicada no britânico The Guardiam onde expressavam preocupação tendo em conta a popularidade do método de aprendizagem em causa. De acordo com o artigo, os cientistas apelavam para que os professores abandonassem este neuromito, já que ensinar as crianças de acordo com o “estilo de aprendizagem individual” não obtém melhores resultados e deve ser, por isso, posto de lado em detrimento de práticas baseadas em evidências científicas.

Na mesma lógica, também se qualificam como neurotimos as seguintes premissas: “Um ambiente enriquecido aumenta a capacidade do cérebro para aprender” e “Os três primeiros anos são críticos para a aprendizagem, portanto, são decisivos para o desenvolvimento posterior”. No livro, L’Ecuyer cita um artigo da Nature Review Neuroscience, de 2006, onde se lê:

“O mito do ‘período crítico’ sugere que o cérebro da criança não funcionará adequadamente se não receber a quantidade adequada de estímulos no momento correto. O ensino de algumas habilidades deve ocorrer durante esse período crítico, caso contrário a janela de oportunidade de educar estará perdida. O mito da sinaptogénese (processo de formação das sinpases no cérebro) promove a ideia de que se pode aprender mais se o ensino coincidir com os períodos deste processo. (…) É preciso eliminar estes mitos.”

O principal argumento que suporta esta ideia falsa, escreve a autora, é a plasticidade do cérebro. “Isto é um facto, mas hoje sabemos que isto ocorre durante toda a vida e não apenas nos primeiros anos”. No entanto, o verdadeiro problema, para L’Ecuyer, surge quando a sociedade dá mais importância ao ganho de conhecimento durante este período, feito sobretudo através do ecrã, em vez da dimensão afetiva. É importante relembrar que o bom desenvolvimento de uma criança não está diretamente relacionado com a quantidade de informação que recebe, mas sim com o modelo de vinculação que tem com o seu cuidador.

“Durante os primeiros anos de desenvolvimento, os padrões de interação entre a criança e o cuidador são mais importantes do que um excesso de estimulação sensorial. A investigação sobre a vinculação sugere que a interação interpessoal colaborativa, e não a estimulação sensorial excessiva, é a chave para um desenvolvimento saudável”, diz Daniel Siegel, psiquiatra, biólogo, professor e membro executivo do Centro para a Cultura, o Cérebro e o Desenvolvimento da UCLA, citado no livro Educar na Realidade.

As consequências da adição ao ecrã na primeira infância

Já antes Catherine L’Ecuyer falou com o Observador, quando disse em entrevista que as crianças “estão a viver como pequenos executivos stressados”, a propósito do livro Educar na Curiosidade. Nesta obra, que chegou no início de 2017 a Portugal, a autora defende que o excesso de estímulos associados às novas tecnologias inibem a curiosidade natural das crianças — em situações mais extremas pode dar-se o caso de as crianças passarem a depender de estímulos externos, sendo que o próximo passo é a adição e a perda da curiosidade que, por sua vez, dificulta o processo da aprendizagem.

Serve isto para explicar que na sua mais recente obra, L’Ecuyer explica que as crianças precisam, sobretudo, de estabelecer relações saudáveis com os seus cuidadores e que os ecrãs são, por vezes e de certa forma, um obstáculo à criação de laços vinculativos, sobretudo quando falamos da primeira infância. “O principal cuidador da criança é o intermediário entre a realidade e ela. Dá sentido às aprendizagens. Um ecrã não pode assumir esse papel porque não faz a calibragem da informação à criança.”

Para salientar a importância desta problemática, L’Ecuyer apresenta um estudo realizado no Reino Unido em 2012, que mostra que 27% das crianças dos 0 aos 4 anos usam computador e 23% usam a internet. A autora dá ainda conta de investigações que demonstra que “as crianças pequenas não aprendem palavras ou outros idiomas com os DVD, por muito ‘educativos’ que possam ser”, e fala de estudos que estabelecem uma “relação entre o consumo dos DVD prentensamente educativos e uma diminuição no vocabulários dos bebés e no seu desenvolvimeno cognitivo”. Não é por acaso que a Academia Americana de Pediatria recomenda que as crianças evitem o consumo de ecrãs até aos dois anos — para as crianças com mais de dois anos, a Academia recomenda limitar o consumo a menos de duas horas por dia.

Como estas investigações há outras. Aliás, os dois investidores da Apple que escreveram a já referida carta, publicada no início da semana em defesa das crianças, apoiaram-se em três estudos diferentes para o efeito, tal como escreve a Business Insider:

  1. um estudo de 2014, que envolveu 100 pré-adolescentes, permitiu perceber que a metade que ficou sem acesso a tecnologia durante cinco dias teve ganhos significativos de empatia;
  2. outro estudo, de 2017, teve por base um inquérito a 1.800 jovens adultos e encontrou uma relação linear entre a quantidade de redes sociais usadas e a fraca qualidade da saúde mental;
  3. a última investigação citada determinou que 86% dos americanos admite verificar “constantemente” os dispositivos digitais, o que aumenta, na maior parte dos casos, o stress (o inquérito online foi feito a mais 3.500 pessoas com mais de 18 anos); e mais de metade dos pais questionados disse ter preocupações tendo em conta a influência das redes sociais na saúde física e mental dos filhos.

O tema da adição e das consequências associadas ao uso das novas tecnologias na primeira infância está na ordem do dia muito por causa da carta aberta dirigida à gigante Apple, que já fez diferentes meios de comunicação questionarem-se sobre o assunto. A CNN, por exemplo, dá voz a Michael Bociurkiw, escritor regular naquele meio, que passa a batata quente para as mãos da Apple, empresa que precisa de “garantir que as crianças deixem de se viciar nos smartphones. No artigo de opinão, Bociurkwi faz referência a mais estudos que mostram que as crianças de dois anos que usam tablets estão a ter problemas de concentração, dificuldades em mostrar empatia e até em ler expressões faciais. Em cima da mesa estão também consequências como a depressão e os diabetes, derivadas da imersão em ecrãs — os cenários descritos tendem a ser mais gravosos em famílias com menos posses.

Curiosamente, o britânico The Guardian recorda esta semana a entrevista que Steve Jobs deu em 2010 ao The New York Times, quando disse que os seus filhos não usavam o iPad. “Nós limitamos a quantidade de tecnologia que os nossos filhos usam em casa”. À semelhança de Jobs, também o co-fundador do Twitter e o ex-editor da revista Wired limitam o tempo que os filhos passam de volta do ecrã. “É como Adam Alter escreve no seu livro Irresistible: ‘Parece que as pessoas que criam produtos tecnológicos seguem a regra cardinal do tráfico de drogas — nunca consumir o próprio produto’”, lê-se no The Guardian.

Quem também não deixa os filhos usar as redes sociais é Chamath Palihapitiya, ex-vice-presidente do Facebook para a área de expansão de utilizadores, que numa conferência na Stanford Graduate School of Business, em dezembro último, afirmou que as redes sociais, consideradas uma máquina que “explora vulnerabilidades na psique humana”, estão “destruir as bases da sociedade”.

