Já não sabe como entreter os miúdos? Estes livros valem minutos (ou mesmo horas) de descanso

Setembro 12, 2017 às 12:00 pm | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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Texto do http://observador.pt/ de 29 de agosto de 2017.

Ana Dias Ferreira

As aulas estão quase a começar, o problema é o quase. Para entreter os miúdos, reunimos livros de histórias e de passatempos publicados nos últimos meses (incluindo um mistério que usa a matemática).

1. Os Livros do Rei

De David Machado e Gonçalo Viana (Alfaguara). 12,50€

É uma história ao género do “era uma vez” e ao mesmo tempo uma homenagem ao poder da literatura. Em Os Livros do Rei, David Machado (vencedor de vários prémios na categoria infanto-juvenil) apresenta um jovem príncipe obrigado a suceder ao pai quando este morre depois de um terramoto. Para além de colocar a coroa na cabeça, o inexperiente monarca tem de reconstruir todo o reino. Habituado a passar os dias sozinho na biblioteca do palácio, quer fazer uma cidade à semelhança do que leu nos livros de fábulas, aventuras e viagens. Uma visão enigmática até para os melhores arquitetos do reino, mas familiar para quem está habituado a exercitar a imaginação nas páginas de um livro.

2. Capitão Coco & O Caso das Bananas Desaparecidas

De Anushka Ravishankar e Priya Sundram (Orfeu Negro). 12,90€

Há um mistério para resolver e a cena do crime é uma fruteira de onde desapareceram uma série de bananas. Como se isto não fosse suficientemente bizarro, o detetive convocado para esclarecer tudo chama-se Capitão Coco, desloca-se numa mota e orgulha-se de ter uma cabeça brilhante, assim como uma chave que abre todas as fechaduras (ou não). Escrita por duas autoras indianas e apresentado como uma novela gráfica ao estilo de Bollywood, Capitão Coco & O Caso das Bananas Desaparecidas é do mais original que tem aparecido nas estantes de literatura infantil. Para além de misturar técnicas de ilustração, de reservar algumas páginas para momentos musicais e de não poupar no humor, conseguido sobretudo pela personalidade da personagem principal, o livro ainda tem um bónus: para resolver o mistério é preciso fazer algumas contas de matemática. Ou seja, bela forma de rever a matéria.

3. A Menina dos Livros

De Oliver Jeffers e Sam Winston (Presença). 12,90€

Logo no início, em letras muito pequenas, estão os nomes de vários clássicos infantis: Rapunzel, O Feiticeiro de Oz, Hansel & Gretel, Peter Pan, O Polegarzinho, entre muitos outros. Partes dessas histórias são mais à frente transformadas em figuras e cenários, com as palavras a formarem ondas do mar, nuvens, monstros ou estrelas. A Menina dos Livros junta dois artistas — entre eles um dos mais prolíficos autores para crianças, Oliver Jeffers — num bonito e adequado propósito: fazer uma homenagem aos contos de fadas, ao mundo que as histórias constroem e à liberdade da imaginação.

4. Triciclo – Especial de Verão

De Ana Braga, Inês Machado e Tiago Guerreiro (Triciclo). 11€

Chegou sobre rodas em meados de junho recheada de passatempos para as férias. A Triciclo é uma nova micro-editora de pequenas revistas (as chamadas zines) infantis que, depois de um primeiro número, lançou um especial de verão de tiragem limitada e impresso em risografia a duas cores. É assim, em tons de amarelo e azul e com ilustrações dos editores Ana Braga, Inês Machado e Tiago Guerreiro (e que incluem um belo gelado geométrico na capa), que os mais pequenos podem acompanhar as férias em Portugal dos três primos do André (o protagonista que já aparecia no primeiro número) enquanto resolvem passatempos que os levam pela praia, o campo, o museu de História Natural e até um jogo da Supertaça.

Esta edição encontra-se à venda em lojas e livrarias selecionadas, entre elas A Vida Portuguesa do Intendente, Ler Devagar, MAG kiosk, Baobá e Ó! Galeria, em Lisboa; Livraria Gigões & Anantes (Aveiro), Manifesto (Matosinhos) e GATAfunho (Oeiras).

5. Tonton Lulu – Uma aventura de Laurinha e Sulivão

De Nuno Neves e Susana Vilela (Serrote). 12,80€

A terceira aventura de Laurinha e Sulivão leva os dois irmãos até Paris, mais concretamente ao Louvre. É aí, no célebre museu que serve de tecto à Mona Lisa e a outros quadros e esculturas famosas que o avô Bartolomeu Tirapicos trabalha como vigilante. Como se o cenário não fosse já de si excitante, o passado do avô também está cheio de histórias e peripécias. E em plena joia parisiense, Laurinha e Sulivão, os protagonistas desta bela coleção da editora Serrote, podem até tornar-se heróis da República Francesa.

6. Porque Tem a Arte Tanta Gente Nua?

De Susie Hodge (Bizâncio). 15€

Uma tabuleta estrategicamente colocada à frente do escultural David de Michelangelo informa que este livro fala de questões importantes sobre arte. Uma delas está no título — porque tem a arte tanta gente nua? — mas muitas outras são levantadas ao longo das suas 90 páginas (“a arte é tão cara porquê?” e “há estátuas feias?” são apenas duas). De forma direta, com ilustrações originais e muitas representações de obras, Susie Hodge faz ao mesmo tempo as vezes de guia de museu e de professora de História de Arte, atravessando movimentos tão diversos como o Cubismo e o Renascimento e autores tão variados como Rembrandt, Munch, Frida Kahlo, Velázquez e Keith Haring. Interessante mas não maçudo, ou não estivessem os textos partidos em pequenos blocos e o livro salpicado de chamadas que remetem para outras páginas e prometem deixar a curiosidade dos miúdos tão inquieta como as pinceladas de Van Gogh.

7. Maria Trigueira

De Ivone Gonçalves (Kalandraka). 12€

Maria Trigueira é o nome pelo qual é conhecida a avó Maria, uma avó que nasceu na serra e é morena e bonita. Tal como a alcunha, a avó que aqui aparece como menina é indissociável do campo: cresceu no meio das searas de trigo, gosta de ver as estrelas e as suas tranças abanam ao vento “como as espigas”. No entanto, nem a beleza dos montes a faz esquecer o grande sonho de ir ver o mar e boiar na água. Um álbum intimista escrito e pintado a duas cores por Ivone Gonçalves, sobre as coisas simples da vida.

