“O meu filho tem nome: é o Tomás. Não é o Tomás trissomia 21”

Abril 3, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://expresso.sapo.pt/ de 21 de março de 2017.

Marta Gonçalves

Chamam-lhe o cromossoma do amor. Tomás tem este extra. Ainda antes de nascer, a mãe sentia que trazia no ventre um menino especial. Chegou umas semanas mais cedo do que o previsto e com os olhos mais rasgados. A trissomia 21 entrou de rompante na vida da família. O medo do desconhecido foi desaparecendo e deu lugar a um amor inexplicável. Esta terça-feira assinala-se o Dia Internacional da Trissomia 21. Em Portugal, estima-se que nasçam todos os anos entre 30 e 40 crianças com esta condição genética (não é uma doença).

Pelos corredores da maternidade, Andreia e Bernardo caminhavam de um lado para o outro. Havia um misto de felicidade e medo. Ao colo, tinham Tomás, que nascera algumas horas antes. A noite de 6 de agosto de 2014 foi longa. A madrugada também. Era o primeiro filho, o primeiro sobrinho, o primeiro neto: Tomás era o primeiro tudo. Os olhos mais rasgados do recém-nascido e algumas características físicas fizeram os médicos desconfiar de que algo não estava bem.

A suspeita de Trissomia 21 (t21) entrou de rompante na vida de Andreia e Bernardo, ambos com 30 anos. O momento que deveria ter sido vivido em pleno foi assombrado pelo receio do desconhecido. Naquela noite, a mãe não dormiu. Ficar com os olhos abertos significava fugir aos pensamentos.

“Tentava perceber o que se estava a passar, o porquê daquilo estar a acontecer, o porquê de acontecer sem estarmos à espera… Ao mesmo tempo que olhava para o Tomás e procurava as diferenças, jurava-lhe que iam fazer tudo por ele. Lembro-me muito bem: olhava e achava que sim, voltava a olhar e achava que não”, recorda ao Expresso Andreia Paes de Vasconcellos, que hoje é autora do blogue “Tomás – My Special Baby” (pode ver AQUI), que tem em média entre dez e 11 mil visitas diárias.

Na altura, Andreia e Bernardo pensavam que a t21 era sinónimo de “enormes limitações” e temiam que Tomás nunca fosse capaz de ter uma vida normal. O pouco que sabiam sobre a condição genética era o que tinham visto na televisão ou na internet. “Fazem-nos ver a situação pelo lado negativo e acreditar que ter um filho com trissomia 21 é um fardo. Nada disto é verdade”, garante.

A confirmação oficial e absoluta só chegou duas semanas depois.

Uma pessoa com t21, ou com síndrome de down, tem um cromossoma adicional no par 21. Trata-se de uma alteração genética – e não de uma doença -, que “advém de uma divisão celular atípica que produz um óvulo ou um espermatozoide com 24 cromossomas, em vez de 23”. O que faz que a pessoa tenha 47 cromossomas, em vez dos habituais 46.

Além das habituais mudanças na vida de um casal que leva para casa o primeiro filho, não houve especiais adaptações pelo facto de Tomás ter t21. Entre fraldas, mamadas, dormidas, cólicas e choros, os pais passaram por uma fase de aceitação, mais fácil para Bernardo do que para Andreia. Até aos seis anos, a criança estará no pico de desenvolvimento e, por isso, tiveram que focar todas as energias (e finanças) em terapias para estimular e dar ferramentas ao filho.

Faltam poucos meses para Tomás fazer três anos. É um miúdo feliz. Tem uns pais que o adoram, um irmão mais novo Francisco (dez meses) e um companheiro de quatro patas. Hoje, Andreia sabe que também na t21 está a normalidade.

“O Tomás demora um pouco mais a fazer as coisas que não são tão inatas. É preciso ensinar o Tomás para ele desenvolver as capacidades. Olhando para o Francisco, que faz tudo por ele (gatinhar, pôr-se de pé…), o Tomás precisou de ser ensinado”, explica Andreia. “Vejo a trissomia um bocadinho como todos nós na escola. Por exemplo, eu sabia que não era a melhor aluna a matemática, enquanto tinha colegas que eram brilhantes. E o Tomás é assim: em vez de ser bom a tudo, tem algumas limitações, como qualquer outra pessoa. É uma criança tão capaz como qualquer outra. Ele chora, brinca, corre, come, ri… ele faz tudo”, acrescenta.

