Malin Bergström: “Crianças em residência alternada têm melhor saúde física e mental”

Abril 6, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do http://www.dn.pt/ a Malin Bergström no dia 23 de março de 2017.

Céu Neves

Psicóloga clínica e investigadora no Instituto Karolinska, em Estocolmo (Suécia), Malin Bergström tem mais de 20 anos de experiência na mediação em separações.

Há cinco anos que estuda os filhos dos casais com guarda partilhada e diz que estão melhores do que os que vivem apenas com um dos pais. Tem vindo a diminuir a idade das crianças que investiga e prepara-se para trabalhar com os bebés. Esteve em Portugal para a VI Conferência Internacional Igualdade Parental, Século XXI, que decorreu em Santa Maria da Feira.

Qual é o país com mais casais separados que optaram pela guarda partilhada?

É a Suécia. Praticamente metade dos casais separados opta pela guarda partilhada. Nos anos 80 do século passado, a percentagem das crianças que viviam em duas casas era de 2%, em 2013 estava próximo dos 40% e hoje já ultrapassou. No estudo que fizemos com meninos entre os 3 e os 5 anos, verificámos que a residência alternada duplicou. Antes da alteração à lei, em 1998, os filhos eram entregues às mães, mesmo quando estas tinham problemas, nomeadamente mentais. Mas depois dessa mudança, as situações de residência alternada aumentaram significativamente.

Os juízes mudaram rapidamente de atitude? Em Portugal, essa decisão passa por um juiz e , em geral, basta um pai não concordar para não haver residência alternada.

A Suécia é especial porque apenas 2% dos divórcios passam pelos tribunais. Os pais decidem o que fazer em relação aos filhos, encontram eles próprios as soluções após a separação. E a guarda partilhada é muito comum. Entrevistámos pais de crianças com 4 anos ou menos e que nos diziam: “Porque é que tem de ficar apenas com um de nós quando pode ficar com os dois?”

Não existe, também, uma razão económica? Com a guarda partilhada nenhum dos pais tem de pagar uma pensão…

Na Suécia essa questão não se coloca, não há pagamento de pensões em caso de divórcio, também porque há um grande apoio do Estado à infância. Mas é verdade que, em outros países, algumas mães não querem a residência alternada porque perdem direito a essa pensão.

Recomenda a guarda partilhada?

Não faço recomendações ou dou conselhos, sou psicóloga clínica. O que posso dizer é o que tenho concluído das investigações. Nos últimos cinco anos, temos feito estudos com filhos de casais separados e os que têm a residência alternada estão com melhor saúde mental, física e bem-estar do que os que vivem apenas com um dos pais. E, independentemente do tipo de estudos, todos indicam que quem vive apenas com um dos pais está pior: socialmente, fisicamente, a nível escolar, etc.

Em todas as idades?

Sim, estudámos os grupos etários dos 10 aos 18 anos e, mais recentemente, dos 2 aos 5 e tivemos exatamente os mesmos resultados. Algumas vezes, não há diferença entre as crianças com residência alternada e as que estão em famílias que continuam juntas, algumas vezes há diferenças, mas os problemas dos que vivem só com um dos progenitores são muito maiores.

Mesmo quando os divórcios se traduzem posteriormente em relações conflituosas?

O estudo foi efetuado com crianças que residem na Suécia e sabemos que, quando há conflitos, é uma situação extremamente difícil para elas. Não temos conhecimentos suficientes para perceber que, numa situação de conflito, é melhor viver na casa de ambos os pais ou apenas com um. Mas a verdade é que não encontrámos problemas entre essas crianças.

Não se torna complicado ter duas casas, tipos de brinquedos e roupas em duplicado, como muitas vezes acontece?

Exatamente, é o que acaba por acontecer nestas famílias. São dois sistemas familiares que as crianças aceitam e aos quais se adaptam. E é importante que essas crianças tenham os pais próximos.

Qual é a percentagem de crianças em que os pais se divorciam?

Estima-se que 25% a 30% das crianças estejam nessa situação durante toda a sua vida.

Qual é o melhor modelo de residência alternada?

Não sei, talvez com os bebés se pudesse alternar de dois em dois dias ou de três em três, mas nas entrevistas ouvíamos que eram muitas separações. Penso que com as crianças em idade escolar o mais frequente seja de semana em semana.

Quais devem ser as regras para que esses modelos funcionem?

A principal é não prolongar o conflito, é preciso respeitar a criança, ela precisa de ambos os pais. É preciso resguardar as crianças dos conflitos e nunca dizer a tua mãe é isto ou o teu pai é aquilo.

Normalmente, os filhos não comentam o que se passa na casa de um dos pais com o outro progenitor. Verificaram isso?