8. Hora de deitar Baltasar!

De Yasmeen Ismail (Booksmile). 11,99€

Ah, a hora de deitar. Ter de ir para a cama quando só apetece continuar a brincar, correr e saltar em poças de lama. Poças de lama? Calma, o protagonista deste livro não é uma criança — parecia, não parecia? — mas sim um cão chamado Baltasar, que foge do dono quando percebe que é hora de fechar os olhos. As parecenças com a rotina noturna de quem tem filhos são muitas, e esse é claramente o objetivo da autora Yasmen Ismail — de quem foi também lançado recentemente Nada! Deixa-te levar pela Imaginação –, o que faz de Hora de Deitar, Baltasar, uma história feita à medida da hora de ir para a cama.

9. Fazer, conhecer, criar — Manual de Aventura

De Anastacia Zanoncelli (Livros Horizonte). 22€

Dirige-se a rapazes e raparigas aventureiros e é um manual de capa dura com centenas de jogos e desafios para explorar a natureza (ou simplesmente o jardim). Desde saber reconhecer insetos e constelações a preparar a mochila para ir acampar, passando pelas regras do código Morse e outros alfabetos secretos, esta obra da italiana Edizioni del Baldo, traduzida este verão para português, vem acompanhada de mais de 1.500 ilustrações e ideias. Um calhamaço perfeito para os arrancar do sofá e aproveitar a vida ao ar livre.

10. Rio Acima

De Vanina Starkoff (Orfeu Negro). 12€

Horizontal, como as águas de um riacho, Rio Acima é uma travessia. Um livro em que todas as personagens seguem num barco, canoa ou batel, e onde o objetivo é que cada um encontre o seu ritmo — quem sabe, melhor ainda, a felicidade. Ao invés do tradicional e esperado azul, a argentina Vanina Starkoff pinta as águas deste rio de um amarelo vibrante e como se isso não bastasse batiza as embarcações que o cruzam com nomes como “Sorriso Bonito”, “Amor de Mãe”, “O Paraíso” e “Escolinha da Felicidade”. No final, e embrulhada numa onda poética e que apela ao sonho, a mensagem desta travessia é tão vibrante como as cores usadas: qualquer coisa como “tá-se bem, a vida é linda e tu também”.

11. A Maratona dos Bichos

De Regina Boratto e Vanda Romão (Caminho).

Como uma espécie de nova versão da fábula da lebre e da tartaruga, A Maratona dos Bichos reúne uma série de animais que resolvem correr a maratona. A ideia parte de três amigos que decidem fazer uma aposta para ver quem é mais rápido e consegue saltar mais obstáculos. O problema é que esses três amigos são o “porquinho gordinho, o urso panda e a tartaruga cascuda”, ou seja, nenhum deles é particularmente veloz ou dado a desporto. Solução? Convidar animais mais lentos, neste caso “o bicho preguiça, o burrinho bufador e o rinoceronte gigante”, para aumentar as probabilidades de vencer. Quem cruzará a meta? É preciso seguir a história, contada em rima, e contar com os imprevistos (e muita poeira).

12. Coleção Tesouros da Literatura

Vários autores (Fábula). De 8,99€ a 11,99€

Uma nova chancela nasceu para recuperar velhos livros. Por velhos entendam-se clássicos, publicados dentro de uma mesma coleção chamada “Tesouros da Literatura”. Os quatro primeiros volumes são A Volta ao Mundo em 80 Dias, de Júlio Verne, Os Maias, de Eça de Queirós, Contos Maravilhosos, de Hans Christian Andersen, e As Aventuras de Pinóquio, de Carlo Collodi. Todos traduzidos diretamente dos originais (à exceção de Os Maias, bem entendido) e em edições de capa mole e acessíveis. Quem sabe um primeiro passo — ou os quatro primeiros alicerces — para uma rica biblioteca.

13. Emoji, Livro de Atividades

De Natalie Barnes (Jacarandá). 9,90€

Se é difícil convencê-los a largar o telemóvel ou o tablet para pegar num livro, esta última sugestão talvez possa ajudar. São mais de mil autocolantes com emojis de todas as formas e feitios, para colar à frente de expressões, descrever amigos ou preencher camisolas. Há também páginas para desenhar penteados criativos para os conhecidos smilies ou postais para decorar e enviar por correio . A premissa é sempre a mesa: “emojifica tudo”.

 

 

 

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A Escola promovendo hábitos alimentares saudáveis

Setembro 10, 2017 às 1:00 pm | Publicado em Livros, Recursos educativos | Deixe um comentário
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http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/horta.pdf

De que adiantam os manuais digitais se as escolas não investirem em tecnologia?

Agosto 22, 2017 às 6:00 am | Publicado em Livros, Recursos educativos | Deixe um comentário
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Texto do http://www.noticiasmagazine.pt/ de 2 de agosto de 2017.

Professores e escolas consideram positivo o recurso a manuais escolares digitais, mas alertam que é necessário dotar as escolas com as ferramentas necessárias, uma vez que o equipamento tecnológico existente está obsoleto.

Texto de Lusa | Fotografia de Shutterstock

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, promulgou na terça-feira um diploma da autoria do Partido Ecologista Os Verdes (PEV), que visa fomentar a desmaterialização dos manuais escolares, abandonando progressivamente os materiais em papel.

«Esta medida é muito bem-vinda» e «será muito bem acolhida pelas escolas», a questão «é como se vai implementar este processo», disse à agência Lusa a presidente da Associação Nacional de Professores, Paula Carqueja, que observa que «há muito equipamento tecnológico nas escolas, mas que está obsoleto».

Esta posição é partilhada pelo presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas, Filinto Lima, que também considera a «medida positiva», mas defende que «é preciso haver um investimento nas novas tecnologias».

«Já há manuais digitais desde 2013, mas o que não há nas escolas é computadores e tablets suficientes para serem usados» pelos alunos, disse Filinto Lima à Lusa. Além de serem poucos, «os computadores das escolas públicas estão obsoletos», adiantou, defendendo que, antes de «a medida ser universalizada» é preciso dotar as escolas com estas ferramentas.

Para Filinto Lima, devia ser criado um «programa tecnológico de educação» semelhante ao que existiu há «alguns anos» e «dotou as escolas de bons computadores». «Não podemos começar a construir a casa pelo telhado, tem de ser pelos alicerces, que é dotar as escolas de material para que possam ter acesso posteriormente aos manuais digitais», disse Filinto Lima, sublinhando que, «sem isso, não vale a pena dar esse passo, que é um passo de futuro».

