Teresa Sarmento: “Importa pôr os meninos a pensar”

Junho 26, 2015 às 8:00 pm | Na categoria A criança na comunicação social | Deixe o seu comentário
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Entrevista do site Educare a Teresa Sarmento do dia 22 de junho de 2015.

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Mais do que preparar para o futuro, no pré-escolar é preciso dar valor à criança em si mesma.

Andreia Lobo

Mostrou um vídeo onde um grupo de crianças do pré-escolar fazia uma simulação da sua ida à Lua. Um passo gigante para as educadoras e os pais envolvidos na tarefa. Fatos de astronautas, cenários lunares. Até um foguetão a descolar em contagem regressiva. Bem visível no ecrã de um computador. Orientadora de estágios em educação de infância e docente na Universidade do Minho, Teresa Sarmento surpreendeu a audiência de um congresso onde se falava da escola do futuro ao dar visibilidade ao trabalho que se faz – e que entende deve ser feito – no pré-escolar.

Começou a carreira como educadora de infância na década de 80 e, desde então, testemunhou muitas mudanças na forma como se olha para as idades dos zero aos seis. “Quando fiz o meu curso, entre 1975 e 1978, só havia um livro de Francesco de Bartolomeis, traduzido em português, sobre a educação de infância enquanto processo.” Defende que o poder para a inovação, neste nível de ensino, não é apanágio exclusivo dos recém-chegados à profissão. Às estagiárias recorda algo que já vem escrito em muitos livros. Mas que a sociedade parece não estar ainda plenamente apta a fazer: “Faz com que cada criança tenha uma vida de grandes experiências significativas.” Em entrevista ao EDUCARE.PT, Teresa Sarmento recorda aos adultos a importância de ser criança.

EDUCARE.PT (E): Cresce a ideia de que é no pré-escolar que se incutem as competências necessárias para o futuro…

Teresa Sarmento (TS):

Desde que estejamos de acordo sobre quais são essas competências… No jardim de infância importa pôr os meninos a pensar.

E: E ensinar a ler e a escrever? TS:

O 1.º ciclo define-se, em termos gerais, pela aquisição da leitura e da escrita. Porque haveríamos de fazer isso antes? As crianças gostam, e não lhes faz mal, aos 4 ou 5 anos de saber escrever o nome. Mas não há interesse no ensino explícito da escrita e da leitura. Até porque não vai avançar em nada. Quando esses conhecimentos já vêm do jardim de infância, se não há uma continuidade de trabalho, os primeiros tempos na escola são de absoluta desilusão.

E: Como vê a falta de creches dos 0 aos 3 anos?

TS:

Há alguma demissão do Estado face a estas idades. As creches são muito caras. O ratio adulto criança é, necessariamente, baixo e o número de horas que as crianças passam nas instituições é mais elevado nessas idades. O Estado escuda-se na defesa de que cabe às famílias educar os seus filhos, mas não dá resposta sobre como isso é possível nas condições atuais. Com o número elevado de horas de trabalho que em Portugal se fazem, sobretudo entre as mulheres, quando em comparação com outros países. E, portanto, tem de haver aqui compatibilidades. Ou seja, o Estado devia apoiar a criação de creches porque há uma falha muito grande e, ao mesmo tempo, investir em políticas de família permitindo um tempo mais prolongado de acompanhamento das crianças.

E: O que é preciso mudar?

TS:

O Ministério da Educação e Ciência não tem responsabilidade com as crianças dos 0 aos 3 anos, por isso, há uma falta de política educativa, bem como de apoio às famílias. É preciso uma conjugação entre educação, família e trabalho que permita que as crianças tenham o acompanhamento adequado. Também não acho que a melhor solução seja sempre estar na creche das 8h às 20h. Tem de haver uma política articulada que garanta às crianças as oportunidades de crescerem em parte do seu tempo em família. Isto implica uma política que garanta a oportunidade de as famílias se organizarem de forma a terem parte do seu tempo para se dedicarem às crianças.

E: O que lhe ocorre quando ouve governantes dizer que é preciso aumentar a natalidade… TS:

Vindos da governação, esses apelos são um contrassenso. Dizem isso mas depois não arranjam formas de garantir que os jovens possam ter filhos. Ainda antes de haver equipamentos de apoio às crianças, faltam às famílias condições de estabilidade laboral.

E: A infância já não é vista como uma passagem para a idade adulta.