Andreia sempre quis ter filhos com pouca diferença de idade para crescerem juntos, brincarem e serem companheiros. E é isso que são. “Adoram-se”, conta a mãe, a transbordar de orgulho. Como mais velho, Tomás tenta proteger Francisco e enche-o de beijinhos. Às vezes, também se aborrece e tira-lhe uns brinquedos.

Só este ano, em setembro, Tomás vai para a escola. Até agora, tem dividido o tempo entre as terapias e os cuidados da bisavó materna. Independentemente da condição genética, este era o plano traçado. O coração aperta e a ansiedade começa a fazer-se sentir, não pela trissomia, mas por ver o filho crescer e cortar o cordão umbilical.

“A sociedade acha que é um fardo para os pais. Quando digo que tenho um filho com trissomia 21, o primeiro olhar dos outros é triste – e ficam sem saber o que dizer. É visto como algo muito negativo. É preciso ver o outro lado. Claro que há algumas limitações para os pais, porque estão envolvidas muitas terapias, mas é só isso. De resto, não é nada negativo.

Pensam que não são capazes, mas na realidade podem casar-se, trabalhar e ter uma vida comum”, conta Andreia. “O que falta é olhar para eles como pessoas capazes”, insiste.
Atualmente não existe explicação para a t21. Não há porquê para a divisão do cromossoma. Pode acontecer. Ainda hoje ninguém sabe explicar ao certo o porquê da trissomia não ter sido detetada a Tomás ainda durante a gestação.

“Em tom de brincadeira, sempre disse que o Tomás iria ser especial. Ainda estava grávida e já o dizia, porque tive alguma dificuldade em engravidar. Daí eu dizer que ele era especial, veio no timing certo, tive uma gravidez descansada e nasceu com 37 semanas. Sinto-me privilegiada. Se tivesse que escolher nunca teria acertado numa criança tão perfeita. O meu filho tem nome: é o Tomás. Não é o Tomás trissomia 21”, diz Andreia.

Entre 30 e 40 bebés nascem anualmente com t21

Saber quantos bebés nascem em Portugal com trissomia 21 é “um mistério”. Não existem mecanismos para o fazer a contagem. Cada hospital tem a sua base de dados, mas estes não são recolhidos e agregados num conjunto a nível nacional. Isto acontece por cá e em muitos outros países.

Segundo a Pais 21, “um grupo de pais, técnicos e amigos que se juntaram para informar, partilhar novidades e descobrir novas especificidades à volta da trissomia 21”, estima-se que todos os anos nasçam em Portugal entre 30 e 40 bebés com a condição genética. A associação apoia 900 famílias.

Esta terça-feira, 21 de março, assinala-se o Dia Internacional do Síndrome de Down, instituído pela Organização das Nações Unidas em 2006. Aproveitando a data, a Pais 21 distribuiu por todas as bancadas parlamentares da Assembleia da República uma carta em que desafia os representantes políticos do nosso país a refletir sobre as questões que mais os preocupam: o nascimento e o direito à vida, à escola e à formação profissional.

Na carta, a que Expresso teve acesso, a Pais 21 alerta para o facto de o diagnóstico precoce deixar nas mãos dos pais a decisão de ter ou não o bebé. Defendendo que a interrupção voluntária da gravidez (IGV) é “frequentemente” sugerida, apela para que exista um “aconselhamento obrigatório” aos pais e que o prazo legal da IGV seja reduzido para dez semanas, tal como acontece nas restantes situações de IGV.

Quanto ao ensino, os pais pedem que se apoie a integração dos meninos com trissomia 21 em turmas com outros alunos, justificando, que “é lá que aprendem a estar e a participar”, conseguindo “mostrar as suas capacidades” e ganhar ferramentas “para construir uma vida pessoal”.

“Os que conseguem entrar no mercado de trabalho são responsáveis, empenhados e têm uma enorme vontade de trabalhar. Não obstante, não conseguem um contrato de trabalho. Muitos jovens trabalham a tempo inteiro, dando o seu melhor, e muitas vezes com uma produtividade equiparada à dos seus colegas sem deficiências, mas sem serem remunerados”, denuncia a Pais 21, que defende uma legislação mais favorável à contratação da pessoa com deficiência e a possibilidade de acumular o salário com subsídio. “Muitos ficam em casa com medo de perder o que têm”, acrescenta.

 

 

 

 

“Dá mais trabalho ensinar um miúdo a comer do que dar-lhe um tablet”

Abril 3, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://lifestyle.publico.pt/ de 20 de março de 2017.