Numa situação sem precedentes, o relatório anual “Situação Mundial da Infância” da UNICEF, divulgado em dezembro de 2017, foi todo ele dedicado ao impacto da tecnologia digital nas crianças. Entre as principais conclusões encontram-se as seguintes ideias:

  • um em cada três utilizadores de internet no mundo é uma criança;
  • os jovens pertencem ao grupo mais conectado;
  • muitas crianças têm uma pegada digital ainda antes de conseguirem falar ou andar;
  • “A tecnologia digital pode ser uma mais-valia para crianças desfavorecidas, ao proporcionar-lhes novas oportunidades para aprender, socializar e até para se fazerem ouvir — ou pode ser mais uma linha divisória. Milhões de crianças são deixadas de fora de um mundo cada vez mais conectado”.

Se em abril de 2013 a publicação The Atlantic falava numa geração “touch-screen”, tendo em conta crianças pequenas, hoje em dia há quem fale numa “geração cordão”, referindo-se a crianças e adolescentes que não se conseguem desligar. Sem diabolizar as novas tecnologias, duas psicólogas portuguesas — Ivone Patrão e Rosário Carmona e Costa, autoras dos livros #Geraçãocordão – A geração que não desliga! e iAgora? Liberte os seus Filhos da Dependência dos Ecrãs, respetivamente — chegaram a conversar com o Observador sobre a problemática do uso excessivo das novas tecnologias e a sua influência em diversos aspetos da vida dos mais novos — desde as relações sociais e familiares às novas formas de estudo.

À data, Ivone Patrão referiu um estudo do ISPA – Instituto Universitário, por ela orientado, que determinou que 25% dos adolescentes portugueses (tendo em conta uma mostra de três mil inquiridos) são viciados em tecnologia.

O problema da multitarefa

“Gostaríamos de acreditar que a nossa atenção é infinita, mas não é. Multitasking é um mito persistente. O que realmente fazemos é mudar rapidamente a nossa atenção de tarefa em tarefa”, escreveu Maria Konnikova, autora do livro Mastermid: How to Think Like Sherlock Holmes, num artigo de opinião no The New York Times, datado de 2012. O estrangeirismo é utilizado para descrever a capacidade de fazer mais do que uma tarefa ao mesmo tempo e, se em tempos teve em voga, agora perde terreno para o monotasking, já considerado o termo do século XXI para prestar atenção.

Catherine L’Ecuyer concorda: no livro já citado, diz que a multitarefa é tida como uma crença popular que ganhou terreno na nossa sociedade, muito embora não passe de um mito — as crianças até podem ser nativas digitais mas, ao contrário do que os pais possam pensar, isso não faz delas forçosamente melhores na multitarefa do que os adultos. “Também eles [os nativos digitais] oscilam entre as diferentes atividades tecnológicas que realizam, e essa oscilação tem o mesmo custo que tem para os adultos”, assegura L’Ecuyer.

E que custos são esses? De acordo com um estudo publicado em 2014, no Journal of Experimental Psychology, interrupções de apenas dois ou três segundos são o suficiente para os participantes duplicarem os erros cometidos durante determinada tarefa. A isso acrescentam-se a investigação da Universidade da Califórnia — que mostrou que trocamos de tarefas cerca de 400 vezes por dia, daí estarmos tão cansados à noite — e o estudo da Universidade de Stanford, que concluiu que os alunos “que fazem multitarefa tecnológica obtiveram piores resultados em todos os parâmetros”.

A última palavra fica a cargo de Catherine L’Ecuyer: “Um estudo que compara vários parâmetros cognitivos conclui que, hoje, uma criança de 11 anos tem um rendimento ao nível de uma criança de 8 ou 9 anos de há… 30 anos! É preciso ver que papel podem ter tido os neuromitos, os ecrãs e a multitarefa nessa mudança”.

 

 

 

Incentivar as crianças a passar tempo no exterior pode ser a chave para proteger a visão

Janeiro 8, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto da http://visao.sapo.pt/ de 2 de janeiro de 2018.

Cátia Leitão

Hoje em dia as crianças passam horas agarradas aos telemóveis, tablets e consolas. Se está preocupado com a visão do seu filho talvez deva incentivá-lo a procurar novos passatempos

Nos últimos anos as crianças perderam o hábito de sair para a rua e brincar com os amigos e colegas. Esse hábito foi substituído por várias horas a mexer no telemóvel e em frente ao computador ou às consolas. Além de não ser saudável, esta nova realidade pode realmente prejudicar as crianças em diversos níveis, um deles diz respeito à visão.

O número elevado de horas que os mais pequenos passam agarrados aos dispositivos tem levado ao aumento de crianças com dificuldades de visão, principalmente com miopia, caracterizada pela falta de visão à distância. A miopia é uma alteração da morfologia do globo ocular que afeta a forma como as imagens são formadas e transmitidas ao cérebro e leva a que as imagens de objetos distantes se formem em frente da retina. Uma pessoa míope vê os objetos longe dela como se estes estivessem desfocados, mas consegue ver com nitidez os objetos mais próximos.

Os especialistas acreditam que o aumento de crianças com miopia se deve à pouca exposição que estas têm, atualmente, à luz natural. Annegret Dahlmann-Noor, oftalmologista no Hospital Moorfields em Londres disse à BBC que “a principal causa [deste aumento] é a falta de exposição à luz direta do sol, porque as crianças que estudam muito e que usam computadores, smartphones ou tablets têm menos oportunidade de aproveitar o mundo exterior e estão menos expostas à luz do sol”.

Annegret Dahlmann-Noor, tem três filhos e considera que tentar acabar com o uso dos dispositivos é irrealista. “A única coisa que se pode fazer é dizer às crianças que [o uso excessivo dos telemóveis] pode deixar os olhos desconfortáveis e torná-los míopes por isso não podem usar as tecnologias tanto tempo quanto gostariam”, diz Annegret.

A miopia aparece normalmente em crianças e adolescentes e é mais frequente no sexo feminino. Estima-se que em Portugal, 25% da população sofra com miopia, embora existam poucos estudos a este nível. Um deles foi divulgado pela Universidade do Minho em 2015 e concluiu que a percentagem de alunos no ensino superior com miopia tem vindo a aumentar significativamente nos últimos anos. Este estudo analisou 200 estudantes e teve dois momentos diferentes, um em 2002 e outro em 2014. No primeiro momento, 23% dos alunos tinha miopia enquanto que no segundo momento a percentagem aumentou para 42%.

Chris Hammond, professor de oftalmologia na Universidade de Londres, disse à BBC que a miopia está a tornar-se cada vez mais comum. Este problema visual “tem atingido níveis epidémicos no este da Ásia, Singapura, Taiwan e Coreia do Sul onde afeta 90% dos jovens com 18 anos”, disse o oftalmologista, acrescentando que “na Europa, estes valores estão a subir e entre 40% a 50% dos jovens adultos da Europa Ocidental que estão na casa dos 20 anos têm miopia. Esta percentagem tem aumentado gradualmente desde o século passado em que os valores estavam entre 20% e 30%”.

Segundo os especialistas, nomeadamente Chris Hammond, a chave para o problema é incentivar as crianças a brincar no exterior o mais possível. “A proteção contra o desenvolvimento da miopia é o tempo passado na rua – desporto e lazer ao ar livre são boas formas de proteger a visão”, diz Hammond. O professor acrescenta ainda que “num mundo perfeito devíamos passar 2 horas ao ar livre por dia para proteger as crianças de desenvolverem miopia”.

 

Estudo alerta: Crianças devem ter tempo limitado em frente a ecrãs para evitar obesidade

Dezembro 12, 2017 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do http://tek.sapo.pt/ de 24 de novembro de 2017.