Paula Carqueja alertou também para o facto de o acesso à internet não ser uniforme em todo o país, afirmando que há regiões do interior que nem têm rede. «Quando falamos da desmaterialização e da utilização dos materiais digitais é preciso atender que há locais onde a internet é um bocadinho escassa e a ligação também», advertiu.

Outras questões apontadas por Paula Carqueja prendem-se com «quem vai equipar as escolas», que ferramentas serão utilizadas (‘tablet’, ‘ipad’ ou computador) e como.

Deve ser a escola a emprestar o meio eletrónico, que «a criança só utilizará na sala de aula», defendeu a presidente da Associação Nacional de Professores, advertindo que este encargo não pode ser pedido aos pais.

Para Filinto Lima, a aposta na tecnologia tem de ser feita pelo Estado e deve ser considerada uma prioridade, para que a escola possa acompanhar a evolução da sociedade. Se todos os setores «já estão a trabalhar com novas tecnologias, a escola não pode ficar para trás», defendeu.

Para Paula Carqueja, a medida exige também uma formação contínua dos professores para que possam acompanhar a permanente atualização dos meios tecnológicos.

Outros pontos positivos apontados por Paula Carqueja e Filinto Lima são a diminuição dos gastos das famílias com os manuais escolares e as melhorias para a saúde das crianças, ao aliviar o peso que transportam nas mochilas.

«O avanço para o digital é importante, tendo em conta o peso das mochilas, porque iria diminuir drasticamente os quilos de livros que levam para a escola», sublinhou Filinto Lima.

O diploma, que foi aprovado por maioria a 07 de julho, apenas com abstenção do CDS-PP, assenta em três pontos: poupança de recursos naturais, facilitar a gratuitidade dos manuais a todo o ensino básico e secundário e aliviar os estudantes dos pesos que transportam diariamente para a escola.

 

 

 

Violência Doméstica : Implicações Sociológicas, Psicológicas e Jurídicas do Fenómeno – manual em formato digital

Agosto 17, 2017 às 7:00 pm | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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descarregar o manual no link:

http://www.cej.mj.pt/cej/recursos/ebooks/outros/Violencia-Domestica-CEJ_p02_rev2c-EBOOK_ver_final.pdf

 

E viveram com livros para sempre. Como criar um leitor

Agosto 9, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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Texto do http://observador.pt/ de 9 de julho de 2017.

Catarina Homem Marques

De pequenino, torce-se o pepino e também se começa a gostar de livros. Basta que os pais leiam aos bebés – até receitas –, que a leitura se faça em família e que todos se deixem levar pelos livros.

Nem todas as histórias têm de ter um final feliz para serem bonitas, nem sequer as histórias que se contam às crianças, mas o final feliz para os pais que querem que os filhos leiam é que eles comecem mesmo a gostar de livros. E isso, já que não é uma capacidade que nasça com as crianças, é algo que se pode – e deve – trabalhar, como afirmam Pamela Paul e Maria Russo, especialistas em literatura infanto-juvenil do New York Times, num artigo cheio de dicas para as famílias.

Não é apenas um capricho – está mais do que comprovado que os livros contribuem para o desenvolvimento das crianças, e que são também aliados saudáveis para a vida adulta. É por isso que se contar um conto deve mesmo acrescentar um ponto, e mais um ponto, e mais um ponto, até que a leitura seja um elemento de proximidade familiar, uma atividade enriquecedora para todos e, mais importante, um momento feliz.

Os bebés dormem, comem, choram… e gostam de livros

Há aquela imagem dos filmes em que uma mulher grávida embevecida põe os auscultadores em cima da barriga para o filho começar logo a ouvir música. E faz sentido. Os bebés reagem a estímulos sensoriais e esses estímulos contribuem para o desenvolvimento das suas capacidades. O que significa que – embora o bebé possa não mostrar grande entusiasmo quando está a acontecer – também faz sentido que os pais leiam para os filhos desde as primeiras fraldas.

“Como não se nasce leitor, é necessário guiar e acompanhar a criança, ao longo do percurso, desde a descoberta do pré-leitor até à sedimentação da leitura. O mergulho progressivo nos livros constituirá, decerto, um desafio apetecível porque as crianças são, por natureza, curiosas e a curiosidade é motor das aprendizagens ao longo da vida”, explicam os responsáveis pelo Plano Nacional de Leitura ao Observador.

Nesta primeira fase, as boas notícias é que os pais nem sequer têm de ler histórias com sentido: podem ler o livro que já estavam a ler antes sobre a II Guerra Mundial, um manual de instruções para alguma máquina que estava a dar trabalho ou a receita de um bolo para o jantar. O importante é o som da voz dos pais, a cadência típica da leitura e que as palavras sejam dirigidas para o bebé.

“Em nenhum genoma humano está presente uma inclinação para os livros. O que se sabe é que um leitor – tal como um escritor, ou um artista em geral – descobre-se quando acende o seu fogo interior, que a escritor Laura Esquível comparou a uma caixa de fósforos imaginária. Segundo ela, cada um de nós traz no interior essa caixa de fósforos e, para acendê-los, é necessário um prato apetitoso, uma companhia agradável, uma canção, uma carícia, uma palavra. Mas a chispa varia de pessoa para pessoa, e cada um tem de descobrir os seus detonadores… a tempo, ou a caixa de fósforos humedece e nunca poderá acender um único fósforo”, diz Álvaro Magalhães, autor de dezenas de livros para crianças que já foi integrado na lista de honra do prémio internacional Hans Christian Andersen.

Os outros sentidos também podem ajudar nesta detonação. Mesmo que o bebé interrompa a leitura para puxar as páginas ou comece a fazer sons em resposta aos sons que está a ouvir, não faz mal. Este é o tipo de leitura em que os pais têm de estar disponíveis para a interrupção. E até há livros cheios de texturas que podem ajudar. Tal como ajuda ter tempo e paciência.

“O ouro da literatura sempre foi o tempo, e é cada vez mais isso. Por isso é que a nossa livraria é afastada de um local de passagem. Se é para virem até aqui, é mesmo para escapar à rotina. E se há uma obrigação que os pais têm, desde que os filhos são muito pequenos, é de cuidar da curiosidade dos filhos, e a leitura faz parte disso. Só que a leitura não se faz apenas sentado com um livro na mão. Tecnicamente, temos de transformar a leitura num jogo que se realiza em diferentes dimensões, que é um universo comum em que a palavra abre espaço para dança, música, movimento e tudo o que quisermos”, explica Mafalda Milhões, responsável pela livraria Bichinho de Conto, em Óbidos, a primeira que abriu em Portugal dedicada apenas ao livro infanto-juvenil.

