Assim que o Governo pôs em prática as primeiras medidas de confinamento, faz esta sexta-feira um ano, foram criadas várias linhas para dar apoio psicológico à população. Outras já existiam. Deram resposta a grupos específicos – crianças, idosos, estudantes universitários, etc.. Há perguntas que não saem da cabeça daquelas pessoas que todos os dias, várias vezes ao dia, pegam no telefone para ouvir outras. Para ajudar essas pessoas. Pessoas que nem sempre conseguem ajudar. Um ano depois do início do primeiro confinamento, o Expresso ouve as histórias daqueles que no último ano ouviram as histórias dos outros – são relatos impressionantes. Este é um confinamento que existiu nas linhas telefónicas. Na solidão e por vezes no desespero das linhas telefónicas
— Quando é que tudo isto vai terminar?
— Será que vou perder o meu emprego?
— Quero tanto sair de casa mas tenho medo, será que posso?
Perguntas como estas foram muitas vezes ouvidas pelos voluntários que trabalham na SOS Voz Amiga, a mais antiga linha telefónica de prevenção do suicídio em Portugal, durante os primeiros meses de confinamento, no ano passado. Em todas essas chamadas, “independentemente da situação colocada, existia uma grande carga de ansiedade e receio pelo futuro”, recorda Francisco Paulino, presidente da associação responsável pela linha. Também existiram, “pelo menos no primeiro confinamento, situações antagónicas”, diz. De um lado “pessoas ansiosas e tristes por não poderem abraçar os seus mais próximos” e do outro “pessoas que se queixavam de já não terem paciência para passarem tantas horas em comunhão de espaço com os seus”.
A “tipologia das chamadas”, como diz o presidente, “não se alterou muito” face às situações e relatos que chegaram aos voluntários da linha antes da pandemia — apesar de o número de chamadas ter crescido muito substancialmente entre 2019 e 2020. De março de 2020 até ao momento foram atendidas cerca de 11 mil chamadas (no período homólogo anterior tinham sido atendidas cerca de sete mil). “Continuámos a ter apelos envolvendo doenças mentais, principalmente depressão, solidão, problemas familiares e afetivos, problemas económicos e ideação suicida.” No entanto, continua o presidente, “quando os problemas económicos resultantes do confinamento começaram a criar desespero”, as chamadas de pessoas que diziam “estar a passar fome mas ter vergonha de o assumir” começaram também a aumentar. Antes da pandemia como agora, quem mais telefona são as mulheres, “embora o número de chamadas no masculino se tenha aproximado nos últimos dois anos”. E são também elas quem, sobretudo as que têm mais de 65 anos, mais se queixam de “solidão”.
— Estou aqui sozinha, sinto-me muito sozinha.
Também à SOSolidão, da Fundação Bissaya Barreto, têm chegado sobretudo chamadas de mulheres com aquelas idades e que são viúvas e vivem sozinhas nas cidades. Não é só a “solidão” que as afeta — esse acaba por ser um problema mais dos meios rurais, onde “há vizinhança e sentimento de comunidade mas ao mesmo tempo um grande afastamento em termos sociais e geográficos” —, são também ou sobretudo questões “relacionadas com a saúde mental”, explica Vanessa Girão, que é psicóloga e trabalha na linha criada em abril do ano passado. “Temos reparado que há um elevado número de sintomatologia depressiva e ansiedade. E também temos recebido um grande número de pedidos de ajuda relativamente a pessoas com ideação suicida.”
De 14 de abril do ano passado a 14 de fevereiro de 2021, a linha recebeu 435 chamadas. O maior aumento foi na altura do Natal, “quando muitas pessoas ficaram privadas de estar com a família e amigos ou não viram os filhos porque estes residem no estrangeiro e não puderam viajar para Portugal”, e na passagem do verão para o outono. “Aqui poderá ter que ver com a depressão sazonal, com a transição entre estações, algo que tem sempre um peso grande. Já tínhamos percebido isso com o SOS Pessoa Idosa”, diz, referindo-se ao programa de intervenção social criado em 2014 pela referida fundação.
