Estudo mostra que sofrimento mental materno está associado a stress dos filhos

Agosto 8, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 26 de julho de 2018.

LUSA

Um estudo desenvolvido por investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) mostra que o sofrimento mental materno se associa a biomarcadores de stress nos filhos, deixando-os em maior risco de desenvolver síndrome metabólico e obesidade.

“Desde o nascimento que o bebé começa a estabelecer uma relação de vinculação com o adulto que lhe assegura o seu conforto e sobrevivência, o seu neurodesenvolvimento, regulação emocional e resposta ao stress”, escreve a instituição de ensino superior em comunicado.

Segundo a FMUP, quando a qualidade das relações de vinculação está comprometida, podem ser espoletados mecanismos na criança que levam a variações nos níveis de cortisol, a hormona do stress responsável pelo controle dos níveis de açúcar no sangue, e a alterações comportamentais, ao nível do sono e do apetite.

Este estudo envolveu os pais e cerca de 100 crianças que frequentavam a consulta de obesidade no Hospital Dona Estefânia, em Lisboa, e mostra uma correlação significativa entre o estado mental materno e os níveis alterados de cortisol nos filhos, associação encontrada mais frequentemente nas raparigas.

Foram igualmente analisadas as diferenças entre os vários tipos de vinculação entre progenitores e os filhos, destacando-se as estratégias de vinculação insegura que se desenvolvem quando “a qualidade da relação, que implica a sensibilidade e capacidade de resposta contingente do cuidador principal, está comprometida”, explica a investigadora Inês Pinto.

A responsável pelo trabalho concluiu que as filhas que apresentavam estratégias de relação insegura do tipo “evitante”, na qual uma situação de depressão da mãe pode fazer com que esta não seja tão responsiva a alguns sinais de sofrimento da criança, acabam por não ser capazes de se regularem emocionalmente, “podendo recorrer aos alimentos para se confortar”.

“Esta criança interpreta que o choro é algo negativo e suprime-o, seja para manter a mãe por perto ou porque sente que não surte efeito”, lê-se na nota da FMUP.

Estas são crianças que “raramente pedem ajuda e que tentam resolver tudo sozinhas”, sendo também “as que menos aparecem nas consultas”, porque “aprendem que tudo o que é emocional não pode ser verbalizado”.

De acordo com a também médica pedopsiquiatra no hospital Beatriz Ângelo, em Loures, este processo pode culminar num cenário de compensação através em desregulações hormonais.

Já nas estratégias de vinculação insegura do tipo ansioso, as crianças percebem “que nem sempre as mães estão presentes, mas que podem forçar a resposta materna, se exagerarem os seus estados”. “São essas que mais aparecem na consulta, que pedem ajuda, mas nas quais não foram encontradas associações com as hormonas do stress”, referiu.

Para a investigadora, a intervenção dos profissionais de saúde deve ser adaptada consoante o tipo de vinculação. Enquanto na relação de vinculação insegura do tipo evitante é necessário ajudar as crianças a verbalizar os sentimentos, no grupo ansioso é preciso auxiliá-las a distinguir “uma dor real daquela que não é”.

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Os resultados desta investigação, desenvolvida no programa doutoral em Metabolismo: Clínica e Experimentação da FMUP e orientada pelo professor catedrático Rui Coelho sublinham a importância da qualidade da relação de vinculação entre a mãe e o filho, do funcionamento familiar e do estado mental de pais e filhos quando se estuda a obesidade infantil.

“Deste modo, ao protegerem os seus filhos do stress excessivo e que perturba o funcionamento e o desenvolvimento dos sistemas neurofisiológicos, contribuem para a redução do risco da obesidade infantil”, acrescentou a investigadora.

Notícia da FMUP:

Depressão materna pode influenciar obesidade infantil

 

 

José Caldas de Almeida: “Um dos fatores mais devastadores na saúde mental é o abuso sexual”

Junho 5, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do Observador a José Caldas de Almeida no dia 19 de maio de 2018.

Vera Novais

A violência sexual e a pobreza são os fatores que melhor permitem prever o aparecimento de doenças mentais. Perda e abandono na infância também têm um impacto importante na saúde mental das crianças.

Todos nós, em algum momento da vida, teremos de enfrentar uma situação que nos fará sentir “em baixo”, que nos deixará ansiosos ou que nos deixará sem dormir. A maior parte das vezes conseguiremos ultrapassar estas situações sem precisar de recorrer aos serviços de saúde, mas se tivermos de o fazer não precisamos de ter vergonha disso.

As doenças mentais podem ser incapacitantes, mas também podem ser tratadas e as pessoas podem voltar a ter uma vida normal, diz José Caldas de Almeida. O psiquiatra defende que as pessoas devem procurar os serviços de saúde assim que se apercebam que algo não está bem e devem iniciar os tratamentos o quanto antes. A recuperação será melhor e mais rápida.

E desengane-se se pensa que as doenças mentais só se tratam em asilos. Atualmente, a maior parte da recuperação é feita em casa e só se recorre a internamento em casos específicos e por pouco tempo, esclarece o professor de Psiquiatria e Saúde Mental da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa. A presença de familiares e amigos e a sensação de pertença à comunidade, não só podem ajudar na recuperação, como desempenham um papel importante na prevenção das doenças mentais.

“Dependendo do tipo de sociedade e de cultura em que se vive, vários são os interlocutores que podem auxiliar as pessoas nestas situações – família, amigos, vizinhos, membros da comunidade em quem se confia, grupos de autoajuda, etc”, escreve no livro ‘A saúde mental dos portugueses’, publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. “Estudos realizados pela OMS [Organização Mundial de Saúde] mostraram que, por exemplo, entidades como os líderes religiosos e as cabeleireiras podem ter em alguns países um papel relevante no suporte psicológico a pessoas com depressão e na referenciação dos casos mais graves para os serviços de saúde.”

Como principais grupos de risco para as doenças mentais, Caldas de Almeida aponta os pobres e as mulheres, ambos sujeitos a maiores fatores de stress que podem condicionar o aparecimento de depressão ou estados de ansiedade. As mulheres são ainda o grupo mais sujeito a um dos mais importantes fatores de trauma que levam ao aparecimento de doenças mentais, segundo o psiquiatra: a violência sexual.

Ao Observador, José Caldas de Almeida contou como está a saúde mental dos portugueses e o que podemos fazer para diminuir a taxa de doença mental no país: mais prevenção e melhor qualidade nos serviços.

