Pôr os miúdos a ler? “Contem-lhes histórias”, diz Mia Couto

Novembro 6, 2018 às 12:00 pm | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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Entrevista da Sábado a Mia Couto no dia 22 de outubro de 2018.

Mia Couto diz que é pela oralidade que os pais vão conseguir levar as crianças até aos livros. Com mais uma obra infantil a chegar às livrarias, o escritor explica-nos como cria histórias.

Nunca escreve a pensar que os leitores são crianças. Diz que escreve para “conversar com as vozes” que tem dentro de si. Mia Couto tem um novo livro A Água e a Águia, editado pela Caminho, e com ilustrações Danuta Wojciechowska.

Desta vez, no seu quinto livro infantil, acompanhamos as grandes águias que sobrevoam a terra e pelo meio aprendem-se letras. Mais uma fábula carregada de imaginação e de uma relação próxima com a terra. Lê-se no livro: “Foi então que a mais velha das águias juntou toda a comunidade e perguntou: – Sabem o que é a letra i? Uma disse: é um pau espetado no abecedário. Outra disse: é um dançarino com um chapéu alto.”

Mas numa altura em que os tablets e telemóveis ocupam muitas vezes o lugar principal no entertenimento, como se incentiva à leitura? O escritor, de 63 anos, vencedor do Prémio Camões, em 2013, defende que é primeira pela oralidade, pela rotina de contar histórias, que se vão conquistar os miúdos. Criar o hábito da leitura terá de ser pela sedução.

Como surgiu a ideia para escrever o livro A Água e a Águia?
Os livros não me surgem nunca a partir de uma ideia claramente definida. Não seguem assim um propósito consciente. Deve haver, no início, uma história ainda informe mas com suficiente sedução para que eu queira saber mais. Neste caso concreto, os bichos que tanto fazem correr palavras nas histórias de infância surgiam-me, desde logo, como os donos dessas palavras, dessas letras. Havia portanto uma instigante inversão entre os lugares conferidos ao que é humano e não humano.

Neste livro brinca com as letras, foi uma escolha consciente de ensinar letras?
Não, não houve um propósito didático. Não sei manter essa relação funcional com a escrita. A história pode e deve ensinar se ela for bonita e for capaz de encantar.

Há personagens que resultam melhor em livros infantis do que outras? Por exemplo, usa muitas vezes animais.
Não sou eu que o faço. É pratica velha e comum a todas as culturas a criação e de fábulas para reproduzir saberes e atitudes. Desde sempre os animais nos ensinam a ser mais humanos.

É diferente escrever livros infantis ou para adultos? 
Tenho uma enorme dificuldade em fazer essa distinção. E confesso mesmo que não sei exatamente o que é “escrever para crianças”. Talvez porque toda a escrita tem esse apelo de me remeter para a minha própria infância.

Como escolhe os temas para os livros infantis?
Sou eu que sou escolhido. Acredito que haja autores que fazem um plano e uma construção antecipada da história. Não tenho essa competência. A história vai-se revelando à medida que a escrevo. E enquanto vou escrevendo vou sabendo também mais de mim mesmo.

Quando os escreve imagina um leitor tipo?
Não. Escrevo para conversar com vozes que há dentro de mim.

Hoje é mais difícil pôr as crianças a ler do que quando começou a escrever livros infantis? Porquê?
Não sei comparar. Eu tive sorte, nasci numa casa em que, mais do que um poeta, vivia a própria poesia. Apesar das estantes forrarem as paredes da minha infância, os livros vieram até mim por via de vozes. Eu escutava histórias que os meus pais contavam. E ouvi muito discos com poetas declamando os seus próprios versos. Insisto muito nisto: os meninos chegam à escrita por via da oralidade. Contem-lhe histórias e, mais do que isso, valorizem o seu papel como autores de histórias.

Como é que se tira os miúdos da frente dos tablets e dos telemóveis?
Só por ser por via da sedução. Uma posição normativa – mesmo que se apresente necessária – não resolve o fundo da questão. Muitas das vezes os pais deixaram de estar presentes e deixaram de ter tempo para brincar com os filhos. Não são apenas a leitura e os livros que faltam. É uma relação familiar diferente, mais divertida, mais produtora de encantamentos. Os pais não brincar com os filhos para os divertirem. Devem-se divertir-se na mesma medida. As crianças sentem a incapacidade de os pais retornarem à infância. Vivemos um tempo em que os avós, os tios e toda a família alargada deixou de habitar o mesmo espaço. Há que saber vencer essas ausências por via de outros modos de estar presente.

Qual era o seu livro preferido em criança?
Platero e Eu, de Juan Ramon Jimenez. Porque aquele burrinho que vivia no livro passeava pelos meus sonhos.

Link para o livro:

http://caminho.leya.com/pt/infantil-juvenil/7-9-anos/a-agua-e-a-aguia/

 

 

Pedro Strecht: “Uma criança passa menos tempo ao ar livre do que um recluso”

Novembro 3, 2018 às 1:00 pm | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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Entrevista de Pedro Strech ao Observador no dia 20 de outubro de 2018.

Ana Cristina Marques

Crianças agarradas aos ecrãs, fechadas em salas, com agendas preenchidas e pouco tempo para estar com os pais. No seu novo livro, Pedro Strecht faz uma análise aos desafios desta geração.

Em média, uma criança até aos 10 anos passa diariamente 8 horas na escola, enquanto o tempo de interação exclusiva entre pais e filhos, também num registo diário, resume-se a 37 minutos. Os ecrãs ocupam mais de duas horas e meia por dia e os reclusos passam mais tempo ao livre do que uma criança em idade escolar. Estas são algumas das conclusões assinaladas na nova obra do pedopsiquiatra Pedro Strecht, que acaba de lançar o livro Pais Sem Pressa, da editora Contraponto, numa tentativa de convencer os pais a abrandar.

Em entrevista ao Observador, Pedro Strecht, autor de diversos livros e com um percurso profissional intenso, fala em pais exigentes e perfecionistas, demasiado preocupados com o rendimento escolar dos filhos, e discursa sobre aulas muito longas, com poucos intervalos, TPC em excesso e recreios fisicamente diminutos. A tecnologia é também tema de conversa, com o pedopsiquiatra a acusar pais de usar tablets e suas aplicações para “para colmatar pequenas coisas, muitas delas tarefas diárias do nosso dia a dia que dão trabalho, confronto e insucesso”. Porque a tecnologia não pode servir de am

“É entre o primeiro e o segundo ano de idade que os miúdos começam a andar, a correr e a explorar o mundo; o tablet é para se estar quieto. E é a partir do segundo ano, e também no terceiro, que há uma expansão enorme da linguagem também enquanto modelo de ligação. Ou seja, quando é que os miúdos desenvolvem mais a linguagem? É nessa idade. É imaginá-los quietos em vez de estarem a explorar o mundo e é imaginá-los a não falar porque a linguagem e o som que vem de uma série ou de algo que estejam a ver num tablet não pede reciprocidade.”

O livro chama-se Pais sem Pressa, mas aborda precisamente o contrário. Quem são estes pais sem tempo?
Estes pais sem tempo somos, no fundo, quase todos nós. Há muitos fatores à nossa volta que não controlamos — muitos deles têm que ver com a forma como as sociedades estão a evoluir em vários campos, no profissional, económico e relacional. O livro surge um pouco como um apelo à necessidade de ficarmos mais conscientes disto. Acho cada vez mais importante destacar a necessidade de criarmos um balanço diferente entre trabalho e lazer, ocupação profissional e tempo livre. Vivemos socialmente em estruturas que nos pedem cada vez mais, do ponto de vista do trabalho e do ponto de vista económico. É engraçado, a maior parte da linguagem que hoje caracteriza muitas coisas é quase exclusivamente economicista ou tecnológica. É muito menos humanista ou muito menos relacional. Por outro lado, cada vez mais vemos em crianças e em adultos situações que têm que ver com perturbações de ansiedade ou perturbações na linha depressiva que, em muitos casos, não são mais do que situações de burnout, de esgotamento, de excesso de tensão, de incapacidade de parar e respirar.