A leitura é para ocupar a casa toda. E a família.

Para criar um leitor é preciso ser um leitor. E isto não implica que o serão da família tenha de incluir sempre um debate profundo sobre literatura russa ou sobre poesia japonesa do século XIX. Acontece apenas que, ao partilhar leituras com as crianças desde cedo, ao tornar-se uma atividade que se faz em conjunto – o que acontece naturalmente quando as crianças ainda não sabem ler sozinhas –, os livros começam a ficar associados à voz dos pais e a um sentimento positivo de proximidade.

© Getty Images/iStockphoto

“Infelizmente, fala-se muito em leitura sem falar em comunicação. E nisso a família tem um poder que não tem a escola, é a melhor incubadora para um leitor, para abrir horizontes e fazer ligações”, diz Mafalda Milhões.

Há pequenos truques para ir expandindo esta sensação e para a prolongar nas diferentes fases de crescimento da criança: em vez de ler para a criança só à noite, antes de deitar, é importante arranjar tempo para ler em outras alturas do dia – e, milagre, isso vai fazer também com que a criança abrande; transformar a leitura numa atividade interessante para as duas partes – nem tem de ler sempre livros que deteste, nem a criança tem de gostar das caretas que os pais fazem ao ler e pode interromper a qualquer momento; não fazer da leitura uma obrigação ou um castigo, mas sim um momento de brincadeira e alegria; ter livros espalhados pela casa, em vários sítios, que possam a qualquer momento transformar-se num ponto de interesse e num fator de distração; ir associando os livros e a leitura independente a um ato de maturidade – também dando o exemplo – sem provocar uma quebra abrupta na possibilidade de se continuar a fazer a leitura em conjunto.

“Há quem leia porque aos dez anos teve uma pneumonia e para matar as horas de aborrecimento não lhe ocorreu melhor coisa do que ler Stevenson. Até hoje. O curioso é que todas as pessoas, sejam ou não leitoras, podem falar da sua genealogia como leitores ou não-leitores, sempre com referência a uma contingência ou um mero acaso. Ou seja, o ato de ler não nasceu quase nunca de um ato puro de vontade ou da falta dessa vontade. Foi sempre a resposta a uma situação. Convém então repeti-lo: chega-se à leitura graças a um golpe de dados, quer dizer, a encontros e desencontros ocasionais”, explica Álvaro Magalhães.

E se os pais não são leitores, porque perderam o interesse pelos livros ou porque nunca encontraram esse golpe de dados, podem ser as crianças a servir de inspiração. “Há algumas famílias que não sabem mesmo fazer isto, mas podem aproveitar para seguir as crianças. Os pais têm de ter coragem para essa predisposição, para aprender isso com os filhos”, diz Mafalda Milhões. Uma ideia que Álvaro Magalhães completa: “No meu livro O Brincador há uma epígrafe que é todo um programa de vida, dois versos de Carlos Queiroz: ‘Menino que brincas no jardim / Tu sim, podias ser um Mestre de mim.’ Eles afirmam a minha fé numa inteligência infantil ainda não contaminada nem corrompida pelo mundo. Um dia perguntaram a Stanislavsky como se fazia teatro para crianças e ele respondeu: ‘Como se faz teatro para adultos, mas melhor’. É o que tento fazer, pois, tal como a concebo, a literatura para os mais novos é uma arte maior. Para comunicar com eles é preciso elevarmo-nos, e não o contrário – traduzirmo-nos, imbecilizarmo-nos, infantilizarmo-nos, que é o que mais se faz, infelizmente.”

Os livros também fazem coisas

Os livros fazem coisas. E não são só aqueles livros que têm pássaros que saltam em formato pop up, que emitem sons ou que servem, numa pilha, para levantar o monitor de um computador. Os livros são histórias, e são imagens, e levantam questões que se podem associar depois a outras actividades. “Se a criança gostou muito de um livro sobre animais, se calhar era divertido a seguir irem todos ao Jardim Zoológico com o livro”, exemplifica Mafalda Milhões.

Além disso, os livros são também uma desculpa para ir à livraria do bairro, ou para entrar numa biblioteca. Há cada vez mais atividades que se podem encontrar em diferentes livrarias: desde oficinas de ilustração, como aquelas que acontecem regularmente na It’s a Book, em Lisboa, a atividades pelo bairro ou oficinas de leitura entre avós e netos, como são comuns na Baobá, em Campo de Ourique, passando pela simples possibilidade de andar de baloiço ou ouvir uma história no grande quintal da Bichinho de Conto. É importante que a família fique atenta à agenda das livrarias nas proximidades ou tire um tempo para ir a uma que fique mais distante.

A Bichinho de Conto, em Óbidos, foi a primeira livraria dedicada apenas ao livro infanto-juvenil em Portugal. © Divulgação

Na Bichinho de Conto, por exemplo, Mafalda Milhões sente que muitas vezes o espaço se transforma “no quintal da avó que muitas crianças já não têm isso”. “As crianças vêm aqui para ler, mas também para andar de baloiço, para brincar com as cabras, e isso tem tudo de literatura, não tem? Isto antes era só uma sensação que eu tinha, mas agora já é conhecimento técnico ao fim de muitos anos de trabalho: na leitura, o mais importante é a relação. Nós conhecemos os nossos leitores desde pequenos e agora vejo-os na faculdade e continuamos a fazer parte da vida uns dos outros.” É essa a relação que se pode criar com um livreiro, que pode ser importante a ajudar na escolha dos livros, e que se pode integrar nesta relação que se tem – ou não – com os livros.

“O PNL e outros programas institucionais da leitura só se preocupam com números e estatísticas. Do que precisamos é de leitores que contagiem leitores e sejam capazes de transmitir a sua paixão. Pequenas comunidades, círculos de leitura, clubes de leitores – que estão agora mais ativos com as redes sociais –, pessoas que partilhem e propaguem a sua paixão e a sua felicidade. Só quem verdadeiramente sente esse prazer e essa paixão a pode comunicar aos outros”, diz Álvaro Magalhães.

Outra coisa que os livros podem fazer é transformar-se numa prenda divertida para dar aos amigos que fazem anos, uma prenda que se pode escolher em família e que depois se pode aproveitar em conjunto com o aniversariante. E podem também ser uma coleção: as crianças gostam naturalmente de colecionar, e vão adorar ter uma prateleira ou uma estante só delas para irem arrumando os seus livros.