Devíamos preocupar-nos mais com a saúde mental em Portugal?
Sim, devíamos preocupar-nos e dedicar mais atenção aos problemas da saúde mental. Quando digo devíamos, não estou a pensar só nos decisores políticos, mas estou a pensar nos responsáveis a outros níveis, porque as coisas não se resolvem só com leis e com políticas, ou até com investimentos. Sobretudo em áreas como esta, em que há um desconhecimento muito grande disseminado na população portuguesa, na opinião pública, nos media.

Há muitas pessoas que ainda encaram uma ida ao psicólogo como um capricho ou uma ida ao psiquiatra como um atestado de loucura. Isto condiciona o acesso aos cuidados de saúde mental?
Isso é uma das questões complicadas: a associação que existe entre a doença mental e a ideia de que não são verdadeiras doenças ou de que não há nada a fazer para as tratar, no fundo, que não são um problema sério de saúde pública. E essa é uma questão importante, que leva a que uma proporção significativa de pessoas que têm problemas de saúde mental, e que deviam ser tratadas, acabam por não procurar cuidados, ou porque têm vergonha ou porque não têm ideia de que aquilo é um problema de saúde que pode ser tratado.

Mas o problema é mais vasto. Estudos em muitos países, entre os quais Portugal, trouxeram uma visão bastante diferente daquela que era a visão tradicional. Por um lado, há a prevalência das doenças mentais que é muito superior àquilo que se julgava e a associação entre essas doenças e as doenças chamadas físicas — uma associação que tem grandes implicações a vários níveis. Por outro lado, o conhecimento muito maior que existe quanto aos impactos, às consequências negativas da doença mental, e não só em termos de mortalidade. Não é das doenças que está associada a uma mortalidade mais elevada, mas tem impactos sobretudo em termos das incapacidades a que está associada. O que hoje se sabe é as doenças mentais são uma parte importante, em Portugal à volta de vinte, vinte e tal por cento, de toda a carga DALY [Disability Adjusted Life Years], que mede o tempo de vida boa que se perde, ou porque se morre prematuramente ou porque se fica seriamente incapacitado.

Quando se fala em incapacidade, associa-se muitas vezes à incapacidade física.
Pois, mas há incapacidades que são tão ou mais negativas do que as físicas: a incapacidade para trabalhar ou para se ser produtivo tem implicações muito grandes para a pessoa, para a família e para a sociedade; a incapacidade para se relacionar com os outros, para ter relações satisfatórias com os outros, tem implicações enormes, algumas que não são mensuráveis.

As pessoas estão despertas para este problema? É fácil perceber que uma pessoa que tenha uma lesão física possa não estar capaz de desempenhar determinadas tarefas, mas será que as pessoas estão preparadas para identificar as incapacidades causadas por problemas na saúde mental?
Cada vez há mais sensibilidade para isso. Os responsáveis das grandes empresas, que empregam muita gente, sabem perfeitamente que têm um número enorme de faltas ao trabalho — chamado absentismo — e sabem que têm presentaísmo (as pessoas que vão ao trabalho, mas produzem menos do que habitualmente). Hoje em dia, muitas grandes empresas levam isto muito a sério. Tão a sério que são cada vez mais aquelas que desenvolvem programas para identificarem estes casos e para ajudarem as pessoas. Há poucos dias, o Guardian publicou um artigo de [António] Horta Osório que falava dos programas que o banco que dirige tem — quem diz esse banco, diz muitas outras empresas. Isto para lhe dizer que há cada vez mais pessoas e entidades que se dão conta da importância disto.

Às vezes, para a própria pessoa que tem um problema de saúde mental, é difícil identificá-lo e assumir que pode ter um problema. As empresas, os colegas de trabalho, a família, os amigos destas pessoas têm um papel importante para encaminhar as pessoas para o médico?
Claro que facilita muito se a pessoa que sofre desse problema tiver familiares ou amigos ou colegas ou responsáveis no trabalho que lhe possam dizer, de uma forma apoiante — não de uma forma a que se sintam excluídas. Mas infelizmente isto [falar de forma negativa] é o que acontece muitas vezes, daí que muitas pessoas tenham medo de dizer no emprego que têm esse problema. Diria que, embora continuemos a ter um estigma muito grande associado à doença mental, embora continue a haver uma ignorância muito grande em relação ao que são as doenças mentais, quais são as suas implicações, o que se pode fazer para as prevenir e o que se pode fazer para as tratar, tem havido progressos muito grandes nestes últimos anos.

A pergunta é mesmo essa: o que são as doenças mentais? E se são a mesma coisa que problemas neurológicos?
Não, uma coisa são doenças neurológicas [acidentes vasculares cerebrais, doença de Parkinson, epilepsia], outras coisas são as doenças mentais [ou psiquiátricas]. Às vezes podem coexistir ou pode haver doenças que têm uma componente neurológica e uma componente psiquiátrica, como as demências. As doenças psiquiátricas manifestam-se por sintomas associados às funções psíquicas básicas, alterações do pensamento, alterações do afeto ou alterações do comportamento, assim como uma série de sintomas que podem ser mais físicos, como as alterações do sono, alterações do apetite, alterações da sexualidade, alterações da capacidade para desenvolver atividades.

Estas doenças estão, muitas vezes, associadas a outra doenças, é frequente a comorbilidade entre doenças psiquiátricas e não psiquiátricas. Durante muito tempo, o estigma das doenças mentais baseava-se em ideias distorcidas, ideias erradas, quanto à natureza destas doenças: sobretudo as mais graves, as que envolviam alterações do pensamento, ideias delirantes, alucinações, as chamadas psicoses. As psicoses, pela estranheza das suas manifestações, causam alguma apreensão, as pessoas tendem a ter mais receio do que de outras manifestações patológicas. Isso levou a este medo da loucura, a não querer pensar nisso, a querer se afastar.

Quanto custam as doenças mentais?

Também por isso é que as pessoas eram internadas e afastadas da sociedade.
Havia a tendência para tentar tirar essas pessoas de circulação. Na Europa, e noutras partes do mundo, foram criados asilos para onde iam estas pessoas, como iam pessoas indesejáveis. E muitas tentativas que foram feitas, a partir de certa altura, para substituir essas instituições isoladas, com funções sobretudo asilares foi muito difícil e ainda hoje é difícil.

Em Portugal, houve uma lei de saúde mental muito avançada em 1963. Criaram-se centros de saúde mental em todos os distritos, o que permitiu descentralizar e dar muito mais acesso aos serviços de saúde mental.