Os pais sem tempo estão conscientes destas limitações?
Há muitos pais que dizem que não têm tempo para fazer determinadas coisas. Por vezes, apercebem-se disso, mas dão como dado adquirido a incapacidade de lutar mais ativamente contra isto. É algo que se verifica nas sociedades mais desenvolvidas. É uma coisa muito transversal. Vivemos no tempo que nos é imposto de fora, sem que as pessoas sintam que têm capacidade de o gerir mais autonomamente, quando na realidade têm. Não é preciso fazer grandes ruturas, mas podem fazer-se pequenos movimentos de equilíbrio sem cortes radicais.

No livro encontramos as seguintes expressões: “ritmo diário extremamente exigente” e “elevados níveis de tensão emocional”. Estamos perante um problema geracional?
Sim. Acho que é muito geracional. Costumo dizer aos meus filhos que tive o meu primeiro telemóvel aos 26 anos. Em Portugal, os telemóveis com internet têm menos de 10 anos… Estamos a falar de diferenças geracionais não só muito fortes, como também cada vez mais rápidas — e isto acontece em quase todas as áreas. Agora, as mudanças acontecem de uma forma muito mais surpreendente e num ritmo muito mais intenso. Acho sempre que a evolução das sociedades, com todas as oscilações que há em cada momento, têm acontecido num sentido positivo. O que vai havendo são realidades diferentes — todos os miúdos que nasceram neste século já nasceram completamente mergulhados em determinadas vivências que nós próprios, os pais, não vivemos e não temos. Este é um desafio diferente para os dias de hoje. É uma questão adaptativa.

“Muitas crianças passam uma média de 8 horas na escola”

De que forma é que isto afeta a parentalidade?
Desde há muitos anos que temos tido um decréscimo significativo em termos de natalidade. A média de natalidade hoje em dia em Portugal é 1,1. Portanto, a maioria dos casais tem um filho. Três filhos já corresponde a uma família numerosa. Em Portugal, quando se pergunta aos casais porque é que não têm mais filhos, as duas respostas mais frequentes são fatores económicos e falta de tempo, de disponibilidade concreta. A vida dos adultos mudou bastante. Hoje, o normal é pai e mãe trabalharem, é homem e mulher serem ambos pessoas ativas do ponto de vista profissional. Muitas vezes, em algumas áreas, há mulheres que querem cumprir a sua função materna e que são frequentemente prejudicadas na sua atividade profissional. Já falei com mães que trabalham em áreas bancárias em que ter um filho é um desafio de confrontação com a entidade empregadora. O que sentimos é que, por um lado, os pais sabem mais e querem participar mais, por outro, acabam por ter menos disponibilidade concreta para o fazer e, quando ela existe, tendem a não ser capazes de se descentrar de algumas coisas que podiam ser mais secundárias e não tão essenciais.

Como por exemplo?
Pais e filhos podem ter tempo livre, mas há pais extremamente preocupados com o rendimento escolar dos filhos. Há pais que sobrecarregam as crianças com mais atividades letivas — “Ao sábado, vou pô-lo na explicação”, “Se conseguir trabalhar mais horas, posso ter mais isto e aquilo”. É uma questão de prioridades. São situações deste género que cada vez acontecem mais. Depois, há outras situações que são externas e que se veem muito na medida em que as sociedades se organizam: o tempo das deslocações, o tempo dos horários profissionais… Muitas crianças passam, hoje em dia, uma média de 8 horas na escola.

De acordo com o livro, são, em média, 8 horas diárias na escola e, também em média, 37 minutos diários de interação exclusiva entre pais e filhos…
Este rácio é completamente desproporcional. Há miúdos que estão na escola às 08h e que chegam a casa já são 19h30, 20h… são 12 horas fora de casa para uma criança. Hoje em dia, há crianças que passam muito mais tempo em interação direta com um professor de uma escola primária do que com uma mãe ou um pai. Vemos noutros países da Europa, como os países nórdicos, situações em que o tempo de permanência na escola é menor e nem por isso os miúdos têm menos capacidades escolares e cognitivas.

Como profissional, defenderia menos tempo passado na escola ou horários de aulas mais curtos? Qual é a alternativa?
Passaria por horários escolares francamente mais intervalados, até porque estamos a dar aos miúdos estímulos de pergunta-resposta com grande rapidez e na escola pedimos exatamente o inverso, que fiquem quietos durante uma hora e meia. Aulas mais curtas e com mais tempo de intervalo favorecem os mais novos. Esta geração passa muito mais tempo na escola e faz muito mais na escola do que qualquer pessoa da minha geração. Conheço alguns pais que me dizem “Ah, mas ele está a estudar pouco, vou metê-lo em explicações”… Às vezes recordo aos pais que, na nossa geração, começávamos as aulas em outubro e não em setembro, tínhamos aulas de 50 minutos e não de uma hora e meia. Há vivências temporais completamente distintas só de uma geração para a outra.

Devia existir algum incremento de atividades, que até podem decorrer no espaço da escola, mas que não têm de ser necessariamente letivas: os miúdos podem ter desporto, música e/ou ateliers de várias coisas. Também defendo que há imensas escolas que pedem um excesso de trabalho de casa. E muitas escolas esquecem-se ou não investem nos espaços de recreio — pensam na sua função centradas naquilo que acontece dentro da sala de aula e depois, no recreio, não têm vigilantes ou, então, os recreios são muito pequenos, em termos de tempo e/ou de espaço. Há escolas em Lisboa cujo espaço físico é mínimo para o número de alunos.

É por isso que escreve que um prisioneiro tem mais tempo ao ar livre do que uma criança?
É um pequeno filme que está no Youtube. É norte-americano, mas também corresponde à realidade portuguesa. Nesse filme mostra-se que uma criança norte-americana, tal como muitas portuguesas, passa menos tempo por dia ao ar livre do que um recluso. É verdade. Nas grandes cidades já não é tão frequente vermos crianças pela rua. A cultura de bairro também se perdeu. Onde estão os miúdos? Estão nas escolas, estão em casa ou estão em trânsito no transporte escola-casa. Até mesmo o espaço de brincadeira, para muitas das nossas crianças e adolescentes, acontece no quarto, em casa, e é à base de tecnologias — Playstation, internet… Brincam no espaço de quarto, embora ligados a outros, mas não propriamente num espaço livre, de expansão, de risco, de procura.

“Estamos a pedir às crianças que cresçam demasiado depressa”

No livro também escreve que, além dos horários aplicados nas escolas e dos TPC, há uma tendência para que os pais transformarem as atividades lúdicas preferidas dos filhos numa espécie de obrigação…
Sim. E numa espécie de preocupação com imensa antecipação. Os pais  projetam nos filhos um peso enorme em termos do desempenho escolar, como se os miúdos — às vezes de 9 ou 10 anos — tivessem de pensar no curso que vão tirar, na média que vão ter, no ordenado que vão ter ou não com aquele curso. Há uma projeção demasiado pesada e até negativa sobre a perspetiva de futuro, muito centrada na questão da rentabilidade — acho que isso começou de uma maneira muito mais nítida nos anos de crise. Nos últimos 5 anos comecei a ver uma coisa que não via há bastante tempo: os pais a induzirem, de uma forma ainda mais ativa, as escolhas das áreas de estudos no final do nono ano. Isto já foi uma coisa muito mais livre. Agora, ouvem-se frases como “Ah, mas não vás para isso, nisso não há emprego”, “Assim não tens ordenado nenhum”, “Artes? Artes é para o desemprego”…

Esse discurso começa cada vez mais cedo?
Sim. Cada vez mais cedo e, sobretudo, naquela fase do nono ano, em que os miúdos têm de fazer opções.