Romana Borja-Santos

Filipa Sommerfeldt Fernandes garante que há truques simples para conseguir que as crianças apreciem a comida “sem fazer um circo”.

Chega a hora da refeição e começam os problemas e o choro. Colheres que entram à força na boca das crianças ou apenas com a ajuda de um repertório infinito de músicas, coreografias ou vídeos num tablet. O cenário parece-lhe familiar? “Comer deve ser um momento natural. Não é preciso fazer disso uma festa nem um cavalo de batalha”, diz Filipa Sommerfeldt Fernandes que é especialista em ritmos de sono. Nos últimos tempos, dedicou-se, contudo, a outro tema: como acabar com as guerras à mesa e incentivar as crianças a terem uma alimentação mais saudável e variada.

Nas várias consultas com os pais, a criadora da página “Sleepy Time — Especialista do Sono” foi-se apercebendo de que as birras à mesa — mais tarde ou mais cedo — são também um problema comum e começou a estudar o assunto para conseguir dar respostas com mais fundamento, sem ser apenas baseada na experiência com os dois filhos, de quatro anos e de um ano.

As suas ideias acabam de ser publicadas no livro Comer sem Birras (editora Manuscrito). Filipa Sommerfeldt Fernandes, de 35 anos, salvaguarda que não é médica nem nutricionista e, por isso, o manual não pretende dar sugestões de menus, mas sim explicar como tornar os momentos à mesa “num momento sem ansiedade”.

Há estratégias para várias idades, “desde a introdução da alimentação complementar, aos seis meses, até aos oito anos”.

“Normalmente as grandes questões de ficarem esquisitos dão-se a partir do ano e meio a dois anos, em que rejeitam mais as novidades”, explica ao PÚBLICO a autora, lembrando que, “no primeiro ano de vida, os bebés quase quadruplicam de peso e depois a necessidade calórica também abranda”.

O primeiro conselho passa por “descomplicar”. Filipa Sommerfeldt Fernandes, cuja formação de base é em comunicação, tendo após o nascimento do primeiro filho feito formações na área do sono e alimentação, considera que, por vezes, o problema está do lado da expectativa dos pais, que acreditam que “as crianças precisam de comer quantidades enormes e de deixar o prato vazio”.

Quanto tempo à mesa?

“É preciso avaliar o dia todo. Há miúdos que petiscam o dia inteiro bolachas, fruta, queijo e na hora da refeição não comem. Mas olhando para as 24 horas até comeram uma boa quantidade”, prossegue. Para quem está a começar a introdução da alimentação, recomenda que evitem a tentação de “fazer grandes circos” e que estabeleçam rotinas, apresentando desde cedo vários alimentos que toda a família come. Da mesma forma, alerta que também o tempo que se exige que uma criança fique sentada à mesa deve ser ajustado à idade. “Há pais que acham que as crianças devem aguentar mais de uma hora sentadas.”

O ideal, defende a autora, é que o momento da refeição seja vivido em família e de forma natural: não é preciso festejar porque a criança comeu tudo, mas também não vale a pena forçar nos dias em que não quer. “Mas se não quer comer então devemos esperar pela próxima refeição, para os miúdos perceberem que se não comerem naquele momento também não vão comer bolachinhas entretanto.”

Lembra, contudo, que os casos sistemáticos de rejeição a novas texturas devem ser conversados com os médicos de família, pediatras ou terapeutas da fala, para excluir alguns casos de doenças que podem reflectir-se numa “hipersensibilidade oral” da criança.

Quanto aos principais erros dos pais, considera que dão até demasiado tarde purés de legumes e de frutas às crianças, que acabam por não ter contacto com outras formas e texturas dos alimentos. “É normal que em algumas fases os miúdos sejam esquisitos em experimentar coisas novas, mas isso não significa que os pais devem deixar de apresentar novos alimentos. Quanto mais familiar um alimento for, mais facilmente será aceite pela criança.”

Depois, considera que há problemas transversais à sociedade e que acabam por ter repercussões em casa. “Somos pais com menos tempo e temos demasiadas solicitações externas. Acabamos por ter menos paciência e queremos apressar as crianças, porque queremos que comam bem e durmam cedo. Apressamos demasiado os nossos filhos e não lhes damos tempo. Dá muito mais trabalho ensinar um miúdo a comer do que dar-lhe um tablet para a mão para garantir que ele abre a boca”.