Um novo estudo mostra que existe uma forte ligação entre a obesidade infantil e a exposição prolongada em frente à TV, computadores e outros ecrãs. O tempo recomendado para essas atividades é de 90 minutos por dia.

As crianças pequenas vêem, em média, uma hora de televisão por dia, número que sobe para as 7,25 horas quando atingem os 9 anos, sendo que 97% das famílias europeias têm, pelo menos, uma televisão, 72% são donas de um computador e 91% têm acesso a telemóveis.

Um grupo de especialistas europeus em saúde infantil encontrou uma forte ligação entre a obesidade infantil e a exposição prolongada à tecnologia durante os seus anos iniciais e, de acordo com um estudo, agora publicado na revista Acta Paediatrica, cerca de 19% das crianças e adolescentes europeus têm excesso de peso.

Considerando que esta é uma “taxa alarmante”, os investigadores da Academia Europeia de Pediatria e do Grupo Europeu de Obesidade Infantil defendem que os pais devem tentar perceber que impacto podem ter o uso de vários dispositivos e os hábitos alimentares na saúde dos filhos.

O Dr. Adamos Hadjipanayis, líder do estudo e membro da Academia Europeia de Pediatria, defende que “os pais devem limitar a visualização de TV, o uso de computadores e dispositivos similares a não mais do que 1h30 por dia e apenas se a criança tiver mais do que quatro anos de idade”.

Mas, os pediatras também “devem informar os pais sobre o risco geral que o uso destas tecnologias representa para o desenvolvimento cognitivo e físico dos seus filhos”, observa Hadjipanayis.

Para além de limitar o tempo de utilização, os especialistas recomendam que as crianças não tenham televisão no quarto e que os pais devem dar o exemplo, reduzindo o seu próprio tempo de consumo de televisão e afins. Por fim, também aconselham que os iPads, smartphones e televisões não sejam usados como “babysitter”.

O estudo também destacou que o consumo de televisão e redes sociais a horas tardias perturba os padrões de sono dos jovens, o que, por sua vez, pode contribuir para a obesidade.

 

Quatro inquietações sobre a utilização das tecnologias

Novembro 16, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 5 de novembro de 2017.

Cátia Sacadura e Rosário Carmona e Costa

Antes, os nossos filhos só sabiam fazer uma coisa melhor do que nós – aproveitar o momento. Agora, sabem mais uma: utilizar de forma hábil cada uma das tecnologias que têm ao seu dispor. Cabe aos pais definir o quanto, o quando e o como.

Chegou a era do contacto diário e constante com ecrãs, a era do interativo, a era do imediato, a era do tudo-à-distância-de-um-click. Antes, os nossos filhos só sabiam fazer uma coisa melhor do que nós – aproveitar o momento – e, agora, sabem mais uma: utilizar de forma hábil cada uma das tecnologias que têm ao seu dispor. Desde a televisão (não lhe chamemos nova tecnologia para não pareceremos jurássicos) até à última consola ou smartphone que chegou ao mercado.

Como pais, o importante é podermos tirar o maior proveito de tudo o que a tecnologia pode trazer de bom.

Veja, ou reveja-se, nas quatro inquietações que compilámos acerca da utilização de novas tecnologias pelas crianças e jovens:

1. O meu filho ficará viciado se permitir que ele tenha acesso aos ecrãs.
É muito frequente os pais chegarem à consulta com a crença de que o filho tem um problema com os ecrãs. “Ele é viciado naquilo” ou “Ele está mesmo dependente” são frases que ouvimos de pais que estão a ter dificuldade em gerir o tempo que os filhos passam no computador e nos telemóveis bem como em conseguir que cumpram um conjunto de tarefas que definem como prioritárias.

Ora, não se trata do acesso aos ecrãs mas, sim, dos limites que necessariamente precisam de ser impostos. Crianças que utilizam novas tecnologias, que têm acesso à Internet, ao computador e a um conjunto de aplicações que vão ao encontro dos seus interesses poderão beneficiar de tudo o que estas acrescentam ao seu desenvolvimento desde que os pais definam as regras – e tempo – da sua utilização e, em segundo lugar, promovam em paralelo um leque variado de interesses e atividades.

2. Prefiro que o meu filho não utilize a Internet porque está exposto a demasiados perigos.
Não há como negar que também a vida online e virtual apresenta perigos às crianças (e a todos nós). No entanto, é um mito que os privemos de ter contacto com esta vertente do dia-a-dia como atitude protetora. Ao fazê-lo, não estamos a ajudá-los a desenvolver estratégias para lidar com os perigos e dificuldades online, não estamos a aproveitar a oportunidade para conversar sobre o mundo virtual e sermos bons modelos de utilização, nem tão pouco estamos a torná-los peritos numa utilização cuidada e protegida. E é melhor que se desengane: se ele não utilizar em casa, irá fazê-lo nos telemóveis dos amigos ou nos computadores da escola nas restantes 8 horas do dia que passa longe de si.

3. É o fim da leitura.
Não. As estatísticas parecem indicar que nunca se leu tanto. Muitas vezes, não é o tipo de leitura que pretendemos quando falamos de literacia, mas pode ser um início. Nunca foi tão acessível partilhar literatura infantil com os nossos filhos, e oferecer-lhes a possibilidade de, desde cedo, se poderem sentir autónomos a ler um livro, por exemplo através de audiolivros. Os livros eletrónicos parecem ser um excelente formato aumentando a motivação e permitindo a combinação com outros meios e conteúdos (áudio, dicionário incorporado, diferentes fontes e tamanhos de letra) que podem apoiar a leitura, nomeadamente perante uma dificuldade.

Filhos que veem os seus pais a ler sentem-se mais motivados para ler. Os hábitos de leitura cultivam-se desde cedo através de livros adequados à idade da criança e uma leitura envolvente. Tal é bastante mais importante que o formato em que o fazemos. O conteúdo de qualidade, esse vem com o gosto pela atividade.

4. Se um jogo é interativo é provavelmente educacional. 
É verdade que vários jogos nos chegam como revolucionários para o desenvolvimento cognitivo e das aprendizagens. Os pais ficam descansados, os professores sentem que estão a utilizar algo motivante. Muitos jogos são estritamente operacionais – selecionar a resposta correta para ganhar. Serão estes jogos verdadeiramente educacionais? São definitivamente oportunidades de prática, mais motivantes que uma ficha de trabalho tradicional, no entanto não utilizam a potencialidade da tecnologia. Seja exigente com os jogos que procura quando quer que sejam educacionais: Procure saber se vai ao encontro da competência que pretende desenvolver; se permite que o jogador seja criativo ou tome decisões; se motiva o jogador a pensar no processo ou, pelo contrário, só tem que selecionar um resultado. O ideal é que todos os jogos educativos sejam acompanhados pelo diálogo sobre o processo e o que o envolve. Não desvalorize o seu papel enquanto educador.

As autoras seguem o Acordo Ortográfico. A rubrica encontra-se publicada no P2. caderno de Domingo do PÚBLICO e é da responsabilidade do CADin

Como afastar as crianças dos ecrãs e levá-las a desfrutar dos livros

Outubro 9, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do https://www.publico.pt/ de 14 de setembro de 2017.

É verdade, aqueles ecrãs são muito tentadores, mas sejam fortes e preparem-se para as falinhas mansas, gestão de tempo e alguma criatividade, especialmente no que toca a definir o que significa ler um livro.