Os pais de agora são muito exigentes?
Há uma ideia errada de perfeição, parece que todos temos de ser perfeitos em tudo: no corpo, no trabalho, na educação, na escola, etc. O ótimo é inimigo do bom: as pessoas precisam de ser boas em algumas áreas e de perceber que também têm limites e que, às vezes, as coisas correm mal. É preciso que os pais deixem de ser tão exigentes consigo próprios e até para com os filhos — nesse ritmo, por muito bem que as coisas possam estar a correr, há sempre um sentimento de insatisfação recorrente. Parece que o copo nunca está cheio. Por isso é que falo do conceito “pais suficientemente bons”, que reporta para a ideia de que os adultos também têm falhas e não precisam de ser os melhores pais do mundo para serem bons pais.

Tendo em conta agendas muito preenchidas, é possível que o tempo passado entre pais e filhos comece a ser, de alguma forma, encarado como uma espécie de “obrigação”? Estamos a perder o foco do que é estar em família?
Sim, sobretudo o foco do que é estar em família de uma maneira até mais espontânea e livre. Porque cada vez mais as pessoas tendem a programar muito os dias, mesmo sem notarem. Depois, parece que a vivência do espaço livre, do espaço sem um rumo predefinido assusta e inquieta. Às vezes é bom a pessoa entregar-se a isso. Os miúdos precisam de estar no quarto, sem estar a fazer nada de especial, a brincar ou olhar para o teto. Não há uma agenda. Há cada vez mais pais que referem que os filhos, em diferentes etapas de crescimento, quando acabam uma tarefa perguntam o que podem fazer a seguir. Em casos extremos, há muitos adultos que trabalham imenso durante a semana e que, quando chegam à véspera do fim de semana, têm uma espécie de angústia porque não estão naquele ritmo de adrenalina e de tensão.

Estamos a pedir às crianças que cresçam demasiado depressa?
Sim. Estamos a atirá-las demasiado para a frente. O engraçado é que, mesmo que por vezes não notem, há cada vez mais adultos a quererem andar demasiado para trás — vivências eternamente adolescentes porque, talvez, não tenham vivido tudo como deve de ser na infância. Os mais novos são projetados muito para a frente e os mais velhos querem voltar atrás. Os adultos quererem escapar à passagem do tempo. Há frases muito engraçadas como “Agora os 40 são os novos 30”.

“Há pais que usam a tecnologia como se fosse uma ama”

Esta semana foi apresentado um estudo, com base num inquérito feito a quase 2.000 pais, que mostrou que as crianças até aos 2 anos são das que mais usam aplicações. Como comenta isto?
Crianças até aos 2 anos que são levadas a usar aplicações, porque elas não as usam autonomamente, não têm capacidade para isso, os pais metem-nas nas mãos ou à frente delas. E põem cada vez mais — e isto é mesmo uma crítica séria — para colmatar pequenas coisas, muitas delas tarefas diárias do nosso dia a dia que dão trabalho, confronto e insucesso. Um exemplo concreto? Os miúdos nem sempre comem bem e fazem birras, mas, hoje em dia, somos capazes de passar por um restaurante e vemos uma criança pequena sentada à mesa com os pais e com o tablet à frente, a ver as imagens quando, distraidamente, lhe dão a comida. Ainda neste caso dos tablets até aos dois anos, ocorre-me o seguinte: é entre o primeiro e o segundo ano de idade que os miúdos começam a andar, a correr e a explorar o mundo; o tablet é para se estar quieto. E é a partir do segundo ano, e também no terceiro, que há uma expansão enorme da linguagem também enquanto modelo de ligação. Ou seja, quando é que os miúdos desenvolvem mais a linguagem? É nessa idade. É imaginá-los quietos em vez de estarem a explorar o mundo e é imaginá-los a não falar porque a linguagem e o som que vem de uma série ou de algo que estejam a ver num tablet não pede reciprocidade.

As tecnologias, neste caso as aplicações, podem realmente interferir no desenvolvimento das crianças?
Podem, nesse aspeto podem. E o mesmo em relação a algumas áreas cognitivas e de relação social. Se um menino de 8 anos brinca no tablet ou se um de 12 anos joga na playstation, diria que isso é normal e não vejo mal nisso — só aconselho os pais a darem os jogos apropriados à idade dos filhos; mas se ele só brincar com o tablet ou com a playstation… Há crianças que crescem quase só com experiências de relação e de estímulo centradas no ecrã. Há pessoas que acham que tenho uma visão muito crítica em relação às tecnologias… As tecnologias têm coisas ótimas que podem facilitar ganhos de tempo, simplesmente acho que, nos dias de hoje, elas próprias se tornam tão opressivas no chamado tempo tecnológico que também bloqueiam a nossa vivência, o nosso tempo biológico e emocional.

A tecnologia começa a ser encarada como uma ama?
Exatamente. E isso é um risco em imensas circunstâncias. Não tem mal os miúdos verem os seus desenhos animados, não tem mal usarem as tecnologias, mas isso precisa de ser enquadrado em muitas outras coisas que fazem parte de um plano muito mais vasto de estimulação e de relação.

O livro também fala na importância de estabelecer rotinas, algo que parece estar associado à diminuição de ansiedade. Como é a criança que cresce sem rotinas?
A criança que cresce sem rotinas, sem regras ou limites, é uma criança que vai correr o risco de ficar progressivamente desregulada em relação a ela própria e na relação com os outros. As rotinas dão muita segurança e são uma maneira de se poupar tempo — a criança já sabe que, em princípio, é para tomar banho todos os dias antes do jantar… As rotinas dão uma certa pervisiblidade ao que vai acontecer. Não precisam de funcionar ao minuto, mas os miúdos agradecem estas regulações de tempo. Falando no sono, por exemplo, somos dos países da União Europeia que tem piores dados sobre o sono na infância, na adolescência e no estado adulto: dormimos pouco e dormimos mal. Telemóveis ligados durante a noite, que vão tocando, ou jogar na playstation imediatamente antes ir de para a cama… Assim não se consegue adormecer por causa do nível de excitação e de ativação cerebral. As rotinas facilitam muitas áreas do crescimento infantil e adolescente.

Qual a diferença entre a criação de rotinas e as agendas preenchidas de que há pouco falámos?
As rotinas implicam que algumas coisas básicas do dia, quer das crianças quer da relação das crianças com os adultos, possam decorrer de uma forma mais ou menos semelhante. É o acordar, por exemplo, às 07h durante a semana porque há aulas; é o jantar todos juntos à mesa sem os telemóveis por perto… Isto é diferente do excessivo preenchimento da agenda do tempo dos miúdos.

E como é uma criança que cresce sem contacto com a natureza?
É uma criança que em muitas áreas pode ser bastante mais inábil e, tendo conta áreas da estimulação cognitiva e emocional, pode ter dificuldades acrescidas. A natureza reporta-nos para determinados ritmos naturais que existem, aos quais não podemos fugir. O próprio contacto de adultos com a natureza é relaxante — baixa o ritmo cardíaco e dá-nos muito mais espaço para refletir sobre as nossas coisas.