Em alguns casos que chegaram à linha já havia sintomas depressivos antes da pandemia (esta veio agravá-los), noutros não. E ainda que seja difícil ou arriscado traçar uma linha direta entre esses sintomas e outros e o vírus, a verdade é que a palavra “solidão” aparece em grande parte das chamadas, ainda que mais nas palavras dos idosos que vivem nas zonas rurais do que nas palavras dos outros. “Há um grande isolamento social devido ao confinamento. Muitas pessoas perderam os contactos que tinham e deixaram de frequentar os centros de dia. Houve uma quebra dos laços familiares e de amizade.” Vanessa Girão conta ter ouvido vezes sem conta a frase “estou aqui sozinha, sinto-me muito sozinha”. “Normalmente é sempre frisado esse sentimento de solidão.” E se a situação melhorou nos últimos meses e as notícias sobre infetados, mortos e internados já não são recebidas com espanto ou choque, isso ainda não se refletiu propriamente nas chamadas que têm sido feitas para a linha. “Na verdade, temos recebido cada vez mais contactos. Ainda estamos em confinamento, num período prolongado de confinamento, e as pessoas sentem-se cada vez mais sozinhas e cada vez mais isoladas.” Nem ‘luz ao fundo do túnel’ por causa das vacinas nem em lado nenhum. “Não, não notamos essa luz.”
— A minha vida já estava triste, mas agora pode acabar.
Quem também ainda não vê bem essa luz são as crianças, se virem é um “pirilampo”. “Há um caminho para trás e o tempo pesa”, diz Manuel Coutinho, coordenador do serviço SOS Criança, que há vários anos mantém uma linha de apoio psicológico. A realidade dessas crianças “não mudou, continuam confinadas”, e a esperança é algo demasiado abstrato ou vago para elas. “As coisas até podem estar melhores, mas eu continuo aqui, fechada em casa.” É assim que muitas pensam, diz o coordenador. Olhando para trás, houve contudo uma mudança nos relatos que chegaram à linha. “Passámos de uma fase de tensão e conflitualidade familiar para outra em que há ainda alguma tensão e conflitualidade mas há também sintomas ansiosos e depressivos.” Nota-se, diz, “que a patologia foi-se instalando lentamente na vida destas crianças e jovens.”
Se nos primeiros meses do confinamento decretado em março “havia um pouco a euforia de estar em casa e não ter de ir às aulas”, os jovens, sobretudo eles, “foram-se apercebendo da importância das relações presenciais”. Ao perderem-nas, “começaram a sentir-se ansiosos e a desenvolver também fobias”. “Alguns começaram também a manifestar alguma agressividade por não se sentirem bem em casa, por haver ansiedade em relação a isso.” Entre março e dezembro do ano passado, a linha recebeu 2.084 chamadas, um aumento de cerca de 40% face ao período homólogo anterior (1.485 chamadas).
Manuel Coutinho conta que falava há dias com uma adolescente que se sentia angustiada por não ver a sua namorada. “Falam através do telemóvel e do computador, dos ecrãs, mas o que ela queria mesmo era estar ao pé dela. Ao mesmo tempo tem medo de lhe pegar o vírus e de a avó da namorada morrer.” Pode parecer pouco ao lado de outros problemas mas não é. “Os jovens foram separados dos seus amores e isso faz-lhes uma mossa muito grande. Há dor psicológica.” Como este há outros exemplos, dados pela linha, anotados pelos profissionais que nela trabalham:
- Jovem do sexo feminino, de 16 anos, que contactou a Linha de Apoio à Criança 116 111 do SOS Criança porque viu o nosso contacto na internet e quis falar com alguém que não fosse seu conhecido. Pretendia desabafar e falar de como se sente sozinha em casa. Jovem muito inteligente e com um discurso muito claro e coerente. Referiu que os seus pais saem de manhã para o trabalho e ela fica no ensino em casa. Faz o almoço ou prepara-o apenas quando os pais o deixam já feito e fica muito sozinha todo o dia. Durante o seu apelo falou muito sobre os seus sonhos e projetos que estão em stand by, da ansiedade que sente, mas também abordou as coisas positivas que tem na sua vida. Tem um cão e fica só com ele todo o dia.
- Jovem do sexo feminino, de 15 anos, vive só com a mãe. Está muito triste (chora muito durante o apelo) e sente-se muito sozinha. Sente-se feia e os colegas sempre gozaram muito com ela, acham que é estranha. Gosta de ver séries, mas ultimamente não tem vontade de fazer nada.