Culto e Rita Pimenta

No Verão há imensas desculpas: colónias de férias, piscina, praia, dias de preguiça quando não parecia muito mau os filhos ainda estarem de pijama e talvez a ver televisão ou a barincar no iPad. Era tempo de férias, certo? Eles liam quando a escola recomeçasse. Será que pressioná-los não iria criar resistência à leitura?

Agora voltaram para a escola e defrontam-se com algo talvez ainda mais assustador: os trabalhos de casa. (Mais os treinos de futebol, as aulas de piano, os encontros com os amigos e tantas outras coisas.)

Como é que se consegue tempo para ler neste horário já incrivelmente preenchido? E mais importante: como ajudar as crianças a ver a leitura como algo separado da escola, dos testes, do trabalho? Como promover a leitura por prazer?

A resposta simples é lerem – com e para os vossos filhos – sempre que possam. Façam dos livros parte das vossas rotinas, da decoração da casa, das conversas. É verdade, aqueles ecrãs são muito tentadores, mas sejam fortes e preparem-se para as falinhas mansas, gestão de tempo e alguma criatividade, especialmente no que toca a definir o que significa ler um livro.

Aqui ficam algumas dicas de bibliotecários e especialistas em educação:

— Leiam os vossos próprios livros. Quando foi a última vez que se sentaram na sala (ali mesmo no meio dos brinquedos, do caos, da confusão e das crianças) e leram um livro para vosso próprio prazer? Se estão a revirar os olhos neste preciso momento, não são os únicos. Mas ponham de lado o vosso cepticismo e tentem.

“Normalmente, as crianças são extremamente curiosas e ansiosas por ler se tiverem motivação suficiente”, diz Erika Christakis, educadora de infância e autora do livro The Importance of Being Little. “Está nas mãos dos adultos criar ambientes na escola e em casa que os levem a querer ler.” Em parte, significa terem de ler também e terem de largar os vossos ecrãs. “O que é que irá motivar as crianças se sempre que tiram os olhos de um livro vêem os pais agarrados ao telemóvel?”, pergunta Christakis.

Conclusão: se as crianças vos virem a ler por prazer, é mais provável que o façam também. Além disso, vocês acabam por também ler um livro!

— Leiam em voz alta. “Lembrem-se, uma criança nunca é demasiado velha para que lhe seja lida uma história. E vocês nunca estão demasiado ocupados para ouvir uma história lida por uma criança”, diz John Schumacher, também conhecido como Sr. Schu, embaixador das bibliotecas escolares da Scholastic Book Fairs. James Trelease, autor do venerado Read-Aloud Handbook, diz que quando lêem em voz alta para crianças não estão só a informá-los, mas a criar laços e a entretê-los. E estão também a “fazer publicidade aos prazeres da leitura”. Trelease, que leu para os seus filhos até estes estarem no 9.º ano, acrescenta que ouvir um livro aumenta a capacidade de compreensão e o vocabulário. “Se nunca ouviram uma palavra, nunca vão aprender a dizê-la ou a escrevê-la e nunca a vão ler.”

— Façam de visitas a bibliotecas parte da rotina das crianças. De acordo com o mais recente Scholastic Kids & Reading Report [Relatório sobre Crianças e Leitura feito pela Scholastic], os bibliotecários e os professores são a melhor fonte de factos divertidos sobre livros. Mesmo que as crianças sejam demasiado tímidas para pedir ajuda, quem sabe os títulos que eles podem descobrir nas prateleiras? (Se estão preocupados sobre se os livros são adequados, perguntem ao bibliotecário ou consultem o site Common Sense Media.)

— Deixem as crianças escolher os próprios livros à vontade. “Estudos mostram que, quando as crianças escolhem os livros que querem ler, lêem mais”, diz Karen MacPherson, coordenadora da secção de crianças e adolescentes da biblioteca Takoma Park Maryland. De acordo com um dos estudos mais citados, cerca de 80% das crianças envolvidas no estudo disseram que o livro de que mais gostavam era o que eles mesmos tinham escolhido.

— Encorajem as crianças a reler livros. “Os leitores jovens não deveriam ser forçados a experimentar coisas novas em casa”, diz Christakis. “Uma das melhores leitoras que conheço passou a infância dela a ler e a reler, do princípio ao fim, a colecção completa de Little House. Deve ter terminado a colecção dez ou 15 vezes, fazendo ocasionalmente um intervalo para ler a colecção de Harry Potter. Há formas muito piores de passarmos a infância.”

— Deixem as crianças ler ao nível deles e não aquele de que se gabam aos vossos amigos. “Os adultos tendem a impingir algumas das suas ansiedades de leitura aos filhos, o que é contraproducente”, diz Christakis. “Os pais de leitores precoces frequentemente fazem os filhos ler textos que são simplesmente demasiado difíceis para eles. Mesmo lendo um livro com 95% de exactidão, saltando ou não reconhecendo 5% das palavras, é surpreendentemente distractivo e desmoralizante”, diz. “As famílias deviam encorajar as crianças a escolher livros que sejam ‘confortáveis’ para eles e que não lhes causem ansiedade ou lhes dê a sensação de que é demasiado trabalhoso.”

— Livros não são só contos de fadas. Os livros de culinária também são livros, indica MacPherson. Tal como livros de banda desenhada e de factos interessantes como o Livro Guinness dos Recordes e o Ripley’s Acredite se Quiser — Ver Para Crer. Até folhear uma revista, um almanaque, uma enciclopédia ou um dicionário (que também tem o benefício de os ensinar a alfabetizar) pode ser uma forma divertida de explorar livros.

— Comecem a ouvir audiolivros. Quer estejam numa longa viagem de carro ou simplesmente a descansar em casa, ouçam um audiolivro e preencham qualquer tempo vazio com histórias. Trelease diz que ouvir este tipo de livros traz os mesmos benefícios que ler em voz alta, enriquece o vocabulário e aumenta a capacidade de concentração.

— Criem uma refeição de “leitura”. Escolham uma refeição (ou duas) em que toda a família possa trazer um livro para a mesa e possam ler enquanto comem, sugere MacPherson. Pode-se tornar uma refeição bastante silenciosa ou num aceso debate. De qualquer forma, a leitura dá origem a uma ocasião especial.

— Formem um clube de leitura no bairro. Ler não é necessariamente uma actividade solitária. Um clube de leitura com leitores de níveis semelhantes pode ser uma excelente forma de as crianças verem o que os seus colegas andam a ler e torna a leitura um evento social.

— Deixem os vossos filhos ouvir podcasts. As crianças podem escolher podcasts de histórias, como StoryNory ou Eleanor Amplified, ou um mais informativo, como Wow in the wold. Ouvir estes podcasts pode oferecer muitos dos mesmos benefícios que ouvir audiolivros.

“Há um ditado que diz: ‘Se não gostam de ler, é porque o estão a fazer mal’”, lembra Deborah Taylor, coordenadora da secção de escola e alunos da Enoch Pratt Free Library, em Baltimore. “Acho que significa que a pessoa ainda não estabeleceu uma relação com o livro certo”, acrescenta, dizendo que é “implacável” com os jovens leitores. “Se me dizem que não gostam de ler, digo-lhes que não vou desistir enquanto não encontrar o livro certo para eles, aquele que vai fazer deles leitores.”