Somos pais cada vez mais tarde. De que forma é que isso pode afetar a parentalidade?
Por um lado é bom porque, durante muito tempo, fomos recordistas de gravidez adolescente. Agora, acho que há pais que adiam muito a questão da natalidade porque fogem um pouco à responsabilidade que isso implica ou, então, têm aquela perspetiva da perfeição: primeiro querem um bom emprego, depois um bom ordenado, uma casa maior… Portanto, vão adiando, como se adia a saída de casa dos pais ou a autonomia económica. Estamos com vontade em não crescer e, sobretudo, com muito pouca vontade em assumir responsabilidades. Recordo-me de um estudo que dizia que, em algumas cidades, já há mais cães do que crianças. É mais fácil ter um cão, não vai à escola e tem um tempo de vida mais curtinho, obedece quase sempre. Crescer não é propriamente perder coisas, é somar coisas ao que já adquirimos.

Seria essencial trazer o conceito de mindfulness para a parentalidade?
Sim, eu acho que sim. No fundo, é orientar o nosso espaço mental para aquilo que é mesmo importante, no aqui e agora, connosco próprios e com aqueles que temos à nossa frente, as pessoas de quem gostamos.

 

 

Direito da Família : Vária : Jurisdição da Família e das Crianças – e-book do CEJ

Outubro 26, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança, Livros | Deixe um comentário
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Descarregar o e-book no link:

http://www.cej.mj.pt/cej/recursos/ebooks/familia/eb_DireitoFamiliaVaria2018.pdf

 

Lançamento do livro “Pais Sem Pressa” de Pedro Strecht, 15 outubro em Lisboa

Outubro 14, 2018 às 1:00 pm | Publicado em Divulgação, Livros | Deixe um comentário
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Pré-Publicação: Pais Sem Pressa, de Pedro Strecht

Outubro 11, 2018 às 6:00 am | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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Notícia do DN Life de 10 de outubro de 2018.

O novo livro do pedopsiquiatra Pedro Strecht, Pais Sem Pressa [ed. Contraponto], chega às livrarias no dia 12 de outubro. Uma reflexão sobre o que andamos a fazer com o nosso tempo e a necessidade de o dedicar mais à relação entre pais e filhos. Em exclusivo, a DN Life antecipa o terceiro capítulo do livro.

  1. TEMPO LIVRE

Escola, trabalho e lazer

Muitos sociólogos de renome mundial, como Zygmunt Bauman ou Byung-Chul Han, parecem unânimes em declarar os indivíduos deste início de século como pertencendo a uma nova espécie, posterior ao Homo sapiens sapiens: aquele que vive de e para o trabalho, consumindo aí toda a sua verdadeira energia psíquica, de forma até superior à despendida em relações afetivas reforçando o conceito de «Homo laborans».

Na perspetiva de Han, esta é a base daquela que o pensador também denomina «sociedade do cansaço», em que desde os mais jovens até aos adultos existe uma constância na queixa física e psicológica da exaustão, situação paradoxal perante a melhoria efetiva das condições de vida em geral.

O sentimento de literalmente viver como Atlas, carregando o peso do Mundo aos ombros, é sentido perante a exigência da dinâmica do dia-a-dia, em que o indivíduo se torna agressor e vítima da sua própria exigência e expectativa, soando apenas raras vozes dissonantes.

Por mim, fazia já ao contrário: punha o fim de semana de trabalho e durante os cinco dias da semana descansava. Ficávamos todos mais felizes. (J., 12 anos)

No entanto, talvez como nunca anteriormente, para homens e mulheres das sociedades mais evoluídas, o trabalho surge valorizado na vertente económica e de ascensão social tornando-se o objetivo central da vida, aparecendo de forma fundida com esta: a vida «é» o trabalho!

Aliás, quando chega a casa e calha em eu o ver, o meu pai só tem um tema de conversa para mim: escola, escola e mais escola. Diz que a escola é o meu trabalho! (J., 12 anos)

É provável que seja por isso que os indicadores mundiais de bem-estar das populações incluam sistematicamente palavras ou conceitos fundamentais da área da gestão ou da economia, como produto interno bruto, rendimento per capita, salário mínimo nacional, entre outros.

Estes dados quase sempre omitem outros que expressam um olhar psicossocial mais profundo, nos quais se poderia verificar que, apesar de tudo, o Homem enquanto ser capaz de sentir, pensar, ou sonhar, tem lugar central: alfabetização, cultura, saúde, justiça, proteção social e ainda, entre tantos, qualidade de habitação, horários de trabalho, possibilidade de tempo livre e de descanso.

Em sociedades munidas, em estreita dependência, de movimentos de globalização ditados em função de critérios economicistas, a vida comum gira em torno da expansão (maximização) da capacidade de trabalho individual ou de grupo, cada vez mais tomando conta da vida muito para além do tempo real dedicado à profissão.

Neste campo, as novas tecnologias tornaram-se uma balança que pede um equilíbrio difícil entre os benefícios inegáveis (e inesperados) que têm vindo a oferecer e a dependência (quase ditatorial) gerada pela dificuldade de permanecer… desligado delas.

Até quando vamos 15 dias de férias para o Algarve, está sempre ao telemóvel… diz que está a responder a coisas de trabalho. E à noite põe-se no computador. Nem sei como a minha mãe o aguenta. (J., 12 anos)

O próprio ritmo de trabalho decorre de forma extremamente veloz e em registo plurifuncional: a organização em ação e reação continuadas. Perante a velocidade impressa na tarefa, qualquer objetivo pode ser sempre revisto pelo próprio ou por outrem num brevíssimo espaço de tempo, num funcionamento em que, quanto mais se age e responde, mais desafios (horizontes) vão surgindo, numa espiral contínua, que muitos sentem como desgastante e, sobretudo, infindável.

«Não ter fim» ou «não sentir chão» surgem como sensações repetidas numa vida laboral em perfeita «queda livre», que produz um nível de tensão e ansiedade exagerados que, a breve trecho, terá consequências físicas e psíquicas já bem conhecidas. Por exemplo, a segregação de substâncias ditas «ativadoras» ou «de stresse» determina a estimulação repetida de algumas áreas cerebrais, provocando cansaço, alterações alimentares e de sono, irritabilidade, perturbação de ansiedade com ataques de pânico e sintomas depressivos com expressão somática (dores de cabeça, tonturas, entre outros), que se tornam a principal causa de morbilidade em muitos pais, jovens e famílias.

A grande revolução das últimas décadas centra-se claramente no ponto em que os múltiplos compromissos profissionais e pessoais da maioria dos indivíduos os acelera a tal ponto na dinâmica espaco-tempo que, verdadeiramente, este último se torna praticamente ausente: «não há/tenho tempo para nada», num espaço que é sempre demasiado (pré)ocupado.

Mais que um mero jogo de palavras, a ocupação do tempo tende a ser feita de forma prévia; na prática, as «agendas» dos pais, tal como em boa parte as dos próprios filhos, tendem a um preenchimento antecipado, por vezes sufocante, capaz de potenciar situações de ansiedade e/ou pânico apenas perante a mera perspetiva do dia de amanhã.

Embora uma pré-ocupação pudesse, na prática, contribuir para uma eventual organização de tarefas e atividades que proporcionassem ao Homem uma maior noção de liberdade individual e social, na maior parte das vezes ela acaba por ter o efeito oposto, quase perverso e doentio: uma autêntica prisão emocional que encarcera na rotina a longo prazo, tornando a vida monótona e desprovida de surpresa, emoção e impacto, num fenómeno emocional de apatia e «não inscrição», tal como o designou o filósofo José Gil.