Numa altura em que a saúde mental não tinha muita importância.
Nenhuma. Foi na altura que entrei para a faculdade. Havia meia dúzia de tipos maduros que queria ir para psiquiatria. Mas o que aconteceu é que passado pouco tempo de terem sido criados, o Governo incorporou nestes centros de saúde mental — criados para serem coisas não-asilares e para serem uma alternativa — os albergues de mendicidade. Os albergues de mendicidade eram os caixotes do lixo sociais que existiam, onde se metiam os tipos que se queriam tirar de circulação, que não tinham capacidade para ter uma vida. Foi uma coisa terrível. Uma das razões do estigma, e para não se dedicar grande atenção às doenças mentais, é que durante muito tempo houve a ideia que não havia nada a fazer, de que eram pessoas que tinham uma doença para a qual não havia tratamento, e que portanto estavam condenadas. Quando comecei a trabalhar em psiquiatria, nos hospitais psiquiátricos, encontrei muitos doentes que estavam lá há 30, 40, 50 anos, uma vida inteira. E alguns não precisavam. Foram pessoas das quais se desistiu e ficaram ali.

Uma vez internados, essas pessoas conseguiam sair ou ficavam catalogados de loucos?
Não é que todas as pessoas que eram internadas não saíssem, mas para algumas pessoas que tinham situações mais graves ou que perdiam contacto com a família, era mais difícil dar-lhes alternativa, e ficavam. Hoje em dia nada tem de ser assim. Agora, a maior parte das situações, mesmo as mais graves, e mesmo as que em algum momento precisem de um internamento curto, podem ser tratadas em casa e as pessoas manterem a sua vida. Mesmo nos casos muito graves, em que há perda de capacidades, as pessoas podem ser reabilitadas e reinseridas na sua profissão. Em casos em que não têm residência, porque tiveram muito tempo no hospital, há vários dispositivos residenciais.

Queria perguntar-lhe exatamente isso: as pessoas que não têm apoio familiar, podem voltar a casa e retomar a sua vida?
Sim, desde que existam os serviços. O que acontece é que temos dois grandes grupos de patologia psiquiátrica (estou a simplificar). Um deles, são as chamadas doenças mentais comuns, sobretudo os casos de depressão e ansiedade. São muito frequentes, mas a maior parte das vezes não são muito graves, logo podem ser tratadas em consulta. Mas é um problema, e um problema grave, porque são muitos casos e porque têm impacto enormes: em termos de incapacidade, porque interferem imenso na vida das pessoas, porque lhes causam muito sofrimento, porque complicam imenso a vida das famílias e porque têm implicações sociais várias. Esse é um tipo, bastante diferente do outro grupo: as doenças mentais graves, que são doenças que interferem de uma forma muito significativa com o funcionamento das pessoas e engloba sobretudo as psicoses — esquizofrenia e doença bipolar. São doenças que exigem cuidados diferentes. Durante muito tempo as pessoas que tinham essas doenças eram internadas nos hospitais psiquiátricos, completamente separadas dos outros doentes, o que lhes dava logo uma etiqueta terrível. A pessoa que estivesse internada no hospital psiquiátrico entrava logo no clube dos loucos e isso causava muitos problemas na sua vida a todos os níveis. Algumas acabavam por ficar muito tempo internadas porque não havia meios de reabilitação.

O que aconteceu foi que, graças aos progressos científicos, novos medicamentos, novas intervenções psicológicas e psicossociais, novos modelos de organização dos serviços, hoje podemos ter serviços para tratar essas pessoas que conseguem uma taxa de sucesso bastante grande, mesmo em casos em que não consigam curar a doença — o que aliás acontece em imensas doenças não-psiquiátricas, mas tendemos a esquecer-nos disso. Hoje em dia o mundo está cheio de pessoas com doenças crónicas, às vezes com várias doenças crónicas. E isto é cada vez mais frequente, porque cada vez as pessoas vivem mais tempo e cada vez vamos tendo mais sucesso terapêutico. Mas tal como as restantes doenças crónicas, as doenças mentais graves são doenças para as quais se consegue controlar os sintomas, consegue ter remissões durante muito tempo, consegue evitar novos surtos e consegue que as pessoas tenham uma qualidade de vida aceitável (vida familiar, emprego). Para isso tem de ter serviços organizados, com princípios que ainda não estão generalizados em todo o lado e com recursos e capacidades que também não existem em todo o lado.

As coisas mudaram, mas as pessoas ainda associam que se forem ao psiquiatra vão tomar comprimidos e ficar prostradas e não gostam desta condição.
O que acabou é que, para estas doenças, não é nem o psiquiatra, nem o psicólogo sozinho que tratam estas coisas. As pessoas têm de ser tratadas por uma equipa. Têm um programa, têm alguém que se encarrega de orientar a pessoa e que se encarrega de evitar uma coisa que é específica deste caso: muitas vezes as pessoas não têm consciência patológica, não se apercebem que têm de ir à consulta, acham que aquilo não é suficientemente grave. Outro problema que não é só da psiquiatria é que passámos de um mundo em que tratávamos episódios agudos para um mundo em que tratamos pessoas com doenças crónicas. Isto implica serviços completamente diferentes, em que tem de ter um programa, tem de seguir o caso — a continuidade é muito importante, a pessoa não pode andar a saltar de médico para médico —, e, neste caso, se o doente não vai à consulta, a equipa deve telefonar, se for preciso ir a casa e convencê-lo. Em vez de ser uma atitude reativa é uma atitude proativa, é uma atitude de continuidade e é uma atitude em que a preocupação não é só diminuir sintomas, é ajudar a pessoa a reabilitar-se a integra-se socialmente. A exclusão social aqui é uma coisa terrível e se se entra no ciclo da exclusão social, estas pessoas têm riscos enormes.

Quais são os grupos mais vulneráveis?
Esse é outro progresso muito grande. Sabemos muito mais sobre quais são os fatores de risco para ter doenças mentais, o que nos permite prevenir, e sabemos também muito mais quais os impactos da doença mental a vários níveis [ver caixa]. Sabemos que o risco de ter doenças mentais, no caso das mais comuns (depressão e ansiedade), é muito maior nas mulheres do que nos homens. Nos homens é mais comum o alcoolismo e o consumo de outras drogas. Mas quem tem maior risco, em geral, são as mulheres. Outra coisa que se sabe é que os fatores sociais têm uma importância enorme, a pobreza está altamente associada ao risco. Havia uma ideia, há 20 ou 30 anos, que as doenças mentais eram um capricho de gente rica e ansiosa, que se podia dar ou luxo. É fantasia. Os pobres têm muito mais problemas mentais do que os ricos. A razão principal é muito simples: as pessoas mais pobres têm muito mais situações de stress do que têm as que são mais ricas. Têm mais privações financeiras, que levam a conflitos entre as pessoas, que levam à utilização de drogas. E cria-se aqui um ciclo vicioso, porque a doença mental leva a uma maior pobreza. São ciclos que são muito difíceis de quebrar depois.