É um ovni? É da Amazon? Não. São dois livros infantis por mês, surpresa

 

 

“Os bebés não têm manhas, isso são coisas dos adultos”

Julho 28, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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Texto do http://observador.pt/de 13 de julho de 2017.

Ana Cristina Marques

Um bebé que não dorme e chora precisa de colo e mimo. Fazer birra não é manha e não há “treinos do sono”. Quem o diz é a psicóloga Clementina Almeida, autora do livro “Socorro! O meu bebé não dorme”.

Não há treinos ou métodos milagrosos que ponham os bebés a dormir tranquilamente e durante toda a noite. Esta é, talvez, uma das principais premissas de Clementina Almeida, psicóloga clínica há 25 anos e especialista em bebés. Clementina é também a autora do livro “Socorro! O meu bebé não dorme” (Porto Editora), onde apresenta explicações científicas — escritas de uma forma acessível — que ajudam a compreender os hábitos de sono dos bebés.

Há mitos que Clementina Almeida faz cair por terra ao longo de 156 páginas e, também, ao longo desta entrevista. Ao Observador, a psicóloga que também está certificada em saúde mental infantil no Reino Unido e nos EUA, além de ser fundadora e investigadora do BabyLab da FPCE-UC, um dos laboratórios da Universidade de Coimbra, explica que existem fatores económicos e sociais que direta ou indiretamente pressionam os pais a “ensinar” os seus bebés a dormir.

E ao contrário do que se possa pensar, pegar ao colo e mimar um bebé é sinal de um desenvolvimento cerebral sustentável, até porque manhas é coisa que os adultos inventaram: “Os bebés não têm manhas, isso são coisas dos adultos. Os bebés precisam que lhe respondam e isso é a base de um desenvolvimento cerebral saudável. O mimo não estraga: os bebés não passam do prazo de validade. É preciso dar muito mimo para que sejam adultos seguros no futuro.”

Tem-se falado muito nos “treinos do sono”. O que é isso e quais são os seus principais perigos?

Tem que ver com a suposição de que o bebé pode ser treinado e que consegue aprender a adormecer sozinho ou a dormir a noite toda, coisas que em termos do desenvolvimento de um bebé são impensáveis. Estes métodos representam perigos para a saúde de um bebé, nomeadamente para o seu desenvolvimento cerebral e psicológico, uma vez que a maior parte deles criam sensações de abandono. Ou seja, os métodos exigem colocar os bebés nos berços para que estes se acalmem sozinhos; quando começam a chorar os pais vão lá e pegam neles, para depois voltarem a deixá-los e os bebés voltarem a chorar. Isto é contranatura, porque efetivamente os bebés não vêm preparados para dormir sozinhos, além de ser uma experiência, no mínimo, muito negativa, esta de ser deixado a chorar para adormecer.

E pode ter consequências a longo prazo?

Sim, porque na realidade os bebés não aprendem a adormecer sozinhos nem a acalmar-se sozinhos. O que aprendem é que não vem ninguém quando eles choram, a isto chama-se “desânimo aprendido”. É um pouco depressivo para um bebé aprender isso logo no início da sua vida. Em termos neurológicos, quando os bebés estão a chorar estão em stress, estão a pedir ajuda porque dependem do outro para sobreviver e, por isso, libertam cortisol — o cortisol em excesso e durante longos períodos (ou períodos repetidos) vai literalmente queimar neurónios. Atenção que este é o período de maior desenvolvimento e crescimento cerebral que nós temos na vida. Além disso, sabemos que quando o bebé se cala, mesmo passados dois ou três dias, os níveis de cortisol continuam elevados e a destruição de ligações também continua.

O treino que estava a descrever parece semelhante ao que é proposto por Estivill.

Exatamente, é o método Estivill ou o método Ferber. Baseiam-se todos na mesma prática, de tentar que os bebés se acalmem sozinhos e que adormeçam sozinhos por longos períodos. Note-se que o próprio Richard Ferber veio pedir desculpas aos adultos que foram treinados por este método. Estamos a falar de um pediatra muito conhecido, que trabalha em Boston, e que há 20 anos não tinha o conhecimento das neurociências que nós temos hoje em dia — eles não tinham como saber os danos que podiam causar.

Porque é que acha que estes métodos ficaram tão populares?

Primeiro, eles já foram propostos há muitos anos, há décadas. Depois, nós não tínhamos a noção do que é que se passava dentro do cérebro de um bebé quando estes métodos foram aplicados. Eles foram veiculados por muitos canais de informação e as pessoas tiveram acesso a eles e, portanto, tentaram de algum modo aplicá-los. Efetivamente os bebés deixavam de chorar por desânimo aprendido, não por estarem a dormir. Nos últimos 20-25 anos, mais no EUA, houve uma proliferação enorme de “conselheiros do sono” e de livros acerca do sono do bebé, porque nos últimos 50 anos o sono tornou-se uma das grandes preocupações para os pais, mais por imperativos sociais e económicos do que pelo desenvolvimento do próprio bebé. É fácil compreender o motivo por que estes métodos se tornaram extremamente populares.

Sendo que há muita oferta sobre este tipo de literatura, em que é que o seu livro se diferencia?

A diferença é que eu não sou “conselheira do sono”. Os “conselheiros do sono” são pessoas que nem sempre têm formação de base na área da saúde e que fazem um curso específico, superficial, sobre o sono do bebé. São cursos de uma semana e alguns deles incluem um módulo de marketing sobre o seu próprio negócio — dá para perceber o tipo de curso de que estamos a falar. Depois, são pessoas que utilizam sempre o mesmo método para todos os bebés (e todos os bebés são diferentes). Eu sou psicóloga clínica. Sou especialista na área dos bebés e tenho uma prática de 25 anos em psicologia clínica. Também sou investigadora e trabalho num laboratório de investigação acerca dos comportamentos dos bebés, em Coimbra. Todo este livro, apesar de ter tentado que fosse o mais simples possível em termos de leitura, de maneira a ser acessível a todos os pais, está apoiado nas mais recentes investigações científicas sobre o desenvolvimento do bebé, incluindo o sono.

Pode desenvolver a ideia dos imperativos sociais e económicos, que são colocados acima das necessidades do bebé?