Aliás, a robotização da atividade humana, agora tão falada a propósito da inteligência artificial, implica com facilidade o esvaziamento de qualquer intensidade afetiva. O plano diário segue à risca o que racionalmente «deve ser» porque simplesmente é o expectável ou o exigido.

Tenho as minhas dinâmicas todas registadas aqui no iPhone. Espere um pouco, para lhe responder melhor, deixe-me aqui ver as minhas notas e também todas as questões que lhe queria perguntar… Sabe que eu sou um homem da engenharia e da matemática, esta parte psicológica é sempre complicada para mim… (Pai de J., 12 anos)

A dinâmica relacional de muitos casais e adultos acaba por experimentar o mesmo tipo de dificuldade. Na verdade, o padrão atual relacional passa pela atividade laboral mútua, tanto do homem como da mulher, num plano cada vez mais equitativo e para ambos exigente e sobrepreenchido. Quando a própria vida do casal aparece seriamente comprometida pela falta de tempo a dois, é de assumir como fácil consequência um distanciamento físico e emocional progressivo, um maior desgaste da relação, uma oportunidade de espaço para a chegada de «terceiras» pessoas e, em caso último, a diluição da própria relação com separação e divórcio.

Já não tinha mulher, ela era apenas a mãe dos meus quatro filhos. (N., 43 anos, ex-marido de P.)

A partir de determinada altura, para ele só existia o trabalho ou, quando não, só parecia ter o desejo de fugir de casa, não estar com ninguém, não aturar os filhos. (P., 42 anos, ex-mulher de N.)

Do ponto de vista das crianças e adolescentes, algo de muito semelhante acontece, mesmo ainda antes da entrada no tempo formal de escolaridade, por altura dos 6 anos. Tendencialmente, a maior percentagem das crianças portuguesas conhece a primeira colocação extrafamiliar após o tempo de licença de maternidade ou paternidade, ou seja, ainda no segundo semestre de vida. Começa cedo a pré-ocupação dos mais pequenos, que, com frequência, podem desde bebés passar uma média de 10 horas por dia afastados de casa e dos seus adultos de referência.

Depois, segue-se a procura por parte dos pais de um trajeto pré-escolar e escolar dos filhos, onde as palavras de maior presença no seu discurso são cada vez mais familiares de rigor, exigência, disciplina, excelência, desempenho de topo!

Mesmo que o tempo respeitante ao jardim-de-infância, entre os 3 e os 6 anos, devesse ser essencialmente lúdico, centrado na evolução da relação social da criança, da descoberta de si através do outro, da importância do desenvolvimento de capacidades cognitivas e emocionais, são cada vez mais as crianças que acabam por ser sujeitas a uma precoce pré-escolarização concreta no mundo das aprendizagens formais.

Por exemplo, muitos pais valorizam jardins-de-infância que preenchem mais tempo diário com ofertas complementares variadas, embora quase todas de carácter dito pedagógico e, de preferência múltiplas, como inglês, informática ou música, em desprimor de outras mais lúdicas. É o início precoce do que está contido em palavras muito anteriores de Heidegger no conceito de «desassossego distraído».

E, mesmo quando algumas destas últimas são escolhidas pelos adultos, têm implícito o objetivo de desenvolver capacidades de desempenho em diversas áreas: escolhe-se o judo ou o karaté, porque favorecem a concentração e a atenção, o ballet já que implica regras, ordem e método. Quase nunca o que é simplesmente lúdico é objeto de primeira escolha, cada vez menos esta ou aquela criança pratica dança ou joga futebol por ser a sua atividade favorita.

Nas últimas décadas, neurologistas, sociólogos, pedopsiquiatras e especialistas de áreas afins vêm insistindo na necessidade premente de desenvolver a arte da desligação, ou seja, a utilidade de criar e valorizar espaços de descontinuidade, quebra e interrupção. Num ensaio recente sobre o dom da demora, O Aroma do Tempo, Byung-Chul Han escreve: «Suspender o movimento para refletir é um ato de coragem… A crise temporal advém da eliminação da capacidade de contemplar.»

O preenchimento excessivo do espaço psíquico por um verdadeiro lixo» emocional «pré-ocupa» a mente de forma a não permitir a existência do florescimento de outras áreas psíquicas: é como uma sementeira de monocultura, sendo que esta abafa a possibilidade de pausa psíquica, de descanso ou desenvolvimento de outras áreas pessoais e sociais que só podem existir a partir de um ponto prévio de maior vazio e espaço interior.

Pausa em tempo de pressa. Ou da necessidade oposta de procura de «pontos de fuga», como descreveu James Garbarino, pedopsiquiatra norte-americano. Tal como na conceção de um espaço abstrato, o ponto de fuga permite a noção e a necessidade de perspetiva: ver «para além de» algo ou alguém. Faz falta esta noção de distanciamento que produz profundidade reflexiva e, em tantos casos, de capacidade criativa.

A capacidade criativa não implica somente a noção de um ato artístico; neste ponto de vista, aplica-se ainda ao desenvolvimento de diversas possibilidades de resolver problemas, encontrar soluções para dificuldades diárias ou simplesmente situar o indivíduo para além de um momento concreto.

Sei que sou bom a jogar futebol. Gosto de estar ali, inventar jogadas, marcar golos, conviver com os meus amigos da equipa, que são diferentes dos da escola. Treino quatro vezes por semana, entre as 19h30 e as 21h00, mas, se me perguntarem se me canso, digo que não. É o melhor tempo da minha semana. É quando eu descontraio e já não penso em mais nada, nem em problemas. (V., 15 anos)

Muitas vezes, este ponto de fuga pode ser ainda utilizado para conseguir alcançar uma outra visão de si próprio, quer dizer, uma melhor capacidade de também olhar e envolver outros.
Permite-se assim a necessidade precoce de desenvolver uma atitude de altruísmo, inclusivamente de cada qual para consigo próprio: o conceito de autotolerância, pautado por adequação de expectativas e um equilíbrio melhor entre exigência pessoal e integração da falha ou da dificuldade.

Tal como se reforça a importância de procurar verdadeiros pontos de interesse emocional, obrigatoriamente diferentes da rotina, distantes ou mesmo em rotura com a atividade profissional ou prioritária. Algo que contenha muito mais do que uma simples compensação económica ou de ascensão social, e reforce verdadeiramente cada criança e adolescente, por vezes até revelando facetas que a própria escola não valoriza: desporto, música, artes plásticas, dança e teatro são exemplos recorrentes.

A presença de um ponto de fuga afetivo representa a possibilidade de olhar para diante, num movimento simultâneo de projeção e libertação perante o peso monótono do «aqui e agora»: o reencontro com o que pode sempre parecer de maior significado pessoal.

Emocionalmente, é cada vez mais complicado ter a perspetiva de horizonte (no espaço e no tempo), de quebra de limitação circunstancial que o quotidiano impõe. O conceito de fuga não pressupõe também a construção de um referencial, de um «porto de abrigo», expressão utilizada também por Garbarino.

É curioso verificar que todos aqueles que conseguem regularmente abdicar de algumas horas em prol destas atividades consideram este «gasto» como um verdadeiro «ganho» do seu próprio tempo. E usam frases tão significativas como algumas que surgem até em contexto clínico: «um balão de oxigénio», «a minha fonte de energia» ou «uma verdadeira pílula mágica».