E nas mulheres porque é que acontece mais do que nos homens?
Por várias razões. Por um lado, porque há variabilidades endócrinas [produção de hormonas]: por exemplo, sabemos que a seguir ao parto pode haver um quadro patológico de depressão pós-parto. Mas têm a ver com outras coisas, é que as mulheres, na maior parte das sociedades de hoje em dia, tem uma carga adicional de stress. Há uma fase da vida das mulheres que têm uma sobrecarga grande, que têm problemas muito grandes no dia a dia: levantar cedo todos os dias, tomar conta da comida e dos filhos, andar a correr de um lado para o outro, isto pode ser um stress muito grande. Esta sobrecarga leva a mulher a estarem em desvantagem em termos de apoios sociais.

Também sabemos que um dos fatores que tem um efeito devastador na saúde mental das pessoas é o abuso sexual. A violência sexual na infância é uma coisa terrível, paga-se caríssimo mais tarde. E também sabemos que a violência sexual continua a ser muito elevada. Uma das coisas que estudámos foram os fatores associados ao stress pós-traumático e havia esta ideia que a guerra é que era o grande fator. Fizemos um estudo, que vai ser publicado em breve, sobre quais os fatores a que as pessoas são expostas e que são sentidos como um trauma e que depois vão criar stress pós-traumático. Portugal, além de ter um fator que existe em todo o lado, que é a perda (de um marido, de um filho, etc), durante muito tempo teve um fator muito importante que eram os acidentes de viação, porque tínhamos uma taxa elevadíssima de acidentes. Claro que também tivemos, em valor absoluto, a guerra, embora a guerra tenha sido há muitos anos. Agora, o que nós descobrimos neste estudo é que a situação que tem valor preditivo mais forte é a violência sexual, embora a violência sexual possa ser exercida sobre homens e mulheres é mais sobre as mulheres.

Para as doenças graves, e talvez para as mais comuns, existe um fator genético associado?
As doenças mentais estão associadas, como a maior parte das outras doenças, a vários fatores. As doenças mentais talvez se distingam por estarem associadas a muitos mais fatores. É raro ter uma doença em que diga é só este fator. Vamos pensar no caso da depressão. Há casos de depressão em que a influência genética é muito forte, há vários casos na família. Há outros casos que o que conta fundamentalmente são os acontecimentos da vida das pessoas, condições sociais, etc. Diria que na maior parte, tem os ingredientes, que podem variar na proporção, mas pode ter uma certa vulnerabilidade genética, mas depois tem de haver outros fatores.

Estava a pensar sobretudo na esquizofrenia e na doença bipolar.
Nesses há. Nestes casos a componente genética é mais forte, embora sejam os outros fatores, como os eventos, que as podem desencadear.

Como é que se previnem as doenças mentais?
Há uns anos não se sabia quase nada sobre isso, podia prevenir-se duas ou três coisas. Hoje já conseguimos prevenir muita coisa. Na prevenção temos a prevenção primária, quando se consegue que não apareçam novos casos, e a prevenção secundária, que é atuarmos de tal maneira que os casos que aparecem são rapidamente tratados e que não se deixam prolongar no tempo nem agravar. Para algumas doenças, como a esquizofrenia, não sabemos muito sobre como prevenir, mas temos intervenções altamente eficazes, comprovadas cientificamente, de prevenção do suicídio, prevenção do consumo do álcool.

Mas não se pode prevenir que um familiar morra, não se podem prevenir muitas das situações traumáticas.
Os fatores genéticos ou de base biológica são difíceis de prevenir, mas pode ter intervenções preventivas que, por um lado diminuam a vulnerabilidade das pessoas ou que reforcem os fatores protetores. Um dos programas mais eficazes que foram desenvolvidos são os programas parentais, programas de apoio às mães no princípio da vida dos miúdos, porque o princípio da vida e a relação entre o bebé e mãe vai ter um papel importantíssimo na saúde mental e física da criança. O que se passar nessa fase inicial vai marcar a pessoa para a vida inteira [exemplos de eventos negativos: perda, abandono, depressão da mãe]. Dar apoio a essa relação é muito fácil de fazer. Em países com serviço nacional de saúde pública, como nós temos, é facílimo. Por exemplo, todas as grávidas, depois de terem a criança, terem uma enfermeira que faz três entrevistas nos primeiros tempos, faz educação e despista se há alguma coisa. São muito baratos e nada transcendentes, quase de senso comum. Isto tem um impacto na prevenção de problemas mais tarde, mas é um investimento a longo prazo. Há muitas intervenções na escola que também são altamente eficazes, como na prevenção do bullying, que é uma coisa que também tem efeitos devastadores, e tem outros que vão pela positiva, que são programas de desenvolvimento da resiliência.

Coisas negativas vão sempre acontecer e vão ter maior impacto numas pessoas do que noutras. Como é que nos preparamos para sermos mais fortes?
Fizemos um estudo sobre o impacto da crise económica [privação financeira, desemprego] na saúde mental. Utilizando o que tínhamos feito no início da crise fizemos outro a seguir. Ainda estamos agora a analisar os dados, mas já deu para perceber algumas coisas: houve muita gente que foi atingida a nível da saúde mental, houve um agravamento muito significativo do número de pessoas com problemas de saúde mental — ansiedade e depressão —, mais nos homens do que nas mulheres por causa da questão laboral. Outros fatores, como os fatores contextuais são mais difíceis de avaliar também são importantes: se têm serviços acessíveis ou não, de qualidade ou não. A estes somam-se os fatores financeiros, se a pessoa tinha dinheiro para comprar os medicamentos e para ir às consultas. Mas também vimos que houve fatores protetores, pelo menos dois que nós apanhámos — haverá outros. Primeiro, o chamado suporte social, que mede o número e a qualidade dos apoios sociais que as pessoas têm quando estão com problemas: família e amigos. Isto tem uma importância enorme para fortalecer as pessoas a resistir. Todas as pessoas estavam vulneráveis à perda do emprego, mas que tinham o apoio social estavam mais defendidas. O outro fator protetor é o envolvimento comunitário. As pessoas que vivem em comunidades em que participam, que estão integradas na comunidade, que têm um sentimento de pertença a um bairro, a uma comunidade, tem qualquer coisa que é muito importante. O suporte social e o envolvimento comunitário protegem de formas diferentes no caso da ansiedade e no caso da depressão. O que é curioso. Estamos agora a trabalhar esses aspetos para percebermos melhor essas nuances.