Sim, acontece mesmo entre as crianças mais pequenas. É uma forma de se protegerem, de salvaguarda.

 

 

 

São crianças, vieram do Afeganistão e o seu projecto de vida passa por Portugal

Abril 6, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 25 de março de 2017.

Cinco crianças e jovens entre os 14 e os 18 anos chegaram na quinta-feira a Portugal. São rapazes que estavam sozinhos na Grécia. Nos últimos dias jogaram à bola e dormiram “muito bem” numa cama a sério.

Ana Dias Cordeiro

Vieram como refugiados do Afeganistão. Três estavam havia “muitos meses, um ano”, num campo perto de Atenas, e dois viviam numa residência de acolhimento para refugiados, conta Lora Pappa, fundadora da ONG grega METAdrasi — Acção para a Migração e o Desenvolvimento, que os acompanhou na viagem de avião a partir da Grécia. Chegaram a Portugal na quinta-feira. São meninos sem ninguém. Rapazes que podem ou não ser órfãos, que talvez tenham um pai ou uma mãe ainda vivos, mas não o sabem, porque se perderam deles no Afeganistão ou na travessia entre a Turquia e a Grécia, fugindo de situações de conflito e de perseguições.

Dois dos cinco rapazes são irmãos. Um com 14 anos é o mais novo do grupo, o outro com 18 anos é o mais velho. Quando saíram do Afeganistão eram muito mais novos. Por serem nacionais daquele país, não estavam abrangidos pelo programa de recolocação de refugiados da União Europeia (UE).

Correram riscos na travessia de barco entre a Turquia e a Grécia, muitos sozinhos. E viveram em campos de refugiados ou residências, sem perspectivas de lá saírem. Agora Portugal assume a sua protecção.

“Os campos não são lugares para crianças desacompanhadas”, disse Lora Pappa, cuja ONG, criada em 2010, garante apoio a 700 menores refugiados que chegaram sozinhos à Grécia. “A situação é muito má. Temos de passar esta mensagem aos outros países, aos outros governos”, de que é urgente tirá-los dos campos. “Não há perspectivas” nem para terem um projecto de vida na Grécia nem para regressarem aos seus países, porque estão sozinhos, acrescenta, insistindo que Portugal é “um exemplo excelente” do que deve ser feito nesta situação, ao criar as condições para os receber.

Para sair, as crianças necessitaram da autorização de um procurador da Grécia, país que era responsável pela sua protecção. Um procurador português autorizou a sua entrada. E ficam agora sob a guarda do Estado português.

Formalmente são requerentes de asilo, com financiamento garantido pela METAdrasi que lhes permite ter a mesma subvenção que um refugiado adulto através do programa de recolocação da UE.

Os cinco estão acolhidos num lar de infância e juventude ligada à Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade (CNIS) na zona da Grande Lisboa. A instituição vai, para cada um deles, “definir um projecto educativo”, que pode ser no ensino regular ou profissional, explicou Ana Maria Rodrigues da CNIS. Começam em breve com uma formação de português intensivo. E haverá ocupação de tempos livres. “Hoje [ontem] de manhã já estavam a jogar à bola. Conhecem o Cristiano Ronaldo”, acrescenta Ana Rodrigues.

“Demos esperança a estes meninos”, continua Lora Pappa. Pelo seu trabalho de apoiar a integração de centenas de refugiados na Grécia (crianças ou adultos) ou a sua ida para países europeus onde têm familiares, Lora Pappa venceu o Prémio Norte-Sul 2015 do Conselho da Europa.

“Coisas que nunca dirão a ninguém”

Sobre estes jovens que chegaram a Portugal, sem família em qualquer país europeu, diz: “Damos-lhes um pouco e eles dão-nos imenso. No Afeganistão, na Turquia, durante a travessia de barco ou nos campos na Grécia, eles passaram por coisas que nunca dirão a ninguém.”

Um novo futuro começa agora, para eles. É o que se pretende. Do campo de refugiados foram para o avião e do avião foram para uma casa. Pela primeira vez, em muitos meses, quase um ano, dormiram numa cama. “Dormiram muito bem, e muito tempo”, conta Lora Pappa, sorrindo.

Até meados de Outubro, havia cerca de 2500 crianças e jovens não acompanhados na Grécia, que chegaram sozinhos ou trazidos por um adulto que “dizia ser tio deles, mas não era”, conta Lora Pappa.

Portugal foi o primeiro país a garantir em parceria com o Governo grego a vinda de crianças refugiadas não acompanhadas que estavam excluídas de se candidatar ao programa de recolocação da UE.