As sugestões de Rita Pimenta

Porque preferimos que sejam as crianças a escolher, propomos uma lista com links que lhes permitem ver e escutar alguns dos títulos, mas não substituem a leitura em papel. Também privilegiámos autores portugueses. Porque sim.

O escalonamento por idades é apenas um indicativo (quase sempre falível…).

Dos 4 aos 8 anos

Eu Quero a Minha Cabeça! Texto e ilustração: António Jorge Gonçalves Edição: Pato Lógico

Histórias às Cores Texto: António Mota Ilustração: Paulo Galindro Edição: Gailivro

A Surpresa de Handa Texto e ilustração: Eileen Browne Tradução: José Oliveira Edição: Editorial Caminho

Dos 9 aos 12 anos

A Charada da Bicharada (Prémio Nacional de Ilustração 2008) Texto: Alice Vieira Ilustração: Madalena Matoso Edição: Texto Editores

O Estranhão (colecção) Texto: Álvaro Magalhães Ilustração Carlos J. Campos Edição: Porto Editora

O Incrível Rapaz Que Comia Livros (Prémio de Melhor Livro Infantil 2007, atribuído pelo Irish Book Awards) Texto e ilustração: Oliver Jeffers Tradução: Rui Lopes Edição: Orfeu Negro

A partir dos 12 anos

De Umas Coisas Nascem Outras (Prémio Autores 2017 na categoria Melhor Livro Infanto-Juvenil) Texto: João Pedro Mésseder Ilustração: Rachel Caiano Edição: Caminho

Lá Fora (Melhor livro na categoria Primeira Obra, Opera Prima, da Feira do Livro Infantil e Juvenil de Bolonha 2015) Texto: Maria Dias e Inês Rosário Ilustração: Bernardo P. Carvalho Edição: Planeta Tangerina

Eu Espero Texto: Davide Cali Ilustração: Serge Bloch Edição: Bruaá

Mais sugestões de livros no blogue Letra pequena.

 

 

 

Médica alerta que problemas de visão afetam uma em cada cinco crianças

Setembro 14, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://lifestyle.sapo.pt/ de 29 de agosto de 2017.

Nuno Noronha

Uma em cada cinco crianças sofre de problemas oftalmológicos, uma situação que pode agravar-se com o excesso de horas que os mais pequenos passam de olhos postos nas novas tecnologias.

Aproveitar o verão para tirar as crianças da frente dos aparelhos eletrónicos ajuda a minimizar os riscos, aconselha a Sociedade Portuguesa de Oftalmologia (SPO).

“As horas passadas em contacto com dispositivos eletrónicos e exposição a ecrãs podem ser prejudiciais”, confirma Alcina Toscano, coordenadora do grupo de Oftalmologia Pediátrica e Estrabismo da SPO.

Apesar de, refere a médica, “não estarem diretamente relacionadas com problemas oculares”, quando em exagero “e em más condições ergonómicas (má postura, luminosidade incorreta, distância inadequada)”, os ecrãs que conquistam a atenção dos mais pequenos “contribuem para o aparecimento de sinais e sintomas, não só oculares como gerais. Estudos recentes apontam para uma maior incidência de miopia nestas crianças, quando comparadas com crianças que passam mais tempo ao ar livre”.

Recomendam-se, por isso, alguns cuidados. A começar pela atenção dada à posição, iluminação e distância adequada em relação a estes aparelhos, assim como a escolha “de programas de valor educacional”.

Alcina Toscano aconselha ainda o estabelecimento “de regras e tempos em que estes não devem ser usados (refeições, viagens em família)” e ainda aquilo que define como “a regra do 20/20/20 (sobretudo para os mais velhos): a cada 20 minutos olhar 20 segundos para uma distância de 20 pés (cerca de 6 metros)”.

Lá fora, há também que ter atenção ao sol. Neste caso, os cuidados para os olhos são os mesmos que aqueles que se deve ter com a pele: “evitar a exposição direta ao sol nas horas de radiação ambiente mais elevada ou onde houver maior radiação, e proteger a face do sol com uso de boné ou chapéu de abas largas”. No que diz respeito ao uso de óculos de sol, este está indicado para os mais pequenos “quando houver exposição a níveis elevados de radiação UV ou quando a refletividade for elevada”. No entanto, a médica reforça que “óculos com lentes escuras não são sinónimo de proteção ocular. O que cria barreiras aos raios UV é um filtro incorporado na lente e não a coloração”.

Não falando de situações agudas e benignas como as conjuntivites, os problemas oftalmológicos mais comuns entre as crianças são, avança a especialista, os erros refrativos, cujo diagnóstico e tratamento precoces fazem a diferença. “Podemos prevenir o desenvolvimento de ambliopia. Esta é uma doença exclusiva da idade pediátrica, que ocorre durante o período de desenvolvimento da visão, o chamado período crítico, de maior sensibilidade a qualquer interferência com a visão e maior plasticidade cerebral”, refere.

A médica salienta ainda que a “primeira avaliação oftalmológica deve ser realizada à nascença e pode ser realizada pelo pediatra, para despiste de patologias congénitas como a catarata”.

Para um rastreio oftalmológico “existem atualmente métodos de foto-rastreio, que podem ser realizados por técnicos de saúde, sendo a idade ideal para a sua realização entre os 2 e 2,5 anos e que se pretende que sejam implementados a nível nacional”.

Segundo a especialista, não havendo sinais ou sintomas de alerta, “nem história familiar de doença ocular, a primeira consulta de oftalmologia deve ser realizada entre os 3 e os 4 anos, para um exame oftalmológico completo”.

 

 

 

Exposição a Ecrãs na Infância. Recomendações da Academia Americana de Pediatria

Julho 8, 2017 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do blog http://parafalarsaoprecisos2.blogspot.pt/ de 5 de maio de 2017.

No final da semana mundial sem ecrãs, a Academia Americana de Pediatria relembra que em Outubro de 2016 divulgou um estudo que incluiu 894 crianças entre os seis meses e os dois anos e que foi feito entre 2011 e 2015. Numa altura em que no mundo inteiro proliferam os smartphones, tablets e jogos eletrónicos com ecrãs sensíveis ao tato, há crianças que começam a usar esses dispositivos antes de falar, mas a investigação sugere que essas crianças correm um alto risco de atraso de desenvolvimento da linguagem.

Aos 18 meses, refere o estudo, 20% das crianças usavam dispositivos de ecrã tátil em média 28 minutos por dia, segundo os pais. Com base numa ferramenta para analisar atrasos na linguagem, os investigadores concluíram que quanto mais tempo a criança usa o écrã tátil mais provável é que venha a desenvolver um atraso. Por cada aumento de 30 minutos à frente de um desses aparelhos de écrã tátil o risco de atraso de desenvolvimento da linguagem aumenta em 49%, alertam. Este é o primeiro estudo a relatar uma ligação entre o uso dos aparelhos de ecrã tátil e um aumento de risco de atraso na linguagem expressiva”, disse Catherine Birken, investigadora e pediatra. As recomendações da Sociedade Americana de Pediatria sobre a exposição a ecrãs na infância são atualmente as seguintes:

  • Para as crianças com idade inferior a 18 meses, deverá evitar-se toda e qualquer exposição a ecrãs exceto no caso de vídeo-conferência para comunicar com familiares próximos.
  • Os pais das crianças entre os 18 e os 24 meses que desejem introduzir dispositivos digitais aos seus filhos devem escolher programas de elevado valor educacional e visualizá-lo conjuntamente com as crianças para as ajudar a compreender o que estão a ver;
  • As crianças dos 2-5 anos deverão ter um tempo de exposição a ecrãs limitado a uma hora por dia, e visualizar apenas programas de elevado valor educacional. Os pais deverão ver os programas com as crianças para os ajudar a compreender o que estão a ver e aplicá-lo ao mundo real.
  • As crianças com mais de 6 anos deverão ter limites bem estabelecidos e consistentes sobre o tempo de exposição a ecrãs e os pais devem assegurar-se que esse tempo de exposição não interfere com a atividade física, sono, alimentação, estudo e outras atividades essenciais ao seu bem estar físico e emocional.
  • Devem estabelecer-se momentos de partilha em família em que os ecrãs estão totalmente abolidos, tais como durante as refeições, viagens em família, e designar áreas da casa livres de ecrãs, sobretudo os quartos de dormir.
  • Não permitir a visualização de ecrãs nas duas horas anteriores ao deitar.
  • Comunicação e educação continuadas sobre regras essenciais de cidadania e segurança online. Diálogo frequente sobre a necessidade de manter o respeito e as regras de educação e convivência, quer online quer offline.
  • Explicar desde cedo as diferenças entre “espaço público” e “espaço privado” e deixar bem explícito desde o momento em que a criança tem acesso à internet de que tudo o que se realiza na internet é equivalente ao que se realiza na rua. E que é praticamente impossível apagar fotos ou vídeos uma vez postados.

A Recomendação da APP citada é a seguinte:

American Academy of Pediatrics Announces New Recommendations for Children’s Media Use

 

E depois dos ecrãs: que vida pode sobrar?

Maio 11, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do https://www.publico.pt/ de 1 de maio de 2017.

Estamos rodeados de ecrãs e a vida parece caber em meia dúzia de polegadas. Nos transportes públicos, nos restaurantes, em casa. Há quem pense que a utilização febril dos dispositivos conduz afinal a uma nova forma de ignorância.

Inês Chaíça

“Nada é mais significativo e deprimente do que ver numa entrada de uma escola, ou num restaurante popular, ou na rua, pessoas que estão juntas, mas que quase não se falam, e estão atentas ao telemóvel, mandando mensagens, enviando fotografias, vendo a sua página de Facebook, centenas de vezes por dia”, escreveu o colunista José Pacheco Pereira na sua última crónica de 2016 para o PÚBLICO. Nela, define um novo tipo de ignorância: aquele que não está apenas relacionado com a falta de conhecimento pura e dura, mas com a falta de interesse pelo que nos rodeia – e que estaria, em grande parte, relacionada com os dispositivos electrónicos e as redes sociais.

Fala também da falta de capacidade de questionar o mundo e de distinguir a informação certa da falsa. E, pior: porque a informação não-verificada se propaga de forma tão rápida nas redes sociais, Pacheco Pereira define-as como “viveiros de populismos”. Será apenas isso?

Miguel C. Tavares e José Alberto Gomes estiveram em Hong Kong e as imagens que trouxeram parecem ilustrar a crónica de Pacheco Pereira (ainda que não estejam directamente relacionadas). Em cinco minutos, a curta-metragem In Between mostra uma sociedade alheada do que se passa à sua volta e presa aos ecrãs.

Miguel Tavares, formado em arquitectura mas que hoje em dia é realizador freelancer, explicou ao PÚBLICO que não foi para Hong Kong com uma ideia pré-definida – passou lá um mês a misturar-se com a população e com a cidade e a perceber como funcionam as dinâmicas de comunicação. “A ideia surgiu lá, não foi algo pensado”, explica. “É um tema que também me interessa e é bastante actual e pertinente: essa alienação, o facto de cada pessoa viver no seu mundo”. E trouxe para Portugal imagens de pessoas nas suas deslocações quotidianas, mas que não conseguem desligar-se: os olhos estão presos ao ecrã do smartphone e os auriculares não saem dos ouvidos.

Conta que sentiu mais isso em Hong Kong do que em Portugal, “pela própria dinâmica da cidade” e “pelas distâncias que as pessoas percorrem de transportes”, que acabam por atirá-las para o refúgio do telemóvel e das redes sociais. “Em Portugal não há nada parecido”, considera. Talvez nas grandes metrópoles europeias, mas ainda assim com algumas reservas.

As reacções que teve enquanto filmava são sintomáticas dessa diferença entre as sociedades ocidentais e orientais: “Era impossível tentar fazer o mesmo em Portugal. Eles têm um à-vontade muito grande com as fotografias e com as câmaras”. No entanto, salienta uma certa falta de abertura em relação ao outro, uma certa reserva e uma vontade de manter as distâncias – salvaguardando que o choque de culturas pode ser a causa disso.

Miguel C. Tavares já não é novato nas andanças dos festivais de cinema. Com a curta-metragem Sizígia, realizada pelo colectivo Ruptura Silenciosa, do qual fez parte, esteve no Festival Internacional de Cine de Mar del Plata, na Argentina, no Festival Court c’est Court, em Cabrières d’ Avignon, França, e no Indie Lisboa, todos em 2013. A curta-metragem ??? IN BETWEEN ???, filmada em 2016, ainda não se estreou em nenhuma plataforma e é mostrada publicamente agora pela primeira vez.

A “linha da vida” que é o smartphone

Estamos cada vez mais ligados e já quase não sobram dúvidas: o smartphone passou a ser o veículo principal da navegação na Internet a nível global – e os jovens são os seus principais utilizadores. “No Brasil, em três anos, passou-se de 30% de jovens que acediam à Internet pelo smartphone para 85%”, explica Cristina Ponte, investigadora e professora na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH-UNL) que se especializou nas questões que envolvem crianças e jovens e os media. “Num estudo com 44 jovens universitários angolanos, verificou-se que menos de 10 têm um computador e uma ligação à Internet a partir de casa, por isso é o smartphone que os liga ao mundo”. Em Portugal, ainda há uma grande tradição na utilização do computador porque “os jovens cresceram com os programas do e-escolas e e-escolinhas, que lhes deram acesso a computadores portáteis”, explica a investigadora.

Mas a tendência para a crescente utilização do smartphone é real e começa a ter consequências. Pacheco Pereira, por exemplo, alerta para a alienação quase total dos jovens: “Não há maior punição para um adolescente do que se lhe tirar o telemóvel, e alguns dos conflitos mais graves que ocorrem hoje nas escolas estão ligados ao telemóvel que funciona como uma linha de vida”, escreveu.

Cristina Ponte, professora universitária, confirma que os jovens confiam cada vez mais no smartphone. “Por exemplo, os meus alunos dizem-me muitas vezes que deram uma vista de olhos no texto que mandei para ler no telemóvel, mas isso não dá para nada”. A investigadora diz que há coisas que têm de levar o seu tempo – e ler é uma delas. “Concordo com Pacheco Pereira quando ele diz que o tempo da leitura não é o tempo da imagem em movimento – sobretudo se estas imagens durarem apenas 60 segundos e forem mudas. Há um tempo que pede para ser vivido de forma mais lenta”.