Encontrar um ponto de fuga é, com frequência, poder estar ligado a atividades de fortalecimento de mecanismos de identidade e pertença, que com facilidade atuam como saudáveis válvulas de descompressão sobre múltiplas tensões acumuladas ao longo dos dias ou das semanas.

A existência de tempo de lazer correspondeu a uma longa evolução social e humana que levou séculos a ser reconhecida, não como um luxo, mas sim como um saudável direito de quem trabalha (ou estuda). Contudo, numerosos avanços registados no século XX, como o direito a dias férias, um máximo de horas de trabalho semanal, subsídios de Natal, idade de reforma ou outros, tiveram breves décadas de existência folgada para atualmente serem cada vez mais postas em causa perante cenários de precariedade ou outros exclusivamente centrados em cenários ligados aos conceitos de produção e consumo.

Curiosamente, o mesmo foi acontecendo na dimensão infantojuvenil, sendo unânime a ideia de que as crianças e os adolescentes de agora descansam e brincam muito menos do que os seus próprios pais durante o mesmo tempo de crescimento. Têm ainda uma sobrecarga desproporcionada de algumas disciplinas, consideradas fundamentais, em desprimor de outras, facilmente secundarizadas.

Alunos portugueses têm das mais pesadas cargas horárias em 1.º ciclo (…). Nos quatro primeiros anos de escolaridade somam um total de 3744 horas (…). Ainda no que diz respeito aos alunos até final do 9.º ano, Portugal apresenta dentro da União Europeia o primeiro lugar no tempo dedicado à disciplina da Matemática, que ocupa em média 20,4 por cento da totalidade dos currículos. (Maria Isabel Festas, no livro Os Tempos na Escola)

Só que nem sempre foi assim. Na verdade, muitos adultos podem ainda recordar o início de anos letivos apenas no mês de outubro, as aulas teóricas de 50 minutos seguidas de intervalos de 10 e até de 15 minutos, e ainda longos momentos de férias habitualmente gastos em proximidade com a família alargada e sem grande necessidade de programação prévia.

Hoje, perante a falta de tempo ditada por compromissos profissionais, muitos pais começam a incluir na escolha de um estabelecimento de ensino a possibilidade concreta de este se encontrar aberto durante os 12 meses do ano, mesmo que em atividades não-letivas. As pausas correspondentes a férias de Natal, Páscoa ou de verão acabam por ser vividas com algum temor por parte de muitas famílias que declaram não ter onde deixar os filhos.

A corrida à garantia máxima de um eventual sucesso escolar, mais tarde universitário e depois profissional, começa bem cedo. Nesse modelo, é fácil compreender novamente que para a sociedade em geral «tempo é (nada mais do que…) dinheiro». Assim, qualquer pausa soa a desinteresse, laxismo ou até luxo e esbanjamento.

Por outro lado, sabe-se que durante os longos anos de desenvolvimento maturativo (mais de duas décadas) o cérebro necessita de uma estimulação e funcionamento multimodal que vai bem para além de provas continuadas de memorização, retenção e repetição de informação que a escola acaba por pedir quase em exclusividade.

Na minha escola dizem-nos que há mais coisas que contam para a nota, mas não vale a pena iludirem-nos. Então agora no secundário, toda a gente sabe que no final do período a classificação é apenas a soma dos testes a dividir por dois. (H., 16 anos)

É ainda reconhecida a necessidade que o cérebro tem de desligar, isto é, de manter apenas o seu funcionamento basal, longe de outro tipo de exigências e respostas. Começando pelo aspeto mais vulgar, o caso do sono. O sono é, por natureza, a atividade reparadora de todo o funcionamento fisiológico do corpo e da mente. De 16 a 18 horas de sono que um recém-nascido pode cumprir, às oito horas consideradas mínimas ou adequadas na idade adulta, vai uma longa margem de evolução e de variabilidade própria de cada ser humano. Porém, as queixas de sono, nomeadamente as de insónia inicial, são comuns em todas as faixas etárias e têm cada vez mais um início em idades precoces. Parece que o ser humano tem hoje uma dificuldade em, simplesmente, fechar os olhos entregando-se ao chamamento do descanso. Deixar obsessivamente de pensar ou agir, quase sempre antecipando e tentando manter sob controlo o seu próprio funcionamento (e o dos outros) e entregar-se com segurança e tranquilidade ao desconhecido que a noite simboliza.

Talvez porque, para muitos, o descanso soe agora a um universo totalmente desconhecido onde o que acontece (incluindo a saudável atividade de sonho) é incontrolável e… incontornável. Habituado a contornar dificuldades, nem que seja negando-as, uma vez que lidar com a frustração, a barreira ou o limite parece algo extremamente difícil e gerador de tensão, e ainda vendo inscrito na sua matriz estrutural o desejo omnipotente de controlo, o homem comum vê no sono um inimigo temível, ao invés de um bem-vindo companheiro da paz e da tranquilidade.

O horror ao vazio e ao significado do escuro da noite faz com que esta tenda a ocorrer cada vez mais em estado de vigília (por exemplo, a diversão noturna dura até ao amanhecer), ou a ser controlada através de psicofármacos, como os indutores de sono. Falta de sono, excesso de trabalho e pouca disponibilidade para a escuta de si próprio, muito menos do outro, são fatores apontados como frequentes para causas e consequências de insatisfação pessoal e familiar. De novo, reintroduzir um novo paradigma que facilite o reequilíbrio escola-trabalho versus lazer parece ser uma tarefa de máxima urgência.

É fácil fazer a leitura de dados estatísticos que mostram o que se passa em sociedades em que os índices de satisfação e qualidade de vida global são bastantes positivos. É o caso dos países nórdicos, onde este balanço é feito de forma assumidamente cultural: são também locais onde as crianças passam um menor número de horas diárias na escola e as percentagens de sucesso e desempenho escolar são realmente gratificantes.

Mesmo sobre as crianças e adolescentes é necessário retomar a noção de desenvolvimento e proporcionalidade em temas como responsabilidade, desempenho e, claro, lazer. O que se pode ou deve exigir a uma criança de 6 ou 10 anos (1.º ano ou 5.º ano de escolaridade) tem de ser diferente daquilo que é expectável para 15 ou 18 anos (9.º ano ou universidade).

Imprimir um ritmo desadequado na infância e juventude, sobretudo no que toca às questões da escola (como equivalência de trabalho) e da própria perspetiva futura profissional, é, mais do que tudo, trazer para o presente pré-ocupações sem sentido e uma fonte segura de angústia desnecessária.

Desse modo, nunca o tempo realmente livre que é preciso dar a crianças e adolescentes pareceu tão estranho de aceitar e de implementar de forma convicta por parte dos adultos que os acompanham.

O tempo livre, com pontos de fuga ou em porto de abrigo, constitui um imenso reservatório de bem-estar físico e emocional. A atividade lúdica, mesmo que simplesmente traduzida pelo brincar, parece também ameaçada: isto é, ou é seguido um guião ou um certo objetivo antecipadamente definido, ou com frequência muitos rapazes e raparigas desorganizam-se com facilidade perante o confronto com um espaço vazio ou com uma folha em branco.

E agora o que é para fazer? Se não me der uma ideia, não sei o que desenhar… e posso sair dos riscos? (T., 6 anos)

Também o que Donald Winnicott designou como a saudável «capacidade de estar só» se tornou tarefa complexa para as crianças. Perante a eventualidade de uma organização individual autónoma, algo que corresponde à presença da imaginação e da criatividade, bem como à capacidade de imaginar, propor e desenvolver atividades, muitos dos mais novos recorrem de forma imediata à presença ou monitorização imprescindível do adulto.