- Criança do sexo masculino, 10 anos. Pretendia falar com algum técnico sobre as discussões que tem com os pais e que se agravaram durante a pandemia. Refere não haver maus-tratos mas que está triste porque é sempre comparado com um irmão mais novo – este é o motivo para as discussões entre ele e os pais.
ESMAGADOR
Para Miguel Moura, psicólogo que trabalha na Linha de Atendimento Psicológico do SNS24, criada depois de terem sido decretadas as primeiras medidas de confinamento para o país, vão longe os tempos em que pegava no telefone e notava que do outro lado da linha havia sobretudo “medo”. “Nos primeiros meses de confinamento, entre março e junho, chegavam-nos sobretudo situações de ansiedade e depressão. Os problemas estavam muito relacionados com o medo do vírus e do desconhecido. Tudo era muito novo, não havia muitos dados ou informação coerente.” Ainda se lembra de responder a perguntas sobre como é que o vírus afinal se transmitia, se através das superfícies também, se não. “As pessoas estavam muito assustadas e nós conseguíamos perceber isso pelas chamadas.” Com o verão abrandou o vírus e abrandaram as medidas para o conter, mas esse “alívio” de que se fala quando se fala dessa altura do ano não chegou a todos. “À medida que os meses foram passando, as chamadas começaram a refletir a deterioração dos cuidados de saúde mental devido à pandemia”, diz Miguel Moura.
Quer isto dizer, de forma simples, que à linha de apoio psicológico começaram a chegar mais “casos de psicopatologia grave, como doença bipolar e esquizofrenia, que de alguma forma estavam em processo de descompensação”. “As pessoas ligavam a dizer que a consulta de psiquiatria havia sido desmarcada ou tinha sido feita através do telefone e, por isso, não tinha resultado. Também ligavam a dizer que estavam sem medicação porque esta tinha terminado e não tinham acesso a novas prescrições ou não tinham dinheiro para comprar os medicamentos ou até tinham mas só para comprar alguns.” Tal aconteceu, diz, porque “os recursos foram direcionados” para o combate à pandemia, tendo isso levado, por exemplo, ao “cancelamento de algumas consultas externas”. “As unidades locais de saúde e os hospitais perderam capacidade de dar resposta a todos estes doentes, daí termos começado a apanhar mais casos assim.” Situações urgentes foram encaminhadas para o INEM, as outras para serviços de urgência, hospitais e centros de saúde, mas nenhuma das vias é perfeita, diz Miguel Moura. “Não há um encaminhamento direto, o que faz com que as coisas não funcionem tão bem como poderiam funcionar”. E há quem não vá às urgências mesmo quando é encaminhado para lá, “às vezes por não ter transporte, outras por falta de dinheiro para o transporte”. “É o que alegam.”
Sobre estes pesa ainda outro problema, que tem que ver com a “referenciação dos utentes”, aponta. “A falta de psicólogos nos centros de saúde e hospitais faz com que não tenhamos recursos para ajudar aqueles utentes que ligam frequentemente para a linha e precisam de apoio terapêutico. Não há como referenciar, para quem referenciar, e indicamos soluções que acabam por ser becos sem saída para estes doentes.” A “lacuna de profissionais” faz com que a intervenção dos psicólogos que trabalham na linha de apoio psicológico seja, de facto, “limitada”, e isso tem consequências. “Faz com que as pessoas estejam constantemente a telefonar para a linha. Há quem ligue entre 15 a 20 vezes por dia. Ligam, ligam, ligam. Já nos conhecem e nós também já as conhecemos, até pela voz.” Que pessoas são essas? “Não necessariamente casos de depressão”, esclarece o psicólogo, “mas muitas vezes casos de patologia grave — os tais que descompensam — ou pessoas que, para atenuar a sua solidão, o seu isolamento social extremo, acabam por ligar de forma sistemática.” Também há “situações de disrupção familiar, com crianças a cargo.” As limitações da linha são, de facto, algumas, mas também não é difícil compreendê-las. “Ainda estamos na fase de resposta à pandemia e portanto não houve muito tempo para afinar soluções.”