 

 

 

 

A história de Mariana (ou como manter o seu filho seguro no mundo virtual)

Abril 6, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto da http://visao.sapo.pt/ de 26 de março de 2017.

John Holcroft/ Getty Imagens

Luísa Oliveira

O rapto de uma criança no Norte do País lembra-nos aquilo que nunca devíamos esquecer: o mundo virtual esconde perigos bem reais. Mas há formas de os evitar.

Dia 3 de março, Mariana Leirinha, 13 anos, sai de casa em Beiral do Lima (Ponte de Lima) sozinha, para ir para a escola. Mas não chega ao destino. Ao final do dia, os pais alertam a Polícia Judiciária (PJ). A menina é encontrada uma semana depois, numa casa perto de Aveiro. Lá dentro está Manuel Fernandes, 24 anos, referenciado pela prática de crimes de natureza sexual envolvendo menores. Fica em prisão preventiva pela suspeita de rapto agravado. A menina, aparentemente bem, regressa a casa. Tudo indica que Mariana tenha sido aliciada através da internet por este homem, que tinha um perfil falso no Facebook, usando a fotografia de um modelo francês. A história não é original. No ano passado foram vários os casos que chegaram a público dando conta de homens que utilizam o mesmo meio para abusarem de menores. De pouco servem as recomendações: o estudo de 2013 Teens, Social Media and Privacy, do americano Pew Research Center, diz que 71% dos adolescentes que usam o Facebook revelam o nome da sua escola ou da cidade onde vivem, 53% o e-mail, e 20% o número de telemóvel.

Rute Agulhas, 43 anos, psicóloga clínica e forense, nota que os miúdos se inscrevem nas redes sociais com o consentimento dos pais. “Os adultos não têm a noção do perigo e supervisionam pouco”, nota a profissional, que há um ano criou o jogo de tabuleiro As Aventuras do Búzio e da Coral, para ajudar a educar crianças dos 6 aos 10 anos, com perguntas validadas pela PJ. “O tema sobre o qual eles revelam mais desconhecimento é a internet.” No verão sairá uma aplicação para adolescentes, para que aprendam a lidar com situações de risco. Pode ser uma ajuda, já que, como nota Tito de Morais, 54 anos, o mentor do projeto Miúdos Seguros na Net, “na adolescência, os filhos tendem a dizer que sim aos pais e depois comportam-se de maneira a agradar ao grupo”.

Vidas seguras dentro (e fora) do ecrã

É possível estar nas redes sociais sem medos – desde que se sigam algumas regras

Medidas elementares

– Evitar a impulsividade típica das redes. É tão fácil aceitar uma amizade como rejeitá-la.

– Ser desconfiado e cético em relação às amizades que se aceitam de pessoas que não se conhece – e o critério da manada, leia-se muitos amigos em comum, não basta. Pode significar apenas que muitos, antes de nós, já cometeram o mesmo erro.

– Averiguar o perfil de quem nos pede amizade. Começa-se por ver se é recente ou não, se está identificado em fotografias de outras pessoas ou se as suas imagens foram todas descarregadas no mesmo dia.

– No caso de se desconfiar da fotografia de perfil (se são de pessoas muito bonitas e elegantes, por exemplo), pode-se descarregá-la e pesquisá-la nas imagens do Google para verificar se ela existe noutro local na internet.

– Nunca publicar fotografias pessoais com localização em tempo real, com a farda ou o cartão da escola visível, ou em poses sexy, que possam dar a ideia errada.

– Tapar a câmara do computador com um autocolante, porque ela pode ser ativada à distância e esta é a única forma segura de não sermos filmados sem consentimento.

– Não marcar encontros presenciais com amizades que se fazem nas redes sociais. Caso se opte por quebrar esta regra, ir acompanhado, avisar outras pessoas do local (que deve sempre ser público) e garantir que o telemóvel está à mão para pedir ajuda.

Medidas intermédias

– Exigir a password aos filhos e espreitar os perfis deles em caso de desconfiança.

– Falar com eles sobre os perigos e deixá-los à vontade para contarem se alguém os abordar de forma estranha nas redes sociais.

– Criar a norma de que o computador só pode ser usado num sítio por onde todos passem.

Medidas drásticas

– Instalar software de controlo parental sem que os menores saibam. Mas é algo intrusivo, que regista todos os passos dados no computador – há o risco de eles descobrirem e passarem ao modo clandestino ou a usar outro dispositivo. Tito de Morais, do projeto Miúdos Seguros na Net, só o aconselha em caso de desconfiança grave. “O melhor software é ensinar-lhes a autodefesa, ajudá-los a descobrir as suas vulnerabilidades.”

 

 

 


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