Explorar com as mãos

Entre algumas das sugestões, Filipa recomenda que desde cedo as crianças possam explorar alimentos com as próprias mãos. “Devemos colocá-los num prato e ter talheres por perto, porque eles aprendem por mímica. A hora da refeição é o único momento em que as crianças sentem que podem controlar e fechar a boca. Se os deixarmos também participar na escolha do que comem isso torna o momento mais natural.”

É também importante que os alimentos sejam oferecidos como se fossem iguais, sem haver a tentação dos pais dizerem que uma bolacha é melhor ou mais saborosa do que brócolos “ou que se comerem tudo têm direito a sobremesa”.

Para quem já vai tarde e está em fase de plenas birras, o passo número um sugerido passa por aquilo a que Filipa chama de “limpar o ar”. Ou seja, num período de aproximadamente uma semana não pressionar para comer e oferecer apenas o que as crianças gostam. Progressivamente, a ideia é oferecer o que elas gostam mas com formas de preparação diferentes e, então, começar a juntar aos poucos ingredientes novos ou menos amados.

O ideal, defende a especialista, é não dar demasiada atenção à reacção da criança nem estar sempre a perguntar se gostou ou não de algo. “O paladar educa-se. Antes, os miúdos comiam o que os crescidos comiam, que era o que havia em casa e tornava as coisas mais fáceis e naturais”, insiste, apesar de lembrar que é importante nas refeições em família ter cuidado com o sal e açúcar para os mais novos.

As oito principais dicas:

  • Comece por “limpar o ar” e retirar pressão do momento da refeição. Isto significa que não se deve enervar ou mostrar que se enerva com a forma como corre a refeição;
  • Dê um período de tréguas, em que oferece apenas o que a criança mais gosta de comer, variando na apresentação e texturas;
  • Continue a oferecer o que a criança gosta, mas misturando pouco a pouco alimentos novos e aqueles que sabe que antes rejeitava. Uma vez mais, não pressione e evite disfarçar os alimentos.
  • Dê o exemplo. Se comer pizzas, doces e refrigerantes ao pé dos seus filhos dificilmente eles vão querer peixe cozido com legumes;
  • Inclua as crianças na escolha e confecção das refeições;
  • Estabeleça rotinas e horários, assegurando-se de que a criança não está demasiado cansada quando come;
  • Não force a comer tudo o que está no prato nem pergunte a toda a hora se gostou;
  • Não use a comida como moeda de troca.

O que diz a Sociedade Portuguesa de Pediatria?

A pediatra Henedina Antunes, da Comissão de Nutrição e da Sociedade Portuguesa de Pediatria e da Sociedade Portuguesa de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica, não conhece o livro de Filipa Fernandes. Mas não tem dúvidas: as crianças devem explorar os alimentos com as mãos desde cedo. “Os pais têm a oportunidade de tocar nos alimentos quando os preparam. Já as crianças, quando comem, é natural que queiram ter contacto com a textura e não só com o sabor”, explica ao PÚBLICO esta especialista.

A também responsável do Serviço de Pediatria do Hospital de Braga alerta, contudo, que “devem sempre ser oferecidas todas as gamas de alimentos”.

“Uma criança precisa de ter pelo menos 12 vezes contacto com um sabor para se habituar”, diz, “e o maior risco de obesidade surge nas crianças a quem só é apresentado o que gostam”.

 

 

 

‘Plano de ataque’ para crianças com falta de concentração

Abril 3, 2017 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Texto da http://activa.sapo.pt/ de 20 de março de 2017.

Sentam-se à frente do livro e… nada. Daí a cinco minutos, não se lembram de patavina. Os pais inquietam-se, os professores desesperam. Mas são as crianças as mais perdidas nisto tudo.

Quase todos os pais se queixam do mesmo: “Ai o meu filho é tão cabeça no ar… Ele até podia ter boas notas, mas não consigo que se concentre.” Uma das causas da falta de concentração é óbvia: eles têm, basicamente, muito mais distrações do que nós tínhamos. “Recebem tanta informação visual desde que nascem que o seu cérebro não está preparado para a gestão de tantos estímulos”, explica a psicóloga Ana Manta, no livro ‘Filho, presta atenção’ (Clube do Autor). “De certa forma, podemos dizer que as estamos a ‘deixar loucas’. O mais natural é que a sua capacidade de concentração se disperse para dar atenção a tanta coisa, não conseguindo focar-se no mais básico.” Paralelamente, há a valorização de um conjunto de competências que não são as mais importantes para o desenvolvimento das crianças. “É mais importante uma criança saber respeitar as regras de um jogo do que saber escrever o nome dos familiares aos 4 anos.” Mas a maioria de nós valoriza sobretudo as competências ‘escolares’.