As problemáticas são agora “mais graves” mas o maior aumento do número de chamadas para a linha deu-se no primeiro confinamento, esclarece também o psicólogo. “No segundo confinamento houve um acréscimo significativo mas não ao nível do primeiro.” Segundo dados disponibilizados recentemente ao Expresso pela SPMS (Serviços Partilhados do Ministério da Saúde), que gere a linha, foram atendidas entre 1 de abril e os últimos dias de janeiro 62.977 chamadas, 4871 das quais de profissionais de saúde. Miguel Moura já atendeu várias destas chamadas feitas por médicos e enfermeiros e diz que o medo de levar o vírus para casa e contaminar familiares continua a estar presente, apesar de se saber mais sobre o vírus e muitos deles terem já sido vacinados. “Continua a ser uma questão até pelo aparecimento de novas estirpes com taxas de letalidade superiores. Além disso, estar vacinado não impede que se transmita o vírus e a maioria das pessoas com quem vivem estes profissionais de saúde ainda não foi vacinada.” O medo vai assim persistindo, “não como terror perante o desconhecido”, mas vai.
O que também ainda há é “um sentimento de impotência”, esmagador. “Em algumas situações, mal o doente entra nos cuidados intensivos o médico já sabe que ele vai morrer. Os profissionais de saúde sentem que não conseguem salvar a vida de todas as pessoas, sentem que recebem treino para isso mas que todo o conhecimento e tecnologia de que dispõem não é suficiente para as salvar. E é muito difícil gerir isto.”
UM MEDO TERRÍVEL
Já nenhuma chamada chega à linha de apoio psicológico criada pela Associação de Psicologia da Universidade do Minho mas isso não é necessariamente uma boa notícia. “Há mais pedidos para psicoterapia, são pedidos de natureza diferente, feitos por pessoas que já estão mais frágeis, mais deprimidas, ansiosas e precisam de um acompanhamento mais continuado.” Têm-no nas consultas dadas por psicólogos através da associação, psicólogos como Eugénia Ribeiro, também professora de Psicologia na referida universidade. São situações, continua, que entretanto “se agravaram” e sobre as quais pesam aspetos de “natureza emocional, familiar, económica”. “Já não se trata de uma intervenção em crise e focada numa solução imediata.”
Ao longo do ano passado não foi bem assim. A linha, que dava resposta aos estudantes universitários do Minho mas também à comunidade das cidades de Braga e Guimarães, atendeu cerca de 120 chamadas desde março do ano passado, quando foi criada, até janeiro deste ano. Os pedidos foram aumentando ao longo do primeiro confinamento mas estancaram no verão. “No início havia uma grande incerteza e houve uma alteração drástica nas rotinas dos estudantes. Também havia solidão, por estarem fechados em casa sem poder falar com colegas ou família, e o medo de infetar outras pessoas.” A professora e psicóloga lembra o caso de uma estudante da Madeira que vivia sozinha e tinha um “medo terrível” de ficar doente e não ter quem cuidasse dela.
A sensação de “perda” também era grande nesses meses do primeiro confinamento, não perda de familiares mas deles próprios, dos estudantes, das suas relações e contactos. “A perda do sentido de mim próprio”, como descreve, algo tão prejudicial nestas faixas etárias. “A construção da intimidade é muito importante para os jovens, a intimidade física mas também psicológica, no sentido de se darem a conhecer uns aos outros.” Isto só se faz “em contexto de interação” e a pandemia não permitiu isso. No verão, como dizíamos, parte do problema ficou resolvido porque as aulas terminaram e muitos estudantes regressaram às suas casas e a rotinas que já conheciam.
Nas pessoas, estudantes ou não, que recorrem agora às consultas da associação já não se nota aquela “ansiedade e incerteza” do começo e por isso também é mais difícil culpar o vírus pelos seus problemas. “As problemáticas são várias, mas quando se relacionam com a covid-19 têm mais que ver com o impacto da pandemia nas suas vidas do que com a incerteza ou insegurança.” Há “tristeza pelo fim de uma relação” ou preocupações “com o rendimento académico”. “Tem mais que ver com as fragilidades das pessoas, ainda que a pandemia e o isolamento possam ter precipitado essas vulnerabilidades. São situações difíceis que se arrastam e com as quais as pessoas não conseguem lidar sozinhas e pedem ajuda.”