Não são raros os pais que afirmam a dificuldade que sentem em que os filhos brinquem sozinhos, nem que seja por curtos períodos de tempo. O mesmo acontecendo na escola, sobretudo nos primeiros anos de escolaridade, em que muitos professores reportam a necessidade da proximidade física e relacional (dependência) dos alunos para que estes consigam iniciar ou manter uma tarefa sem desistir ou dispersar.

Outro dos sentimentos presente neste novo Homo laborans diz respeito à exigência que cada qual coloca em si mesmo, num verdadeiro mecanismo de coação interna. Associado a este fator, em que cada qual se torna carrasco de si mesmo, surge o peso avassalador de um sentimento de culpa: dentro de uma certa cultura judaico-cristã, parece pecado ter tempo livre, louvar o descanso ou a fuga tanto quando se preza o trabalho, a responsabilidade, o ganho económico.

Só que ser capaz de dar este passo de mudança de paradigma implica um longo trabalho emocional e uma capacidade de reflexão e ação em consonância com esse mesmo movimento. Por isso, parece urgente reformular paradigmas de vida diária, integrando-os progressivamente no tempo de existir.

Saber parar é, sem dúvida, saber pensar. Ou, pelo menos, criar mais espaço para a atividade crítica e criativa tão necessária ao balanço emocional do ser humano de hoje.

Dar espaço ao silêncio. Viver a imensidão de uma folha em branco.

 

 

Jornadas de Direito da Família e da Criança – O Direito e a Prática Forense 2018, e-book das jornadas

Outubro 10, 2018 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança, Livros | Deixe um comentário
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descarregar o e-book no link:

http://www.cej.mj.pt/cej/recursos/ebooks/familia/eb_JornadasFamiliaC2018.pdf

 

Lançamento do livro de Vânia Beliz “Chamar as coisas pelos nomes : como e quando falar sobre sexualidade” 19 setembro FNAC Chiado 19.00 horas

Setembro 18, 2018 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação, Livros | Deixe um comentário
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CHAMAR AS COISAS PELOS NOMES: Como e quando falar sobre sexualidade.

Editora Arena

Convido-vos a conhecer o meu novo livro dirigido às famílias, aos educadores e às educadoras. “Chamar as coisas pelos nomes” é o meu desafio de oferecer, a quem educa, estratégias simples para que se possam abordar com crianças e com jovens alguns dos temas mais importantes da sexualidade. O prefácio de Jorge Ascensão, Presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais, é o ponto de partida do reconhecimento da importância desta temática na educação para a saúde.

Porque falar de sexualidade ultrapassa, em muito, a temática do sexo, convido-vos a descobrir como podemos promover a saúde e o bem-estar das nossas crianças desde o nascimento. Educamos para a sexualidade desde que nascemos, e a forma como nos comportamos e como educamos meninos e meninas é um ponto de partida importante para o sucesso das nossas relações. A forma como viveremos a nossa intimidade e como construiremos a nossa felicidade depende sempre da forma como integramos a nossa identidade, de como lidamos com o nosso corpo e as suas transformações, e de como vivemos os primeiros relacionamentos… Será que sente ter competências para abordar todos estes temas importantes?

E as questões da identidade: quem sou e como sou? a puberdade e a adolescência? Bem, “Chamar as coisas pelos nomes” poderá ser, assim, uma ferramenta que considero importante para todos e para todas que se preocupam com a felicidade dos seus filhos e das suas filhas, e que querem responder eficazmente a todas as perguntas e desafios que surgirem.

De forma objetiva e sem medo, chamemos as coisas pelos nomes!

O meu obrigada

Vânia Beliz 

 

Afinal, não há “orfanatos” cheios de crianças para adotar em Portugal

Julho 31, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do Observador de 19 de julho de 2018.

É um dos mitos que o livro “Adotar em Portugal — um guia para futuros pais” procura desmontar: afinal, o número de crianças para adoção é muito inferior ao número de candidatos a pais.

O livro nasce de uma experiência pessoal: Ana Kotowicz, jornalista do Observador, é mãe de duas crianças, adotadas no ano passado. Em “Adotar em Portugal — um guia para futuros pais”, a autora procura traçar um caminho pelas várias fases do processo, entre regras, burocracias, dúvidas e, às vezes, mitos. Como o mito dos orfanatos cheios de crianças à espera de serem adotadas, desmontado no capítulo “As crianças institucionalizadas”. É um excerto dessa parte que aqui publicamos. O livro já está à venda e é apresentado esta quinta-feira, em Lisboa.

“No nosso imaginário coletivo, as crianças à espera de serem adotadas são órfãs. Foi isso que vimos durante muitos anos em filmes e livros, seja em ‘Annie’ ou ‘Oliver Twist’. E isto não podia hoje estar mais longe da verdade.

Esqueça a ideia de orfanato. Para começar, a esmagadora maioria das crianças que se encontram em instituições têm pais biológicos vivos mas, por um motivo ou por outro, foram retiradas à sua família pelo Estado. Quem são estas crianças que estão longe das suas famílias e entregues à guarda do Estado?

Todos os anos, desde 2004, o Instituto da Segurança Social publica o relatório CASA – Caraterização Anual da Situação de Acolhimento das Crianças e Jovens, com a caraterização destes menores. Em 2016, último ano de que se conhecem dados, havia pouco mais de oito mil crianças institucionalizadas (99 eram órfãs). Nota importante: estar institucionalizado não é sinónimo de estar à espera de ser adotado. Pelo contrário, deste total só 830 crianças esperavam por uma nova família. E quem são essas oito mil crianças?

“São sobretudo crianças a partir dos 12 e até aos 18 anos, com maior incidência dos 13 aos 15. É o que predomina no sistema. Ou seja, mais de metade delas estão fora do jogo, estão fora das condições legais para serem adotadas (menores de 15). Algumas estão na fronteira, com 12/14 anos, mas sabemos que é muito difícil serem adotadas. E este é o nosso sistema nacional de acolhimento. É o grosso da coluna”, explica-nos uma fonte que pede o anonimato e que há dezenas de anos trabalha no mundo da adoção. “O que se passa com as restantes? Temos uma predominância de crianças cujo projeto de vida é o regresso à família.”

Portanto, a maioria das crianças institucionalizadas são maiores de 12 anos, idade que poucos candidatos a adotantes procuram, e entre as mais pequenas o projeto de vida de grande parte delas passa por reencaminhá-las para a sua família de origem, seja a nuclear ou a alargada.

Se há um regresso, quer dizer que houve uma saída. Vamos então perceber o caminho que uma criança faz desde que é retirada aos pais biológicos.

Normalmente, a criança que chega a uma instituição para ser acolhida já estava sinalizada como menor em risco e teve outras medidas de proteção antes de ali chegar. Há motivos para suspeitar de negligência e risco de vida para a criança e a Segurança Social acompanha a situação de perto. Se, em algum momento, os alarmes soam e a criança é retirada aos pais, ela não é simplesmente colocada numa lista de menores em situação de adotabilidade.

A primeira prioridade do Estado é manter a criança junto da família biológica. Se os pais não estão capazes de cuidar dela, procura-se uma alternativa na família alargada: avós ou tios que possam fazê-lo, enquanto se ajuda os pais a ter condições para receberem os seus filhos de volta.