No livro referia que o sítio a que as pessoas com problemas de saúde mental mais recorrem são os centros de saúde. Os centros de saúde estão preparados?
Não, não estão. Temos uma acessibilidade muito boa. Em termos europeus, os portugueses se precisam de ir a uma consulta porque têm um problema de saúde mental estão melhor que a maior parte. Estamos sempre a dizer mal, mas é mentira. Em termos de acessibilidade somos bons. A rede dos cuidados primários foi uma coisa fantástica nesse aspeto. Agora, a qualidade dos cuidados já é outra conversa. Fomos medir os cuidados minimamente adequados. Em Portugal, 7% das pessoas tiveram uma depressão [diagnosticada pela equipa de investigação durante os inquéritos] no ano anterior. Destas, só 65% é que se deram conta de que se deviam tratar — há 35% que desaparecem logo, que não são tratadas porque não perceberam ou tiveram vergonha de se tratar. [Das que se procuram cuidados,] 88% conseguiram aceder aos cuidados de saúde primários ou secundários. Quando fomos ver os cuidados minimamente adequados, apenas 15% tinha tido. No final, da população inicial com depressão, só 9,1% teve acesso a cuidados de boa qualidade. Não é que fossem mal tratados, mas uma pessoa para ser bem tratada deve ser vista no mínimo quatro vezes por ano. É aqui que falha. Aqui e na articulação entre os cuidados primários e os serviços especializados. Perdem-se muitos doentes que deviam ir para a psiquiatria e não vão, ou vão mal mediados. Mas esse não é um problema só nosso, é um problema mundial. Esta articulação entre os serviços primários e os serviços especializados é um desafio enorme. E é uma coisa especialmente difícil de aceitar porque sabemos como é que se resolve este problema. Temos estudos que provam, sem nenhuma sombra de dúvida, que se pudéssemos fazer o que sabemos que funciona, estes 35% que se perdem ao princípio podiam diminuir para 20% ou para 15%, com campanhas de educação, etc. Os 88% podiam ir para 95%. Depois esses 15% podiam subir muito, muito, muito.

Além das campanhas o que é que se poderia fazer que não se faz?
Teria que haver organização dos serviços e organização de programas feitos de outra maneira: modelos colaborativos de cuidados. São modelos muito parecidos com os das doenças crónicas em geral, com passos: as pessoas vão a um primeiro passo, se não funciona são enviadas para outro passo, mas não se perdem, estão sempre em contacto com o serviço, há uma avaliação constante. Isso é muito difícil de implementar nos nossos serviços, nos nossos e em outros. Mas onde se implementou deu resultados fantásticos.

A dificuldade é a organização?
A organização e formação. Primeiro, teríamos de convencer muitos responsáveis que a saúde mental é importante. Teríamos de ter não só médicos, mas também enfermeiros — faltam imensos enfermeiros — e alguns psicólogos, teríamos de os convencer a haver uma colaboração e tratamento em comum. Faz-se nalguns sítios, no meu serviço há muitos anos que fazemos coisas destas.

Mas não está generalizado.
Está longe de estar generalizado. O problema é de implementação, não é de saber o que é que se tem de fazer.

Portugal tem a maior prevalência de doenças mentais do sul da Europa

Há outra questão, relacionada com as conclusões do estudo, que é: porque é que Portugal tem uma taxa de doenças mentais muito mais alta do que o resto dos países do sul da Europa?
Não lhe sei explicar, mas é um problema que me tem preocupado imenso, que me tem feito pensar muito. Pensei tanto e andei à procura de tantas coisas que descobri que a única situação que há parecida com a nossa é o Brasil [que tem uma taxa mais alta do que os restantes países da América latina], com uma prevalência ainda mais alta que a nossa. Primeiro é preciso dizer, temos de facto uma prevalência mais alta, mas não é em todas as doenças, é sobretudo nas perturbações da ansiedade, e dentro das perturbações da ansiedade, as perturbações fóbicas [medos e vergonhas]. O que pode explicar isto? Pode haver fatores genéticos, mas não sabemos. Há um fator que acho que existe de certeza: os diagnósticos das doenças mentais não são feitos por uma análise ao sangue, mas por questionários clínicos, e isto faz com que de cultura para cultura haja uma expressão mais fácil ou menos fácil do sofrimento psicológico. Há culturas em que é muito fácil as pessoas falarem que estão muito tristes ou alegres ou ansiosas e há culturas em que as pessoas não conseguem dizer disso. Na Ásia, as pessoas são incapazes de dizer que estão tristes. A cultura portuguesa, para o bem e para o mal, faz com que as pessoas não tenham dificuldade em se queixarem das suas desgraças. O que quero dizer é que uma parte desta prevalência elevada pode ter a ver com o facto de exprimirmos mais facilmente os sintomas e portanto muitos mais casos serem apanhados. Depois pode haver aspetos culturais em Portugal que acentuaram estes aspetos ansiosos, estes aspetos da vergonha, do medo do que é que os outros pensam, da exposição.

E depois — e isso nós observámos — existem menos apoios. Os pobres e as mulheres estão em desvantagem em relação aos pobres e às mulheres de outros países europeus. O que este estudo para mostrar o impacto da crise nos mostrou é que há dois Portugais — há muitos, mas há dois fundamentais. Curiosamente, quando fomos ver em relação à parte financeira, há uma parte de portugueses que não sofreu muito — e eu espantei-me. Mas há uns 30 ou 40% de todos os portugueses que são pobres a sério, que têm privações muito grandes, que estão desprotegidos — às vezes esquecemos deles porque é uma população que está escondida, mas ela existe e essa gente está muito vulnerável. Isto significa que os nossos serviços deviam estar preparados não só para dar acesso a toda a gente, mas preparados para poder apoiar de uma forma especial, para garantirmos o princípio da equidade a essas pessoas que estão numa desvantagem muito grande e que precisam de compensar isso. Claro que já se fizeram imensos progressos: quando comecei não haviam centros de saúde, os mais novos não fazem ideia o quanto isto melhorou nesse aspeto. Mas há gente que tem necessidade de apoios que ajudem a mitigar as desvantagens em que elas estão. Com o que aprendemos devíamos estar preparados para a próxima crise económica.