No entanto, salienta que a sensibilidade para os perigos da Internet e dos ecrãs é fruto da cultura familiar e dos processos prévios – e não apenas do facto de se ser jovem, como parece sugerir Pacheco Pereira na passagem citada acima. O espírito crítico nasce de um “ambiente estimulante” criado em casa, diz a investigadora, de jovens que foram incentivados, desde cedo a exprimirem as suas opiniões. “Não podemos ver os jovens e a tecnologia e ignorar os ambientes familiares em que viveram, a educação que tiveram, o facto de terem crescido em condições de liberdade e de acesso a um conjunto diversificado de literatura, cinema, teatro…”, explica a investigadora, acrescentando que todas as pessoas têm recursos diferentes, o que justifica o facto de a tecnologia não actuar em todas as pessoas da mesma forma. Por isso, defende, é perigoso generalizar, como fez Pacheco Pereira.

Activismo político e as redes sociais

“Há jovens que têm a capacidade de ter um espírito crítico e tiram partido das redes sociais, normalmente com um sentido mais activista”, adianta a mesma investigadora. O que explica, em parte, os movimentos activistas (de jovens e não só) nascidos nas redes sociais. Cristina Ponte considera que os telemóveis e as redes sociais facilitam a organização e mobilização em torno de uma causa. Isso ganha mais expressão no caso dos jovens porque “estão sempre na vanguarda das tecnologias, são capazes de se mobilizar e fazer curto-circuito à informação mainstream”.

Ao mesmo tempo, assiste-se a um tempo em que os jovens não parecem ter outra alternativa às redes sociais. Cristina Ponte salienta que na actualidade há alguns espaços que lhes são interditos, e que os obrigam a procurar outras formas de estarem em contacto uns com os outros. A rua, por exemplo, tornou-se num espaço quase proibido e os adolescentes são vistos como arruaceiros se andarem em grupo.

Já Tiago Lapa, investigador do Centro de Estudos de Sociologia do ISCTE-IUL e professor na mesma universidade, salienta o carácter mais tradicional das manifestações de interesses políticos que começam nas redes sociais e que passam para a rua. “Quem usa as redes sociais quer transmitir uma mensagem”, sintetiza. “Os movimentos sociais organizam-se a partir das redes sociais – o que provoca uma certa globalização desses movimentos – mas há que perceber que um dos objectivos dessas mobilizações é, precisamente, aparecer na televisão”, acrescenta o investigador.

Exemplo disso foi a manifestação de 12 de Março de 2011, que ficou conhecida como manifestação da “gração à rasca. Tiago Lapa diz que as redes sociais foram peças centrais nessa manifestação, mas que se “não tivesse sido televisionada, não teria o impacto que teve na percepção das pessoas”.

Já António Guerreiro, ensaísta, crítico literário e cronista, tem uma visão mais céptica sobre a possibilidade de as redes sociais se constituírem como a voz de um movimento político. Conta ao PÚBLICO que, até hoje, “não há uma comunidade política ou um sujeito social constituídos através das redes sociais”. O que não quer dizer, explica, que as redes sociais não produzam efeitos, mas são “de outra ordem”. “As redes sociais são um bom exemplo de um mecanismo hipertélico, algo que vai para além dos seus próprios fins e se anula por isso”, considera.

“Quem não está na rede é como se não existisse”

Se não foi fotografado, comentado ou gravado no Facebook, no YouTube, no Twitter ou no Instagram é porque não aconteceu: é esta a lógica que parece reger a comunicação nas redes sociais. E, segundo Cristina Ponte, é importante pensar nos tipos de vigilância que instaura. Por um lado, a vigilância positiva, o facto de “podermos tirar uma fotografia a algo que achemos injusto”, como descreve a investigadora, e partilhá-lo numa questão de segundos. Por outro, instaura “um tipo de vigilância e controlo, tidos quase como naturais, e que colocam muitas questões de privacidade e reserva”. E, de facto, o que está na Internet não sai da Internet – para o bem e para o mal. O direito ao esquecimento impõe-se como um novo debate político, cujas bases só agora foram lançadas. “É uma batalha política pura que poderá ganhar algum relevo nos próximos anos”, avalia Tiago Lapa.

Parecemos cada vez mais alheados do mundo – mas saltamos de aplicação em aplicação e sabemos exactamente o que cada um dos nossos amigos está a fazer. Como Pacheco Pereira coloca a questão: “quem envia um ping espera um pong”, escreveu o colunista da sua primeira crónica deste ano no PÚBLICO, em que voltou ao tema. “É uma pressão para estarmos constantemente ligados e a responder num tempo vertiginoso”, confirma Cristina Ponte. “[Os novos meios] são quase totalitários. Quem não está na rede é como se não existisse”, afirma a investigadora da FCSH.

Em Portugal são cada vez menos os casos de pessoas que optam por não pertencer ao universo das redes sociais. O número de utilizadores continua a aumentar e isso tem a ver com a “nossa cultura latina”, de querer saber sempre o que os outros estão a fazer. “A cuscar”, como resume a professora.

“A sociedade da transparência, ditada pelos media sociais, retira a distância mas ao fazer isso retira a possibilidade da descoberta e da curiosidade”, explica Tiago Lapa. Dá a falsa impressão de que é possível conhecer e saber tudo sobre uma pessoa, apenas através daquilo que ela escolhe publicar na Internet. “Essa transparência é enganadora e extremamente redutora”, adverte o investigador do CIES, até porque a personagem online é construída e “aquela pessoa tem outra vida, outras máscaras e outros sentimentos, é apenas uma versão de si mesma”.

Contudo, não se trata, necessariamente, de “sociedades sem relações humanas de vizinhança, de companhia e amizade, sem interacções de grupo, sem movimentos colectivos de interesse comum” como avalia Pacheco Pereira. Cristina Ponte afirma, que, pelo menos no caso dos adolescentes, estas dinâmicas sociais não são novas. “É o que faz com que o jovem se sinta integrado”, especialmente no caso das raparigas. Antigamente “eram as cartas, depois as cassetes, os telefones, todo um conjunto de recursos tecnológicos que eram dados aos adolescentes” e que, na essência, não são diferentes dos media sociais.

Alienação e a (aparente) ascensão dos populismos 

Quando se tira o holofote dos jovens e adolescentes e se passa para os adultos, o cenário não sofre grandes alterações. Pacheco Pereira escreve que “não é por acaso que o grande reservatório do populismo político e social nas sociedades ocidentais são as redes sociais, que, não sendo a causa do populismo, são um seu grande factor de crescimento e consolidação”. Será que há necessariamente uma relação entre as duas coisas?

A opinião de Tiago Lapa não é totalmente contrária. Explica que o problema não é exclusivo das redes, mas de um conjunto de condições políticas especiais que “tornam esses discursos atractivos”. As pessoas transmitem as suas opiniões sobre um determinado assunto “utilizando uma ferramenta que têm à mão, que são as redes”. Mas ressalva que tem mais a ver “com os mensageiros do que com os meios” – portanto isto podia acontecer na Internet, na rua ou nas páginas de um jornal. De acordo com o professor do ISCTE, as redes sociais suprimem algumas necessidades de sociabilidade mas “ainda são um meio que temos de aprender a utilizar”. O que falta, muitas vezes, é uma abordagem crítica sobre o que se lê – uma certa desconfiança em relação à fidedignidade e credibilidade das pesquisas online. E para generalizar esse espírito crítico há que aumentar a literacia da população: fazer com que saibam descodificar mensagens e perceber o objectivo do emissor quando escreve e publica nas redes sociais.