Se não existe esse familiar, então os menores ficam temporariamente à guarda do Estado, mas sempre na perspetiva de voltarem a ser integrados na família biológica. “A instituição é o fim da linha, a lei assim o determina e a prática também. Há um conjunto de outras medidas que não passam pela institucionalização: apoio junto de pais, familiares, pessoas idóneas. Estas medidas em meio natural de vida predominam no nosso sistema.”

No Reino Unido, por exemplo, é o contrário. Enquanto que em Portugal 85 a 90% das medidas são em meio natural de vida – e apenas o resto em acolhimento –, no sistema britânico vê-se o oposto e a esmagadora maioria das medidas aplicadas passam pela institucionalização das crianças. “Em Portugal leva-se muito a sério a preservação familiar e a responsabilidade parental, dois princípios da lei de proteção de menores.”

Diz-nos o CASA que em 2016, 4276 crianças tiveram alguma medida aplicada em meio natural de vida antes do primeiro acolhimento. Por isso, explica-nos a mesma fonte, isto faz com que as crianças cheguem mais tardiamente ao sistema de acolhimento – porque se tenta a manutenção na família. E tenta-se demais? “Tenta-se o suficiente que cada situação exige tendo sempre em conta o princípio que nos norteia, que é o superior interesse da criança. É o princípio mais elementar de todos, e o superior interesse da criança não deve permitir que o interesse do adulto se sobreponha.”

E apesar de admitir que poderá haver algumas situações em que se poderia ter desbloqueado a criança para adoção mais cedo, também diz que há situações que surpreendem pela positiva: recuperação de laços, um familiar afastado que aparece e que não sabia que a criança estava a viver aquela situação. E integrar a criança na família alargada é sempre preferível a encaminhá-la para a adoção. “O regresso à família é sempre o primeiro objetivo. A criança tem direito à família, seja biológica ou adotiva, mas a sua é a que vem em primeiro lugar.” E é só nesse momento, quando todas as hipóteses de regresso à família biológica estão esgotadas, que se avança para uma das restantes duas hipóteses: preparar o jovem para seguir um caminho independente (depois da maioridade) ou encaminhá-lo para a adoção se for menor de 15 anos. Se for esse o caso, o processo vai agora ser decidido nos tribunais.

É feita nova investigação para que o juiz possa decidir que encaminhar o menor para a adoção é no seu melhor interesse. Se isso acontecer, a guarda é retirada aos pais – que também são ouvidos durante o processo de instrução, bem como membros da família alargada – de forma definitiva e a criança ficará a aguardar por uma nova família. A partir deste momento, a família biológica perde quaisquer direitos sobre o menor e todas as ligações são cortadas de forma irreversível. Em alguns casos, poderá manter-se o vínculo com irmãos.

Mesmo que a criança permaneça numa instituição, a família biológica perde o direito de visitá-la. E estes menores, os que não esperam o regresso à família ou que não vão ser autonomizados, fazem parte “do quadradinho dos 10%”, as cerca de 800 crianças que todos os anos esperam ser integradas numa nova família.
Uma assistente social, que prefere o anonimato como acontece com a maioria das técnicas que entrevistei para este livro, contou-me uma dessas histórias dramáticas. No dia em que o tribunal decretou a medida de adotabilidade para um menor que estava à guarda da instituição onde ela trabalhava, era também o dia de anos da criança. Quando chegou a comunicação, a família biológica estava já dentro da instituição com um bolo de aniversário para fazer a festa.

Dizem as regras que a partir daquele momento o contacto entre menor e a família cessa de imediato. Mas o que aconteceu é que ninguém da equipa da instituição conseguiu enviar aqueles pais para trás. Fecharam os olhos, comemorou-se o aniversário e foi o último contacto que a criança teve com aquela família.

Voltando aos números, das 8175 crianças institucionalizadas em Portugal (69% tem mais de 12 anos de idade), mais de metade são rapazes e 47% são raparigas. A fase correspondente à infância e pré-adolescência (0 aos 11 anos) apresenta um peso de 30,5%, (2499), segundo os dados do CASA.

O relatório analisa ainda as caraterísticas especiais de cada uma destas crianças, como problemas de comportamento, toxicodependência, problemas de saúde mental, debilidade mental, deficiência mental e deficiência física. Os problemas comportamentais são os mais manifestados e foram identificados em mais de duas mil crianças (2227) que se encontravam, na sua maioria, no fim da puberdade/adolescência. Mas, como o relatório ressalva, as causas que originam estas dificuldades emocionais, apesar de geradas muito cedo na vida, normalmente só se manifestam mais tarde e de forma evidente a partir dos 12 anos.

Quer isto dizer que muitas das crianças que não têm problemas de comportamento poderão vir a manifestá-los mais tarde. Destaque ainda para o número de menores acompanhados em pedopsiquiatria ou psicoterapia e que beneficiam de acompanhamento de saúde mental regular: 3892 situações. Há ainda 1609 crianças a quem foi prescrita medicação, o que corresponde a 20% das crianças em situação de acolhimento.

Estas situações são muitas vezes despoletadas pelos contextos familiares em que os menores viviam antes da institucionalização e que deixam marcas profundas. As situações de perigo, ou seja, os motivos que levaram à abertura de processos de proteção e ao acolhimento das crianças também estão analisados no CASA. E porque uma criança pode estar sujeita a mais do que um perigo, foram detetadas 18 895 situações de risco para as 8175 crianças.

A negligência sobressai nesta análise, representando 72% das situações de perigo. Com um número bastante menor, seguem-se as situações de maus-tratos psicológicos (8,5%), os maus-tratos físicos (3,4%) e os abusos sexuais (2,8%). Importante referir que há várias formas de negligência e aquela fatia dos 72% está partida em fatiazinhas mais pequenas: falta de supervisão e acompanhamento familiar, ou seja, a criança foi deixada só, entregue a si própria ou com irmãos menores, por largos períodos de tempo (59%); exposição a modelos parentais desviantes (32%) em que o adulto potencia na criança padrões de condutas desviantes ou antissociais; e a negligência quer dos cuidados de educação (31,6%) quer dos cuidados de saúde (29,1%).

Os maus-tratos psicológicos também têm subcategorias: violência doméstica, exercício abusivo da autoridade, ignorar de forma passiva, provação social, corrupção, depreciação ou humilhação, ameaça, rejeição ativa.
Há ainda uma outra categoria, mais vaga, os outros perigos (13%), onde encontramos 832 crianças com comportamentos desviantes, algo que o CASA considera ser uma subcategoria “já que é sabido que na génese dos comportamentos desviantes apresentados pelas crianças encontram-se os demais fatores de perigo”, como a negligência ou os maus-tratos. Estas crianças, uma vez integradas numa nova família, precisam de quem seja capaz de perceber a raiz dos seus problemas e ajudar os menores a entender, transformar e alterar esses comportamentos.”

 

 

Crianças e Famílias num Portugal em Mudança – livro de Mário Cordeiro

Julho 26, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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Neste livro traça-se um perfil da situação de saúde e de bem-estar da criança em Portugal, focando especialmente o grupo etário dos 0-9 anos. Com base em diversos indicadores existentes, e na sua evolução, avaliam-se as necessidades de saúde e de bem-estar, bem como as causas de mortalidade, doença e o sucesso das estratégias preventivas, depois de definida a população infantil em termos demográficos e sociais.

Mais informações sobre o livro no link:

https://www.ffms.pt/publicacoes/detalhe/1081/criancas-e-familias-num-portugal-em-mudanca

 

Lançamento do livro “Alerta Premika! Risco online detetado” em Ponta Delgada

Julho 15, 2018 às 1:00 pm | Publicado em Livros, O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Açores Magazine de 8 de julho de 2018.

 

 

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