Vão comparar os dados de Portugal com a Grécia e outros países que também atravessaram uma crise económica?
Já fizemos a revisão de toda a literatura científica que existe, até fizemos um encontro cá em Lisboa sobre o impacto dos fatores económicos e sociais na saúde mental. Uma das coisas que trabalhamos nesse encontro foi que iniciativas e que programas é que devemos ter para mitigar, para proteger os grupos mais vulneráveis. Há estudos que compararam crises anteriores. Por exemplo, a Suécia teve uma crise muito grande já há muito anos, numa altura em que a Espanha também teve. Quando se compararam os resultados, mostraram como os suecos se saíram muito melhor, estavam preparados, ajudaram os grupos mais vulneráveis.

As doenças mentais

Perturbações mentais comuns: perturbações de ansiedade, perturbações do humor ou afetivas, perturbações do controlo dos impulsos e perturbações de uso de álcool e outras substâncias.Têm duas características em comum: encontram-se com relativa frequência na população em geral e nas populações que procuram cuidados de saúde, e não se fazem acompanhar, em regra, de alterações graves.

Perturbações mentais graves: esquizofrenia e a doença bipolar (no passado, denominada psicose maníaco-depressiva). Envolvem com frequência sintomas psicóticos (por exemplo, ideias delirantes, alucinações, afastamento da realidade, ausência de consciência patológica) e incapacidade significativa a nível das atividades diárias e profissionais.

Outras perturbações: perturbações mentais orgânicas (estados confusionais agudos e demências), perturbações do comportamento alimentar e perturbações do desenvolvimento.

“A saúde mental dos portugueses”, FFMS

The World Mental Health Survey Initiative

É um projeto que coordena a implementação e análise dos estudos epidemiológicos referentes à saúde mental, abuso de substâncias e distúrbios de comportamento na população em geral, em todas as regiões da Organização Mundial de Saúde. Os resultados serão comparados com as consequências sociais adversas e com os padrões de procura de cuidados.

Esta iniciativa conta com a participação de 27 países, incluindo Portugal, e mais de 154 mil participantes entrevistados presencialmente.

The World Mental Health Survey Initiative

 

Encontro de Adições em Cascais – 17 e 18 de novembro

Novembro 14, 2016 às 1:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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A sua inscrição poderá ser feita on line acedendo através de : https://goo.gl/forms/Ak8e5Wan5H3BBwr53

Para mais informações poderá aceder ao nosso site www.toxicodependencias.org ou contactar o Secretariado do Encontro de Adições de Cascais através do:

email: barragem30anos@gmail.com

telefone: 214823650, 961938844

 

VII Congresso Internacional da ASPESM “Evidência e Prática Clínica em Saúde Mental” 3 e 4 novembro na ESS do Instituto Politécnico de Viana do Castelo

Outubro 28, 2016 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações nos links:

http://www.aspesm.org/index.php/vii-congresso-aspesm-2016

https://www.facebook.com/Sociedade-Portuguesa-de-Enfermagem-de-Sa%C3%BAde-Mental-138171732918315/

4.ª Caminhada pela Saúde Mental – 15 outubro em Lisboa

Outubro 5, 2016 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações:

A 4.ª Caminhada pela Saúde Mental está a chegar! Inscreva-se já!!

Quanto mais me açoitas, mais agressivo fico

Maio 7, 2016 às 5:34 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Diário de Notícias de 3 de maio de 2016.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Spanking and Child Outcomes: Old Controversies and New Meta-Analyses

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Quanto mais açoitadas forem as crianças, maior é a probabilidade de desafiarem os pais e mais desenvolvem comportamentos anti-sociais, agressividade, problemas de saúde mental e dificuldades cognitivas, revela um estudo das universidades do Texas e de Michigan.

A investigação, publicada na última edição do Journal of Family Psychology, olha para os dados recolhidos em 75 estudos nos últimos 50 anos, envolvendo um universo de 160.927 crianças.

Os seus autores reclamam ser esta a análise mais completa até agora realizada sobre o açoite — definido como uma palmada de mão aberta nas nádegas ou nas extremidades, braços ou pernas – e os seus efeitos específicos, por comparação com outros estudos que incluem outros castigos físicos das crianças nas respetivas análises.

“Concluímos que o açoite está associado a resultados prejudiciais não esperados e não está associado à obediência imediata ou a longo prazo, que são os objetivos dos pais quando disciplinam os seus filhos”, afirma a autora principal do estudo, Elisabeth Gershoff, professora de Desenvolvimento Humano e Ciências da Família na universidade norte-americana do Texas em Austin, num comunicado divulgado pela instituição.

Gershoff e Andrew Grogan-Kaylor, co-autor do estudo, professor na Universidade de Michigan, concluíram que o açoite está associado de forma significativa a 13 entre 17 resultados examinados, todos prejudiciais.

“O principal remate do estudo é que o açoite aumenta a probabilidade de uma variedade alargada de resultados prejudiciais nas crianças. O açoite provoca portanto o oposto do que os pais pretendem normalmente com ele”, sublinha Grogan-Kaylor.

Gershoff e Grogan-Kaylor testaram alguns dos efeitos a longo prazo entre adultos açoitados enquanto crianças e perceberam que quanto mais agredidos tinham sido maiores eram os comportamentos antissociais e os problemas mentais experienciados. Estes adultos eram também os maiores defensores da punição física dos próprios filhos, o que ilustra uma das principais formas como esta forma de educação passa de pais para filhos.

Os investigadores norte-americanos sublinham no comunicado que cerca de 80 por cento dos pais em todo o mundo açoitam os filhos, de acordo com um estudo da Unicef de 2014, não obstante não existirem provas de quaisquer efeitos positivos decorrentes desta forma de educação e, pelo contrário, como nota Gershoff, de haver evidência ampla de que o açoite constitui um risco negativo para o comportamento e desenvolvimento da criança.

Tanto o açoite como os abusos físicos estão associados aos mesmos resultados prejudiciais nas crianças, na mesma direção e quase com a mesma intensidade, reforçam os investigadores.

“Nós, enquanto sociedade, olhamos para o açoite e para os abusos físicos como comportamentos distintos”, afirma Gershoff. “No entanto, a nossa investigação mostra que o açoite está ligado aos mesmos resultados prejudiciais que o abuso, apenas num grau ligeiramente mais baixo”, remata.

Estes resultados, de acordo com a investigadora, são consistentes com as conclusões de um relatório recente do Centers for Disease Control and Prevention, que apelou ao “compromisso público, campanhas de educação e abordagens legislativas para reduzir a punição física” das crianças, incluindo o açoite.