TS:

Houve um reconhecimento que as crianças são seres humanos com capacidade de aprendizagem e de intervenção. Descobriu-se a importância dos 0 aos 6 anos em muitos âmbitos. Pensava-se que havia uma idade a partir da qual cada pessoa era aprendente. A evolução das ciências provou que não. Na pedagogia, a Escola Nova veio realçar a pertinência de se atender e entender a criança como um ser em desenvolvimento e em interação. Mas a própria designação de pré-escolar continua ligada à ideia de passagem. E, em muitos setores, a infância ainda é vista como uma fase necessária para se chegar a outra que ‘supostamente’ é mais importante.

E:“Viver com as crianças na idade em que elas estão.” É algo que defende. Quer precisar o que significa?

TS:

Com as pressões sobre os jardins de infância e as educadoras, e analisando as políticas gerais e o pensamento dos nossos governantes, há muito essa ideia de que é necessário preparar as crianças para serem adultas. Ignora-se o valor da criança em si mesma. Permanece a visão da criança como capital humano para produzir, ligada às teorias e às práticas neoliberais. Por isso, é urgente olhar para a criança como um ser humano numa fase específica da vida. E até mudar conceitos, falar em educação de infância em vez de educação pré-escolar.

E: É muito crítica do modo como o tempo das crianças está organizado e diz que elas estão demasiado ocupadas…

TS:

Há todo um domínio muito grande sobre a criança. Que desde logo começa com a pressão de se tirar um bebé da cama para ir para a creche. O tempo é demasiado regulado pela vida do adulto. E mesmo nos espaços que, em princípio, são da criança, como o jardim de infância, há uma regulação muito estrita. Aceito que tenha de haver uma certa rotina pedagógica para o funcionamento das instituições. Mas uma parte do tempo tem de ser usado livremente pelas crianças. Para que elas possam brincar como queiram. Não pode haver uma organização rígida, nem sempre tutelada, que impeça as crianças de terem os seus momentos de liberdade.

E: Os adultos esquecem-se que as crianças têm o direito às suas escolhas?

TS:

Esquecem-se muito, até pelas complicações que têm nas suas vidas. E que geram uma colisão de direitos e, sobretudo, de condições de vida entre os adultos e as crianças.

E: Recentemente, esteve em São Tomé e no Brasil. O que importava desses países para Portugal?

TS:

De São Tomé traria a elevada taxa de natalidade. Há tantas crianças que a média por sala em jardim de infância é na ordem das 60. Em Portugal o máximo são 25, mas atualmente já há muitas salas sem crianças. Não têm as condições que as nossas crianças têm. Mas, por exemplo, são muito mais autónomas, porque a adversidade assim as obriga. No Brasil, os profissionais que trabalham com a infância conseguem ligar muito as questões pedagógicas às políticas e sociais. Os educadores em Portugal fazem uma análise das condições pedagógicas mais fechada na escola. Temos de aprender alguma coisa com os brasileiros e criar um sentido de educação que seja mais aberto.

E: Vale a pena investir na carreira de educador de infância?

TS:

Em termos económicos não. Há imensas educadoras formadas sem emprego. Prolongou-se muito a idade da reforma. Antes destas mudanças uma educadora com 55 anos estava reformada, o que permitia a entrada de gente nova. Atualmente, a permanência na profissão prolongou-se por mais 11 anos. Uma diferença muito grande. Por outro lado, em termos de satisfação pessoal, a profissão de educadora é muito enriquecedora. Quem trabalha com crianças tem outra forma de estar, outro bem-estar psicológico, ainda que seja uma profissão muito cansativa.

E: A educadora deve ser uma quase mãe?

TS:

Acho que sim. A questão dos afetos é fundamental. A criança deve sentir na educadora uma proximidade afetiva grande, uma segurança, uma estabilidade, um carinho, um mimo. Tudo isso, sem esquecer o carácter profissional, faz parte da educação de infância. Até porque gostar de crianças não é suficiente. A educadora tem de saber como potenciar oportunidades para o seu desenvolvimento.

E: Que conselho dá às suas alunas quando vão estagiar…

TS:

Entende o estágio como um compromisso forte e uma responsabilidade muito grande. E, no que depender de ti, faz com que cada criança tenha uma vida de grandes experiências significativas.