Ou seja, muitas vezes não é que a criança não esteja concentrada: ela está é concentrada noutras coisas. “O número de solicitações tem um lado positivo, que é a diversidade de experiências”, nota Vítor Cruz, técnico de reabilitação e desenvolvimento especial do SEI (Centro de Desenvolvimento e Aprendizagem). “Mas se não for bem gerido arrisca-se a tomar conta de toda a vida da criança, que se perde em atividades muitas vezes sem interesse. Claro que este controlo é difícil de concretizar, mas é um dos desafios de hoje não só para os pais mas para a sociedade em geral, porque todos nós estamos a contribuir para que as crianças sejam mais superficiais e mais consumistas, para que se percam em coisas sem interesse. Está na nossa mão ajudar a travar isto.” E como? “Não é preciso nem desejável controlar tudo e estar sempre em cima, mas sim encontrar um equilíbrio através de horários e responsabilização da criança.”

Desconcentrado ou hiperativo?

Como distinguir se uma falta de concentração é ‘normal’ ou se há outros problemas por diagnosticar? Pode existir uma causa neurológica ligada ao défice de atenção. Mas saber se uma criança é hiperativa só se consegue com a ajuda de um técnico. “As crianças estão hoje mais agitadas, mas nem todas precisam de Ritalina [medicamento à base de metilfenidato usado para o Déficit de atenção e hiperatividade]”, afirma a pedopsiquiatra Ana Vasconcelos. “Esta agitação dos miúdos tem de ser contextualizada globalmente. Há hoje em dia uma insatisfação geral em que as pessoas julgam mais do que compreendem. Pensamos muito mais depressa e acabamos por desenvolver recursos motores para lidar com isto: há tantos estímulos visuais que o corpo tem de se mexer. É o caso daquelas pessoas que estão sentadas numa reunião mas não param de mexer o pé ou bater com a caneta na mesa. E as crianças também se tornam mais agitadas.”

Há uma lógica social por trás disto: a sociedade de consumo e de concorrência, em vez de nos orientar o cérebro para a paz, faz com que estejamos sempre na defensiva, ou seja, o cérebro é muito menos capaz de estar sossegado a aprender qualquer coisa. E isto passa para os miúdos? “Claro que passa. Os miúdos têm de ter positivas à força, os professores têm cada vez mais alunos e portanto têm menos paciência, os pais pressionam, e tudo se conjuga para que se procurem as soluções mais fáceis, como a Ritalina. Que também não é nenhum papão, há casos em que de facto ajuda.”

A partir de quando é que a receita? “Eu costumo pedir uma análise aos neurotransmissores. Mas o mais importante, quando se toma uma droga, é que as pessoas sejam donas dos seus efeitos, ou seja, a toma de uma droga tem de ser feita com consciência. Todos percebemos se um medicamento nos está a ajudar ou não. Tenho colegas que medicam ‘para despachar’. Mas a hiperatividade não é uma doença, é um sintoma de que algo não está ajustado como deveria. É como a crise (risos). É fundamental que se saiba o que andamos a fazer e porquê.”

Aprender a ensinar melhor

Ora então, se o meu filho não é hiperativo, vamos saber que outras coisas podem estar a correr mal. Às vezes eles estão simplesmente… cansados. E desmotivados. Por volta dos 10 anos, a curiosidade da infância já foi destruída. “Na maior parte das vezes, estamos a ensinar à criança coisas que ela não quer aprender e que não percebe porque é que tem de aprender. É estar a remar contra a maré”, nota Vítor Cruz. “O esforço intelectual é muito desgastante, e além disso raramente este esforço é feito de maneira divertida e integrada no quotidiano. Se houvesse possibilidade de a criança aprender indo ao supermercado com os pais, lendo qualquer coisa para a mãe ou mesmo vendo televisão, em vez de sentada e quieta, a aprendizagem seria mais efetiva, porque o nosso cérebro aprende mais pela experiência do que passivamente. Essa aprendizagem não é uma perda de tempo. E não é por estar sentado duas horas com o manual de matemática que ele vai aprender efetivamente.”

Os TPCs exaustivos não ajudam. “Mas tudo pode ser discutido, podemos encontrar um consenso. Perpetuam-se muitos comportamentos só porque sempre foi assim, sem se pensar se estão ou não a ser efetivos. Mas há muitos professores abertos à mudança. Portanto, com boa vontade, até se pode chegar a um acordo.”