A legislação norte-americana não proíbe a punição física das crianças, vê mesmo esta conduta como aceitável, apesar da sua taxa de aceitação ter diminuído consideravelmente de 84% em 1986 para 70% em 2012. Na Europa, a França foi criticada em 2015 pelo Conselho da Europa por não proibir claramente todas as formas de castigo corporal das crianças, ao contrário da maioria dos países vizinhos.

Portugal, Itália, Bélgica, Irlanda e Grécia foram alvo em 2003 de uma queixa perante o Conselho da Europa por parte da Organização Mundial Contra a Tortura (OMCT), que considerava que a legislação portuguesa não protegia crianças dos açoites e outros tipos de punições físicas.

instituição europeia respondeu à queixa dois anos depois, considerando que Portugal tem leis suficientes que permitem proteger as crianças dos castigos corporais; A OMCT argumentou, no entando, que não existe na legislação portuguesa nenhuma proibição explícita sobre castigos corporais por parte dos pais, e demonstrou ainda através de uma sondagem na altura que dois em cada cinco inquiridos acreditava que a lei permitia que dessem “uma bofetada/palmada aos seus filhos”.

“Temos esperança de que o nosso estudo possa ajudar a educar os pais sobre os malefícios potenciais do açoite e levá-los a tentar formas positivas e não punitivas de disciplina”, conclui Elisabeth Gershoff no comunicado da universidade norte-americana.

 

 

Tragédia em Caxias mostra “todo o sistema a falhar” – Entrevista de Dulce Rocha do IAC à Rádio Renascença

Fevereiro 26, 2016 às 2:00 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista da Drª Dulce Rocha, Vice-Presidente do Instituto de Apoio à Criança à Rádio Renascença no dia 17 de fevereiro de 2016.

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A vice-presidente do Instituto de Apoio à Criança diz à Renascença que têm de ser apuradas responsabilidades no caso da mulher suspeita de se ter lançado ao Tejo com duas filhas. O diagnóstico de depressão terá falhado, afirma Dulce Rocha.

Pode ter havido falha do diagnóstico de depressão da mulher que foi detida, esta quarta-feira, por suspeita de homicídio das suas duas filhas menores, numa praia em Caxias, Oeiras. A antiga procuradora Dulce Rocha, actual vice-presidente do Instituto de Apoio à Criança, lamenta que os técnicos que acompanharam a família não se tenham apercebido do grau de depressão de que a mulher, de 37 anos, provavelmente sofria.

“É todo o sistema a falhar, não é só um serviço que falha aqui provavelmente não houve um diagnóstico, não se aperceberam da gravidade da situação”, afirma Dulce Rocha à Renascença.

A família estava a ser acompanhada desde que a mulher fez uma denúncia por abusos sexuais das meninas e violência doméstica, por parte do pai das vítimas. Falando antes de se ter confirmado a detenção, Dulce Rocha explicou à Renascença que tudo indica que a mulher devia ter sido submetida a cuidados psiquiátricos.

“Tem muito a ver com a rede de saúde mental que temos em Portugal, porque os funcionários do Ministério Público não são psiquiatras e provavelmente não se aperceberam da gravidade da situação. Provavelmente naquele caso devia-se ter encaminhado para a saúde mental e a saúde mental ter meios para socorrer esta senhora. Estas situações são muitas vezes desvalorizadas e que não há recursos”, lamenta Dulce Rocha.

Em questão está também a forma como os técnicos abordam as situações, podendo alarmar os pais, o que pode ser contraproducente. “Tem de haver todo um conjunto de soluções para acolher estas crianças, sem ser uma retirada das crianças à mãe que ela tenha a sensação de ser definitiva. Caso contrário vai dizendo que não está tão mal assim, ela própria esconde a sua depressão para que não lhe sejam retirados os filhos, diz.

“Tem de haver uma consciencialização, por parte dos serviços, de que estas pessoas têm de ser tratadas com muita humanidade, com muita compaixão”, avisa a dirigente do Instituto de Apoio à Criança.

Uma criança de 19 meses morreu e outra de quatro anos está desaparecida desde segunda-feira à noite. O alerta foi dado por uma testemunha que viu uma mulher sair da água na praia de Caxias, em pânico, em avançado estado de hipotermia e a afirmar que as suas duas filhas estavam dentro de água.

A criança de 19 meses foi resgatada e alvo de tentativa de reanimação, mas sem sucesso.

O gabinete de imprensa da Procuradoria-Geral da República disse à Renascença que o pai das crianças está indiciado por violência doméstica e suspeita de abusos sobre as meninas.

 

 

 

Muitos casos de crianças em perigo são ignorados aos primeiros sinais

Fevereiro 25, 2016 às 4:35 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 20 de fevereiro de 2016.

A notícia contém declarações da Drª Ana Perdigão – Coordenadora do Serviço Jurídico do instituto de Apoio à Criança.

Enric Vives Rubio

ANA DIAS CORDEIRO

Uma mulher está presa por suspeitas de homicídio qualificado das duas filhas, de 20 meses e quatro anos. Não só o Estado, também a comunidade e a família devem estar atentos aos indícios de risco. E nem sempre estão.

Perante situações tão trágicas como a desta semana em que duas meninas levadas pela mãe perderam a vida no mar em Caxias, “é fácil apontar falhas” do sistema de protecção. Difícil será dotá-lo da capacidade de resposta para agir em tempo útil e salvar as crianças, diz uma jurista do Instituto de Apoio à Criança (IAC), Ana Perdigão. A explicação não passará tanto por falta de legislação: “O cenário legal é vasto”, e as leis de protecção foram revistas no ano passado.

A situação destas duas crianças, de “contornos tão complexos e profundos”, como diz a jurista, interpela não apenas o Estado, mas a comunidade e a família, considera também a psicóloga clinica Fernanda Salvaterra. “As pessoas esquecem-se: há o Estado mas também há a família. A família é o primeiro sistema, é o que está mais próximo das pessoas e tem obrigações. E a comunidade: todos os ecossistemas onde a família se movimenta devem dar o alerta.”

Uma explicação poderá passar pela falta de respostas céleres aos primeiros sinais de risco que, muitas vezes, não são logo percebidos – ou denunciados. As respostas específicas de saúde mental são escassas e estão longe das pessoas. Apresentam-se de tal forma demoradas e espaçadas no tempo que deixam escapar situações de perigo. Como pode a perturbação desta mãe não ter sido detectada a tempo? – questiona Ana Perdigão.