Se repararmos, temos licenças de maternidade muito curtas, algo muito diferente do que acontecia há 100 anos, quando tínhamos as mamãs em casa a cuidar dos filhos. Hoje em dia, as mulheres trabalham, trabalham muito, e ao fim de seis meses têm de voltar ao trabalho. A única coisa que perturba o sono de uma mãe é o sono do bebé. Se um bebé não andar aos 14 meses, não se ouve ninguém dizer “tem de andar, tem de o forçar… ele tem de cair e chorar…”, porque isso não vai perturbar o sono da mamã que tem de trabalhar ao fim de seis meses. De facto, aos seis meses os bebés não estão capazes de dormir as noites todas ou o número de horas que uma mamã precisaria para ir trabalhar no dia seguinte. Estes treinos têm como objetivo pôr os bebés rapidamente a dormir e de forma independente, ou seja, vão contra o seu desenvolvimento porque efetivamente a economia da sociedade precisa que as mães estejam a trabalhar — a única coisa que está a perturbar isso é o sono do bebé.

Que mitos sobre o sono do bebé é que pretende fazer cair por terra?

Não sou eu, é a ciência. Não digo nada de novo, o que eu faço é traduzir muito do que ainda está em artigos científicos, como acontece de resto em todas as áreas do saber — tudo aquilo que está nos artigos científicos demora algum tempo a passar para o conhecimento prático do dia a dia. Os mitos passam por esta questão de os bebés não serem independentes. Os bebés vêm milenarmente programados para serem seres dependentes, eles são o computador mais sofisticado em termos de aprendizagem que temos e, para isso, precisam de ter alguém que cuide deles, que lhes dê afeto, segurança, alimento e conforto. Não são capazes de ser independentes, muito menos de se auto-regularem. Nós em adultos também temos alguma dificuldade, nem sempre as nossas formas de auto-regulação funcionam e, às vezes, temos de fazer terapia. Imagine-se então um bebé de seis meses…

Idealmente, qualquer pai quer que um bebé durma a noite toda. Isso também é um mito, não é?

Sim. Alguns bebés conseguem dormir cinco horas por noite, mas nem todos conseguem chegar a isso. E essas cinco horas/noite são o que nós consideramos uma noite completa para um bebé e não uma noite completa para nós.

Imaginemos crianças dos zero aos seis meses. Quantas horas por dia é que devem dormir?

Em relação ao número de horas que os bebés dormem por dia… ele varia muito e, sobretudo, no primeiro ano de vida. Só no final do primeiro ano de vida é que temos algum tipo de médias. O facto de um bebé dormir mais cinco horas do que outro não significa que seja anormal. De facto, há uma grande variabilidade no número de horas que os bebés precisam de dormir. Só no final do primeiro ano é que as coisas começam a ficar um pouco mais estáveis, sendo que todos começam a precisar mais ou menos de um número de horas semelhantes. Há, portanto, uma grande variabilidade que pode ir até às cinco horas por noite. Os bebés não dormem só de noite. Nos primeiros seis meses temos bebés a dormir normalmente muitas horas, que podem ser 12 mas também 15. Dormem-nas de forma muito repartida ao longo de 24 horas, com vários despertares.

Qual a importância das sestas, isto é, do sono diurno?

O sono diurno regula o sono noturno. É um sono que ativa áreas diferentes do cérebro e que trabalha memórias que não são trabalhadas no sono da noite. A verdade é que quanto melhor for a qualidade do sono das sestas, melhor é a qualidade do sono da noite, o que significa menos despertares antecipados.

Quais são os perigos de um bebé dormir a noite toda, na aceção de um adulto?

Nos mais pequenos há o risco de os bebés poderem parar em termos respiratórios. Podem também não se alimentar o suficiente, uma vez que todos estes despertares estão programados não só em relação ao afeto que os bebés precisam e ao desenvolvimento cerebral, mas também tendo conta as suas necessidades de alimentação — no início, os estômagos dos bebés são muito pequeninos, pelo que precisam de ser amamentados regularmente. Progressivamente, os bebés vão desenvolvendo um padrão neurológico do sono, que se vai aproximar daquilo que é o padrão neurológico do adulto.

É possível explicar, de forma sucinta, as grandes diferença entre o sono do adulto e o sono do bebé?

As grandes diferenças têm que ver com a forma como os bebés adormecem, que é completamente diferente da nossa. Nós adormecemos em sono profundo e eles adormecem em sono leve, o equivalente ao nosso sono REM. Têm, portanto, um sono do qual podem despertar mais facilmente. Depois, entra a questão dos ciclos de sono. Nós fazemos ciclos de sono de hora e meia, com períodos em que estamos suscetíveis a despertar de quatro em quatro horas, enquanto os bebés fazem-no de hora a hora. Essas são as grandes diferenças.

O livro fala muito sobre a questão de os pais terem receio de acarinhar ou socorrer o bebé, com receio de que este ganhe manhas… Porque é que acha que os pais acreditam que os bebés se conseguem acalmar sozinhos?

Os bebés não têm manhas, isso são coisas dos adultos. Os bebés precisam que lhe respondam e isso é a base de um desenvolvimento cerebral saudável. O mimo não estraga: os bebés não passam do prazo de validade. É preciso dar muito mimo para que sejam adultos seguros no futuro — coisa que, no fundo, é o nosso instinto. Isso são projeções que fazemos, manhas têm os adultos e não os bebés. Os bebés não conseguem ter manhas, têm é necessidades e arranjam a melhor forma para as ajudar a fazer conhecer e para tentar satisfazê-las. Algumas dessas necessidades são de conforto e de colo, o que é uma necessidade básica.

O que acontece a um bebé cujo choro não é atendido pelos pais?

O choro é, na realidade, uma das primeira formas de expressão do bebé. O bebé exprime-se essencialmente através do corpo e vai-nos dando alguns sinais, o choro é um deles. Como as competências de comunicação não são as mais elaboradas, eles utilizam o choro para transmitir as suas necessidades. Pode ser fome, pode ser desconforto…

O choro não deveria ser, então, uma coisa que os pais devessem temer?

De maneira nenhuma, muito pelo contrário. O que nós sabemos, e que os estudos acabam por reforçar, é que os bebés precisam de colo. O afeto e o amor é a base para o desenvolvimento cerebral. Ou seja, não há estimulação neuronal sem a base afetiva pelo meio, não é possível uma coisa sem a outra. Chama-se, inclusive, o jogo de dar e receber — o bebé faz e o adulto responde e assim sucessivamente. Isso é a base para criarmos seres humanos seguros e felizes, pelo que não devemos ter medo de todo.

Dando um exemplo prático e real, o que aconselha à mãe de uma bebé de dois meses que não consegue pregar olho durante o dia, apesar do cansaço visível?