Não se trata de uma época com falta de informação. Trata-se, antes, de um contexto em que há “várias informações contraditórias disponíveis” – há demasiada informação e não se sabe em quem acreditar. Em paralelo, houve a deterioração de “um conjunto de autoridades, sendo o jornalista uma delas”. Também neste ponto, Tiago Lapa e Pacheco Pereira estão de acordo.

Discordam apenas na definição de “nova ignorância”. Pacheco Pereira define “este novo tipo de ignorância” como um “ataque ao saber, ao conhecimento certificado, em nome de um igualitarismo da ignorância”. Tiago Lapa tem algumas reservas. A existência de várias fontes de informação não é necessariamente negativa: “Permitem canais alternativos para obter informação fora dos canais mainstream”, diz Tiago Lapa, o que é positivo porque cada pessoa pode fazer a sua dieta informativa própria.

O investigador, por outro lado, não concorda que os ecrãs e as redes sociais por si sejam um meio de alienação, como sugere Pacheco Pereira. A discussão, aliás, já é antiga. “É uma associação muito antiga e que já vem com o cinema, com a televisão, com os grandes meios de comunicação e que agora é associado à Internet”, explica Tiago Lapa. Essa teoria baseia-se num conjunto de pressupostos, como a falta de pensamento crítico e passividade dos consumidores de conteúdos. “Sim, qualquer meio tem potencial de alienação”, admite o professor, “mas há que perceber para que grupo e em que condições”.

António Guerreiro, por sua vez, coloca a questão da alienação noutra perspectiva: “o mundo que nos rodeia não é o das tecnologias, da realidade virtual, das imagens sem referente? Se estamos atentos a esse mundo, estamos atentos ao real porque não existe outro”. Não se trata necessariamente de alienação. Na perspectiva do ensaísta aceitar que existe alienação “seria aceitar uma velha concepção de que estamos mergulhados na ‘ideologia’”, que precisa de ser afastada, “como um véu”, para aceder à verdade.

Para além dos ecrãs, o que existe?

Nem a Organização Mundial de Saúde nem o manual da Associação Americana de Psicologia definem a dependência da Internet como uma doença mental. No entanto, há programas de tratamento para a dependência da Internet, que a equiparam a adições a substâncias como a droga ou o álcool. Daniel Sampaio, psiquiatra responsável pelo Núcleo de Utilização Problemática da Internet do Hospital de Santa Maria, explica ao PÚBLICO que “as pessoas que têm dependências da Internet, do ponto de vista do cérebro, não são muito diferentes das que são dependentes das drogas ou do álcool”: “Tem a ver com a diminuição da ansiedade”, explica.

O que distingue a utilização normal da utilização abusiva da Internet é o prejuízo da vida pessoal e social. Faltar à escola, ao trabalho, às refeições e aos convívios com amigos seriam sinais de uma utilização abusiva. O simples facto de estar sempre ligado não faz com que alguém seja viciado na Internet – acontece apenas a partir do momento em que se deixar de lado as actividades do quotidiano. Na categoria dos casos pouco problemáticos estão as “pessoas sozinhas”, mas com “óptimas relações em presença”, que desenvolvem com recurso a vários dispositivos, descreve Daniel Sampaio.

“O grande problema das pessoas dependentes da Internet é que muitas vezes têm patologias associadas, sintomas de outras doenças mentais, particularmente sintomas depressivos ou ansiosos”, afirma o psiquiatra. O tratamento é psicológico e psiquiátrico e consiste em tratar as perturbações associadas, fazendo, ao mesmo tempo, uma desabituação à Internet – mas nunca cortando abruptamente o seu uso.

Os casos de pessoas que apresentam sintomas de dependência relançam o debate sobre o progresso. Este debate é antigo, e no entender de Tiago Lapa, está resolvido. O progresso técnico nem sempre anda de mãos dadas com o progresso social e isso é óbvio em muitas esferas da vida quotidiana. “Não é por termos melhores aparelhos que vivemos melhor”, resume.

A questão do trabalho é sintomática de uma utilização da Internet que nem sempre se traduz numa melhoria das condições de vida, que é, por sua vez, um debate político. Algumas profissões tornaram-se obsoletas e a intensificação do trabalho é uma realidade. O direito a desligar, que deu origem a uma nova lei em França e que tem passado, também, para as agendas políticas de outros países europeus, é exemplo disso. Para Cristina Ponte, a questão é simples: trata-se de bom senso da parte de quem manda um e-mail ou tenta telefonar fora do expediente. “Esta discussão é importante para nos fazer pensar que temos que ter respeito pelo outro e pelo seu tempo de descanso”, considera. Resume a questão de maneira peremptória: “Podem mandar e-mail, mas não fiquem à espera que responda”.

No entanto, evidencia que “na maior parte do tempo, as pessoas estão ligadas, não por causa do trabalho, mas porque há um certo horror ao ‘não fazer nada’”. E isso reflecte-se na maneira como os pais educam os filhos: “Há pais que acham que o tempo dos ecrãs deve ser útil, por isso, os filhos devem estar a fazer alguma coisa educativa”, resume a investigadora. E isso nem sempre é o melhor do ponto de vista pedagógico.

Esta nova sociabilidade “faz parte de sociedades em que deixou de haver silêncio, tempo para pensar, curiosidade de olhar para fora, gosto por actividades lentas como ler, ou ver com olhos de ver”, escreve Pacheco Pereira. As questões avolumam-se – a Internet mudou assim tanto o nosso quotidiano? Constitui um tipo de progresso? É uma nova forma de expressão política? A comunidade cientifica ainda não chegou a um consenso mas estas questões – que começam a ser agora discutidas no âmbito político – tornam-se cada vez mais relevantes.

Texto editado por Sérgio B. Gomes e Hugo Daniel Sousa

 

 

 

 

 

 

Diabetes associada a muito tempo de frente a ecrãs

Abril 8, 2017 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da http://www.paisefilhos.pt/ de 21 de março de 2017.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Screen time is associated with adiposity and insulin resistance in children

Numa altura em que se regista um aumento cada vez maior na utilização por crianças de dispositivos electrónicos, como smartphones e tablets, um estudo publicado na revista Archives of Disease in Childhood defende que as crianças que passam muito tempo em frente à televisão, consolas de jogos e computador apresentam mais fatores de risco de diabetes de tipo 2.

Liderado por Claire Nightingale da Universidade St. George de Londres, o estudo demostrou que as crianças que passam mais de três horas diárias em frente a um ecrã têm mais possibilidade de ter gordura corporal e mais resistência à insulina, o que significa que o organismo passa a ter menos controlo sobre os níveis de açúcar no sangue.

O estudo analisou dados de cerca de 4500 crianças, entre os 9 e 10 anos, às quais os investigadores mediram gordura corporal, tensão arterial, colesterol, resistência à insulina e níveis de açúcar no sangue em jejum. Os participantes foram também questionados sobre os seus hábitos diários de utilização de computadores, tablets, e televisão e foi apurado que a gordura total das crianças aumentava, quanto maior o tempo passado em frente a um dispositivo electrónico. O nível de leptina, a hormona que está envolvida no controlo do apetite e na resistência à insulina, foi também associado ao tempo passado em frente a um ecrã.

Apesar de os achados não provarem uma relação de causa-efeito entre as duas variáveis, podem ter implicações importantes na saúde pública, considerando o tempo cada vez maior de uso de dispositivos electrónicos por crianças.

 

 

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