“Automutilações são um flagelo entre os jovens”

Abril 28, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Jorge Humberto Costa ao https://ionline.sapo.pt/ de 26 de abril de 2017.

Marta Reis

Jogo que está a causar alarme incentiva os jovens a cortarem-se. Psicólogo escolar alerta que este comportamento tem vindo a aumentar entre os adolescentes portugueses. Jovens instáveis emocionalmente são os mais vulneráveis mas outros fazem-no por imitação ou para se integrarem no grupo.

Entre os 50 desafios do jogo Baleia Azul, a maioria visa levar os jovens a cortarem-se ou usarem objetos com lâmina para escrever na pele. Embora este jogo só agora comece a causar preocupação por cá, o fenómeno das automutilações entre adolescentes tem vindo a ser estudado e os últimos dados nacionais sugerem que dois em cada dez jovens do 8.º ano e 10.º ano já se magoaram de propósito, a maioria quando se sentia triste e “farta”. Jorge Humberto Costa, psicólogo escolar no Agrupamento de Escolas de Valongo e membro de um grupo informal que junta peritos nesta área, a plataforma Psi Escolas, diz ao i que as automutilações são um flagelo nas escolas que importa despistar precocemente e defende que pais e professores devem estar alerta.

Já tinha conhecimento deste jogo?

Não, mas o que sabemos de há uns anos para cá é que há alunos que participam neste tipo de jogos para experimentar diferentes estágios de dor. Tivemos relatos há dois ou três anos de um jogo em que o culminar era os alunos ficarem suspensos, agarrados pela pele, por exemplo com anzóis. São fenómenos que começam nas redes sociais e em que o problema é acontecerem fora das escolas.

E até que ponto as escolas estão preparadas para despistar estes casos?

Como as automutilações no geral, acaba por ser complicado a deteção porque os alunos tendem a fazê-lo em zonas do corpo que não são visíveis, como o tornozelo ou a coxa. Mas a partir do momento em que as situações são sinalizadas, é fácil iniciar o trabalho com os alunos e envolver as famílias. O ponto que nos preocupa sempre mais é a identificação deste tipo de comportamento.

Como se poderia melhorar o despiste? A falta de psicólogos nas escolas é um problema?

Claro que a falta de psicólogos é sempre um problema. Hoje continuamos a ter um rácio de um psicólogo por vezes para mais de 2000 alunos com a dificuldade de os agrupamentos escolares serem muito distendidos, com escolas longe umas das outras. O que tentamos fazer é ter um trabalho estreito com os professores de Educação Física, que são quem vê os alunos com menos roupa, com o fato de treino ou o calção.

E já existe essa sensibilização? Há orientações da tutela?

Creio que existe sensibilização dos professores. Mesmo que não haja por parte do ministério orientações claras sobre isto, os psicólogos que trabalham no terreno já fazem esse trabalho de forma insistente e reúnem-se regularmente com colegas. Por outro lado, por exemplo no meu agrupamento temos já academias de pais, em que falamos com os encarregados de educação. O ministério pode sempre ter uma maior intervenção, mas isso não justifica inércia porque provavelmente não iria trazer nada de novo. Nesse aspeto o que faltava era aproximarmo-nos de um rácio de um psicólogo por mil alunos e termos pelo menos dois psicólogos nos agrupamentos maiores e também equipas multidisciplinares onde a intervenção dos assistentes sociais fosse valorizada.

O PCP apresentou recentemente um projeto de lei para que seja definido o regime jurídico da psicologia em contexto escolar e denuncia que o último concurso para a admissão nesta carreira é de 1997.

Vamos também nas próximas semanas voltar a dinamizar o grupo Psi Escolas que tem funcionado mais no Facebook para promover esse reforço da psicologia nas escolas.

Como o atual rácio, como funciona a intervenção? Chegam apenas aos casos mais graves?

Acabamos por dedicar-nos aos casos mais graves, ainda que em termos de prevenção existam estes dois grandes vetores de preocupação que são bullying e as automutilações.