Provavelmente o que está a acontecer é que os pais não estão a conseguir captar os sinais de sono do bebé. Normalmente os sinais que vemos por aí espalhados na Internet, como o bebé começar a esfregar os olhos ou a coçar orelha, não estão corretos. São antes sinais de que o bebé está a dizer que já não vão conseguir pô-lo a dormir, porque ele já está inundado em cortisol e, por isso, vai ter muita dificuldade em relaxar o seu sistema nervoso. Provavelmente estamos a deixar passar algum sinal de que o bebé precisa de descansar, que por norma são sinais mais discretos. É por exemplo o facto de o bebé ficar com um olhar mais parado e não reagir de imediato ao nosso estímulo. Esses são os sinais de que o bebé precisa de dormir, a seguir vão vir os sinais de que ele já está em desalinho completo e já não vai conseguir adormecer com tanta facilidade.

Passando esses sinais, do olhar disperso e da lentidão a responder, o que é que os pais devem fazer para tentar adormecer a criança?

Pegar ao colo é importante, porque ajuda a fazer a integração de toda a informação sensorial e ajuda o sistema nervoso a relaxar. O próprio pressionar o corpo ajuda o bebé a relaxar, bem como o ato de embalar e a criação de um ambiente mais zen. Nada de deixar que o bebé durma de dia com luz e com a televisão acesa, e à noite com escuridão e sem estimulação nenhuma — qualquer dia também queremos que eles tirem café, já que eles fazem tudo. Tudo isto dá sinais ao cérebro e não podemos dar sinais que sejam contraditórios.

Porque é que os bebés resistem tanto ao sono?

Os bebés resistem ao sono porque deixamos passar os sinais e eles ficam cheios de cortisol — chama-se o ‘efeito vulcânico’ porque eles ficam muito irritados e não conseguem dormir; é como nós termos um dia cheio de trabalho e, chegada a noite, não conseguimos descansar, o cérebro não consegue desligar, vêm ideias à cabeça, apesar de sabermos que queremos descansar. Os bebés ficam exatamente nesse estado de exaustão e, por outro lado, eles estão a passar pela maior fase de desenvolvimento cerebral e, portanto, dormir é a coisa mais aborrecida à face da terra. Dormir e comer é algo que eles, mais tarde, vão dispensar. Eles querem é coletar dados acerca do mundo e das pessoas. Até ao primeiro ano o trabalho científico deles é coletar dados sobre os objetos, como é que eles se comportam. A partir daí o que lhes interessa são as pessoas. Por isso é que às vezes vemos pessoas a dizer que os bebés estão a desafiá-las… nada disso, eles estão só a reunir dados.

O não dormir não é uma manha, mas antes uma reação química do corpo?

Sim, é o desenvolvimento cerebral a dar-se, quer dizer que o bebé está a fazer o trabalho dele, que é ser um dos melhores cientistas à face da terra. Não dormir é problemático para nós, para eles não.

Que rotinas para adormecer é que aconselha?

O essencial é que a rotina seja o mais zen possível, ou seja, que consigamos diminuir toda a estimulação à volta para que o cérebro não continue a reter informação. É necessário um ambiente mais calmo, mais convidativo ao sono e escuro, bem como retirar o bebé de zonas onde há muita gente a falar ou há uma televisão ligada. Ouvimos dizer que os bebés ou a crianças pequenas têm de ir para a cama muito cedo, caso contrário não criam a rotina de ir para a cama às 21h. Mas sabemos que muitos pais chegam a casa depois das 21h. Se um bebé não tiver mãe e pai suficiente no seu dia, garanto que ele vai acordar de noite para ter mãe e pai. Agora, esse não é o melhor tempo de qualidade para o bebé ou para os pais. O ideal é a família adaptar-se a uma rotina, ou seja, ser consistente todos os dias, de maneira que haja uma certa previsibilidade para que o cérebro saiba que aquilo vai acontecer e para que se vá adaptando. Falo de uma rotina que seja confortável para cada arranjo familiar.

O que é que esta rotina poderá incluir?

Pode incluir o diminuir as luzes, diminuir a estimulação auditiva, o embalo, o cheiro de alfazema no quarto, que é calmante, e a rotina do banho — nos primeiros tempos os bebés são, por vezes, resistentes ao banho e mais para o fim começam a achar piada e o banho transforma-se numa brincadeira, o que pode ser bom em termos de rotina. Pode até ser um momento de qualidade para brincar e pode ajudar o bebé a acalmar antes de ir dormir. Já agora, não se deve confundir locais onde o bebé adormece com locais de grande brincadeira. Se o bebé brinca durante o dia no berço, depois vai ser difícil associar que ir para o berço é sinónimo de dormir.

O que fazer quando um bebé não dorme por nada? E o que é que pode estar aqui em causa?

Tem de ser avaliado, porque há várias situações, nomeadamente patologias que têm de ser avaliadas com mais cuidado e com mais rigor para, depois, saber que medidas tomar.

Quando é que um pai deve ficar preocupado?

Acho que deve seguir o seu instinto e ter em conta caso o bebé mostre grandes sinais de cansaço, nomeadamente muita irritabilidade durante o dia e dificuldades na alimentação. Se isso perturbar as outras áreas do desenvolvimento, então aí é sinal de preocupação.

Já deu a entender que sociedade anda obcecada com o sono do bebé. O que falta mudar?

É preciso aumentar as licença de parentalidade ou, pelo menos, propor que as mães e os pais regressem ao trabalho de uma forma mais adequada àquilo que seria saudável para todos. Até porque entramos noutras questões, que é o facto de as mães deixarem os bebés com seis meses em infantários, que em Portugal não têm a qualidade desejável por uma simples razão — não cumprem o rácio de 1 para 1 no primeiro ano de vida, ou de 3 bebés para 1 nos dois anos. Se conseguíssemos libertar um pouco os pais nesse primeiro ano, isso seria o ideal para termos bebés mais saudáveis e sociedades mais felizes e equilibradas.

 

 

“25 anos de intervenção do Projecto Rua em retroespetiva”

Julho 28, 2017 às 11:00 am | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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“25 anos de intervenção do Projecto Rua em retroespetiva”

Decorreu no dia 29 de junho, na livraria Bulhosa do Campo Grande, o lançamento do livro “Crianças em Situação de Rua: O Caso do IAC – Projecto Rua “Em Família para Crescer”, da autoria de Matilde Sirgado.

No estudo e investigação apresentados neste livro pretende-se analisar a problemática das crianças em situação de rua na cidade de Lisboa, recorrendo à metodologia de intervenção desenvolvida pelo IAC- Projecto Rua ao longo de 25 anos.