Os serviços de saúde mental devem estar muito mais próximos das pessoas, considera também Fernanda Salvaterra. As respostas são deficitárias não só na saúde mental, mas também no acolhimento, diz a psicóloga. As consultas de psiquiatria devem ser marcadas aos primeiros sinais de perturbação, insiste. E isso não acontece. Muito poucos centros de saúde têm psicólogos e as consultas de psiquiatria nos hospitais não são marcadas com a urgência e a frequência exigidas por muitos dos casos que chegam às comissões de protecção ou ao IAC.

“Em muitas das situações, é necessário acompanhamento psicológico das crianças, ou apoio psicológico à mãe ou ao pai, ou até um acompanhamento à família. Debatemo-nos com essa dificuldade de obtermos essas respostas em tempo útil”, acrescenta Fernanda Salvaterra, que exerce funções numa comissão de protecção de crianças e jovens. As soluções “não correspondem às necessidades de haver acompanhamento próximo, regular, semanal”.

“Os sinais têm de ser percebidos, logo de início, pelas instituições da infância e juventude, por todos os serviços da comunidade por onde passam as crianças: a escola, a creche, o centro de saúde, os hospitais, as associações juvenis”, reforça o procurador-geral adjunto do Tribunal da Relação do Porto, Francisco Maia Neto, com vasta experiência em processos de Família e Menores. “É normalmente neste primeiro patamar [de intervenção] que se colhem os indícios.”

Portugal assistiu, nos últimos anos, “a um apogeu destes casos”. Desde 2012, “homicídios de filhos seguidos de suicídios foram muito mais comuns”, diz. “São coisas traumáticas. O que está em causa é se o sistema pode e deve preocupar-se com a identificação dos primeiros sinais de perigo. Houve situações mais graves do ponto de vista humano por motivos económicos e não houve um correspondente acompanhamento das organizações da primeira linha para detectar os sinais.”

Os gabinetes de apoio à criança e à família nas escolas, onde os mais novos partilham as suas rotinas com assistentes sociais ou psicólogos, é “um óptimo local para detectar situações que não correm bem”, sugere Ana Perdigão. As equipas não se têm mantido e, em muitos casos, não tem sido prestada a devida atenção às crianças.

As instituições precisam de técnicos. E os técnicos precisam de tempo para escutar as crianças, diz Ana Perdigão, ou para avaliar a situação de uma mãe. Para avaliar, encaminhar, sinalizar, reforça. “A necessidade da urgência das respostas agravou-se com a crise, também porque a crise instalada traz muitos mais problemas emocionais. A própria saúde mental das pessoas fica mais fragilizada. Um pai e uma mãe desempregados ficam muito mais expostos a tudo o que seja adverso. E mais facilmente chegam a estados de desespero.”

Para que situações como a das mortes de Caxias não se repitam, será preciso detectar os indícios “no sítio próprio, em tempo útil”, observa Francisco Maia Neto, que coordenou a comissão de revisão das leis de protecção. E isso não está a acontecer, considera. “Os sinais são fundamentais. É muito importante denunciar.”

Mesmo denunciando, podem surgir dúvidas. A mãe das meninas de Caxias está presa preventivamente, indiciada por dois crimes de homicídio qualificado, depois de o Ministério Público ter considerado que agiu com “especial censurabilidade ou perversidade”. Sobre o pai incidiam suspeitas de violência doméstica e abusos sexuais das duas filhas, que este nega e que a justiça investiga. As crianças presenciavam as violentas discussões do casal, reconhece o pai, alegando que a mulher lançou acusações sobre ele para obter vantagens no processo de regulação parental depois de um divórcio conturbado.

Os casos de regulação parental mais complicados envolvem, por vezes, acusações deste tipo, “nem sempre verdadeiras”, reconhece Fernanda Salvaterra. “Isso não quer dizer que não se deva tomar a devida atenção. Às vezes, o tribunal tem dificuldade em decidir, em saber onde está a verdade”, acrescenta. E aconselha cautela na forma como se fala de falsas denúncias. “Pode parecer que há sempre manipulação das situações, e não há. Há casos muito graves em que é preciso intervir de imediato, em que as pessoas se queixam com toda a legitimidade por se sentirem ameaçadas e por as crianças estarem em risco.”

Uma denúncia da PSP, a quem a mãe tinha apresentado queixa em Novembro, depois da separação, deu entrada na Comissão de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ) da Amadora em Novembro passado. O caso foi remetido ao Ministério Público – como de resto prevê a lei de protecção desde as alterações legislativas do ano passado, em caso de suspeitas de abuso sexual intrafamiliar, diz Francisco Maia Neto. Desde a alteração, as comissões deixaram de ter competência neste tipo de situações, uma vez que a sua intervenção depende da autorização dos pais. “São os casos em que o eventual abusador iria prestar consentimento. E isso não faz sentido”, aponta.

“A decisão da retirada das crianças, de uma forma geral, é sempre temida pelos técnicos, e sempre tomada nas situações-limite”, diz Fernanda Salvaterra, autora de uma tese de doutoramento sobre adopção e vinculação. “Embora sendo uma decisão extrema, deve ser tomada sempre que esteja em causa o bem-estar e o superior interesse da criança, quando ela está em perigo naquela família. Na noção de perigo inclui-se o risco de vida mas também o perigo para o seu desenvolvimento, tanto físico como emocional e psicológico.”

As situações de retirada aumentaram muito nos últimos meses, revela Fernanda Salvaterra. “Em mês e meio, até meados de Fevereiro, já tivemos [na CPCJ onde exerce funções] sete situações de retiradas da família. No ano inteiro de 2015 tivemos 32.” Só esta semana, a do desaparecimento e da morte das duas crianças em Caxias, a CPCJ onde Fernanda Salvaterra exerce funções recebeu oito situações de emergência noutras tantas famílias, envolvendo 14 crianças. As buscas para encontrar a menina de quatro anos que desapareceu continuam este domingo. E deverão terminar de vez ao final do dia.

 

I Encontro Família e Saúde Mental na Amadora

Dezembro 2, 2015 às 11:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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A CPCJ da Amadora, em parceria com a Câmara Municipal, o Agrupamento dos Centros de Saúde e o Hospital Prof.º Dr. Fernando da Fonseca, promovem o I Encontro Família e Saúde Mental na Amadora, a decorrer no próximo dia 15 de Dezembro, no auditório da biblioteca Dr. Piteira Santos. Entrada livre, sujeita a inscrição (com admissão por ordem de chegada) até dia 10 de Dezembro para secretariadocpcjamadora@gmail.com

https://www.facebook.com/cpcj.amadora/

 

Seminário de Saúde Mental – Ao longo do Ciclo de Vida. Contextos, caminhos e Desafios…

Novembro 24, 2015 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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