Os últimos dados para Portugal do inquérito Health Behaviour in School-aged Children” (HBSC) revelaram que, em 2014, 20,3% dos jovens tinham-se magoado pelo menos uma vez a si próprios nos 12 meses anteriores.

Penso que é um número que até pecará por defeito. É um flagelo que temos nas escolas.

O que leva os jovens a ter estes comportamentos?

Podemos dividi-los em dois patamares. Temos por um lado os alunos que usam a dor física para suportar a dor emocional e depois temos outros alunos que o fazem por imitação. Como os primeiros o fizeram e deram um feedback positivo, os segundos que teoricamente não iriam ter esse comportamento acabam por fazê-lo também.

Acontece mais em que faixas etárias?

Na casa dos 13 e 4 anos.

Os dados nacionais indicam que é um comportamento mais recorrente nas raparigas.

Sim, ainda que os rapazes também o façam.

Não sendo um comportamento saudável, colocam a vida em risco?

Na maioria das situações não existe essa intenção, só por descuido ou erro de cálculo. Mas o problema é que é um comportamento progressivo e como percecionam bem-estar acabam por ir fazendo com mais frequência. O perigo é mais por aí, até porque depois acaba por ser a primeira resposta que têm quando são confrontados com uma situação problemática. É quase uma resposta primária.

E é algo que associem a algum tipo de aluno, mais isolado, com piores notas?

É um comportamento transversal e daí o problema da imitação. Se um aluno líder tiver esses comportamentos, há maior probabilidade de mais alunos serem seguidores.

Quando detetam uma situação e os pais são chamados, há surpresa?

Sim, muitos deles não fazem mesmo ideia. Claro que depois reconhecem que havia um afastamento emocional dos filhos e isso é um fator de risco importante.

Uma das jovens com quem falámos sobre o jogo Baleia Azul dizia-nos ter receio de não ser forte o suficiente para resistir à pressão psicológica. Mesmo jovens mais maduros podem ser vulneráveis neste tipo de situações?

O problema é que não conseguimos saber, em determinados alunos, até que ponto a força do grupo tem poder suficiente ou não. Se a grande maioria dos colegas tiver um determinado comportamento, vão-se sentir afastados do grupo e na adolescência esse afastamento é doloroso. Eles referem-nos muitas vezes aquela ideia de não conseguirem fazer parte das conversas. Se a automutilação ou qualquer outro comportamento for um tema de participação e conversa, podem sentir que não aderir é um fator para a rejeição. Ou saem do grupo ou por vezes o sentimento de pertença obriga-os a determinados rituais. Nesse sentido ninguém está imune.

Que mensagem passaria aos pais?

O melhor que podemos dizer aos pais é para desligarem a televisão na hora das refeições e conversarem. Se percebem que os miúdos têm alguma alteração do comportamento por exemplo ao nível do sono ou da própria alimentação devem tentar perceber. Outra preocupação pode ser verificar com alguma frequência quando saem do banho se há alguma marca nos braços ou nos antebraços.

Não é uma recomendação alarmista?

Às vezes é preferível sermos um bocadinho mais alarmistas e identificar os problemas do que facilitarmos e vermo-nos com uma situação mais difícil de resolver. Numa frase, diria que os pais devem procurar estar emocionalmente próximos dos filhos e pensarem na sua disponibilidade e como às vezes tentam comprar emocionalmente os filhos. Nota-se a diferença nas crianças que têm os pais presentes.

Esse afastamento dos pais é algo que tem notado?

Trabalho nas escolas há 18 anos e sempre houve situações de automutilação. Sentimos que está a aumentar da mesma forma que tudo tende a aumentar, a partilha das gratificações na redes sociais é muito mais rápida. Por outro lado, os jovens estão emocionalmente mais instáveis. Temos uma sociedade cada vez consumista e eles sentem-se mais frustrados, o que se nota também nas dificuldades vocacionais. Sabemos que hoje em dia a parte social e monetária e os pais para terem mais dinheiro têm de estar mais tempo fora e acabam por compensar os alunos de forma mais material do que emocional.

 

 

 

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