O que os pais podem fazer: em vez de os massacrar com mais aprendizagens sentadas, tirá-los de casa e tentar que haja mais atividades ao ar livre, por exemplo. “Aprende-se imenso a jogar à bola, que é a vida experienciada e não memorizada, mas nós não consideramos isso uma competência”, explica Vítor Cruz. “Aprende-se sempre mais pelo fazer do que pelo ouvir, temos de nos lembrar sempre disso e sempre que possível, incorporá-lo na vida da criança. Agora, quando a criança apenas faz mais do mesmo, que é ficar sentada à mesa, por um lado estamos a negligenciar a experiência corporal e a nossa ligação com o mundo, e por outro esquecemos o ditado ‘mente sã em corpo são’. Como podemos aprender se somos frágeis, temos pouco oxigénio e músculos pouco desenvolvidos?”

Menos telemóveis e mais recompensas

Lembra-se dos tais ‘muitos estímulos’ e da forma como se podiam controlar? Até podemos achar que isso dá muito trabalho: mas o importante é ir com calma.

“Fez-se um estudo em que algumas crianças foram privadas de ir à Internet durante um dia”, conta Vítor Cruz. “Tiveram comportamentos de medo, de insegurança e de privação. Depois, uns foram fazer os trabalhos, outros foram ler, outros procuraram outras atividades. Portanto, o facto de ter menos net, menos telemóveis, etc., obriga a procurar alternativas.” O segredo para isto funcionar: não ser radical. Se proibir a net durante a semana toda, isto não vai funcionar. Mas se o fizer durante duas horas, talvez eles encontrem mais com que se entreter.

Outra via, algo polémica, é a da recompensa: “Podemos dizer ‘se tu fizeres isto, tens aquilo’. Isto é estar a comprá-los? Não é: ficamos todos a ganhar. O prémio pode ser imediato, mas se ele aprender, é uma mais-valia para o futuro. Eles devem aprender apenas por aprender? Isso é muito bonito mas não faz sentido. Pense lá: quantos de nós trabalham sem serem pagos? Se nós não trabalhamos de graça, a criança também pode ser recompensada, e quanto mais novas são, maior a necessidade deste reforço imediato, para vincular a recompensa à ação.” Se já a está a dizer ‘ai comigo ninguém fez isso’, tem muita razão. Mas também o mundo deles é muitíssimo diferente do que foi o nosso. “Se eu não conseguir colocar-me no lugar do meu filho, não vou perceber as dificuldades dele. Isto é um desafio tremendo. Assim como ensinar-lhes a eles a pôr-se no lugar dos outros. Valorizamos muito a inteligência escolar e muito pouco a emocional. Não só não nos preocupamos em que o nosso filho se torne uma ‘boa pessoa’ como até nos orgulhamos quando ele bate nos outros.”

Para resumir, eu tenho uma criança cabeça-no-ar. Qual é o plano de ataque imediato? “Perceber como é a vida dela, como ela se dá com os professores e os colegas, de que é que gosta mais, como aprende melhor, se precisa de ir dar uma volta antes de fazer os trabalhos ou prefere atacá-los logo. Perceber se há situações emocionais pontuais, uma mudança na escola, um problema em casa. E depois, ter calma e não a stressar como nós stressamos.”

Estamos a fazer demasiada pressão?

Será que a origem da falta de concentração deles é o nosso próprio stresse? “Às vezes, a nossa pressão sobre eles é que prejudica a concentração”, explica o técnico Vítor Cruz. “Eles estão tão conscientes das expectativas dos pais que desistem por vezes antes mesmo de tentar, porque têm medo à partida de não conseguir. Porque se alguém não faz qualquer coisa bem feita, não é porque não quer, não faz porque não sabe ou não consegue. Portanto, temos de descobrir a razão por trás disto.”

4 ideias Para Motivar

Segundo a Psicóloga Ana Manta, autora do livro ‘Filho, Presta Atenção’

1. Pôr um relógio de ponteiros na mesa dos trabalhos de casa, negociando um período de tempo para os fazer. Se terminar mais cedo, o resto do tempo é passado a praticar uma atividade de que a criança goste.
2. Ter tudo pronto para trabalhar: assim ela não tem de se levantar para ir buscar nada.
3. Criar um cartão em que os pais fazem uma rubrica de cada vez que os trabalhos forem feitos sem reclamar. Completado o cartão, ganham tempo para atividades com os pais.
4. Jogar jogos de tabuleiro com eles. É uma das melhores formas de treinar a concentração.

 

 

 


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