 

 

Através de uma pesquisa exploratória de estudo de caso único, apoiada numa abordagem qualitativa teórico e analítica, faz-se uma análise aprofundada do Projecto que visou a compreensão do seu papel na construção de percursos de inclusão, em torno das seguintes dimensões: como Observatório Social da problemática, como Laboratório Social, como Serviços de Cuidados de Proximidade e como contributo para a adequação de Políticas Públicas.

Para além da equipa do Projecto Rua e representantes de entidades parceiras, a sessão contou também com a presença da Presidente Honorária do IAC, Dra. Manuela Ramalho Eanes, tendo a apresentação da obra ficado a cargo do Professor Dr. Hermano Carmo do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa e orientador do mestrado que deu origem a esta obra, e da Presidente da Direção do IAC, Dra. Dulce Rocha.

Atualmente esta obra está disponível para venda através do IAC e Edições Silabo e a partir de setembro nas livrarias habituais.

Paula Paçó

Tratar os Media por ‘Tu‘ : Guia Prático de Educação para os Média

Julho 26, 2017 às 12:00 pm | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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Com autoria de Patrícia Silveira, Clarisse Pessôa, Diana Pinto, Simone Petrella (CECS – Universidade do Minho) e de Amália Carvalho, acaba de ser publicada a obra “Tratar os Media por Tu – Guia prático de Educação para os Media” pela Direção-Geral da Educação. O livro pretende oferecer aos docentes do 1.º, 2.º e 3.º ciclos dos Ensinos Básico e Secundário um conjunto de propostas práticas para a abordagem dos média em contexto de sala de aula.

Descarregar o guia no link:

http://www.cecs.uminho.pt/investigadores-do-cecs-publicam-guia-pratico-de-educacao-para-os-media/

 

Livros para as férias de Verão dos meninos mais crescidos

Julho 21, 2017 às 6:00 am | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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texto do http://www.dn.pt/ de 7 de julho de 2017.

Maria João Caetano

Na praia, na rede, no jardim, no fresquinho da casa, nada como estes dois meses de férias para descobrir o prazer de ler. Aqui ficam algumas sugestões para crianças e adolescentes.

Começamos por um clássico: Tom Sawyer é aquele rapaz descalço e brincalhão, amigo de Huck Finn, que muitos de nós descobriram na série de animação da década de 1980. O livro que lhe deu origem é As Aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain. Retrato da vida (e das contradições) numa pequena cidade junto ao Mississípi, no século XIX, este é um livro de aventuras sobre a liberdade, os medos e os desejos de dois rapazes. Para ler com o olhar crítico de hoje.

As férias são também tempo para viajar – no país ou no estrangeiro. E os mais pequenos podem ajudar a planear as viagens com os guias da coleção A Minha Cidade. Depois de Beja por Susa Monteiro e Edimburgo por Markus Oakley, há agora mais dois guias: Madrid por Manuel Marsol e Viseu por Ana Seixas. Na sua cidade natal, a ilustradora Ana Seixas propõe, por exemplo, uma ida ao Teatro Viriato, um passeio no Parque do Fontelo e um petisco na Casa Bóquinhas, uma taberna da Rua Escura. São 12 os sítios ilustrados e descritos por quem melhor os conhece.

O Estranhão é uma das coleções juvenis de maior sucesso neste momento. O mais recente volume, Viagem no Tempo em Cuecas, põe Fred, o miúdo de 11 anos, QI acima da média e uma imaginação prodigiosa, a viajar até ao tempo das cavernas, ao tempo dos romanos, ao tempo dos castelos e a muitos outros tempos. Os livros de Álvaro Magalhães são acompanhados pelas muitas e divertidas ilustrações de Carlos J. Campos que são uma grande ajuda para aqueles meninos que ainda “têm medo” dos livros com muitas letras e poucos bonecos.

Mary Poppins é mais uma daquelas personagens que conhecemos sobretudo dos ecrãs: o filme de 1964, realizado por Robert Stevenson, tinha como protagonista Julie Andrews – que recebeu um dos cinco Óscares atribuídos a esta produção. Mas antes de estar no cinema, esta ama com poderes mágicos surgiu nos livros da australiana Pamela Lyndon Travers. Dos oito livros, originalmente publicados entre 1934 e 1986, a Relógio D”Água já editou os dois primeiros volumes.

Este O Regresso de Mary Poppins, com ilustrações de Susana Oliveira, traz a ama de volta à Rua das Cerejeiras para um chá “de pernas para o ar”, um circo no céu e o nascimento de Annabel, o quinto e último bebé da família Banks (que fica completa com cinco crianças).

O ideal seria mesmo ler a coleção toda antes da estreia de Mary Poppins Returns, o filme realizado por Rob Marshall que tem data de estreia marcada para 25 de dezembro de 2018, tendo como protagonista a atriz Emily Blunt e contando ainda com participações de Lin-Manuel Miranda (no papel de Jack, o homem que acende candeeiros na rua), Colin Firth (o banqueiro Weatherall) e Angela Lansbury (a senhora dos balões).

A coleção Caderno de Memórias de Difícil Acesso nasceu este ano pelas mãos de Raquel Palermo e João Lacerda Matos. No primeiro volume ficamos a conhecer Santiago Castelo. Este é o seu diário, por isso o livro é escrito com a linguagem de um rapaz de 11 anos que vive em Portugal em 2017, que implica com a irmã mais velha, que desespera com as regras que os pais lhe impõe, que odeia os alarmes que o acordam de manhã e que conta aqui as suas aventuras – nem sempre bem comportadas – com os amigos e os colegas da escola, nos treinos de futebol ou nas férias de verão.

Por último, uma sugestão para aqueles que estão agora a começar a ler livros maiores. Jatakas – Seis Contos Budistas é mais um livro delicioso da Pequena Fragmenta, com texto de Marta Millà e ilustrações de Rebeca Luciani. Jatakas são os ensinamentos de Buda, “contos, metáforas e lições que foram passando de mestres a discípulos através dos tempos”. Muitos dos protagonistas das jatakas são animais. “Não pretendem dar lições, apenas inspirar uma conduta consciente ética”, explica a autora. Os contos que aqui estão são versões livres de algumas jatakas e há um, A Avó Pirilampo, que é original.

 

 

A inclusão de Migrantes e Refugiados: O Papel das Organizações Culturais – Publicação online

Julho 3, 2017 às 6:00 am | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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descarregar a publicação no link:

A inclusão de migrantes e refugiados: o papel das organizações culturais

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