 

 

1.º Encontro “Novos rumos para a educação de bebés e crianças em creche e jardim-de-infância”

Abril 24, 2015 às 10:12 am | Na categoria Divulgação | Deixe o seu comentário
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rumo

Inscrições até 30 de abril

mais informações:

https://www.facebook.com/events/822666434492000/

 

 

Conferência Direitos da Criança na Educação de Infância : contextos, práticas e desafios”

Fevereiro 23, 2015 às 2:30 pm | Na categoria Divulgação | Deixe o seu comentário
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A Coordenação do Mestrado em Educação Pré-escolar vai realizar uma Conferência sobre o tema “DIREITOS DA CRIANÇA NA EDUCAÇÃO DE INFÂNCIA: contextos, práticas e desafios”, que terá lugar no dia 26 de fevereiro, pelas 17:30 horas, no Anfiteatro da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Setúbal.

A conferencista é Socióloga. Doutorada em Estudos da Criança (Sociologia da Infância) pela Universidade do Minho. Professora Adjunta na Escola Superior de Educação de Lisboa e investigadora do Centro de Investigação em Ciências Sociais da Universidade do Minho. Coordenadora do Mestrado em Educação Pré-Escolar e membro da coordenação do Curso de Especialização em Creche e Outros Equipamentos para Crianças dos 0 aos 3 anos da Escola Superior de Educação de Lisboa, Autora de várias publicações nacionais e internacionais nas áreas dos direitos da criança, com especial enfoque na participação das crianças (Escola Jardim de infância, orçamentos participativos) e na sociologia da infância. Membro do Fórum sobre os Direitos das Crianças e dos Jovens, da European Network of Masters on Children’s Rights e da Mediterranean Network on Children’s Rights.

A entrada é livre.
Todos os participantes terão direito a um certificado de participação.

Escola Superior de Educação (ESE)

  • Correio Eletrónico: info@ese.ips.pt
  • Telefone: +351 265 710 800
  • Telemóvel: +351 968 881 661
  • Fax: +351 265 710 891
  • Endereço Postal: Campus do Instituto Politécnico de Setúbal, Estefanilha . 2914-504 Setúbal

Curso de Especialização de Educação em Creche e outros Equipamentos com Crianças dos 0 aos 3 anos – Escola Superior de Educação de Lisboa

Dezembro 26, 2014 às 1:00 pm | Na categoria Divulgação | Deixe o seu comentário
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curso

A Escola Superior de Educação de Lisboa abre candidaturas para:

CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO DE EDUCAÇÃO EM CRECHE E OUTROS EQUIPAMENTOS

COM CRIANÇAS DOS 0 AOS 3 ANOS

Inscrições de 5 a 30 de janeiro de 2015.

 

 

V Encontro Qualidade em Educação de Infância: a creche e o jardim de infância como espaços de liberdade

Julho 30, 2014 às 12:00 pm | Na categoria Divulgação | Deixe o seu comentário
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v

mais informações aqui

Mais de 80 Projetos para Educação Infantil

Julho 21, 2014 às 8:00 pm | Na categoria Recursos educativos | Deixe o seu comentário
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80

mais informações aqui

Curso de Especialização em Creche – 2ª Fase de Candidaturas de 16 de junho a 11 de julho

Junho 28, 2014 às 3:45 pm | Na categoria Divulgação | Deixe o seu comentário
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curso

Informações:

http://www.eselx.ipl.pt/cursos_esp/cec/

Candidaturas:

http://www.eselx.ipl.pt/cursos_esp/cec/page4/page4.html

A Importância da Educação Pré-Escolar – Infografia

Janeiro 27, 2014 às 1:00 pm | Na categoria Recursos educativos | Deixe o seu comentário
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childvisualizar a infografia completa aqui

II Encontros e Diálogos sobre Educação de Infância 2013/2014

Novembro 28, 2013 às 1:00 pm | Na categoria Divulgação | Deixe o seu comentário
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encontros

Programa Aqui

Escola Superior de Educação de Lisboa
Instituto Politécnico de Lisboa

Campus de Benfica do IPL
1549 – 003 Lisboa

telefone: 217115500
fax: 217166147
e.mail: eselx@eselx.ipl.pt
url: www.eselx.ipl.pt

Estado da Educação 2012 : Autonomia e Descentralização – Relatório do CNE

Abril 12, 2013 às 1:00 pm | Na categoria Divulgação, Relatório | Deixe o seu comentário
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estado

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